Fascismo - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/fascismo/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Wed, 26 Feb 2025 02:27:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Fascismo - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/fascismo/ 32 32 ‘Não senti nada além de nojo’: proprietários de Tesla expressam sua raiva contra Elon Musk https://www.ocafezinho.com/2025/02/26/nao-senti-nada-alem-de-nojo-proprietarios-de-tesla-expressam-sua-raiva-contra-elon-musk/ Wed, 26 Feb 2025 11:13:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=202770 As ligações do magnata com Donald Trump e o partido de extrema direita AfD da Alemanha travaram as vendas e deixaram os proprietários do carro em polvorosa.

Quando Mike Schwede sentou pela primeira vez em um Tesla Roadster há 15 anos, ele sentiu que era um vislumbre do futuro. Em 2016, ele era o orgulhoso dono de um Tesla, deleitando-se com os polegares para cima que receberia de outros motoristas enquanto ele passava pelas rodovias da Europa no veículo elétrico.

Mas ultimamente o brilho de possuir um Tesla começou a se desgastar. Por anos, a marca foi sinônimo de Elon Musk e sua postura contra a crise climática. Recentemente, Schwede assistiu horrorizado enquanto o CEO da Tesla investiu centenas de milhões para apoiar Donald Trump enquanto ele fazia promessas de aumentar a produção doméstica de petróleo e gás.

“Ele estava ficando cada vez mais estranho”, disse Schwede, um empreendedor e estrategista digital baseado na Suíça. A gota d’água veio quando Musk fez saudações consecutivas no estilo fascista durante a posse de Trump em janeiro. “Eu não senti nada além de total desgosto”, disse Schwede. “E eu não gostava mais de sentar no meu Tesla.”

Na terça-feira, dados da European Automobile Manufacturers’ Association mostraram que as vendas de novos carros Tesla caíram quase pela metade na Europa no mês passado. Os números deixaram analistas lutando para avaliar o quão grande pode ser o fator que os clientes estão dando as costas à marca por causa da incursão de Musk na política de extrema direita.

A montadora sediada no Texas vendeu 9.945 veículos na Europa em janeiro, uma queda de 45% em relação aos 18.161 do ano passado, disse a associação.

Uma paródia de anúncio ‘Tesla – The Swasticar’ postada em um ponto de ônibus de Londres. | People vs Elon

Agora, há sinais de que os atuais proprietários de Tesla que ficaram descontentes com as opiniões de Musk estão expressando sua raiva.

Schwede pensou em vender seu carro, mas depois de acumular mais de 60.000 milhas nele, havia pouco valor restante nele. Então ele criou seus próprios meios de recuperar seu Tesla e o ethos liberal que havia sustentado sua compra; ele começou a doar 10 centavos para cada quilômetro dirigido para uma série de instituições de caridade, contrariando o apoio de Musk à extrema direita com apoio direto àqueles que ajudam jovens LGBTQ+ ou lutam contra o ódio e o extremismo. “Era algo que Elon não gostaria”, disse ele. “Essa é minha vingança pessoal.”

É uma indicação de como alguns proprietários de Tesla na Europa estão revidando, oferecendo sua própria resistência — ainda que em pequena escala — enquanto Musk se aprofunda na política global, usando sua riqueza para ajudar a garantir o retorno de Trump à Casa Branca e sua ampla influência para apoiar partidos de extrema direita e anti-establishment em toda a Europa.

Para o alemão Patrik Schneider, o ponto de virada veio quando ele foi vaiado por um estranho em um posto de gasolina, que apontou para seu Tesla e o chamou de apoiador de Trump. Sobrecarregado com um contrato de arrendamento de longo prazo do veículo, ele se esforçou para encontrar uma maneira de lidar com seu relacionamento com uma marca que – em sua mente – havia azedado.

“É claro que, como motorista de Tesla, você sempre foi o tolo: o eleitor do Partido Verde, o salvador do mundo, o cara do CO 2 ”, disse Schneider à mídia alemã Capital.de. “Mas agora você está em uma categoria que não é mais engraçada.”

O que ele criou foi uma linha de “adesivos anti-Elon” para carros Tesla. Em um eco de uma iniciativa americana, ele começou a vender os adesivos online há seis meses, recebendo pedidos de mensagens que variam de “Comprei isso antes de Elon enlouquecer” a “Elon é uma droga”.

À medida que Musk se aprofundava mais na política alemã, recebendo a colíder da extrema direita AfD, Alice Weidel, em uma entrevista no X e aparecendo em um comício da AfD onde menosprezou o multiculturalismo e criticou o foco do país na “culpa do passado”, a demanda pelos adesivos disparou.

A demanda agora subiu para até 2.000 adesivos por dia, com pedidos chegando de todo o mundo de língua alemã, mas também da Austrália e da Coreia do Sul. Tudo isso foi feito sem nenhuma publicidade, disse Schneider, acrescentando ironicamente: “Elon Musk faz isso por nós”.

Outros pediram que as ações fossem mais longe. Na Polônia — onde a ocupação nazista alemã levou à morte de 6 milhões de poloneses, incluindo 3 milhões de judeus — o ministro do turismo do país pediu aos cidadãos que boicotassem a Tesla após a aparição surpresa de Musk no comício da AfD. “Tudo o que posso dizer é que provavelmente nenhum polonês normal deveria comprar um Tesla mais”, disse Sławomir Nitras recentemente à emissora polonesa Tok FM. “Uma resposta séria e forte é necessária, incluindo um boicote do consumidor.”

Em agosto, a rede de farmácias alemã Rossmann disse que não compraria mais carros Tesla para sua frota corporativa, citando o apoio de Musk a Trump, enquanto a empresa de energia alemã LichtBlick disse nas redes sociais que “puxaria o plugue” dos veículos Tesla em sua frota, citando o apoio de Musk a “um partido populista e extremista de direita”.

A mensagem foi repetida recentemente pelo grupo de campanha Led by Donkeys, sediado no Reino Unido, depois que eles projetaram imagens da saudação de Musk na fachada da gigafábrica da Tesla, perto de Berlim.

“O homem mais rico do mundo, Elon Musk, está promovendo a extrema direita na Europa”, escreveu o grupo de campanha nas redes sociais após sua colaboração com o Centro de Beleza Política da Alemanha. “Não compre um Tesla.”

Em Londres, ativistas colocaram uma paródia de propaganda de ponto de ônibus “Tesla – The Swasticar” com o slogan “vai de 0 a 1939 em 3 segundos”, fazendo referência ao início da segunda guerra mundial, e adesivos com palavras semelhantes foram colados em carros Tesla. Em Tottenham, norte de Londres, um membro do grupo ativista People vs Elon levou um recorte de papelão da saudação de Musk para uma concessionária Tesla.

Na Suécia, a fabricante de veículos elétricos Polestar tentou capitalizar o descontentamento. “Temos muitas pessoas escrevendo que não gostam de tudo isso”, disse o CEO da empresa, Michael Lohscheller, à Bloomberg, acrescentando que ele havia orientado a equipe de vendas a mirar em proprietários descontentes de Tesla.

Depois que uma pesquisa holandesa sugeriu que 31% dos entrevistados que possuíam Teslas estavam considerando vendê-los ou já o fizeram, resta saber qual será o impacto na empresa. Matthias Schmidt, um analista automotivo baseado na Alemanha, disse que “2025 será um dos maiores testes para a Tesla”.

“Com todo o respeito, os consumidores tendem a ser como peixes dourados; eles tendem a esquecer as coisas muito rapidamente”, acrescentou Schmidt. “Mas a Alemanha é potencialmente um pouco diferente por causa de sua história… A mudança para ele apoiar o AfD foi potencialmente muito mais prejudicial na Alemanha do que sua mudança para apoiar Trump.”

Elon Musk empunha uma motosserra durante sua aparição na Conferência Anual de Ação Política Conservadora nos EUA. | Carol Guzy/Zuma Press Wire/Rex/Shutterstock

No ano passado, as vendas da Tesla na Alemanha caíram 41% — superando o declínio geral de 27% nos veículos elétricos em todo o país — à medida que os rivais lançaram seus próprios veículos elétricos e os governos reduziram os subsídios.

Os números do início de 2025 mostram que as vendas da Tesla caíram acentuadamente em vários mercados europeus. Os registros caíram 63% em relação ao ano anterior na França, 59% na Alemanha, 44% na Suécia, 38% na Noruega e 12% no Reino Unido.

Embora os compradores possam estar reagindo aos comentários de Musk, outros fatores também podem estar em jogo enquanto os consumidores aguardam o lançamento do modelo Y atualizado da Tesla, disse Schmidt.

Quando contatada pelo Guardian, a Tesla não respondeu a um pedido de comentário. Mas no final do mês passado, Musk pareceu estar otimista durante uma ligação com investidores, sugerindo que 2025 pode ser um ano difícil, mas que 2026 seria “épico” para a empresa.

“Musk é como um personagem que – como um gato – tem nove vidas”, disse Schmidt. “E ele quase usou essas nove vidas. E será interessante ver o que acontece agora.”

Publicado originalmente pelo The Guardian em 25/02/2025

Por Ashifa Kassam

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Vídeo: Bolsonaro volta a atacar o STF em live com a extrema-direita de Portugal https://www.ocafezinho.com/2024/02/04/video-bolsonaro-volta-a-atacar-o-stf-em-live-com-a-extrema-direita-de-portugal/ https://www.ocafezinho.com/2024/02/04/video-bolsonaro-volta-a-atacar-o-stf-em-live-com-a-extrema-direita-de-portugal/#respond Sun, 04 Feb 2024 16:29:23 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=175143 O ex-presidente Jair Bolsonaro, em entrevista concedida no sábado, 3, ao influenciador português Sérgio Tavares, manifestou descontentamento com o resultado das eleições presidenciais de 2022, afirmando que ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuaram favoravelmente à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Bolsonaro sugeriu que houve uma mobilização no Judiciário para garantir a vitória de Lula, destacando que o Supremo Tribunal Federal (STF) teve um papel crucial ao tornar o ex-presidente elegível após sua libertação.

“A Justiça brasileira, o Supremo Tribunal Federal tirou o Lula da cadeia e depois o tornou elegível. E, depois, o Supremo Tribunal Federal, que 3 dos seus ministros compõem o Tribunal Superior Eleitoral, também trabalharam lá fazendo gestões para eleger Lula a qualquer preço”, declarou Bolsonaro.

Os ministros do STF citados por Bolsonaro que compuseram o TSE durante as eleições de 2022 incluem Alexandre de Moraes, na presidência do TSE, acompanhado por Edson Fachin e Ricardo Lewandowski.

Apesar das alegações de Bolsonaro, não foram apresentadas provas concretas de irregularidades no processo eleitoral.

O sistema de votação brasileiro, baseado em urnas eletrônicas, é consistentemente validado por auditorias que confirmam sua segurança e confiabilidade.

Assista de 8min48s até 9min33s

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Passou da hora de enquadrar os golpistas de home office https://www.ocafezinho.com/2022/12/28/passou-da-hora-de-enquadrar-os-golpistas-de-home-office/ https://www.ocafezinho.com/2022/12/28/passou-da-hora-de-enquadrar-os-golpistas-de-home-office/#comments Wed, 28 Dec 2022 21:57:35 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=147564 6 Comentários 🔥]]>

Como se pode ver no vídeo acima, Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, é mais um golpista que está incitando o caos no Brasil.

É comovente a galhardia de cidadãos de bem como Araújo. Bem aquecido por um cachecol, o abilolado diplomata diz que “a gente precisa mergulhar no caos para se livrar dele” e que não podemos “ter medo do caos”.

Servidor de carreira, Araújo deve ganhar algo próximo de R$ 30 mil mensais. Ele está a uma distância segura do caos “necessário”, pois provavelmente vive nos Estados Unidos.

Ainda assim, demonstra toda sua coragem ao incentivar o caos aqui no Brasil. Que a ralé que ainda vive por aqui, os mais de 200 milhões de brasileiros que trabalham muito e ganham pouco, lidem com a violência, o sangue, o golpe e a instabilidade política e econômica.

Precisamos “mergulhar no caos”, afinal. Mergulhem aí enquanto eu abro mais uma espumante para comemorar o ano novo no meu apartamento quentinho nos states.

É a Escola Rodrigo Constantino de Golpistas de Home Office [ERCGHO] a todo vapor.

Constantino vem vociferando contra a eleição de Lula insistentemente, conclamando, também, o caos. Sua pregação golpista é tão despropositada que chegou a levar umas lapadas de colegas na Jovem Pan, no ar, justamente por fomentar o caos morando em Miami. Ser golpista à distância é fácil demais, né não?

Paulo Figueiredo Filho é mais um integrante da ERCGHO. O neto do ditador João Batista Figueiredo, provando que puxou ao avô, é outro que incita o golpe e o caos diariamente. Ganha um doce quem adivinhar onde mora o netinho do vovô.

É inadmissível que estes tresloucados de extrema direita fomentem o golpismo, de forma escancarada, e fiquem impunes.

O terrorista que tentou explodir um caminhão de combustível em Brasília compartilhava vídeos do Rodrigo Constatino em seu Twitter. Palavras criminosas têm consequências e quem as profere deve ser responsabilizado.

Já passou da hora de o Ministério Público e o Judiciário começarem a enquadrar os golpistas de home office.

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Terrorismo de extrema direita assombra o país https://www.ocafezinho.com/2022/12/25/terrorismo-de-extrema-direita-assombra-o-pais/ https://www.ocafezinho.com/2022/12/25/terrorismo-de-extrema-direita-assombra-o-pais/#comments Mon, 26 Dec 2022 00:25:13 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=147514 10 Comentários 🔥]]> George Washington de Oliveira Sousa é o nome do bolsonarista que foi preso por tentar explodir um caminhão de combustível em uma rua próxima ao Aeroporto de Brasília, nesta véspera de Natal.

Em seu depoimento à polícia, o terrorista de extrema direita disse que elaborou um plano “com os manifestantes do QG do Exército para provocar a intervenção das forças armadas e a decretação de estado de sítio para impedir a instauração do comunismo no Brasil”.

“Seria uma tragédia jamais vista”, segundo o diretor da Polícia Civil do DF. A tragédia só não aconteceu porque o motorista do caminhão percebeu que uma caixa fora largada no interior do veículo e acionou a polícia.

O plano tinha outra fase, segundo o terrorista detido: instalar “uma bomba na subestação de energia em Taguatinga para provocar a falta de eletricidade e dar início ao caos que levaria à decretação do estado de sítio”.

Está claro o roteiro, portanto: a ideia era fomentar o caos para que Bolsonaro decretasse estado de sítio, o que justificaria a entrada em cena do Exército, para quem sabe impedir a posse de Lula e manter Bolsonaro no poder por sabe-se-lá quanto tempo.

É terrorismo golpista de extrema direita na veia, tentado e confessado – e ainda assim os grandes veículos de mídia não usam a óbvia expressão “extrema direita” em suas matérias sobre o caso, provavelmente para não queimar o filme do campo ideológico ao qual pertencem. Uma atitude canalha, para dizer o mínimo.

O golpismo e o armamentismo, duas das pautas preferidas da gestão de Bolsonaro, estão na raiz do quase atentado. Não se fomenta um movimento golpista impunemente – ainda mais quando você está no cargo político supremo do país, o de presidente.

O atentado terrorista frustrado é responsabilidade direta, portanto, de Jair Bolsonaro.

O próprio terrorista afirmou à polícia que adquiriu seu arsenal de armas (pistolas, revólveres, fuzis, carabinas e munições) motivado pelas “palavras do presidente Bolsonaro, que sempre enfatizava a importância do armamento civil dizendo o seguinte: ‘Um povo armado jamais será escravizado'”.

Duas questões merecem ser discutidas nesse momento.

A primeira é acerca da segurança para a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Flávio Dino, que será o novo ministro da Justiça, foi no ponto ao escrever que “os graves acontecimentos de ontem em Brasília comprovam que os tais acampamentos “patriotas” viraram incubadoras de terroristas”.

Acontece que o QG do Exércio em Brasília onde os bolsonaristas permanecem acampados fica a poucos quilômetros do local onde será a cerimônia de posse. Estas incubadoras de terroristas vão continuar operando, sob o beneplácito do Exército, do Ministério Público e do Judiciário? Vão esperar que uma tragédia se consume para agir com efetividade?

A segunda questão é que o extremismo bolsonarista continuará nas ruas, assombrando o país, por algum tempo. O quanto de tempo dependerá da qualidade do enfrentamento que os setores democráticos do país estão dispostos a fazer.

É preciso atacar o terrorismo bolsonarista em todas as frentes.

Na frente ideológica os atores políticos, jornalistas e pessoas influentes no debate público deveriam trabalhar diariamente para expor a violência da extrema direita o máximo possível. Isolar o bolsonarismo até reduzi-lo a uma porcentagem insignificante da população é uma tarefa histórica que se impõe a todos nós neste momento.

O governo Lula será parte fundamental dessa ofensiva, pois uma melhora consistente na vida da população deixará evidente, para os que ainda não perceberam, o quão desastroso foi o governo Bolsonaro. Especial atenção deverá ser dada às nomeações para o STF: coragem para enfrentar o fascismo e comprometimento com as causas populares são requisitos básicos para as futuras escolhas. Dados os acontecimentos dos últimos anos, é quase desnecessário dizer que Lula não tem mais o direito de errar.

O novo governo precisa também agir com inteligência e efetividade na questão das armas. Revogar os decretos de Bolsonaro e recolher o máximo de armas possível em mãos de civis é uma tarefa civilizatória e questão de segurança nacional.

É preciso, ainda, ir para cima dos terroristas materialmente. Punir os responsáveis pelas agitações golpistas, sejam financiadores ou tresloucados que fecham estradas e acampam em quarteis, é urgente.

Uma tentativa de atentado terrorista em Brasília, a poucos dias da posse de Lula, é grave demais. A resposta precisa ser rápida e à altura.

Os memes dos ‘patriotas’ foram engraçados, mas a fase da palhaçada (com todo respeito aos palhaços) já passou. Agora, e nos próximos anos, é guerra contra o terrorismo de extrema direita.

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A responsabilidade de Bolsonaro no ataque em Aracruz-ES https://www.ocafezinho.com/2022/11/29/a-responsabilidade-de-bolsonaro-no-ataque-em-aracruz-es/ https://www.ocafezinho.com/2022/11/29/a-responsabilidade-de-bolsonaro-no-ataque-em-aracruz-es/#comments Tue, 29 Nov 2022 20:51:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=146962 14 Comentários 🔥]]> Tinha tudo para dar errado – e deu.

A extrema-direita brasileira importou dos EUA a obsessão doentia por armas e agora estamos às voltas com mais um massacre a tiros em uma escola, desta vez na cidade de Aracruz, no Espírito Santo. É ao menos o quinto ataque desse tipo em escolas brasileiras desde 2019, segundo o Instituto Sou da Paz.

O (ainda?) presidente do país não conseguiu proferir uma palavra de conforto às famílias das vítimas. Também pudera: Jair Bolsonaro é o líder máximo do movimento armamentista em nosso país. A autoridade e a influência do cargo presidencial foram utilizadas inúmeras vezes para propagandear a aquisição de armas pela população.

A fala do vídeo abaixo foi uma das que mais repercutiu, não à toa: Bolsonaro menospreza o feijão – em um país com milhões de famintos – e enaltece o fuzil:

Bolsonaro é um profeta macabro do culto às armas. Mas ele não ficou apenas na retórica.

O presidente editou mais de 40 decretos facilitando o acesso a armas – o número de armamentos nas mãos de civis triplicou em seu governo. Agora são mais de 1 milhão de armas em posse de pessoas comuns, que podem resolver usá-las caso se envolvam em brigas de trânsito, ou de festa, ou de vizinhos e familiares. Os filhos e filhas dessas pessoas podem achar a arma em casa e provocar uma tragédia – acidentes fatais com armas de fogo envolvendo crianças aumentaram 25% entre 2018 e 2020, segundo a pesquisadora Erika Tonelli.

É matemático: mais armas, mais tiros, mais mortes. Alguém sai ganhando com isso?

Sim, alguém sai ganhando.

Fabricantes de armas, como a Taurus, cujos lucros explodiram graças ao atual presidente. E o próprio Jair Bolsonaro, que arma seu exército amador de apoiadores e potencializa seu método fascista: o uso da violência como arma de “convencimento” político.

Se jovens intoxicados pelos ideais violentos e preconceituosos da extrema-direita invadirem cada vez mais escolas e matarem mais e mais crianças e professoras, que seja. Esse tipo de massacre deve ser brincadeira de criança para quem é fã de torturador.

Se muitas das armas compradas por civis forem parar nas mãos de criminosos, que seja também. A milícia precisa de estrutura, afinal.

O sonho de Bolsonaro deve ser alcançarmos os EUA, a “terra da liberdade”, onde ocorreram, só neste ano, mais de 200 tiroteios em massa. Duzentos.

Enquanto esse tipo de crime cresce assustadoramente por aqui, não há política governamental alguma para frear a tragédia. Pelo contrário: a facilidade do acesso a armas e o caldo cultural que desemboca em massacres a tiros são fomentados dentro do Palácio do Planalto.

O pai do atirador de Aracruz é um PM que compartilhou foto do livro “Minha Luta”, escrito por Adolf Hitler, em seu Instagram. Ele deu o livro de presente para o adolescente de 16 anos, segundo este relatou à polícia. O jovem usou a arma do pai para matar 4 pessoas e deixar 12 feridas. Ele usava também uma roupa militar, um colete à prova de balas e uma braçadeira com um símbolo nazista.

Eis o país que Bolsonaro entrega ao fim de seu governo: infestado de armas, de paranoia, de fascismo e nazismo. O trabalho de limpeza será longo e árduo, e passa necessariamente pela responsabilização dos que cometem esse tipo de atrocidade. E principalmente dos poderosos agentes públicos que geraram este estado de coisas.

Bolsonaro não pode ficar impune.

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Toffoli, o advogado do fascismo https://www.ocafezinho.com/2022/11/16/toffoli-o-advogado-do-fascismo/ https://www.ocafezinho.com/2022/11/16/toffoli-o-advogado-do-fascismo/#comments Wed, 16 Nov 2022 18:29:56 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=146724 24 Comentários 🔥]]> O Brasil virou um dos centros mundiais do neofascismo e entender como chegamos até aqui é fundamental para superarmos essa desgraça.

A ausência de punição aos militares que torturaram e mataram na ditadura militar é uma das explicações mais plausíveis para a força do nosso fascismo tropical. Anistiar crimes horrendos não é exatamente a melhor maneira de mostrar à sociedade que aquilo é inaceitável.

O ministro do STF Dias Toffoli pensa diferente. Para ele, punir crimes bárbaros na forma da lei é “ficar preso ao passado”, “ódio” e “vingança”.

Ele falou sobre o tema no encontro do grupo empresarial Lide em Nova York, ao qual compareceram alguns ministros do STF. (Espero que os ministros compareçam também nos próximos congressos das centrais sindicais, para demonstrar sua isenção…)

Os ministros foram acossados por bolsonaristas na frente do hotel em que ocorreu o encontro. Os tucaníssimos Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes foram chamados de comunistas e xingados abundantemente. Como se sabe, estes bolsonaristas defendem a anulação das eleições e o golpe militar.

Diante desse cenário, com seus próprios colegas sendo atacados quase fisicamente por defensores do regime militar, por que raios Toffoli defendeu o perdão dos crimes da ditadura?

Tudo indica que trata-se de uma defesa prévia do criminoso Jair Bolsonaro.

Segundo a Comissão Nacional da Verdade, 434 pessoas morreram ou desapareceram durante a ditadura militar. Jair Bolsonaro multiplicou por mil o horror quando causou a morte de no mínimo 400 mil pessoas ao trabalhar ativamente (palavras de Dráuzio Varella) para espalhar o Coronavírus pelo país.

Um genocídio digno de um Hitler tropical.

Ao se manifestar contrariamente à punição de crimes bárbaros perpetrados por agentes do Estado, Toffoli se coloca como advogado do fascismo. É um indicativo de que haverá resistência graúda à punição de Bolsonaro. Que não se trata de “vingança” ou “ódio”, mas responsabilização na forma da lei – o que deveria ser básico para um ministro da Suprema Corte, não?

Não nos enganemos: esta será uma das batalhas centrais no próximo período. Responsabilizar o genocida Bolsonaro por seus atos será decisivo para o nosso futuro como país.

Assim como serão as nomeações de Lula para o STF. A maioria dos ministros indicados nos governos petistas navegaram entre a pusilanimidade, a inconstitucionalidade e o golpismo desbragado nos recentes momentos dramáticos da política nacional. Reeditar o “republicanismo” inocente dos mandatos passados de Lula e Dilma seria trágico.

O golpismo, o militarismo e o fascismo precisam ser enfrentados com coragem e gana para que tenhamos alguma chance de extirpá-los da vida política brasileira.

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Lições do terrorismo golpista https://www.ocafezinho.com/2022/11/03/licoes-do-terrorismo-golpista/ https://www.ocafezinho.com/2022/11/03/licoes-do-terrorismo-golpista/#comments Thu, 03 Nov 2022 22:45:07 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=146448 4 Comentários 🔥]]> Os atos tresloucados de radicais bolsonaristas paralisaram centenas de estradas pelo Brasil e provocaram prejuízos de toda ordem: desabastecimento de alimentos, remédios e oxigênio, voos e compromissos perdidos, pessoas trancadas nas estradas sem água e alimento, conflitos entre os terroristas e motoristas/pedestres etc. Há cenas fortes de depredação de veículos que tentavam furar o bloqueio e de agressões a quem se opunha à arruaça. Até crianças foram usadas pelos bolsonaristas como escudo humano, com um caso confirmado de ferimento por atropelamento em Marissol, interior de São Paulo.

As repercussões práticas são muito maiores do que a força política dos terroristas – nome adequado para quem usa sistematicamente a violência como meio de repreensão, segundo o Michaelis. Ainda assim, o questionamento violento e golpista do resultado eleitoral é um fato grave, que merece ser observado com atenção. Penso que algumas lições podem ser tiradas desse episódio lamentável desde já.

A primeira lição deveria ser aprendida pela direita clássica brasileira (a não bolsonarista). Esse campo apoiou alegremente Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018, como se fosse razoável eleger um idiota fascista para comandar o país, desde que isso significasse a derrota da esquerda. Os últimos quatro anos mostraram de forma cabal que eleger um idiota fascista não é um bom negócio para quem tem o mínimo de bom senso, apreço à vida ou mesmo apreço aos negócios: o golpismo e o silêncio patético de Bolsonaro insuflaram os golpistas das estradas.

Sabemos, por meio de incontáveis exemplos históricos (como o próprio Brasil de Bolsonaro), que o liberalismo econômico e o fascismo convivem muito bem em determinadas ocasiões. No entanto, se os liberais querem fazer seus negócios em paz, deveriam refletir: um presidente golpista com projetos ditatoriais que é capaz de matar centenas de milhares de pessoas para construir sua narrativa política não tende a criar o ambiente de confiança, previsibilidade e liberdade que garante o bom andamento da economia. Se o problema dos liberais com a esquerda são os projetos sociais “paternalistas”, deveriam ler com mais atenção Milton Friedman, por exemplo, que recomendava que o Estado garantisse uma renda mínima a todas as pessoas.

Vamos à segunda lição das micaretas golpistas. (O terrorismo bolsonarista é tão caricato e involuntariamente engraçado que me permito também chamá-lo de micareta.) A leniência da Polícia Rodoviária Federal (PRF) com os golpistas foi gritante, e a prova cabal deste fato é que pequenos agrupamentos de torcidas organizadas como Galoucura e Gaviões da Fiel dispersaram com uma celeridade notável alguns pontos de bloqueio.

A camaradagem com os golpistas soma-se às barreiras da PRF no Nordeste no dia do segundo turno das eleições – sob a inacreditável justificativa de fiscalizar pneus carecas e coisas do gênero – que atrasou ônibus lotados de eleitores e pode ter impedido que muitos votassem. Esses fatos deixam claro que o bolsonarismo está no controle desta corporação e sabe-se lá de quantas mais forças policiais. É tarefa prioritária do governo Lula debelar esses focos bolsonaristas, assim como é tarefa do Judiciário punir, conforme a lei, aqueles que utilizaram seus cargos públicos para fins políticos e pessoais. A polícia deve proteger a população e a coisa pública; jamais servir como arma para golpes de Estado, como se viu na Bolívia recentemente.

A terceira e última lição que devemos tirar do golpismo pós-eleição: nossa economia não pode depender exclusivamente do transporte rodoviário. Em 2018 uma greve dos caminhoneiros paralisou o país por 10 dias, provocando prejuízos em larga escala e um ambiente caótico – as longas filas para abastecer nos postos de gasolina foram dignas de filme de apocalipse. Ampliar o transporte ferroviário, que é mais econômico, mais rápido e causa menos impacto ambiental, é a saída evidente para que o governo Lula e o país não estejam mais sujeitos aos humores manipuláveis dos caminhoneiros e aos manipuladores das empresas de transporte rodoviário.

Outras lições certamente podem ser extraídas dos recentes episódios golpistas. É bom que nos debrucemos sobre elas para que, caso algum bolsonarismo renitente continue tentando parar o país, possamos seguir nossa viagem.

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Impeachment e cadeia https://www.ocafezinho.com/2021/01/15/impeachment-e-cadeia/ https://www.ocafezinho.com/2021/01/15/impeachment-e-cadeia/#comments Fri, 15 Jan 2021 17:31:17 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=119382 7 Comentários 🔥]]> Não sou um punitivista, nem o Cafezinho é um blog desta cepa, muito pelo contrário. Contudo, quando alguém que comete um crime oferece perigo para a sociedade caso permaneça livre, esse alguém deve obviamente ser afastado do convívio social.

É o caso do presidente do Brasil (e do seu capacho que faz as vezes de ministro da saúde). É pior, na verdade, pois não se trata de simples perigo, mas de dano contínuo, pesado e irreparável à sociedade: as mortes diárias aos milhares provocadas pela psicopatia de Jair Bolsonaro.

O crime de genocídio é definido pela Lei nº 2.889/56, e uma das formas do crime é quando alguém tem a “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional”, submetendo o grupo “a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial”.

É uma descrição precisa para o que Bolsonaro vem fazendo com os brasileiros desde o início da pandemia.

O presidente deve, portanto, ser preso o quanto antes porque suas ações e inações estão matando pessoas todos os dias. Sua responsabilidade é direta, na medida em que, por exemplo, incita o descumprimento dos protocolos adotados em todo o mundo e recusa(!) uma oferta do laboratório Pfizer que pretendia disponibilizar a vacina para a população brasileira ainda em dezembro. (Estamos na metade de janeiro e a vacinação não começou.)

A situação de Manaus é mais um agravante no quadro. Próceres do bolsonarismo como Eduardo Bolsonaro (filho do presidente) e Bia Kicis comemoraram efusivamente quando o governador de Amazonas cedeu à pressão pela abertura do comércio no fim de 2020 – abertura defendida pelo presidente a todo o momento e para quaisquer circunstâncias.

Além disso, a Força Aérea Brasileira não entregou ao estado os cilindros de oxigênio que deveria ter entregue. E, como se não bastasse, o ministro da saúde Eduardo Pazuello estava, há pouquíssimos dias, tentando “resolver” a crise iminente em Manaus desovando o estoque de cloroquina adquirido e produzido pelo governo Bolsonaro por conta da sua submissão imbecil a Donald Trump. (Há consenso científico quanto à ineficácia da cloroquina para o tratamento da covid-19; o remédio ainda pode provocar efeitos colaterais graves.)

É crime atrás de crime. Todos letais. Bolsonaro transformou o país em um campo de extermínio, como definiu o juiz Marcelo Semer.

Antes de prendê-lo, contudo, é preciso tirá-lo da presidência. A derrota política criará condições… políticas para que o presidente seja julgado por seus crimes.

A esquerda é, até onde sei, unânime na defesa do impeachment. Na direita parece que começa a haver uma movimentação mais forte nesse sentido. É, de fato, um bom momento para os especialistas em impeachment que arrancaram Dilma Rousseff do cargo por causa das “pedaladas fiscais” – como eram prosaicos os nossos problemas, não? – arregaçarem as mangas e mexerem os pauzinhos que bem sabem mexer para derrubar o genocida.

Se não for por uma questão de ética, de bom senso ou de arrependimento, que seja por sobrevivência política e de reputação. Os responsáveis por este extermínio não serão esquecidos, assim como os que se omitiram. Jornalistas, empresas de mídia, políticos, influenciadores e todos os demais cidadãos que escolheram apoiar e votar em um defensor da ditadura, da tortura e da morte têm uma mancha indelével em suas vidas, sem dúvidas. Mas podem ao menos contribuir para acabar com o mal que ajudaram a criar.

Não vai ser fácil, é claro: Bolsonaro ainda tem uma considerável base. Uma base fiel e violenta. Mas a opção é deixá-lo acumular mais forças, armar ainda mais seus apoiadores e cooptar mais forças de segurança para tentar resistir à sua inevitável derrocada.

Só que isso é impensável. É hora de arrancá-lo da cadeira presidencial. E em seguida submetê-lo a julgamento por genocídio.

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Pedro Serrano: defender a violência estatal para derrotar Witzel é agir de forma protofascista https://www.ocafezinho.com/2020/08/31/pedro-serrano-defender-a-violencia-estatal-para-derrotar-witzel-e-agir-de-forma-protofascista/ https://www.ocafezinho.com/2020/08/31/pedro-serrano-defender-a-violencia-estatal-para-derrotar-witzel-e-agir-de-forma-protofascista/#comments Mon, 31 Aug 2020 12:10:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=113976 6 Comentários 🔥]]> Conversamos com o jurista, advogado e professor Pedro Serrano sobre o afastamento de Wilson Witzel do cargo de governador do Rio de Janeiro, determinado pelo Superior Tribunal de Justiça. A seguir, a entrevista:

O Cafezinho: O senhor escreveu que considera inconstitucional e ilegal o afastamento de Wilson Witzel do cargo de governador do RJ. Pode dizer aos nossos leitores, resumidamente, o que o levou a esta conclusão?

Pedro Serrano: Considero inconstitucional o afastamento porque a [ação] cautelar penal para afastamento de servidor é prevista para o servidor público. O espírito dela é de afastar o servidor público como uma medida cautelar protetiva do processo penal. Agora, o servidor público, como ele mantém um vínculo profissional com o Estado, o afastamento dele é reparável. Se você afasta o servidor público do cargo, depois o processo anda e se vê que ele é inocente, você o devolve ao cargo e ele ganha os salários que deixou de receber naquele período. Ele é indenizado, às vezes até afastado com salário, nem chega a ter prejuízo. A medida de afastamento é só uma forma de evitar que ele eventualmente possa prejudicar o processo penal.
O mandato é diferente. Aos titulares de mandato, ao meu ver, não se aplica esse tipo de cautelar. Isso porque esse tipo de cautelar subtrai parte do mandato de forma irreparável. Um mandato tem quatro anos, o que significa dizer que ele é de um número X de dias, e cada dia que você suprime desse mandato, você está suprimindo uma parte do direito do titular e uma parte da soberania popular.
Soberania popular é um valor essencial do princípio democrático, como norma constitucional. A soberania popular é a essência da democracia e a democracia no Brasil não é uma mera opção política, mas um comando constitucional, um princípio constitucional, uma norma constitucional, uma ordem da Constituição. E democracia implica soberania popular. É óbvio que, a partir da concepção de democracia do pós-guerra, passou-se a equilibrar a noção de soberania popular com direitos, mas isso tem limites. No Brasil nós estamos vulgarizando a vulneração da soberania popular. Isso vem ocorrendo desde os governos de esquerda democrática até hoje em dia. O número de decisões que vulneram a soberania popular está aumentando intensamente. Daqui a pouco nós vamos passar a ter uma juristocracia, ou seja, uma ditadura dos juízes, o que é muito ruim. (Juristocracia é uma expressão dos juristas canadenses.) Então nós temos que tomar muito cuidado com isso. E, no caso, acho que a [ação] cautelar de afastamento de cargo público se aplica a servidores públicos e não a titulares de mandato. 

OC: O senhor acredita que há evidências de interesses políticos por trás da decisão do STJ?

PS: Até agora eu vi cogitações na mídia de interesses políticos, mas não vi ainda nenhum elemento concreto, material de que possa haver algum tipo de interferência política real nessa decisão. Eu não estou descartando que haja, aliás, acho que é bem possível que haja, sim, porque a decisão é tão impactante, ela é tão contrária à estrutura constitucional que ela gera esse tipo de indagação, porque nós podemos estar sim perante uma medida de exceção, ou seja, que tem uma aparência de juridicidade e um conteúdo político tirânico. Então, pode haver sim essa intenção política. 
Para mim, a interferência política não é banalizada, como se coloca no Brasil. Quando você fala de uma decisão judicial que caça um mandato popular, por decisão monocrática, e você fala que há intenção política, se está falando de uma medida de exceção. É algo muito grave no sistema. É uma medida ditatorial dentro da democracia. Portanto, algo muito grave. Mas para chegar nessa conclusão nós precisamos estudar o caso, verificar com um pouco mais de cautela e não necessariamente no tempo da notícia; tem que ser no tempo do estudo. Então eu acho muito cedo pra poder fazer essa afirmação.  

OC: O que o senhor pensa sobre a postura de setores do campo progressista, que muitas vezes festejam prisões duvidosas quando o réu é adversário político?

PS: Essa história nós precisamos colocar num campo mais claro. Eu sei que é um ponto contundente, não é muito simpático… Eu também sou progressista, mas eu tenho que falar com clareza pra gente poder fazer as nossas autocríticas devidas também. O campo progressista são forças de centro-esquerda até o que a gente pode chamar de esquerda mais extremada. E parcela desse campo não é realmente garantista. Uma parcela desse campo tem uma mentalidade punitivista. E isso se reflete inclusive em governos de esquerda. Cuba, por exemplo, é o sétimo país do mundo em número de aprisionados proporcionalmente à população. Isso quem fala não sou eu, é o maior índice global desse tipo de aferição. Portanto, existe uma mentalidade punitivista na esquerda também, que acredita num Estado forte e numa visão não constitucionalista de Estado. E a visão constitucionalista de Estado entende que a decisão política e a judicial estão limitadas pelos direitos. Uma forte parcela da esquerda não tem essa visão, tem uma visão punitivista e adere aos direitos humanos de forma oportunista, eu diria. Eles chamam de tática, eu chamo de oportunista.

OC: O senhor pensa ser politicamente viável defender figuras protofascistas, como Witzel, do arbítrio judicial?

PS: Veja, nós não podemos confundir o fato do Witzel ser um protofascista, e ele é mesmo, não há a menor dúvida de que é um sujeito deletério para o ambiente político brasileiro, não deveria ter sido eleito. O pior da humanidade está ali, digamos assim. No plano político é isso o que eu penso. Agora, não podemos confundir, numa democracia constitucional, o plano político com o plano judicial. Uma coisa é disputa política, uma coisa é você derrotá-lo na política, derrotá-lo na cultura, derrotá-lo nos valores. Outra coisa é querer usar da força, da violência física do Estado para poder realizar uma derrota política. Isso é um imenso equívoco, é absolutamente autoritário. Veja, o protofascismo não nos derrota quando ele nos prende, porque companheiros permanecerão livres para poder continuar lutando. Ele também não nos derrota quando ele nos mata, porque o nosso corpo servirá como um alerta do desejo de liberdade da sociedade, e outros seguirão lutando. Ele nos derrota quando ele nos transforma em algo parecido com ele. Defender o uso do aparelho de violência estatal para derrotar Witzel é agir de forma protofascista. É ficar parecido com quem a gente combate. E nisso nós não devemos ceder. A cada momento em que nós ficamos mais parecidos com os protofascistas, nós somos, aí sim, derrotados. E nós não podemos deixar isso acontecer.

OC: Que linhas de ação política o senhor acredita serem efetivas no combate à interferência judicial ilegal na política?

PS: Nós temos que pensar, não é simples. Esse tipo de problema é mais fácil criar, e é um problema grande, do que solucionar. Por isso que a democracia constitucional implica também numa certa postura conservadora, e é bom que seja assim. Porque certas instituições e valores do Estado de Direito e da democracia são difíceis pra burro de construir e muito fáceis de destruir. E uma vez destruídos, é muito difícil reconstruí-los novamente. Por isso conservar os valores da democracia e as suas instituições é muito relevante. Essa interferência judicial inconstitucional na política gerou destruição imensa das nossas instituições democráticas e feriu quase de morte a nossa democracia nascente. Não é um problema fácil. A Argentina está agora experimentando uma tentativa de solução, que é uma reforma parcial no sistema de justiça. Eu não sei se vai funcionar, porque o sistema de justiça é constituído por homens. E esses homens fazem parte de uma estrutura social, e essa estrutura social é contaminada – na Argentina menos que no Brasil.
O nossos sistema de justiça foi constituído a partir de um direito à educação que foi privilégio dos imigrantes brancos que vieram nas ondas de migração do fim do século XIX e começo do século XX. Quando o direito à educação como direito público, como direito social, foi criado, na Constituição de 1934 – foi o primeiro direito social criado na história brasileira, no plano constitucional –, o artigo 138 dessa Constituição estipulava a eugenia como princípio da educação. Ou seja, excluía os negros da educação pública. Obviamente isso gerou uma consequência multigeracional, em que os brancos acabaram tendo acesso à educação, e por isso ocuparam as carreiras do sistema de justiça, do Judiciário, do Ministério Público, da polícia, das procuradorias, e mesmo fora do sistema de justiça, as carreiras diplomáticas, o oficialato das Forças Armadas, os fiscais da Receita etc. Então essa parte da elite eurodescendente, que ocupou os estamentos estatais, tem uma visão colonialista, um paradigma colonialista da democracia e da Constituição. É um paradigma incompatível com uma Constituição democrática moderna e com o capitalismo moderno. Então o que nós temos que resolver, no fundo, é esse problema da sociedade brasileira, que é a fonte de todos os nossos problemas. Nós precisamos modernizar o capitalismo brasileiro, nós precisamos ir à frente. Nós precisamos efetivamente construir uma democracia constitucional, custe o que custar.

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O caminho sem volta de Bolsonaro https://www.ocafezinho.com/2020/06/01/o-caminho-sem-volta-de-bolsonaro/ https://www.ocafezinho.com/2020/06/01/o-caminho-sem-volta-de-bolsonaro/#comments Mon, 01 Jun 2020 23:10:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=110570 26 Comentários 🔥]]> Quando Bolsonaro tomou posse como presidente do país, naquele distante janeiro de 2019, tentei imaginar o momento em que Jair iria passar a faixa presidencial ao seu sucessor ou sucessora. Me pareceu uma cena improvável. O agressivo discurso anticomunista de seu alucinado guru, Olavo de Carvalho, e os pendores autoritários e métodos violentos de Bolsonaro eram bons indícios de que a próxima passagem de faixa não aconteceria conforme o script.

Um ano e meio depois, os acontecimentos dissiparam qualquer remota hipótese de que a vida democrática brasileira siga seu curso natural. Uma pandemia mortal está sendo a deixa para que Bolsonaro revele ao mundo sua psicopatia, seu desprezo pela vida, sua vocação para ser um genocida.

Ao repudiar o consenso científico sobre a necessidade da quarentena; incentivar as pessoas a irem às ruas; insuflar os empresários e seus apoiadores contra os governos estaduais e municipais que ordenaram a quarentena; e sonegar auxílio financeiro decente a todos os que dele precisam (enquanto abasteceu os bancos com trilhões de reais), Bolsonaro transformou o Brasil no epicentro mundial da epidemia. Graças ao presidente estamos iniciando o processo de reabertura enquanto o número de casos e mortes cresce de forma galopante.

A estratégia de Bolsonaro está resultando em dezenas de milhares de mortos a mais e no estendimento indefinido da quarentena (não é possível vislumbrar o pico da curva no horizonte).

É evidente que não se trata de um erro de cálculo. Basta observarmos a postura do presidente desde a eclosão da pandemia no Brasil para percebermos que sua estratégia jamais teve como objetivo a contenção do número de infectados e mortos, ou a subsistência da população. A agitação permanente de sua base, as provocações e agressões à imprensa, ao Congresso e ao Judiciário e, mais recentemente, as ameaças explícitas de fechamento do regime (as “consequências imprevisíveis” do General Heleno, o “é questão de quando [vai haver ruptura]” de Eduardo Bolsonaro e o “Acabou, porra!” proferido pelo próprio presidente e direcionado ao STF, bem como a divulgação de um debate sobre intervenção militar) tornam inescapável a conclusão de que Bolsonaro quer o caos social para justificar uma estapafúrdia concentração de poderes nas mãos da presidência da República.

A partir dessa conclusão podemos antever dois caminhos – ambos sem volta para o genocida.

O primeiro é a perpetração do autogolpe. Bolsonaro tem o apoio de boa parte dos policiais militares, que naturalmente tendem a se alinhar a um projeto autoritário de direita, e, por óbvio, das milícias. O bolsonarismo é forte também no exército, tanto por alinhamento ideológico quanto pelos milhares de cargos que integrantes da forças armadas ocupam no governo federal. Há, contudo, dissidências importantes, como a explicitada pelo general Santos Cruz neste artigo, advertindo aos afoitos generais aliados de Bolsonaro sobre o erro estratégico de “fazer parte da dinâmica de assuntos de rotina política”.

O risco sanitário envolvido em manifestações de rua é um trunfo de Bolsonaro. Sem protestos de massa contra um eventual golpe, Bolsonaro pode, sim, subjugar o Judiciário e o Congresso por meio da invenção de algum arremedo de legislação que lhe dê amplos poderes combinada à ameaça de uso da força contra quem se rebelar. Sergio Moro (que resolveu revelar diversos atos ilícitos cometidos por Bolsonaro enquanto ele era ministro, ou seja, vem confessando alguns crimes de prevaricação) divulgou hoje uma nota em que afirma que o presidente pretendia facilitar o porte de armas para “promover uma espécie de rebelião armada contra medidas sanitárias impostas por governadores e prefeitos”.

Policiais, milicianos, soldados e generais do exército, mais cidadãos “de bem” armados: Bolsonaro pretende fazer valer a velha máxima de que, na política, ao fim e ao cabo quem tem as armas tem o poder.

Entretanto, mesmo que as forças armadas embarquem em uma aventura autoritária comandada por um psicopata/genocida – que rebaixou o Brasil a pária internacional e que poderá sair da pandemia com mais de 100 mil mortos nas costas – e Bolsonaro tenha sucesso em seu intento, é impensável que um fechamento de regime tenha vida longa em um país como o Brasil. Somos uma das maiores economias do planeta, os apoiadores de Bolsonaro são minoria (algo em torno de 30% e caindo), sua imagem no exterior é horrorosa. Cedo ou tarde as ruas serão tomadas e, sendo inviável o assassinato de milhões de pessoas pelas milícias do mito, o triunfo de Bolsonaro será uma vitória de Pirro.

O segundo cenário é a queda de Bolsonaro antes de sua tentativa de golpe. Os ministros do STF Celso de Mello e Alexandre de Moraes partiram para a briga aberta; tudo indica que algo como um duelo de velho oeste está prestes a acontecer entre dois dos poderes da República. (Os ministros indicados pelo PT, curiosamente (ou não) são os que oferecem menos resistência aos arreganhos golpistas do poder executivo.) A grande mídia e os partidos da direita “limpinha” tendem a topar a derrubada de Bolsonaro. Assim que os ventos apontarem de vez para a queda, o Congresso vai junto.

As ruas, até ontem dominadas por apoiadores do governo federal, muito por conta da pandemia, voltaram a ser disputadas. Em Porto Alegre, manifestações antifascistas dispersaram atos golpistas nos últimos finais de semana. Ontem, manifestações antifascistas explodiram também em outras capitais. Em São Paulo houve confronto físico com os bolsonaristas e com a PM. Apareceram, inclusive, surpreendentes manchetes de grandes veículos de mídia falando em agressão da polícia contra manifestantes a favor da democracia. (Nada como uma ameaça concreta à liberdade de expressão para que se faça um bom uso da mesma…)

À viralização dos vídeos das manifestações seguiu-se uma notável onda de adesões ao movimento antifascista nas redes sociais. Enquanto isso, Jair Bolsonaro e Eduardo Bananinha corriam para baixo das asas do papai do norte, Donald Trump. Este anunciou, em meio a protestos massivos contra o racismo de Estado, que seu governo passará a considerar o movimento antifascista como “terrorista”; seus patéticos acólitos brasileiros, como garotos de colégio que chamam o amigo mais forte para lhes dar suporte em uma briga, repercutiram a declaração do presidente norte-americano, tentando colocar medo na reação antifascista brasileira.

Não terão sucesso. O que está acontecendo é a materialização da terceira lei de Newton, a da ação e reação. A ascensão fascista mundial parece estar fazendo ressurgir, finalmente, um sentimento antifascista de massas. Se a militância bolsonarista não sairá das ruas facilmente, muito menos os antifascistas o farão. Os enfrentamentos estão só começando. O lado governista está, contudo, em franco declínio; o oposicionista tende a crescer exponencialmente.

É surreal que tudo isso esteja acontecendo em meio a uma pandemia devastadora. Por outro lado, é lógico que os epicentros mundiais da pandemia e do levante antifascista sejam justamente os países comandados pelos boçais de extrema-direita (desculpem o pleonasmo) Trump e Bolsonaro que, burramente, menosprezaram o poder do vírus. Humildade diante de um inimigo mais forte não costuma ser o forte de ditadores…

O oceano profundo de ódio que repousava nos espíritos humanos, à espreita de uma oportunidade para vir à tona, foi vocalizado por eles e transformado em maremoto. Podemos estar presenciando o início do refluxo. Agora, a água vai chegando ao pescoço do cara cor de laranja e do talkey. Tenham ou não sucesso em suas empreitadas de curto prazo, no médio e no longo serão inapelavelmente derrotados.

Oxalá seja a vitória derradeira da humanidade contra suas próprias tendências autoritárias, discriminatórias e violentas.

Viva a ação antifascista.

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O que Bolsonaro poderia fazer? https://www.ocafezinho.com/2020/04/29/o-que-bolsonaro-poderia-fazer/ https://www.ocafezinho.com/2020/04/29/o-que-bolsonaro-poderia-fazer/#comments Wed, 29 Apr 2020 15:12:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=109145 3 Comentários 🔥]]> No dia em que o Brasil ultrapassou a China em números oficiais de mortos por Covid-19 (5.017 e 4.637, respectivamente), o presidente Jair Bolsonaro falou o seguinte, ao ser questionado sobre os números:

E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.

Para ajudar o presidente, listamos o que ele poderia fazer para diminuir o número de mortes:

  • Defender o isolamento social radical: é a recomendação da esmagadora maioria da comunidade científica e os países que o estão adotando vem tendo sucesso no enfrentamento da pandemia (vide Argentina).
  • Garantir uma renda generosa para que as pessoas possam ficar sem trabalhar: requisito básico para que a quarentena seja possível.
  • Direcionar recursos em peso para a compra e aplicação de testes em larga escala: medida que obteve sucesso no combate à pandemia (vide Coreia do Sul).
  • Direcionar recursos em peso para a construção de hospitais de campanha por todo o país.
  • Direcionar recursos em peso para a compra ou produção de respiradores.
  • Direcionar recursos em peso para a aquisição ou produção de equipamentos adequados de proteção para os trabalhadores da área da saúde.

Não diga o presidente que não há dinheiro, pois: para os bancos foram repassados 1,2 trilhão (o equivalente a 16,7% do PIB) logo no início da crise; pode-se usar as reservas internacionais, das quais foram retirados 23,2 bilhões de dólares, desde que Bolsonaro assumiu até o dia 11/03/20, para jogar no mercado de câmbio e tentar (sem sucesso) conter a alta do dólar; em último caso, o governo deveria emitir moeda para financiar a quarentena da população. Eventual dívida se paga depois; vidas humanas perdidas não podem ser recuperadas.

São medidas razoáveis, que muitos governantes do mundo estão tomando. Ainda assim, talvez estejamos pedindo demais para um psicopata como Bolsonaro, que trata mortes humanas com uma naturalidade assombrosa. Sendo assim, listamos também algumas omissões e uma ação, estas mais mais ao alcance das capacidades do presidente, que, se as tivesse adotado, certamente minimizaria a tragédia:

  • Não menosprezar a pandemia.
  • Não incentivar e participar de aglomerações.
  • Não fazer pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão incentivando as pessoas a irem às ruas e chamando a Covid-19 de ‘gripezinha’ ou ‘resfriadinho’.
  • Não propagar o discurso de que as pessoas precisam trabalhar em meio a uma pandemia.
  • Não esconder que é obrigação do governo garantir a sobrevivência de todos em uma situação como essa.
  • Não transformar o combate à pandemia em uma briga política ao criticar constantemente governadores e prefeitos que adotaram medidas de isolamento social.
  • Impedir que seu filho Eduardo e seus ministros das Relações Exteriores e da Educação provocassem uma crise diplomática com a China, o que provavelmente dificultou a compra de respiradores e outros equipamentos dos chineses.

Não precisamos de milagre da sua parte, presidente. Apenas bom senso e o mínimo de empatia salvariam milhares de vidas.

A postura de Bolsonaro é o fator que explica a queda no apoio ao isolamento social, como apontou pesquisa do Datafolha. Exatamente quando a curva de mortes começa a disparar os nossos governantes estão discutindo ou afrouxando as medidas de isolamento.

O responsável por esse desastre humanitário é o comandante do país, um genocida chamado Jair Bolsonaro.

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Radicalização ideológica https://www.ocafezinho.com/2020/02/06/radicalizacao-ideologica/ https://www.ocafezinho.com/2020/02/06/radicalizacao-ideologica/#comments Thu, 06 Feb 2020 21:44:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=105887 45 Comentários 🔥]]> Em um episódio recente da série animada Rick e Morty, Rick, um cientista que é considerado o ser mais inteligente do universo, viaja por diferentes realidades paralelas e encontra outras versões de si mesmo, muitas das quais são nazistas ou vivem em um mundo no qual o nazismo impera. Em uma dessas realidades — na qual as pessoas têm “corpos de camarão”, em tamanho humano — Rick é perseguido pela polícia nazista dos camarões e, antes de ser espancado, reclama: “Porra, quando essa merda virou o padrão?”. Em outro episódio, Rick, ao encontrar um planeta povoado por cobras no qual está acontecendo uma guerra global por questões de raça, comenta, rindo:

— Quão engraçado é isto? Imagine ser uma cobra racista! “Ei, outra cobra, eu te odeio porque você é uma cobra da cor errada”. Meu Deus!

O discurso antinazista e antirracista proferido por uma série estadunidense de estrondoso sucesso é um evidente efeito da ascensão mundial de um pensamento que se aproxima perigosamente de ideias nazistas, racistas e fascistas — quando não as emula de forma desavergonhada. É inevitável, bem-vinda e urgente a reação dos que percebem a insanidade na qual parte da humanidade ensaia embarcar de novo. 

South Park, outro desenho animado dos EUA, tão genial quanto Rick e Morty, foi ainda mais longe. Em um episódio da temporada de 2018, a Amazon abre uma filial na cidade em que se desenrola a série e, muito embora os consumidores fiquem felizes com a rapidez com que os produtos encomendados agora chegam em suas casas, os negócios locais quebram e os funcionários da Amazon são explorados pela megacorporação, trabalhando em condições desumanas. Um dos empregados é atropelado por um robô e a empresa afirma que foi “falha humana”, o que desencadeia a revolta dos trabalhadores, que fazem uma greve e causam uma convulsão na cidade. O trabalhador mutilado pelo robô — e empacotado em uma caixa da Amazon a qual não pode ser aberta, sob pena de seus órgãos “vazarem”, em um clássico nonsense southparkiano — torna-se o líder dos grevistas e faz discursos marxistas, falando em tomar os meios de produção e tudo mais.

Um crítico que conhece bem a série ficou impressionado com a virada esquerdista dos criadores de South Park, os quais adotavam posturas pró-capitalistas em temporadas anteriores. Para o referido crítico, a mudança se deve ao fato de que os efeitos maléficos do capitalismo estão evidentes nos dias de hoje: “Agora, qualquer um que preste atenção está bem consciente do que está acontecendo, e o quão totalmente sem limites o capitalismo se tornou” (tradução livre; leia aqui o artigo, em inglês).

A possibilidade real de que Bernie Sanders, um socialista declarado, concorra à presidência dos EUA certamente não estaria desconectada de um movimento mais profundo na sociedade norte-americana. Imagine a pane mental nos liberais brasileiros, tão servis ao propalado paraíso capitalista, caso Sanders vença Trump nas eleições.

Se a direita radicalizou de um lado, escancarando sua face violenta bem conhecida, a reação newtoniana só poderia ser uma radicalização em sentido oposto.

No Brasil, cairia bem uma radicalização, não só do discurso mas principalmente da prática, dos grupos políticos à esquerda. Uma radicalização em sentido amplo, abarcando desde a linha econômica até a mecânica interna de cada organização, que deve ser a mais democrática e transparente possível. Entretanto e ao mesmo tempo, é sábio que construam-se pontes com setores não tradicionalmente alinhados ao campo canhoto. Achar este equilíbrio não é uma arte simples, mas não me parece haver outro caminho.

Do contrário, corremos o risco de assistir novamente à ascensão das cobras nazistas, como em um episódio de série de ficção científica. Sem a parte engraçada.

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Salve-se quem puder: o cinismo bolsonarista nos conduz à exceção https://www.ocafezinho.com/2019/07/08/salve-se-quem-puder-o-cinismo-bolsonarista-nos-conduz-a-excecao/ https://www.ocafezinho.com/2019/07/08/salve-se-quem-puder-o-cinismo-bolsonarista-nos-conduz-a-excecao/#comments Mon, 08 Jul 2019 20:50:20 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=96856 Em 2016, durante a Comissão Especial de Impeachment de Dilma Roussef, José Eduardo Cardozo, então Advogado Geral da União e protagonista na defesa jurídica da Presidente, denunciava um sistema acusatório viciado, que travestia um golpe com a aparência de uma ação constitucional. Cardozo respondia às provocações que lhe dirigiam parlamentares após ter chamado o processo de “golpe de abril”. Discutia-se, portanto, o cinismo.

Quando se acusa o processo aberto contra Dilma de golpe não se questiona a validade do instrumento, mas seu uso político para afastar uma presidente democraticamente eleita que já não agradava tanto assim. Por isso, é possível avaliar que o Impeachment de Dilma Roussef se deu na forma de um escandaloso (e escancarado) exemplo de cinismo criminoso com fins políticos.

Durante todo o processo, a Comissão Especial de Impeachment, relatada por Antonio Anastasia (lacaio de Aécio Neves e opositor de Dilma) mostrou-se um jogo de cartas marcadas. É possível assistir à angústia da defesa da petista nos documentários “O Processo”, de Maria Augusta Ramos e “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa.

O termo “golpe” se popularizou como alcunha do Impeachment de Dilma e até hoje é utilizado para ilustrar, na linguagem, que se tratava de um processo ilegal que se valia de um instrumento constitucional. Era necessário tirar Dilma, porém não havia, ainda, o sangue frio necessário para um golpe à queima roupa. Recorreram a um teatro.

Tanto membros da defesa jurídica quanto da defesa política (os senadores e senadoras que brigavam para derrubar o relatório de Anastasia na Comissão) sabiam que lutavam em vão e que deveriam, portanto, aproveitar o espaço para fazer política, pois se tratava disso todo o teatro armado desde a votação na Câmara, liderada por Eduardo Cunha (hoje preso), que autorizou a abertura do processo. Na política se luta com política.

Àquela altura, já deveríamos ter acendido as luzes de atenção para essa nova, porém velhíssima, forma de fazer política. O cinismo cumpre seu papel quando mantém a imagem de um ideal na luta política anticorrupção, anti-sistêmica e quando manipula a população indignada, mas que não presta muita atenção nos jogos do poder. Naquele momento, era crucial tirar Dilma, como ficou provado depois, e colocar Michel Temer, o presidente mais impopular da história do Brasil, para estancar a sangria das investigações da Lava Jato – a operação que se revelou outro grande cinismo.

O cinismo como modus operandi manipula a verdade e, pior, se traveste de verdade. Manipula a opinião pública para levar adiante projetos perversos de poder, atendendo aos interesses de poderosos da direita que, jogando limpo, jamais conseguiriam o apoio da população. O Movimento Brasil Livre (MBL) foi o protagonista desta guinada ao cinismo nos jogos políticos brasileiros. Movimentaram, por meio de um noticiário fantasioso, uma massa indignada, perdida, que buscava mudanças e a alimentaram com ódio, gerando a demonização da classe política e destruição da reputação daqueles que não convergiam com suas ideias de Estado (leia-se projeto de poder). Promoviam a perseguição, formaram uma milícia digital.

Herança Maldita: de MBL a Bolsonaro

É herança do MBL o fantasma do comunismo, aquele mesmo que assombrou o Brasil em 1964, ter voltado à pauta. Os governos petistas nunca chegaram nem perto de serem governos comunistas ou socialistas. Questiono se tenham sido, inclusive, de esquerda. Mas o MBL ressuscitou, com restos mortais dos tempos da Ditadura Militar, o espírito cívico que queria ver o comunismo bem longe do poder – muito embora ele nunca tenha existido com força para tal. Quando conquistaram a opinião pública para a queda de Dilma Roussef ao movimentar o país com manifestações “democráticas”, apartidárias e elitistas, arrastaram no lastro uma legião de seguidores que, a partir de então, abaixaria a cabeça para toda sorte de desinformação e doutrinação que fosse publicada por eles.

As figuras centrais do MBL, Kim Kataguiri e Fernando Holiday, para a surpresa de ninguém, se elegeram parlamentares com o capital eleitoral construído por sua “militância”. Kim é Deputado Federal pelo DEM, uma super velha política de direita e Holiday é vereador em São Paulo pelo mesmo partido. Ambos se calaram diante dos casos de corrupção do presidente Michel Temer e tampouco se engajaram nas tentativas de impedi-lo. Trata-se de cinismo político e criminoso agravado pelo fato de Dilma Roussef nunca ter sido presa ou investigada após ser afastada do cargo. Michel Temer foi preso duas vezes e segue investigado. O fato concreto de Dilma ter sido absolvida das acusações que lhe imputavam após todo o teatro nunca foi discutido senão na bolha esquerdista.

Diante do fantasma do comunismo, dos escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato, da impopularidade de Michel Temer na presidência, surgia cada vez mais o desejo de que alguém aparecesse para salvar tudo. Nada melhor que um grande cínico. A população não queria mais ninguém moderado, ao centro, mas sim aos extremos, à extrema direita ou, como se autointitula hoje, à direita verdadeira. Começa a nascer o Bolsonarismo, que tem em sua figura central um homem mediano, incapaz, mas cínico o suficiente para abarcar todos os medos fantasiosos e delírios em uma só figura.

Os grandes monstros criados para distrair e atrair a população aos seus discursos passaram, claro, pela moral e pela religião. A homossexualidade, a pedofilia, o aborto, a ideologia de gênero, a doutrinação ideológica esquerdista, a ameaça anticristã no Brasil (risos), a demonização e perseguição de artistas, o comunismo fantasioso, tudo muito bem construído e disseminado. São monstros símbolo do cinismo político que elegeria Bolsonaro.

Ainda hoje é difícil desmentir grandes símbolos deste cinismo, como o Kit Gay, a doutrinação ideológica nas escolas, as aberrações associadas a homossexuais, a mamadeira de piroca (essa sempre me surpreende e me faz pensar que quem acredita é tão cínico e perturbado quanto quem a inventa), e outros exemplos que chamamos de fake news. Não são apenas fake news, são parte de um discurso que atende a um projeto de poder. Diante do questionamento, inventam mais monstros, respondem com alguns gritos e outros tantos memes e, pronto, lacraram. Não dão respostas satisfatórias, não prestam esclarecimentos e seguem impunes.

O cinismo bolsonarista esconde um monstro maior: a Ditadura

O Ministro Sergio Moro talvez seja hoje um dos maiores exemplos do cinismo bolsonarista. Persona central nas discussões que envolvem o governo, Moro começou o ano como o grande nome de Bolsonaro. Era o coringa do presidente em meio a tantas controvérsias. Para quem havia apoiado Bolsonaro de forma acanhada, Moro cumpriu o papel de fiel da balança. Trouxe ao ministério algum respaldo da grande luta “contra tudo isso que ta aí” que representava. Por outro lado, mesmo quem ainda não desconfiava da parcialidade do ex-juiz começou a estranhar, após ter condenado Lula e agido para a manutenção da sentença, que ele tenha aceitado o convite para ser Ministro da Justiça de seu maior opositor nas eleições.

Como os escândalos envolvendo o Governo são comuns e frequentes desde o primeiro dia, Moro provou ser um grande cínico. De laranjas a envolvimento com a milícia, passando pelos desatinos proferidos pelo presidente, Moro sentou-se à cadeira ao lado de Ônyx Lorenzoni, investigado por corrupção, e de Ricardo Salles, o Ministro do Meio Ambiente condenado por crimes ambientais. É também colega de Damares Alves, a Ministra dos Direitos Humanos que persegue aqueles que não compactuam com sua visão fundamentalista de mundo. Moro optou por calar-se diante de tudo isso.

Se antes gostava de dar opinião sobre tudo, seu silêncio se tornou cada vez mais ensurdecedor. A cada investida de jornalistas, o Ministro se esquiva de alguma forma ultrajante: repete frases de efeito sobre a confiança no presidente, se furta a comentar os escândalos do governo e chega a rir, com deboche, diante daqueles que o interpelam. Moro chegou, no entanto, ao limite de seu desgaste desde que o site The Intercept Brasil começou a publicar a série de reportagens Vaza Jato, que explora a troca de mensagens entre Moro, Deltan Dallagnol (procurador da Lava Jato) e outros membros da Força Tarefa e mostra um grande esquema de colaboração entre parte julgadora e acusação no caso de Lula. Hoje, Moro é o maior escândalo do Governo e se transformou num fantasma a arrastar correntes.

É verdade que Bolsonaro não precisa de grande ajuda para escândalos. É da práxis do bolsonarismo estar rodeado de escândalos para concluir a narrativa. O presidente se comunica pelo Twitter e por lives na internet. Quase sempre para atacar alguém ou se defender de polêmicas criadas por ele ou seus filhos. Criam cortinas de fumaça o tempo todo na tentativa de manter a imagem que ostentam: não têm medo de briga nem da verdade, são polêmicos assumidos, não ligam para direitos humanos porque isso é uma bobagem e acham tudo um grande “mimimi esquerdista”.

Com essa narrativa alimentada, temos um homem mediano no poder que não representa, nem de longe, o que deveria representar um presidente. Bolsonaro cumpre muito mais o papel de influenciador digital de extrema-direita do que o de Presidente da República. No entanto, a piada deixa de ser engraçada quando todo esse cinismo esconde passos perigosos rumo a um estado totalitário, que persegue seus opositores, dilacera a vida dos pobres e coloca o aparato do estado para matar a serviço dos interesses de poderosos, inclusive estrangeiros.

Os primeiros sinais foram os ataques a Cultura e a Educação, com o fim do Ministério da Cultura, ataques orquestrados a artistas e os cortes das universidades e órgãos do MEC – claro, também com ataques a estudantes e professores. Desde a campanha (que parece não ter acabado), os ataques à oposição, os ditos “vermelhos”, são constantes e a perseguição a jornalistas rotineira. O presidente e seus filhos chegaram a perseguir, publicamente, professores da rede pública, divulgando nome e local de trabalho no Twitter. Também incitaram milhões de seguidores a atacar e linchar virtualmente alguns jornalistas. O simples fato de um jornalista discordar do presidente é motivo para ser bloqueado por ele nas redes sociais e ter sua conta invadida por mensagens de ódio. Este mesmo que vos escreve já foi vítima algumas vezes de ataques e comentários ofensivos.

Quando a família se confunde com o Planalto e temos um Presidente que mistura sua casa com a Presidência da República, fazendo do Poder o playground de seus filhos, temos o exemplo de que a política de carreira pode ter um alto custo para os brasileiros se perpetuada.

É preocupante o avanço deste governo e suas cortinas de fumaça ancoradas nas declarações absurdas do presidente que, ainda assim, encontram alguma ressonância. Para distrair das pautas dos vazamentos de Moro, da Reforma da Previdência, dos agrotóxicos liberados, do desmatamento desenfreado, da recessão que se avizinha, dos escândalos com laranjas e milicianos, cada dia um novo jogo no discurso: tem que ter Ministro evangélico no Supremo para barrar pautas progressistas, trabalho infantil é legal, japonês tem pau pequeno, Brasil é uma virgem que todo tarado quer, e por aí seguimos.

A passos largos, enquanto discutimos os grandes absurdos que representa Bolsonaro, o governo avança em pautas delicadas e que nos colocam em uma situação de risco. Acredito que vivemos num Estado de suspeição desde o golpe que derrubou Dilma, que se consolida num Estado exceção com a eleição de Bolsonaro. Uma eleição marcada por fraudes, disseminação de fake news e manipulação midiática dos eleitores não deveria ser levada a sério, ou, pelo menos, deveria ser investigada.

É verdade também que a Vaza Jato, do The Intercept, também se tornou uma cortina de fumaça para o Governo. Enquanto Glenn Greenwald prestava esclarecimentos a uma sessão lotada de deputados na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a Comissão da reforma da previdência iniciava sessão com plenário esvaziado e audiência baixa. Glenn, a propósito, enfrentou uma dura tarde naquela sessão: teve de lidar com o escárnio e o cinismo dos deputados que apoiam o governo irrestritamente e que já fazem parte deste jogo sujo: basta contar uma mentira, distorcer alguns fatos, falar de homossexualidade e o discurso vencerá.

Quando chegou a vez de Moro falar ao parlamento, um show de mediocridade tomou conta da sessão. Moro se esquivava de todas as perguntas, ria de parlamentares, não respeitou a casa em que estava e se apresentou numa calma impassível de quem sabe que nada será levado adiante. Mas vejamos porque não: a Polícia Federal, subordinada a Moro, se recusa a investigar o conteúdo vazado pelas reportagens da série Vaza Jato, que já apontaram absurdos suficientes para destronar o ministro. De sugestão de conduta a dicas de prova, Moro também escolheu delações, pediu para encerrar investigações e agiu em acordo com a Rede Globo para maximizar a força da operação Lava Jato e, por consequência, sua própria imagem.

O Brasil vive tempos de absoluto obscurantismo e valorização da mediocridade. O projeto de poder que aí está se alimenta de golpes constitucionais, até que se estabeleça um golpe de poder de fato. Os ataques à diversidade, o desmonte da educação, da ciência, cultura, das políticas públicas para as mulheres, a população negra e LGBT, os ataques ambientais, as vendas de nosso patrimônio, a união do poder máximo a milícias, já deveriam ter nos colocado em estado máximo de atenção.

Na semana em que Governo pormenoriza e faz piada com o tráfico internacional de cocaína em avião presidencial,  que o exército brasileiro homenageia oficial de alta patente do nazismo em seus meios de comunicação oficiais e em que Moro resolve perseguir um jornalista que lhe faz acusações quando deveria se afastar do cargo e deixar a Polícia Federal agir com lisura, vivemos o estado puro do cinismo que nos aproxima, por fim, da formalização de um estado autocrático, pois nele já vivemos. O salve-se quem puder chegou.

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Por que Frank Capra lutava? https://www.ocafezinho.com/2019/02/07/por-que-frank-capra-lutava/ https://www.ocafezinho.com/2019/02/07/por-que-frank-capra-lutava/#respond Thu, 07 Feb 2019 14:39:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=91888 Começando a coluna semanal da Fênix Filmes n’O Cafezinho sobre cinema e séries, a discussão de hoje é sobre o poder do cinema em cima da opinião pública, a partir da série de documentários “Por que lutamos?” (ou “Why we fight?”), produzidos por Frank Capra junto com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Frank Capra. Foto: Vortex Cultural

Acho importante apresentar, inicialmente, a figura central desse texto: o diretor e roteirista Frank Capra. Considerado o cineasta mais representativo e premiado da Era Roosevelt (1933-1945), Capra discutia em seus filmes questões relacionadas aos temas da Grande Depressão Econômica da década de 1930, do espírito do otimismo da política econômica e da Grande Guerra.

Criava, em sua carreira, um conjunto fílmico que disseminava os ideais, princípios e valores fundamentais da identidade nacional coletiva americana e que buscava configurar um projeto de monumentalização mítica da história dos Estados Unidos da América. Os filmes de Capra falavam de pessoas comuns, que esqueciam as diferenças para se unirem em torno de um mesmo ideal, transmitindo uma sensação de segurança e positividade em sua crença na força dos valores democráticos, na liberdade de expressão e no desejo norte-americano de progresso. Os roteiros eram lindos de assistir e não tem, ainda hoje, como não esboçar um sorriso de esperança de dias melhores ao assistir aos seus filmes.

Em sua autobiografia, o cineasta conta uma história que mudou sua vida quanto à Guerra: um homem calvo, que usava óculos de lentes grossas, foi à sua casa quando ele estava muito doente e, sob o som de um discurso de Adolf Hitler transmitido pelo rádio ao fundo, chamou-o de covarde por abandonar, num momento em que o mundo estava em crise, sua responsabilidade de disseminar uma mensagem de otimismo, e não empregar seus talentos criativos de modo que servissem melhor aos propósitos de Deus e da humanidade: “Você pode falar com centenas de milhões, por duas horas – e no escuro”. Esse momento, quase saído de uma cena de cinema, foi decisivo para Capra aceitar a proposta feita pelo presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt.

Acontece que, em meados da década de 1930, a indústria cinematográfica estava totalmente recuperada da crise gerada pela Grande Depressão, provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Tal recuperação despertou o interesse do governo, que tentou tirar partido das salas lotadas pelos espectadores em busca de entretenimento para esquecerem, pelo menos por alguns momentos, as grandes dificuldades que os esperavam lá fora. Portanto, o cinema hollywoodiano começou a produzir filmes cujos roteiros tentaram disseminar a confiança e o otimismo na recuperação econômica dos Estados Unidos.

E isso foi levado até a Segunda Guerra Mundial. Após o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, a direção da propaganda política ficou sob a responsabilidade do general George C. Marshall e do presidente. O poderoso militar tomou a iniciativa de convidar para participar dos projetos do governo e das Forças Armadas, o cineasta mais premiado de Hollywood – o próprio Capra, que já tinha vencido 3 Oscars –, sugerindo-o a produção de documentários.

Por que lutamos? – Foto: Military History Now

Foi aí que, sob a égide do Ministério da Guerra dos Estados Unidos e liderada pelo diretor, foi iniciada a produção da série “Por Que Lutamos?” (1942 – 1945), composta de sete documentários, que deveriam prioritariamente explicar à sociedade norte-americana, o porquê da participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, já que até aquele momento o discurso oficial (de caráter isolacionista) havia a considerado um “conflito europeu” e simultaneamente esclarecer a opinião pública norte-americana sobre os principais acontecimentos da guerra.

O objetivo era produzir uma série de filmes que permitissem aos soldados identificarem-se com o seu passado nacional, encarar o futuro e compreender melhor os homens e as nações ao lado de quem iam ser lançados no combate e, assim, compreenderem porque estavam de uniforme.

As estratégias utilizadas nos documentários eram meramente visual e discursiva: usavam mapas para mostrar o mundo dividido em duas partes (uma livre, que usava preceitos de Moisés, Cristo e Maomé, e a outra sujeita à escravidão, dominada por Hitler, Mussolini e Hirohito); apropriavam-se de imagens de cemitérios e cadáveres para chocar os espectadores; emitiam discursos das ocupações nazistas pela Europa como uma ameba que digeria tudo o que alcançava; expunham os métodos de tomada de poder etc.

Uma das cenas mais chocantes da série vem no terceiro capítulo, em que os sons cada vez mais agressivos e rápidos se contrapõem aos rostos dos habitantes franceses que assistiam à invasão, com destaque ao plano de um francês que não consegue conter as lágrimas diante do desfile das tropas alemães em Paris. A carga emocional era realmente apelativa, mas comovente.

Cena de “Por que lutamos?” – Foto: Film Reference

Além disso, imagens pontuais manifestavam o espírito de perseverança norte-americana, como a de londrinos recolhendo objetos pessoais entre as ruínas com um sorriso de firmeza, russos com rostos de otimismo e certeza de vitória próxima e chineses firmes às ondas de massacres e torturas.

No cômputo total, a série “Por que lutamos?” surge como uma das mais eficazes peças de propaganda em que o cinema contribuiu com o conflito. Para Capra, entre outras honrarias, veio a Ordem do Império Britânico, entregue por Winston Churchill. Mas as grandes perguntas que ficam, ao final dessa leitura, são: será que o cinema ainda tem a força para motivar milhares de pessoas para a guerra? Será que essas pessoas ainda se motivam por imagens a defenderem seu país? Será que por tão pouco pessoas direcionam suas opiniões públicas para uma crença imposta por forças maiores? Será que imagens, infográficos e notícias ainda têm força para mudar a opinião de alguém? Será?

 

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A violência como método https://www.ocafezinho.com/2019/01/24/a-violencia-como-metodo/ https://www.ocafezinho.com/2019/01/24/a-violencia-como-metodo/#comments Thu, 24 Jan 2019 21:45:29 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=91574 12 Comentários 🔥]]> O anúncio de Jean Wyllys de que não permanecerá no Brasil, abrindo mão do seu mandato de deputado federal, é um marco.

Não me parece exagero considerá-lo um exilado político.

Não cabe, evidentemente, qualquer espécie de crítica à sua atitude. Jean é alvo, há anos, de uma sórdida campanha de difamação, a qual resultou em um sem número de ameaças de morte recebidas pelo deputado.

De esquerda, ativista da causa LGBT e de origem pobre, Jean atrai o ódio da parcela mais reacionária, ressentida e fanatizada da população. Na entrevista à Folha em que revelou que não voltará ao Brasil, Jean conta que após a morte de Marielle Franco – também de esquerda, ativista da causa LGBT e de origem pobre – passou a andar escoltado, pois percebeu que sua vida corria risco.

O clã Bolsonaro tem um histórico de apoio explícito a milícias, que nada mais são do que organizações criminosas. Nos últimos dias tivemos a chocante revelação de que parentes próximos de um miliciano foragido – suspeito de matar Marielle – foram nomeados para cargos públicos por Flávio Bolsonaro.

Jair, o presidente da República que se borra de medo de dar entrevista, debochou no Twitter, lugar em que ganha coragem. “Grande dia!”, escreveu, complementando com um tosco sinal de positivo com a mão. Bolsonaro pai é um antagonista histórico de Jean.

Seu outro filho, Carlos, escreveu “Vá com Deus e seja feliz!”, também complementando com o patético dedinho de positivo. Alexandre Frota, condenado a indenizar Jean por divulgar uma monstruosa mentira ligando-o ao incentivo à pedofilia, será deputado federal no próximo período, acompanhado de uma enorme bancada de trogloditas do PSL.

Os que usam métodos abjetos e violentos de disputa política chegaram ao poder. Se já provocavam estragos e tormentos gigantescos na vida de Jean e de muitos outros antes, podemos imaginar como será agora.

Como condenar Jean?

Só podemos prestar-lhe toda a nossa solidariedade, independente de qualquer divergência política que tenhamos.

Que saibamos usar como combustível para a luta a nossa justa indignação com quem usa a violência como método.

David Miranda, que assumirá a vaga de Jean na Câmara, já mandou o recado:

Respeite o Jean, Jair, e segura sua empolgação. Sai um LGBT mas entra outro, e que vem do Jacarezinho. Outro que em 2 anos aprovou mais projetos que você em 28. Nos vemos em Brasília.

Após o assassinato de Marielle, uma amiga da vereadora e três ex-assessoras foram eleitas  nas últimas eleições – a amiga para a Câmara Federal, as demais para Assembleia do Rio.

A política de extermínio, violência e intimidação só faz aumentar o furor revolucionário do lado do campo popular. A frase atribuída a Che Guevara é certeira: “Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera”.

Bolsonaro é um admirador do torturador Brilhante Ustra. Um entusiasta da ditadura militar. Seu autoritarismo escorre pelo canto da boca, como uma gosma putrefata, em cada frase ofensiva que profere.

Seria esperar demais de criatura tão limitada uma reação ao triste anúncio de Jean minimamente condizente com o cargo que ocupa.

A pequenez moral, a desqualificação e a violência, tanto a simbólica quanto a real, que permeiam os atos advindos do clã Bolsonaro e sua turma não serão esquecidas.

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Sobre as brigas nas cerimônias de diplomação https://www.ocafezinho.com/2018/12/20/sobre-as-brigas-nas-cerimonias-de-diplomacao/ https://www.ocafezinho.com/2018/12/20/sobre-as-brigas-nas-cerimonias-de-diplomacao/#comments Thu, 20 Dec 2018 20:31:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=91024 4 Comentários 🔥]]> Os tumultos ocorridos nas diplomações dos deputados estaduais e federais – destaque negativo para São Paulo e Minas Gerais – são ilustrativos do comportamento fascista e da degradação do parlamento que acompanharemos na próxima legislatura.

A começar pelas vaias e insultos reportados em Minas e no Rio Grande do Sul, dirigidos às deputadas Áurea Carolina (MG) e Luciana Genro (RS), ambas do PSOL, por homenagearem Marielle Franco e pedirem justiça pela sua morte. Marielle foi brutalmente assassinada, um crime com evidentes motivações políticas, mas nem tal tragédia é capaz de comover alguns deputados e a claque fanatizada da direita, os quais não conseguiram demonstrar um milímetro de respeito pela dor alheia.

Em SP e MG os ânimos acirrados descambaram em violência física.

Na capital paulista, Alexandre Frota, eleito deputado federal pelo PSL de Bolsonaro, arvorou-se a segurança da cerimônia de diplomação e tentou tirar do palco, aos empurrões, Jesus dos Santos, do PSOL, membro do mandato coletivo encabeçado por Monica Seixas que foi eleito para a Assembleia Legislativa de São Paulo.

Frota disse depois que “não pode aceitar que um sujeito desses pule no palco” e chamou Jesus de “bandido”. Eduardo Bolsonaro, também diplomado no dia, falou em “atos bandidos” ao comentar o episódio.

Em Minas Gerais, um cartaz onde estava escrito “Lula Livre” foi arrancado da deputada Beatriz Cerqueira (PT) por uma pessoa do cerimonial. Uma lamentável censura a uma manifestação política absolutamente legítima de uma representante eleita pela população.

Quando o deputado Rogério Correia (PT) empunhou outro cartaz “Lula Livre”, no palco, o cabo Junio Amaral (PSL), também deputado eleito, aproximou-se e simplesmente tentou arrancar o cartaz das mãos de Rogério. Este reagiu dando um soco em Junio, que tentou revidar e errou o alvo. A briga foi, então, separada.

A explicação de cabo Junio sobre o acontecido é reveladora do modus operandi fascista:

A partir do momento que eles trazem essa manifestação, pior, fora da vez dele, levanta fica exibindo esse outdoor. Tem outra menina ali que integra o comando vermelho lá, tava estendendo o tempo todo. O pessoal pediu muitas vezes. Então se não tem ordem, a gente vai lá e resolve. E ai ele achou o que, que eu ia ficar na minha depois que ele tentasse me acertar um soco. Onze anos na polícia eu nunca tive medo de vagabundo, não vai ser agora não.

Enquanto Frota e Eduardo Bolsonaro chamaram Jesus de bandido, Junio chamou Rogério de vagabundo.

Os termos “bandido” e “vagabundo” foram banalizados e são usados recorrentemente para designar pessoas de esquerda. A lógica fascista é evidente aqui: se é de esquerda, é bandido/vagabundo; se é bandido/vagabundo, pode sofrer violência sem problemas.

Atitudes truculentas como as cometidas por Frota e pelo cabo Junio somente são viáveis por conta desse processo de desumanização da esquerda que vivemos. Eles não agiriam como brigões de colégio, em plena pomposa solenidade de diplomação, sem o respaldo do ódio coletivo à esquerda que foi plantado e adubado pela mídia e pelo Judiciário, não foi combatido eficazmente e, assim, deu podres frutos em significativa parcela da população.

Outro elemento importante, presente tanto no imbróglio de São Paulo quanto no de Minas Gerais, é a inclinação do fascista de corromper a lei e a ordem enquanto grita que está defendendo-as.

Frota “não aceitou” que Jesus subisse no palco e, ao invés de manifestar seu descontentamento ao cerimonial, resolveu acatar seu próprio pleito e agir violentamente para colocar em prática o que achava correto.

O cabo Junio deixa essa tendência L’État c’est moi ainda mais explícita ao afirmar que “se não tem ordem, a gente vai lá e resolve”.

A fascistização da sociedade resulta em aberrações como essas. Se o guarda da esquina já é um problema em tempos autoritários, imagine deputados em pleno surto delirante de poder.

As vergonhosas manchetes envolvendo deputados, tumultos e socos não devem parar na diplomação. Temos longos quatro anos pela frente.

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Contra Bolsonaro e o fascismo só há um antídoto https://www.ocafezinho.com/2018/10/27/contra-bolsonaro-e-o-fascismo-so-ha-um-antidoto/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/27/contra-bolsonaro-e-o-fascismo-so-ha-um-antidoto/#comments Sat, 27 Oct 2018 14:44:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90226 23 Comentários 🔥]]> Por Bajonas Teixeira,

 

Argumentar com um fascista é a maior tolice que se possa cometer. Lutar contra ele, é o único gesto de lucidez possível. É justamente o ódio aos argumentos, e a todas às instituições baseadas em argumentos, em razões, que caracteriza o fascismo. A imprensa, o parlamento, a justiça que se honra, os tribunais do júri, as universidades são para ele instituições detestáveis.  Quando ele diz, por exemplo, que bandido bom é bandido morto,  está dizendo que não quer julgamentos, que procedem por argumentações, mas sim execuções extrajudiciais, puros atos de vingança. A vingança do “homem de bem” contra os bandidos.

 

Assustador é que, como temos visto nos últimos dias, todos os que são adversários dessa insanidade são classificados insistentemente como bandidos, canalhas e vagabundos. São vermelhos e comunistas. Todos estão, portanto, ameaçados com a mesma vingança: bandido bom é bandido morto.

 

A cada momento surgem novos episódios dosados para ampliar o clima de tensão e pesadelo, como essa ‘coincidência orquestrada’ que acaba de levar à invasão de 30 universidades no país. Ao que parece, os TREs trabalharam para criar um fato político e criminal: se na semana anterior veio à luz o escândalo dos disparos ilegais da campanha de Bolsonaro no WhatsApp, agora seria a vez de mostrar que os opositores agiam também ilegalmente e, pior, por trás dos muros das universidades.

 

E esse é o grande perigo que temos adiante. Jair Bolsonaro, contando com total cumplicidade do judiciário não é de hoje (a não ser quando ele, e seus filhos, ou aliados, atacam diretamente a cúpula da instituição), acena com uma grande vingança social. Essa vingança já está em curso, porque no Brasil, quando se toca música em cima, os debaixo dançam. Ou como dizia um ditado que ouvi do meu avô sobre o Brasil oligárquico, “Quando o fazendeiro pigarreia, o jagunço cospe fogo”. O que acontecerá aos sem-terras, por exemplo, se um candidato que diz que classificará o MST como terrorista, que armará os fazendeiros com fuzis da TAURUS, chegar à presidência?

 

O que acontecerá com os gays e as lésbicas no Brasil, que já é o país que mais mata homossexuais no mundo, se esse mesmo indivíduo diz que prefere um filho morto em um acidente a um filho gay?

 

E quem contará a história de todas essas atrocidades anunciadas, já engatilhadas para acontecer, se esse mesmo candidato já começou a amordaçar a imprensa com  chantagens a mais diversas?

E o que acontecerá às mulheres que, nesse país monstruosamente misógino, tiveram a coragem de se constituir, através do movimento #EleNão, como o primeiro grupo social organizado de luta e de enfrentamento ao fascismo?

O que ocorrerá nas universidades, principalmente nos cursos de humanas e adjacências, quando qualquer minima moralia do pensamento, qualquer vínculo ético com a verdade e qualquer percepção crítica (na ciência e na arte) forem classificadas como ideologia comunista?

 

A noite de São Bartolomeu do pensamento crítico já está afiando as suas facas. E um aperitivo grotesco foi servido nesta quinta-feira (25) com a invasão policial das universidade no país inteiro por ordem do TRE.

 

Quantos docentes serão perseguidos, violentados e expulsos quando a universidade for “enquadrada”? Quantos asseclas do mito já não estão aguardando as primeiras demissões para ingressarem pela porta dos fundos na carreira docente?

 

Não é preciso mais que olhar em volta para ver o grau de tensão e de medo, exasperados até o limite, que Bolsonaro introduziu no país com a injeções indústrias de ódio nas redes sociais. Ódio que já faz tempo transbordou das redes para as ruas.  Esse ódio não é apenas político, não visa apenas alguns partidos supostamente de esquerda. Esse ódio é também social, pretendendo transformar em terra arrasada os movimentos sociais que caracterizam a história moderna e contemporânea. É o caso do ódio aos Sem-Terras (que se promete classificar como terroristas), e que nada mais é que um movimento típico da moderna sociedade burguesa, que pretende que muitos tenham acesso à propriedade do solo ao invés de somente um punhado.

 

Isso nada tem de comunismo. O repúdio  ao monopólio da terra por meia dúzia de grandes senhores é bandeira de David Ricardo, economista burguês, apologista da sociedade capitalista e da propriedade privada.

 

Todos os movimentos sociais, que desde Alain Touraine são tidos como inseparáveis da reconstrução contemporânea dos valores sociais (movimentos de mulheres, de negros, de índios, de moradia, de gays e lésbicas, etc.) são demonizados e prometidos como lenha de fogueiras e limpezas radicais.

 

Mas também tudo que diz respeito à cultura, ao modo do ódio nazista à cultura – “Quando ouço a palavra cultura saco o meu Tauros” – é objeto de perseguição: o artista mais importante da música popular brasileira, é acusado de pedofilia (Caetano Veloso); a classe dos artistas é permanentemente hostilizada como sendo de parasita da Lei Rouanet; diversas manifestações culturais são estigmatizadas como coisa de bandido. O que será do funk a partir do dia 1o de janeiro de 2019?

 

E os negros, o que podem esperar desde agora? Ontem uma matéria do G1 relatava o caso de uma mulher negra de 70 anos hostilizada em um ônibus. A agressora exigiu em tom categórico, dizendo que não gostava de negro nem de velho, que senhora negra se levantasse para ela sentar. Vamos multiplicar isso por milhares de vezes ao dia, e teremos uma imagem próxima do que deve ser esperado. A vítima nesse episódio disse com muita dignidade à reportagem: “Estou procurando os meus direitos. Eu não peço, estou exigindo, porque eu sou um ser humano. Não só eu, como todos os negros”.

 

Muito bem dito. Mas ocorre que, com a plena cumplicidade do judiciário como se viu na absolvição de Bolsonaro no episódio do quilombo, estamos às vésperas da erradicação de todo e qualquer direito humano no Brasil: “Direitos humanos para humanos direitos”.

 

E quem são os humanos direitos? São aqueles que estão ao lado do candidato, os demais são maniqueísticamente alocados como inimigos, como comunistas, como vermelhos. Os negros, de modo geral, serão todos vermelhos.

 

O conjunto desses absurdos se torna possível porque a emergência do programa de Bolsonaro subverte as estruturas do estado de direito, a começar por suas instituições fundamentais. O parlamento, como se viu, acordou do primeiro turno com uma cara inteiramente nova.

 

Rejeitar a complexidade do mundo moderno, os conflitos de interesse de classes, os movimentos sociais e a experimentação cultural, são atitudes arquetípicas do fascismo. Em Bolsonaro e seus prosélitos isso vai muito além de um ódio platônico. Em primeiro lugar são muitas frentes de ódio diante das quais se coloca uma solução (final) da mais obtusa simplicidade: a transformação de cada cidadão em um policial armado. O estado deixa de ser o único operador legítimo da violência. A defesa da propriedade é eleita como o imperativo fundamental e se entrega a cada indivíduo uma arma simbolizado um micro monopólio da violência.

 

Mas se cada um detém um monopólio da violência, não há monopólio nenhum, mas sim a guerra de todos contra todos. A fuzilaria geral será a norma cotidiana da sociabilidade brasileira.

 

Cada indivíduo, cada família, cada grupo (por exemplo, os fazendeiros do agronegócio) serão convidados a se retirarem, no que respeita aos seus interesses de segurança, do pacto com o estado e a agirem por conta própria. O que significa que, se isso se aceita, como vem efetivamente ocorrendo até aqui, se o estado concede sua cumplicidade, o próprio estado renúncia a sua transcendência para se erigir em apenas mais uma corporação de interesses ao lado de outras.

 

E os resultados radicalizarão em muito o que estamos assistindo com um STF e um TSE inteiramente despidos de qualquer transcendência institucional. Quando o filho de Bolsonaro ataca o STF e o capitão do Youtube ofende o TSE (vagabundos, canalhas, bandidos, etc.) e os ameaçam, deixam implícito que apenas tiram as consequências da politização desenfreada dessa instituição. Mas onde está essa politização? Precisamente na cumplicidade acobertadora das fanfarronadas e atrozes promessas dessa direita, sempre e quando sirvam (e sempre tem servido) para combater e desafiar uma parte do corpo político da democracia brasileira, o PT.

 

Se o STF se prestou ao golpe de maneira tão generosa, se foi tão parcial ao desferir negativas contra Lula e tão proativo em desemaranhar os  laços que prendiam Aécio ao código penal, então, pensam a ultradireita brasileira, tudo é possível. Os poderes são apenas simulacros que escondem interesses de outra ordem.

 

E há outros interesses na fila. Se o STF segue obediente o passo à passo do impeachment e, logo em seguida, pede aumento salarial, que instituição é essa? Se essa mesma instituição, contra todas as evidências concede graciosamente a Sérgio Moro a prisão de Lula, e logo depois volta a bater na tecla do aumento, que dignidade resta a esse poder?

 

As invasões coincidentes de trinta universidades durante a semana, numa parceria dos TREs e da PM, em claro desprezo pela legalidade, visando o efeito sobre a opinião pública num momento decisivo da história do país, levou a uma reação em cadeia mostrando os limites dessas maquinações. Parece que aqui o feitiço começou a virar contra os feiticeiros. Despertaram uma capacidade de luta que estava  adormecida desde os anos 80.

 

O fascismo, cuja ação é a de degradar todas as instituições sociais que depara  em seu caminho, encontra um antídoto justamente na sociedade organizada e mobilizada, na ocupação das ruas, na multiplicação das denúncias e dos debates. É a razão social organizada em luta contra a insanidade das violações fascistas.

 

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O horror está instalado: fascismo/nazismo se espalham pelo país https://www.ocafezinho.com/2018/10/11/o-horror-esta-instalado-fascismo-nazismo-se-espalham-pelo-pais/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/11/o-horror-esta-instalado-fascismo-nazismo-se-espalham-pelo-pais/#comments Thu, 11 Oct 2018 20:43:24 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=89826 30 Comentários 🔥]]> Conforme previmos aqui, explodiram os casos de violência após o forte desempenho eleitoral de Bolsonaro no primeiro turno.

Os bolsonaristas estão se sentindo totalmente à vontade para ameaçarem, intimidarem, agredirem ou mesmo matarem quem pensa ou apenas existe de forma diferente da deles. Reparem no seguinte comentário, postado no texto linkado acima:

TOMARA MESMO…
EU MESMO IREI ENVENENAR MUITOS MAGRELOS MACONHEIROS ESQUERDISTAS QUE SO VÃO NA UNIVERSIDADE P VADIAR E FUMAR E COMER BANDEJÃO.. BANDO DE VERMES..
EM BREVE ESTARÃO JUNTOS COM SEUS PARENTES… OS VERMES.

#ENVENENAMENTO EM MASSA JÁ…

É MELHOR DO Q FACADA.

Só um clima de ódio e fascismo explícito, como o que vivemos, permite que alguém expresse publicamente coisas como essa.

A violência tem endereço certo: pessoas de esquerda (ou que apenas andam com adesivo do #elenão), negros, gays, mulheres. A Agência Pública listou os ataques, dividiu-os por região e relatou alguns. Veja neste link e perceba que o horror fascista é uma realidade no Brasil.

Bolsonaro, o óbvio responsável direto pela onda de violência, disse que lamenta mas não tem como controlar o que chamou de casos isolados. Ainda teve a pachorra de dizer que a violência e a intolerância vêm do outro lado.

Os bolsonaristas mais perdidos não se dão conta da gravidade do que está acontecendo. Não percebem que é exatamente o mesmo filme que ocorreu na Alemanha de Hitler: o discurso de ódio contra as minorias descamba novamente em violência física, sangue e morte.

Entretanto, alguns episódios de nazismo explícito se encarregam de não deixar qualquer margem para dúvidas sobre a natureza do que está acontecendo. Vejamos:

  • Pichação na unidade Tamandaré (SP) da rede de cursinhos Anglo:

  • Cartazes no bairro Menino Deus, em Porto Alegre:
  • Pichação na UERJ:

  • Suástica desenhada com um canivete na barriga de uma mulher em Porto Alegre:

Este caso da suástica riscada com um canivete é ilustrativo de um dos aspectos mais sombrios de períodos fascistas.

O delegado da 1ª DP de Porto Alegre falou o seguinte à BBC News Brasil:

Eu fui olhar o desenho que fizeram na barriga dela. É um símbolo budista, de harmonia, de amor, de paz e de fraternidade. Se tu fores pesquisar no Google, tu vai ver que existe um símbolo budista ali. Essa é a informação.

Segundo a BBC, “Ao ser questionado sobre a motivação de alguém cortar a pele de outra pessoa com um canivete para desenhar um símbolo de amor, o delegado ironizou. ‘Aí, eu teria de perguntar para esse alguém. Eu seria adivinho e eu não sei adivinhar’.”

Não é preciso ser adivinho para sabermos qual é o candidato do delegado.

Só um surto coletivo de insanidade fascista explica que o responsável pela investigação fale uma aberração destas. Quem faria, à força e com um canivete, um símbolo de harmonia, amor e paz em uma desconhecida? É surreal.

O aspecto sombrio ao qual me referi logo acima é exatamente este: pessoas investidas de poder estatal mandarem às favas todos os escrúpulos e virarem soldados do ódio.

É a síndrome do pequeno poder, ou “Síndrome de porteiro”, que, segundo a Wikipedia, “é uma atitude de autoritarismo por parte de um indivíduo que, ao receber um poder, usa de forma absoluta e imperativa sem se preocupar com os problemas periféricos que possa vir a ocasionar”.

Se os “homens da lei” brasileiros já são reconhecidamente abusivos e autoritários, imaginem agora que há este clima propício para a violência. Imaginem se Bolsonaro conseguir implementar seu projeto esdrúxulo de dar “retaguarda jurídica”, ou seja, carta branca para a PM matar.

Encerro o post com o relato desesperador da cozinheira Luisa Alencar, um caso típico de regimes autoritários:

“O policial que me abordou na rua, que me agrediu, que me chutou no chão, que me deu a rasteira, ele olhou para minha cara e falou assim: ‘Ele não? Você acha gostoso? Não era isso que você queria? Eu só tiro você daí se você falar ‘ele sim’”, relatou a cozinheira e doula Luisa Alencar. Os policiais, durante a abordagem, fizeram declarações de apoio ao candidato à Presidência pelo PSL. O fato ocorreu na segunda-feira, dia 9 de outubro, na 64ª Delegacia de Polícia, no bairro Jardim Coimbra, em São Paulo.

Ela foi abordada por dois PMs por volta das 14 horas, próximo à sua casa. Estava fazendo um estêncil com os dizeres “Ele Não” em um muro. “Os policiais nem me chamaram nem me advertiram verbalmente, eles já chegaram me agredindo”, contou. Um deles arrancou sua mochila, torceu seu braço e a algemou. “Enquanto ele me prensava na parede, ele começou a gritar no meu ouvido: ‘Sua puta, ele sim, sua puta, vagabunda, ele sim. Não vai ter mais nenhum vagabundo igual a você na rua fazendo essas merdas’.”

Luisa disse que o policial pediu que ela cruzasse as pernas e depois deu uma rasteira. “Eu caí de peito no chão. Ele já prensou minha cara no chão e continuou falando ‘sua puta petista, fedida’. Ele ficou ali me agredindo.” O outro policial pediu reforço e, de acordo com a cozinheira, pouco tempo depois surgiu mais uma viatura e cinco motos da Polícia Militar. “Eles ficaram ainda fazendo uma cena, me prensando no chão, as pessoas me olhando naquela situação”, contou.

Luisa chegou à delegacia por volta das 15 horas. Ela conta que foi colocada em uma cela nua enquanto homens passavam, do outro lado das grades, olhando e rindo. “A delegada mandou eu tirar a roupa, algemada. Nisso, eles abriram já uma cela e me botaram lá dentro. Disseram que precisavam averiguar minha roupa, aí me deixaram pelada um tempo dentro da cela”, disse.

“Quem me conduziu e quem pediu para eu tirar a roupa era uma mulher, a delegada Cristiane. Só que enquanto eu estava dentro da cela passaram vários policiais homens, eles me olhavam e riam”, disse.

Ela conta que só saiu de trás das grades às 18:30, depois que obedeceu às ordens do policial e falou “ele sim”.

“Ele falava: ‘Olha pra mim, olha pra minha cara, fala ele sim’, dando risadas”, contou Luisa. “Eu saí da delegacia às 21h30. A sensação era que eu estava vivendo na ditadura.” Procurada para comentar o relato da jovem, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo enviou uma nota na qual afirma que “não há indícios de irregularidade na ação dos PMs e da delegada responsável pelo registro da ocorrência”.

Não é só sensação, Luisa. A ditadura já começou.

P.S.: Bolsonaro afirmou, em uma entrevista ao CQC (veja aqui), que teria se alistado “sem problema nenhum” no exército de Hitler, mesmo sabendo da história da 2ª Guerra Mundial. Após o repórter insistir, perguntando se ele se alistaria mesmo sabendo de toda a morte nos campos de concentração, o holocausto e os 6 milhões de judeus assassinados, Bolsonaro responde, orgulhoso, que seu bisavô foi soldado de Hitler.

Atualização (em 04/01/2019): Quanto ao símbolo nazista na barriga de uma mulher de Porto Alegre, o laudo pericial e as demais evidências indicaram, algumas semanas depois da publicação deste artigo, que há uma boa probabilidade de a lesão não ter sido obra de grupos nazistas e sim um automutilamento. Fiz a correção no meu balanço de 2018. Peço desculpas às leitoras e leitores pela imprecisão da informação e também pela demora da correção.

 

 

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À luta, companheirada https://www.ocafezinho.com/2018/10/09/a-luta-companheirada/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/09/a-luta-companheirada/#comments Tue, 09 Oct 2018 20:53:46 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=89783 21 Comentários 🔥]]> Na época das articulações que resultaram no golpe de 2016, não foram poucos os analistas políticos que fizeram o alerta: não é possível dar um golpe e depois restaurar a normalidade democrática como se nada tivesse acontecido.

Para viabilizar a derrubada de Dilma, um antipetismo insano foi cuidadosamente plantado na população pela ação conjunta da grande mídia e do Judiciário, com o apoio entusiástico dos partidos da direita tradicional.

A macabra colheita veio no último domingo.

A direita tradicional simplesmente derreteu. Seu lugar foi ocupado pela extrema-direita, tanto no executivo quanto no legislativo. Ao invés de políticos subservientes ao capital mas que mantinham alguns pruridos democráticos, mesmo que parcos, teremos políticos ainda mais subservientes ao capital só que sem a mínima preocupação com a democracia ou mesmo com regras básicas de convivência.

Pessoas como Bolsonaro e seus filhos, Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Kim Kataguiri, Arthur “Mamãe Falei” (dói na alma escrever um codinome ridículo desses) e Janaína Paschoal obtiveram enormes votações para seus respectivos cargos. A indigência mental, o ódio e o delírio patentes nessas figuras foram premiados pelas urnas e ocuparão um espaço de poder descomunal a partir de 2019.

O inconsciente coletivo brasileiro deve estar raciocinando mais ou menos assim: se o PT é essa desgraça toda e essa história de democracia nem é tão importante assim, por que não votar nesses malucos? Eles são meio truculentos mas, afinal, ninguém odeia mais o PT que eles…

O castigo de PMDB e PSDB, as duas grandes forças partidárias que levaram o impeachment a cabo, veio a cavalo.

O problema é que o castigo será estendido a todos nós. Não somente pela ação da direita, por óbvio, mas também por graves erros do campo progressista.

A estratégia do PT mostrou-se estrondosamente equivocada. O fato de Bolsonaro quase ter levado no primeiro turno justamente por conta do antipetismo é prova cabal disso. O clima atual indica que mesmo Lula teria dificuldades. Imagine um substituto indicado há poucas semanas da eleição.

O cenário é nada menos do que tenebroso.

O mais provável, a vitória de Bolsonaro, não precisa de muitas explicações. Além de um aprofundamento brutal da agenda regressiva clássica da direita e do aumento de casos de violência contra minorias – que já está acontecendo – podemos esperar um recrudescimento da violência estatal contra qualquer um que não baixar a cabeça para um hipotético governo Bolsonaro.

O candidato deixou isso claro no vídeo em que comenta os resultados do primeiro turno: “Vamos botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil”, disse ele. Some isso aos explícitos anseios golpistas de seu vice, o general Mourão, e a piada de que “nos vemos no DOPS” de repente perde a graça. O risco de termos um regime autoritário sem disfarces é assustadoramente real.

O cenário menos provável, uma vitória de Haddad, não é nada animador, muito pelo contrário. Se a direita eleita em 2014 deu um golpe e ainda fez o Brasil passar vergonha internacional na famigerada votação do impeachment na Câmara Federal, imagine o que farão os alucinados novos deputados bolsonaristas. Kim Kataguiri já anunciou sua candidatura à presidência da Câmara. Depois da boa piada do “#ficatemer, a gente tava brincando”, será que cabe um “#voltacunha, pelo amor de Deus”?

Perdoem a tentativa de humor fora de hora, mas talvez não seja tão fora de hora assim.

Sei que esse fascismo versão brasileira nunca esteve tão forte e o futuro próximo será certamente duro, muito duro.

Entretanto, quer você acredite em destino, em desígnios do universo ou apenas no acaso, o fato é que nós estamos aqui, nesse país e nesse período histórico. Temos, portanto, uma missão: derrotar o ódio e o autoritarismo.

Para isso, devemos nos afastar de quaisquer pensamentos e sentimentos de desespero. Mantenhamos o bom humor e a alegria de viver. Precisamos nos manter firmes, porém serenos. Combativos, porém alegres. Dispostos, porém tranquilos.

O segundo turno é apenas a primeira tarefa. A missão é longa e passa por espalharmos pelos corações de nossos irmãos e irmãs brasileiros as nobres ideias da democracia, do respeito à diversidade, da tolerância. Espalharmos o que move a esquerda, afinal: o amor ao próximo.

É tarefa primordial e permanente, também, fazer o debate econômico. Mostrar às pessoas o que significa, na vida prática, o tal Estado mínimo. Tornar evidente a perversidade do liberalismo econômico.

Não esqueçam que a derrota do fascismo é um imperativo histórico. O bolsonarismo é um castelo de cartas. Suas fundações são feitas de ódio, mentiras e autoritarismo e, portanto, não se sustentam ao longo do tempo. O fascismo à brasileira fatalmente desmoronará.

Encerro este post com algumas belas palavras de um grande amigo, o Felippe Sammarco:

Os que vieram antes, e que me causam muita admiração, suportaram 21 anos de ditadura, suportaram tantos períodos e instituições autoritárias. Eu não vou abraçar o derrotismo. Antes eu desejo continuar a luta de todos os que vieram e de todos que aqui estão ao meu lado. Vamos honrar nossa própria luta. Nunca tudo está perdido. Nunca a vitória é definitiva. A história não tem fim. Cada quadra histórica nos exige uma forma de organização e reinvenção. Sejamos ousados, felizes. Sejamos criativos. Estamos juntos e vivos. Somos a força da vida e da história. Os passados sempre nos ameaçam e tentam se impôr. Saberemos nos reorganizar. Um abraço carinhoso a cada um que acredita na vida e luta por ela. Estamos juntos, companheirada!

 

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Quem são os responsáveis por mais um ataque a tiros contra apoiadores de Lula? https://www.ocafezinho.com/2018/04/28/quem-sao-os-responsaveis-por-mais-um-ataque-a-tiros-contra-apoiadores-de-lula/ https://www.ocafezinho.com/2018/04/28/quem-sao-os-responsaveis-por-mais-um-ataque-a-tiros-contra-apoiadores-de-lula/#comments Sat, 28 Apr 2018 13:42:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=85200 7 Comentários 🔥]]> Por Pedro Breier 

O novo ataque a tiros contra apoiadores de Lula – tentativa de aniquilação física do adversário político típica de períodos fascistas – tem uma origem bem definida: o massacre midiático contra Lula e o PT perpetrado pelo oligopólio de mídia.

Ao fingir-se de imparcial, a velha imprensa engana muitos incautos.

Por meio de uma aliança espúria com o Judiciário – especialmente com a Lava Jato -, os veículos tradicionais trabalham dia e noite para criminalizar Lula, o PT e a esquerda em geral.

Tal campanha persecutória, empreendida com óbvios fins político-ideológicos, é entendida – em muitos casos por conveniência, é verdade – por milhões de pessoas como simplesmente “o noticiário”. Justo, neutro, imparcial.

A caçada promovida pela Globo, Band, Folha, Estadão, Veja, etc., disfarçada de cobertura jornalística dos fatos, é o que dá uma espécie de cobertura moral a quem está a tal ponto tomado pelo ódio que parte para a violência física.

Os barões da imprensa, os capos da máfia midiática que controla inconstitucionalente a comunicação no Brasil, são os responsáveis por essa triste onda fascista.

Quando a democracia for restaurada será tarefa primordial criar mecanismos para que esse processo jamais se repita.

 

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