Coluna de opinião - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/coluna-de-opiniao/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 06 Jan 2026 10:53:32 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Coluna de opinião - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/coluna-de-opiniao/ 32 32 Pesquisa expõe rejeição popular à ofensiva contra a Venezuela https://www.ocafezinho.com/2026/01/09/pesquisa-expoe-rejeicao-popular-a-ofensiva-contra-a-venezuela/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/09/pesquisa-expoe-rejeicao-popular-a-ofensiva-contra-a-venezuela/#respond Fri, 09 Jan 2026 11:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=224071 A guerra que ninguém pediu: quando Washington olha para Caracas e o estadunidense vira o rosto

Há decisões que não cabem apenas nos salões do poder. Algumas batem direto na porta de casa, no bolso e na consciência coletiva. A mais recente investida militar ordenada pela Casa Branca contra a Venezuela é uma delas. Vendida oficialmente como vitória diplomática e jurídica, a captura de Nicolás Maduro não caiu bem entre os próprios americanos. Pelo contrário.

Segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos, apenas 33% da população dos Estados Unidos aprova a operação. O número é baixo. E diz muito. Enquanto o governo celebra, o país suspira, desconfiado. As ruas de Washington, assim como as cidades do interior, parecem repetir a mesma pergunta incômoda: por quê?


Um velho trauma chamado intervenção

Os Estados Unidos conhecem bem o preço das aventuras militares. Iraque, Afeganistão, Líbia. Os nomes mudam, mas o roteiro costuma ser o mesmo. Promessas de libertação, discursos morais e, no fim, instabilidade, mortes e bilhões queimados.

Por isso, não surpreende que grande parte da população enxergue essa ação como mais um capítulo de uma política externa baseada na força. Embora o discurso oficial fale em combate ao narcotráfico, muitos cidadãos reconhecem os ecos de um passado que ainda dói. A pesquisa não mostra apatia. Mostra resistência.

Leia também: Investida militar na Venezuela divide e preocupa os EUA

Além disso, cresce a percepção de que o papel de “polícia do mundo” já não convence como antes. Em tempos de hospitais lotados, estradas em ruínas e desigualdade crescente, gastar energia — e dinheiro — em conflitos externos soa desconectado da realidade.


A polarização que transforma guerra em palanque

Como quase tudo na política americana atual, a guerra também virou disputa ideológica. Os dados revelam um abismo entre republicanos e democratas. Entre os eleitores do partido do presidente, 65% aprovam a ofensiva. Já no campo democrata, o apoio despenca para apenas 11%.

Os independentes, sempre decisivos, seguem cautelosos. Apenas 23% concordam com a ação militar. Esse grupo, em especial, parece rejeitar a narrativa de “justiça” imposta de cima para baixo. Para eles, autodeterminação e diplomacia ainda importam.

Assim, a guerra deixa de ser uma questão de segurança internacional e passa a funcionar como ferramenta eleitoral. Um risco conhecido. E perigoso.


O medo de mais uma guerra sem fim

Há um sentimento que atravessa partidos e classes sociais: o medo. Segundo o levantamento, 72% dos entrevistados temem que os EUA se envolvam profundamente na Venezuela. Não se trata de solidariedade ideológica com Caracas. Trata-se de sobrevivência política e econômica.

A classe trabalhadora sabe quem paga a conta. São seus filhos enviados ao front. São seus impostos bancando ocupações prolongadas. Enquanto isso, escolas fecham e o sistema de saúde pede socorro.

A prisão de Maduro, realizada em Caracas no último sábado, reacendeu fantasmas conhecidos na América Latina. Intervenções externas raramente terminam como planejado. E o risco de uma guerra civil venezuelana amplia ainda mais o temor coletivo.


Petróleo: o elefante no meio da sala

Nenhuma análise fica completa sem falar de petróleo. No domingo, o presidente afirmou que os Estados Unidos precisam de “acesso total” às reservas venezuelanas. A frase caiu como gasolina no fogo do debate público.

Apenas 30% da população apoia o envio de tropas terrestres. Ainda assim, entre republicanos, 59% defendem que os EUA assumam o controle da produção petrolífera. Para muitos críticos, o discurso humanitário desmorona diante desse interesse econômico explícito.

Não é difícil entender a desconfiança. A história latino-americana está repleta de intervenções justificadas por valores universais e concluídas com exploração de recursos. A memória coletiva não esquece tão fácil.


Nem os aliados dormem tranquilos

Mesmo entre os apoiadores do governo, a preocupação cresce. Cerca de 64% dos republicanos temem pelas vidas dos militares envolvidos. Além disso, 54% se mostram inquietos com o impacto financeiro de uma possível ocupação prolongada.

A Casa Branca tenta acalmar os ânimos. Fala em pressão política, não em ocupação permanente. No entanto, o tom beligerante insiste em aparecer. O presidente declarou: “Se eles não se comportarem, faremos um segundo ataque”.

A frase não tranquiliza. Ao contrário. Mantém o país em estado de alerta e reforça a sensação de que o conflito pode escalar a qualquer momento.


O dado que incomoda o poder

A pesquisa ouviu 1.248 adultos em todo o país. A margem de erro é de três pontos percentuais. Mesmo assim, a mensagem é clara. Embora o índice geral de aprovação do presidente tenha subido para 42%, o apoio à guerra continua baixo.

Agir com força pode mobilizar a base no curto prazo. Porém, ignora um clamor crescente por cautela. Resta saber se o governo ouvirá essa maioria silenciosa ou se insistirá em exercer domínio sobre uma nação soberana, desafiando não apenas a Venezuela, mas a própria vontade do povo americano.

Porque, no fim, toda guerra começa longe. Mas sempre termina em casa.

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Cinema, poder e a “autoridade do gosto” https://www.ocafezinho.com/2026/01/05/cinema-poder-e-a-autoridade-do-gosto/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/05/cinema-poder-e-a-autoridade-do-gosto/#comments Mon, 05 Jan 2026 12:11:29 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=223996 1 Comentário 🔥]]> Do sistema mundial às hierarquias internas do Brasil.

Por Ducca Rios

As reflexões que seguem dão continuidade direta ao ensaio-manifesto “Por um cinema que nos represente. Por um sistema que nos reconheça. Por um mundo que nos veja”, publicado na revista digital O Cafezinho em 10 de maio de 2025. Naquele texto, propus um deslocamento necessário: deixar de tratar o cinema apenas como expressão artística individual e passar a compreendê-lo como parte de um sistema de validação simbólica, no qual visibilidade, prestígio e consagração são distribuídos de maneira profundamente desigual.

Ali, sustentei que os grandes festivais e premiações internacionais não operam apenas como vitrines culturais, mas como instâncias de poder. Eles não apenas refletem o que é considerado bom cinema; produzem critérios, constroem consensos e determinam quais imagens do mundo circulam como universais. Como escrevi então, não se trata apenas de quem ganha prêmios, mas de quem tem o direito de ser reconhecido como referência.

Festivais como Cannes, Berlim, Veneza, Sundance e o Oscar costumam ser apresentados como árbitros naturais da qualidade cinematográfica, como se sua autoridade derivasse exclusivamente de critérios neutros e universais. Essa neutralidade, porém, é uma construção histórica. Esses espaços estão inseridos em um contexto marcado por relações coloniais, concentração econômica e hegemonia cultural euro-americana. Ao selecionar e premiar filmes, eles instituem hierarquias de valor.

A crescente influência de grandes distribuidores e agentes de mercado nesse circuito intensifica ainda mais essa lógica. A capacidade de financiar campanhas, controlar circulação e moldar narrativas críticas cria um ambiente no qual o prestígio frequentemente antecede o olhar. Alguns filmes chegam aos festivais já investidos de importância simbólica; outros sequer entram no campo de visibilidade. A pergunta central, já colocada no ensaio anterior, permanece aberta: até que ponto estamos diante de mérito artístico e até que ponto estamos diante de poder de mediação?

Essa crítica não é nova. Cineastas como Glauber Rocha e Ousmane Sembène denunciaram, ainda no século XX, o caráter colonial do sistema internacional de festivais. Ambos questionaram a disposição recorrente dessas instâncias em reconhecer obras europeias e norte-americanas como expressão superior do cinema, enquanto relegavam produções do chamado Sul Global a posições periféricas, folclóricas ou excepcionais. Não se tratava de reivindicar inclusão, mas de contestar a própria ideia de universalidade estética imposta pelos centros.

No centro dessa discussão está uma pergunta decisiva: o que é um “bom filme”? A resposta dominante costuma pressupor critérios objetivos, quase técnicos. No entanto, estética nunca é neutra. Ritmo, duração, silêncio, encenação, excesso ou contenção são interpretados a partir de repertórios culturais específicos. Quando certos códigos são reiteradamente premiados e outros sistematicamente marginalizados, não estamos diante de um consenso estético, mas de uma hierarquia cultural naturalizada.

O risco maior surge quando países do Sul Global passam a organizar suas políticas públicas, estratégias de fomento e até suas escolhas criativas em função dessa validação externa. Cria-se uma forma de dependência simbólica, na qual o cinema deixa de responder prioritariamente às suas próprias realidades sociais para se tornar legível aos centros estrangeiros de legitimação. O reconhecimento deixa de ser consequência e passa a ser objetivo.

Essa lógica, contudo, não se limita ao plano internacional. Quando deslocamos o olhar para dentro do Brasil, percebemos que o país reproduz internamente a mesma estrutura que critica no mundo.

No contexto nacional, o eixo Rio de Janeiro–São Paulo ocupa uma posição análoga à da Europa e dos Estados Unidos no sistema global. É ali que se concentram festivais, fundos, escolas de prestígio, comissões de seleção, agentes de mercado e grande parte da crítica especializada. Mais do que uma concentração econômica, trata-se de uma concentração de autoridade simbólica.

Determinadas formas de narrar, certos temas e códigos estéticos passam a ser reconhecidos como “cinema brasileiro de qualidade”, enquanto produções oriundas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste ou de territórios periféricos — inclusive do interior do próprio Sudeste — são frequentemente classificadas como “regionais”, “identitárias” ou “de nicho”. O que se apresenta como universal é, muitas vezes, apenas o regional hegemônico elevado à norma.

Assim como no plano internacional, a estética funciona aqui como instrumento de poder. Filmes que partem de outras matrizes culturais precisam se explicar, se traduzir ou se adaptar para serem legitimados. Caso contrário, correm o risco de serem considerados pouco sofisticados ou formalmente frágeis — não por falta de rigor, mas por não corresponderem aos códigos do centro.

É revelador observar como a posição de determinados atores do audiovisual se transforma conforme o contexto geopolítico da disputa. Quando esses mesmos agentes ocupam espaços de debate ao lado dos players do chamado grupo hegemônico do audiovisual planetário — em síntese, oriundos dos Estados Unidos e da Europa — passam a defender a noção de multipolaridade cultural, diversidade de olhares e descentralização simbólica. Nesse cenário, o discurso é o da pluralidade.

No entanto, quando o eixo da discussão se desloca para o plano interno e esses atores se veem em diálogo — ou em conflito — com realizadores, distribuidores e exibidores de outras regiões do país, fora do eixo hegemônico, a postura frequentemente se altera. A defesa da multipolaridade cede lugar a argumentos que justificam a concentração de recursos, visibilidade e poder decisório em determinados territórios, agora definidos como “naturais” ou “vocacionados” para o audiovisual. O discurso não é necessariamente “maldoso”, mas é reflexo de uma visão distorcida de Brasil, na qual o país se resume a algumas poucas localidades e o que sobra está na “marginália” e que está estruturada no senso comum de parte da população, um “colonialismo mental”.

Essa contradição se manifesta de forma concreta. Participei recentemente de uma conversa em um grupo de WhatsApp na qual fui levado a explicar, quase didaticamente, a importância da multipolaridade para profissionais do Sudeste que defendiam a centralização dos recursos do audiovisual em uma suposta região “vocacionada”. O argumento, travestido de pragmatismo técnico, reproduzia exatamente a lógica que esses mesmos interlocutores criticam quando ela opera em escala internacional.

O episódio evidencia que a disputa não se dá apenas entre centros e periferias globais, mas também entre centros e periferias internas — entre Sudeste e demais regiões, entre capitais e interiores, entre territórios historicamente concentradores de poder simbólico e aqueles sistematicamente colocados na posição de exceção. Nesses embates, o discurso da diversidade tende a ser acionado apenas quando se está em posição subalterna. Quando a posição se inverte, a retórica muda — e o que antes era denunciado como hegemonia passa a ser justificado como eficiência, mérito ou racionalidade econômica.

Essa oscilação revela que o problema não é a defesa da multipolaridade em si, mas a dificuldade de aceitar suas consequências práticas. Defender a multipolaridade implica abrir mão de privilégios, descentralizar decisões e reconhecer que não existe um único território autorizado a definir o que é qualidade, profissionalismo ou relevância cultural. Quando esse princípio não é aplicado internamente, ele se reduz a um discurso circunstancial — válido apenas enquanto somos periferia de alguém.

É nesse contexto que cineastas como Kleber Mendonça Filho e Karim Aïnouz assumem papel central — não como exceções celebratórias, mas como pontos de fricção dentro do sistema. Ambos partem de territórios historicamente marginalizados e constroem filmografias profundamente enraizadas em experiências locais, políticas e afetivas. O gesto radical não está apenas em filmar a partir desses lugares, mas em recusar a diluição estética como moeda de troca por reconhecimento.

No cinema de Kleber Mendonça Filho, o Recife é memória, conflito e estrutura dramática. Em Karim Aïnouz, o deslocamento, o corpo e a instabilidade identitária tornam-se linguagem. Ambos não pedem validação: impõem presença. E, ao fazê-lo, revelam os limites de um sistema que os acolhe como exceção sem se transformar.

E é preciso igualmente destacar o diretor Sérgio Machado, também importante referência artística da contemporaneidade que reflete a forte e única identidade do cinema baiano, marcando o misticismo que permeia a cultura, sobretudo de Salvador e do recôncavo, em filmes fortes e profundos, destacando Cidade Baixa e o recém lançado 3 Obás de Xangô.

O desafio que se impõe, no plano global e no nacional, não é ampliar a inclusão dentro das estruturas existentes, mas descentralizar a autoridade simbólica que elas exercem. Um cinema verdadeiramente plural pressupõe múltiplos centros de legitimidade, múltiplos cânones e múltiplos critérios de excelência.

Um filme pode ser profundo, rigoroso e transformador sem jamais passar por Cannes, pelo Oscar ou pelo eixo Sudeste — e isso precisa deixar de ser lido como fracasso. Enquanto criticarmos a hegemonia global e reproduzirmos internamente a mesma lógica, a diversidade será sempre condicionada.

Questionar festivais, prêmios e centros não é um ataque ao cinema. É uma defesa de sua complexidade. Como escrevi no ensaio anterior, não queremos apenas ser vistos; queremos que o mundo aceite que não existe um único espelho capaz de nos refletir.

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Invasão não derruba a ordem constitucional venezuelana https://www.ocafezinho.com/2026/01/05/invasao-nao-derruba-a-ordem-constitucional-venezuelana/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/05/invasao-nao-derruba-a-ordem-constitucional-venezuelana/#respond Mon, 05 Jan 2026 07:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=223877 A posse interina de Delcy Rodríguez pelo Tribunal Supremo de Justiça busca preservar a legalidade diante de uma agressão externa

O mundo assistiu, neste último sábado (3), a um dos episódios mais sombrios da história recente das relações internacionais no Hemisfério Ocidental. A operação militar conduzida pelos Estados Unidos em Caracas, que resultou no bombardeio da capital venezuelana e na captura de Nicolás Maduro, não representa apenas uma ação contra um governo específico, mas um ataque direto ao conceito de autodeterminação dos povos e à legalidade internacional.

A decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela de empossar Delcy Rodríguez como presidente interina é a resposta institucional possível de um Estado que tenta manter sua estrutura mínima de funcionamento sob o fogo cruzado. Enquanto Washington ignora fronteiras e leis internacionais, Caracas busca na sua Constituição o amparo para garantir a continuidade administrativa em meio ao caos provocado por uma intervenção estrangeira.

Leia também: Suprema Corte da Venezuela enfrenta ofensiva dos EUA

O sequestro de um presidente e a afronta democrática

A narrativa apresentada pela Casa Branca tenta revestir de “libertação” o que, na prática, configura-se como um sequestro de Estado. Ao capturar Maduro e sua esposa e levá-los a Nova York em um navio de guerra, os Estados Unidos atropelam séculos de diplomacia e protocolos de imunidade. Independentemente das críticas que se possa fazer à gestão de Maduro, a remoção de um líder político por meio de bombardeios e operações militares externas é um retrocesso que nos remete aos períodos mais obscuros das ditaduras latino-americanas financiadas pelo Norte.

Delcy Rodríguez, ao assumir o cargo, foi enfática: a Venezuela não é, e não aceitará ser, uma colônia. Sua convocação à resistência não é apenas um grito partidário, mas um apelo à preservação da soberania nacional face a uma potência que, mais uma vez, utiliza a força bruta para moldar o destino de seus vizinhos ao sul.

A ressurreição da Doutrina Monroe no século 21

O pronunciamento de Donald Trump em Mar-a-Lago não deixou margens para dúvidas sobre as reais intenções por trás da operação. Ao invocar explicitamente a Doutrina Monroe — uma política de dois séculos atrás criada para consolidar a hegemonia norte-americana na região —, o governo dos EUA removeu a máscara da “ajuda humanitária”. A afirmação de que o domínio americano no Ocidente “nunca mais será questionado” é um aviso ameaçador a todos os países da América Latina.

O plano de Washington de designar um “grupo” de alto escalão para administrar a Venezuela é o ápice do desrespeito institucional. A ideia de que uma nação estrangeira pode simplesmente “assumir o governo” de outra até que decida o momento de uma transição é a negação absoluta de qualquer princípio democrático. É uma tutela colonial imposta sob o pretexto da liberdade.

O pragmatismo cínico e o desprezo pela oposição interna

Surpreende, mas não choca, a forma como Trump descartou figuras da oposição venezuelana que há anos serviam aos interesses de Washington. Ao afirmar que María Corina Machado — laureada com o Nobel da Paz — não possui respeito ou apoio interno para governar, Trump revela que a intervenção nunca foi sobre restaurar a vontade popular venezuelana, mas sobre conveniência geopolítica.

A indicação de que o secretário de Estado, Marco Rubio, já mantém diálogos com a própria Delcy Rodríguez demonstra um pragmatismo cínico. Os Estados Unidos parecem dispostos a negociar com qualquer peça do tabuleiro, desde que o controle final sobre os recursos e a política da região permaneça em suas mãos.

A defesa da soberania como única via

A resistência convocada por Rodríguez, apoiada pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e por ministros das pastas estratégicas, coloca o povo venezuelano diante de um desafio hercúleo: defender o território e a dignidade nacional contra o maior poder militar do planeta.

O que está em jogo na Venezuela hoje não é apenas o futuro de um partido ou de um líder, mas a própria existência da soberania na América Latina. Se o mundo aceitar passivamente que bombardeios e sequestros de governantes são ferramentas legítimas para a “transição de poder”, nenhuma nação do Sul Global estará verdadeiramente segura. A história cobrará daqueles que, sob o silêncio ou o aplauso, permitiram que a barbárie imperialista voltasse a ditar as regras em nosso continente.

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Soberania em Jogo: o Brasil não pode estar sempre abaixando a cabeça https://www.ocafezinho.com/2025/11/03/soberania-em-jogo-o-brasil-nao-pode-estar-sempre-abaixando-a-cabeca/ https://www.ocafezinho.com/2025/11/03/soberania-em-jogo-o-brasil-nao-pode-estar-sempre-abaixando-a-cabeca/#respond Mon, 03 Nov 2025 23:39:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220401 O audiovisual brasileiro é forte, mas vive sob regras desiguais que favorecem gigantes estrangeiros e enfraquecem a soberania econômica do país

Por Priscila de Miranda do Rosário


O audiovisual é um setor global. Não existe mais fronteira entre cinema, televisão, internet e streaming. As histórias circulam, as plataformas competem em escala planetária e as receitas se concentram em poucas mãos. O que diferencia os países hoje não é o talento — é a inteligência regulatória.

É simples: todo mercado precisa de equilíbrio. No Brasil, uma parte do setor audiovisual — produtoras, distribuidoras, salas de cinema e canais — paga suas contribuições ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que é o mecanismo econômico que mantém o setor funcionando. Enquanto isso, as grandes plataformas estrangeiras — Netflix, Amazon, Disney+, Apple e outras — operam no mesmo território, lucram no mesmo público e não pagam nada. Isso é uma distorção. E é isso que precisa ser corrigido. Não tem nada de romântico, nada de “identidade nacional” — tem a ver com economia, concorrência justa e soberania fiscal. A pauta do streaming não é cultural. É comercial. E o que está em jogo é se o Brasil vai continuar se comportando como mercado de consumo passivo ou se vai finalmente atuar como player global, com regras claras e reciprocidade.

O cinema brasileiro hoje é competitivo. Ainda Estou Aqui ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, estreou em Cannes e tem distribuição mundial, e Baby, de Marcelo Caetano, foi vendido para 23 países. Esses números não são bandeira nem orgulho simbólico: são indicadores de mercado. Mostram que o audiovisual brasileiro tem produto, qualidade, público e preço. O problema é que o ecossistema em torno desses filmes não é tratado como mercado global. Produtores e distribuidores brasileiros pagam taxas, enquanto as plataformas que faturam bilhões aqui operam sem contrapartida. É uma assimetria que mina o equilíbrio e a sustentabilidade do setor.

Quando o ministro Alexandre de Moraes suspendeu o funcionamento do X por descumprimento das leis brasileiras, o que aconteceu ali foi mais do que uma decisão judicial. Foi um ato de coragem institucional. Foi a primeira vez no mundo em que um país colocou uma gigante digital diante das suas próprias leis e disse: “Aqui, quem manda é a Constituição brasileira.” Esse gesto marcou uma mudança de era. Num mundo dominado por monopólios tecnológicos e assimetrias econômicas, nenhum outro país havia feito isso. E é por isso que esse momento é histórico: o Brasil não foi servil, foi soberano.

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Regular o streaming não é punir a inovação — é garantir que o lucro gerado aqui fortaleça o próprio mercado nacional / Reprodução

Ninguém é contra as plataformas. O X, o Spotify, o YouTube, a Netflix — todas são ferramentas fundamentais, que democratizaram o acesso e transformaram a economia criativa. O que se quer é igualdade regulatória: o direito de competir em condições justas. Regular não é punir. É garantir que quem lucra aqui contribua aqui. E isso não é apenas uma questão de justiça: é uma questão de inteligência econômica. Quando há regulação clara, o mercado se fortalece. Novos players surgem, o ecossistema se amplia e a inovação floresce. O objetivo é esse — criar um ambiente próspero, competitivo e sustentável. Monopólio não é sinal de capitalismo. Monopólio é pré-mercantilismo. É o oposto do livre mercado. Monopólio é a lógica da monarquia econômica, da concentração e da dependência. O verdadeiro capitalismo — aquele que gera riqueza e diversidade — depende de pluralidade e regras equilibradas. E é isso que a regulação busca: devolver o sentido de competição saudável, onde todos possam existir, e não apenas os gigantes.

Como dizia Wanderley Guilherme dos Santos — o primeiro grande cientista político brasileiro, doutor em Berkeley e um homem à frente de seu tempo —, a tecnologia pode nos libertar ou pode nos escravizar. Ele via, com décadas de antecedência, o que Marx já havia diagnosticado: a tecnologia pode servir à emancipação humana ou à sua submissão. As plataformas digitais são exemplo disso. Elas democratizaram o acesso, abriram o mercado e derrubaram barreiras que antes impediam milhões de pessoas de consumir e produzir conteúdo. Mas a fronteira entre democratização e monopólio é tênue. E é nessa linha que o Brasil precisa se posicionar — com coragem e racionalidade. Enquanto o país não investir em tecnologia e inovação com a mesma força que Estados Unidos, China ou Europa, precisa se proteger por meio da regulação inteligente. Não para se isolar, mas para garantir que a colaboração internacional aconteça de forma justa. A soberania, hoje, é tecnológica. Quem não regula, é regulado.

O audiovisual não é um setor “cultural”: é um setor econômico estratégico. Movimenta cadeias de trabalho, gera receita, inovação, exportação e prestígio internacional. O problema é que, enquanto alguns players cumprem suas obrigações fiscais e legais, outros atuam em vantagem, drenando o mercado local. O Fundo Setorial do Audiovisual não é um símbolo: é um instrumento econômico de reinvestimento. O dinheiro que o setor gera, volta para o próprio setor. Quando apenas uma parte paga, o resultado é simples: concorrência desleal e desequilíbrio estrutural. O Brasil precisa sair da posição de consumidor e assumir a de potência audiovisual global. E isso começa por entender que regulação não é controle: é estratégia de mercado.

É fundamental que o presidente Lula entenda que essa pauta não é do cinema. É do Brasil. É uma pauta de Estado, de soberania e de equilíbrio econômico. A regulamentação do streaming define quem manda nas narrativas, nos lucros e nas regras do jogo. Define se o país vai continuar exportando talento e importando dependência ou se vai se posicionar como parceiro — e não colônia.

Existe espaço para todos. Para o mundo inteiro. A economia global não é um jogo de soma zero. A China entendeu isso. Com uma população de mais de dois bilhões de pessoas, o país conseguiu dar um turning point histórico, transformando sua escala populacional em potência econômica e tecnológica. E o Brasil, guardadas as proporções, é também um mercado relevante. Tem dimensão continental, público consumidor ativo e enorme capacidade criativa. O problema é que, muitas vezes, falta autoestima institucional. É sobre isso também. Soberania é econômica, mas é também psicológica. É o ato de dizer: “Escutem, nós existimos, nós produzimos, nós regulamos.” E de agir à altura disso.

Depois do que aconteceu com o X, o Brasil entrou em uma nova era. Uma era em que o país provou que tem coragem institucional e capacidade de se impor diante de monopólios globais. Isso é histórico. E o que acontece agora precisa estar à altura desse gesto. O audiovisual — assim como as plataformas — é parte da economia mundial. E nenhum país que queira ter relevância pode se dar ao luxo de abrir mão de soberania fiscal e tecnológica. O que está em jogo não é um setor, nem uma lei: é a posição do Brasil no tabuleiro global. E o país que já mostrou que sabe dizer “não” precisa, mais uma vez, erguer a cabeça e agir com inteligência e firmeza.


Priscila de Miranda do Rosário é distribuidora de cinema e fundadora da Fênix Filmes

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Americano já sente saudade do café brasileiro https://www.ocafezinho.com/2025/09/13/americano-ja-sente-saudade-do-cafe-brasileiro/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/13/americano-ja-sente-saudade-do-cafe-brasileiro/#respond Sat, 13 Sep 2025 07:20:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=217235 O preço do café dispara e expõe o impacto da tarifa de Trump sobre o Brasil, agravando uma crise já alimentada por colheitas fracas e clima instável

Nada simboliza melhor a rotina americana do que a xícara de café matinal. O aroma, a cor escura, o primeiro gole — tudo isso é parte de um ritual coletivo, quase sagrado, para dois terços da população dos Estados Unidos. Mas hoje, esse pequeno ato de conforto está sendo transformado em um luxo acessível apenas aos mais ricos — não por falhas naturais da economia, nem por uma crise climática incontrolável, mas por uma decisão política deliberada, ideologicamente carregada e economicamente insensata: as tarifas de 50% impostas por Donald Trump sobre as importações de café brasileiro.

Este não é um simples ajuste comercial. É um ataque à vida cotidiana de milhões de americanos comuns, disfarçado de “proteção nacional”. E ele vem acompanhado de uma lógica perigosa, típica da extrema-direita americana: a crença de que o sofrimento das massas é preço aceitável pela “soberania econômica”, mesmo quando essa soberania é ilusória e o custo é pago pelos trabalhadores, pelos aposentados, pelos pais que escolhem entre pagar a conta de luz ou manter o café na mesa.

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O café não cresce nos EUA — mas a ideologia da retaliação sim

O Brasil produz cerca de um terço do café arábica consumido nos Estados Unidos. Arábica. O tipo premium, o sabor suave, o que faz da manhã americana algo mais do que uma necessidade — algo que se tornou uma cultura. O Vietnã e a Colômbia tentam suprir a lacuna, mas seus grãos são de qualidade inferior, suas capacidades logísticas limitadas, e suas colheitas já estão sob pressão climática. Quando Trump impôs essas tarifas, não foi uma estratégia de negociação. Foi um ato de vingança geopolítica, um gesto de força bruta contra um país que não ameaça os EUA militarmente, mas que desafia seu domínio econômico com sua produtividade e eficiência.

E qual é o resultado? O preço do café moído atingiu US$ 8,87 por libra em agosto — o maior nível desde 1997. Um aumento de 21% em um ano. Isso não é inflação normal. É inflação provocada. E ela não chegou por acaso. Chegou porque alguém decidiu que o Brasil deveria pagar por sua independência, por sua capacidade de produzir algo que os EUA não conseguem produzir — e que, portanto, deve ser punido.

Isso é o que a extrema-direita faz: transforma interdependência em fraqueza, e cooperação internacional em traição. Enquanto os líderes europeus e asiáticos buscam alianças para enfrentar juntos as mudanças climáticas e as rupturas nas cadeias globais, a extrema-direita americana escolhe o caminho da autossuficiência fantasiosa — e da repressão econômica.

A crise climática é real

Sim, as mudanças climáticas estão devastando as lavouras no sul do Brasil, no sul da Colômbia, no centro do Vietnã. Secas, geadas, chuvas irregulares — tudo isso reduziu a oferta global. Mas se os preços estivessem subindo apenas por causa do clima, o mercado teria respondido com aumento de produção em outras regiões, com investimentos em tecnologias agrícolas resilientes, com políticas públicas coordenadas.

O que aconteceu, na verdade, foi exatamente o oposto. Em vez de cooperar, os EUA cortaram uma das principais fontes de abastecimento. Em julho, as exportações brasileiras para os EUA caíram pela metade. Em agosto, caíram mais de 75%. Isso não é consequência da crise climática. É consequência da decisão política de Donald Trump.

E os especialistas avisam: os estoques que ainda amortecem o impacto estão se esgotando. Os embarques de Santos levam até 20 dias para chegar. A torrefação leva mais tempo. O repasse aos consumidores será lento — mas inevitável. E quando chegar, será brutal.

Thijs Geijer, economista sênior do ING, alerta: “Será necessário enviar remessas adicionais novamente, mas a questão é: de onde elas virão?” A resposta é óbvia: não há substituto viável. E se houver, será mais caro. E mais instável.

O varejo tentando segurar o preço — mas não pode fazer sozinho

Kroger, a maior rede de supermercados dos EUA, diz que está absorvendo parte do aumento. Que “ocasionalmente” as tarifas afetarão os preços. Mas isso é linguagem corporativa para dizer: “Estamos tentando proteger nossos clientes, mas não podemos continuar assim.”

Como pode uma empresa privada sustentar esse sacrifício indefinidamente? Se o custo do café aumenta 20%, e o salário médio americano cresce menos de 3% ao ano — como esperar que o varejo continue pagando a conta?

É aqui que a extrema-direita mostra sua hipocrisia radical: enquanto grita por “menos governo” e “livre mercado”, ela cria distorções artificiais que só podem ser corrigidas pelo próprio Estado — mas só se o Estado for usado para proteger os interesses da elite.

Quando o setor alimentício pede isenções para o café — como fez com urgência —, a Casa Branca responde com uma lista preliminar de “possíveis exceções”. Uma lista. Não uma decisão. Um adiamento. Um jogo político.

Enquanto isso, famílias americanas estão sendo obrigadas a escolher: café ou pão? Café ou medicamentos? Café ou transporte público?

O café é símbolo — e a tarifa é símbolo também

O café não é apenas uma bebida. É um símbolo da vida diária, da rotina, da dignidade simples. É o que mantém o professor acordado, o enfermeiro em pé, o motorista de aplicativo dirigindo por horas, o escriturário preparando o dia. É um bem essencial, não de luxo. E agora, ele está sendo usado como arma.

A extrema-direita americana tem uma visão profundamente elitista da economia: acredita que o mundo funciona como um jogo de xadrez, onde o sofrimento das classes trabalhadoras é um movimento aceitável para derrotar um adversário estrangeiro. Mas o Brasil não é um inimigo. É um parceiro. E o café não é um produto estratégico de defesa — é um bem de consumo cotidiano.

Essa tarifa não fortalece os EUA. Ela enfraquece o poder de compra da classe média e da classe trabalhadora. Ela aumenta a inflação alimentar — que já subiu 2,9% em agosto, o maior índice desde janeiro — e transforma um hábito cultural em um fardo financeiro. E tudo isso, em nome de uma narrativa populista que promete “fazer a América grande de novo”, enquanto faz os americanos comuns cada vez mais pobres.

O preço da ignorância econômica

A extrema-direita não entende economia. Não entende cadeias globais. Não entende que a prosperidade dos EUA depende da integração, não da autarquia. Ela pensa que, se bloquear o café brasileiro, os EUA vão se tornar mais fortes. Mas o que acontece é o contrário: os EUA se tornam mais vulneráveis.

Enquanto o Brasil investe em agricultura sustentável, em tecnologia de cultivo resistente às mudanças climáticas, os EUA se recusam a investir em qualquer coisa que não seja guerra, vigilância e retórica. Enquanto o mundo busca soluções multilaterais para a crise alimentar, os EUA sob liderança trumpista escolhem o isolamento.

E quem paga? Os trabalhadores. As mães. Os idosos. Os estudantes. Os que não têm poder de lobby, mas têm que beber café para funcionar.

O setor alimentício — que inclui torrefadoras, redes de supermercados e empresas de logística — pediu isenção. Eles sabem que não existe café americano competitivo. Sabem que não é possível cultivar arábica de alta qualidade no Texas ou na Califórnia. Sabem que a solução é negociar, não retaliar.

Mas a extrema-direita não ouve. Ela não quer soluções. Ela quer vitórias simbólicas. Ela quer mostrar que “Trump ainda está no controle”, mesmo quando o controle é ilusório.

E isso é o que torna essa política tão perigosa: ela não é errada por incompetência. É errada por intenção.

Os contratos futuros do café já dispararam. Os preços vão subir mais. Em outubro. Em novembro. Talvez em dezembro, quando as famílias precisarem comprar presentes de Natal e ainda assim manterem o café na mesa.

E quando isso acontecer, os republicanos de direita vão dizer: “Foi a inflação! Foi o governo Biden! Foi o clima!”

Mas nós sabemos a verdade.

Sabemos que foi uma tarifa de 50% sobre o café brasileiro — imposta por um homem que nunca trabalhou em uma plantação, nunca bebeu um café feito com grãos de Minas Gerais, nunca sentiu o peso de uma xícara vazia na mão de alguém que não pode pagar.

Sabemos que foi a extrema-direita americana, com sua obsessão por confronto, sua aversão à cooperação e seu desprezo pela vida real das pessoas comuns.

Não basta reclamar. Precisamos exigir. Exigir que o Congresso impeça essas tarifas. Exigir que o Departamento de Comércio reconheça que o café não é um produto de segurança nacional — é um bem essencial. Exigir que o presidente — qualquer presidente — pare de usar o bolso dos americanos como moeda de troca em jogos geopolíticos malucos.

E, acima de tudo, precisamos denunciar essa lógica: a de que o sofrimento popular é aceitável se for usado para “punir” países que não se curvam à hegemonia norte-americana.

O café não é um símbolo de consumo. É um símbolo de humanidade. De rotina. De dignidade. E agora, está sendo tomado como refém por uma ideologia que odeia o mundo que construímos juntos.

Se você bebe café todos os dias — e a maioria dos americanos bebe — então você está sendo taxado por uma política que não serve ao seu interesse. E você tem o direito — e a responsabilidade — de dizer: basta.

A América não precisa ser grande com a fome dos seus próprios cidadãos.
A América pode ser grande — sem tirar o café da mesa dos pobres.

Com informações de Financial Times*

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Opinião de Raz Segal no NYT: decisão judicial sinaliza mudança na Guerra de Israel em Gaza https://www.ocafezinho.com/2024/01/29/opiniao-de-raz-segal-no-nyt-decisao-judicial-sinaliza-mudanca-na-guerra-de-israel-em-gaza/ https://www.ocafezinho.com/2024/01/29/opiniao-de-raz-segal-no-nyt-decisao-judicial-sinaliza-mudanca-na-guerra-de-israel-em-gaza/#respond Mon, 29 Jan 2024 12:48:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=174386 Na sexta-feira, o Tribunal Internacional de Justiça emitiu uma decisão provisória contra Israel e a sua guerra em Gaza. No caso, instaurado pela África do Sul no mês passado, o tribunal decidiu que é plausível que Israel esteja a perpetrar genocídio contra os palestinianos em Gaza. Esta decisão marca o fim da era de impunidade israelita no sistema jurídico internacional.

O julgamento apontou dezenas de declarações explícitas de “intenção de destruir” por parte de líderes do Estado israelita, ministros do Gabinete durante a guerra e oficiais superiores do exército, bem como os níveis sem precedentes de matança e destruição. O tribunal também emitiu medidas provisórias, reconhecendo a terrível situação : mais de 26 mil palestinianos mortos e mais de 64 mil feridos nos bombardeamentos de Israel, bem como quase 2 milhões de pessoas deslocadas à força que agora enfrentam a fome e a propagação de doenças infecciosas.

As medidas provisórias não incluíam uma ordem de cessar-fogo, que a África do Sul tinha solicitado , mas instruíram Israel – por uma esmagadora maioria de votos dos juízes do TIJ de 15 a 2 – para prevenir quaisquer actos de genocídio em Gaza e garantir que os seus militares não cometem tais actos.

Como parte das medidas provisórias do tribunal, Israel também deve prevenir e punir o incitamento ao genocídio; garantir a prestação de ajuda urgente a Gaza; prevenir a destruição de provas e garantir a sua preservação; e fornecer ao tribunal um relatório sobre essas medidas no prazo de um mês. Com efeito, estas ordens exigem um cessar-fogo, pois não há outra forma de as cumprir.

A decisão do Tribunal Internacional de Justiça decorre da convenção das Nações Unidas sobre genocídio , que foi criada em dezembro de 1948 e baseada na visão de que o nazismo e o que hoje chamamos de Holocausto eram excepcionais.

Isto serviu um propósito: separou o Holocausto das pilhas de corpos e destruiu culturas que o imperialismo e o colonialismo europeus – ainda em curso na altura – tinham deixado em todo o mundo nos séculos anteriores.

O estatuto excepcional do Holocausto tornou o novo Estado Judeu que foi estabelecido em Maio de 1948 também excepcional, especialmente tendo em conta os muitos sobreviventes do Holocausto que escolheram tentar reconstruir as suas vidas ali.

O estatuto excepcional de Israel levou a uma obscuridade intencional do seu crime fundamental, a Nakba: a expulsão em massa de mais de 750 mil palestinianos e a destruição de centenas de aldeias e cidades na guerra de 1948. Que Israel pudesse cometer qualquer crime ao abrigo do direito internacional tornou-se imediatamente, neste quadro excepcional, quase inimaginável. A impunidade para Israel foi assim incorporada no sistema jurídico internacional após a Segunda Guerra Mundial. A necessidade urgente de obscurecer a Nakba também emergiu do ímpeto mais amplo de negar a natureza do Estado israelita como um projecto colonial de colonos. Paradoxalmente, a criação de Israel reproduziu o racismo e a supremacia branca que tinham como alvo os judeus para a exclusão e, em última análise, para a destruição na Europa.

O presidente israelense, Isaac Herzog, expressou essa supremacia branca e mentalidade colonial de forma bastante explícita em uma entrevista à MSNBC em 5 de dezembro: “Esta guerra é uma guerra que não é apenas entre Israel e o Hamas”, disse ele em resposta a uma pergunta sobre o assassinato em massa de palestinos nos ataques de Israel a Gaza. “É uma guerra”, continuou ele, “que visa, realmente, verdadeiramente, salvar a civilização ocidental… Somos atacados por uma rede jihadista, um império do mal”. Este império, disse ele, “quer conquistar todo o Médio Oriente e, se não fosse por nós, a Europa seria a próxima e os Estados Unidos seguir-se-iam”.

O conceito de genocídio funcionou para proteger o estatuto excepcional do Holocausto e de Israel no sistema jurídico internacional e para permitir, em vez de desafiar, esta visão de longa data. Até agora.

Com a decisão do TIJ de que o ataque de Israel a Gaza é plausivelmente genocida, todas as universidades, empresas e estados em todo o mundo terão agora de considerar muito cuidadosamente o seu envolvimento com Israel e as suas instituições. Tais laços podem agora constituir cumplicidade com o genocídio.

Poucas horas depois da decisão do Tribunal Internacional de Justiça, outro tribunal ouviu um caso relacionado: em São Francisco, o Centro para os Direitos Constitucionais abriu uma ação no tribunal federal em nome de organizações e indivíduos palestinos, contra o presidente Biden e outras autoridades dos EUA por fracasso cumprir as obrigações legais da ONU para prevenir o genocídio em Gaza e por cumplicidade com o genocídio, devido ao contínuo apoio militar e diplomático dos EUA a Israel.

Um após o outro, os demandantes palestinos testemunharam na sexta-feira sobre as histórias de suas famílias durante a Nakba; as suas próprias experiências de violência em massa israelita; parentes que perderam desde 8 de outubro; bairros onde cresceram que não existem mais; escolas que os bombardeamentos e invasões israelitas transformaram em escombros; e cafés onde nunca mais poderão beber chá.

Acontece que estes relatos surgiram pouco antes do Dia Internacional em Memória do Holocausto , que marca 27 de Janeiro de 1945, quando as forças soviéticas libertaram o campo de aniquilação nazi em Auschwitz.

Estamos entrando em uma nova era do direito internacional. Pela primeira vez, vimos tribunais considerarem o crime de genocídio como um quadro jurídico para descrever o que os palestinianos estão a suportar. Através destes casos, as vozes dos palestinianos apontam para uma nova era da memória do Holocausto, para além da negação da Nakba, para um mundo que finalmente colocará as vozes, o conhecimento, as histórias e as perspectivas de todas as pessoas que enfrentam a violência do Estado na frente e no centro.

Raz Segal é professor associado de estudos do Holocausto e genocídio e professor titular de estudo do genocídio moderno na Universidade de Stockton, em Nova Jersey.

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Crônica – Amor e abandono: o Brasil inteiro num posto de saúde https://www.ocafezinho.com/2019/04/17/cronica-amor-e-abandono-o-brasil-inteiro-num-posto-de-saude/ https://www.ocafezinho.com/2019/04/17/cronica-amor-e-abandono-o-brasil-inteiro-num-posto-de-saude/#comments Wed, 17 Apr 2019 23:17:51 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=93923 2 Comentários 🔥]]>  

Entrei na sala de procedimentos para receber uma medicação. Enquanto esticava o braço, comentei com a técnica de enfermagem o quanto o posto estava abandonado. “É o desgraçado do Crivella”, me respondeu.

Pensei em todo o amontoado de situações com as quais me choquei desde que pus os pés naquele posto de saúde, hoje, em busca de atendimento. Eu e aquele tanto de gente buscando alívio pra dor. Em algumas horas entre tempo de espera, atendimento e medicação, pude compreender um vasto universo que se cria naquele microcosmo de uma microrregião da Zona Sul do Rio de Janeiro.

Logo que entrei, busquei atendimento em um dos guichês e descobri que minha “zona” seria Parque Guinle, e que essa equipe seria a responsável pela minha ficha. Ao meu lado, aguardava atendimento uma senhora que custava a falar. Precisava refazer alguns exames. Interpelando, um senhor atravessou varios papeis ao recepcionista. Tinha que tomar aquela medicação injetável, mas tinha que comprar antes ou o posto dava? Ele não sabia. E as seringas? Essas sim, o posto dava.

No meio do dia lotado, minhas costas em petição de miséria com a dor que eu sentia, conseguiram me encaixar entre um grupo de cinco pacientes e outro. Ou seja, ainda demoraria a ser atendido, mas seria. Eu adoro o SUS, pena que esteja abandonado. Ao meu lado, nas cadeiras de espera, uma senhora tira os óculos tão logo eu me sento e desejo boa tarde. Era herpes o que ela tinha. Queria que “a médica olhasse meus exames todos, mas ela me disse que uma coisa de cada vez”. E me contou sobre a médica amiga da filha dela que a consultou por WhatsApp. Eu já fiz isso, né Natália Cardoso? E, então, sobre como o posto era maravilhoso pra ela, que ia toda semana até lá. Mas por que?, perguntei. Ela disse que eles faziam “muita questão dela”. Davam atenção, por fim.

Depois de escapar da primeira senhora – estava difícil dar atenção sentindo dor -, vejo chegar um cara bem alto, negro, cabelo rastafari. Se senta no meu lugar. Tira uns desenhos da mochila e começa a cantarolar enquanto sentado. Até olhei melhor pra me certificar de que não era Luís Melodia logo ali, materializado e reencarnado. Não era, mas a voz era linda. A senhora ainda teve tempo de me contar a história do neto, que se compara a do sobrinho: dor forte nas pernas, formigamento e dor de cabeça. “Virose e stress”, eles disseram. Tudo agora pra “eles” é virose ou stress. “Ah, faça-me o favor. No meu sobrinho era leucemia”. Não sei como, ao me despedir, ela já falava sobre AIDS e o Lauro Corona.

Com muita, mas muita dor nas costas, já preocupado, fiquei me movimentando pelo espaço, fui ao banheiro, torcendo logo pra me chamarem, pelo menos, para a fila lá de dentro, a do atendimento. Me encostei numa parede, uma mulher sentada ao lado numa cadeira filha única. “Viu o tanto de caso de câncer?”. Aqui? Perguntei. “Pra todo lado, meu filho. Tudo agora é câncer”. Ou stress e virose, pensei. Mas câncer, tem muita gente por aqui com câncer? Havia sim, segundo ela. Daí até saber sobre como tratou a queda de cabelos por stress pós-traumático depois de meses cuidando do tio que tivera câncer no reto, tomei conhecimento de cada detalhe de todo este período da vida desta estranha, com uma infinidade de detalhes que agora conheço. Stress é mesmo uma boa forma de definir as coisas. Câncer? Câncer não.

Me chamaram no guichê Parque Guinle e foram específicos: o senhor siga direto por este corredor até o final. Seria atendido lá. Assim o fiz. A primeira senhora, a da herpes, veio atrás de mim e me disse que eu estava no lugar errado, que ali não era minha área. Eu a acompanhei até o local correto, segundo ela, mas desconfiado. Chegando lá, fingi atender o telefone e voltei pra localização original. Confirmei com um simpático faxineiro que ali era o local correto. Ele, que já havia me cumprimentado logo que cheguei, se ofereceu pra conversar com alguém para agilizar meu atendimento. Agradeci. A gentileza, àquela gente, àquele universo paralelo que é o interior de um posto de saúde.

Enquanto esperava ser chamado pela médica, fiquei sentado em meio a pessoas que esperavam para serem vacinadas. Fiquei observando, atento, pessoa a pessoa, face a face, expressão a expressão. Quando falo de saúde pública, é da vida dessas pessoas que falo, pensei. E da minha própria. E que bom que aquele espaço ali nos acolhia. Enquanto voltava da viagem com a senhora que queria me mudar de lugar, passei por um grupo de moradores que se reunia com a assistente social. Discutiam sobre as visitas e atendimentos a pacientes diabéticos. Na fila das vacinas, vi jovens pais totalmente perdidos com seus primeiros filhos, vi um casal adolescente com a recém nascida e um casal já mais velho, pais de primeira viagem, vi uma mãe solteira, um irmão mais velho levando uma bebezinha linda, com quem fiquei brincando e sorrindo.

Observei com atenção cada relação que se estabelecia ali. Os apelos dos casais mais novos, a impaciência dos mais velhos, a idosa atendendo como Agente de Saúde “experiente”, toda responsável de sua função. A fila de espera para a vacinação de filhos, a de gripe, a triagem dos casos mais complicados aos de menor risco, pra usar com precisão o lote de vacinas. Passando por mim três mulheres correndo, quando veem a fila, resmungam que não vão poder ficar, não iria dar tempo. A criança que acompanhava, uma menininha negra, sorri e comemora: não ia tomar vacina e ria da cara da mãe.

Logo após ser atendido por dois médicos, que se revezaram ao me examinar – eu disse adoro? Eu AMO o SUS – eu segui para a sala de “Procedimentos” onde Patrícia me atendeu. (Não coloquei aqui os nomes verdadeiros). Estava sozinha, entrei e já vi as seringas e ampolas junto à bolsa de soro. Comemorei. Disse a ela que salvaria minha vida, que não aguentava a dor na coluna mais. Ela riu e riu mais ainda quando pedi “me fura com cuidado, moça”, denunciando meu minerês. Patrícia é mãe de Vitor, que tem sete anos. Ontem ele derramou leite com Nescau no piso branquinho dela. É levado, mas parece adulto. Já começou a ajudar em casa. Ela mora com ele, com o namorado e com a mãe. Em breve, vai se mudar só com o namorado e Vítor, que recentemente ganhou um daqueles skates futurísticos que foi comprado em uma vaquinha entre a mãe, a madrinha, a avó e o pai. E Vitor, que caiu no primeiro dia, disse não mais querer. Quando dei por mim, já estava mergulhado nas histórias da comunidade do Itanhangá.

Entrou na sala a técnica de enfermagem Rita. Eu já estava lá com o soro, ela leu a receita pregada junto à bolsa e fez piada: “Menino, é um senhor coquetel”. A dor é grande, moça. Ela emenda contando que vê as crianças no posto e tem vontade de ter mais filhos. Mas quando ela “lembra que já pariu 3”, ela perde a vontade até de fazer sexo. E a contracepção? Perguntei. “E casado liga pra isso?”

Comentei com ela, como inicio ao narrar, que o posto estava abandonado. Após falar de Crivella e eu concordar com todos os insultos que se seguiram, Rita disse em alto e bom som: todo mundo querendo acabar com a clínica da família e em quem essas pessoas votam? Wilson Witzel (vocês podem imaginar o tom de voz de desprezo e ironia). Eu disse que votei na Marcia, ela disse que ela também. Eu disse que ele, Crivella, era corajoso de começar a visitar comunidades. Patrícia logo disse: na minha, nem Crivella nem Witzel têm coragem de ir. E se aparecer perto de mim, eu gasto meu “réu primário” com ele. Achei interessante a ideia de se “gastar” o beneficio de ser réu primário para um crime que compensava-se cometer. Como se fosse a carta coringa que Patrícia tivesse.

Rita também mora na comunidade do Itanhangá. Tem três filhos, todos na faixa dos 13 a 15 anos. Um deles é Tiago, como gosta de ser chamado. Todos os três, juntando com o marido, ela contou, formam um grupo de crianças que não ajudam em casa, ficam vendo filmes enquanto ela trabalha. “Mas descobri como funciona. Posso atirar panela no chão e gritar que eles falam que tava tudo em paz até eu chegar. Mas agora eu aprendi: eu começo a chorar e falar que não aguento essa vida mais e eles limpam tudo”. Rita fala que não, mas aguenta sim essa vida.

Me contou orgulhosa que Tiago, que por acaso estava ali, desenhava mangá, “uns bonecos com cabelo todo espetado, sabe?” Fez imitando com as mãos os cabelos dos bonecos que o filho desenhava. Enquanto ouvia mais histórias engraçadas de sua família e de Patricia, me apresentou a ele e seus desenhos. Ele tem 15 anos. Sentou-se ao meu lado e pôs-se a conversar. Estuda na Av. Das Américas, desenha quando dá, mas, às vezes, passa meses sem desenhar. Quer trabalhar com games e ser programador. Contei a ele que era jornalista. Ele disse que adoraria ser jornalista para poder ir ao Rock in Rio de graça. Eu ri, mas mandei ele ser programador mesmo, que jornalismo não dava dinheiro. “Ah tio, mas assim, com uns mil e quinhentos da prover bem, né?”. Você tem razão, Tiago. A gente nem precisa de tanto assim pra viver.

Enquanto me preparava pro final do soro, Patrícia e Rita se arrumavam para sair do turno. Um menino chegou passando muito mal, com formigamento e vomitando. Uma amiga me deu dica de um remédio. Corretores de planos de saúde começaram retornar alguns contatos – por precaução, os procurei na madrugada. Uma senhora por ali passou para tomar sua injeção dia-sim-dia-não e conversamos um pouco sobre maternidade. Minha mãe ligou pra saber se eu estava bem. A enfermeira me emprestou um carregador. Perguntei à namorada do rapaz que chegara muito mal se ele estava bem e ela disse que sim. Um senhor veio aferir a pressão e ouviu a piada do médico, que torcia para o time errado, essa era a causa. Tiago também me contou que sua escola à noite é perigosa e que ele estudaria de manhã. O recepcionista lá de fora entra na sala e pergunta se alguém pode atender um morador de rua que queria cobrir um ferimento até a consulta do dia seguinte. Todas se negaram.

– Ajuda o moço, mãe. Não ele (eu), o moço que mora na rua.
– Meu filho, não é assim. Tem horário, eu já tenho que sair. Um dia você vai entender essas coisas. A enfermeira tem que preparar e assinar pra que eu possa ajudar e ela já saiu.

Tiago parecia desapontado. Eu também, não vou negar. Poxa, Rita, ajude o moço. Mas Rita se aprontou, pegou Tiago e saiu. Antes, me disse. “Quando voltar aqui essa semana, não esquece de me falar dos cursos de desenho mais baratos que você vai procurar”. Tudo bem, não vou esquecer. Só se eu tiver stress ou virose, fiz a piada internamente. Me despedi dela e de Patrícia. O rapaz que chegara por último teve o diagnóstico: gastroenterite. Meu soro acabou e outra técnica veio retirar o acesso. “Só vou retirar o acesso desse menino e já te atendo, ok?”. Disse ela a uma moça que perguntava se tinham chamado por Giovana. “Esse é o seu nome? Então chamei”. Que sorte eu dei de ter Rita e Patrícia ali comigo até então. Giovana estava aliviada. Deu negativo o teste de gravidez.

A vida por ali é corrida. O abandono do estado é grande, mas é maior o coração daquela equipe.

Saindo do posto de saúde, eu ganhei as ruas com o braço gelado pelo soro, dolorido pelos medicamentos e a sensação de que era tudo real demais, talvez bonito demais por isso mesmo, e que existiam pessoas fantásticas naquele microcosmo. Liguei pra minha mãe pra contar que estava melhor. Avisei ao Pedro que estava indo pra casa. Li uma manchete sobre os 80 tiros que assassinaram um homem na semana passada. Notre Dame incendiada. Uma amiga liga pra se dizer saudosa. Coração doeu de novo. Liguei para minha prima pra desejar feliz aniversário, recebi uma noticia triste, voltei a sentir uma leve dor, já contei tudo isso pro Pedro, enquanto agradecia o cuidado e a presença e agora estou aqui escrevendo tudo isso com a sensação de ter tido um dia, apesar de dolorido, potente.

Me encontrar com as histórias que contam por aí. Parar para ouvir. Pararem e me ouvirem. O SUS, o Crivella, as mazelas, Wilson Witzel e tiros do exército. Incêndios e prédios caindo. E, naquele microcosmo, era possível sentir a potência em todas suas escalas de reações. Desde o acolhimento ao máximo abandono do poder. Que bom seria acompanhar e saber mais da primeira senhora, daqueles pais, incentivar os desenhos de Tiago, o sorriso de Rita e Patrícia, de toda aquela gente. E é dessa subjetividade que temos que nos alimentar. Da capacidade da poética enquanto tentam nos ferir. Adorei ter conseguido pensar que recuperei, por fim, essa capacidade de ver poesia nas veias abertas da realidade escaldante carioca.

Não importa se é virose ou stress, afinal. Naquele pequeno universo que visitei, o que importa é atenção. Mas, claro, é bom que todo mundo saiba que lá me alertaram que há um surto de diarreia no Rio de Janeiro.

Sim, tem mais essa.

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Do ódio ao exílio: quem tem medo de Marcia Tiburi? https://www.ocafezinho.com/2019/03/11/do-odio-ao-exilio-quem-tem-medo-de-marcia-tiburi/ https://www.ocafezinho.com/2019/03/11/do-odio-ao-exilio-quem-tem-medo-de-marcia-tiburi/#comments Mon, 11 Mar 2019 22:48:16 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=92638 48 Comentários 🔥]]> Conheci Marcia Tiburi há alguns anos na fila de embarque de um aeroporto, no dia de seu aniversário. Um sorriso no rosto e a simpatia no abraço já mostraram muito sobre quem era Marcia. Desde aquele dia até hoje, muita coisa mudou no Brasil. No Brasil daquela ocasião, Marcia era uma celebrada autora, defensora dos direitos humanos, professora e filósofa. No Brasil de hoje, com Bolsonaro presidente, seu nome estampa manchetes com a notícia de que teve que se retirar do país devido a ameaças constantes que vinha recebendo.  Não é coincidência.

Atendendo a um convite de Lula, Tiburi resolveu candidatar-se a governadora do Rio de Janeiro no ano passado pelo Partido dos Trabalhadores. Atendendo a um convite seu, eu embarquei nesta jornada ao seu lado. Se até então eu tinha por ela uma admiração pela pensadora que é e pela pessoa amiga e generosa que eu conhecia, passei a admirá-la com a paixão de quem viu de perto, minuto a minuto, a entrega, a força e a garra de Marcia durante o difícil processo que foi atravessar esta campanha.

Que não seria fácil, todos nós sabíamos. Somos brasileiros conscientes do estado caótico e fragilizado das instituições nacionais, sobretudo a tão mencionada e “celebrada” democracia.  Quando se decide participar de um pleito carregando no peito a estrela vermelha do PT no auge do antipetismo e com Lula preso, pensa-se saber o que é que vem por aí, mas todo o horror vivido durante os quarenta e cinco dias de campanha que tivemos não só atendeu às nossas expectativas, como superou todas elas.

Era imensa a minha vontade de tentar transmitir ao eleitor aquela Marcia que eu conhecia e se tornava cada dia maior. Eu vi a transformação de uma pessoa em nome de um projeto, em nome do que ela acreditava que poderia fazer pelo estado do Rio. Em cada estudo sobre os valões fluminenses, eu via vontade de transformar. Em cada comunidade que visitávamos, eu via força no seu olhar de quem tentava amparar, ainda que por breves minutos, a dor da miséria daquelas pessoas.

Crua e nua nos jogos de poderes da política, Marcia embarcou topando seguir o roteiro que rege uma campanha eleitoral. Gravou programas de TV, discursou em palanques, caminhou pelas ruas com bandeiras, gritou em microfones, defendeu seu programa de governo. Iniciava seus dias ainda pela madrugada e os encerrava também nela. Era incansável na missão de cumprir com aquilo que tinha se proposto e de atender a tantas vozes que agora entoavam seu nome, seguravam suas bandeiras e esperavam dela a solução.

Por muitas vezes, eu, que a acompanhava em cada atividade e compromisso durante todo este período, pensei que ela não fosse aguentar. E com uma força descomunal, ela conseguia ir adiante. Juntos, visitamos os lugares onde a miséria se faz presente. Viajamos num carro blindado a muitos lugares do Rio de Janeiro, sobretudo a região metropolitana e a baixada fluminense. Encaramos de perto o olhar da tristeza daqueles que são abandonados pelo estado.

Não cabe em apenas um texto toda a experiência que vivemos e o que aprendi caminhando ao lado de Marcia Tiburi, mas se paro para pensar, cenas lindas me surgem na memória. Lembro-me do carinho de Marcia com cada mulher que lhe abordava, com cada uma das “meninas das bandeiras”, cuja função ela gostaria de ter abolido devido ao sol escaldante do Rio. Vejo Marcia se agachando para olhar nos olhos daqueles a quem ela pedia voto. Lembro do seu sorriso de vergonha quando saímos pela primeira vez para distribuir material de campanha.

Por inúmeras vezes vi Marcia chorando por se sentir impotente diante da destruição que toma conta do estado do Rio de Janeiro. Ouvi outras incontáveis vezes ela dizer “Nós temos que ganhar essa eleição, olha como essa gente vive!”. Vi seus olhos incharem ao conversar com as mães da Rocinha, da Tavares Bastos, de São Gonçalo, de Padre Miguel. Vi Marcia se empolgar com o interesse das mulheres por política, sobretudo as mulheres negras. Senti sua emoção quando nos encontramos com a mãe de Marielle e Marcia proibiu o uso de seu nome em todos os seus atos de campanha. “Não vou usar Marielle”, ela disse.

Certa vez, quando voltávamos de uma caminhada no subúrbio do Rio, depois de termos visto cenas de puro descaso e muita miséria e abandono, Marcia teve uma crise de choro dentro do carro. “O que vai ser dessa gente? Quem vai cuidar dessas pessoas?”, me perguntou aos prantos. Numa visita a Duque de Caxias, parou um discurso no meio porque cruzou com o olhar de uma mãe esperançosa que a assistia. Novamente, chorou em silêncio. Quando conseguiu seu ônibus de campanha, o Tibus, celebrou: poderia levar com ela o maior número de mulheres possível e não andaria mais de carro sozinha, e sim com todas elas.

Em Brasília, quando fomos para o registro da candidatura de Lula, andamos perdidos a pé pela cidade abarrotada de manifestantes pela liberdade de Lula, além dos olhares de repreensão que recebemos no aeroporto, tivemos momentos de muito carinho e amizade. Por todos os lados, pessoas paravam Marcia pedindo fotos e declarando afeto. Em verdade, é preciso ressaltar quanto amor Marcia inspirou por onde passou, atravessando o ódio de quem a afrontava, e quanto amor também recebeu. Lembro que em Brasília, perto de perdermos o voo e longe de conseguirmos um Taxi, ganhamos carona de uma fã que não parava de chorar enquanto nos levava ao aeroporto.

Em certa ocasião, eu passava pela rua quando um carro parou ao meu lado e o vidro escuro se abriu. Era Marcia, chorando, me pedindo que entrasse. O que foi? Perguntei aflito. “A vida é muito miserável”, ela me respondeu aos prantos. Em um dos muitos atos de campanha, Marcia havia encontrado com um grupo de crianças que lhe pediram ajuda. Duas das crianças já tinham também seus próprios filhos. Crianças criando crianças nas ruas do Rio de Janeiro. Nestes momentos, que foram muitos, nossos olhares se cruzavam e nós chorávamos. Chorávamos porque sabíamos que a vitória daqueles que não se importam com estas crianças se aproximava. Chorávamos porque era pesado demais. Chorávamos porque éramos cúmplices na dor.

Ao longo do caminho, quando conhecíamos mais do estado e do jogo da política, ainda que exauridos fisicamente, ganhamos mais voz, força e garra para seguir em frente. Minha fonte era Marcia. A dela, eu sei, era o povo. Marcia se descobriu uma grande interlocutora com a voz das ruas. Era lá onde gostava de estar, com as pessoas, dialogando, escutando. Com as mulheres da periferia, com os homens das favelas, com as crianças das ruas que corriam ao seu encontro.

Com uma equipe de trabalho pequena, abandonada por muitos, Marcia nunca deu um passo atrás durante todo o processo eleitoral. Foi muito duro assistir de perto uma pessoa tão doce e sensível enfrentar monstros tão cruéis e poderosos. Na era da desinformação, uma incansável força-tarefa tinha que dar conta de combater robôs e uma indústria de fake News que disseminavam absurdos escabrosos sobre ela.

Quanto mais a mensagem positiva de sua campanha e seu programa de governo se espalhavam, mais Marcia era atacada covardemente por aqueles que se escondem em suas casas, mas se mostram valentes nas redes sociais. Algumas postagens em sua página de campanha chegaram a receber mais de mil comentários de ataques contendo ameaças, calúnias e difamações, tanto a direita quanto à esquerda: o que não faltou a Marcia foi fogo amigo. De cabeça erguida, Marcia tentava encarar tudo com bom humor, sabendo que era só o início do um Brasil triste que se consolidaria meses depois com a posse de Jair e sua bolsomonarquia.

Vi Marcia ser atacada durante caminhadas. Vi Marcia ser atacada durante falas em locais públicos. Vi Marcia ser atacada durante as gravações de seus programas de TV. Vi o MBL editar, manipular e disseminar vídeos que a difamavam. Ouvi e li, ao seu lado, palavras e agressões tão malvadas que não me sinto a vontade para reproduzir aqui a baixeza dos xingamentos que a ela direcionavam.

“Eu sou forte, não se preocupe comigo”, ela dizia. E, de fato, força é um de seus maiores atributos. Talvez seja a força que provém da inteligência. Ao fim de todos os dias, depois de tantos atos de campanha, o que Marcia fazia era ir pra casa estudar. Estudar para saber mais do povo, conhecer melhor o que poderia oferecer até mesmo aqueles que a achincalhavam e a linchavam virtualmente.

No dia das eleições, fomos juntos votar em um colégio tradicional no Flamengo. Ali, o horror dos horrores. Vaiada desde que saiu do carro, por pouco não foi agredida pelo ódio fascista daqueles que ali estavam. Uma senhora que aparentava ter idade para ser sua mãe, encostou seu rosto no dela para gritar, odiosamente, que ela não iria ganhar nunca, chamando-a de imunda. Meu peito apertava, Marcia se assustava, mas seguia em frente. Naquele dia, respiramos aliviados, horas depois, pois havia acabado o inferno da corrida eleitoral. Ela cozinhou pra mim e rimos como dois amigos. Essa Marcia, pensei, os maldosos deveriam conhecer antes de espalharem inverdades.

Qual o pecado de Marcia Tiburi, afinal?

Enquanto eu, ingenuamente, pensava que conhecendo Marcia como eu conhecia as pessoas teriam uma outra percepção e menos ódio, me peguei pensando: afinal, por que odeiam tanto alguém que não conhecem? Qual o pecado de Marcia? A resposta é o medo. As pessoas têm medo de seres humanos como Marcia Tiburi. Um medo que nasce da inveja, mas medo. Uma mulher poderosa, que impõe suas ideias, escritora de sucesso, acadêmica premiada, personalidade relevante. Sua figura impunha medo e recebia o troco.

Quando Marcia sacode o establishment e escancara, sem medo, suas convicções, sendo mulher, ela extrapola o lugar que é concedido a ela no sistema de castas fascista que vem se tornando o Brasil. Com a eleição de Jair Bolsonaro ao poder, perde a esquerda, mas perde muito mais a direita brasileira. Quando o escárnio do horror se legitima com a faixa presidencial, qualquer possibilidade de soberania democrática, inclusive a pregada pela direita liberal, e de respeito aos direitos individuais desaparece. E figuras como Marcia, cuja existência e atuação questionam naturalmente este sistema, se tornam alvo fácil. Não é mais sobre direta e esquerda.

Deixa de ser apenas cruel e assustador quando as leviandades atingem o patamar das ameaças físicas. Deixa de ser apenas uma dor de cabeça quando você não tem mais a segurança de participar de um evento literário sem esquemas de proteção. Passa-se ao que devemos chamar o que se vive a partir de agora: um estado de exceção.

Derrotada nas eleições, a vida seguindo como escritora e colunista, Marcia não pode mais continuar com sua vida normalmente. Tornou-se alvo daqueles que nominam o período atual de “Nova Era”. Nesta nova era, jornalistas são ameaçados pelo presidente via twitter. Nesta nova era, parlamentares renunciam ao posto por ameaças de morte. Nesta nova era, pensadoras como Marcia Tiburi e Débora Diniz podem até dizer o que pensam, mas precisam buscar um lugar seguro para viver e preservar a integridade física.

A reação debochada daqueles que também a atacam é a prova de que há em curso um estado de exceção. Quando percebe-se que o direito à liberdade de expressão é atacado de forma tão doentia pelo exército de seguidores iludidos do bolsonarismo (que é nada, mas um nada perigoso), é preciso ter cautela para analisar os contextos.

Vejamos: vivemos sob a tutela de um governo mentiroso, reunido ao redor de uma figura medíocre, inapta e inconsequente, que governa cercado de seus filhos e se dirige à nação utilizando o Twitter como um adolescente usa para resolver conflitos de sala de aula. O Governo brasileiro virou um picadeiro sem graça, onde tudo é possível dentro do absurdo. Neste estado pós-democrático, onde a verdade não vale mais nada, ou melhor, onde se cria verdades convenientes, a desinformação tem sido a maior e mais perigosa das armas.

O modus operandi explícito é o da inconsistência e da bagunça organizada. Tudo parece muito desordenado, no entanto segue uma cartilha que nos levará ao pior. Enquanto o presidente tuíta absurdos e leva seus 3,4 milhões de seguidores a reações raivosas, contradizendo seus próprios atos e induzindo a erro o povo que o elegeu, o projeto de poder bolsonarista cresce na “surdina”, cercado pela equipe de governo mais militarista desde o período da Ditadura Militar.

O resultado não pode ser mais catastrófico. Estes que temem Marcia Tiburi, Diniz, Jean e tantos outros, estes que celebram o exílio de quem teme pela própria vida, estes pensam ter vencido neste jogo, mas estão prestes a descobrir que são peças descartáveis no tabuleiro do fascismo. Não há lugar para eles quando não há lugar para quem quer defendê-los de sua própria mediocridade. Não haverá lugar para eles quando o fascismo parar de brincar e resolver jogar de verdade com os peões brasileiros.

Com tristeza imensa eu acompanhei a saída de Marcia do Brasil. Com o peito apertado eu me despedi, pois sei o que significa assistir pensadores terem de deixar seu país quando viver nele se torna insustentável. É difícil ver Marcia ter que optar morar longe seu país, pelo qual tanto lutou e luta. Sei de sua dor, sei da dor que sofrerá o país. Neste cenário dominado pelo caos, é forte a mensagem que nos transmite com sua decisão. Mas fico feliz por saber que ela busca, mais uma vez, com mais força, com mais garra, seguir, onde quer que esteja, pensando e registrando nossos tempos, nossas barbáries e lutando por sua existência de mulher num mundo tão misógino que a expulsou de seu próprio país.

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QUANDO A VACA IGNORA O BREJO https://www.ocafezinho.com/2017/12/06/quando-vaca-ignora-o-brejo/ https://www.ocafezinho.com/2017/12/06/quando-vaca-ignora-o-brejo/#comments Thu, 07 Dec 2017 00:49:46 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=81866 2 Comentários 🔥]]> Por Ronaldo Bicalho (*)

No último fim de semana, o Estadão trouxe dois textos que sintetizam a pobreza de ideias que marca o debate atual sobre o setor elétrico brasileiro. A discussão é desanimadora e atinge a profundidade de um pires com água que uma formiguinha atravessa sem molhar os joelhos.

O primeiro deles, da jornalista Renée Pereira, aponta a preocupante perda de competitividade da indústria brasileira em função do aumento das tarifas de eletricidade, e o segundo, do consultor Adriano Pires, aborda a privatização da Eletrobras

O texto de Renée Pereira chama a atenção de um tema crucial da crise estrutural que atravessa o setor elétrico no país. No entanto, salto aos olhos a ausência desse caráter estrutural nas respostas dos agentes públicos e privados entrevistados na reportagem.

A exaustão do modelo de operação e expansão da indústria elétrica brasileira baseado na hidroeletricidade, com todas as suas drásticas implicações sobre a segurança do abastecimento elétrico, está completamente fora do quadro de argumentos apresentado pelos inquiridos pela repórter para justificar tal perda de competitividade.

São Pedro, como sempre, carrega grande parte da culpa. Como de costume, são as chuvas as causas das nossas infelicidades elétricas.

Nada é dito sobre a completa inadequação do nosso modelo de comercialização à nova realidade de esgotamento da nossa base tradicional de recursos naturais. Nada é levantado em torno dos enormes desafios envolvidos na transição em direção a uma nova base. Nada é abordado sobre os grandes obstáculos presentes na introdução das novas renováveis, tanto aqui quanto no mundo. Nada, nada e nada. Apenas o silêncio ensurdecedor dos ignorantes. Ignorância funcional que não nasce do desconhecimento do assunto, mas da intenção deliberada de ignorar tudo aquilo que coloque em xeque as propostas atuais de privatização da Eletrobras e de reestruturação setorial.

Desse modo, a garantia da disponibilidade física, do acesso econômico, da sustentabilidade ambiental e social do suprimento de energia elétrica no médio e no longo prazo, no contexto de uma dramática transição elétrica, problema central da política energética brasileira para o setor elétrico, não está posta na mesa das nossas autoridades e dos nossos especialistas.

Isto não é gratuito. Transformar a discussão sobre segurança energética em uma discussão sobre Estado versus Mercado tira o foco daquilo que deveria ser o essencial no debate sobre a crise brasileira na atividade elétrica. Focar naquilo que não é relevante é um recurso muito útil quando se deseja justamente esconder o essencial. E aqui o essencial é muito claro: o essencial é a transição elétrica. Esse é o tema fundamental da crise brasileira e que, portanto, subordina os demais e estrutura o debate.

Cabe notar que não estamos falando de um setor econômico qualquer, mas do setor elétrico; não estamos falando de um setor elétrico qualquer, mas do setor elétrico brasileiro; não estamos falando de um momento do tempo qualquer, mas do momento atual do setor elétrico brasileiro. Ou seja, não estamos discutindo princípios gerais, mas um problema bastante específico; ou seja, estamos discutindo um setor específico, em um país específico, em um momento específico.

Quem quer discutir princípios gerais e dar testemunhos de fé que vá procurar um púlpito para fazer isso.

Nesse sentido, os agentes do Estado e do mercado envolvidos com o setor elétrico no Brasil, diante da óbvia inadequação crescente entre as atividades econômicas intensivas em energia, pelo lado da demanda, e o forte estreitamento da base de recursos naturais hidráulicos, pelo lado da oferta, têm apresentado uma cegueira estratégica desqualificante. É evidente que a competitividade de uma parte significativa da indústria brasileira foi construída a partir da disponibilidade de energia elétrica abundante e barata (principalmente depois do II PND). Energia abundante e barata de origem hidrelétrica advinda do aproveitamento de um generoso potencial hidráulico.

Se esse potencial se esgotou, não precisa ser um gênio para chegar a conclusão que a fonte de energia abundante e barata secou e, por tabela, a competitividade, ceteris paribus, foi para o vinagre.

Considerando que não há nenhuma nova fonte de insumos abundante e barata para colocar no lugar, tá na cara que, como diz a galera, deu ruim.

O fundamental em um momento como esse é ter uma visão estratégica sobre a segurança do suprimento elétrico do país; é ter claro qual o papel do Estado na garantia desse suprimento e quais os recursos estratégicos que esse Estado vai deter em suas mãos para garantir a segurança elétrica diante de um quadro no qual essa segurança é colocada em xeque. A reestruturação do setor, a privatização da Eletrobras, por exemplo, devem estar subordinadas a esta questão crucial. Afinal é ela que pode estruturar e dar consistência ao conjunto de políticas públicas para o setor elétrico do país neste momento. O contrário é o exercício do oportunismo voluntarista no vazio descompromissado das irresponsabilidades.

Imagine que historicamente o seu jogo foi armado em cima de um conjunto de jogadores brilhantes. Esses jogadores estão chegando ao fim de carreira e isto terá consequências enormes na competitividade do seu time. Como encontrar uma nova forma de jogar baseada nos novos jogadores disponíveis? Como inventar uma nova maneira de jogar e continuar sendo um grande time? Como fazer isso em um momento em que todos os times estão tentando se reinventar, empurrados, no limite, pelo mesmo motivo que o seu que é o esgotamento da base de jogadores?

Será que, diante desse quadro, vender o time é a melhor proposta que se pode encontrar?

O problema é que no estágio atual do problema vender o time não resolve. Em um momento de mudança profunda a grana só não resolve. De fato, eu não preciso de um Al Khelaifi, milionário árabe dono do PSG, mas de um Pep Guardiola que reinvente o meu time. Um novo jogo está surgindo e com ele uma nova forma de jogar. Quem é craque hoje pode deixar de ser amanhã. O que é valorizado hoje pode não ser amanhã. Por isso o que importa não é a grana; o que importa é a imaginação.

Pedir imaginação não é bobagem. A construção de um setor elétrico sofisticado como o nosso exigiu uma grande dose de imaginação das gerações passadas. O que se pede é que estejamos à altura dos desafios do país.

O artigo de Adriano Pires peca justamente pela incapacidade de fugir da pequenez do debate em que nos metemos, com seu vazio de soluções desestruturadas.

Não é gratuito que a questão fundamental do setor elétrico brasileiro esteja ausente do texto. Discutir transição, nem pensar. Vamos de privatização porque é o que temos pra hoje na gôndola do nosso supermercado pobre de ideias.

Assim, ao longo do artigo o autor desfia um conjunto de argumentos requentados do receituário dos anos noventa. Recorre a receita da superioridade da gestão privada sobre a gestão pública para sair da crise. Utiliza a dívida da Eletrobras como desculpa para a sua inviabilização como empresa estatal, escondendo os fatores decisivos na formação dessa dívida: as distribuidoras e a MP 579. Não é à toa que a desova dessas distribuidoras e a suspensão dos efeitos tarifários da referida MP são condições sine qua non para a privatização da empresa. Sem esquecer, a referência à liberalização de recursos para a educação e para a saúde, o que, no contexto do governo atual de assalto a direitos sociais e farra de isenções fiscais, é um escárnio. Também, não ficam esquecidas as promessas de salvamento do São Francisco para aquietar as desconfianças nordestinas em relação ao destino da CHESF. (Para ver a crítica detalhada do Instituto Ilumina ao texto em questão clique aqui).

Esse último item é uma pérola do atual momento brasileiro do me engana que eu gosto. O problema do São Francisco, complexo e histórico, embute a explosiva questão do uso múltiplo das águas, que faz com que na maioria dos países a gestão dos reservatórios fique nas mãos do Estado. Até as pedras das ruas sabem que uma recuperação à vera do velho Chico envolve fortes restrições ao uso das águas para a geração. Estas restrições fatalmente irão bater no potencial de geração das usinas dessa bacia e, portanto, na sua rentabilidade/atratividade. O resultado final, tá na cara, é a redução do valor desses ativos. A pergunta que fica no ar é quem está fazendo o papel de otário: quem está apostando na promessa de uma revitalização futura do rio porque acha que ela vai ocorrer; ou quem está apostando na compra de um ativo cheio de restrições à sua rentabilização porque acha que elas não vão ocorrer?

Porém, para que não se diga que o autor não falou de flores, o último parágrafo afirma que não basta a privatização, mas é necessário também o equacionamento do risco hidrológico (GSF) e a consolidação do novo modelo do setor elétrico.

Assim, ao final, como naquela piada em que o cara afirma piamente que basta um copo de água para curar uma dor de cabeça, desde que isso seja acompanhado por uma aspirina, Pires coloca dois pontos verdadeiramente relevantes. Contudo, nada afirma sobre como seria o novo equacionamento do risco hidráulico, tampouco como seria a consolidação do novo modelo do setor.

E não o faz pelo simples fato de que provavelmente não saiba como fazê-lo. O que, por justiça, é bastante razoável, considerando que hoje, de fato, ninguém sabe muito bem como realizar tais tarefas, dada a imensa complexidade nelas envolvidas (Me desculpem, mas soluções tipo separação lastro-energia não valem porque nem os autores sabem bem como fazer isto, tampouco suas consequências. Afinal, até o voluntarismo oportunista tem limites). Pires, sabiamente, não cai nessa armadilha. Reza pelo milagre, mas não aponta o santo. Caso isso não aconteça, não será por falta de reza, mas por falta de santo.

Assim, depois de passar parágrafos e mais parágrafos defendendo a privatização da Eletrobras, o autor reconhece que o jogo é muito mais complexo que isso e encerra rapidamente a sua participação no espetáculo porque sabe perfeitamente que a tigrada não está interessada em complexidade e sim em negócios.

E neste sentido, a privatização da Eletrobras é um negócio; a desova das distribuidoras é um negócio; o novo equacionamento do risco hidráulico é um negócio e o novo modelo do setor também é um negócio.

A disputa aqui é quem fica com a Eletrobras; quem fica com as distribuidoras; quem fica com o mico do GSF; quem fica com a energia barata que restar (de preferência via mercado livre – sonho acalentado por nove entre dez grandes consumidores de energia. A propósito, o que não acredita nisso é o único sensato).

É uma disputa de desejos conflitantes em que “um movimento de convergência e união dos interesses dos agentes de governo e de mercado em todos esses processos, para que o setor se recupere, sob o risco de um desastre tarifário, físico e financeiro” – como deseja Pires – é simplesmente uma impossibilidade.

Pelo simples fato de que as instituições brasileiras simplesmente foram para o vinagre, tornando um desastre tarifário, físico e financeiro no setor elétrico uma possibilidade real e concreta.

Em suma, os dois textos do final de semana do Estadão demonstram que, por um lado, os nossos liberais elétricos ficaram nos anos 1990s e não têm nada a dizer sobre o que está acontecendo no setor elétrico aqui e no mundo. Por outro lado, os agentes de governo e de mercado estão encalacrados em um jogo pequeno, marcado pela busca de vantagens imediatas, de pequenos negócios, de tacadas salvadoras, que não tem a menor chance de estruturar uma saída para os graves impasses que definem o difícil momento do setor elétrico brasileiro.

Na verdade, a vaca, senhores, foi solenemente para o brejo. A luta hoje é evitar que ela morra afogada. Se isto acontecer, em bom português, já era. Por isso, seria muito bom que os responsáveis pelo setor parassem de fazer bobagens e sandices e tivessem o mínimo de bom senso. Se não por inteligência, ao menos por uma questão de sobrevivência. O país agradeceria.

(*) Pesquisador do GEE/IE/UFRJ e Diretor do Ilumina

 

Fonte: http://www.ilumina.org.br/quando-a-vaca-ignora-o-brejo-artigo/

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SENADO, PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA E A PRIVATIZAÇÃO DA ELETROBRAS https://www.ocafezinho.com/2017/10/19/senado-presidencia-da-republica-e-privatizacao-da-eletrobras/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/19/senado-presidencia-da-republica-e-privatizacao-da-eletrobras/#comments Thu, 19 Oct 2017 02:09:42 +0000 https://ocafezinho.com/?p=79946 8 Comentários 🔥]]> A absolvição do senador perdedor nas eleições presidenciais de 2014, em (17/10/2017) no senado, revelou um acordo entre senadores e ao mesmo tempo um recado: estão em guerra contra o povo e estão juntos. Outro acordo também foi firmado, para além do senado, na CCJ que ontem, absolveu pela segunda vez quem ocupa de forma ilegítima a presidência do país. Tudo regado a cargos, emendas parlamentares não investigadas ministério público federal. Vamos agora para o plenário, observar atentamente como vota cada deputado e deputada.

Estamos com um poder executivo desmoralizado, um judiciário desmoralizado, que ora dá sentença em favor de uns, ora em favor de outros – sempre criminalizando a classe trabalhadora – e com um legislativo também desmoralizado ao salvar uns e condenar outros em movimentos sistematicamente seletivos. Fechou o ciclo de desmoralização das instituições do país. Há outro poder desmoralizado, o quarto e imundo, a mídia tradicional, não menos seletiva e tendenciosa.

Após serem salvos, mesmo que com robustas e conhecidas provas, seguimos com o circo de hororres em um país que sangra e clama por socorro.

O ministro de minas e energia, exonerado para cumprimento de tarefas na câmara, poderá depois voltar à função e partir para o desmonte do setor elétrico. É o que nos está reservado no próximo período: resistir à privatização e entrega do setor mais estratégico do país. A privatização da Eletrobras, caso seja realizada, vai significar um dos piores retrocessos para nosso povo, juntamente com a entrega do pré-sal, da Petrobras e demais empresas estatais.

A privatização da Eletrobras, reaparece na mídia com a declaração do presidente da holding, dizendo que a energia não vai subir, que a longo prazo vai inclusive baixar. Tudo isso regado a bastante corrupção, compra de votos e falta de legitimidade. O projeto vencedor nas eleições presidenciais de 2014 era contrário a entrega da soberania nacional. Só estão tentando entregar nossas empresas, por que deram um golpe de estado com característica de traição, contra uma presidenta eleita, contra um projeto e contra 54 milhões de eleitores e eleitoras.

Junto com os eletricitários, no mesmo lado do balcão, cresce a indignação de milhões de trabalhadores e trabalhadoras que enxergam dia após dia, seus direitos conquistados ao longo de mais de cem anos de luta, indo para o ralo. A falta de perspectiva de empregos no mercado privado também assusta, ainda mais quando o ilegítimo governo ataca de forma covarde os postos de trabalho internos. Faz isso incentivando e tirando as garantias de proteção à força de trabalho brasileira e relaxando com as políticas de combate ao trabalho escravo. Movimentos até pouco tempo inconcebíveis. É inacreditável parecendo um pesadelo.

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Nunca este ditado popular se encaixou tanto para milhões de profissionais que lutaram para conquistar uma profissão e agora enxergam somente desesperança. Com o desmonte das empresas de engenharia no país, não há para onde correr. Junto com trabalhadores e trabalhadoras, há milhares de jovens, recém formados, que perdem a esperança de obter empregos no mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

Temos hoje um estado que está equipado com uma polícia bem treinada, que descarrega sua ira contra uma população desprotegida e despreparada para a repressão. Covardemente são treinados para atacar o povo, iniciando pelos professores e se estendendo a todos e todas que lutam por condições melhores para si e seus semelhantes. O estado policialesco é covarde e exerce uma força desproporcional devendo diariamente ser denunciado e nunca naturalizado.

Cada vez mais percebemos a importância de um estado forte e protetor do povo. Cada vez mais percebemos que somos povo e sentimos saudade de sermos tratadas com um mínimo de humanidade. Cada vez mais sentimos saudade de ser governados por gente que entende o que a população sente, o que necessita e o que deseja.

Por fim, após estas ideias soltas e aparentemente desconectadas, vamos cantarolando com Chico esta canção tão atual como nos anos de chumbo, em uma resistência histórica contra este golpe de estado tão indesejado ocorrido em 2016.

Vamos também cultivando um sentimento de esperança, que a cada dia que passa cresce mais com a possibilidade de termos novamente um representante do povo à frente do nosso querido Brasil.

Apesar de Você
Chico Buarque

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
Lá lá lá lá lai

 

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Michel Temer: as segundas intenções de um virgem no bacanal político do Brasil https://www.ocafezinho.com/2016/07/19/michel-temer-as-segundas-intencoes-de-um-virgem-no-bacanal-politico-do-brasil/ https://www.ocafezinho.com/2016/07/19/michel-temer-as-segundas-intencoes-de-um-virgem-no-bacanal-politico-do-brasil/#comments Tue, 19 Jul 2016 22:20:30 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=50699 7 Comentários 🔥]]> Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Por Tadeu Porto* (@tadeuporto), colunista do Blog O Cafezinho

Hoje o jornal O Globo noticiou, sem dar muitos destaques naturalmente, que Eduardo Cunha intermediou encontros entre o então vice-presidente Michel Temer e o ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo.

Nesse sentido se tem, no mínimo, uma relação institucional interessante. Por um lado, um empresário réu confesso que superfaturou obras e abusou de apoio político para ganhar licitações e enriquecer cada vez mais; por outro lado, um (preste a ser ex) legislador que tem contas ilegais na Suíça, mentiu para o país inteiro numa CPI e é considerado, por muitos, o político mais corrupto do país; e por outro mais, completando esse tripé, temos um membro do executivo, presidente interino, que é …… um santo.

Isto é, no ciclo vicioso das doações empresariais tem-se o empresário com dinheiro (Azevedo, réu confesso), o parlamentar para legislar projetos de interesse do capital (Cunha, [quase] culpado) e o ex-presidente do partido que recebeu o doário (Temer).

Em outras palavras, o pobre Michel Temer está parecendo a personagem da premiada atriz Reese Witherspoon no filme Segundas Intenções (Cruel Intentions, 1999): uma reles inocente que se vê envolvida num triângulo amoroso com dois sociopatas criminosos.

O ex-presidente do PMDB chegou ao poder, por um golpe, justamente para “passar o Brasil a limpo” e “acabar com toda essa corrupção sistêmica e institucional, iniciada em 2003”. E agora vê seu nome ligado a acusações – que os astros ainda mostrarão serem levianas – de propinas no Porto do Santos, doações ilegais e reuniões investigadas pela Polícia Federal.

Nesse momento, o Brasil assiste apreensivo esse episódio: não é possível que o homem de unificação, o escolhido para dizimar a corrupção das páginas da história brasileira apareça em tantas acusações. É certo que o vice-presidente não só tem um certo “dedo podre” para ministros – cada hora um diferente aparece em alguma investigação – como também deposita suas tarefas difíceis na fé errada, mas isso não deve passar de azar, afinal, um político que usa mesóclise nunca será corrupto [jamais! São coisas incompatíveis].

Fico aqui pensando com meus botões: será que Michel é tão corrupto quanto Eduardo ou Otávio? Ou ele apenas cumpre seu dever constitucional dentro da lei, recorrendo ao parlamentares e empreiteiros, mesmo que criminosos, somente quando é necessário para o bem do povo brasileiro?

Bom, prefiro acreditar em segundas opções. Todavia, sou um milhão de pessoas diferentes de um dia para o outro e, nessa sinfonia doce e amarga que é a vida, minha opinião pode mudar de repente, como a trilha sonora de um filme.

Tadeu Porto é diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense

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Torquato Jardim pode ser o próximo ministro a cair: por declarações semelhantes, Cid Gomes não resistiu ao cargo. https://www.ocafezinho.com/2016/06/03/torquato-jardim-pode-ser-o-proximo-ministro-a-cair-por-declaracoes-semelhantes-cid-gomes-nao-resistiu-ao-cargo/ https://www.ocafezinho.com/2016/06/03/torquato-jardim-pode-ser-o-proximo-ministro-a-cair-por-declaracoes-semelhantes-cid-gomes-nao-resistiu-ao-cargo/#comments Sat, 04 Jun 2016 01:23:33 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=47347 14 Comentários 🔥]]> Por Tadeu Porto (@tadeuporto), colunista do Blog O Cafezinho*

O novo ministro do MINTRAFICO (ministério da transparência, fiscalização e controle), Torquato Jardim, deu uma série de declarações polêmicas, segundo áudio que pode ser conferido na matéria do Estadão, num Congresso sobre ciência política e direito eleitoral no Piauí, evento do qual foi palestrante, realizado em meados de Maio.

Entre as falas controversas, o ex-TSE disse que no congresso o bloco chamado de Centrão – formado por treze partidos e que possui, aproximadamente, 220 deputados – foi montado “em nome da corrupção e safadeza”, além de dizer, também, que os partidos políticos nacionais são “balcões de negócio”.

Bom, eu, um mero cidadão comum, achei um máximo as declarações do Torquato e concordo com boa parte do áudio que escutei que reproduzem as falas dele. Todavia, podem ter pessoas que não gostem muito das declarações e peçam a cabeça do mais novo ministro do governo usurpador.

É o caso dos deputados federais, que convocaram Cid Gomes após uma declaração semelhante e exigiu a saída dele do governo, logrando êxito, pois o politico cearense pediu demissão logo após as explicações (que viraram acusações históricas, diga-se de passagem) no parlamento.

Para recordar, o irmão do Ciro Gomes falou para estudantes numa universidade do Pará que o legislativo “tem lá uns 400 deputados, 300 deputados que, quanto pior, melhor para eles. Eles querem é que o governo esteja frágil porque é a forma de eles achacarem mais, tomarem mais, tirarem mais, aprovarem as emendas impositivas” [não falou mentira nenhum, convenhamos. Deveria ganhar o Óscar da honestidade de 2015].

E o curioso é que o ministro da educação hoje, Mendonça Filho (DEM-PE), foi quem convocou o Cid, ex-MEC, para dar explicações no plenário da câmara acerca da declaração.

Será que Mendonça deseja que seu companheiro de governo vá ao legislativo explicar a expressão – talvez mais forte que a de Gomes – que partidos do centrão construíram uma bancada de corrupção e safadeza? Será que a base aliada de Eduardo Cunha, ou do Temer, que não aceitou ser chamada de achacadora vai se dar bem com a alcunha de corrupta?

Nada como esperar um dia após o outro.

Hoje é sexta-feira, e o paredão do BBB Temer está no ar, com toda a possibilidade de fazer sua próxima vítima. Jucá e Silveira, talvez não coincidentemente, deixaram de trabalhar numa terça-feira, dia de eliminação.

Tá certo que está difícil escolher quem eliminar: tem secretária que é investigada pela PGR e ministro do turismo com “indícios bastente seguros” contra. Tudo leva a crer num paredão triplo.

Aguardaremos as cenas do próximo capítulo.

*Tadeu Porto é Diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF)

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https://www.ocafezinho.com/2016/06/03/torquato-jardim-pode-ser-o-proximo-ministro-a-cair-por-declaracoes-semelhantes-cid-gomes-nao-resistiu-ao-cargo/feed/ 14
Os erros de Temer abafados pela mídia é a meritocracia da incompetência https://www.ocafezinho.com/2016/06/01/os-erros-de-temer-abafados-pela-midia-e-a-meritocracia-da-incompetencia/ https://www.ocafezinho.com/2016/06/01/os-erros-de-temer-abafados-pela-midia-e-a-meritocracia-da-incompetencia/#comments Wed, 01 Jun 2016 13:48:32 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=46967 2 Comentários 🔥]]> Por Tadeu Porto (@tadeuporto), colunista do Blog O Cafezinho*

Ontem tive que me preparar psicologicamente depois de ler a cativante coluna da Eliane “massa cheirosa” Cantanhêde que dizia, entre outras coisas, que “o esforço para derrubar Temer, neste momento, é trabalhar contra o Brasil” (a versão do Brasil, ame-o ou deixe-o como bem colocou meu ídolo Fernando Brito no Tijolaço).

Quase chorei consumido pela culpa de lutar contra um presidente conspirador que colocou em prática o projeto derrotado nas urnas. 

Logo após, já estabilizado emocionalmente e muito curioso, fui buscar na mídia alguma crítica ao vice presidente golpista pelos erros grosseiros, não só acabar com a exitosa Controladoria Geral da União (CGU), mas também de colocar um articulador de corruptos no cargo.

Pra minha não surpresa, achei nada. Nem um “fora Temer” na grande mídia ou na página do MBL (que recebeu ajuda do PMDB por coincidência, eu acho).

As críticas que existem sobre Fabiano Silveira são exclusivamente dirigidas a ele, poupando, vergonhosamente, a escolha do presidente interino que resolveu inventar moda justamente no órgão responsável pelo combate a corrupção que nunca antes foi visto na nossa história.

Não obstante ao erro bisonho da escolha de um ministro da transparência que foi pego articulando a favor da obscuridade, fica ainda mais sinistra a tentativa de livrar a cara do Temer quando juntamos as peças dos áudios do Romero Jucá (homem forte do vice conspirador) que coloca de maneira muito clara um plano para colocar o Michel num grande acordo nacional, com supremo e tudo (!!!), para delimitar a lava jato.

Oras, vamos fazer um pequeno exercício de abstração: 1) Temer, segundo Romero Jucá, é o homem de um pacto nacional; 2) Esse mesmo Jucá vira ministro de planejamento do presidente interino mostrando, consequentemente, um avanço no que foi demonstrado nas conversas com Machado; 3) a operação Lava-Jato é combate a corrupção fruto de uma política que aconteceu com a CGU e Temer além de extinguir esta controladoria , fez um novo ministério e coloca um ministro que segue a cartilha apontada nas conversas entre o presidente do PMDB e o ex-presidente da Transpetro.

Sendo assim, cadê a dificuldade em imaginar que Fabiano Silveira foi colocado premeditadamente por Michel Temer para dificultar o acesso à dados e fatos, proveniente de uma política eficiente de transparência?

Onde está a complexidade em deduzir que modificar (leia-se atrapalhar) o trabalho concreto de uma controladoria da União caminha junto com as palavras do Sérgio Machado e do Romero Jucá que “a solução mais fácil era colocar o Michel” porque “delimitava [a lava jato] onde está”?

Bom, para nossa mídia é bem difícil enxergar que o Michel Temer encabeça uma articulação golpista de manutenção de poder. E olha, se a gente quiser criticar o usurpador – mesmo com essas cagadas concretas – pessoas influentes (infelizmente) como Eliane vai querer nos convencer que estamos jogando contra o Brasil.

E assim vai Michel, o usurpador: podendo cometer o erro que quiser, “fazendo experimentos” (palavras do ministro Gilmar mostrando que o STF também cultua a incapacidade e a mediocridade) com a nossa República como se fosse um lego para uma criancinha de 7 anos quebrar ou colocar peças na boca. O que seria até legal se não se tratasse do futuro do país e de uma aristocracia que passa a mão na cabeça da incompetência de um fantoche chamado de presidente em exercício para utilizá-lo no seu plano perverso – de mais de 500 anos – de perpetuação de poder.

Essa é a meritocracia do Temer: erre ou acerte, muito ou pouco, faça o trabalho da elite que vamos dar um jeito de te safar.

Tadeu Porto é petroleiro e diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (SindipetroNF)

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Michel Temer segue exitoso em unificar o Brasil: cada vez mais são todos contra ele https://www.ocafezinho.com/2016/05/30/michel-temer-segue-exitoso-em-unificar-o-brasil-cada-vez-mais-sao-todos-contra-ele/ https://www.ocafezinho.com/2016/05/30/michel-temer-segue-exitoso-em-unificar-o-brasil-cada-vez-mais-sao-todos-contra-ele/#comments Mon, 30 May 2016 18:48:37 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=46749 3 Comentários 🔥]]> Créditos pela charge: Duke (http://dukechargista.com.br)


Por Tadeu Porto, colunista do Blog O Cafezinho*

 

Sábado e domingo foram, respectivamente, dois tapas na cara – daqueles de cena de novela – da nação brasileira que acredita em qualquer possibilidade de melhorar a política praticada no país.

Primeiro um tapa com a palma da mão aberta na bochecha verde com o encontro as escondidas do presidente usurpador Michel Temer com o ministro do STF “habeas corpus para estuprador” Gilmar Mendes, logo depois da revelação de Jucá, homem forte do PMDB, que existiria um pacto, com o supremo e tudo, para colocar Michel no poder e parar a sangria da lava-jato.

Mas não ficou só por aí: um dia depois apareceu um “contratapa”, com o dorso da mesma mão, trêmula, já na extremidade amarela, com a divulgação de um áudio que coloca o ministro da transparência de Temer (aquela aberração criada para acabar com a ótima experiência da Controladoria Geral da União) negociando uma saída para Renan Calheiros nas investigações.

Não sei não, mas parece que as duas faces, verde e amarela, parecem ter ficado vermelhas, não se sabe pela vergonha de ter acreditado que não existia um golpe ou se pela ira da traição por ter pensado que a corrupção ia ser mesmo combatida.

Na altura do nível de desnudamento que a conjuntura política brasileira apresenta, com frases “displicentes e casuais” de caciques do maior partido de centro do país – que está sempre no poder – não duvidar de uma reunião secreta (sem agenda e nem pauta oficial) entre o presidente do TSE e da turma que vai julgar a lava-jato com o presidente interino é de uma ingenuidade que não cabe na luta por um país mais justo

Não obstante, é estarrecedor que a pessoa escalada para ser um ministro da transparência, fiscalização e controle (vai fiscalizar quem assim meu Deus do céu??), no caso do ex-CNJ Fabiano Silveira, apareça em conchavos com o presidente do Senado, órgão que foi responsável por, justamente, apontar o membro para o Conselho Nacional de Justiça, com a indicação de Renan Calheiros.

E assim não só as entranhas do golpe vão aparecendo, mas sim a sujeira de toda a política brasileira, com um presidencialismo de coalização que foi estruturado na base da chantagem e dos favores (e que a Dilma teve enorme dificuldades de praticar e, não por coincidência, é conhecida por não ter habilidade política).

Ademais, Michel Temer parece realizar o metade do objetivo que ele se propôs a fazer: unir e pacificar o país.

Bom, cada vez menos pessoas parecem defender um presidente que se cerca de velhas (e brancas) raposas da política, com todo o descaramento do mundo, para manter um status quo de uma democracia disfarçada que excluí a maioria da população brasileira em favor de interesses de uma pequena elite que não aceita largar o osso.

Nisso, Michel Temer mandou muito bem: uniu todo mundo contra as cagadas dele.

Só está faltando, agora, tentar garantir a paz. A renúncia é logo ali.

*Tadeu Porto [twitter: @tadeuporto] é Diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF)

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O SUS aterroriza os planos de Temer, como Galileu amedrontou a igreja. Ou a humanização que engole o conservadorismo https://www.ocafezinho.com/2016/05/18/o-sus-aterroriza-os-planos-de-temer-como-galileu-amedrontou-a-igreja-ou-a-humanizacao-que-engole-o-conservadorismo/ https://www.ocafezinho.com/2016/05/18/o-sus-aterroriza-os-planos-de-temer-como-galileu-amedrontou-a-igreja-ou-a-humanizacao-que-engole-o-conservadorismo/#respond Wed, 18 May 2016 15:38:26 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=45586 Por Tadeu Porto, colunista do blog O Cafezinho*

É sempre difícil tentar argumentar sobre determinado ponto de vista com experiências estritamente pessoais, afinal, temos um conjuntura muito complexa e a probabilidade de errar por desconsiderar muitas variáveis é grande. Contudo, peço aqui licença a leitores e leitoras para tentar essa façanha, com humildade, ponderando uma experiência que vivi nesses últimos nove meses.

Minha primeira filha, Valentina, nasceu antes de ontem dia 16 de Maio de 2016. Faço parte de um casal de primeira viagem nesse quesito prole, e, portanto, sem muito conhecimento prévio sobre nascimentos, gravidez e afins, procurei informações sobre o assunto para tentar passar por esse período da melhor maneira possível.

Confesso que tínhamos na memória, minha esposa e eu, que o Brasil é uma vergonha em termo de número de cesarianas. E foi a partir desse ponto que iniciamos um busca por um parto humanizado, trajetória essa que, confesso, me fez aprender muito mais coisas do que imaginava, como a importância para a saúde dx bebê, a maneira que diferentes culturas, no tempo e espaço, lidam com o nascimento, o impacto significativo da busca irresponsável do lucro nas tomadas de decisões pessoais e o debate, muito atual e importante, sobre empoderamento das mulheres.

Saber de grupos em mídias sociais que realizam uma discussão intensa e qualificada sobre o poder feminino para, entre outras coisas, lidar com algo tão difícil – físico e mentalmente – como um parto encheu meu coração vermelho de felicidade (honestamente, achei um processo de formação sensacional). Claro que nem tudo são flores, e a descoberta também trouxe tristezas como, por exemplo, saber que médicos e médicas, muitas vezes, forçam a necessidade de cesariana única e exclusivamente para encurtarem o tempo do trabalho de parto e ter a agenda livre para si, sem pesar os malefícios dessa cirurgia.

Toda a pesquisa que realizamos sobre partos mais naturalizados, além de nos fornecer um conhecimento libertador, nos fez encontrar um local adequado com nossas expectativas, um hospital público da grande BH, 100% SUS, chamado Sofia Feldman.

Entretanto, confesso que o Sofia não foi a nossa primeira escolha, na verdade foi [spoiler alert] a última, onde realizamos o parto com muita satisfação. E foi a minha falta de confiança no SUS que não me levou àquele hospital a priori, justamente por uma disputa ideológica que travei, internamente, entre o dogma massacrado em minha mente sobre a ineficiência dos serviços públicos versus as ótimas referências que buscamos e encontramos sobre o local.

Dicotomia essa que destaco – com um maniqueismo pragmático e não retórico – com exemplos da conjuntura atual, como: 1) a ideia conservadora de que a mulher não tem controle sobre o seu corpo e deve entregá-lo, sem pensar, a uma equipe médica (mesmo o parto não sendo uma doença), contra o pensamento libertário da mulher que, na prática individual, faz do corpo o que quiser, a hora que quiser, sabendo das dificuldades das dores mas que não são suficientes para pará-la; 2) A política nacionalista do serviço humanizado, que centra suas ações no bem do coletivo, contra a o desejo liberal das tomadas de decisões centralizadas na capacidade individual (geralmente de se fazer mais dinheiro) perdendo o foco nas consequências danosas ao meio; 3) Ou, como na revolução francesa, o posicionamento da esquerda sobre a garantia de direitos universais para todos contra a direção da direita de se manter os privilégios para uma pequena nobreza que goza da desigualdade.

Assim como Galileu bateu forte no narscisimo humano provando que a terra gira em torno de uma estrela que não pertence a nós ou que Darwin machucou a arrogância dos homens com a teoria da evolução, esse desespero de um grupo branco, velho e masculino de manter sua hegemonia – traduzido em medidas rasteiras e desleais como esse golpe de Estado – nada mais é do que a tentativa de se evitar, a todo custo, um corte epistemológico que leve o Brasil a superar séculos de iniquidade e benéfices parciais.

Essa agressão ao SUS, não coincidentemente dentre de uma ruptura institucional, representa, nada mais nada menos, o contra ataque dos conservadores assustados por ter que dividir conquistas e reparar as injustiças que os fizeram privilegiados. E do outro lado, na defesa da democracia, é notável a posição de progressistas que enxergam a necessidade de um olhar mais humano e empático para mitigar opressões sistemáticas e perversas, melhorando o bem estar comum.

Uma saúde pública de qualidade para toda população (sem deixar nenhum cidadão ou cidadã de fora) é um direito constitucional e assola a aristocracia brasileira – aquela elite que sempre concentrou riquezas e poder – simplesmente porque significa, no mínimo, dividir e observar o próximo ter algo parecido com o seu, o que dificulta muito algum tipo de acúmulo. Em outras palavras (já que o ministro da saúde quer consultar a igreja sobre o aborto): numa ceia, dividir o pão em pedaços e digerir o que lhe foi atribuído, significa comer menos do que o pão inteiro.

Fazer dar certo uma política gratuita e universal como o SUS significa tanto corrigir as injustiças históricas que nos fizeram chegar a esse nível absurdo de desigualdade social quanto acabar com as regalias oriundas do corporativismo plutocrático, que permitem – por exemplo –  auxílio moradia mensal para assalariados enquanto há cortes em programas habitacionais.

Sendo assim, acreditar no Sistema Único de Saúde e demais políticas públicas é um processo de resistência crucial que qualquer brasileiro ou brasileira, sabedor da situação arbitrária e danosa da nossa sociedade, deve praticar.

Por fim, combater o governo ilegítimo do Temer é, no mínimo, acreditar num país onde a desigualdade possa diminuir para o bem geral da população. E nada melhor do que lutar por um contexto de saúde de qualidade para toda nação como um dos melhores contrapontos a um golpe de Estado que envergonha o Brasil perante o mundo.


P.s. Aproveito aqui para agradecer toda a equipe do Sofia Feldman que nos atendeu por pouco mais de trinta horas. Recomendo demais o hospital, sem medo de errar! :)

*Tadeu Porto [twitter: @tadeuporto] é petroleiro e diretor do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, SindipetroNF.

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