Eleições 2016 - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/eleicoes2016/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Thu, 03 Nov 2016 17:20:14 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Eleições 2016 - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/eleicoes2016/ 32 32 Eleições Municipais: O que o Rio de Janeiro tem a dizer às Esquerdas https://www.ocafezinho.com/2016/11/03/eleicoes-municipais-o-que-o-rio-de-janeiro-tem-dizer-as-esquerdas/ https://www.ocafezinho.com/2016/11/03/eleicoes-municipais-o-que-o-rio-de-janeiro-tem-dizer-as-esquerdas/#comments Thu, 03 Nov 2016 17:20:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58832 6 Comentários 🔥]]> Por Carlos Eduardo Martins[1]

A derrota das esquerdas nas eleições municipais de 2016 no Rio de Janeiro, ainda que se tenha dado numa conjuntura de forte ofensiva eleitoral da direita no país, representa mais um episódio de revés numa trajetória recorrente de derrotas que se estende desde 1992. Como analisar a derrota de 2016 e as suas especificidades, no contexto desta longa duração de insucessos?

Um primeiro elemento para explicar a derrota das esquerdas desde 1992, é o alto nível de competição eleitoral entre suas principais vertentes, em particular durante o período de ofensiva ideológica neoliberal, o que impossibilitou a unidade numa mesma candidatura, impedindo o seu êxito eleitoral ou mesmo o ingresso de uma delas no segundo turno.

Assim a competição eleitoral entre PT e PDT que marcou o período de 1992-2000, impediu a vitória de Benedita da Silva no primeiro turno em 1992 – quando Benedita (PT) e Cidinha (PDT) somadas tinham mais de 50% dos votos válidos frente a uma direita dividida entre as candidaturas de Cesar Maia, Albano Reis, Amaral Neto e Sergio Cabral Filho –, impediu a ida ao segundo turno das candidaturas de esquerda em 1996 e 2000, divididas entre Chico Alencar e Miro Teixeira, ou entre Benedita da Silva e Brizola.

Em contraste com o resultado pífio de 1995 e 2000, a unidade das esquerdas PDT/PT na candidatura de Garotinho/Benedita, em 1998, impôs uma contundente derrota a Cesar Maia, de 58% x 42%, alcançando 4.260.000 de votos, mesmo durante o auge da onda neoliberal que garantiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno.

O fracasso desta experiência de governo, que resultou na ruptura de relações entre Brizola, Garotinho e o PT, implicou o desmonte desta unidade, e abriu o espaço para a marginalização eleitoral das esquerdas, apesar da vitória nas eleições para o governo do estado em 2002, ano de forte colapso da ofensiva neoliberal, quando o Rosinha Garotinho do PSB, Benedita da Silva do PT e Jorge Roberto Silveira do PDT atingiram 89% dos votos, somadas suas votações no primeiro turno.

Um segundo elemento para explicar a derrota das esquerdas foi a opção por parte dos governos Lula e Dilma de apoiar as candidaturas da base aliada em detrimento de uma candidatura própria de esquerda para o Rio de Janeiro. Assim Lula apoiou simultaneamente o PMDB e o PL em 2004, o PMDB e o PRB em 2008, ao lado das candidaturas do PT e do PC do B, que disputaram os espaços à esquerda com o PDT e o PSOL. Este ao surgir como dissidência do PT nas eleições de 2008, elevou ainda mais a competição interna nas esquerdas.

Em 2012, o processo de subordinação das esquerdas cariocas à base aliada se aprofundou quando Lula e Dilma articularam o apoio do PT e do PC do B à candidatura de Eduardo Paes, do PMDB. O resultado desta iniciativa foi a drástica queda das esquerdas no cenário eleitoral da cidade, que de 31,7% dos votos validos ou de 1 milhão de votos em 2004 passa a 18,4% ou 600 mil votos em 2008.

Em 2012, a anexação do PT, PC do B e PDT à candidatura Paes do PMDB permitiu ainda que por vias transversas, em razão do seu isolamento, o estabelecimento de uma candidatura única de esquerda, representada pelo PSOL que, estimulada pelo forte aumento do número de greves no país, alcançou 961 mil votos e 28,1% dos votos validos, reconstituindo o patamar de votos da esquerda na cidade em 2000, apesar de ter sido derrotada no primeiro turno.

O resultado todavia, esteve muito abaixo do patamar de votos alcançado pelas candidaturas de esquerda no primeiro turno de 1992, seja em número de votos, 1,3 milhão, ou em votos válidos;

Um terceiro elemento para explicar a derrota de 2016 foi a estratégia adotada pelo PSOL no pleito. Dissidência do PT, o PSOL vem procurando afirmar-se pelo resgate da tática purista do PT – de grande parte dos anos 1980 e ampliada aos anos 1990 no Rio de Janeiro pelo rechaço do PT local ao brizolismo – contrapondo-a ao centrismo e à capitulação dos governos Lula e Dilma diante da base aliada. Assim, se em 2006 lançou candidatura presidencial em coligação com o PCB e PSTU, em 2010 e 2014 apresentou-se isoladamente.

Nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro, de forma similar, apresentou-se sem coligação partidária em 2012 e 2016, restringindo-a ao PSTU em 2006. Todavia, fortemente limitada em sua base eleitoral às regiões mais ricas do Rio de Janeiro – Zonas Sul e Norte – necessitando ampliar sua penetração em áreas mais populares como a Zona Oeste, a candidatura Freixo/Luciana tinha duas opções para buscar esta penetração no segundo turno das eleições de 2016:

a) Explorar as contradições inter-burguesas, a partir das resistências que a Globo e os monopólios tradicionais dos meios de comunicação oferecem para a projeção política da IURD; ou

b) Articular uma frente de esquerda e centro-esquerda que contasse com a forte participação de Lula e do PT na campanha eleitoral do segundo turno[*], transformando-a num evento de mobilização político-ideológica que nacionalizasse o pleito municipal, tornando-o um instrumento de contraposição ao golpe de Estado que se aprofunda no país.

Temeroso de entrar em contradição com a sua base eleitoral, Freixo optou pela primeira alternativa que o impediu de reunificar as esquerdas sob nova orientação hegemônica, lançar uma nova alternativa político-ideológica para o país e romper com o paradigma competitivo e divisionista que tem sido central para a derrota das esquerdas no Rio de Janeiro.

Todavia, além disso, esta opção exigiu adaptações e mudanças em seu programa de governo e estilo de campanha para atender às exigências mínimas da Globo e seus aliados midiáticos e qualificar-se como alternativa aceitável à Crivella.

Assim, além de separar a eleição no Rio de Janeiro da questão nacional, de banir a expressão golpe de Estado, Freixo retirou do seu programa a proposta de reforma tributária progressiva, evitou questionar as isenções fiscais concedidas no Governo Paes, comprometeu-se com a estabilidade fiscal, condicionou o aumento dos investimentos à redução de gastos com custeio e cargos comissionados, adotou um estilo de campanha centrado em manchetes de O Globo, Veja e Estado de São Paulo que  bombardearam Crivella com escândalos pessoais, assumiu um discurso tecnocrático que supostamente recusaria indicações políticas para a escolha do seu secretariado, aceitou o veto de associações israelitas a integrantes da ala do seu partido que criticava os acordos de Oslo, como o suplente de Vereador, Babá.

Tal estratégia de penetração nas camadas populares fracassou rotundamente. Freixo alcançou no segundo turno apenas 250 mil votos a mais que obteve no primeiro turno em 2012, e contou para isso com o voto anti-Crivella, católico e laico-liberal, oriundo das zonas mais ricas do Rio de Janeiro, alcançando um perfil de votação regional muito similar ao de Aécio Neves.

Sua candidatura assumiu um perfil muito mais liberal-radical do que socialista, marcando-se pela defesa da transparência, da participação popular, do combate à corrupção, dos direitos identitários, do direito à mobilidade, e por um viés conservador no plano macroeconômico expresso no compromisso com a responsabilidade fiscal e com a redução da carga tributária para aumentar a arrecadação. A confrontação com os empresários se limitaria ao cartel das empresas de ônibus que seria submetido a forte regulação pública e estatal e ao aumento de impostos.

Um quarto elemento para explicar o resultado eleitoral 2016 e o fenômeno Crivella é a ascensão dos pentecostais e neopentecostais na política carioca e brasileira. Segundo o Novo mapa das religiões, publicado pela FGV em 2011, a participação dos evangélicos na população brasileira que era de 9,1% em 1991 subiu a 17,3% em 2003, perdendo velocidade e se estabilizando em 20,2% em 2009.

Este aumento da participação foi impulsionado particularmente pelas igrejas pentecostais e neopentecostais que saltaram de 5,6% em 1991 para 12,7% da população brasileira em 2009 e se relacionou com a forte desestruturação das esquerdas no Brasil e no Rio de Janeiro em função da ofensiva neoliberal entre 1990 e 2002.

As igrejas pentecostais e neopentecostais concentram suas bases sociais principalmente nos estratos de baixa renda população, principalmente na chamada classe D, onde alcançaram 15% da população em 2003. Até 2002 não havia nenhum candidato pentecostal/neopentecostal disputando eleição majoritária no Rio de Janeiro, quando então a eleição de Crivella ao Senado em 2002, apoiado por Lula, e o bom resultado do Pastor Manoel Ferreira, apoiado pela família Garotinho e pelo PSB, representaram juntos 33,4% dos votos validos, superando a pouco expressiva votação de Brizola, que alcançou 8,2% dos votos, patamar similar à  votação de sua candidatura presidencial no Rio de Janeiro em 1994, quando despencou definitivamente dos altos índices alcançados entre 1982-90.

Entre 1991-2004, a ofensiva política pentecostal/neopentecostal no Rio de Janeiro avançou, em particular, sobre destruição das bases políticas do brizolismo. Este foi alvejado pela ofensiva neoliberal que comprimiu os espaços sociais das esquerdas, pela competição com o PT, pela ruptura canibalesca da precária unidade das esquerdas durante o governo Garotinho em 1998, e pela morte de Brizola que sepultou as aspirações do brizolismo deixando um espólio político em aberto.

Se a partir de 2002, as esquerdas elevaram sua competição interna e abandonaram o seu campo próprio no Rio de Janeiro, entregando-o em grande medida à base aliada de centro-direita, representada principalmente pelo PMDB ou PL/ PRB, o campo pentescostal e neopentecostal, por sua vez, se fortaleceu por meio da aliança com o governo federal durante o período de crise do neoliberalismo e através da centralização do capital no mercado da fé, o que reduziu a sua diversidade e competição interna, organizando-a em torno da expansão de grandes conglomerados empresariais, como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal.

Se os pentecostais e neopentecostais priorizaram inicialmente os ataques às religiões afrodescendentes para ampliar seu mercado de fiéis e de eleitores, a sua expansão como empresa econômica e força política implica em uma nova escala de atuação que exige a captura das bases populares das esquerdas para o seu universo ideológico e eleitoral.

Para isso, realizam uma cruzada sobre o universo de esperanças populares substituindo as promessas de um futuro melhor para todos por meio da luta contra a desigualdade e as estruturas de classe, pelas promessas de um mundo melhor para cada um através do empreendedorismo, da autosuperação e da fé, colocando a responsabilidade pelo eventual fracasso no próprio indivíduo, que falhou na sua determinação e crença.

A crise da hegemonia petista desde 2013 e o seu colapso com o golpe de Estado de 2016 marcam uma nova ofensiva neoliberal sobre o Brasil e abre os espaços para a captura das bases populares das esquerdas.

O neoliberalismo é um projeto civilizatório de refundação regressiva da sociedade que aprofunda assimetrias e desigualdades e como tal necessita de discursos diferenciados para diversos segmentos sociais, que é incapaz de unifica-los: podemos apontar três grandes padrões de discursos neoliberais:

a) o neoliberalismo para grande burguesia e para as classes médias altas que está baseado na crença do mercado auto-regulado, do estado mínimo e se baseia nas obras de Milton Friedman, de Ludwig Von Mises e de Frederich Hayek;

b) o neoliberalismo para os movimentos sociais de protesto que está baseado no extremismo identitário, cujo objetivo é separar radicalmente identidade e classe social e estabelecer polarizações que oponham um tribalismo pós-moderno e a consigna “indivíduos de todo mundo, compitam entre si em função de seus grupos identitários” ao lema de Marx e Engels “trabalhadores de todo mundo uni-vos”;

c) o neoliberalismo dos pobres, onde entra fortemente o discurso pentecostal e neopentecostal prometendo um mundo melhor, mas só para aqueles que esqueçam as lutas coletivas e se auto-superem em nome da fé.

A eleição de Crivella no Rio de Janeiro se dá neste contexto onde distintos discursos neoliberais e frações de classe disputam entre si o espólio do colapso petista imposto pelo golpe de 2016 e o poder de organizar a ofensiva sobre o Estado e a sociedade no Brasil.

As bases sociais e políticas já alcançadas pelos pentecostais/neopentecostais, bem como a pressão para a reprodução ampliada do seu capital, podem levar a um deslocamento significativo das estruturas internas de poder das classes dominantes, caso se estabeleça nos próximos 10 anos uma taxa de crescimento evangélica similar a que ocorreu entre 1991-2003.

Isto elevaria a parcela de evangélicos para uns 40% na população brasileira. É por esta razão que grandes grupos midiáticos como O Globo, O Estado de São Paulo e Veja apoiaram indiretamente a candidatura de Marcelo Freixo, buscando conter a expansão dos grupos que dirigem o neoliberalismo dos pobres e a redistribuição de poder a médio e longo prazo no Estado brasileiro.

O golpe de Estado de 2016 abre uma era de dominação burguesa distinta daquela imposta pela ditadura militar de 1964-85. Ao invés de um projeto desenvolvimentista o que se pretende impor, como atesta a PEC 241, é a longa duração de rentismo, da destruição do pleno emprego e do baixo crescimento econômico para impedir-se o fortalecimento das organizações sociais, a multiplicação de greves e a explosão social do período, tal como ocorreu no período 2004-2013.

Trata-se de cenário que dificulta a organização dos trabalhadores e por isso se constitui em extremamente difícil para as esquerdas. Neste contexto, torna-se fundamental refundar a unidade entre os seus diversos segmentos, reforçando o pluralismo e a tolerância para estancar a sangria do espólio petista para as distintas forças da direita.

Como assinala Maquiavel, a principal característica da virtú é a flexibilidade para ajustar-se à contínua mudança das circunstâncias. Se o hegemonismo petista, o lulismo, o reformismo fraco e capitulação do PT diante das classes dominantes foram travões para o avanço das esquerdas, estes já não são mais os principais os seus obstáculos.

O principal desafio das esquerdas é reconfigurar sua unidade e lançar um novo projeto hegemônico que resignifique o legado petista no seu interior, num contexto onde o deslocamento do eixo de acumulação do setor produtivo ao setor financeiro, que vem se operando no capitalismo brasileiro, limita o empuxo da base material para uma contra-ofensiva popular ao Estado de exceção que se impõe no Brasil.

O purismo e a recusa a fazer alianças no campo das esquerdas é, sobretudo nesta conjuntura, um grave erro estratégico que impede a viabilidade deste projeto.

 

[1] Professor PEPI/UFRJ, Autor de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina, editora Boitempo, 2011

[*] Lula venceu as eleições de 1989, 1998,2002, 2006 por larga margem na zona oeste do Rio de Janeiro, Dilma igualmente venceu em 2010 em 2014 nesta região.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/11/03/eleicoes-municipais-o-que-o-rio-de-janeiro-tem-dizer-as-esquerdas/feed/ 6
A alienação das esquerdas https://www.ocafezinho.com/2016/11/01/alienacao-das-esquerdas/ https://www.ocafezinho.com/2016/11/01/alienacao-das-esquerdas/#comments Tue, 01 Nov 2016 17:48:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58644 52 Comentários 🔥]]> (Marcelo Freixo diz em coletiva à imprensa que ‘PSOL pagou pelos erros do PT’. Foto: Tasso Marcelo/AFP)

por Maria Fernanda Arruda, em seu Facebook

É terrível – como às vezes se observa na esquerda depois de uma derrota – desprezar eleitores pobres ou trata-los como manipuláveis ou ignorantes se eles não votam da forma esperada. Essa mentalidade apenas exacerba a divisão e torna o sucesso ainda mais difícil. Se um partido falha em atrair os eleitores que ele pensa que deveria atingir, parte da culpa pode ser atribuída a uma mídia injusta e parcial, ou a táticas sujas dos oponentes, ou a condições econômicas além do controle. Mas apenas parte. É preciso que se faça, antes de mais nada, o exercício da modéstia, que permita a autocrítica.

O grande fracasso do PSOL em seu reduto político frente a um candidato fraco, radical e sectário não se deu por conta de candidatos inferiores. Muito pelo contrário. Freixo é um político dedicado, talentoso e perspicaz, com um longo e inspirador histórico às causas sociais. A feminista escolhida para ser sua vice, Luciana Boiteux, é uma advogada e professora de direito inteligente e sofisticada que melhorou como oradora e liderança política durante a curta campanha. O problema enfrentado pelo PSOL é estrutural, institucional e cultural: como expandir-se além de sua base eleitoral dedicada, porém limitada, composta primordialmente por intelectuais bem educados, com estabilidade financeira e, em sua maioria, brancos da Zona Sul, e pelos jovens? Então? Como o PSOL convenceria pobres, trabalhadores e moradores de favelas, de que suas condições de vidas seriam melhoradas por um governo de esquerda, e como convencê-los de que os líderes do partido compreendem isso e, portanto, podem lidar com os problemas graves e sistêmicos que enfrentam?

Freixo perdeu esmagadoramente na Zona Oeste. Eleitores da classe trabalhadora e residentes de favelas fora da Zona Sul simplesmente deram as costas para a esquerda. Em outras palavras, os próprios eleitores a quem o programa político do PSOL tenta atender são aqueles que se sentem mais distantes do partido – e são muitas vezes hostis a ele. O que interessa a esses eleitores? Segurança de emprego, segurança no seu bairro, assistência médica confiável, escola. Não se incluem entre as suas preocupações: legalização do aborto, descriminalização das drogas, defesa da Petrobrás.

Um partido não tem o apoio de segmentos mais pobres da população e de minorias, a menos que esses grupos se vejam representados na liderança e nas candidaturas do partido. O PSOL avançou nesse sentido: um de seus mais renomados deputados, Jean Wyllys, foi criado em condições de extrema pobreza, e dois de seus novos vereadores: Marielle Franco, quinta vereadora mais votada, e David Miranda. Mas é muito pouco, ainda que aponte para uma boa direção, numa estrada onde o PT vai caminhando na contramão. Há no Brasil um imenso vazio, que separa o mundo erudito do mundo popular. São duas culturas que se afastam cada vez mais, na mesma medida em que segmentos sempre maiores da população são marginalizados nas periferias das grandes cidades, submetidos a um processo de empobrecimento alimentado por formas de cultura massificadora. A cultura erudita tornou-se cada vez mais a cultura das minorias privilegiadas. A grande massa dos brasileiros, formada de analfabetos e analfabetos funcionais, é portadora de uma cultura que se transmite oralmente, mas que é aquela definidora de suas formas de sentir, pensar e agir, expressando-se na sua culinária, nas festas, na linguagem, criando ritos de passagem, dando dimensão prática e utilitária à religião. Os políticos e os partidos políticos pertencem ao mundo erudito. Onde estará a ponte que permitirá a comunicação entre as duas margens? Essa ponte ainda existe?

Lula foi capaz de criar e transformar o PT em uma grande força política de esquerda porque a base de apoio do partido era composta pela classe pobre e trabalhadora, e a partir daí seu apelo se estendeu a outros grupos. Isso foi possível porque as lideranças do partido, começando pelo próprio Lula, foram capazes de entender instintivamente seus eleitores e tinham credibilidade para dialogar com eles porque pertenciam a esses grupos. Não foi necessário inventar estratégias de comunicação ou teorias abstratas sobre como conquistar essa parcela do eleitorado; a liderança e os candidatos do PT cresceram nas comunidades que serviram de base eleitoral do partido. Em resumo, o PT nasceu com o Lula metalúrgico, falando como metalúrgico, vestindo-se como metalúrgico, pensando como metalúrgico. Lula foi um metalúrgico do ABC paulista. Freixo não foi um metalúrgico.

E o pentecostalismo fala a língua dos oprimidos, dos marginalizados. Os seus pastores e bispos são preparados para isso. Falam as palavras que o povo quer ouvir, quando quer, onde quer. Não se trata, por certo, de copiá-los, mas de examiná-los, descobrindo-se o que? como? quando? onde conseguem ser ouvidos? Crivella é o filho preferido de Edir Macedo, aquele que impõem respeito com o tamanho e o mau-gosto descomunais de um Templo de Salomão. Não se trata, por acaso, de uma adoração do bezerro-de-ouro? Moisés puniu a heresia com a morte de centenas deles, isso é o que nos conta a Bíblia. Certamente, não é esse o caminho nos nossos tempos. Mas é preciso atravessar o mar que hoje nos separa do povo brasileiro.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/11/01/alienacao-das-esquerdas/feed/ 52
Greenwald analisa a derrota do PSOL e os desafios da esquerda no Brasil e no mundo https://www.ocafezinho.com/2016/11/01/greenwald-analisa-derrota-do-psol-e-os-desafios-da-esquerda-no-brasil-e-no-mundo/ https://www.ocafezinho.com/2016/11/01/greenwald-analisa-derrota-do-psol-e-os-desafios-da-esquerda-no-brasil-e-no-mundo/#comments Tue, 01 Nov 2016 16:18:38 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58624 5 Comentários 🔥]]> (Marcelo Freixo na Cinelândia, após perder a eleição. Foto: Antonio Scorza/ O Globo)

A grande derrota do PSOL evidencia o maior desafio da esquerda mundial e, especialmente, no Brasil

por Glenn Greenwald, no The Intercept

A DERROTA DE MARCELO FREIXO por 19 pontos percentuais na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro para o extremista evangélico Marcelo Crivella, no último domingo (30), levanta perguntas importantes e evidencia os principais desafios da esquerda brasileira. É de extrema urgência encontrar respostas e soluções frente à instabilidade política do país e à ascensão nacional de facções de extrema direita que, se não forem impedidas, poderão se estabelecer no poder por uma geração inteira.

O grande fracasso do PSOL em seu reduto político frente a um candidato fraco, radical e sectário não se deu por conta de candidatos inferiores. Muito pelo contrário. Freixo é um político dedicado, talentoso e perspicaz, com um longo e inspirador histórico de dedicação às causas social. A feminista escolhida para ser sua vice, Luciana Boiteux, é uma advogada e professora de direito inteligente e sofisticada que melhorou como oradora e liderança política durante a curta campanha.

Seus principais apoiadores também não são a problema do PSOL. A vitória de Freixo no primeiro turno foi extraordinária dadas as condições estabelecidas pela lei eleitoral que foi criada especificamente para paralisar partidos pequenos e novos e relegá-los à margem da política. A vitória do PSOL sobre o PMDB e o PSDB, embora tivesse apenas 11 segundos em programas de TV e sem contar com o apoio financeiro das oligarquias do país, foi uma conquista monumental. Outra grande conquista foi alcançar o maior número de vereadores da história do partido: foram conquistadas seis cadeiras na câmara municipal. Isso só foi possível graças à militância mais entusiasmada, dedicada e trabalhadora dentre todos os partidos. E esse é o maior patrimônio de um movimento político.

O problema enfrentado pelo PSOL é estrutural, institucional e cultural: como expandir-se além de sua base eleitoral dedicada, porém limitada, composta primordialmente por intelectuais bem educados, com estabilidade financeira e, em sua maioria, brancos da Zona Sul, e por jovens? Ou seja, como o PSOL pode persuadir pobres, trabalhadores e moradores de favelas de que suas condições de vidas seriam melhoradas por um governo de esquerda e como convencê-los de que os líderes do PSOL compreendem e, portanto, podem lidar com os problemas graves e sistêmicos que eles enfrentam?

NÃO SE PODE SUBESTIMAR o alcance e a dimensão do fracasso do PSOL neste caso. Todos os dados disponíveis mostram a mesma história. Aqueles com os menores níveis de renda e de escolaridade rejeitaram fortemente o PSOL – um partido formado para combater as desigualdades sociais – em prol do conservador evangélico e pró-empresários. Freixo perdeu esmagadoramente na Zona Oeste. Eleitores da classe trabalhadora e residentes de favelas fora da Zona Sul simplesmente deram as costas para a esquerda. Em outras palavras, os próprios eleitores a quem o programa político do PSOL tenta atender são aqueles que se sentem mais distantes do partido – e são muitas vezes hostis a ele.

zonasul-540x557

Esse problema não é, de maneira nenhuma, exclusivo da esquerda brasileira. É a mesma crise enfrentada por partidos de esquerda por todo o mundo democrático. Nos Estados Unidos, a disputa liderada pelo socialista Bernie Sanders este ano, por mais surpreendente que seu sucesso tenha sido, fracassou em última análise porque ele não tinha apelo fora de sua base de liberais brancos, intelectuais e eleitores jovens. As minorias e os trabalhadores brancos permaneceram firmes nos campos da centrista de situação, Hillary Clinton, e do populista de direita, Donald Trump, respectivamente.

Na Europa Ocidental, cidadãos cuja segurança econômica foi devastada pelo globalismo não estão se voltando para os progressistas – a quem veem como elites cosmopolitas condescendentes e distantes de sua vida cotidiana – mas a demagogos populistas de direita que canalizam suas angústias mirando as minorias, e que prometem respeitar e proteger (ao invés de desprezar) seus valores culturais. Essas tendências ameaçam produzir uma geração de eleitores pobres que se identificam irreversivelmente com partidos de direita, enquanto tornam a esquerda num artigo de boutique, um movimento marginal para as elites nas cidades e para os estudantes universitários.

Mas a universalidade deste problema não diminui a urgência com que a esquerda brasileira – especificamente o PSOL – precisa resolver isso. Cinco anos atrás, quando era apenas uma alternativa ideologicamente mais pura ao PT, o PSOL ainda podia se dar ao luxo de alimentar apenas sua base principal. A paixão de seus militantes e os candidatos carismáticos que atraiu asseguraram que o partido elegesse alguns deputados federais, estaduais e vereadores.

Mas, por conta da mudança no cenário político e do amplo desprezo que a sociedade tem pela classe política, isso não é mais suficiente. O impeachment de Dilma, por mais corrompido e ilegítimo que tenha sido, conseguiu incapacitar o PT; levará um longo tempo para que o partido retorne a um patamar que se assemelhe ao poder que detinha, se algum dia isso acontecer. A Rede desapareceu misteriosamente como força eleitoral este ano. E o PCdoB, identificado por sua longa aliança com os governos do PT, ainda precisa demonstrar que pode protagonizar a liderança da esquerda.

ISSO SIGNIFICA QUE, SE A “NOVA ESQUERDA” pretende competir com a muitas vezes alarmante “nova direita”, é necessário que o PSOL evolua para o próximo nível do poder político. Ganhar algumas cadeiras na Câmara, e promover comícios grandes e vibrantes não é suficiente. O partido precisa encontrar maneiras de ganhar eleições municipais e estaduais para que possa eleger prefeitos, governadores e senadores, e, finalmente, competir nacionalmente na disputa presidencial. Como ficou claro ontem à noite, esse objetivo continuará sendo um sonho se o PSOL não encontrar rapidamente uma maneira de expandir e diversificar seu apelo.

O que faz deste fracasso tão alarmante é que as novas facções de direita do Brasil já estão logrando alcançar essas populações. O milionário de direita João Dória venceu no primeiro turno porque os eleitores pobres de São Paulo abandonaram, em grande número, o talentoso prefeito do PT para votar no tucano. Crivella provou que, não importa quão extremas e regressivas são suas crenças políticas e religiosas, os líderes evangélicos sabem como dialogar com os eleitores pobres e a classe trabalhadora. E, enquanto o movimento Bolsonaro encontra apoio entre alguns setores ricos e bem educados, ele está fazendo cada vez mais incursões entre as áreas dos mais pobres e menos educados.

Tudo isso significa que, se a esquerda – especificamente o PSOL – não encontrar rapidamente uma maneira de chegar a estes eleitores, essas populações se identificarão, talvez irreversivelmente, com facções de extrema-direita, como eram, há pouco tempo, irremediavelmente identificados com o PT. Se isso não mudar, a competição pelo poder no Brasil não será entre a direita e a esquerda, ou entre o PSOL e o PMDB. Ao invés disso, a competição real se dará apenas entre a própria extrema-direita: evangélicos, Bolsonaristas, e oligarcas dos negócios do PSDB. O centro de poder no Brasil será composto exatamente pelas pessoas que, na noite de ontem, estiveram triunfalmente no palco atrás de Crivella e que agora exercem o poder na segunda maior cidade do país. Esse é o caminho de direita no qual o Brasil está agora inegavelmente situado.

crivella-540x340

Não existe uma resposta simples para isso. Porém, o ponto mais preocupante é que esse problema já era extremamente óbvio em 2008 e 2012, quando Fernando Gabeira e depois Freixo perderam as eleições para prefeitura do Rio para Eduardo Paes, e, nos anos que se seguiram, houve muito pouco avanço para solucioná-lo.

zonasul2-540x259

Mesmo não havendo respostas fáceis para esses desafios, há lições a serem aprendidas de outros grupos de esquerda que foram bem-sucedidos nesse sentido. Lula foi capaz de criar e transformar o PT em uma grande força política de esquerda porque a base de apoio do partido era composta pela classe pobre e trabalhadora, e a partir daí seu apelo se estendeu a outros grupos. Isso foi possível porque as lideranças do partido, começando pelo próprio Lula, foram capazes de entender instintivamente seus eleitores e tinham credibilidade para dialogar com eles porque pertenciam a esses grupos. Não foi necessário inventar estratégias de comunicação ou teorias abstratas sobre como conquistar essa parcela do eleitorado; a liderança e os candidatos do PT cresceram nas comunidades que serviram de base eleitoral do partido.

Um partido não tem o apoio de segmentos mais pobres da população e de minorias, a menos que esses grupos se vejam representados na liderança e nas candidaturas do partido. O PSOL avançou nesse sentido: um de seus mais renomados deputados, Jean Wyllys, foi criado em condições de extrema pobreza, e dois de seus novos vereadores, Marielle Franco, a quinta vereadora mais votada, e David Miranda (meu marido), fotos abaixo, são cariocas negros que cresceram em favelas da Zona Norte da cidade. É fundamental para a expansão do apelo do partido que suas lideranças e candidaturas sejam compostas pelos grupos de eleitores que o partido deseja conquistar.

davidmariel-540x211

Partidos liberais de esquerda apenas obtiveram sucesso em outros países após convencer o eleitorado pobre, conservador e religioso de que as questões sociais que são exploradas de forma cínica por conservadores para conquistar seus votos – igualdade para LGBTs, direitos reprodutivos, criminalização de drogas – não são as questões que nega oportunidades e prosperidade a esse eleitorado. Muito pelo contrário, as políticas econômicas da direita e seu compromisso com as classes ricas são os verdadeiros responsáveis pelas carências da classe pobre. Partidos de esquerda não podem abrir mão de suas crenças fundamentais no aspecto social e negociar o direito à igualdade absoluto para todos os cidadãos em troca de vantagens políticas.

Mas persuadir eleitores a colocar estas questões em perspectiva e se concentrar em quem poderá atender às suas necessidades mais urgentes tem sido um pré-requisito para atrair eleitores, apesar de suas diferenças nestas questões sociais e religiosas. A esmagadora maioria das discussões travadas com eleitores de Crivella nos últimos dois meses não se focou em política econômica e de saúde, mas no sucesso de sua campanha de medo sobre drogas, prostituição, homossexualidade e aborto.

Talvez ainda mais vital seja o reconhecimento de que nenhum partido de esquerda “tem direito” ao voto de ninguém. A esquerda não tem “direito” de receber apoio dos pobres ou das minorias. É terrível – como às vezes se observa na esquerda depois de uma derrota – desprezar eleitores pobres ou trata-los como manipuláveis ou ignorantes se eles não votam da forma esperada pela esquerda. Essa mentalidade apenas exacerba a divisão e torna o sucesso ainda mais difícil.

Se um partido falha em atrair os eleitores que ele pensa que deveria atingir, parte da culpa pode ser atribuída a uma mídia injusta e parcial, ou a táticas sujas dos oponentes, ou a condições econômicas além do controle. A impopularidade do PT também foi uma barreira óbvia para PSOL. A recusa do PSOL em formar alianças com partidos corruptos, nobre do ponto de vista político, torna o sucesso eleitoral ainda mais difícil.

MAS UM PARTIDO DERROTADO deve aceitar sua parcela de culpa e responsabilidade. Sua tarefa é convencer os eleitores mais marginalizados de que o partido está comprometido com a melhoria de suas vidas e é capaz de fazê-lo, e, caso não seja bem-sucedido, a culpa é primeiramente do próprio partido. Apenas a admissão honesta dessa responsabilidade pode estimular a busca por soluções na comunicação, estratégia e recrutamento de militantes.

Há muitas razões pelas quais os apoiadores do PSOL deveriam estar otimistas em relação ao futuro de seu movimento. O partido evitou os escândalos de corrupção que engoliram quase todos os outros partidos. Tem liderado a luta por ética no governo: junto com a Rede, iniciou e dirigiu o processo para remover Eduardo Cunha da Câmara, além de liderar a luta para bloquear a anistia ao Caixa Dois que Michel Temer e Rodrigo Maia tentaram inserir na lei. A paixão de seus jovens apoiadores, e a maneira com que recebem e empoderam a diversidade na população brasileira, são inspiradoras. A postura intransigente e de princípios de seus candidatos, embora muitas vezes dificulte o sucesso eleitoral, é um oásis raro e importante num cenário sujo de cinismo e oportunismo político.

Mas o partido, e portanto a esquerda brasileira, ainda precisa encontrar uma maneira de contornar seus sérios obstáculos sistêmicos. Enquanto a extrema-direita rapidamente se consolida no poder no Brasil pós-impeachment, alcançar isso – encontrar uma maneira de se comunicar e de persuadir os eleitores que deveriam ser seus mais ferrenhos apoiadores – é essencial não só para o PSOL, mas para o Brasil e para a esquerda internacional.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/11/01/greenwald-analisa-derrota-do-psol-e-os-desafios-da-esquerda-no-brasil-e-no-mundo/feed/ 5
PSOL continua onde sempre esteve, quem ocupa o espaço do PT é a direita evangélica https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/psol-continua-onde-sempre-esteve-quem-ocupa-o-espaco-do-pt-e-direita-evangelica/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/psol-continua-onde-sempre-esteve-quem-ocupa-o-espaco-do-pt-e-direita-evangelica/#comments Tue, 01 Nov 2016 01:05:56 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58558 35 Comentários 🔥]]> Comentário de Thandara Santos, no Facebook, em complemento ao post: Presidente do PSOL em entrevista à Folha: ‘começamos a ocupar o espaço do PT’

O próximo que disser que o PSOL está assumindo o vácuo deixado pelo PT na disputa eleitoral vai ganhar um curso de análise de dados.

Não estou comemorando a derrota do PSOL no Rio ou em qualquer lugar. Pedi voto ao Freixo no primeiro e no segundo turno e tenho certeza de que o PSOL apresenta o melhor projeto para a cidade do Rio de Janeiro (e para Belém, para Sorocaba, etc).

O meu ponto é que o PSOL não está ocupando o espaço que foi um dia do PT. Quem está fazendo isso é a direita e os partidos ligados ao pentecostalismo. Vimos isso no primeiro e no segundo turno em todo o país.
E não há nada a comemorar.

E sei que muitos militantes do PSOL fazem essa mesma leitura da conjuntura. Muitos, não todos, infelizmente

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/psol-continua-onde-sempre-esteve-quem-ocupa-o-espaco-do-pt-e-direita-evangelica/feed/ 35
Jandira Feghali: “Esquerda sem povo não vai muito longe” https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/jandira-feghali-esquerda-sem-povo-nao-vai-muito-longe/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/jandira-feghali-esquerda-sem-povo-nao-vai-muito-longe/#comments Mon, 31 Oct 2016 21:50:29 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58549 11 Comentários 🔥]]> Em suas redes sociais a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) acaba de postar uma profunda análise sobre a situação da esquerda na eleição do Rio de Janeiro.

De acordo com Jandira, “esquerda sem povo e sem ampliação não vai muito longe, como a história das batalhas eleitorais do Rio nos ensina”.

Leia abaixo o texto na íntegra.

O recado das urnas no Rio e o comportamento da Esquerda

Por Jandira Feghali

 

A política se expressa de muitas formas e, neste momento pós eleições municipais do Rio, vale uma pequena reflexão. As urnas falam e falam bem alto. Porém os gestos também falam alto, pois refletem uma visão de presente e de futuro, direcionam estratégias, determinam aliados, a relação com eles e compromissos reais com o povo.
A vitória da negação da política e o comando da prefeitura do Rio em mãos conservadoras são um retrocesso. Lamento sinceramente a derrota de Marcelo Freixo, candidato apoiado por nós do PCdoB e demais forças de esquerda no segundo turno.
O palanque de Marcelo Crivella mostrou uma unidade de centro-direita, com lideranças religiosas e a expressão de uma visão atrasada de como “cuidar das pessoas”, por meio da negação da diversidade e pluralidade, características muito fortes na sociedade carioca.
O processo eleitoral ocorreu debaixo de um golpe institucional, da violação da nossa Constituição, da criminalização da política, com foco na eliminação da esquerda que governou o Brasil e em consequência dos direitos por ela garantidos.
Sinais de fascismo e Estado de exceção com envolvimento de agentes públicos dos três Poderes marcaram os últimos meses, contando com amplificação e consolidação da criminalização da política pela Grande Mídia, particularmente pelo sistema Globo de televisão, rádio, jornais e revistas semanais. Ao analisar este cenário, não concordo com os que acham que os erros da Esquerda foram a razão do golpe e da desesperança do povo, mesmo admitindo que existiram muitos erros.
Tudo isso tem exigido de nós uma demarcação clara de campo, a inserção da cidade que queremos neste contexto e o máximo de unidade possível do campo mais avançado e da Esquerda em particular. Todos sabíamos que no primeiro turno, o voto útil unificaria a opção do eleitorado à esquerda. Ficou claro que minha candidatura foi atingida por este movimento.
No segundo turno, porém, a unidade e a ampliação seriam fundamentais para enfrentar no Rio a onda conservadora que varreu o Brasil. Ainda que não ganhássemos a eleição, teríamos dado um grande passo em direção a uma perspectiva futura de unidade das esquerdas e do campo progressista. A soma não é apenas matemática, mas de forte simbolismo político.
No entanto, não dar visibilidade ao apoio do PT, da REDE e do PCdoB foi uma opção nítida da campanha de Marcelo Freixo, e a única alternativa que nos restou foi respeitar uma estratégia onde não cabíamos. Falando por minha candidatura, reafirmo meu compromisso no segundo turno, quando declarei apoio à candidatura do PSOL antes mesmo de terminada a apuração dos votos do primeiro turno.
Fizemos outras declarações públicas durante o processo, com vídeos, presença em atos na Cinelândia – como o de mulheres – com nossa tradicional militância presente na rua durante todo o tempo e de forma muito bonita. Mas é necessário dizer à sociedade que, se mais não fizemos foi porque entendemos o recado e respeitamos a decisão da candidatura de Freixo, que não buscou a nossa opinião, muito menos a nossa presença em demais atividades, imagens, TV e redes sociais.
Ao emitir uma “Carta aos Cariocas” para, tardiamente, atrair o eleitor de classe média mais ao centro, equivocou-se. Na minha opinião, seu conteúdo reforçou um movimento de “despolitização da política” fortemente presente no país, que acabou marcando as duas campanhas neste segundo turno e que pode ter contribuído para o altíssimo índice de abstenções. Isso foi visto, sintomaticamente, em maior grau na Zona Sul e bairros de classe média do que nos territórios populares.
A história já diz. As vitórias eleitorais da Esquerda no Rio sempre estiveram respaldadas no voto popular, e grandes votações nas zonas norte e oeste. Foi assim nas eleições de Brizola para governador em 1982 e em 1990. Lula, por exemplo, sempre teve votações expressivas no Rio de Janeiro, desde a sua primeira campanha em 1989. Em 2002 e em 2006, teve média de 70% dos votos nas zonas norte e oeste, performance repetida por Dilma em 2010.
O PSOL, que optou por não receber o apoio de Lula em sua campanha, nunca conseguiu chegar perto deste patamar nas regiões populares desta cidade. Faltou povo no seu eleitorado, porque talvez falte construir pontes com os setores da esquerda que construíram lastro e raízes históricas junto aos setores populares. Como escreveu Sidney Rezende em seu portal, “ajudar a Direita a desconstruir os demais partidos de Esquerda, principalmente o PT, pode abrir estradas ao PSOL, mas pode afastar delas quem ainda acredita que a esquerda mais unida, ainda que com divergências, seja indispensável para merecer seu voto”.
E a segunda lição das urnas para o PSOL é que a ofensiva anti-PT e anti-esquerda desencadeada nestas eleições municipais atinge também o próprio PSOL. O partido perdeu as 3 eleições que disputou nesse segundo turno, e vai governar apenas 2 pequenos municípios em todo o país. Pau que bate em Chico, bate em Francisco.
O mapa da votação na cidade é eloquente e fala por si. Esquerda sem povo e sem ampliação não vai muito longe, como a história das batalhas eleitorais do Rio nos ensina.
A responsabilidade agora é de todos nós.
Olhar para o futuro e repensar o papel da Esquerda, dos movimentos sociais em conteúdo, gestos e forma de relação com a sociedade, particularmente o povo trabalhador e menos aquinhoado. No centro do nosso projeto deve estar a recuperação democrática, os direitos e o desenvolvimento do nosso país.
Os desafios são muitos e devemos trabalhar em unidade e frentes amplas que nos permitam recuperar nossa referência. Devemos reconhecer a lição que saiu das urnas e seguir apoiando e incentivando a juventude em luta nas periferias, nas escolas e universidades ocupadas, os trabalhadores e mulheres guerreiras, os artistas que se expuseram com riscos reais para suas carreiras.
Há muito que fazer para superar os nossos limites e visões que dificultam composições mais amplas no campo da Esquerda e dos setores progressistas. É preciso permitir acumular forças entre os que defendem, como nós, um futuro de politização, ampliação da democracia e vitória do nosso povo contra a dramática agenda de Estado mínimo em implantação por este governo

 

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/jandira-feghali-esquerda-sem-povo-nao-vai-muito-longe/feed/ 11
‘Aecim’ foi o idiota útil – Perdeu de novo em Minas e deu tchau ao sonho de concorrer à presidência https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/aecim-foi-o-idiota-util-perdeu-de-novo-em-minas-e-deu-tchau-ao-sonho-de-concorrer-presidencia/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/aecim-foi-o-idiota-util-perdeu-de-novo-em-minas-e-deu-tchau-ao-sonho-de-concorrer-presidencia/#comments Mon, 31 Oct 2016 20:56:06 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58540 10 Comentários 🔥]]> De novo, de novo… Aécio e a hora de dar tchau

por Luciana Oliveira, em seu blog

Desde a reeleição de Dilma Rousseff que Aécio Neves se esforça para faturar politicamente com o discurso anticorrupção.

Ele foi “o primeiro a ser comido”, não na Operação Lava Jato como profetizou em gravações com o então ministro Romero Jucá, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, mas no tabuleiro da política.

Pela segunda vez, perdeu em Minas sô!

Bão dimais!

Aecim foi o idiota útil. O PSDB abocanhou 14 das 19 prefeituras que disputou, mas Aécio perdeu de novo em Minas e deu tchau ao sonho de concorrer à presidência da República em 2018.

Melhor que ver mirradinho o garoto propaganda do golpe, só quando for comido também pelos delatores da Lava Jato.

Quando João Dória sugeriu Geraldo Alckmin como futuro candidato a presidência, Aécio recorreu a uma invenção do PT, a escolha interna por meio do voto: “A prévia é um belo caminho e pode revitalizar o partido”, afirmou o mineiro.

Pode rir, estou rindo.

O PT, naturalmente, foi triturado nas eleições municipais, mas ainda tem seu líder disparado nas pesquisas de intenção de votos para usar a faixa que Aécio tanto deseja.

Se Lula não for preso ou assassinado, porque a história não é escrita em linha reta, porque o PSDB aproveita somente a onda azul de hipocrisia que criou, a esquerda pode retomar o poder com a força do povo.

O que não muda é que pra Aécio é hora de dar tchau!

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/aecim-foi-o-idiota-util-perdeu-de-novo-em-minas-e-deu-tchau-ao-sonho-de-concorrer-presidencia/feed/ 10
Tiburi: otários são os que caem no elogio da vida sem política https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/tiburi-otarios-sao-os-que-caem-no-elogio-da-vida-sem-politica/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/tiburi-otarios-sao-os-que-caem-no-elogio-da-vida-sem-politica/#comments Mon, 31 Oct 2016 20:11:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58526 19 Comentários 🔥]]> Votos brancos, nulos ou a política do cínico e do otário

Cínicos são os que acionam a armadilha da não política, otários são os que caem no elogio da vida sem política

por Marcia Tiburi, da Revista Cult

Como professora de filosofia eu me preocupo com o quê as pessoas pensam e falam, com o modo como as pessoas pensam e falam, e também com os resultados práticos desses atos.

Nessa linha, eu gostaria de fazer um comentário sobre um curioso fenômeno da cultura contemporânea. Verificamos que vários políticos discursaram dizendo que não eram políticos e isso foi estranhamente bem recebido pelo público, tanto que alguns até se elegeram no primeiro turno com esse tipo de conversa, que já virou moda entre os que pensam que não fazem política apenas porque falam que não fazem… Então, vamos analisar um pouco o que se passa.

Em primeiro lugar, é bem estranho que alguém fale que não é político justamente durante uma campanha política. Afinal, aquele que está fazendo campanha política está participando de um ato justamente político. Uma campanha não é um ato qualquer, ela é política, extremamente política. Podemos discutir o que é e o que não é política, mas ninguém vai negar que uma campanha em que se disputa um argo político é uma campanha política. Além disso, se alguém está fazendo campanha é porque se candidatou. É impossível evitar que a candidatura seja um ato político. Além disso, se alguém se candidatou é porque está necessariamente filiado a um partido. É óbvio que um partido também é algo político…

Bom, que diabo será que esse indivíduo pensa que está fazendo ao fazer tudo isso e dizer que apesar disso tudo que ele está evidentemente fazendo, ele não é político?

Podemos dizer que uma pessoa que age dessa maneira está mentindo. Mas não é bem isso. Conseguimos perceber que há algo de errado nisso, mas tudo fica muito nebuloso. Não é bem uma mentira e se olhamos com mais cuidado, podemos até dizer que há algo mais interessante acontecendo. Podemos dizer que, na verdade, essa pessoa que diz que não faz política no meio de uma candidatura e de uma campanha políticas, está caindo em uma contradição.

No campo da filosofia que se ocupa em entender os jogos da linguagem, o jeito como falamos e os interesses em jogo, podemos dizer que essa pessoa que fala que não é política enquanto age politicamente está caindo em um tipo de contradição. Chamamos de contradição performativa ou pragmática aquela na qual a pessoa que se pronuncia desdiz ou anula o que fala no ato mesmo de falar. Problema é que nem todo mundo está ligado e percebe esse tipo de coisa.

Mas quem percebe pode sempre se perguntar: por que motivo ou com que objetivo uma pessoa faria uma coisa dessas? O que será que aquele que se contradiz ganha com isso? Ser pego em uma contradição é, para muitos, algo vergonhoso. Mas os que se pronunciam assim em termos de política, não devem sentir vergonha. Não é possível, por outro lado pensam aqueles que percebem, que a pessoa cometa uma contradição dessas apenas porque não raciocinou bem. O que será que está acontecendo, então? Será que esses políticos são burros? Podemos nos perguntar sem medo de sermos ingênuos. Se for burrice, ela não é sem função. Não é uma pura e honesta burrice que seria também perdoável. É bem mais possível que haja alguma vantagem em agir assim…

Portanto, podemos considerar que o sujeito envolvido em atos e ações no amplo campo da política – esse que diz que não é político – não esteja apenas mentindo, e, no fundo, também não esteja apenas se contradizendo. Talvez ele esteja ganhando alguma coisa. No caso, mesmo sem prestar atenção, perceberemos que ele ganha votos. Imaginem aquele sujeito, o prefeito da sua cidade que já se elegeu no primeiro turno ou que se elegerá no segundo, com esse discurso contraditório. Ele usa esse tipo de discurso como uma máscara que cai muito bem na época em que as pessoas tem raiva de política sem perceberem que a própria raiva da política é política. Parece que o candidato em questão fala uma verdade. E o mais estranho é que ele não chega a mentir com força, e nem simplesmente se contradiz com força. E é isso que nos deixa confusos.

No entanto, se ele declarasse com todas as letras seu “lugar de fala”, se ele fosse pego por alguém no seu ato, então, ele explodiria com um homem bomba diante dos olhos de quem os observa. Mas o fato é que o que ele faz impede que seja pego.

Como argumento em favor do cidadão que se pronuncia em sua campanha política como um não político, podemos aceitar que, de fato, as pessoas são outras coisas enquanto são também políticas. Mas não podemos aceitar o fato de que por sermos outras coisas, por termos outras profissões, não sejam por isso também políticos. Tem aquele candidato que é, na verdade, um pastor, um ruralista, um empresário. Se quisermos dizer oportunista e mistificadores também podemos. Mas isso não vem ao caso agora. Para muita gente, “política” em um sentido lato ou estrito, é apenas degrau para alçar postos e cargos para defender interesses seus e de sua classe. Uma pena que os cidadãos esqueçam da importância da política como construção da esfera pública e a deixem nas mãos de quem a usa com fins privados e, nessa linha, contra a ética na política.

Ao efeito de cometer uma contradição e usá-la a seu próprio favor, podemos dar o nome de cinismo. Ora, o cinismo é uma postura, a de quem é completamente verdadeiro. Essa seria uma definição antiga. Até filosófica se lembrarmos dos sábios antigos que praticavam a “parresia”, o ato de falar o que se pensa, doa a quem doer. No entanto, o verdadeiro também é um valor e, como tal, se transforma historicamente.

Vivemos em uma época em que a verdade já não é um valor. O cinismo, portanto, também mudou. Ele é hoje a postura verdadeira sendo que a verdade não tem valor. O verdadeiro sem valor de verdade. Por isso, não se trata de uma simples contradição quando vemos alguém falando tranquilamente uma mentira como se fosse verdade e como se não tivesse mal algum nisso. E é por isso que ficamos confusos e até inertes diante de um cínico. Ele está falando a verdade e mentindo ao mesmo tempo e não está falando a verdade e nem mentindo. O que ele está fazendo então?

Ele está não apenas enganando. Ele está transformando o outro em um otário. Criando a teia de renda negra na qual vai devorar a sua presa.

Os espertos surgem e passam a usar o cinismo como tática de enganação. É a melhor de todas. Ato de linguagem, verbal e performativo, o cinismo é uma postura e o cínico ocupa um lugar especial nela. A verdade está escancarada por ele, mas não será fácil acreditar nela porque o cínico agirá para que não se possa fazer nada contra o que está à mostra. E isso só é possível considerando que acreditar ou não na verdade já não importa.

A dialética do cínico e do otário

Se vocês lembrarem do que em um filósofo como Hegel se chamava de “dialética do senhor e do escravo” teremos uma nova luz sobre a questão. Naquela versão, o poder e a liberdade estavam em jogo na luta entre as partes, a disputa entre quem manda e quem obedece era a luta do desejo que emanciparia o mais forte.

Agora temos a dialética entre o cínico e o otário. Pensem numa relação inevitável depois que a política sofreu um intenso esvaziamento. A qualidade da relação política é que se modificou. Agora o senhor é o cínico e o escravo é o otário. Já não há mais luta pelo poder ou pela liberdade porque o otário, menos do que o escravo, não tem a menor chance. Chance é consciência. Mas ela foi aniquilada. Envenenado por doses altíssimas de programas televisivos, dopado pelos religiosos neoliberais, o otário não é capaz de virar o jogo porque não tem consciência do que fazem com ele. A consciência é só o que liberta do cínico e, no entanto, ela está indisponível. Seria uma espécie de antídoto, mas está em falta no mercado.

Como é possível chegar a isso? Podemos falar de “razão cínica”, mas na prática concreta, o fato é que qualquer pessoa fica sem parâmetro diante de um cínico. Ele acaba com o seu adversário ao colocá-lo na posição de otário. E para colocá-lo lá, basta vestir a máscara do cínico. É automático, pois as pessoas confiam na verdade, ainda que ela não tenha mais valor.

Como o cínico consegue essa façanha de colocar os outros todos nessa posição?

Ajudando a formar otários, preparando o terreno. Todo autoritarismo é solo fértil. Em adubando com indústria cultural e religião do mercado, o fruto é conhecido…

Quem são os otários de nossa época? Há otários em todas as esferas, em todas as profissões e instituições. O otário se forma com uma mídia e uma religião cínicas e manipuladoras, é preparado para acreditar em tudo o que lhe oferecem dentro de um programa de rejeição ao diferente (entendido genericamente como algo estético, ético, cognitivo e político). Ele não se pergunta jamais, porque a dúvida, não sendo útil, não é oferecida pelo sistema cínico como ração.

Cínicos são os que acionam a armadilha da não política, otários são os que caem no elogio da vida sem política. Os otários satisfazem os cínicos. Dialeticamente falando, podem até se tornar cínicos em algum momento. Vai depender do poder que conquistam ou ganham de modo oportunista. O discurso de que a política acabou, de que os políticos são todos corruptos, é o discurso que o otário ganha de presente do cínico. É como se o cínico avisasse que o poder tem dono e que esse dono não é o povo para quem ele fala. Se o povo cai deixa de ser povo e se torna otário.

Todos fazem o que podemos chamar de “política dos sem política”, uns com poder, os cínicos; outros sem poder, os otários. Na posição de pobres coitados políticos (como analfabetos que fingissem saber escrever), negam o que fazem.

O circulo cínico do poder é sustentado por todos os que caem em ideologias espontâneas: pobres neoliberais, por exemplo. Há muitos, mas fiquemos com esse exemplo para a reflexão do momento e exercitemos nossa imaginação para pensar nos demais.

Os nulos, os brancos

Aproveitemos para nos colocar a questão: o mais novo otário do círculo cínico no qual estamos todos envolvidos não seria, nesse momento, aquele que vota nulo ou branco?

Não seria aquele que pensa que lava as mãos, quando na verdade, foi levado a pensar assim? Não percebe ele que tanto quanto os demais acabará por pagar a conta, querendo ou não, terá que responsabilizar-se pela sociedade onde vive. Quem vota nulo e branco pensa que lava as mãos, pensa que é melhor do que quem vota útil, ou quem vota em candidatos mentirosos ou autocontraditórios. Mas infelizmente não faz nada diferente. Comprou o discurso de que a política não vale a pena e pensa que não tem nada a ver com ela.

Ora, todos os nossos atos humanos, só são humanos porque são políticos. Fazemos política consciente ou inconscientemente, o tempo todo, por ação ou omissão. Mais ainda, é claro, quando participamos ativamente das instituições e organizações políticas. Quando pensamos que fazemos algo melhor ao tentar negar a política votando nulo ou em branco, apenas mostramos que esvaziamos a política deixando-a na mão dos poderosos cínicos que se comprazem com esse gesto tonto. Mas não fizemos isso por vontade própria. Fizemos isso movidos por ideias bem empacotadas por quem sabe o poder delas e a todo custo quer evitar a análise e a crítica que poderiam mudar o estado de coisas.

Quem ainda não sabe que a política só vai mudar quando as pessoas começarem a pensar de verdade?

Enquanto isso, uns cospem e outros engolem, com o perdão do apelo ao nojo.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/tiburi-otarios-sao-os-que-caem-no-elogio-da-vida-sem-politica/feed/ 19
Ipanema votou em Crivella https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/ipanema-votou-em-crivella/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/ipanema-votou-em-crivella/#comments Mon, 31 Oct 2016 19:47:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58514 4 Comentários 🔥]]> [s2If !current_user_can(access_s2member_level1) OR current_user_can(access_s2member_level1)]

Arpeggio – coluna política diária

Por Miguel do Rosário

Não é mais tão linda, nem mais cheia de graça, ao menos para o campo mais progressista. Há tempos que Ipanema, assim como as áreas mais ricas da zona sul do Rio (o extremo sul da zona sul), tem se deslocado para a direita. Mas não deve ter sido fácil para as madames católicas da Vieira Souto optarem pelo mesmo candidato que venceu de maneira esmagadora na zona oeste e nas regiões mais pobres da cidade.

No entanto, para analisar o resultado do segundo turno das eleições no Rio de Janeiro, assim como das eleições em todo país, é preciso se despir de preconceitos.

As zonas ricas da cidade registraram o maior índice de abstenção. Na zona 165, que corresponde ao bairro de Ipanema, o número de abstenções, mais votos nulos e brancos, totalizou 14.568, mais do que a soma de votos em Crivella e Freixo.

Ou seja, quem fala em “desilusão” com a política deve especificar de quem está falando.

Por outro lado, o mapa eleitoral do Rio mostra um nítido corte de classe. Freixo ganhou nos bairros mais ricos, com exceção de alguns mais radicalmente ideológicos à direita, como Ipanema, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Esses bairros tem votado, nas últimas eleições presidenciais, no PSDB, de maneira esmagadora.

A partir sobretudo de 2006, o eleitorado do PT migrou para as periferias e bairros pobres, mas com presença importante ainda nos bairros nobres mais ideológicos à esquerda, como Lapa, Catete, Flamengo, algumas áreas de Copacabana, Laranjeiras.

Entretanto, a inexplicável ausência do PT e de seus governos no campo da comunicação política criou um processo que já deveria ter sido detectado pelos analistas. A migração do voto petista do centro na direção das periferias não era um fenômeno de consolidação de um voto ideológico à esquerda nessas regiões, e sim um sinal de fim de ciclo. O fenômeno da pedra no lago serve aqui como ótima metáfora.

A pedra caiu no centro do lago. Era o voto petista ideológico no centro das cidades. Quando as ondas vão se afastando do centro, não o fazem para se fixarem nas periferias, mas como um movimento na direção para fora do círculo. É o fim da onda.

Não é possível responsabilizar apenas a mídia e a direita pelo fenômeno, porque isso é óbvio demais. É claro que a culpa da tomada de Troia se deve ao assédio dos gregos. No entanto, é preciso fazer a autocrítica: não fosse a estupidez de levar aquele bizarro presente grego, um gigantesco cavalo de madeira, para dentro da cidadela, não haveria a derrota.

Onde o PT errou?

Nesse ponto, eu gostaria de pedir desculpas aos assinantes por ter começado a publicar trechos do meu romance Vana aqui na coluna e depois ter interrompido, sem explicações. Explico agora. O romance tomou vida própria e ganhou partes não propriamente políticas. Apareceram cenas de sexo, uso de drogas, que me deixaram um pouco constrangido de trazer para cá. É melhor aguardar o romance ficar pronto e se materializar. Eu farei promoções atraentes do romante impresso para os assinantes, e possivelmente liberarei para o consumo virtual.

O romance é composto, em boa parte, por longos diálogos sobre política entre os personagens. Alguns desses diálogos, que eu escrevi hoje mais cedo, abordam justamente essas críticas que fazemos aos erros de política dos governos petistas, erros que explicam a derrota nas eleições municipais deste ano. Transcrevo abaixo, com exclusividade para os assinantes, trechos desses diálogos.

[/s2If]

[s2If !current_user_can(access_s2member_level1)]
Para continuar a ler, você precisa fazer seu login como assinante (no alto à direita). Confira aqui como assinar o blog O Cafezinho.[/s2If]

[s2If current_user_can(access_s2member_level1)]

Vitor

(…) Uma moça, que havia se identificado como do PSTU, perguntou-lhe o que achava do resultado das eleições municipais no Rio de Janeiro, em que o PT tinha sofrido um recuo de 60% em número de votos.

“Olha”, começou Carlos, que teve a sensação curiosa de estar diante de um dos públicos mais exigentes e importantes de sua vida, apesar da inexperiência, dos vícios e da notória irresponsabilidade daquelas moças e rapazes.

“Vou dizer uma coisa cruel. É algo que choca um pouco meus amigos petistas. Foi uma derrota merecida, talvez necessária. “

A afirmação não teve grande impacto, conforme Carlos pode verificar após a pausa que fez. Aquela geração era muito crítica ao PT, sobretudo por suas concessões à direita. Mesmo os jovens mais simpáticos a Lula e Dilma, admiravam-nos com aquela ressalva.

Entretanto, não era exatamente essa a crítica que ele queria fazer.

“Vocês devem estar pensando que eu me refiro às alianças que o PT fez com a direita e às concessões que fez em vários aspectos, em especial na política econômica. Pois eu não estou falando de nada disso. Nessas coisas eu acho até que o PT acertou. Ele acertou em fazer aliança com o PMDB e com a centro-direita e acertou em levar adiante uma política econômica relativamente conservadora”.

Agora sim ele tinha obtido o efeito que queria: os jovens todos se remexiam na cadeira, atentos ao que ele ia dizer para que pudessem contestar imediatamente. Carlos prosseguiu:

“Quer dizer, na política econômica, acho que a Dilma errou em 2015, ao nomear Levy. Aquilo não era mais uma política econômica relativamente conservadora, e sim uma política neoliberal burra, que produziu crise fiscal e política. Ela foi empurrada ao abismo pelas forças que a pressionavam. Mas até isso é resultado do principal erro do PT no governo. “

A ressalva reduziu um pouco a desconfiança da plateia, e lhes aguçou ainda mais curiosidade.

“O maior erro do PT foi o desrespeito à questão política. Isso foi fatal! O governo não fez política e isso foi o equivalente a vender não apenas a sua alma, a alma do partido, mas a alma do próprio Brasil, em troca de um bem estar de alguns anos. O diabo está cobrando a sua conta, e agora a gente sabe o valor da nossa alma. Estamos desamparados, desarmados. A mídia, principal partido político da direita, lavou a cabeça do povo, que agora defende medidas que prejudicam a si mesmo.”

Um rapaz, que Carlos sabia pertencer ao PCdoB, tinha levantado a mão como se estivesse em sala de aula. Carlos parou de falar e olhou para ele. O jovem era um pouco gago, mas ao fim conseguiu se expressar muito bem.

“Con-concordo. Mas a-acho que você está esquecendo um ponto. Esse ‘be-bem estar de alguns anos’ re-re-presentou uma transformação do ser, que hoje está mais forte. Hoje temos milhões de jovens dispostos a lutar por um país melhor. Antes desse ‘bem estar’ não tinha tanta gente”…

Era uma asserção inteligente, útil para Carlos se lembrar que estava lidando com estudantes de filosofia. Mas também era um sofismo, uma refutação puramente retórica”.

“Amigo, qual é seu nome mesmo? Jorge? Então, Jorge, tudo bem. A expressão ‘bem estar’ soa como um eufemismo para descrever o que aconteceu no Brasil na era Lula. Mas isso não muda nada do que eu quero dizer. Até porque poderíamos afirmar o contrário, se fôssemos esquerdistas cínicos, como nossos amigos do PSTU ali: que a melhora das condições sociais, desde que não fundadas em mudanças estruturais, serviu aos interesses dos que não queriam maiores transformações. Não vou entrar nessas questões, que são misteriosas demais. Estou falando que o PT, em algum momento, passou a entender política como uma técnica voltada para os bastidores, costurando alianças mais ou menos transparentes, mais ou menos republicanas, com forças políticas e com a mídia, exercendo um rígido controle sobre a própria militância, mas esquecendo de fazer política com a única força a quem ele devia, de fato, o poder: a população. O PT parou de se relacionar politicamente com a população. Essa relação passou a ser puramente eleitoral, que é uma relação quase sempre falsa, hipócrita, artificial. “

Os jovens mexiam a cabeça para cima e para baixo, interessados. Um novo baseado passava de mão em mão. Alguém o ofereceu a Carlos, que recusou. Aceitou, porém, a cerveja que alguém serviu em seu copo. Bebeu um longo gole, saboreando o silêncio atento da juventude.

“Não sei até onde essa ausência de relação com a população foi consciente. Tenho para mim que foi metade consciente, metade intuitiva. Minha teoria é que o vício do segredo, típico de uma geração que fez política em tempos não-democráticos, em que era preciso esconder suas intenções, em que era preciso se esconder!, teve uma influência perniciosa na postura do governo. É uma atitude de guerrilha, em que você se disfarça, como fez Che para entrar na Bolívia. Veste um terno, põe uma gravata, usa uma falsa careca, carrega uma pastinha de vendedor de auto-peças e sai por aí. Mas você ainda é um guerrilheiro, esperando chegar na floresta, num lugar seguro, para se livrar de toda aquela roupa. Isso não é maneira de fazer política numa democracia! Sobretudo numa democracia com 200 milhões de pessoas, como temos no Brasil. E aí a minha crítica converge com a crítica às alianças do PT com a direita. Por que a ausência de comunicação direta com a população, que expressa a ausência de relação política direta com a população, obriga cada vez mais o partido a buscar força na relação política de bastidores. É assim que Dilma vai enfrentar o golpismo, que mostra suas garras no dia seguinte à sua eleição, em outubro de 2014, com as velhas técnicas de se relacionar apenas para dentro, com as forças políticas tradicionais, esquecendo a população. Como a gente gritava! Dilma, olhe para nós! Estamos falando com você! Olhe os movimentos sociais, olhe seus eleitores! Estamos todos querendo lhe ajudar! E Dilma, nada. Fechou-se completamente. Não recebia mais ninguém. Tinha relação política apenas com as forças que, mais tarde, lhe dariam o golpe. As reformas ministeriais que fazia raramente contemplavam a necessidade de ampliar a relação com a população. Se fosse mais esperta, Dilma poderia sim ter feito um enxugamento profundo do ministério. Poderia ter cortado vários, desde que viesse à público e explicasse a seus eleitores que estava fazendo aquilo por esse e aquele motivos. Ela tinha legimitidade! Ela fora eleita. Ela tinha que falar diariamente com a população! A mesma coisa vale para o PT. O PT parou de falar com a população. Em 2014 e 2015, o partido realizou festas incrivelmente esquizofrênicas. Torrou uma grana preta em hoteis de luxo, em bandeiras e super produção, para quê? Para impressionar alguns milhares de militontos deslumbrados? Não tinha que ter feito festa nenhuma, e sim realizado um encontro aberto, do PT com a população, para ouvir a sociedade, para demonstrar abertura, humildade e, com isso, inteligência e capacidade de adaptação. Convidasse empresários, intelectuais, militantes de movimentos sociais, gente de outro partido, estrangeiros, para ouvir, para dar sugestões sobre políticas econômicas, para discutir o problema da mídia! Ora, fazer alianças com a centro-direita não é o maior problema, desde que as políticas implementadas sejam positivas, mas é preciso manter um diálogo aberto e constante com a população”.

Carlos fez uma pausa para beber mais um pouco de cerveja.

Um rapaz (…) aproveitou para fazer um pedido:

“Fale um pouco das manifestações de 2013. Onde elas se encaixam em suas críticas?”

Carlos pousou o copo cuidadosamente sobre a mesa, acariciou o queixo com uma das mãos, no gesto clássico de quem tenta fazer a cachola funcionar.

“Cara, eu já pensei muito sobre isso e tem a ver com o que eu falava. Falta de política com a população. A impressão que eu tive é que o silêncio do governo exasperou as pessoas a tal ponto que elas saíram às ruas, desesperadas por informação. Repare que não havia gritos contra Dilma, e sim contra a Globo. E que houve uma espécie de alívio nacional enorme quando Dilma faz um pronunciamento nacional. Mesmo assim, Dilma, quando vem à público, semanas depois daquilo tudo começar, não dá uma palavra sobre a mídia. Ela não escutava a população, nunca! Por isso houve o golpe! As pessoas queriam Dilma e ela sumiu. Só falava à Globo! Depois de um tempo, essa exasperação com o silêncio de Dilma se converteu em irritação, e a irritação em ódio. A mídia, claro, fez de tudo para catalisar estes sentimentos. A Globo mantinha uma editoria em seus portais apenas para falar das gafes da presidenta, e não numa linha exatamente humorística, mas com objetivo de criar antagonismo da população contra ela”.

(…)

Dê uma nota para o post de hoje (avaliação anônima).[ratings]

[/s2If]

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/ipanema-votou-em-crivella/feed/ 4
Maringoni: ser de esquerda nunca foi fácil https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/maringoni-ser-de-esquerda-nunca-foi-facil/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/maringoni-ser-de-esquerda-nunca-foi-facil/#comments Mon, 31 Oct 2016 19:29:01 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58516 2 Comentários 🔥]]> Foi derrota; que ela seja breve, pedagógica e nos convide à luta

por Gilberto Maringoni, na Revista Fórum

Ser de esquerda nunca foi fácil.

Ser de esquerda significa enfrentar o vento contra, a chuva e o desânimo.

Ser de esquerda é suportar derrotas sabendo que elas não são perenes.

A História não acaba hoje.

Ganhamos em 2002, 2006, 2010 e 2014.

O problema é que quem comandava não estava à altura de um tempo adverso.

Decidiu ficar ao lado dos de cima, aplicar seu programa e decepcionar quem lhe garantiu a vitória.

Pagamos todos por tais escolhas.

Mas estamos aqui.

Penso no que era ser de esquerda, após a derrota da Revolução de 1848, na França.

Ou ser progressista após os vinte mil fuzilados da Comuna de Paris, em 1871.

Ou ser comunista no Brasil, no dia seguinte à derrota de 1935, ao suicídio de Getúlio e ao golpe de 1964.

Os exemplos são incontáveis.

Problema não tem apenas a esquerda.

Problema tem o povo brasileiro, que fará novamente um duro aprendizado para sair do senso comum imbecilizante, propagado pela grande mídia e pelo fundamentalismo pseudo-religioso.

Vamos bater cabeças por alguns anos.

Vai haver sectarismos, acusações mútuas e disputas dilacerantes entre nós.

Faz parte.

As ilusões estão perdidas. Torço para que não voltem e que fiquem bem longe, junto com as falsas utopias.

O essencial é aprender com a derrota.

Para que ela seja breve, pedagógica e para que não apostemos novamente em falsas soluções.

Há muito acúmulo, há uma nova geração de militantes e ativistas, há movimentos novos, há o protagonismo inesperado de quem chega agora às trincheiras. Há uma enorme politização no ar. Não partimos do zero.

Ou alguém acha que todos os eleitores de Freixo, Edmilson, Raul e milhões de outros tantos que não se conformaram vão voltar para casa?

A luta não é uma escolha.

A luta é o que temos para o momento.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/maringoni-ser-de-esquerda-nunca-foi-facil/feed/ 2
A eleição de 2016 preparou as bases para 2018 no Rio de Janeiro? https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/eleicao-de-2016-preparou-as-bases-para-2018-no-rio-de-janeiro/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/eleicao-de-2016-preparou-as-bases-para-2018-no-rio-de-janeiro/#comments Mon, 31 Oct 2016 16:53:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58510 11 Comentários 🔥]]> Theo Rodrigues, colunista do Cafezinho

 

A ser verdade que as eleições municipais preparam as bases para as eleições estaduais seguintes, então teremos no estado do Rio de Janeiro uma disputa apertada em 2018 com um cenário de alta fragmentação.

A observação do resultado eleitoral nas 14 cidades mais populosas do estado, que conformam cerca de 75% do eleitorado fluminense, indica uma divisão principal em três grandes blocos políticos.

O bloco PR e PRB que se formou no segundo turno da eleição estadual de 2014, e que se manteve nessas eleições municipais de 2016, chegará em 2018 com um alicerce invejável: o PRB de Marcelo Crivella estará dirigindo o Rio de Janeiro e o PR de Anthony Garotinho Nova Iguaçu e São João do Meriti, respectivamente a primeira, a quarta e a oitava cidade mais populosa do estado.

O campo REDE, PPS e PV também saiu dessa eleição muito fortalecido para a disputa de 2018. Enquanto o PPS venceu em São Gonçalo (2º. mais populosa do estado), Campos dos Goytacazes (6º.) e Magé (11º.), o PV conquistou Niterói (5º.) e Volta Redonda (10º.) e a REDE Cabo Frio (14º.).

Apesar da derrota na capital, manteve-se o PMDB como o partido que mais prefeituras conquistou no estado, 21 no total. Entre elas estão Duque de Caxias (3º.), Belford Roxo (7º.), Petrópolis (9º.) e Macaé (12º.). O principal aliado do PMDB é o PP, segundo partido que mais elegeu prefeituras no estado, 16 no total, embora nenhuma de grande porte.

Além desses três campos, outros devem ser considerados para a disputa no Rio em 2018.

Não obstante tenha perdido sua única prefeitura em Itaocara, o PSOL saiu fortalecido com a ida de Marcelo Freixo ao segundo turno da capital. Tudo indica que em 2018 seu candidato ao governo será o bem votado vereador carioca Tarcísio Mota, enquanto Freixo disputará de forma mais segura uma das duas vagas ao senado.

O senador Romário (PSB) é outro que tem pretensões ao governo do estado em 2018. Seu partido elegeu 6 prefeituras, embora nenhuma de grande porte. Sua proximidade com Crivella e Clarissa Garotinho pode indicar que seja o seu nome o indicado do bloco PR-PRB para a disputa estadual.

Não há dúvidas de que o campo da esquerda tradicional foi o maior derrotado no Rio de Janeiro. O PCdoB saiu de 3 prefeitos eleitos em 2012 para nenhum em 2016, enquanto o PT saiu de 10 para apenas um em Maricá.

Em 2018, o PT provavelmente abrirá mão da reeleição do senador Lindbergh Farias que deverá concorrer a uma vaga de deputado federal para fortalecer a chapa do partido. Vale lembrar que a chapa do PT perdeu seu principal nome, Alessandro Molon, que migrou no ano passado para a Rede.

Essa esquerda tradicional formada por PT e PCdoB parece ter dois caminhos possíveis pela frente:

O primeiro caminho possível, ainda que mais difícil, seria o apoio ao candidato do PSOL. A aliança constituída no segundo turno dessa eleição municipal poderia ser mantida para 2018. Contudo, essa via esbarra na dificuldade do PSOL em realizar alianças políticas com outros partidos que não o PCB. Além de certo constrangimento da política nacional.

Outra possibilidade mais plausível seria a aliança com o PDT, partido que neste ano elegeu 6 prefeituras no interior do Rio. Neste cenário, o PT e o PCdoB fariam parte de uma aliança nacional em torno da candidatura de Ciro Gomes para a presidência da república. Essa chapa não possui ainda nenhum nome natural para disputar o governo do estado.

Muita água passará por esse rio ainda. Seja como for, as bases para a consolidação das futuras alianças sairão desse cenário que aí está.

 

Theo Rodrigues é cientista político

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/31/eleicao-de-2016-preparou-as-bases-para-2018-no-rio-de-janeiro/feed/ 11
Tijolaço: faltou povo à candidatura Freixo https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/tijolaco-faltou-povo-candidatura-freixo/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/tijolaco-faltou-povo-candidatura-freixo/#comments Sun, 30 Oct 2016 23:49:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58454 13 Comentários 🔥]]> por Fernando Brito, no Tijolaço

A apuração vai revelando uma vitória muito mais folgada do que os institutos de pesquisa haviam previsto para Marcello Crivella e ainda muito maior do que, na esquerda, em algum momentos muitos chegamos a sonhar.

O mapa aí em cima, mais do que qualquer discurso, explica para qualquer um que queira ver: faltou povo à candidatura Freixo.

Porque a Igreja Universal ou mesmo a soma de todas as denominações evangélicas não tem os 75% que o candidato Crivella obteve na Zona Oeste e o quase isso que teve na Zona da Leopoldina.

Lá, só se entra com sentido histórico ou com política e a Freixo, infelizmente, faltaram ambas.

Não (só) por culpa do PSOL ou dele, Freixo, a quem não conheço pessoalmente e não tenho razão alguma para duvidar das boas intenções, nem do talento que possui.

Mas, essencialmente, por alguns fatores que sua campanha conteve e que, em minha opinião, lhe foram fatais.

O primeiro deles foi a negação da política, acreditando nesta bobagem de que engrossar o coro da criminalização da política possa ter alguma serventia à esquerda.

Os criminosos da política vão muito bem, obrigado, e isso só “cola” na mídia quando atinge a esquerda.

O segundo erro é desconhecer que há uma história, que se assenta na memória profunda das comunidades, que não lhes soma negarem. O povão da periferia do Rio de Janeiro já foi Vargas, foi Brizola, foi Lula e ainda é. Se não é, seu pai é, seu avô é, a sua memória o chama para ser.

O terceiro erro explica os dois primeiros: aceitar a ideologia dominante e achar que vai pegar “carona” no discurso uníssono dos meios de comunicação. Pensar que a campanha da Globo contra Crivella era a chave da possibilidade de vitória.

Não: a Globo é imitada, repetida, assistida.

Mas não é amada e menos ainda tem a confiança do povão. E com toda a razão.

Tudo que a Globo disse ao povo que era bom, foi ruim. Tudo o que ela disse que era ruim, o povão sentiu como seu.

Faltou povo na candidatura “popular” ou faltou “popular”  na campanha da esquerda?

Politicamente correto sei que sobrou.

E ele não resolve a política real.

Quem quer lutar ao lado do povo não pode achar que ele é um todo e que só nós somos, perdão pela apropriação bíblica, o caminho, a verdade e a vida.

Ps. É bom frisar: a Globo perdeu a eleição onde acha ser seu quintal.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/tijolaco-faltou-povo-candidatura-freixo/feed/ 13
Maldito o país que precisa de heróis inventados https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/maldito-o-pais-que-precisa-de-herois-inventados/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/maldito-o-pais-que-precisa-de-herois-inventados/#comments Sun, 30 Oct 2016 19:53:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58449 74 Comentários 🔥]]> Juiz Sergio Moro vota no Clube Duque de Caxias, em Curitiba (Foto: Rodrigo Félix Leal/Estadão)

por Vinícius Fernandes da Silva, colaborador do Cafezinho

Esta imagem faz parte de uma chamada significativa do G1 hoje, dia final das eleições municipais. Não, ele não é candidato a nada. Ele não é um político ou ex-político conhecido. Ele é um juiz de primeira instância no Brasil, assim como outros milhares.

Mas prestem atenção na pose em frente à cabine, como se ELE pudesse ser votado. Na verdade ele é o grande protagonista do avanço da direita no país. Reparem na imagem do “herói” salvador, branco, homem, hétero, boa aparência.

O herói construído por quem odeia a democracia e historicamente apoia ditaduras e o autoritarismo, inclusive o jurídico.

Maldito o país que precisa de heróis inventados.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/maldito-o-pais-que-precisa-de-herois-inventados/feed/ 74
Presidente do PSOL em entrevista à Folha: ‘começamos a ocupar o espaço do PT’ https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/presidente-do-psol-em-entrevista-folha-comecamos-ocupar-o-espaco-do-pt/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/presidente-do-psol-em-entrevista-folha-comecamos-ocupar-o-espaco-do-pt/#comments Sun, 30 Oct 2016 19:38:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58446 73 Comentários 🔥]]> Começamos a ocupar o espaço do PT, diz presidente do PSOL

na Folha

O presidente nacional do PSOL, Luiz Araújo, escolheu acompanhar o segundo turno em Belém, a sua cidade natal. Mas o motivo é outro: o candidato do partido, Edmilson Rodrigues, tem mais chances de vitória aqui do que no Rio com Marcelo Freixo, segundo pesquisas.

Em entrevista à Folha na sexta (28), Araújo diz que o PSOL começou a ocupar o vácuo deixado pelo PT, seu antigo partido, mas que não conseguirá reconstruir a esquerda sozinho.

Professor de pedagogia da UnB (Universidade de Brasília), Araújo, 53, deixou o PT junto com seu grupo político em 2005, ano em que estourou o escândalo do mensalão. A seguir, a entrevista concedida no comitê de campanha do PSOL em Belém.

Balanço eleitoral

Essa talvez tenha sido a eleição mais difícil para a esquerda. Apesar de a gente ter saído do PT há 11 anos, o desastre que a eleição foi pro PT atingiu toda a esquerda.

Radicalizou-se um eleitorado mais conservador, principalmente as camadas médias nas cidades. Por um lado, [há] um ceticismo com a política, o que nos prejudica, porque a politização nos ajuda como candidatura de esquerda. E, por outro lado, o crescimento de partidos com candidaturas mais conservadoras stricto sensu. Os Bolsonaros da vida.

Mas nós crescemos também. Foi um bom resultado no meio de um péssimo resultado. A eleição foi uma vitória da direita, mas, olhando pelo lado da esquerda, o PT perdeu protagonismo no país inteiro, e o PSOL começou a ocupar esse espaço, guardadas as suas proporções.

Quem disputava esse espaço? PC do B, que tinha uma vinculação mais estreita com o PT; a Rede, que teve uma disputa contraditória porque se dividiu muito no dia anterior à votação do impeachment e não teve candidaturas muito competitivas.

Por esse lado, foi muito positivo: chegar a três segundos turnos [Rio, Belém e Sorocaba (SP)], quando o PT chegou a um só segundo turno [em capitais]. Lógico que ganhar ou não onde estamos disputando o segundo turno fará muita diferença na avaliação.

Segundo turno no Rio

A gente não tem uma aliança com a Globo. O que preside a Globo bater no Marcelo Crivella? Um problema comercial. Crivella assumindo tem o efeito colateral de turbinar as finanças da principal concorrente da Globo [a Rede Record].

É lógico que houve uma mobilização desses setores que não gostam muito do Freixo, mas o Crivella pode ser um tiro no escuro. Não é um plano de alianças. Os interesses olham para as candidaturas e dizem: qual o mal menor pros meus interesses? É lógico que a afinidade ideológica da Globo com PSDB seria maior.

Mas acho que isso é bom, educativo. Durante um período no PSOL, as pessoas não conseguiam enxergar que o segundo turno é um plebiscito.

Reconstrução da esquerda

A esquerda está num momento de reorganização. Temos o passivo de uma experiência que não deu certo pelo campo econômico. A nossa crítica ao governo Lula e o PT é de que não foi radical o suficiente no seu programa, fez concessões demais.

Enquanto essas concessões foram suportáveis pela elite, o PT conseguiu governar. Quando não tinha mais dinheiro pra isso, optou por fazer os ajustes que o [presidente Michel] Temer está fazendo com muito mais propriedade e capacidade política, digamos assim.

Mas também [de reorganização] pelo campo ético, de práticas da chamada governabilidade, o eufemismo inventado no Brasil para corrupção e compra de apoios em troca de cargos.

A pergunta é: que tipo de esquerda pode ser reconstruída? Algumas pessoas dentro da esquerda dizem: o problema do PT foram as alianças. O PSTU, por exemplo: “Melhor sozinho do que mal acompanhado”.

O PSOL não pensa assim. Achamos que existe um segmento da esquerda dentro do petismo e em outros partidos que continuam lutando, defendendo teses, lutando em movimentos sociais e que não estão no PSOL.

O PSOL não basta para reconstruir a esquerda. Nós assumimos um protagonismo recentemente, mas sozinhos a gente não consegue reconstruir.

Então essas experiências que estamos tendo fazem parte desse processo: ter políticas de alianças que não sejam troca de cargos, trazer segmentos que estavam na órbita do PT para apoiar nossos candidatos, ter sido contra o impeachment mesmo fazendo oposição ao governo Dilma.

Ascensão do PC do B no Maranhão

É uma questão delicada. O governador Flavio Dino até mandou apoio pro Edmilson, se conhecem. O PC do B está nos apoiando aqui no segundo turno.

Mas eu não acho que seja um projeto de esquerda lá. Tem um filme do Glauber Rocha, “Maranhão 66”. Foi o primeiro filme de propaganda eleitoral do Brasil, sobre a vitória do José Sarney, em 1966. Nesse filme, tem um discurso do Sarney mostrando essa desigualdade, essa pobreza que tinha no Maranhão e que ele ia acabar com as oligarquias.

O que ele fez depois? Criou uma oligarquia em torno dele, cooptando a oligarquia a partir do aparato do governo. O meu medo é que o Dino esteja fazendo um caminho parecido. É um risco. Eu não vou comparar porque seria uma grosseria. Ele é muitas vezes melhor do que o Sarney. Ele tem uma trajetória, mesmo que, nos últimos tempos, tenha ficado muito pragmático.

Que 46 prefeitos são esses [do PC do B no Estado]? São satélites do campo do governo, não foram 46 comunistas eleitos. Nem na China nem lá. Foram 46 prefeitos conquistados pela relação com o governo num Estado muito dependente, porque as prefeituras precisam estar do lado do governador pra ter qualquer coisa extra pra fazer, que não seja o FPM (Fundo de Participação dos Municípios). Não acho que foi tão relevante como ele apresenta.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/30/presidente-do-psol-em-entrevista-folha-comecamos-ocupar-o-espaco-do-pt/feed/ 73
Educação em crise: Ministério Público pede interdição de campus da UERJ em Petrópolis https://www.ocafezinho.com/2016/10/29/educacao-em-crise-ministerio-publico-pede-interdicao-de-campus-da-uerj-em-petropolis/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/29/educacao-em-crise-ministerio-publico-pede-interdicao-de-campus-da-uerj-em-petropolis/#comments Sat, 29 Oct 2016 17:57:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58393 1 Comentário 🔥]]> Da Redação

A forte crise econômica pela qual passa o governo do Rio de Janeiro atingiu em cheio a educação no estado. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, terá que interditar seu campus em Petrópolis, importante cidade fluminense. É o que mostram os documentos obtidos em primeira mão pelo Cafezinho e que publicamos agora com exclusividade.

De acordo com a Ação civil pública ajuizada pela promotora de Justiça Zilda Januzzi Veloso Beck, do Ministério Público Estadual em Petrópolis (processo número 0031203-87.2016.8.19.0042), o campus da UERJ em Petrópolis deverá ser interditado imediatamente.

O pedido é baseado em laudos que apontam risco à segurança dos estudantes no prédio principal do campus, que fica na Avenida Barão do Rio Branco, 279. Segundo laudos técnicos, o imóvel apresenta sérios danos estruturais. Na ação, a promotora frisa que, apesar de documentos mostrarem que a universidade tinha conhecimento dos problemas desde 2014, instalou no espaço o campus da universidade, iniciando neste ano, em prédio anexo, o curso superior de Arquitetura. A fim de garantir a manutenção das aulas, ela determina que a UERJ transfira os estudantes para outro espaço, seguro, até a realização de obras.

Na ação, do dia 21 de outubro, a promotora Zilda Januzzi diz que a interdição é necessária uma vez que nem o Governo do Estado nem a UERJ mostraram interesse em solucionar a questão e lembra que o fato de as aulas estarem sendo ministradas em sala anexa ao prédio principal “não elide o risco, de maneira nenhuma, na medida em que o acesso a este referido anexo é feito após se passar pelo casario tombado, além de outros caminhos que também oferecem risco (…)”.

A promotora chegou a agendar para o dia 19 de outubro reunião com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação Estadual, a qual está a UERJ atrelada, mas nem o Secretário, nem o representante do campus da UERJ em Petrópolis, compareceram.

O inquérito civil público foi instaurado após denúncia da Associação Petropolitana dos Estudantes (APE), que recebeu de estudantes informações sobre riscos no prédio. Segundo informações da promotoria, a própria UERJ tinha ciência dos riscos, identificados em laudo técnico feito a pedido da própria universidade em 2014. No laudo, já naquela época, técnicos da empresa Pacifici Projeto e Construção orientavam a interdição imediata do prédio para o escoramento emergencial do telhado e do teto. A promotora lembra que o prédio havia sido comprado pelo Governo do Estado naquele mesmo ano por R$ 2,2 milhões.

No inquérito, a promotoria pediu vistoria de órgãos técnicos, como a Defesa Civil e a Associação Petropolitana de Engenheiros e Arquitetos, e do Corpo de Bombeiros, que já imediatamente verificou a inexistência de certificado de aprovação. A promotora frisa que todos os laudos apontaram riscos.

Além de pedir a interdição do prédio e a suspensão das aulas no campus, o Ministério Público pede que a turma seja transferida para outro imóvel, até o fim das as obras de restauro do espaço, que é tombado pelo patrimônio histórico (trata-se da casa do Barão do Rio Branco, onde, em 1903, Brasil e Bolívia assinaram o tratado que resultou na incorporação do território do Acre ao país).

Ela pede que sejam realizadas obras de escoramento do imóvel principal tombado, em especial para evitar desabamento do telhado, especialmente diante do início do período de fortes chuvas em Petrópolis e fixa multa diária no valor de R$ 5 mil em caso de descumprimento, “sem prejuízo de improbidade administrativa por descumprimento de decisão judicial e crime de desobediência”.

Conforme foi apurado pelo Cafezinho, a imprensa petropolitana recebeu na semana passada a  denúncia. No entanto, nada foi publicado nos veículos da cidade. Um estudante da UERJ, que preferiu não ser identificado, apresentou a seguinte suspeita: “fica parecendo que a imprensa preferiu esconder essa informação para não prejudicar o candidato do governo do estado que disputará a eleição neste domingo”. Uma pena…

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/29/educacao-em-crise-ministerio-publico-pede-interdicao-de-campus-da-uerj-em-petropolis/feed/ 1
Roberto Pires: no Rio, os isentões são piores que Crivella https://www.ocafezinho.com/2016/10/26/roberto-pires-no-rio-os-isentoes-sao-piores-que-crivella/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/26/roberto-pires-no-rio-os-isentoes-sao-piores-que-crivella/#comments Wed, 26 Oct 2016 21:53:36 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=58128 14 Comentários 🔥]]> por Paulo Roberto Pires, em seu Facebook

Nas eleições do Rio, os isentões ganharam nova plumagem.

Votam branco e nulo porque “não compactuam” com nenhum dos dois candidatos: acham-se nobres pelo óbvio, recusar o bispo canalha, e especialmente perspicazes por rejeitarem a esquerda. Preferem, por isso, ajudar a eleger indiretamente o facínora reacionário, pois prezam mais seu ego e sua suposta elevada consciência política do que a cidade em que vivem.

Pior do que a montante reacionária explícita, que não tem salvação, é a multiplicação dos isentões, animais que se acreditam raros mas formam um nefasto rebanho, tão dócil quanto o conduzido pelos pregadores charlatães como Crivella.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/26/roberto-pires-no-rio-os-isentoes-sao-piores-que-crivella/feed/ 14
Sim, é possível reduzir a tarifa de ônibus no Rio https://www.ocafezinho.com/2016/10/24/sim-e-possivel-reduzir-tarifa-de-onibus-no-rio/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/24/sim-e-possivel-reduzir-tarifa-de-onibus-no-rio/#comments Mon, 24 Oct 2016 17:26:23 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=57825 1 Comentário 🔥]]> *artigo sugerido por um leitor do Cafezinho

por André Coutinho Ausgustin, no blog Enquanto Se Luta Se Samba Também

Um dos principais problemas do Rio hoje é a mobilidade urbana. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2012 os trabalhadores da Região Metropolitana do Rio de Janeiroeram, de todo o Brasil, os que mais demoravam para ir de casa até o trabalho, levando em média 47 minutos. Cerca de um quarto deles demorava mais de uma hora nesse trajeto. Além de todo tempo perdido a cada dia, os cariocas ainda precisam aguentar ônibus lotados e caros. Muito caros.

Os números mostram aquilo que todos sentem no bolso: desde o Plano Real, em julho de 1994, a tarifa de ônibus no Rio já subiu 986%. No mesmo período, a inflação foi de 417%. Ou seja, o ônibus subiu mais que o dobro que os outros preços.

tarifa-x-inflacao

A candidatura de Marcelo Freixo e Luciana Boiteux está propondo reduzir o preço da passagem e criar algumas linhas de ônibus com tarifa zero nas regiões mais pobres da cidade. Muita gente, entretanto, questiona a viabilidade econômica dessa proposta. Afinal, a atual tarifa é calculada “tecnicamente” para cobrir os custos do sistema de ônibus e sua redução seria uma medida populista que poderia inviabilizar o funcionamento desse sistema.

É necessária uma tarifa que cubra todos os custos dos ônibus?

No mundo todo se subsidia o transporte público. Além de gerar um alívio no bolso dos trabalhadores, o subsídio ao ônibus, trem e metrô é um incentivo para que as pessoas usem menos o transporte individual. Como o carro gera mais poluição, mais engarrafamentos e mais acidentes, é de se esperar que o poder público incentive o transporte público. É o que ocorre na Europa, por exemplo, onde apenas 48% do custo operacional do transporte público das áreas metropolitanas é coberto pela tarifa cobrada. O restante do custo é coberto por outras receitas, principalmente por subsídios públicos:

europa

E isso não acontece apenas em países desenvolvidos. A nossa vizinha, Argentina, por exemplo, tem uma longa tradição de subsídios ao transporte coletivo. Na área metropolitana de Buenos Aires, em 2013, os subsídios cobriam 76% do custo do transporte publico automotor de passageiros, fazendo com que as tarifas fossem muito mais baixas que as brasileiras. Mesmo com a diminuição desse auxilio anunciada recentemente pelo presidente Macri, os subsídios ainda tem um peso importante na Argentina. A mesma situação se repete em outros países da região, fazendo com que a tarifa média dos ônibus nas grandes cidades da América Latina hispânica seja em torno de um terço do valor médio das tarifas nas grandes cidades brasileiras [1].

No Brasil ocorre o contrário. Um estudo do IPEA estimou que, em 2004, os subsídios públicos para a operação e aquisição de automóveis privados no Brasil estavam entre R$ 8,5 e R$ 14,1 bilhões por ano. Já o transporte público recebia apenas entre R$ 0,98 e R$ 1,2 bilhão. E a Associação Nacional de Transportes Públicos estima que, de 2003 a 2013, os recursos gastos pelo poder público para a manutenção do sistema viário usado pelo transporte individual foram de R$ 131 bilhões, enquanto os recursos públicos para a manutenção do sistema viário usado pelo transporte público foram de apenas R$ 27 bilhões (valores corrigidos pela inflação). O resultado dessa política foi um transporte público caro e de pouca qualidade, com cada vez mais gente andando de carro e piorando as condições de trânsito das cidades brasileiras [2].

O PSOL está propondo no rio de Janeiro a criação de um fundo para reduzir a passagem que seria formado, entre outras coisas, por multas de trânsito. Já é um começo, mas para termos uma tarifa realmente barata (ou até tarifa zero para todos os ônibus) provavelmente seriam necessários recursos federais, já que a nossa estrutura tributária concentra a arrecadação na União. Como melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores não parece ser uma prioridade do Governo Temer, dificilmente se conseguiria nos próximos anos uma redução significativa da tarifa através de subsídios.

Além desse fundo, Freixo também está propondo a realização de uma auditoria nos contratos de concessão dos ônibus. Não dá para saber exatamente qual seria o resultado efetivo dessa auditoria antes dela ser realizada, mas as poucas informações que existem sobre os custos das empresas de ônibus nos fazem acreditar que existe uma grande margem para a redução da tarifa se essa auditoria realmente for feita.

Embora sempre se apresentem argumentos “técnicos” para justificar os aumentos, o que pretendemos mostrar é que na verdade os aumentos dos últimos anos ocorreram por uma opção política da prefeitura. O prefeito Eduardo Paes e os partidos que apoiavam a sua gestão (entre eles, o PRB de Crivella) se preocuparam mais com o lucro das empresas de ônibus do que com a população.

Como, afinal, é calculada a tarifa?

A maioria dos municípios brasileiros calcula a tarifa de ônibus com base na antiga planilha do GEIPOT [3], que transforma todos os custos fixos e variáveis das empresas de ônibus (incluindo o lucro) em custo por quilômetro. Depois, divide-se o custo por quilômetro pelo índice de passageiros pagantes por quilômetro (IPK), chegando-se ao valor da tarifa. Na prática, é como se dividíssemos o custo total das empresas pelos passageiros.

calculo-tarifa

Há, portanto, dois motivos que podem levar ao aumento da tarifa: um aumento do custo por quilômetro (devido ao aumento do preço do óleo diesel, por exemplo), ou uma queda no IPK (que pode ser causada pela redução do número de passageiros ou pelo aumento da quilometragem rodada).

O que ocorreu na maioria das cidades brasileiras nas últimas décadas foi uma grande redução no número de passageiros, reduzindo o IPK e causando um aumento nas tarifas. Para se ter uma ideia, em abril de 1995, o IPK médio das principais cidades (Belo Horizonte/MG, Curitiba/-PR, Fortaleza/CE, Goiânia/GO, Porto Alegre/RS, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP) era de 2,59.Em abril de 2015 havia caído para 1,52. Portanto, mesmo se o custo por quilômetro tivesse se mantido, as tarifas teriam crescido, em média, em torno de 70% nesses 20 anos.

Essa queda no número de passageiros ocorreu, como dito anteriormente, pelo aumento do uso do carro e da moto como meios de transporte. Isso aconteceu em todo o país e no Rio de Janeiro não foi diferente: nos últimos 15 anos a frota da cidade quase dobrou:

frota

Com esse aumento do uso do carro e da moto, é de se esperar que o número de passageiros de ônibusno Rio esteja caindo e era isso que estava acontecendo até 2005. A partir de 2006, entretanto, essa tendência se inverteu e o número de passageiros passou a crescer. Isso aconteceu, principalmente, pelas restrições ao uso das vans. Se em 2003 elas transportavam 18% dos passageiros do Rio, hoje elas transportam apenas 3%.

passageiros

Como já dissemos, para se calcular a tarifa é dividido o custo dos ônibus pelos passageiros pagantes. Portanto, essa mudança na tendência do número de passageiros deveria ter se refletido numa redução da tarifa. Mas não foi o que aconteceu.

A licitação de 2010 e a nova forma de cálculo da tarifa

Em 2010 a prefeitura do Rio fez a primeira licitação pública das linhas de ônibus da cidade, mas ganharam as mesmas empresas que já atuavam na cidade. Segundo parecer do Tribunal de Contas do Município, houve indícios de formação de cartel e 12 pessoas apareciam como sócias em mais de uma empresa que participou da licitação. Só o Jacob Barata, o “rei do ônibus”, era sócio de sete empresas.

Para além disso, nenhum dos consórcios concorrentes à licitação ofereceu nenhuma contrapartida à Prefeitura pelo direito de exploração do serviço, como era previsto como possibilidade pelo item de proposta comercial do edital de concessão, indicando um acordão entre as empresas concorrentes para manter o valor da tarifa no patamar mínimo calculado [5].

Como resultado estabeleceu-se a tarifa de R$ 2,40, valor que resultou da divisão de um custo por quilômetro estimado em R$ R$ 3,0103 por um IPK estimado em 1,25. Para os anos seguintes, a tarifa seria reajustada pela seguinte fórmula [6]:

Pc = Po + Po x [(0,21 x ? OD) + (0,03 x ? RO) + (0,25 x ? VE) + (0,45 x ? MO) + (0,06 x ? DE)]

Onde:

  • Pc = Preço da Tarifa calculada
  • Po = Preço da Tarifa vigente
  • ? OD = Variação do valor de Óleo Diesel (IPA-FGV)
  • ? RO = Variação do valor de Pneus para Ônibus e Caminhões (IPA-FGV)
  • ? VE = Variação do valor de a (IPA-FGV)
  • ? MO = Variação do valor da Mão de Obra (INPC-IBGE)
  • ? DE = Variação do valor de Outras Despesas (INPC-IBGE)

Existem dois grandes problemas nessa fórmula:

  • Ela ignora completamente o número de passageiros e a quilometragem. É uma forma de cálculo que supõe que o IPK vai continuar o mesmo para sempre.
  • Apesar de supor que o IPK está fixo e só atualizar o custo por quilômetro, é uma atualização muito simplista que deixa vários itens do custo de fora.

As consequências de supor um IPK fixo

Mostramos anteriormente que, a partir de 2006, houve uma mudança na tendência e o número de passageiros pagantes voltou a crescer. Como esse número subiu mais que os quilômetros percorridos pelos ônibus, o IPK cresceu, passando de 1,09 em 2006 para 1,50 em 2015:

ipk

O resultado deveria ter sido uma redução do preço da passagem. Se hoje temos uma tarifa de R$ 3,80 com um IPK estimado em 1,25, utilizando o IPK correto (de 1,50) no cálculo, a tarifa seria de R$ 3,16. Mas a regra criada em 2010 que tirou o IPK do cálculo da tarifa impediu essa redução. O resultado foram ônibus mais cheios e mais caros.

Recentemente, com a crise econômica e o aumento do desemprego, o número de passageiros voltou a cair. De janeiro a agosto de 2016, 672 mil pessoas pagaram passagem nos ônibus cariocas, uma redução de 6,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Era de se esperar uma redução no IPK, o que não ocorreu devido à redução em 9,8% dos quilômetros percorridos. Essa mudança na quilometragem é resultado da reorganização das linhas de ônibus realizada pela prefeitura e que já havia iniciado no ano anterior: de 2014 para 2015 os quilômetros percorridos foram reduzidos em 4,7%. Portanto, se até 2014 o aumento do IPK era explicado pelo crescimento do número de passageiros, a partir de então passa a ser explicado pela redução dos trajetos das linhas. Esse foi o verdadeiro motivo de toda essa reformulação dos ônibus do Rio nos últimos dois anos: uma tentativa de continuar aumentando o IPK para aumentar o lucro das empresas.

Existe um lado bom e um lado ruim no aumento do IPK: se, por um lado, isso significa ônibus mais lotados, por outro lado significa que tem mais passageiros para dividir os custos do ônibus, permitindo uma tarifa mais baixa. Algumas pessoas podem achar isso bom. Outras podem preferir ônibus mais caros, mas menos cheios e com mais conforto. O problema é que a atual gestão, ao retirar o IPK do cálculo em um momento em que ele estava aumentando, nos levou à pior das situações: ônibus caros e lotados. Essa escolha não foi nada técnica, como costumam alegar, mas política.

O custo por quilômetro

Como já explicado, o cálculo da tarifa envolve dois indicadores: o IPK e o custo por quilômetro. O primeiro foi retirado do cálculo, ficando apenas o segundo. Nem este, entretanto, está sendo calculado da forma correta. Em vez de a cada ano calcular o custo por quilômetro, como a maioria das cidades faz, a prefeitura do Rio só calcula o que seria a variação dele. Se o cálculo inicial tiver usado algum valor superfaturado, esse erro continuará valendo para sempre. E temos motivos para desconfiar de superfaturamentos, já que a cotação de uma parte dos insumos que justificou a tarifa foi feita em uma empresa do Jacob Barata (ele de novo!).

Para atualizar esse valor inicial, são consideradas variações no preço do diesel, dos pneus e dos ônibus, de acordo com a variação desses itens no IPA (índice de preços que faz parte do IGP da FGV). Também é usado o INPC, supondo que ele reflete a variação dos salários e dos demais custos.

Esse calculo é uma aproximação muito ruim, o que até a prefeitura e as empresas admitem. Tanto é assim, que eles nunca seguem a fórmula do contrato, todo ano a prefeitura divulga o cálculo de acordo com o contrato seguido de alguns “ajustes” (que quase sempre são para mais). A atualização do custo com mão-de-obra às vezes segue o INPC (previsto em contrato) e às vezes segue o acordo coletivo dos rodoviários. É verdade que seguir o acordo coletivo faz mais sentido, já que mostra o verdadeiro aumento dos salários, mas por que não colocaram isso na regra de cálculo da tarifa? O mesmo acontece com o diesel, que às vezes segue o IPA (como estipulado em contrato) e às vezes segue a pesquisa da ANP. Resumindo: apesar de existir uma prevista regra no contrato, a cada ano a prefeitura calcula de uma forma diferente, sempre para beneficiar as empresas.

Também não podemos ignorar os “erros” de cálculo. No reajuste de janeiro de 2014, por exemplo, os valores usados para calcular a variação do diesel, dos pneus e dos ônibus, que supostamente haviam sido tirados do IPA, são diferentes dos valores verdadeiros do IPA divulgado pela FGV [7]. Se esse erro foi proposital ou por incompetência, pouco importa. O fato é que foi calculada uma tarifa acima do que deveria.

Entre tudo aquilo que fica de fora do cálculo de acordo com essa fórmula tosca da prefeitura, queremos destacar o fator de utilização de pessoal, que diz quantos motoristas, cobradores, fiscais e despachantes são necessários para cada ônibus da frota. Na planilha que definiu o valor inicial das tarifas, em 2010, o fator de utilização dos motoristas era apenas 0,36% maior que o fator de utilização dos cobradores. Isso significa que foi calculada uma tarifa supondo que praticamente todos os ônibus possuíam cobrador. Sabemos que na realidade isso não acontece e que cada vez é mais comum o ônibus ser operado apenas pelo motorista, o que aumenta o risco de acidentes.

No cálculo de 2010, 12,9% da tarifa correspondia ao salário e demais encargos dos cobradores. Isso dá, com o valor atual, R$ 0,49 por passagem. Se as empresas estão colocando os passageiros em risco com a dupla função, pelo menos que incluam isso no cálculo da tarifa! Estamos pagando para as empresas pelo salário de funcionários que já foram demitidos! Não sabemos exatamente quantos ônibus operam sem cobrador, mas 77,21% deles atendem ao critério que permite as empresas tirarem os cobradores.

Outra coisa que não entra no cálculo da tarifa é a venda antecipada de passagens. Quando alguém carrega seu RioCard e fica 12 meses sem usar algum crédito, esse crédito se perde. O dinheiro acaba indo para Fetranspor, que ganha R$ 90 milhões por anos só com e expiração de crédito das linhas intermunicipais. E mesmo naquelas passagens que são usadas antes de 12 e não expiram as empresas lucram: no período entre o crédito ser comprado e ser utilizado, esse dinheiro é aplicado e rende juros. Esse rendimento deveria ser revertido em redução da tarifa, mas vai direto pro bolso da Fetranspor.

Não temos como afirmar quanto seria a tarifa exata se ela fosse calculada da forma correta, já que a prefeitura e as empresas não divulgam todas as informações necessárias. Mas considerando todos esses problemas no cálculo do custo por quilômetro mais a falta de atualização do IPK, as poucas informações disponíveis já mostram que a passagem deveria estar abaixo dos 3 reais se fossem usados critérios realmente técnicos. Portanto,  é possível reduzir a tarifa de ônibus no Rio de Janeiro mesmo sem subsídios!

O problema não é matemático

Quando os técnicos do Tribunal de Contas do Município analisaram o reajuste de 2012, eles chegaram à conclusão que a tarifa não só não deveria aumentar, como deveria ser reduzida:

Até que se evidenciem os elementos que justifiquem o aumento de tarifa em R$ 0,25, pode-se concluir que, de janeiro de 2012 até o presente momento, restou configurado o desequilíbrio econômico-financeiro nos contratos de concessão, em benefício das concessionárias. Por tal razão, considera-se apropriado o retorno da cobrança da tarifa ao valor de R$ 2,50, e sugere-se que a Secretaria de Transportes estipule medidas de compensação em prejuízo dos consórcios, para que os recursos decorrentes do acréscimo de R$ 0,25 sejam revertidos, a curto prazo, em investimentos a bem dos usuários.

Essa recomendação, entretanto, não foi seguida.

Voltando às eleições de 2016, o candidato Crivella gosta de dizer que é engenheiro e “sabe fazer contas”. O cálculo da tarifa de ônibus não é tão difícil e não precisa ser engenheiro para entender. Qualquer pessoa que tiver acesso às informações (o que é difícil de acontecer, já que as empresas e a prefeitura escondem os dados) e se dedicar alguns dias a entender as planilhas consegue perceber que a atual tarifa está muito acima do que deveria ser. Mas o problema não é meramente técnico, é político. Se o problema fosse técnico, teria sido resolvido pelo relatório do TCM.

O lucro das empresas de ônibus está muito além do razoável e não há vontade política para mudar isso. Enquanto a população se espreme que nem sardinha e paga uma passagem cara, os empresários de ônibus distribuem agrados entre políticos para manter seus interesses. Em uma gravação de 2011, o ex-secretário municipal Rodrigo Bethlem admitiu que o “rei do ônibus” Jacob Barata financiou sua campanha. Em troca, Bethlem teria sido “muito útil” ao empresário: “Não foi pouco não, foi muito. Eu derrubei sessão, tirei projeto”. Esse não é um caso isolado, trocas de favores como essa ocorrem com frequência entre empresas de ônibus e pessoas ligadas às prefeituras.

Não resolveremos o problema escolhendo o candidato melhor em matemática, mas escolhendo o candidato com mais independência política em relação aos empresários. O bispo/engenheiro já mostrou de que lado está: passou os últimos anos apoiando Eduardo Paes e hoje é assessorado por Bethlem.

Se a cidade fosse nossa, e não dos empresários, teríamos um transporte público mais barato e com mais qualidade. Isso incentivaria a mais pessoas usarem o transporte público, reduzindo o número de carros nas ruas e, consequentemente, os engarrafamentos. Além de gastar menos dinheiro, os cariocas poderiam usar para o lazer o tempo que hoje gastam no trânsito. É uma situação em que todos ganham, menos a Fetranspor e os políticos financiados por ela.

Texto escrito com ajuda do Leonardo Veiga, grande companheiro de rodas de samba e de militância da época em que eu estudei no Instituto de Economia da UFRJ. Agora ele tá no mestrado do IPPUR, escrevendo uma dissertação sobre mobilidade urbana no Rio de Janeiro.

Notas:

[1] VASCONCELLOS, Eduardo Alcântara de. Políticas de transporte no Brasil: A construção da mobilidade excludente. Barueri: Manole, 2013, p. 152.

[2] Sobre a relação entre os subsídios e os custos do transporte público e do transporte individual no Brasil, ver http://revistas.fee.tche.br/index.php/indicadores/article/view/3811

[3]O Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes (GEIPOT) foi um órgão criado em 1965, vinculado ao Ministério de Viação e Obras Públicas. Transformado em Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes em 1973, o GEIPOT foi extinto em 1998. Até hoje o modelo de planilha de custos criado pelo GEIPOT é usado pela maioria das cidades brasileiras para calcular o valor das tarifas de ônibus.

[4] Foram incluídos automóveis, motocicletas, motonetas, ciclomotores, caminhonetes, caminhonetas e utilitários.

[5] Para mais detalhes dos indícios de cartelização ver MATELA, Igor. Transição regulatória no transporte por ônibus na cidade do Rio de Janeiro. Letra Capital: Rio de Janeiro, 2014.

[6] Essa é a fórmula que aparece nos contratos assinados. No entanto, ela é diferente tanto da fórmula prevista na minuta de contrato da licitação quanto da fórmula escrita nos sucessivos decretos de reajuste da tarifa, o que já seria justificativa suficiente para anular todos os reajustes realizados desde então.

[7] Os número-índices para os itens “óleo diesel”, “rodagem” e “ônibus” em novembro de 2013 eram, respectivamente, 132,321, 154,799 e 112,369. A prefeitura, no entanto, usou os seguintes valores: 131,969, 156,238 e 112,316.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/24/sim-e-possivel-reduzir-tarifa-de-onibus-no-rio/feed/ 1
Ibope: no Rio, Crivella permanece na liderança da disputa apesar de vantagem diminuir https://www.ocafezinho.com/2016/10/21/ibope-no-rio-crivella-permanece-na-lideranca-da-disputa-apesar-de-vantagem-diminuir/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/21/ibope-no-rio-crivella-permanece-na-lideranca-da-disputa-apesar-de-vantagem-diminuir/#comments Fri, 21 Oct 2016 15:36:20 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=57643 4 Comentários 🔥]]> no IBOPE Inteligência

O IBOPE Inteligência realizou, em parceria com a TV Globo, a segunda pesquisa de intenção de voto para prefeito do Rio de Janeiro no segundo turno das eleições. De acordo com o levantamento realizado entre os dias 17 e 19 de outubro, Crivella (PRB) permanece na liderança da disputa, com 61% dos votos válidos, enquanto Marcelo Freixo (PSOL) tem 39%.

Quando se consideram votos brancos, nulos e eleitores indecisos, Crivella recebe 46% das intenções de voto (5 pontos percentuais a menos do que o aferido na pesquisa anterior), enquanto Marcelo Freixo cresce 4 p.p. e obtém 29% das menções. Neste momento, 21% dos eleitores declaram a intenção de votar em branco ou anular o voto (mesmo percentual do estudo anterior) e 4% não sabem ou preferem não responder a pergunta (eram 3%).

Destaques por segmentos
– Neste momento, as intenções de voto em Crivella mantêm-se mais expressivas entre os eleitores menos instruídos (até a 8ª série do ensino fundamental) e entre os que possuem renda familiar de até 5 salários mínimos. Além disso, Crivella se destaca entre os eleitores de 35 a 44 anos e passa a se destacar entre os de 25 a 34 anos.

– Marcelo Freixo mantém seu melhor desempenho entre os eleitores mais jovens, de 16 até 24 anos, e entre os que possuem Ensino Superior. As intenções de voto no candidato do PSOL são também maiores entre eleitores com renda familiar mensal superior a 5 salários mínimos.

print21101

***

Leia a pesquisa inteira aqui

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/21/ibope-no-rio-crivella-permanece-na-lideranca-da-disputa-apesar-de-vantagem-diminuir/feed/ 4
Íntegra do debate entre Crivella e Freixo na RedeTV! https://www.ocafezinho.com/2016/10/19/integra-do-debate-entre-crivella-e-freixo-na-redetv/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/19/integra-do-debate-entre-crivella-e-freixo-na-redetv/#comments Wed, 19 Oct 2016 12:37:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=57285 1 Comentário 🔥]]>

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/19/integra-do-debate-entre-crivella-e-freixo-na-redetv/feed/ 1
Campanha de Freixo é o “último reduto” da esquerda no Brasil, diz Trajano https://www.ocafezinho.com/2016/10/14/campanha-de-freixo-e-o-ultimo-reduto-da-esquerda-no-brasil-diz-trajano/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/14/campanha-de-freixo-e-o-ultimo-reduto-da-esquerda-no-brasil-diz-trajano/#comments Fri, 14 Oct 2016 13:11:20 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=56892 10 Comentários 🔥]]> Trajano: “O que mais enoja é a mídia fazendo jogo sujo contra o Freixo”

O jornalista esportivo mergulhou na campanha do candidato do PSOL no Rio por acreditar que ele vai “renovar a esquerda”

na Carta Capital

A língua afiada já rendeu ao jornalista José Trajano Reis Quinhões a definição de “o melhor mau humor da TV brasileira” saída da batuta do publicitário Washington Olivetto. Nascido no Rio de Janeiro há 69 anos, mas há três décadas radicado em São Paulo, o tijucano deixou o esporte de lado nos últimos dias para voltar à sua cidade como voluntário na campanha do candidato à prefeitura carioca Marcelo Freixo (PSOL). Ele diz apoiá-lo por ser “um sujeito íntegro, sério, que tem uma trajetória limpa na política”.

A saída da ESPN, canal que ajudou a criar em 1995, fez com que decidisse virar militante do psolista. “Com a decepção enorme das eleições em São Paulo (onde apoiava Fernando Haddad, do PT) e a ida do Freixo para o segundo turno, eu resolvi me plantar aqui e ajudar no que for preciso”, diz.

Trajano acredita que a campanha de Freixo é o “último reduto” da esquerda no Brasil nessas eleições e, por isso, decidiu aderir. “Como no Rio de Janeiro a campanha do Freixo ficou como o último reduto da esquerda, eu acho que estamos jogando todos os trunfos na campanha dele. É uma campanha que é diferente”, avalia.

Brizolista por convicção, o jornalista se define como um homem de esquerda. Ele foi contrário ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o que lhe rendeu agressões pela internet.

O histórico é o que faz acreditar no candidato do PSOL. “O Freixo pode renovar a esquerda brasileira. Ele se cercou de muita gente e ouviu a população para produzir seu projeto de governo, que propõe uma cidade nova e de participação. O programa dele é uma inovação”, opina.

A militância inclui desde panfletagem nas ruas até discursos em comícios, o que tem surpreendido cariocas por onde passa. “As pessoas até se espantam e vêm tirar selfie”, conta.

São as jogadas ensaiadas da oposição ao candidato do PSOL, contudo, o que mais irrita o jornalista. “Nas redes sociais tem de tudo: dizem que ele (Freixo) vai distribuir maconha para a população, que vai acabar com a Polícia Militar e com o carnaval. Tem coisas inacreditáveis”, relata.

Mas é a imprensa, sua área de trabalho há 54 anos como um dos jornalistas esportivos mais respeitados do País, que mais irrita Trajano.

Trajano: críticas à imprensa (Foto: Divulgação)

Trajano: críticas à imprensa (Foto: Divulgação)

Ele avalia que o “ódio e repúdio” ao nome de Freixo nas redes sociais migrou para as páginas da imprensa carioca. “O que mais me enoja é a mídia fazendo o jogo contra o Freixo”, afirma. “A mídia que perseguiu tanto a (ex-presidente) Dilma (Rousseff), o (ex-presidente) Lula, o PT e que apoiou o impeachment, nesse momento está virada contra o Freixo. A campanha da mídia é sórdida”, diz.

Ele cita como exemplo dois articulistas do jornal O Globo, jornalistas de expressão nacional como ele: Ricardo Noblat e Merval Pereira.

“Hoje (segunda-feira 10) tem um artigo do Noblat no Globo dizendo ‘Crivella já venceu’ e que não está havendo nenhum esforço do Freixo para ganhar a eleição, que ele prepara para ser candidato a governador. Como um cara desses, que não sai do seu escritório ou da sua casa para acompanhar o candidato pela rua, não vai a nenhum comício ou evento e não vê a empolgação de quem está acompanhando o esforço do candidato, me faz uma coluna inteira no Globo sobre isso? Aí vem o Merval Pereira pregando o voto nulo, que é um direito e não sei o quê”, critica.

“Na hora que as pessoas botam medo e dizem para votar nulo, é que alguma coisa está acontecendo”, ressalta.

Embora acredite que haja “uma máquina de mentiras surgindo”, Trajano confia que Freixo pode virar o jogo e vencer no Rio. “É hora de mostrar para as pessoas como será o governo dele”, acredita

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/14/campanha-de-freixo-e-o-ultimo-reduto-da-esquerda-no-brasil-diz-trajano/feed/ 10
O “erro” do PT e a corrupção https://www.ocafezinho.com/2016/10/11/o-erro-do-pt-e-a-corrupcao/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/11/o-erro-do-pt-e-a-corrupcao/#comments Tue, 11 Oct 2016 22:08:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=56612 8 Comentários 🔥]]> por João Feres Júnior

Publiquei artigo recentemente discutindo o cenário de choro e ranger de dentes no qual se meteu a esquerda após a eleição municipal do dia 2 de outubro. Entre os que autoflagelam e os que apontam o dedo há um consenso a meu ver burro de que a derrota de deveu aos “erros do PT”. Tentei mostrar que os tais erros identificados por esses comentaristas são de fato falácias, senão virtudes políticas, como é o caso da aliança com o PMDB. Claro que o erro mais mencionado é o da corrupção. Esses críticos agem como seus antípodas, os coxinhas, reduzindo a política à questão da honestidade e, por conseguinte, da corrupção. Ora, a solução para a corrupção é investigar, processar e condenar os culpados, e desenhar procedimentos administrativos que diminuam o risco de que ela seja cometida sem, ao mesmo tempo, emperrar a máquina pública – algo bem difícil de se conseguir. Mas tal solução imperfeita está longe de constituir uma escolha política que faça jus a esse termo de origem grega.

Se observarmos os resultados da eleição, contudo, essa interpretação se desfaz. Os partidos vencedores foram PSDB e PMDB, todos alvejados com inúmeras denúncias de corrupção. Só para tomarmos um exemplo, João Dória, que venceu a eleição em São Paulo já no primeiro turno de lavada, foi acusado de apropriação ilegal de terreno público em plena entrevista ao telejornal SPTV, da Globo. Tentou negar a acusação e foi desmentido na hora pelo jornalista, que eximiu até provas documentais do ilícito. Então por que será que a derrota do PT deve ser atribuída à corrupção e estes outros partidos envolvidos em escândalos de corrupção não sofreram dano eleitoral?

Um petista carpidor argumentou em texto recente que o PT sofreu mais porque pregava a luta contra a corrupção. Acho essa tese improvável. O PT de fato fazia um discurso bastante moralista antes de virar governo, por mais de uma razão. Primeiro porque saia do regime militar, altamente repressor do debate político. A crítica à corrupção naquele contexto pode ser lida como subterfúgio para promover a politização do eleitor. Segundo porque existe um viés anti-Estado nas esquerdas, marxistas ou não, e o PT não escapa disto, particularmente antes de ter ganhado eleições importantes. Claro, esse tipo de coxismo só vê corrupção no Estado e faz vistas grossas para o seu Manoel da padaria que deixa de lançar nota fiscal para 80% de seu faturamento, ou, por extensão, para imensos conglomerados de comunicação que sonegam centenas de milhões em impostos. E, por fim, porque o PT é um partido de origem paulista, e em São Paulo o discurso bandeirante excepcionalista e, por conseguinte, também pró-sociedade e anti-Estado penetra não só na extrema direita saudosa da Revolução de 32 mas também na esquerda – não nos esqueçamos que o partido é proveniente da organização da sociedade paulista contra o Estado autoritário.

Mas isso não faz o argumento do petista carpidor mais verdadeiro. O PT parou há tempos de fazer um discurso inflamado contra a corrupção. Pelo contrário, historicamente, no Brasil, esse discurso é encampado pela direita. Ademais, poucos eleitores contemporâneos têm memória daquele PT aguerrido e ingênuo dos primeiros anos – que mais parecia o PSOL de hoje, com a diferença de que tinha profunda base nos movimentos sociais, o que não acontece com o partido de quadros que ora compete pelo segundo turno da eleição carioca. Assim, a pergunta não foi ainda respondida: por que será que a corrupção constituiu o principal erro do PT do ponto de vista eleitoral?

Só há uma resposta para ela. Volto a insistir, as interpretações erram por não reconhecer que a mídia foi a grande vitoriosa deste pleito, elegendo políticos que lhe são em tudo simpáticos e generosos, e derrotando o PT, seu principal alvo. Mas os críticos de plantão continuam a sofrer da vertigem da naturalização da comunicação, uma operação mental que simplesmente apaga a função da comunicação mediada. É como se, no final das contas, a mídia só reproduzisse fatos.

Foi a corrupção a principal arma de ataque? Sim, mas uma corrupção construída narrativamente como responsabilidade maior do partido, de Lula, de Dilma, ou pior, como frequentemente se lê nos textos produzidos por essa mídia, do Lulopetismo. Eu sei que o carpidor e seu séquito vão redarguir: mas se não tivesse se corrompido o governo do partido não haveria denúncia. Nada mais ingênuo. Só para citar um exemplo importantíssimo, o “escândalo do Mensalão” foi todo construído sobre pés de barro, sem evidências de malversação de dinheiro público, sem evidências de influência em resultado de votação, e mesmo assim serviu para macular a imagem do partido e colocar suas principais lideranças na cadeia, submetidas à execração pública. Em suma, não há nada de natural na maneira como a corrupção aparece para o eleitor. Em um contexto no qual uma simples citação em delação premiada poder ser usada para justificar a prisão preventiva de alguém, a partir da qual um circo midiático de dilapidação da reputação do preso tem início, não dá para ser tão ingênuo como o carpidor e seu bando.

O principal erro do PT, que causou sua derrota nas urnas, foi não ter atentado para a importância da comunicação pública para a formação de opinião dos cidadãos. Esse erro deve ser atribuído ao mesmo tipo de ingenuidade do carpidor, que naturaliza a questão do fluxo de informação em nossa sociedade, ou melhor dizendo, ignora suas especificidades. Enquanto as esquerdas estiverem capturadas por essas concepções pueris do jogo político, continuarão a sofrer repetidas derrotas.

João Feres Júnior é cientista político, vice-diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP) e do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA)

]]>
https://www.ocafezinho.com/2016/10/11/o-erro-do-pt-e-a-corrupcao/feed/ 8