Wanderley Guilherme dos Santos, Autor em O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/autor/wanderley/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Sun, 30 Dec 2018 12:43:10 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Wanderley Guilherme dos Santos, Autor em O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/autor/wanderley/ 32 32 Wanderley Guilherme: Brasil caminha para periferia da periferia https://www.ocafezinho.com/2018/12/30/wanderley-guilherme-brasil-caminha-para-periferia-da-periferia/ https://www.ocafezinho.com/2018/12/30/wanderley-guilherme-brasil-caminha-para-periferia-da-periferia/#comments Sun, 30 Dec 2018 11:37:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=91110 11 Comentários 🔥]]> Segunda Opinião

SEGUNDA OPINIÃO: QUÂNTICO DOS QUÂNTICOS

Não pesquisei, mas acredito que as medidas de desigualdade entre as nações não comparam as principais urgências internacionais com as internas a cada país.

Usar países africanos como exemplos não constitui difamação do continente, mas reconhecimento de que no continente por mais tempo e mais brutalmente colonizado encontram-se os piores indicadores de bem estar, saúde, educação, econômicos e políticos do mundo contemporâneo.

Este prefácio serve para ilustrar a defasagem entre as urgências africanas de aprimoramento em todos os indicadores mencionados e as pressões internacionais visando à consolidação de um balanço de poder menos contaminado por subliminares ameaças bélicas e mais equitativas relações de trocas comerciais entre países periféricos e gigantes da economia.

Entre os países periféricos à ordem internacional encontram-se incluídos todos os sul e centro-americanos, toda a África, praticamente toda a Ásia e grande parte da Europa.

O critério classificatório está implícito: o tratamento das urgências nacionais desse heterogêneo conjunto de países repercute minimamente nas urgências internacionais. A luta contra a desigualdade que, a meu juízo, devia estar subordinada à urgência maior que é a escandalosa miséria do Brasil, por exemplo, é tão irrelevante para a dinâmica internacional quanto os direitismos contra imigrantes de alguns países europeus.

A competição internacional se dará cada vez mais pela capacidade de produção autônoma de tecnologia da automação e da informação. Tanto para o bem quanto para o mal. É para essa competição que nações vão se tornando periféricas, cabendo o adjetivo, hoje, a países como Inglaterra, França e Alemanha, potências coloniais do século XIX e de grande parte do século XX, sendo desnecessário mencionar a retirada de cena da Bélgica e da Itália, por exemplo. São periféricos hierarquicamente superiores aos periféricos africanos ou sul-americanos, em comparações nacionais, mas igualmente em vias de obsolescência na escala de poder internacional.

A perspectiva do Brasil já foi mais promissora. Apesar de bastante festejada, a opinião pública nacional é rastaquera porque rastaquera é sua cultura cívica e acadêmica, com as exceções de praxe. Há uma enorme assimetria entre as capacidades negativa e positiva da imprensa, produzindo destroços em quantidades dezenas de vezes acima dos benefícios distribuídos.

Em grande parte porque o poder político só presta atenção ao que não presta, e as opiniões construtivas são inteiramente impotentes. Dois ou três colunistas dos grandes veículos ainda têm cultura e audiência para gerar ações públicas positivas enquanto há sérias dúvidas se a blogosfera virá a superar o estágio doentio e contra-democrático em que se encontra.

Evidentemente, tenho consciência de que os comentários que publico em jornais tradicionais ou que assinei durante alguns anos na coluna Segunda Opinião não alteram senão mínimos quânticos do mundo da opinião. A distância entre esse mínimo quântico de opinião e o impacto na realidade é, por outro lado, cosmologicamente gigantesca. Nada se alterava; nada continuará não se alterando com o recolhimento da Segunda Opinião a sua insignificância e invisibilidade quântica. Ela termina aqui.

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Wanderley: Bolsonaro não merece nenhum crédito de confiança https://www.ocafezinho.com/2018/12/16/wanderley-bolsonaro-nao-merece-nenhum-credito-de-confianca/ https://www.ocafezinho.com/2018/12/16/wanderley-bolsonaro-nao-merece-nenhum-credito-de-confianca/#comments Sun, 16 Dec 2018 11:38:28 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90974 13 Comentários 🔥]]> Coluna Segunda Opinião

NENHUM PERÍODO DE GRAÇA; NENHUM CRÉDITO DE CONFIANÇA

Por Wanderley Guiherme dos Santos

Até o acaso tem limites. A declaração de guerra preventiva do governo Bolsonaro contra, não as práticas propriamente, mas os praticantes dos escambos usuais da política – apoio em troca de recompensas – plantou suficiente número de sementes para pequenas e grandes escaramuças. As condições econômicas e sociais continuam insatisfatórias e não haverá conserto nos dois semestres de 2019. Mesmo contida, a dogmática de Paulo Guedes e sua Ordem de cruzados velhos não terá dificuldade em provocar insatisfação generalizada, apesar dos sorrisos de botox e declarações fúteis dos segmentos empresariais.

Se as democracias normais estão em alvoroço para amenizar colisões entre interesses sublevados, o curto prazo não promete serenidade em democracias estúpidas, fundadas em estereótipos e preconceitos, única riqueza jamais dissipada entre nós: preconceitos religiosos, de existências medíocres, de primitivos em estado de graça, aliados aos estereótipos culturais de mentalidades obsoletas.

Tamanha imperícia acumulada não esclarece as tentativas de importar a guerra fria entre os Estados Unidos e a China, como ensaiam os mutantes em vias de assumir o governo, candidatos a hilários e desprezados fantoches. Menos ainda o provocador anúncio de mudança da representação do Brasil em Israel para Jerusalém. A cada semana tuitasse um retrocesso civilizatório na política externa brasileira. Tudo isso somado não pode ser aleatório. Ao contrário da falsa saúde cognitiva, o mundo atual contém conspirações e conspiradores como jamais na história das nações.

Conspiratas palacianas durante o absolutismo, conspirações contra a ordem aristocrática nos séculos XVII e XVIII, conspiratas sem fim para o rodizio de ditadores na América Latina do século XX, nada disso se compara à soma de espionagem industrial, de conspiração tecnológica de manipulação de dados contra os consumidores e contra eleitores, de conspirações entre nações poderosas dividindo mercados, sabotando a difusão do conhecimento, racionando a publicidade de conquistas farmacológicas, e sabe-se lá o quê mais. As conspirações atuais capturam milhões de pessoas e as regras do capitalismo enquanto jovem tornaram-se antiguidades sem valor de mercado.

A discussão entre conceder ou não algum crédito ao governo por começar é alternativa para quem dispõe de recurso financeiro ou político para financia-lo. Analistas independentes não têm porque dispensar períodos de graça a quem, diariamente, reafirma contra quem pretende governar. Não se trata de difama-lo, mas enquadra-lo no contexto real, no mundo cuja deterioração ou recuperação depende de ações, não de jogos de paciência.

O Brasil faz parte de pequeno conjunto de países se equilibrando no limite da inviabilização de sua autonomia. A ignorância dos líderes intelectuais da esquerda é assustadora, o anti-intelectualismo adotado pelo PT em seus anos iniciais exaltou a politica de resultados imediatos, desprezando a cultura de vanguarda e os professores como pedantismo elitista. Não é também por acaso que os quadros sobreviventes não consigam dizer coisa com coisa, apelando para a chantagem de que nada será normal enquanto Lula estiver preso. Não é verdade. A ignorância está livre, leve e solta.

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Wanderley: o possível futuro africano no Brasil https://www.ocafezinho.com/2018/12/08/wanderley-o-possivel-futuro-africano-no-brasil/ https://www.ocafezinho.com/2018/12/08/wanderley-o-possivel-futuro-africano-no-brasil/#comments Sat, 08 Dec 2018 19:19:13 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90876 18 Comentários 🔥]]> Coluna Segunda Opinião

O POSSÍVEL FUTURO AFRICANO DO BRASIL

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Em 2015, cerca de oitenta por cento dos cinco bilhões de pobres viviam em países em desenvolvimento, conforme a previsão do projeto Millenium das Nações Unidas. A contabilidade mantém como resíduo retardatário o bilhão de miseráveis ainda espalhados pela África e partes da Ásia. Não há explicação oficial para tamanha estagnação nem proposta para superá-la. Aparentemente, acidentes fortuitos teriam provocado o retardamento, e a perseverança nas receitas canônicas do desenvolvimentismo dará conta do problema. A este bilhão, o Brasil acaba de acrescentar cerca de 55 milhões de pobres e miseráveis (26,5% da população) que, ademais, revelam mórbida hierarquia de indigência entre a porcentagem de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza em certas regiões: 54% no Maranhão contra 8,5% em Santa Catarina, conforme o critério do Banco Mundial. O destino de um fracasso africano não é uma possibilidade retórica para o Brasil.

O pântano em que se encontram a África e partes da Ásia resultou das estratégias de ocupação colonial, pós Primeira Guerra Mundial, com o objetivo político de apropriação de grandes espaços, acompanhado da meta econômica de predação de recursos naturais e expansão de comunidades agrárias monocultoras. Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Itália e Inglaterra, principalmente, agregaram ou dividiram etnias heterogêneas para a conformação de estados subordinados, tendo o sucesso assegurado pela imensa disparidade em capacidade bélica e sofisticação de armamentos.

O fim da Segunda Guerra Mundial deu início ao processo de descolonização, cujos frutos foram sociedades rurais pobres, recheadas de conflitos internos insuperáveis e com os perfis esculpidos no bilhão de miseráveis que constituem a base da pirâmide internacional (O processo de formação dos estados colonizados encontra-se em Robert Bates, The Development Dilemma, Princeton, 2017; o tema do bilhão da base econômica e social da humanidade está em Paul Collier, The Bottom Billion, Oxford, 2007).

Nações podem fracassar, tal como ensina a História. Em todos os casos, o fracasso sempre foi consequência da incapacidade de um país manter-se atualizado na vanguarda do modo de produção da riqueza. Lê-se a crônica de vários fracassos em Collapse – How societies choose to fail or succeed, de Jared Diamond (Viking/Penguin, 2005) que, em passagem rápida, expõe o essencial do problema: “(todos os casos estudados) ilustram situações nas quais uma sociedade falha na solução de problemas percebidos porque a continuidade de tais problemas é benéfica para alguns grupos (p.432 – no original está “algumas pessoas”, mas a explicação me parece bem mais generalizante).

Fracasso não significa falência. Fracasso indica estabilidade ou decadência em posições subalternas na hierarquia internacional. Por razões historicamente acumuladas, Collier revela os principais obstáculos que impediram a África e partes da Ásia; ao perderem passo na revolução industrial, ficaram incapacitadas para inserção autônoma na internacionalização da economia mundial. Como todo analista de bons sentimentos, tanto ele, quanto Battes e Diamond sugerem estratégias de superação do fracasso. Não resistem à análise crítica.

O Brasil acumula deficiências desde o século XIX, acentuadas durante a Primeira República (cujo estilo de governo central dividido com potentados locais, monopolizadores da terra, é primo carnal da estratégia inglesa em suas colônias), terminou incluído no conjunto de países de ciclos de desenvolvimento frustrados: o início de industrialização com Getúlio Vargas, em 1930, foi abortado por Eurico Dutra e pelo entreguismo de Juscelino Kubischek (durante todo o Império e os primeiros 60 anos da República o exclusivismo agrícola ficou intocado); os ensaios de concepção militaristas da ditadura de 64 foram facilmente desmontados pelos dois mandatos tucanos de Fernando Henrique Cardoso; finalmente, a opção pelo consumismo de massa e proteção ao sistema bancário, versão Lula, não resistiu a dois anos de Michel Temer.

Com a revolução industrial incompleta e a supremacia da subalternidade como ideologia, o Brasil, que de sexta economia industrial no mundo, já caiu à décima posição, tende a ocupar a posição de copeiro na civilização tecnológica em curso. E, claro, a posição subalterna será extremamente benéfica para alguns grupos. Há bilionários na África.

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Wanderley Guilherme: a prisão de Lula e o provável fracasso brasileiro https://www.ocafezinho.com/2018/12/01/wanderley-guilherme-a-injusta-prisao-de-lula-e-o-provavel-fracasso-brasileiro/ https://www.ocafezinho.com/2018/12/01/wanderley-guilherme-a-injusta-prisao-de-lula-e-o-provavel-fracasso-brasileiro/#comments Sat, 01 Dec 2018 14:15:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90739 47 Comentários 🔥]]> LULA E O PROVÁVEL FRACASSO BRASILEIRO

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República Federativa do Brasil, é o único prisioneiro por crimes de corrupção que, ademais, está denunciado pelos mesmos crimes em número de processos envolvendo negócios em países da América Latina, da África, da Europa e do Oriente Médio. Provavelmente, se somados os processos a que foi submetido o quinteto da Petrobrás – Paulos, Cerveró, Duque e Youssef -, o número não alcançará a cifra a que o frenesi da covardia togada colou no uniforme de Lula. O quinteto, como é notório, está todo livre, passa bem e com razoável padrão de vida, depois de pagarem, seus participantes, preços espetaculares pelas tornozeleiras eletrônicas, com recursos deduzido de contas descobertas em paraísos fiscais. Até um corrupto vulgar como Aécio Neves teve seus humilhantes trocados descobertos e revelados aos olhos de todo mundo. Está também livre e vai ocupar uma das cadeiras das Vossas Excelências da próxima Câmara dos Deputados.

Salvo engano, até agora não foi apresentada uma conta sequer no nome de Luiz Inácio Lula da Silva ou de seus familiares, ou denunciadas em delações premiadas, comprovando a existência da fortuna acumulada com tantas negociatas. Por que artes do capeta esse cidadão foi capaz de malocar tamanha montanha de dinheiro safado a ponto de se tornar invisível ao brilhantismo investigativo do juiz Sergio Moro e seus rapazes, além dessa ala de justiceiros inimputáveis, tão mais ferozes, quanto mais anônimos?

Resisto a acreditar que sóbrio sentido de justa medida, independente de frustrações eleitorais acumuladas, aceite essa competição de vilania sem que ninguém se apresente para perguntar sobre o dinheiro. Nada de delações, nada de indícios, dinheiro, onde está o dinheiro é o que os promotores e juízes suburbanos estão obrigados a mostrar. Ou não estão? – Não, não estão. Por isso temos um governo pondo o país de pernas para o ar tendo batido o recorde de dispor do menor número de apoiadores explícitos da história eleitoral brasileira. Não é prudente desconsiderar a hipótese de que este seja um país irrefreavelmente atraído pelo fracasso.

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E o exército? Onde está o exército? https://www.ocafezinho.com/2018/11/16/e-o-exercito-onde-esta-o-exercito/ https://www.ocafezinho.com/2018/11/16/e-o-exercito-onde-esta-o-exercito/#comments Fri, 16 Nov 2018 21:00:52 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90510 11 Comentários 🔥]]> Coluna Segunda Opinião

Por Wanderley Guilherme dos Santos

A locução “militar da reserva” situa-o em posição especial na estrutura das ocupações. Um jogador de futebol estar na reserva significa manter-se na ativa, à disposição dos superiores técnicos e administrativos quando convocado à titularidade. Mas ao final da carreira não vai ocupar uma reserva permanente; ele passa à condição de ex-jogador de futebol.

Professores, dentistas, engenheiros e outras tantas profissões liberais estão sempre na ativa, nunca na reserva, mas, ao final da carreira, não se tornam reserva (é bastante rara a convocatória de um médico que “já não exerce a profissão”, como se diz) nem tampouco se tornam algum “ex”. Estão aposentados. Não existem ex-advogados, ex-arquitetos, ex-farmacêuticos e dezenas de outros profissionais.

Continuam com a identificação profissional preservada, mas inabilitados para retornar à ativa.

Militares são profissionais exóticos. Enquanto na ativa, preenchem posição clara na estrutura ocupacional: responsáveis pela eficácia dos dispositivos constitucionalmente atribuídos; essencialmente, o resguardo, em última instância, das instituições civis, e a defesa da segurança e soberania nacionais. Segurança e soberania nacionais são bens públicos clássicos, ou seja, não podem ser usufruídos ou capturados por grupos ou segmentos sociais privados, são parte indissociável da dieta de todo cidadão, independente de credo, ideologia, status social ou renda pessoal.

Ao passar para a reserva, os militares não perdem a condição de militar, tal como os profissionais liberais, mas não se aposentam, como estes. Não existe a ocupação de militar aposentado. Os militares permanecem como futebolistas ativos, embora na reserva, prontos a retornar à vida produtiva, se requeridos. Só que, ao contrário de jogadores reservas, não lhes é permitido voltar como militares propriamente ditos, de coturno e armas na cintura. Não havendo outra ocupação designada, reaparecem como avatares civis.

Ilusão. Não existem ex-militares. Por baixo dos ternos e gravatas protocolares permanecem os blusões verde oliva, ornamentados com os galões de tempos vividos, mas não idos. Com a psicologia reptiliana de militar, o presidente eleito resiste a aceitar o equilíbrio e a solenidade litúrgica do cargo, mantendo o linguajar belicoso, o gestual rude e a distribuição de poderes entre delegados de um governo de ocupação. Resta por decifrar se o Exército está ciente do jogo para o qual está sendo gradativamente arrastado.

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Wanderley Guilherme: Por que o brasileiro vota em Bolsonaro? https://www.ocafezinho.com/2018/10/24/wanderley-guilherme-por-que-o-brasileiro-vota-em-bolsonaro/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/24/wanderley-guilherme-por-que-o-brasileiro-vota-em-bolsonaro/#comments Wed, 24 Oct 2018 23:27:52 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90142 24 Comentários 🔥]]> Segunda Opinião

A IMPREVISÃO DEMOCRÁTICA

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Voltou à moda rejeitar a capacidade da população de baixa renda e baixa escolaridade escolher corretamente em quem votar. Em versão mais radical, até a classe média é desclassificada (por exemplo, Ilya Somin, Democracy and Political Ignorance, 2013). Essa história começou na metade do século XX, quando pesquisas de opinião revelaram frequentes inconsistências nas respostas dos entrevistados. Eram pesquisas acadêmicas investigando a extensão em que as sociedades eram compostas por indivíduos dotados dos atributos racionais pressupostos pela doutrina democrática.
De acordo com a teoria clássica, os eleitores seriam conscientes da hierarquia de seus interesses e das políticas apropriadas à sua satisfação. Um eleitor, portanto, tinha clareza quanto aos fins que desejava e quanto aos meios para alcança-los. As pesquisas revelaram que as eleições não eram sempre assim. Em momentos diferentes das entrevistas surgiam contradições entre metas – por exemplo, a contradição entre redução de impostos e expansão de serviços públicos ou benefícios sociais -, além de aprovarem iniciativas opostas àquelas compatíveis com os fins procurados. Em suma, a democracia se sustentava, também, em eleitores sem os requisitos da teoria. Não obstante, suas escolhas eventualmente coincidiam com as da maioria, contribuindo para a consagração do vencedor.

A extensa lista de pesquisas eleitorais parece não registrar um só caso de completa ausência de contradições quanto a meios ou quanto a fins nas respostas dos entrevistados. Ao contrário, apontam os radicais contemporâneos, a crescente complexidade nos negócios de Estado aprofundou a incapacidade da maioria dos eleitorados discriminarem com clareza seus reais interesses e que políticas melhor os serviriam.

A detalhada pesquisa do IBOPE, uma semana depois do primeiro turno (13-14 de outubro) trás material suficiente para avaliação do nível de consistência do eleitorado, neste primeiro turno das eleições de 2018. Há inúmeros quesitos em que a clareza dos eleitores e eleitoras é flagrante. Por exemplo: denominei de agnósticos os entrevistados que não se sentiam nem otimistas nem pessimistas em relação ao futuro do país. Os resultados indicaram que quanto mais velhos e de maior escolaridade, mais agnósticos, de um lado, e quanto mais jovens, mais otimistas.

Subterrâneo às perguntas há um sempre um conceito do que se entende por consistência. Ademais, o suposto de que o eleitor vota segundo seu presumido interesse desconsidera outros determinantes do voto: ideologia, sistema de crenças cívicas ou urgências de conjuntura. Por isso, embora tomado como exemplo de intenção de voto inconsistente, a propensão majoritária do eleitorado feminino em um candidato declaradamente misógino se explique por pressões de circunstância, antes que por ignorância sobre seus interesses.

Item externo à consistência ou inconsistência do eleitorado, o momento em que decidiu em quem votaria, nas eleições de 7 de outubro, trás uma associação perfeita entre nível de renda e rapidez de decisão: quanto menor a renda, maior a porcentagem de eleitores que decidiram o voto no dia da eleição. A associação me parece de alta relevância por revelar que nada menos do que 21% do eleitorado de renda familiar até um salário mínimo decidiram em quem votar no mesmo dia da eleição. As surpresas do primeiro turno sugerem ser possível que o eleitorado surpreenda algumas das sólidas expectativas de vários candidatos. É o que se chama de imprevisibilidade democrática.

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Wanderley Guilherme: As multidões furiosas https://www.ocafezinho.com/2018/10/18/wanderley-guilherme-as-multidoes-furiosas/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/18/wanderley-guilherme-as-multidoes-furiosas/#comments Thu, 18 Oct 2018 16:38:37 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=89982 24 Comentários 🔥]]> O Cafezinho terá a honra de publicar a partir de agora, em primeira mão, os artigos de um de nossos mais ilustres cientistas políticos, o professor Wanderley Guilherme dos Santos.

Seu blog Segunda Opinião, até então hospedado no site da agência Insight, que edita a Revista Inteligência, agora passa a ser abrigado em nossa modesta página. Muito obrigado pela honra, professor. Os leitores do Cafezinho agradecem.

Seus artigos ficarão sempre na seção Segunda Opinião, e poderão ser acessados através de link  direto disponibilizado, com destaque, no menu superior do blog.

Abaixo, sua primeira contribuição.

 

As Multidões Furiosas

Por Wanderley Guilherme dos Santos

É impressionante a intensidade da repulsa à diferença que se observa tanto em eleitores de Jair Bolsonaro quanto de ilustres antigos e novos eleitores do PT.

Embora não surpreenda certo dogmatismo dos conservadores, o grau de belicosidade nas páginas da internet ultrapassa até mesmo o extremismo de campanhas de antes de 1964, ao estilo de Carlos Lacerda e de Juarez Távora. Há algo mais do que opção política nas declarações ameaçadoras dos eleitores de Bolsonaro.

Surpresa é a correspondente virulência da versão petista da esquerda, por igual enojada do respeito devido à divergência. Acatar contraditórios já foi característica da esquerda, reconhecida providência contra mumificações. Pois é de espantar a clausura de onde o eleitorado petista dispara vitupérios contra a menor crítica às palavras de ordem, cada vez mais desconexas e, pior, volúveis.

Formou-se e desfez-se uma frente democrática sem fundo de votos, desapareceram propostas de governo, quando não substituídas pela negação delas, e personalidades públicas foram bajuladas no domingo para serem estigmatizadas na segunda-feira. Há bem mais do que opção programática na renúncia à racionalidade do debate nas redes sociais petistas ou associadas.

Essa ruptura tectônica não expressa divisão efetiva entre milhões de eleitores brasileiros, lidas suas respostas a inquéritos de opinião, particularmente as registradas na extensa pesquisa do IBOPE, realizada em 13 e 14 de outubro, sobre o segundo turno das eleições presidenciais. Para além da ponderável superioridade nas intenções de voto em Jair Bolsonaro sobre Fenando Haddad, a consciência dos eleitores, de um e outro lado, quanto ao significado dos votos que pretendem depositar, é de impressionante nitidez.

O eleitorado de Fernando Haddad, por exemplo, sabe e declara em porcentagens elevadas que Jair Bolsonaro interpreta os interesses dos ricos, dos empresários e dos bancos. Extraordinário é que os eleitores de Bolsonaro, maioria entre homens, mulheres, nível de escolaridade, categoria etária, em todas as rubricas de renda (exceto uma), nas capitais, periferias, interior, pequenos, médios e grandes municípios, denominação religiosa e regiões, exceto o Nordeste, tenham a mesma percepção dos eleitores de Haddad. Eles não ignoram nada disso e, não obstante, declaram intenção de voto em Bolsonaro, em volume distante do equilíbrio competitivo que a radicalidade das emoções sugere.

A fúria expressa em baixo calão ou em manifestos melosos intoxicou parte da classe média, em especial a ilustrada, e não representa o embate por votos entre os comuns. Apresentar a disputa como combate pela democracia constitui apropriação indébita de um patrimônio de todos os brasileiros, inclusive dos que não votarão, votarão nulo, ou branco. É a eleição e o respeito a seus resultados que caracterizam a democracia. O resto é engodo.

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