Geopolítica - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/geopolitica/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Mon, 13 Jul 2026 18:16:54 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Geopolítica - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/geopolitica/ 32 32 Compra de 34 propriedades em El Salvador expõe enriquecimento da família Bukele (à moda de Bolsonaro e Trump) https://www.ocafezinho.com/2026/07/13/rapina-em-el-salvador-bukele-enriquece-circulo-intimo-e-repete-o-modelo-corrupto-de-bolsonaro-e-trump/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/13/rapina-em-el-salvador-bukele-enriquece-circulo-intimo-e-repete-o-modelo-corrupto-de-bolsonaro-e-trump/#respond Mon, 13 Jul 2026 17:36:26 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/07/13/rapina-em-el-salvador-bukele-enriquece-circulo-intimo-e-repete-o-modelo-corrupto-de-bolsonaro-e-trump/ Uma reportagem investigativa de fôlego publicada pelo El País, o principal jornal da Espanha e um dos mais prestigiados do mundo, revelou o enriquecimento meteórico do círculo de poder do presidente de El Salvador, Nayib Bukele. A investigação jornalística expõe como a cúpula do regime salvadorenho multiplicou suas fortunas privadas através de empréstimos sob suspeita e flexibilização dos controles fiscais.

De acordo com a apuração, o próprio presidente Nayib Bukele viu seu patrimônio declarado saltar de 964 mil dólares em 2012 para cerca de 4,4 milhões de dólares em maio de 2026. Além disso, o mandatário e sua família adquiriram 34 novas propriedades em seus primeiros sete anos de governo, multiplicando por doze suas terras avaliadas em mais de 10 milhões de dólares.

A bonança financeira estende-se a outros nomes do primeiro escalão como o secretário de imprensa Ernesto Sanabria, cujo patrimônio disparou de 269 mil dólares em 2019 para mais de 2 milhões de dólares atuais. A jefa de gabinete Carolina Recinos e o presidente do Banco Central de Reserva Douglas Pablo Rodríguez também atingiram a marca de 1,3 milhão de dólares declarados, alimentados por generosos salários públicos e empréstimos camaradas do estatal Banco Hipotecario.

Essa súbita transparência patrimonial no país centro-americano só veio a público devido à pressão do Fundo Monetário Internacional como condição para a liberação de um empréstimo de 1,4 bilhão de dólares. A revelação de que pelo menos 21 dos 75 funcionários analisados tiveram enriquecimento de até 713% escancara como o poder estatal foi capturado para a criação de uma nova elite financeira.

No Brasil, o avanço patrimonial das elites de extrema-direita repete esse modelo de captura do aparato público sob um manto de moralismo fingido e retórica antissistema. A família do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, construiu um império imobiliário suspeito ao adquirir, ao longo de três décadas, 107 imóveis, dos quais pelo menos 51 foram pagos total ou parcialmente em dinheiro vivo.

Investigações judiciais no Brasil também revelaram esquemas sistemáticos de desvio de salários de assessores conhecidos como rachadinhas no gabinete do senador brasileiro Flávio Bolsonaro. Esse modelo financeiro suspeito permitiu a compra de uma mansão de 6 milhões de reais na capital federal com taxas favorecidas concedidas por um banco estatal de fomento.

Esse método de mercantilização do poder público assemelha-se de forma direta à conduta da família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Durante o mandato na Casa Branca, o clã norte-americano faturou centenas de milhões de dólares através de hospedagens superfaturadas de agentes estatais e governos estrangeiros em seus próprios hotéis e clubes de luxo.

A consolidação do enriquecimento da dinastia norte-americana ficou patente quando o genro do ex-mandatário, Jared Kushner, fechou um fundo de 2 bilhões de dólares com a monarquia da Arábia Saudita pouco após deixar o cargo público. O bukelismo salvadorenho e as dinastias de Bolsonaro e Trump demonstram que a extrema-direita mundial opera a política não como serviço, mas como um acelerador de fortunas privadas.

Em El Salvador, a violência do Estado funciona como ferramenta de gentrificação para favorecer esse círculo, resultando na expulsão violenta de dezenas de milhares de trabalhadores informais do centro histórico de San Salvador sob a ameaça de prisão no regime de exceção. A remoção dos mais pobres abriu caminho para grandes franquias americanas e para a especulação imobiliária de corporações chinesas que compram prédios inteiros na região.

Diante do contraste de luxo governamental e o aumento de 241 mil pessoas na pobreza extrema no país, o ex-ministro da Economia de El Salvador Héctor Dada definiu o centro histórico como uma ilha de riqueza cercada por um mar de pobreza. O historiador salvadorenho Héctor Lindo completa afirmando que a família presidencial apenas repete velhas e brutais práticas das oligarquias locais para se perpetuar indefinidamente no poder estatal.

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Como a guerra de 2026 redesenhou a geopolítica do petróleo https://www.ocafezinho.com/2026/07/11/como-a-guerra-de-2026-redesenhou-a-geopolitica-do-petroleo/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/11/como-a-guerra-de-2026-redesenhou-a-geopolitica-do-petroleo/#respond Sat, 11 Jul 2026 16:27:16 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261527 O ano de 2026 será estudado pelas próximas gerações não apenas como um ponto de ruptura na geopolítica do Oriente Médio, mas como o ano em que a economia global colidiu violentamente com a sua própria vulnerabilidade geográfica. O mundo descobriu, da pior forma possível, que de nada adianta haver bilhões de barris de petróleo estocados no subsolo ou em tanques de armazenamento se a estreita passagem marítima que os liga ao mercado consumidor for militarmente bloqueada. A eclosão do conflito direto entre os Estados Unidos, Israel e o Irã no final de fevereiro não foi apenas uma tragédia militar clássica; foi, na prática, um terremoto logístico e inflacionário que retirou abruptamente do mercado, no seu ápice, até 14 milhões de barris diários das artérias vitais do comércio internacional.

O petróleo nunca foi e nunca será apenas uma commodity negociada em bolsas de valores. Ele é a gramática do poder estatal, o sangue inescapável da agricultura industrial moderna e o preço invisível embutido na base de cálculo de cada produto consumido, transportado ou fabricado no planeta. Quando a Guarda Revolucionária Iraniana tornou o Estreito de Ormuz financeira e militarmente intransitável — através de uma combinação de ameaça balística, minas navais e ações de abordagem —, o mercado global entrou em pânico absoluto. O preço do barril Brent, que é a referência global, engoliu todas as projeções confortáveis e otimistas das agências internacionais, rompendo violentamente a barreira dos US$ 130 e atingindo picos assustadores na casa dos US$ 138 a US$ 144 no mercado físico de entrega imediata.

Gráfico Brent 2026

O choque global de oferta e o pânico dos fretes

Para se ter uma ideia da dimensão do que significa o fechamento de Ormuz, basta olhar para a matemática da navegação. O Estreito é um gargalo de apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido mundialmente. Mas o choque não atingiu apenas o combustível. A inflação de alimentos acompanhou o choque de forma quase instantânea, impulsionada pelo estrangulamento da cadeia de fertilizantes e pelos prêmios de seguro naval, que dispararam para absurdos 10% do valor total da carga transportada nos petroleiros e graneleiros que ainda se atreviam a navegar perto da zona de exclusão.

No próprio Golfo Pérsico, países ricos que dependiam da mesma rota para importar 80% das suas calorias alimentares se viram forçados a realizar monumentais e caríssimas operações de ponte aérea para garantir o abastecimento de comida em seus supermercados, onde os preços ao consumidor final registraram altas que variavam entre 40% e 120%. De repente, o fantasma sombrio dos grandes choques do petróleo de 1973 e 1979 voltou a assombrar os corredores governamentais nas capitais do Ocidente e as vastas fábricas e complexos industriais do Oriente, provando que a segurança energética não é um dado garantido, mas uma conquista diária.

A ascensão do Eixo Atlântico e o poder do pré-sal

Com o colapso temporário e catastrófico do fluxo no Golfo Pérsico, o centro de gravidade da segurança energética mundial precisou pivotar de maneira abrupta. O Eixo Atlântico ganhou uma relevância inédita. Países como os Estados Unidos (com seu óleo de xisto), a surpreendente Guiana e, de forma absolutamente avassaladora, o Brasil, tornaram-se da noite para o dia os fiéis da balança global. Tornaram-se o que os especialistas chamam de barrel of last resort (barril de último recurso) para um mercado asiático e europeu desesperado por alternativas de suprimento seguro, fora da zona de conflito.

O Brasil, montado sobre a monumental e histórica riqueza geológica da camada do pré-sal, respondeu ao choque não apenas com um aumento substancial de volume, mas com uma qualidade estratégica rara no mercado. Em maio de 2026, no auge das pressões internacionais, a produção nacional bateu a marca histórica de 4,3 milhões de barris de petróleo bruto por dia. Deste oceano negro extraído de águas ultraprofundas, a fronteira do pré-sal — liderada pelo vigor impressionante de megacampos como Búzios, Mero e Tupi — foi responsável por massivos 80,5% de toda a extração.

Gráfico Pré-Sal 2026

A Ásia, faminta pela interrupção súbita das correntes do Oriente Médio, voltou-se com voracidade incomparável para o óleo brasileiro. E não o fez apenas por falta de opção, mas por causa de uma característica química valiosíssima: o petróleo do pré-sal possui predominantemente um grau API médio a leve e é considerado doce (baixo teor de enxofre). Em termos práticos de engenharia, isso significa que ele é ideal para substituir diversas correntes do Golfo Pérsico sem exigir que as refinarias chinesas e indianas precisem paralisar suas operações para realizar pesados, lentos e bilionários investimentos de adequação estrutural em suas plantas industriais.

O paradoxo crônico: exportar cru e importar diesel

Apesar dessa vitória da engenharia nacional na exploração marítima, a explosão estratosférica da demanda internacional pelo nosso petróleo expôs violentamente a contradição e a fragilidade histórica da infraestrutura energética brasileira. O Brasil consolida-se como um verdadeiro colosso global na extração (o setor de upstream), exportando petróleo cru de altíssima qualidade para os quatro cantos do mundo. Contudo, o país sofre de um estrangulamento crônico e limitador no parque de refino (o downstream).

Esse paradoxo se manifestou cruelmente na balança comercial e no bolso do cidadão. Enquanto o país exportava volumes recordes de cru a preços espetaculares (atingindo um preço implícito fabuloso de mais de US$ 740 por tonelada em junho), a economia brasileira sangrava no lado oposto do balcão. O Brasil precisava importar volumes massivos de óleo diesel para manter a enorme frota rodoviária de caminhões circulando e garantir que as colheitadeiras do agronegócio não parassem no meio da safra.

A verdade é que autossuficiência em volume bruto de barris não se traduz magicamente em autossuficiência nas moléculas específicas de que a economia precisa, como o diesel. Historicamente dependente de produtos refinados oriundos dos Estados Unidos e, mais recentemente e de forma muito expressiva, da Rússia, o Brasil viu o custo altíssimo das importações de derivados explodir no mercado internacional. O “crack” do diesel (a margem de lucro cobrada pelas refinarias gringas) foi às alturas. Assim, o dinheiro extraordinário que entrava no Brasil pela venda do nosso crude de luxo saía rapidamente pela outra porta para pagar o diesel estrangeiro superfaturado, achatando impiedosamente o saldo real da nossa balança comercial de hidrocarbonetos.

A contraofensiva de Estado e a Medida Provisória 1.340

Diante do iminente repasse dessa explosão internacional de preços para as bombas de combustível nos postos espalhados pelo Brasil — o que geraria uma inflação incontrolável e insustentável —, o governo federal decidiu intervir. Foi para estancar essa sangria que Brasília fez seu movimento mais audacioso, heterodoxo e polêmico de toda a gestão da crise: a promulgação da Medida Provisória 1.340, instituída no auge do desespero e da incerteza, em março de 2026.

Ao cravar repentinamente um imposto de 12% sobre todas as exportações de óleo cru, o Estado brasileiro operou com mão pesada sobre o livre mercado. O objetivo técnico e político era duplo: primeiro, capturar para os cofres públicos as enormes rendas extraordinárias geradas por uma guerra da qual o Brasil não participava; segundo, desencorajar financeiramente a exportação acelerada, forçando a retenção estratégica de barris dentro do país para abastecer e maximizar até o limite de engenharia a carga do nosso parque nacional de refino (como a RNEST em Pernambuco e a Mataripe na Bahia).

Gráfico Exportação Brasileira 2026: Volume, Valor e Preço

Como mostra detalhadamente a evolução do mercado em 2026, a intervenção estatal teve um efeito imediato e mensurável. A medida tributária derrubou os volumes de exportação drasticamente nos meses seguintes (abril e maio), forçando uma priorização do mercado interno. Mais importante ainda: a manobra serviu de amortecedor, blindando parcialmente o consumidor interno, a logística rodoviária e a base produtiva do violento repasse internacional que quebraria a economia real.

A ofensiva do governo, como era de se esperar, gerou um enorme mal-estar no mercado corporativo e uma judicialização feroz no Supremo Tribunal Federal por parte das gigantes petroleiras estrangeiras (empresas do porte da Shell, TotalEnergies e Equinor), que operam no Brasil e dependem do modelo de repatriação em exportação. Elas acusaram o Estado de mudar as regras do jogo no meio da partida, alterando arbitrariamente a rentabilidade prevista nos contratos de concessão e partilha.

O preço da soberania no final do jogo

Ainda que altamente criticada por analistas financeiros internacionais, a tributação emergencial operou como uma vacina de soberania. No grande tabuleiro de xadrez da geopolítica do século 21, onde a energia é tratada como arma de dissuasão e instrumento de coerção nacional, o episódio do Estreito de Ormuz deixou lições indeléveis. O Brasil provou que a mera posse do recurso natural no fundo do oceano é inútil se a nação não dispuser de uma infraestrutura complementar autossuficiente e, mais criticamente, se o Estado não detiver a coragem e o poder político real para administrar esse recurso e protegê-lo contra tempestades vindas de fora.

Em 18 de junho de 2026, a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) entre as potências bélicas proporcionou uma janela provisória de 60 dias de respiro e a reabertura parcial do Golfo Pérsico. O pânico cedeu, e os preços do barril desabaram de volta à casa dos US$ 70 a US$ 80. A calmaria, contudo, é artificial e precária. O susto global impulsionou repensamentos drásticos e sedimentou a grande verdade que os tomadores de decisão relutavam em aceitar: o mundo globalizado não é, de forma alguma, um mercado plano. Ele é perigosamente recortado por dutos inflamáveis, águas rasas, minas navais e gargalos de passagem. E, na brutal política dos gargalos, quem controla a saída do barril e as torres de destilação das refinarias determina de forma absoluta o destino de sua própria nação.

 

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Exclusivo! As picaretagens de Jason Miller, o principal lobista do tarifaço contra o Brasil em Washington https://www.ocafezinho.com/2026/07/09/exclusivo-as-picaretagens-de-jason-miller-o-principal-lobista-do-tarifaco-contra-o-brasil-em-washington/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/09/exclusivo-as-picaretagens-de-jason-miller-o-principal-lobista-do-tarifaco-contra-o-brasil-em-washington/#comments Thu, 09 Jul 2026 18:19:40 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261451 12 Comentários 🔥]]> Série ‘Os quatro picaretas’, Parte 3 · documentos exclusivos da justiça americana.

Na última terça-feira, o senador Flávio Bolsonaro abriu o segundo dia da audiência pública sobre o tarifaço, em Washington. Teve cinco minutos, como todos os participantes, para falar sobre a tarifa adicional de 25% que os Estados Unidos ameaçam impor aos produtos brasileiros.

O senador usou o tempo para falar contra o próprio país. Dos 34 brasileiros que se manifestaram, ele foi o único que não pediu a anulação das tarifas. Em vez de contestá-las, avalizou as acusações americanas contra o Brasil.

Flávio pediu apenas o adiamento, para depois da eleição de outubro. O raciocínio dele é abertamente eleitoral. Taxar o Brasil agora fortaleceria Lula e prejudicaria a oposição, ou seja, a candidatura dele próprio. A atuação rendeu ao senador uma nota de repúdio do governo brasileiro.

A audiência foi convocada pelo USTR, o escritório comercial da Casa Branca, para colher subsídios técnicos antes da decisão final, prevista para 15 de julho.

Mas no mundo político de Washington ninguém acredita que o tarifaço será decidido por notas técnicas. Os analistas concordam que Trump não lê pareceres. Ouve lobistas, e apenas os da casa, aqueles que têm relação partidária com o presidente.

É o caso de Jason Miller, queridinho de Trump desde que trabalhou nas suas primeiras campanhas. Lobista profissional, Miller é agente oficial do governo da Índia em Washington, contratado pela embaixada do país e registrado na lei americana de agentes estrangeiros. Recebe 150 mil dólares por mês, cerca de R$ 810 mil, para defender os interesses indianos junto ao governo Trump.

No Brasil, porém, ele é conhecido por outra função. Miller é o principal elo político entre o núcleo duro do bolsonarismo, autoexilado nos Estados Unidos, e a Casa Branca. Por esse trabalho, não há registro de pagamento algum.

Mas Miller já fez negócios com o bolsonarismo. Como O Cafezinho contou na parte anterior desta série, ele tentou implantar no Brasil a Gettr, a rede social da qual era o chefe, e contratou para a missão um operador que o leitor conhece bem, Paulo Figueiredo. O dinheiro que bancava a operação, a Justiça americana estabeleceria depois, era roubado.

Hoje vamos trazer mais detalhes desse personagem. Como já parece ser tradição na extrema direita brasileira e americana, ele carrega um longo histórico de picaretagens, todas devidamente registradas na Justiça. Comecemos pelo que ele tentou fazer com o Brasil.

A operação Brasil, assinada por ele

Paulo Figueiredo, neto do último general da ditadura militar, é o influenciador bolsonarista que vive nos Estados Unidos e hoje está foragido da Justiça brasileira. Em agosto de 2021, Miller o contratou para ser o representante e principal operador da Gettr no Brasil.

O contrato, de 35 mil dólares por mês, na época cerca de R$ 180 mil, foi assinado de próprio punho por Miller, como chefe da rede. A missão da empresa de Figueiredo era implantar a Gettr no coração da política brasileira, na véspera da eleição de 2022.

Os relatórios internos da operação, entregues à Justiça americana pela própria defesa de Figueiredo, registram como o dinheiro foi gasto. A Gettr comprava espaço publicitário em portais e emissoras que davam apoio editorial e político a Jair Bolsonaro, caso da Jovem Pan, da Gazeta do Povo e no canal 4×4.

A compra de inserções na Jovem Pan foi negociada pelo próprio Figueiredo, que era comentarista da emissora. Um relatório de dezembro de 2021 registra até o atraso no pagamento e a rádio reduzindo a oferta em cerca de cem inserções.

A rede patrocinava eventos de Eduardo Bolsonaro e de Carlos Jordy. Bancou a transmissão de um congresso de médicos do ‘tratamento precoce’, em plena pandemia. Chegou a negociar patrocínio para o Carnaval.

E encomendou uma pesquisa presidencial com regra combinada de antemão. A ordem, registrada por escrito no mesmo relatório interno, foi do próprio Miller. Se o resultado desfavorecesse Bolsonaro, a pesquisa ficava na gaveta.

O plano previa ainda recrutar influenciadores pagos, incluindo, com todas as letras, ‘government officials’. Agentes públicos brasileiros na folha de uma rede social bancada por dinheiro de fraude.

Há um pedido de Miller nesse relatório que merece atenção especial. Ele mandou Figueiredo procurar, no Brasil, ‘eventos relacionados a criptomoedas’.

O leitor entenderá o peso disso em um instante. Nos Estados Unidos, o esquema que bancava a Gettr vendia às vítimas pacotes que combinavam 5% da rede social com 5% de uma criptomoeda chamada Himalaya. Era exatamente essa mercadoria que procurava palco no Brasil.

Nada disso ficou no papel. Repórteres da Agência Pública flagraram a execução em campo. A Gettr patrocinou as edições de 2021 e 2022 da CPAC brasileira, organizada pelo instituto de Eduardo Bolsonaro, e os congressos regionais Brasil Profundo, o mesmo evento que aparece nos relatórios internos com o carimbo ‘Jason approved’.

A conta ‘Gettr Brasil Oficial’, tocada por funcionários, cobria motociatas e atos pró-governo Bolsonaro. ‘Vamos dar o apoio que o presidente precisa’, disse um representante da empresa, ao vivo, num ato de 1º de maio de 2022.

O turista do 7 de Setembro

Miller cultivou a ponte com os Bolsonaro pessoalmente. Em setembro de 2021, discursou na CPAC de Brasília e foi recebido por Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada.

Na viagem, ele estava acompanhado de Gerald Brant, o empresário que em 2017 apresentou a família Bolsonaro a Steve Bannon.

Na saída do país, em 7 de setembro de 2021, Miller foi retido no aeroporto de Brasília e interrogado por três horas pela Polícia Federal, no inquérito das milícias digitais. Saiu sem acusação, e com um troféu de perseguido para exibir à militância.

Tradução: ‘Parem de oprimir o povo brasileiro. Parem de censurar o seu povo’, disse Bolsonaro, dirigindo os comentários a Moraes. Ex-assessor de Trump, Jason Miller é detido brevemente no Brasil, CNN. Post de Miller no dia em que foi interrogado pela PF.

Um ano depois, voltou para o 7 de Setembro eleitoral de Copacabana. Subiu num trio elétrico, postou ‘estou no topo do mundo’, instalou um totem inflável da Gettr no meio do ato e fez campanha aberta para candidatos bolsonaristas.

À Agência Pública, naquele dia, disse que queria voltar ‘durante a Copa e o Carnaval’. O leitor já sabe que o patrocínio do Carnaval estava, de fato, no orçamento interno da operação.

A gratidão da família é pública. Em maio deste ano, um dia depois de participar do encontro entre Flávio Bolsonaro e Trump, Miller recebeu de Eduardo Bolsonaro um agradecimento aberto nas redes.

Tradução: ‘JAMAIS ESQUECEREMOS ESTE APOIO. Palavras gentis vindas de um dos mais proeminentes comunicadores dos Estados Unidos, ninguém menos que o estrategista político @JasonMiller 👏

E o engajamento na eleição de 2026 é explícito.

Tradução: ‘Bolsonaro 2026. Vamos lá! 👊🇧🇷🇺🇸’, marcando Flávio e Eduardo Bolsonaro.

A conta chegou

Toda essa operação tinha um segredo contábil, que a Justiça americana escancarou ao destrinchar a falência de Miles Guo, o golpista chinês que enganou milhares de seguidores na internet e hoje cumpre 30 anos de prisão.

Essa falência funciona como um enorme pente-fino. Guo roubou mais de 1 bilhão de dólares de seus seguidores e escondeu o dinheiro numa teia de empresas de fachada. Quando quebrou, a Justiça nomeou um administrador encarregado de passar o pente por essa teia e recuperar, bolso por bolso, o dinheiro das vítimas.

Quem recebeu dinheiro das fachadas é chamado a devolver. Se o dinheiro era roubado na origem, volta para o espólio e, dali, para as pessoas enganadas.

Foi esse pente que já condenou a empresa de Paulo Figueiredo a devolver R$ 770 mil. Depois alcançou a própria Gettr, condenada em maio a devolver 35,6 milhões de dólares, cerca de R$ 192 milhões, mais juros.

O Cafezinho obteve a sentença na íntegra e a publica com exclusividade no fim desta reportagem. Havíamos revelado essa condenação na parte anterior, com o valor da acusação original, de 21 milhões de dólares. A sentença completa mostra que erramos para menos. A conta final é 70% maior.

A Gettr nem se deu ao trabalho de se defender. A sentença saiu à revelia. Uma parte dela, 59 mil dólares, refere-se a dinheiro recebido antes da falência com ‘intenção efetiva de impedir, atrasar e fraudar credores’, nas palavras da juíza.

O grosso, os 35,6 milhões de dólares, foi despejado na rede depois que Guo já estava falido, pelas empresas Hamilton Opportunity Fund e ACA Capital, que a Justiça descreve como de propriedade oculta do próprio Guo. Essas duas empresas estão sendo julgadas desde 8 de julho num megaprocesso em Connecticut que quer declará-las meros disfarces do golpista.

O único que briga

E não é só a empresa. Como pessoa física, Miller é cobrado a devolver outros 353 mil dólares, cerca de R$ 1,9 milhão, recebidos das fachadas Lexington e HCHK, as fachadas do golpista.

Guarde esse último nome. A HCHK é exatamente a mesma firma de fachada que pagou os R$ 770 mil à empresa de Paulo Figueiredo. O chefe da Gettr e o operador brasileiro da Gettr eram pagos pelo mesmo caixa clandestino.

Miller nega qualquer ligação entre o dinheiro e os crimes de Guo e diz que prestou serviços legítimos. Ao contrário de todos os outros personagens desta série, ele briga, com unhas, dentes e advogados caros.

Até aqui, ele só acumula derrotas. Pediu a extinção do processo e perdeu. Recorreu à instância superior e perdeu de novo. Apresentou então doze linhas de defesa e exigiu ser julgado por um júri popular, um direito que a Constituição americana lhe garante nesse tipo de ação.

Em abril, quando a juíza avisou que os julgamentos começariam na semana de 7 de julho, Miller correu para transferir o seu a outra corte, onde o júri é possível. A decisão pode sair a qualquer momento.

Dessa guerra processual, fica um detalhe delicioso, registrado em decisão judicial. O primeiro argumento de Miller para extinguir o processo foi reclamar que a planilha com as transferências estava sob sigilo.

A juíza respondeu por escrito que bastava ele pedir a abertura do documento, e a corte consideraria. Ele não pediu. O campeão mundial da ‘liberdade de expressão’ preferiu enterrar o processo a abrir a planilha do próprio dinheiro.

O homem que ameaça juízes de dois países

Nos tribunais, Miller perde com advogados. Fora deles, aplica outro método. Ele trata juízes, brasileiros ou americanos, com o vocabulário de um cobrador de dívida.

Em fevereiro deste ano, ele anunciou publicamente, para seus 625 mil seguidores, que ativaria ‘todo mundo que conheço e todos os recursos que tenho’ para barrar a promoção do juiz do seu caso de paternidade em Miami. O juiz abandonou o caso quatro horas depois. Funcionou.

Tradução: ‘Estou me opondo ativamente à candidatura do juiz Spencer Multack, da Flórida, a uma promoção ao Terceiro Tribunal Distrital de Apelações, e vou ativar TODO MUNDO que conheço e TODOS os recursos que tenho para barrar a candidatura dele. 🇺🇸

Contra o Supremo brasileiro, a gramática é idêntica. Em 10 de agosto de 2025, dias depois de Alexandre de Moraes ser sancionado pela Lei Magnitsky, Miller compartilhou uma reportagem segundo a qual outros ministros estariam ‘apavorados’ com a lei. E escreveu, encerrando com um emoji de alvo, ‘Libertem Bolsonaro… ou então’.

Tradução: ‘Libertem Bolsonaro… ou então. 🎯’, compartilhando a reportagem do jornal O Globo sobre os ministros ‘apavorados’.

Minutos depois, no mesmo dia, ele reforçou a promessa.

Tradução: ‘Para deixar claro, não vou parar, não vou desistir, nunca vou ceder, até que o presidente @jairbolsonaro esteja livre!!! 👊🇧🇷

Em março deste ano, com Bolsonaro internado, Miller culpou o ministro pela saúde do ex-presidente e afirmou que Moraes quer vê-lo ‘morrer na prisão’. Prometeu que os ministros serão ‘lembrados e responsabilizados pelo resto de suas vidas miseráveis’.

Em abril, marcou o perfil oficial do STF para prever a prisão do ministro.

Tradução: ‘.@STF_oficial Alexandre de Moraes é um criminoso e logo estará na cadeia. O atual presidente @LulaOficial é um peão da China e está vendendo o Hemisfério Ocidental. @FlavioBolsonaro é o único que pode salvar o Brasil em 2026!!! 🇧🇷

Atel o presidente da República é alvo. Em agosto de 2025, Miller escreveu que Lula é ‘o Biden dos trópicos’, com ‘cérebro de banana amassada’.

Quando ameaça ministros do STF, portanto, Miller não está fazendo retórica geopolítica. Está aplicando um método que ele testou, com sucesso, num tribunal de família de Miami.

Quem é esse sujeito

E quem é o homem que se sente autorizado a intimidar cortes de dois países? Jason Miller tem 51 anos e é filho de um soldador e de uma contadora de um subúrbio de Seattle. Foi para Washington estudar ciência política e nunca mais saiu da máquina republicana.

Um perfil do Washington Post resgatou o Miller universitário dos anos 1990, um rapaz de fraternidade ‘amigo da imprensa, que sabia dar festa’. Ele passou vinte anos subindo a escada das campanhas eleitorais.

Em 2016, Miller trabalhava para Ted Cruz, adversário de Trump nas prévias, e criou a hashtag #SleazyDonald, o ‘Donald Sórdido’. Semanas depois de Cruz desistir, estava contratado por Trump.

A relação, porém, vinha de antes. Em 2011, quando Trump cogitou disputar a presidência, Miller já estava escalado para gerenciar a campanha. Trump o mantém por perto há quinze anos porque ele entrega o que o chefe mais valoriza, narrativa e lealdade.

Foi Miller quem contou ao Congresso americano, sob juramento, que a equipe de dados avisou Trump, na própria noite da eleição de 2020, de que ele havia perdido. Trump ignorou e gritou fraude. É o mesmo roteiro que a Gettr ajudou a ensaiar no Brasil em 2022.

Na Gettr, a gestão de Miller rendeu episódios constrangedores. A rede foi inundada de propaganda do Estado Islâmico, com vídeos de decapitação, e Miller respondeu que os terroristas vivos eram ‘guerreiros de teclado escondidos em cavernas comendo biscoitos de terra’.

Quando o podcaster Joe Rogan notou que a Gettr lhe exibia 9 milhões de ‘seguidores’, mais do que a rede tinha de usuários, chamou os números de picaretagem. Miller admitiu que somava seguidores do Twitter na conta.

O especialista em esconder dinheiro

Ocultar a própria renda é outra habilidade que Miller exercita há anos nos tribunais de família.

Em 2019, a consultoria Teneo o demitiu publicamente, após ele xingar um deputado nas redes. O jornal The Guardian revelou depois, com documentos, que a mesma Teneo o recontratou em segredo, dias depois, pelos mesmos 500 mil dólares anuais, por meio de uma empresa de prateleira.

Três dias após assinar o contrato secreto, Miller jurou a um tribunal da Flórida que havia sofrido uma ‘mudança substancial’ nas finanças e conseguiu reduzir a pensão do filho para 500 dólares por mês. Ele nega ter enganado a corte.

Em 2020, segundo o site Salon, a campanha de Trump pagava seus 35 mil dólares mensais por debaixo dos panos, roteados por uma antiga empregadora dele, com aval pessoal de Jared Kushner. No mesmo período, Miller embolsava 20 mil dólares mensais de uma ONG de Steve Bannon que estava sob investigação federal por fraude.

As acusações que ele carrega

A vida pessoal de Miller desabou em dezembro de 2016, quando ele foi anunciado diretor de Comunicações da Casa Branca e caiu em 48 horas. Veio a público seu caso com A.J. Delgado, advogada e porta-voz da campanha, sua subordinada direta, grávida dele.

O filho nasceu seis meses depois da segunda filha do casamento de Miller. Segundo Delgado, ele a fez ser notificada de um processo judicial um dia após o parto, ainda no hospital.

Dali nasceu uma guerra judicial que já dura quase uma década. Em 2023, Delgado processou Miller em Nova York descrevendo um ‘ciclo de coerção, estupro, agressão sexual, abuso e assédio’ durante a campanha de 2016.

Em janeiro de 2025, um juiz autorizou o prosseguimento das alegações de estupro contra Miller e rejeitou as de tráfico sexual. Miller nega tudo e afirma que a relação foi consensual. Em maio deste ano, a campanha de Trump fez acordo com Delgado e saiu do caso, deixando Miller sozinho no banco dos réus. O processo segue.

Há ainda o que ele mesmo confessou. Num processo de difamação que Miller moveu contra um site, e perdeu, os autos revelaram que ele admitiu ter contratado prostitutas e mantido casos com duas funcionárias de campanha.

Quem banca as brigas dele também é informação pública. Registros eleitorais mostram o Partido Republicano pagando 150 mil dólares à firma de Miller, e um comitê trumpista pagando cerca de 1 milhão de dólares aos advogados que o defendem no litígio com Delgado.

O lobista da Índia e o tarifaço

Voltemos a Washington, porque agora o leitor tem todos os elementos. O contrato de Miller com o governo da Índia foi renovado em abril, até 2027, e os registros oficiais da lei de agentes estrangeiros mostram o serviço prestado.

Entre novembro e abril, Miller telefonou pelo menos 13 vezes para Jamieson Greer, o chefe do USTR, e 12 vezes para o secretário do Tesouro, além de se coordenar com o gabinete da chefe da Casa Civil na véspera do anúncio do acordo comercial entre Estados Unidos e Índia.

Greer é exatamente o homem que comanda a investigação contra o Brasil e a quem Flávio Bolsonaro se dirigiu na audiência de terça-feira. Enquanto o senador teve cinco minutos no microfone, o lobista amigo da família tem o telefone direto.

O contraste é o dado central. Pela Índia, Miller cobra caro e registra cada ligação em cartório, como manda a lei. Pela cruzada bolsonarista em Washington, não há registro de pagamento algum. Esta série continuará investigando quem financia essa operação.

O prêmio final

No fim de junho, o Washington Post e a CNN noticiaram que Miller está prestes a entrar formalmente na Casa Branca, como ‘funcionário especial do governo’, para comandar a mensagem de Trump nas eleições de novembro.

O estatuto de funcionário especial tem regras de conflito de interesse mais frouxas que as do funcionalismo comum. Miller entraria pela porta da frente sendo, ao mesmo tempo, agente estrangeiro pago da Índia e réu numa cobrança judicial ligada a um dos maiores golpes da história dos Estados Unidos.

O homem que assinou os contratos, mandou engavetar a pesquisa e recebeu o dinheiro das fachadas está a uma assinatura de despachar ao lado de Trump.

Baixe os documentos desta reportagem

Todos os arquivos abaixo são autos oficiais dos processos movidos pelo administrador da falência de Miles Guo no Tribunal de Falências do Distrito de Connecticut (EUA), obtidos por O Cafezinho. Clique para ler ou baixar.

O processo contra Jason Miller (Adv. 24-05219)

1. A acusação. Petição inicial cobrando de Miller a devolução de US$ 353.269,23 recebidos das fachadas Lexington e HCHK (14/2/2024)

2. A primeira derrota de Miller. Decisão da juíza negando o pedido dele para extinguir o processo, incluindo o episódio da planilha sob sigilo que ele não pediu para abrir (14/4/2025)

3. A segunda derrota. Decisão da Justiça distrital negando o recurso de Miller (22/5/2025)

4. O pedido de júri. Memorando de Miller pedindo julgamento por júri popular na Justiça distrital (23/4/2026)

5. A decisão coletiva. Juíza mantém vivas as ações contra Miller e outros réus (4/3/2025). Também disponível no repositório oficial do governo americano

A condenação da Gettr (Adv. 24-05252)

6. A sentença integral. Condenação de US$ 59.453,40 mais US$ 35.599.740,00, com juros (19/5/2026)

7. A ordem da juíza. Concessão do julgamento à revelia contra a Gettr (19/5/2026)

8. O memorando do administrador. Detalhamento das transferências das fachadas GFNY, Hamilton e ACA Capital (11/5/2026)

9. A declaração juramentada. Anexos com as transferências, 93 páginas (11/5/2026)

10. A acusação ampliada. Petição corrigida contra a Gettr (13/2/2025)

A primeira parte da série, sobre a empresa no Texas que liga Eduardo Bolsonaro ao dinheiro do Master, e a segunda, sobre a condenação da empresa de Paulo Figueiredo, estão publicadas em O Cafezinho.

Leia também: Economista da FGV confirma que Flávio Bolsonaro atrapalhou o Brasil na audiência do tarifaço


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Trump surta sobre a Groenlândia e desestabiliza OTAN https://www.ocafezinho.com/2026/07/09/trump-surta-sobre-a-groenlandia-e-desestabiliza-otan/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/09/trump-surta-sobre-a-groenlandia-e-desestabiliza-otan/#comments Thu, 09 Jul 2026 14:49:56 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261447 Os líderes europeus deixaram Ancara nesta semana carregando uma dúvida incômoda: afinal, Donald Trump quer mesmo anexar a Groenlândia, ou apenas usa a ilha como peça de barganha para pressionar a OTAN? Ninguém, nem mesmo os diplomatas mais experientes da aliança, conseguiu dar uma resposta definitiva. Enquanto isso, o mundo observa outro capítulo tenso da política externa americana: na madrugada desta semana, os Estados Unidos atacaram novamente o Irã, e Trump prometeu manter as ofensivas até que Teerã pare de atacar embarcações no Estreito de Ormuz. Como consequência imediata, os preços do petróleo subiram cerca de US$ 1 por barril, reforçando a sensação de que a instabilidade geopolítica segue em alta.

A questão da Groenlândia não nasceu agora. Segundo o Financial Times, Trump já defendia o controle americano sobre a ilha ártica desde seu primeiro mandato. Contudo, a ameaça ganhou contornos mais sérios nesta primavera, quando o presidente se recusou a descartar publicamente o uso de força militar para tomar o território dinamarquês. Vale lembrar que os Estados Unidos já mantêm, há décadas, um tratado que garante amplos poderes militares na região, o que torna a retórica de Trump ainda mais delicada para os aliados europeus.

Na terça-feira, o tom voltou a subir. Trump reafirmou que “[a Groenlândia] deveria ser controlada pelos Estados Unidos, não pela Dinamarca… Foi isso que prejudicou minha relação com a OTAN, porque a Groenlândia não ajuda a Dinamarca”. A frase, dita antes de uma reunião crucial da aliança, acendeu o alerta nas capitais europeias. Afinal, temia-se que o encontro anual de líderes fosse sequestrado por um tema que, poucos meses antes, já havia ameaçado rachar a unidade da OTAN.

Contudo, algo mudou entre o jantar com os demais líderes da aliança e a chegada de Trump à sessão formal de negociações. A Groenlândia, de repente, sumiu de seus discursos. A segurança no Ártico deixou de ser prioridade. Em vez disso, o combate ao “comunismo” virou o assunto favorito do presidente americano.

Depois da cúpula, Trump minimizou qualquer tensão diante dos repórteres. “Acabamos de ter nossa reunião da OTAN, e foi uma ótima reunião”, declarou. E completou: “Havia muito amor naquela sala hoje, muita união. Não poderia ter corrido muito melhor.” A mudança abrupta de tom surpreendeu até quem acompanha de perto o estilo imprevisível do republicano.

Diplomatas europeus, por sua vez, relatam uma leitura mais tranquilizadora: o discurso público de Trump costuma soar bem mais agressivo do que suas ações reais nos bastidores. Prova disso é que Marco Rubio, secretário de Estado americano, sequer mencionou a Groenlândia durante o jantar de ministros das Relações Exteriores da OTAN, horas depois de seu chefe acusar a Dinamarca de negligenciar o território.

Bastidores revelam incerteza entre aliados

Um alto funcionário da OTAN tentou explicar a contradição. “Talvez ele tenha sido provocado pela pergunta [do jornalista]”, ponderou. E acrescentou: “Talvez ele simplesmente tenha retomado seus argumentos de sempre. De qualquer forma, realmente não parece que essa [exigência de posse da Groenlândia] seja uma estratégia concreta.”

Para líderes como Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, essa indefinição retórica é particularmente desconfortável. Afinal, ninguém sabe ao certo quando Trump está blefando e quando está, de fato, planejando uma ação concreta contra um território de um país aliado.

Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, tentou equilibrar-se nessa corda bamba diplomática. Por um lado, ele validou o argumento de Trump de que o litoral da Groenlândia não deveria ficar exposto a navios de guerra russos ou chineses. Por outro, fez questão de deixar claro que qualquer decisão sobre o futuro da ilha cabe exclusivamente a Copenhague e Nuuk, não a Washington nem a Bruxelas.

Ainda assim, um diplomata da aliança resumiu bem a inquietação geral: “Seja por acaso ou planejado, não podemos continuar esperando que esse problema simplesmente desapareça. Precisamos de um plano concreto.” A frase expõe o desconforto de uma Europa que se vê refém das oscilações de humor de Washington.

Reino Unido perde força

Enquanto a Groenlândia domina as manchetes, outro processo silencioso enfraquece a capacidade europeia de reagir. Os cortes nos orçamentos britânicos de defesa e ajuda externa vêm corroendo um dos pilares tradicionais da segurança europeia. Essa retração acontece justamente no momento em que o afastamento de Washington obriga o continente a assumir, sozinho, mais responsabilidades estratégicas. Assim, a Europa se vê espremida entre um aliado americano imprevisível e um parceiro britânico cada vez mais limitado.

UE se divide sobre quem paga a conta do carbono

Enquanto a diplomacia da segurança patina, outra disputa também ganha força em Bruxelas: a briga em torno dos custos do carbono. Grupos empresariais da França, da Alemanha e da Itália pressionam a Comissão Europeia por mais flexibilidade na revisão do sistema de comércio de emissões, prevista para a próxima semana. Já a influente família sueca Wallenberg empurra na direção contrária, defendendo regras mais rígidas.

A Comissão Europeia deve apresentar, em breve, planos para alinhar o sistema de limites e comércio de emissões da UE às metas climáticas de 2040. O declínio industrial do continente preocupa fortemente os formuladores de políticas públicas. Por isso, a Medef francesa, a BDI alemã e a Confindustria italiana uniram forças e pediram, conjuntamente, uma revisão do sistema para aliviar o peso sobre a indústria.

“A Europa deve descarbonizar a sua economia sem perder as suas indústrias, e as condições gerais para o investimento devem ser consideravelmente melhoradas”, afirmaram as federações em carta conjunta enviada à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.

As três federações empresariais também defendem que novas licenças de emissão sejam emitidas depois de 2040, um pedido que, ao que tudo indica, deve ser atendido. Além disso, elas querem manter licenças gratuitas para alguns setores, mesmo com a chegada do mecanismo de ajuste de carbono na fronteira sobre importações. Adicionalmente, propõem incluir créditos de carbono, além de captura e remoção do gás, dentro do programa.

Por outro lado, essas mesmas federações rejeitam os planos, revelados inicialmente pelo Financial Times, de incluir voos internacionais e emissões marítimas no sistema europeu. Ou seja, querem alívio para a indústria pesada, mas resistem a ampliar o alcance da cobrança para outros setores poluentes.

Enquanto isso, países e empresas que já investiram pesado na transição energética cobram justamente o oposto: mais ambição climática, não menos. Jacob e Marcus Wallenberg, magnatas suecos à frente de um dos grupos empresariais mais influentes da Europa, enviaram a von der Leyen um apelo direto para manter o sistema robusto.

“Os investimentos de baixo carbono criam valor para os negócios e aumentam a competitividade, o que protege empregos, crescimento e bem-estar em toda a região”, declararam os irmãos suecos.

No fim das contas, a Europa caminha espremida entre forças contraditórias em praticamente todas as frentes. Na diplomacia, precisa decifrar se as ameaças de Trump sobre a Groenlândia são estratégia ou impulso passageiro. Na economia, precisa escolher entre proteger indústrias tradicionais ou acelerar a transição verde exigida por quem já investiu nela. Assim, a próxima semana em Bruxelas promete ser decisiva: de um lado, a pressão de gigantes industriais que temem perder competitividade; do outro, vozes como a dos Wallenberg, que insistem que a ambição climática também é uma estratégia econômica vencedora. Resta saber qual lado vai prevalecer quando a Comissão Europeia finalmente apresentar sua proposta.

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EUA bombardeiam cerca de 90 alvos no Irã em nova escalada; Teerã retalia contra bases americanas no Kuwait e Bahrein https://www.ocafezinho.com/2026/07/09/eua-bombardeiam-cerca-de-90-alvos-no-ira-em-nova-escalada-teera-retalia-contra-bases-americanas-no-kuwait-e-bahrein/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/09/eua-bombardeiam-cerca-de-90-alvos-no-ira-em-nova-escalada-teera-retalia-contra-bases-americanas-no-kuwait-e-bahrein/#respond Thu, 09 Jul 2026 11:13:10 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261443 O conflito entre Estados Unidos e Irã voltou a se intensificar de forma abrupta nesta quarta e quinta-feira (8 e 9), colocando em xeque o frágil memorando de entendimento assinado em 17 de junho entre os dois países. Segundo o Comando Central das Forças Armadas dos EUA (CENTCOM), a nova onda de ataques atingiu aproximadamente 90 alvos militares iranianos — entre sistemas de defesa aérea, estruturas de vigilância costeira, depósitos de mísseis e drones, capacidades navais e instalações de apoio logístico ao longo da costa do país.

Uma escalada que já provoca vítimas e reação em cadeia

Os ataques atingiram cidades da costa sul iraniana, incluindo Bandar Abbas — principal porto do país e base estratégica da Marinha e da Guarda Revolucionária —, além de Konarak e Chabahar, próximas à fronteira com o Paquistão. Houve interrupção no fornecimento de energia elétrica em algumas áreas, e a mídia estatal iraniana confirmou a morte de um bombeiro em ataque contra o aeroporto de Iranshahr, no sudeste do país. No norte, um ataque também teria atingido uma ponte ferroviária próxima à cidade de Aqqala, segundo a Press TV.

O Irã reagiu no mesmo dia, direcionando ataques contra o Kuwait e o Bahrein — países que sediam bases militares americanas na região — pelo segundo dia consecutivo. O Ministério da Defesa kuwaitiano informou estar interceptando mísseis e drones, e o Catar chegou a emitir um alerta de “ameaça de segurança elevada”, posteriormente suspenso.

O gatilho: ataques a petroleiros e a ameaça sobre Hormuz

Segundo Washington, a ofensiva foi motivada pela necessidade de preservar a livre navegação no Estreito de Ormuz, rota por onde passa parcela relevante do petróleo comercializado globalmente. O CENTCOM atribuiu ao Irã a responsabilidade por ataques recentes contra navios comerciais na região, classificando a ação iraniana como agressão contra embarcações e tripulações civis que navegavam por uma via marítima internacional.

O presidente Donald Trump classificou a resposta americana como retaliação direta: “Isto é uma retaliação pelo bombardeio de navios realizado ontem pelo Irã”, escreveu na rede Truth Social, acrescentando que qualquer nova ação iraniana receberia resposta ainda mais dura. Horas antes, durante a cúpula da Otan na Turquia, Trump já havia sinalizado considerar encerrado o entendimento com Teerã, dizendo duvidar da capacidade iraniana de honrar qualquer acordo e classificando as autoridades do país como pouco confiáveis. Ainda assim, o presidente minimizou o risco de uma guerra plena, avaliando que qualquer nova escalada tende a se resolver rapidamente.

A resposta iraniana: linha dura e ameaça de sair do Tratado de Não Proliferação

Do lado iraniano, o principal negociador do país, Mohammad Baqer Qalibaf, publicou mensagem afirmando que os americanos ainda precisam aprender que “intimidar e quebrar seus compromissos não deixam mais de ter custo” — e prometeu retaliação a qualquer novo ataque. Qalibaf também deixou claro que a reabertura do Estreito de Ormuz só ocorrerá sob condições determinadas por Teerã, não por imposição americana.

A diplomacia iraniana também acionou o Conselho de Segurança da ONU, acusando os Estados Unidos de violação da Carta das Nações Unidas e de suas obrigações internacionais. Internamente, parlamentares iranianos já discutem opções de retaliação mais amplas, incluindo a retirada do país do Tratado de Não Proliferação Nuclear, mudanças na doutrina nuclear nacional e o fechamento do Estreito de Bab-el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho — outra rota crítica para o comércio marítimo global, que se fechada ampliaria significativamente o alcance econômico do conflito para além do Golfo Pérsico.

Mercado reage, mas sem repetir o pico de abril

A escalada já pressiona os preços internacionais de petróleo: os contratos futuros do Brent subiam cerca de 1%, para US$ 78,80 o barril, na madrugada desta quinta. O valor, porém, ainda está bem distante do pico de mais de US$ 120 registrado no fim de abril, durante a fase mais aguda do conflito — quando a guerra durou cinco semanas antes da primeira rodada de cessar-fogo.

Um padrão que já se repete desde junho

O episódio confirma um padrão observado desde a assinatura do memorando de entendimento: aquilo que deveria ser o início de uma trégua permanente tem sido interrompido por sucessivas violações de ambos os lados, alternando períodos de acalmia com nova escalada militar. A situação eleva o risco de que o conflito volte a se espalhar por rotas marítimas estratégicas globais — com efeitos diretos sobre o preço da energia em todo o mundo, incluindo o Brasil, que como visto em análises recentes tende a colher parte dos ganhos comerciais dessa instabilidade, ainda que às custas do agravamento humanitário e geopolítico no Oriente Médio.

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A presença militar do EUA no Golfo Pérsico https://www.ocafezinho.com/2026/07/07/a-presenca-militar-do-eua-no-golfo-persico/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/07/a-presenca-militar-do-eua-no-golfo-persico/#respond Tue, 07 Jul 2026 19:06:22 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261384 Por João Claudio Platenik Pitillo

A fracassada “Operação Fúria Épica” reacendeu o debate sobre o valor estratégico das bases militares estadunidenses no Oriente Médio. Durante a guerra, o Irã atacou pelo menos 20 instalações militares estadunidenses em oito países, causando danos significativos e forçando as tropas ianques a se realocarem em hotéis e prédios de escritórios por toda a região. Teerã danificou ou destruiu pelo menos 228 estruturas e equipamentos militares, incluindo hangares, quartéis, aeronaves, depósitos de combustível e sistemas de defesa aérea. A guerra com o Irã ressaltou uma realidade simples, a expansão militar dos EUA no Oriente Médio é contraproducente.

A forte presença militar dos Estados Unidos no Oriente Médio é um fenômeno relativamente recente. Ela foi construída em paralelo com o aumento da relação política da Casa Branca com as monarquias do petróleo, principalmente depois da guerra contra o Iraque. Os níveis de tropas estadunidenses flutuaram ao longo das décadas, mas hoje os EUA mantêm uma média de 40.000 a 45.000 militares em bases conhecidas na Ásia Ocidental.

Os defensores de uma presença estadunidense significativa na região do Golfo Pérsico, geralmente a justificam citando dois interesses-chave de Washington: garantir o fornecimento ininterrupto de petróleo e impedir a ascensão de uma potência hegemônica regional. No entanto, nenhum desses objetivos exige uma presença militar direta dos EUA na região. Foi justamente a “Operação Fúria Épica” que desencadeou o cenário de crise petrolífera mais perigosa dos últimos tempos. Teerã fechou efetivamente o Estreito de Ormuz, interrompendo 20% do fornecimento global. Fazendo fracassar os objetivos primazes do EUA na região.

Mais importante ainda, essa interrupção sem precedentes foi resultado direto da decisão estadunidense de atacar o Irã. Teerã fechou o estreito como último recurso, concluindo que sua sobrevivência estava em risco. No entanto, Washington não estava disposto a arcar com os enormes custos de tentar abrir à força essa via navegável, já que seus interesses não foram diretamente afetados. O EUA partilhou o seu fracasso com o Ocidente Coletivo, transferindo para ele parte do peso de suas consequências.

Seguindo essa “lógica do petróleo”, Washington há muito acredita que o surgimento de uma potência hegemônica regional na Ásia Ocidental poderia criar uma ameaça à segurança em longo prazo. Sendo assim, os argumentos para manter uma presença militar na região baseiam-se na crença de que as tropas estadunidenses são uma força estabilizadora, dissuadindo potenciais agressores. Mas essa afirmação também se mostra falsa.

Não há nenhuma potência hegemônica na Ásia Ocidental até o momento, porque nenhum ator individual possui a influência política, econômica e militar combinada necessária para garantir tal domínio. Isso é uma realidade que independe de os EUA estarem presentes na região ou não. A região é politicamente fragmentada, economicamente dispersa e sua geopolítica dificulta a centralização. Nenhum país da região possui poder militar suficiente para superar essas barreiras e subjugar seus rivais. Assim, a hegemonia regional permanecerá fora do alcance de qualquer Estado da Ásia Central por um bom tempo.

Isso também se aplica ao Irã. A República Islâmica carece de penetração política, de riqueza econômica e da superioridade militar necessárias para hegemonizar a regional. A “Operação Fúria Épica” não alterou essa realidade. Certamente, o Irã demonstrou sua capacidade de resistir à enorme pressão, exercer influência no Estreito de Ormuz e impor custos significativos ao agressor, forçando Washington a mudar de rumo. Mas, a capacidade de resistir à coerção não é o mesmo que a capacidade de dominar a região. Teerã permanece politicamente isolada e sob o peso de restrições econômicas muito duras, impostas pelo Ocidente Coletivo.

O atual conceito militar-estratégico do EUA privilegia o uso da força militar como primeira opção, e não como última. Ao constituir uma rede de bases militares na região do Golfo Pérsico, o EUA eliminou inúmeros problemas logísticos e políticos, que poderiam complicar ou mesmo dificultar as suas ações militares. Tal coisa favorece a política estadunidense de coerção em detrimento da diplomacia. Como resultado, os Estados Unidos frequentemente iniciam ou intervêm diretamente em guerras desnecessárias por toda a Ásia Ocidental se estendendo até o Norte da África. Isso pode ser dito de praticamente todos os principais conflitos recentes na região: Níger, Nigéria, Somália, Líbia, Iêmen, Iraque, Síria, Líbano e Irã.

A extensa e antiga presença militar estadunidense na região do Golfo Pérsico arrasta Washington para conflitos que poderiam ser evitados. Isso limita a flexibilidade estratégica, muitas vezes resultando em uma reação dos Estados Unidos aos eventos à medida que surgem e se desenrolam. Os parceiros de Washington reconhecem isso e frequentemente agem de forma mais arriscada do que agiriam na ausência dos Estados Unidos, confiantes de que o EUA os protegerão das consequências. Os resultados da “Operação Fúria Épica” devem levar a uma reavaliação há muito esperada da presença militar dos EUA na Ásia Ocidental, não só pelos próprios estadunidenses, mas também por aqueles que hospedam essas bases.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

 

 

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Enquanto Flávio Bolsonaro oferece o Pix a Washington, Planalto desenha “mapa do caminho” para blindar o Brasil do tarifaço https://www.ocafezinho.com/2026/07/06/enquanto-flavio-bolsonaro-oferece-o-pix-a-washington-planalto-desenha-mapa-do-caminho-para-blindar-o-brasil-do-tarifaco/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/06/enquanto-flavio-bolsonaro-oferece-o-pix-a-washington-planalto-desenha-mapa-do-caminho-para-blindar-o-brasil-do-tarifaco/#comments Mon, 06 Jul 2026 17:31:18 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261371 12 Comentários 🔥]]> A poucos dias do prazo final para a decisão de Donald Trump sobre a aplicação de uma tarifa de 25% contra produtos brasileiros, o governo Lula (PT) apresentou aos Estados Unidos uma proposta concreta para tentar destravar a negociação: reduzir alíquotas de importação em setores dominados por empresas americanas — como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação — em troca de uma solução diplomática que evite a sobretaxa. É a aposta mais robusta do Planalto até aqui, batizada internamente de “mapa do caminho”.

O que está sobre a mesa

O pacote brasileiro foi desenhado para responder, ponto a ponto, aos seis eixos levantados pela investigação comercial aberta pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da legislação americana — o mesmo instrumento jurídico usado para justificar tarifas retaliatórias em disputas comerciais. As propostas cobrem comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. A ideia é oferecer compromissos concretos o suficiente para permitir aos dois governos avançar para um acordo antes de 15 de julho, quando vence o prazo para a decisão final de Trump.

Há, porém, uma linha que o governo brasileiro se recusa a cruzar: o Pix. O sistema de pagamentos instantâneos foi um dos alvos centrais da investigação americana, que o trata como concorrência desleal contra operadoras de cartão de crédito como Visa e Mastercard. O Planalto já sinalizou que não há espaço de negociação sobre o funcionamento da ferramenta — um ponto que, como se verá adiante, se tornou também o epicentro da crise política doméstica em torno do tema.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, deve ter uma nova rodada de conversas nos próximos dias com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer — o mesmo interlocutor que já vinha negociando diretamente com Brasília. A avaliação interna do governo, no entanto, é de cautela: mesmo com a proposta pronta, setores do Executivo trabalham com a hipótese de que Trump prefira não conceder a Lula uma vitória diplomática justamente num ano eleitoral brasileiro.

O outro lado da mesa: quando o “interlocutor” é também o problema

É aqui que a novela ganha um capítulo à parte — e talvez o mais revelador de todos. Enquanto a diplomacia oficial brasileira tenta fechar um acordo técnico, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, decidiu montar sua própria operação paralela em Washington. Na quinta-feira (2), Flávio protocolou junto ao USTR um documento de 86 páginas pedindo a suspensão imediata do tarifaço e o adiamento de qualquer decisão por 180 dias — prazo que, não por acaso, empurraria a definição para depois das eleições presidenciais de outubro.

O conteúdo do documento é o que transforma o episódio em escândalo, mais do que em manobra diplomática comum. Segundo reportagens que tiveram acesso à íntegra do texto, Flávio se apresenta ao governo americano como “figura proeminente da oposição” brasileira e defende publicamente os interesses das operadoras de cartão de crédito Visa e Mastercard, propondo restrições à expansão do Pix — sistema que ele próprio credita, no documento, à gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, omitindo que o projeto foi concebido e desenvolvido pela equipe técnica do Banco Central antes mesmo de ser lançado, em novembro de 2020.

O senador foi além: anexou ao dossiê comercial um capítulo dedicado ao escândalo do Banco Master, classificando o caso perante autoridades americanas como a maior fraude bancária da história do país — expressão emprestada, ironicamente, do próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. No texto, Flávio cita nominalmente o ex-ministro Guido Mantega, o ex-presidente do STF Ricardo Lewandowski, o líder do governo no Senado Jaques Wagner e o próprio Lula, tentando construir, para um público estrangeiro, uma narrativa que associa o escândalo financeiro à cúpula do Judiciário e do governo federal brasileiros.

A confissão que virou munição para Lula

O ponto mais explosivo do documento, porém, é o argumento central usado por Flávio para justificar o pedido de adiamento: segundo ele, a manutenção das tarifas representaria uma “vitória política” para Lula, e por isso a decisão deveria ser empurrada para depois do pleito. Na prática, é uma admissão pública, feita a um governo estrangeiro, de que o próprio tarifaço — cuja escalada contou com participação ativa de aliados do senador em Washington, incluindo seu irmão Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo — está corroendo sua candidatura e ampliando sua rejeição entre o eleitorado do agronegócio e da indústria.

A reação de Lula veio rápido e dura. Em publicação nas redes sociais, o presidente classificou a postura da família Bolsonaro como submissão aos interesses americanos e chamou o pedido de adiamento de “atitude de traidores da Pátria”. Até aliados do próprio Flávio já reconhecem, em avaliações repassadas à imprensa, que a carta foi um “tiro no pé”: fala para o eleitorado já convertido ao bolsonarismo, mas arrisca afastar setores independentes — justamente o público que uma pré-candidatura presidencial precisa conquistar.

O cálculo eleitoral por trás de cada gesto

O episódio ilustra um padrão que vem se repetindo desde que o tarifaço entrou na pauta: cada lado tenta transformar a decisão americana em capital político para outubro. Auxiliares de Lula já trabalham com o cenário de que, caso as tarifas não sejam aplicadas, Flávio tentará capitalizar o resultado como fruto de sua interlocução pessoal com a Casa Branca — onde já se reuniu com Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Do outro lado, o Planalto aposta em associar o adversário a uma agenda de subserviência externa, num movimento que a colunista Eliane Cantanhêde resumiu como uma aposta do senador em que o critério não é se a medida é boa ou ruim para o Brasil, mas se é boa ou ruim para sua própria candidatura.

Resta saber qual dos dois roteiros vai prevalecer até 15 de julho — e se o “mapa do caminho” desenhado pela diplomacia brasileira será suficiente para evitar que a decisão final de Trump seja lida, em Brasília, como mais um capítulo da disputa presidencial que já começou, na prática, muito antes das urnas.

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O “efeito Flávio”: aliados de Bolsonaro que ajudaram a criar o tarifaço agora dizem que vão depor contra ele em Washington https://www.ocafezinho.com/2026/07/06/o-efeito-flavio-aliados-de-bolsonaro-que-ajudaram-a-criar-o-tarifaco-agora-dizem-que-vao-depor-contra-ele-em-washington/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/06/o-efeito-flavio-aliados-de-bolsonaro-que-ajudaram-a-criar-o-tarifaco-agora-dizem-que-vao-depor-contra-ele-em-washington/#respond Mon, 06 Jul 2026 15:00:06 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261362 Empresários brasileiros que participam nesta segunda e terça-feira (6 e 7) da audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre o tarifaço de 25% contra produtos brasileiros demonstram apreensão com um fator que foge ao seu controle: a presença, na mesma audiência, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do influenciador Paulo Figueiredo. Representantes do setor privado avaliam que declarações dos dois podem politizar ainda mais o debate e dificultar as negociações com o governo de Donald Trump, segundo apurou a coluna Painel, da Folha de S.Paulo.

A ironia no centro do episódio

Há uma camada de ironia que a preocupação dos empresários deixa escapar, mas que o histórico recente do caso escancara: tanto Flávio quanto Figueiredo — que agora se apresentarão à audiência do USTR para defender formalmente a retirada das tarifas — estão entre os principais articuladores da ofensiva que resultou na abertura da própria investigação comercial contra o Brasil. Ao lado do irmão, o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro, o grupo atua desde 2025 em Washington por medidas de pressão contra autoridades brasileiras, incluindo sanções da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal e revogação de vistos — a mesma escalada que desaguou no tarifaço que agora dizem querer reverter.

Paulo Figueiredo, inclusive, vai além do discurso anti-tarifa nesta audiência: segundo apuração da Folha, ele pretende defender publicamente a Trump que a sobretaxa de 25% seja substituída por sanções individuais contra autoridades do Judiciário brasileiro — nomeadamente contra o ministro Alexandre de Moraes, com possibilidade de extensão a outros magistrados do STF.

Um documento de 86 páginas — e um pedido bastante específico

Flávio chegou a Washington neste domingo (5) depois de protocolar, na quinta-feira (2), um documento de 86 páginas ao USTR pedindo a suspensão imediata da tarifa e o adiamento de qualquer decisão por 180 dias — prazo que empurraria a definição para depois das eleições presidenciais brasileiras de outubro. O argumento central do senador, pré-candidato do PL à Presidência, é que a sobretaxa daria ao governo Lula exatamente a vitória política que busca, penalizando ao mesmo tempo a economia americana e brasileiros interessados numa relação comercial equilibrada com os Estados Unidos.

O presidente Lula já rebateu publicamente a movimentação, classificando a postura dos Bolsonaro como entreguista e de submissão aos interesses dos Estados Unidos. O Itamaraty foi na mesma linha, em nota na qual chamou o grupo de “traidores da Pátria” e atribuiu a origem do tarifaço a uma tentativa de interferência externa na Justiça brasileira.

O que está em disputa na audiência

O relatório final da investigação comercial dos EUA — baseada na Seção 301 da legislação americana e que questiona políticas brasileiras que vão do Pix a acordos comerciais, passando por combate à corrupção, proteção de propriedade intelectual e desmatamento — deve ser publicado até 15 de julho. As audiências desta semana, realizadas na Comissão de Comércio Internacional dos EUA e organizadas em 14 painéis, reúnem mais de 80 interessados, incluindo entidades como a Associação Brasileira da Indústria do Arroz, o Conselho dos Exportadores de Café e representantes dos setores de etanol e cana-de-açúcar.

A estratégia desses setores é apresentar às autoridades americanas um argumento essencialmente econômico: o de que a tarifa não resolve disputas comerciais genuínas e ainda pressiona a própria inflação americana, ao encarecer insumos e produtos — do café solúvel ao etanol de milho — dos quais cadeias produtivas dos Estados Unidos dependem. Os empresários também pretendem sinalizar abertura para negociação em áreas como etanol, minerais críticos, segurança energética e propriedade intelectual, como alternativa à manutenção das tarifas.

É nesse ambiente technocrático, construído com meses de articulação e dados setoriais, que a preocupação com o “efeito Flávio” ganha sentido: qualquer desvio do discurso técnico para a disputa político-eleitoral brasileira — que é justamente o terreno em que Flávio e Figueiredo têm atuado desde o início — ameaça turvar, aos olhos do USTR, argumentos que o setor produtivo vem tentando apresentar como pragmáticos e não-partidários.

Um objetivo pouco disfarçado

Segundo apuração da CNN Brasil, o cálculo político por trás da ofensiva de Flávio é duplo: primeiro, impedir a aplicação da tarifa adicional; segundo — e mais relevante para sua pré-campanha —, obter algum reconhecimento público de que a manutenção das tarifas não teria relação com sua própria atuação em Washington, dissociando seu nome do episódio que o next candidato petista já sinaliza explorar eleitoralmente. A ida de Flávio aos EUA em junho, aliás, coincidiu com a própria aplicação das tarifas — o que analistas já classificaram como um desgaste maior do que o benefício político colhido.

O governo brasileiro optou por não se pronunciar formalmente na audiência desta semana: o Ministério das Relações Exteriores decidiu concentrar sua atuação em canais diplomáticos diretos com Washington, mantendo apenas diplomatas da embaixada como observadores das sessões — numa tentativa clara de não emprestar palco institucional a um debate que, cada vez mais, corre o risco de ser sequestrado pela disputa eleitoral brasileira de 2026.

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A trapaça que a Fifa não conseguiu esconder: Trump liga para Infantino, e um cartão vermelho vira pó em pleno mata-mata https://www.ocafezinho.com/2026/07/06/a-trapaca-que-a-fifa-nao-conseguiu-esconder-trump-liga-para-infantino-e-um-cartao-vermelho-vira-po-em-pleno-mata-mata/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/06/a-trapaca-que-a-fifa-nao-conseguiu-esconder-trump-liga-para-infantino-e-um-cartao-vermelho-vira-po-em-pleno-mata-mata/#comments Mon, 06 Jul 2026 13:53:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261357 12 Comentários 🔥]]> A Copa do Mundo de 2026 viveu neste domingo (5) o episódio mais controverso do torneio até aqui — e ele não aconteceu dentro de campo. A Fifa suspendeu, por um período probatório de um ano, a aplicação automática da suspensão de uma partida que o atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, receberia após ser expulso na vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia e Herzegovina. A decisão libera Balogun para enfrentar a Bélgica nesta segunda-feira (6), em Seattle, pelas oitavas de final — e chega depois de o presidente americano, Donald Trump, ter telefonado pessoalmente ao presidente da entidade, Gianni Infantino, para pedir a revisão do caso.

Como o caso chegou à mesa de Trump

Balogun, artilheiro da seleção americana no torneio, foi expulso na quarta-feira (1º) após uma dividida em que pisou no tornozelo do zagueiro bósnio Tarik Muharemović — falta que o árbitro, após revisão do VAR, classificou como grave. Pela regra que vigora desde sempre nas Copas do Mundo, a expulsão geraria suspensão automática, sem direito a recurso, para a partida seguinte.

Foi nesse intervalo que, segundo múltiplas fontes ouvidas por veículos americanos, Trump telefonou a Infantino para entender por que Balogun havia sido expulso e por que isso implicava suspensão. Dias depois, a Fifa anunciou a decisão — a primeira vez, desde 1962, que um cartão vermelho em Copa do Mundo não resulta em suspensão efetiva. A entidade se apoiou no artigo 27 do seu Código Disciplinar, que permite à comissão disciplinar suspender a execução de uma sanção e colocar o atleta em liberdade condicional esportiva por um período predeterminado.

Trump comemorou publicamente o desfecho em sua rede social: “Obrigado à FIFA por fazer a coisa certa e reverter uma grande injustiça!”.

A fúria da Bélgica — e da UEFA

A Federação Real Belga de Futebol classificou a decisão como um retrocesso incompatível com as próprias regras da Fifa. Em nota, a entidade se disse “astonished” — atônita — com a reversão, e argumentou que o artigo 66.4 do Código Disciplinar prevê, de forma inequívoca, suspensão automática para expulsões — regra aplicada sem exceção a todos os outros cartões vermelhos até então distribuídos no torneio. A federação já obteve autorização para recorrer da decisão junto ao Comitê de Apelação da própria Fifa.

A UEFA foi na mesma direção, em tom ainda mais duro. A entidade máxima do futebol europeu classificou a decisão como uma linha vermelha cruzada pela Fifa, e afirmou que a certeza das regras é o que sustenta a credibilidade do esporte. No comunicado, a UEFA also destacou que uma suspensão automática após cartão vermelho não é uma decisão discricionária — não depende de julgamento de qualquer órgão para valer —, e que a mudança de critério no meio do torneio cria um precedente que passa a exigir tratamento igual em casos semelhantes daqui para frente, em prejuízo da competição.

Vozes históricas do futebol inglês também engrossaram o coro de críticas. O ex-atacante Wayne Rooney disse à BBC acreditar que Infantino deveria sentir vergonha do episódio. Já o comentarista e ex-jogador Gary Neville foi direto ao afirmar à ITV Sports que a decisão “absolutely stinks” — algo como “fede”, em tradução livre.

Um padrão que já não é tão novo assim

A Fifa argumenta que o caso não seria inédito: cita a suspensão de dois dos três jogos de gancho aplicados a Cristiano Ronaldo por expulsão em partida qualificatória contra a Irlanda, além de casos de Nicolás Otamendi (Argentina) e Moisés Caicedo (Equador), cujas suspensões por cartão vermelho em eliminatórias também foram adiadas para permitir presença na estreia do torneio. A diferença central, porém, é o momento: nos casos anteriores, a suspensão foi resolvida antes do início da Copa — nunca, até agora, no meio de uma fase eliminatória, sob pressão política direta e pública de um chefe de Estado.

Proximidade que já rendeu prêmios e ingressos

O episódio reacende o escrutínio sobre a relação pessoal entre Trump e Infantino, construída ao longo dos últimos anos. Em dezembro, a Fifa concedeu a Trump o primeiro “Prêmio Fifa da Paz” de sua história, criado pela entidade às vésperas do Mundial. Na cerimônia, Infantino chegou a dizer que o presidente merecia o prêmio pelo que obteve — “ainda que de uma forma incrível”, nas palavras do próprio dirigente — e assegurou que ele poderia sempre contar com seu apoio. Documentos de declaração patrimonial de Trump, tornados públicos na semana passada, revelaram ainda que Infantino lhe presenteou com dez ingressos, avaliados em US$ 15 mil, para a final da Copa do Mundo de Clubes de 2025, em Nova Jersey — partida que o presidente prestigiou ao lado do próprio Infantino, entregando o troféu ao Chelsea, campeão diante do Paris Saint-Germain.

Um assessor de Trump minimizou o peso da intervenção presidencial no resultado, sugerindo que, se o presidente de fato tivesse influenciado a decisão, não hesitaria em fazer alarde público disso — argumento que soa mais como estratégia de blindagem política do que como explicação convincente para uma reversão sem precedentes em mais de sessenta anos de Copas do Mundo.

O que está em jogo, além da partida contra a Bélgica

Independentemente do resultado em campo nesta segunda-feira, o episódio já deixa uma marca difícil de apagar: a de que, pela primeira vez de forma tão explícita, um chefe de Estado interveio diretamente — por telefone, com o próprio presidente da entidade máxima do futebol mundial — para alterar o resultado de uma decisão disciplinar em pleno mata-mata de uma Copa do Mundo sediada em seu próprio país. Para uma competição que se vende como território neutro, regido por regras objetivas e iguais para todos, a imagem que fica é a de um sistema disposto a dobrar suas próprias normas quando o interessado tem o número de telefone certo.

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Irã diz ter criado “cérebro artificial” com neurônios vivos https://www.ocafezinho.com/2026/07/05/ira-diz-ter-criado-cerebro-artificial-com-neuronios-vivos/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/05/ira-diz-ter-criado-cerebro-artificial-com-neuronios-vivos/#comments Mon, 06 Jul 2026 00:41:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261337 12 Comentários 🔥]]> O Irã anunciou ter desenvolvido um protótipo laboratorial de biocomputador — um dispositivo que usa neurônios humanos vivos, cultivados fora do corpo, para formar redes capazes de aprendizagem. O anúncio foi feito pelo secretário do Quartel-General de Desenvolvimento de Ciências e Tecnologias Cognitivas do país, Ataollah Pour-Abbasi, e divulgado pela agência semioficial Mehr News, ligada ao establishment político iraniano.

Segundo Pour-Abbasi, o país já domina a técnica de cultivar essas células nervosas em laboratório, fazendo com que formem sinapses e redes funcionais nos mesmos moldes de um cérebro biológico — a base, segundo ele, para processadores computacionais construídos a partir de tecido cerebral. Ele afirmou que uma empresa de tecnologia iraniana já produziu um protótipo experimental do dispositivo, e apontou como vantagens da tecnologia o ganho de velocidade de processamento e uma redução de consumo de energia que classificou como capaz de chegar a até um milhão de vezes menos do que os chips de silício convencionais.

O que falta no anúncio: verificação independente

Até aqui, o que existe é a palavra de um funcionário do governo iraniano repercutida por uma agência de notícias alinhada ao Estado — não há artigo científico publicado, dados de desempenho, imagens do protótipo em funcionamento ou qualquer validação por pesquisadores fora do país. Isso não significa necessariamente que a alegação seja falsa, mas é uma lacuna relevante num campo em que outros players já publicam resultados verificáveis há alguns anos.

A área é conhecida como computação biológica, ou “inteligência organoide”, e não é uma novidade iraniana: duas empresas concentram a maior parte da atividade comercial e científica visível nesse setor. A australiana Cortical Labs vende o CL1, descrito como o primeiro biocomputador comercialmente disponível do mundo — um sistema que integra centenas de milhares de neurônios humanos cultivados em laboratório sobre um chip de silício, mantendo-os vivos por até seis meses. Em março deste ano, a empresa demonstrou publicamente cerca de 200 mil neurônios humanos aprendendo a jogar Doom.

Já a suíça FinalSpark opera a Neuroplatform, um serviço em nuvem que dá acesso remoto a organoides cerebrais — pequenas esferas de tecido neural com cerca de 10 mil neurônios cada — para que pesquisadores de universidades ao redor do mundo rodem experimentos via API de programação, sem precisar manter um laboratório próprio.

Um campo real, mas ainda em estágio inicial — mesmo para quem lidera

Vale reforçar: mesmo os projetos mais avançados e documentados nessa área, como o da FinalSpark, descrevem a tecnologia como algo em estágio inicial. Uma reportagem publicada em maio pela revista científica Journal of Medical Internet Research descreve o campo como promissor, mas ainda incipiente, com aplicações potenciais que vão do estudo do funcionamento cerebral ao desenvolvimento de medicamentos — mais do que uma alternativa pronta para os data centers de IA atuais.

Nos Estados Unidos, a National Science Foundation já financia pesquisa organizada nesse sentido desde 2024, com um programa de US$ 14 milhões que exige, como contrapartida, a presença obrigatória de um especialista em ética como coautor de cada projeto — sinal de que o próprio campo científico trata a manipulação de tecido neural humano como uma fronteira que exige cautela regulatória, não apenas avanço técnico.

Por que isso importa

O anúncio iraniano se encaixa num padrão observado com frequência em declarações científicas e tecnológicas de regimes sob sanções internacionais — como demonstrações de capacidade tecnológica direcionadas primariamente ao público interno e a parceiros geopolíticos, mais do que à comunidade científica internacional. Isso não deveria ser tratado como veredito automático de que a alegação é inverossímil: o Irã tem, de fato, produção científica relevante em áreas como neurociência e biotecnologia. Mas, na ausência de publicação revisada por pares ou demonstração pública independente, o anúncio deve ser lido como isso que é — uma declaração oficial ainda não verificável —, e não como um marco tecnológico confirmado.

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 A depravação de J.D. Vance, a falência moral do imperialismo e a vitória épica da China https://www.ocafezinho.com/2026/07/04/a-depravacao-de-j-d-vance-a-falencia-moral-do-imperialismo-e-a-vitoria-epica-da-china/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/04/a-depravacao-de-j-d-vance-a-falencia-moral-do-imperialismo-e-a-vitoria-epica-da-china/#comments Sat, 04 Jul 2026 20:56:36 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261329 12 Comentários 🔥]]> “Estou bravo com a ascensão da China, mas o que mais me deixa bravo é que a liderança americana deixou isso acontecer.” A frase é de J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos, em discurso proferido em 23 de maio de 2024, quando ainda era senador, na conferência “A Foreign Policy for the Middle Class”, organizada pelo Quincy Institute e pela revista The American Conservative no Senado americano, em Washington.

O trecho voltou a viralizar nas redes nesta semana porque internautas o reencontraram e, sobretudo, porque Vance é hoje cotado como possível sucessor de Donald Trump nas próximas eleições. E a política americana não mudou nada: segue inteiramente voltada para diminuir os outros países.

A frase é a falência moral do imperialismo americano em estado puro, e o discurso de Vance é a sua expressão mais caricata, porém mais explícita: ele apenas disse em voz alta, sem filtro e sem vergonha, o que gerações de líderes americanos sempre pensaram em silêncio.

Deixou acontecer. Como se a industrialização de um país de 1,4 bilhão de habitantes fosse um erro de despacho de Washington, uma porta que algum burocrata esqueceu de trancar. Como se uma civilização de cinco mil anos estivesse sentada, esperando a permissão dos Estados Unidos para se desenvolver.

Porque o que Vance chama de erro é, na verdade, a maior epopeia econômica da história da humanidade. A China foi sancionada, contida, difamada, tarifada e tecnologicamente estrangulada por Washington durante décadas, e mesmo assim tirou 800 milhões de pessoas da pobreza e se tornou a maior potência industrial do planeta.

Como demoliu ponto por ponto o analista Arnaud Bertrand, a fala de Vance é indefensável sob todos os ângulos: moral, factual, econômico, diplomático e político. Vale percorrer cada um deles.

Moralmente, a frase é repugnante. O que Vance está dizendo, traduzido do juridiquês imperial para o português claro, é que os Estados Unidos deveriam ter mantido um quinto da humanidade na pobreza, porque a miséria alheia era boa para os negócios americanos. E mais: que as lideranças políticas americanas sentem ressentimento quando outros povos prosperam, e ficam bravas quando outros países superam seus próprios problemas.

É uma declaração sociopata, e vinda justamente de um político que adora exibir seus supostos valores cristãos. Vance evidentemente nunca chegou à parte da Bíblia que fala em amar o próximo, e não foi um deslize isolado: já como vice-presidente, no auge da guerra tarifária de Trump, ele chamaria os chineses de “camponeses” dos quais a América toma dinheiro emprestado.

Factualmente, a fala é analfabeta, porque trata os chineses como se não tivessem agência nenhuma. A ascensão chinesa não foi uma concessão americana que poderia ter sido negada: foi uma conquista arrancada do mundo sob bloqueio, cerco e guerra comercial.

E se o desenvolvimento chinês fosse mesmo um presente da política americana de engajamento, por que a Índia não se desenvolveu no mesmo ritmo? A Índia tinha a população, tinha o inglês, tinha acesso anterior à OMC, tinha o selo de “democracia” e décadas de cortejo geopolítico do Ocidente.

Ainda assim, o capital escolheu a China, as fábricas escolheram a China, as cadeias de suprimento escolheram a China. Porque civilização não se constrói bajulando Washington: constrói-se com infraestrutura, disciplina, engenheiros, operários, logística, eletricidade, educação e capacidade estatal.

A verdade suja é que o objetivo do engajamento nunca foi ver a China se tornar uma competidora à altura dos Estados Unidos, e sim usufruir para sempre da mão de obra barata chinesa mantendo o país permanentemente subordinado. Essa política mágica simplesmente não existia: nenhum governo americano, nem os dois de Trump com todo o seu arsenal de tarifas e sanções, conseguiu moldar a China aos interesses de Washington.

No plano econômico, o argumento desmorona com dois números. Em 1980, a China respondia por 2% do PIB global; em 2024, por 17%. No mesmo período, a fatia americana não caiu: subiu de 25,5% para 26,3%.

Ou seja, os Estados Unidos não perderam nada, nem em termos absolutos nem em termos relativos. O país conserva mais de um quarto da produção econômica mundial com apenas 4% da população global, uma fatia desproporcional e francamente injusta, e ainda assim se apresenta ao mundo como vítima.

Diplomaticamente, a fala é um tiro no próprio pé. Ela antagoniza a China, claro, mas manda um recado ainda mais devastador para todos os demais países do mundo que querem se desenvolver, ou seja, praticamente todos: para a América, o jogo é de soma zero, e a prosperidade dos outros é uma derrota americana.

Isso torna a política externa dos Estados Unidos objetivamente mais difícil e complica a vida de cada empresa americana que tenta vender algo no exterior. É difícil conquistar um mercado quando o seu vice-presidente declara que fica “bravo” quando os clientes prosperam.

Por fim, a fala é politicamente estúpida. O bode expiatório é o truque mais velho da política, mas ele só funciona enquanto desvia a culpa de problemas que o próprio governante poderia resolver, e os Estados Unidos passaram desse ponto há muito tempo.

O país manteve sua fatia do bolo global, mas fracassou em distribuí-la internamente. Os ganhos foram açambarcados por uma pequena elite, enquanto o americano comum ficou com os custos insanos de saúde, a infraestrutura em ruínas e os salários estagnados.

Pode-se culpar a China por tudo isso à vontade, mas a conta chega. A vida do povo americano não melhora com o dedo apontado para Pequim, e cedo ou tarde as pessoas param de olhar para onde o dedo aponta e começam a olhar para quem está apontando.

Outro comentário que viralizou junto com o vídeo resumiu o novo momento com precisão cirúrgica: os próximos dez anos da América não serão de competição com a China, porque essa fase já acabou. A América agora compete com a Índia para ver quem decepciona menos o capital, enquanto o verdadeiro adversário da China é a sua própria capacidade de execução, sua própria disciplina, sua capacidade de seguir construindo sem dar ouvidos ao ruído ocidental.

Vance está bravo porque a China ascendeu. Mas o que realmente o humilha é outra coisa: a América tentou impedir com todas as suas forças, e a China ascendeu assim mesmo.

No fim, a fala do vice-presidente é irrecuperável sob qualquer ângulo: moralmente repulsiva, factualmente analfabeta, economicamente errada, diplomaticamente suicida e politicamente burra. O que é, honestamente, um fenômeno impressionante.

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China detalha plano para “Bela China” até 2030 — mas ambição anunciada convive com meta de carbono sem teto fixo https://www.ocafezinho.com/2026/07/04/china-detalha-plano-para-bela-china-ate-2030-mas-ambicao-anunciada-convive-com-meta-de-carbono-sem-teto-fixo/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/04/china-detalha-plano-para-bela-china-ate-2030-mas-ambicao-anunciada-convive-com-meta-de-carbono-sem-teto-fixo/#respond Sat, 04 Jul 2026 17:53:27 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261316 O Conselho de Estado chinês, órgão equivalente ao gabinete ministerial do país, publicou nesta sexta-feira (4) as diretrizes ambientais que vão orientar o 15º Plano Quinquenal (2026-2030), com metas voltadas à qualidade do ar, da água e do solo, à adaptação às mudanças climáticas e ao cumprimento do pico de emissões de carbono dentro do prazo já estabelecido pelo governo chinês: antes de 2030. É o detalhamento operacional de uma meta que Pequim já vinha sinalizando desde o fim de 2025, quando o Partido Comunista aprovou as recomendações gerais do novo ciclo de planejamento nacional.

Sete frentes de ataque, do ar ao lixo industrial

Segundo o texto divulgado, a estratégia se apoia em sete linhas de ação principais: manutenção de “céus azuis, águas claras e terras limpas”, recuperação de ecossistemas, enfrentamento das mudanças climáticas e disseminação de padrões de produção e consumo mais sustentáveis. A isso somam-se projetos de grande porte para controle da poluição do ar, recuperação de ambientes aquáticos e marinhos, tratamento de solos contaminados, gestão de resíduos sólidos industriais e enfrentamento de “novos poluentes” — categoria que inclui substâncias químicas emergentes ainda pouco reguladas.

O documento consolida uma arquitetura que já vinha sendo construída em etapas: ainda em janeiro de 2025, o Conselho de Estado havia aprovado as diretrizes para a criação de zonas-piloto de demonstração da “Bela China”, numa espécie de laboratório para as políticas que agora ganham status de plano nacional.

O que os números dizem — e o que eles não garantem

É aqui que a análise precisa ir além do comunicado oficial. O Plano Quinquenal formalmente aprovado em março estabeleceu 20 metas de desenvolvimento econômico e social para o período, das quais oito são consideradas vinculantes — e cinco delas tratam diretamente de redução de carbono, controle da poluição e proteção ecológica. Entre as metas explícitas está a redução de 17% nas emissões de CO2 por unidade de PIB até 2030, além da construção de um sistema energético limpo, seguro e eficiente.

O ponto que organizações independentes de monitoramento climático têm destacado, no entanto, é que o plano fixa metas de intensidade de carbono — ou seja, emissões relativas ao tamanho da economia —, mas não estabelece um teto vinculante para o volume total de emissões. Na prática, isso significa que o consumo de carvão pode continuar crescendo nos primeiros anos do plano, desde que a intensidade de carbono da economia como um todo caia.

O Climate Action Tracker, consórcio de institutos de pesquisa que monitora as políticas climáticas de diferentes países, mantém a avaliação geral da China como “amplamente insuficiente” frente aos compromissos do Acordo de Paris — mesmo reconhecendo que as emissões do país parecem ter se estabilizado em 2025, muito por causa da rápida expansão das renováveis no setor elétrico.

Contradição real ou gradualismo calculado?

Analistas ligados ao Carbon Brief, veículo britânico especializado em política climática, apontaram que a menção, pela primeira vez em um documento de planejamento de alto nível chinês, ao pico do consumo de carvão e petróleo é um sinal relevante — ainda que sem cronograma definido. Ao mesmo tempo, avaliações associadas à cooperação climática sino-alemã reconhecem que o plano mantém ênfase no “uso limpo e eficiente” do carvão, sem data para o início do declínio de sua produção.

Já vozes mais alinhadas ao discurso oficial de Pequim, como a análise publicada pela agência estatal Xinhua, tratam o plano como consolidação de uma trajetória que a China já apresenta como consenso interno: a de que “desenvolvimento verde é um traço definidor da modernização chinesa” — formulação repetida em praticamente todos os documentos oficiais do período.

O pano de fundo geopolítico

Vale registrar o contexto em que o plano é lançado: a China o apresenta em meio a tensões comerciais com os Estados Unidos e à disputa por protagonismo em tecnologias verdes — setores como veículos elétricos, baterias de lítio e energia solar, nos quais o país já é líder de exportação global. Reforçar a narrativa ambiental cumpre, portanto, dupla função: responde à pressão doméstica por qualidade do ar e da água — pauta sensível para a população urbana chinesa há décadas — e sustenta a imagem internacional da China como parceira confiável na agenda climática, num momento em que Washington recuou de compromissos globais nessa área.

Resta saber se a meta de pico de emissões “dentro do prazo previsto” vai de fato se cumprir antes de 2030, ou se — como alertam analistas independentes — o crescimento da economia chinesa vai adiar, mais uma vez, o momento em que as curvas de emissão finalmente começam a cair.

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IA militar acelera nova corrida armamentista entre EUA e China https://www.ocafezinho.com/2026/07/03/ia-militar-acelera-nova-corrida-armamentista-entre-eua-e-china/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/03/ia-militar-acelera-nova-corrida-armamentista-entre-eua-e-china/#respond Fri, 03 Jul 2026 17:19:53 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261288 A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar protagonista dos conflitos militares do século XXI. O alerta foi feito por Robin Geiss, diretor do Instituto das Nações Unidas para Pesquisa sobre Desarmamento (UNIDIR), que afirmou que a comunidade internacional precisa acelerar o diálogo entre Estados Unidos e China para evitar que a corrida tecnológica avance mais rápido do que a criação de regras globais.

A guerra das máquinas está chegando“, afirmou Geiss durante uma conferência na Universidade Tsinghua, em Pequim. Segundo ele, sistemas autônomos e algoritmos de inteligência artificial já estão transformando profundamente a forma como guerras são planejadas, executadas e decididas, reduzindo o tempo de resposta humana e aumentando o risco de erros estratégicos capazes de provocar conflitos de grandes proporções.

O diagnóstico do dirigente da ONU é preocupante porque ocorre em um momento de crescente rivalidade entre Washington e Pequim. Enquanto as duas maiores potências tecnológicas do planeta investem bilhões de dólares no desenvolvimento de IA militar, as negociações internacionais para estabelecer normas de uso da tecnologia seguem praticamente paralisadas.

Geiss classificou o ambiente geopolítico atual como “perigoso”, citando a combinação entre proliferação de armamentos, tensões entre potências nucleares e a rápida incorporação da inteligência artificial aos sistemas militares. Na avaliação dele, esse cenário aumenta significativamente o risco de erros de cálculo e de escaladas involuntárias em situações de crise.

O impasse regulatório não é novo, mas vem se agravando. Em fevereiro deste ano, durante a conferência Responsible AI in the Military Domain (REAIM), realizada na Espanha, apenas 35 dos 85 países participantes assinaram uma declaração de princípios para o uso responsável da inteligência artificial em aplicações militares. Os dois principais protagonistas da corrida tecnológica — Estados Unidos e China — ficaram de fora do documento, evidenciando a dificuldade de construir consenso justamente entre os países que lideram o desenvolvimento dessas capacidades.

Nos últimos meses, especialistas dos dois lados do Pacífico passaram a defender a criação de canais permanentes de diálogo entre Washington e Pequim para tratar exclusivamente dos riscos da IA militar. A proposta não busca reduzir a competição tecnológica, considerada inevitável, mas estabelecer mecanismos mínimos de comunicação capazes de evitar acidentes, interpretações equivocadas e escaladas involuntárias durante crises internacionais.

O avanço tecnológico torna esse debate cada vez mais urgente. Drones capazes de operar com autonomia crescente, sistemas de reconhecimento de alvos por inteligência artificial, apoio automatizado à tomada de decisões e ferramentas de guerra eletrônica já fazem parte das estratégias militares das principais potências. A próxima etapa envolve sistemas com capacidade de coordenar operações complexas em tempo real, reduzindo drasticamente a participação humana no campo de batalha.

Esse novo paradigma representa uma mudança histórica na forma de conduzir guerras. Assim como a energia nuclear redefiniu o equilíbrio estratégico no século XX, a inteligência artificial desponta como a tecnologia capaz de remodelar o poder militar global nas próximas décadas. A diferença é que sua evolução ocorre em velocidade muito superior, enquanto as regras internacionais permanecem praticamente inexistentes.

Para além da disputa entre Estados Unidos e China, o desafio passa a ser global. Sem mecanismos mínimos de governança, transparência e comunicação entre as grandes potências, a IA pode transformar disputas localizadas em crises de alcance internacional. A advertência feita pela ONU é, portanto, menos uma previsão tecnológica do que um alerta estratégico: a corrida pela inteligência artificial militar já começou, mas o mundo ainda não definiu as regras para evitar que ela saia do controle.

Com informações da SCMP 

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Flávio Bolsonaro arrega e pede aos EUA suspensão de tarifas https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/flavio-bolsonaro-arrega-e-pede-aos-eua-suspensao-de-tarifas/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/flavio-bolsonaro-arrega-e-pede-aos-eua-suspensao-de-tarifas/#respond Thu, 02 Jul 2026 20:40:18 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261257 Com medo da opinião pública, documento enviado pelo Senador à gestão de Donald Trump argumenta que taxação sobre produtos brasileiros pode produzir efeitos contrários

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encaminhou aos Estados Unidos um documento em que pede a suspensão da proposta de aplicação de tarifas sobre produtos brasileiros e defende a abertura imediata de negociações bilaterais.  Segundo a CNN, no texto enviado nesta quarta-feira (1º), o parlamentar sustenta que a manutenção das taxas poderá produzir um efeito político contrário ao pretendido e beneficiar diretamente o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A manifestação ocorre em um momento de tensão comercial entre os dois países, enquanto autoridades norte-americanas analisam a possibilidade de impor uma tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras. Além dos impactos econômicos, o debate também passou a envolver disputas políticas internas, já que diferentes atores apresentam interpretações distintas sobre as consequências da medida.

No documento, Flávio afirma que a continuidade das tarifas fortaleceria o discurso do governo brasileiro e poderia influenciar o ambiente político às vésperas do processo eleitoral. Ao mesmo tempo, o senador argumenta que a decisão também produziria efeitos negativos para empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos.

Enquanto isso, o governo federal mantém sua estratégia diplomática para tentar impedir a adoção das tarifas e sustenta que a medida não atende aos critérios previstos na legislação norte-americana.

No documento encaminhado às autoridades dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro recomenda que a administração do presidente Donald Trump suspenda a proposta de aplicação das tarifas e inicie imediatamente um processo de negociação entre os dois países.

Segundo o parlamentar, essa alternativa permitiria discutir diretamente os temas afetados pela possível taxação, evitando prejuízos econômicos e reduzindo os impactos políticos que, segundo ele, poderiam surgir caso a medida fosse mantida.

Ao justificar sua posição, Flávio afirma que a adoção das tarifas produziria um resultado favorável ao governo brasileiro.

Em sua manifestação, o senador conclui:

“As tarifas propostas proporcionariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem arquitetando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”.

A argumentação apresentada procura demonstrar que os efeitos da medida ultrapassariam o campo comercial e alcançariam também o cenário político brasileiro.

Documento associa tarifas ao cenário eleitoral

Outro ponto destacado pelo senador diz respeito ao momento em que a proposta está sendo discutida.

Segundo Flávio Bolsonaro, os Estados Unidos possuem interesse em evitar medidas econômicas de grande impacto contra uma democracia estrangeira durante o período que antecede uma eleição.

Na avaliação apresentada no documento, a aplicação das tarifas nesse contexto poderia ser interpretada como uma tentativa de interferir no processo político brasileiro.

O senador afirma que essa percepção acabaria alimentando sentimentos contrários aos Estados Unidos dentro do Brasil.

Por isso, ele sugere que qualquer eventual decisão seja adiada para depois da realização da votação.

Ao defender essa alternativa, Flávio argumenta:

“Adiar a implementação até depois da votação impede essa caracterização. Esse interesse é indiferente a qual candidato vença, incluindo a reeleição do atual presidente; ele diz respeito apenas ao momento e à percepção da ação dos EUA e reforça, com base em fundamentos inteiramente internos à política dos EUA, a disposição que a lei já permite”.

Além de defender o adiamento das tarifas, o senador afirma que a proposta acabaria favorecendo justamente aqueles que, segundo sua avaliação, deveriam ser responsabilizados.

No documento enviado ao governo norte-americano, Flávio Bolsonaro sustenta que as “tarifas propostas recompensariam justamente os infratores que deveriam punir”.

Com esse argumento, o parlamentar procura demonstrar que a medida não alcançaria os objetivos pretendidos e acabaria produzindo efeitos políticos considerados contraproducentes.

Ao mesmo tempo, ele reforça a defesa de uma solução baseada na negociação entre os dois governos.

Enquanto Flávio Bolsonaro encaminhava sua posição aos Estados Unidos, o governo brasileiro também apresentou sua defesa formal às autoridades norte-americanas.

Na quarta-feira (1º), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviou manifestação escrita ao Escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR).

O documento integra a fase final do processo que poderá resultar na aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.

A iniciativa representa a resposta oficial do governo brasileiro diante das acusações formuladas durante a investigação conduzida pelas autoridades norte-americanas.

Investigação analisa práticas comerciais brasileiras

O USTR pretende concluir até o dia 15 a investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.

Esse procedimento analisa alegações de práticas consideradas desleais de comércio atribuídas ao Brasil.

Entre os temas citados na investigação aparecem o funcionamento do Pix, questões relacionadas à corrupção, desmatamento e fragilidades na proteção da propriedade intelectual.

A conclusão desse processo poderá definir se as tarifas propostas serão efetivamente aplicadas aos produtos brasileiros.

Enquanto isso, o governo brasileiro tenta convencer as autoridades norte-americanas de que a medida não encontra respaldo nos próprios critérios previstos pela legislação dos Estados Unidos.

Na manifestação enviada ao USTR, o chanceler Mauro Vieira argumenta que a aplicação das tarifas seria inadequada mesmo na hipótese de o órgão manter as conclusões preliminares da investigação.

Segundo o ministro, a própria Seção 301 determina que eventuais medidas adotadas sejam “apropriadas e viáveis” para enfrentar a prática questionada.

Na avaliação apresentada pelo governo brasileiro, a tarifa de 25% não atenderia a esse requisito.

Ao resumir esse entendimento, Mauro Vieira afirma:

“Ainda que o USTR mantenha qualquer uma das conclusões do seu parecer preliminar — o que não deveria fazer —, a punição proposta continuaria sendo inadequada. A legislação americana (Seção 301) autoriza apenas ações ‘apropriadas e viáveis’ para extinguir a prática ou política questionada. A tarifa proposta de 25% sobre produtos brasileiros, ressalvadas algumas exceções, não cumpre esse requisito”.

Além de contestar a legalidade da proposta, o ministro das Relações Exteriores também destaca possíveis consequências econômicas para os próprios Estados Unidos.

Segundo Mauro Vieira, a tarifa não resolveria os problemas apontados durante a investigação e ainda produziria efeitos negativos para empresas norte-americanas.

Em sua manifestação, o chanceler afirma:

“A medida está desconectada do objetivo real, que seria eliminar a conduta questionada, e vai impor custos pesados a empresas americanas sem resolver os problemas apontados”.

Com esse argumento, o governo brasileiro procura demonstrar que a adoção das tarifas geraria prejuízos para ambos os lados da relação comercial.

As manifestações apresentadas por Flávio Bolsonaro e pelo governo Lula revelam abordagens diferentes diante da possibilidade de aplicação das tarifas pelos Estados Unidos. Enquanto o senador concentra seus argumentos nos efeitos políticos e eleitorais que a medida poderia produzir no Brasil, o governo federal enfatiza aspectos jurídicos e econômicos para contestar a proposta.

Apesar das diferenças de enfoque, ambos os documentos defendem que a imposição das tarifas não representa o melhor caminho para solucionar as divergências em discussão. De um lado, Flávio Bolsonaro recomenda a suspensão da medida e a abertura imediata de negociações bilaterais. De outro, Mauro Vieira sustenta que a proposta não atende aos critérios previstos na legislação norte-americana e alerta para os prejuízos que poderá causar às empresas dos próprios Estados Unidos. Enquanto o USTR se prepara para concluir a investigação até o dia 15, as duas manifestações passam a integrar o conjunto de argumentos que antecedem uma decisão com potencial para afetar as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

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Google é derrotada e arcará com multa bilionária ligada ao Android https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/google-e-derrotada-e-arcara-com-multa-bilionaria-ligada-ao-android/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/google-e-derrotada-e-arcara-com-multa-bilionaria-ligada-ao-android/#respond Thu, 02 Jul 2026 18:40:24 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261249 Reguladores entenderam que exigências para uso do Android limitaram a concorrência e ampliaram o domínio da empresa no mercado.

O Google sofreu uma das derrotas judiciais mais importantes de sua história na Europa. O Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu manter a multa de € 4,13 bilhões aplicada contra a empresa por práticas consideradas anticoncorrenciais relacionadas ao sistema operacional Android. Com isso, chega ao fim um dos principais recursos apresentados pela gigante da tecnologia contra uma das maiores sanções já impostas pelo bloco europeu.

A decisão representa um marco na política da União Europeia para limitar o poder das grandes plataformas digitais. Ao confirmar, em grande parte, o entendimento da Comissão Europeia, o tribunal reforçou a posição de Bruxelas de que empresas com enorme domínio de mercado não podem utilizar esse poder para restringir a concorrência ou dificultar a atuação de rivais.

Além do impacto financeiro, o julgamento fortalece a estratégia regulatória europeia voltada ao setor de tecnologia. Nos últimos anos, a União Europeia tem ampliado mecanismos para fiscalizar grandes empresas digitais, especialmente aquelas que concentram parcela significativa do mercado global.

Tribunal mantém entendimento sobre o Android

O recurso analisado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia foi apresentado pelo Google e por sua controladora, a Alphabet. As empresas tentavam reverter a multa aplicada originalmente pela Comissão Europeia em 2018.

Entretanto, os magistrados confirmaram a conclusão já alcançada pelo Tribunal Geral da União Europeia em 2022. Na ocasião, a instância inferior havia mantido a maior parte da decisão da Comissão, reduzindo apenas o valor da penalidade, que passou de € 4,34 bilhões para € 4,13 bilhões.

Agora, o tribunal máximo da União Europeia consolidou esse entendimento e encerrou uma das disputas mais relevantes envolvendo concorrência no mercado digital.

Segundo a decisão, o Google utilizou sua posição dominante no mercado de sistemas operacionais móveis para fortalecer, de forma considerada ilegal pelas autoridades europeias, seu mecanismo de busca.

Pré-instalação obrigatória esteve no centro da disputa

O caso gira em torno das exigências impostas pelo Google aos fabricantes de smartphones que utilizavam o Android.

De acordo com a Comissão Europeia, a empresa condicionava o acesso à loja de aplicativos Play à pré-instalação obrigatória de outros serviços da companhia, entre eles o Google Search e o navegador Chrome.

Na avaliação dos reguladores europeus, essa prática reduzia significativamente o espaço para concorrentes oferecerem alternativas aos consumidores.

O Tribunal de Justiça confirmou esse entendimento ao afirmar que a decisão da Comissão comprovou os “efeitos anticoncorrenciais das condições de pré-instalação estabelecidas pelos acordos do Android”.

Para as autoridades europeias, esse modelo contribuiu para consolidar ainda mais o domínio do Google em diferentes segmentos do mercado digital.

A confirmação da multa também simboliza uma importante vitória política para Bruxelas.

Nos últimos anos, a União Europeia passou a adotar uma postura mais rigorosa diante das maiores empresas de tecnologia do mundo. O objetivo consiste em reduzir práticas que possam limitar a concorrência, ampliar o controle sobre mercados digitais e restringir a liberdade de escolha dos consumidores.

Essa estratégia ganhou força com a criação de novas regras voltadas especificamente às plataformas digitais consideradas dominantes.

Nesse contexto, o caso envolvendo o Android tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos da política europeia de defesa da concorrência.

Ao confirmar a sanção bilionária, o Tribunal de Justiça reforça a legitimidade das medidas adotadas pela Comissão Europeia e fortalece futuras ações regulatórias contra grandes empresas do setor.

Após o julgamento, o Google manifestou discordância em relação ao entendimento adotado pelos magistrados.

A empresa afirmou que a sentença não reconheceu “nosso investimento significativo para garantir que o Android permaneça aberto, interoperável e gratuito”.

Apesar da manifestação pública da companhia, a decisão do tribunal encerra praticamente toda a disputa sobre esse processo específico.

Até a divulgação do julgamento, a Comissão Europeia ainda não havia apresentado comentários sobre o resultado.

Consumidores comemoram resultado

A Organização Europeia dos Consumidores recebeu a decisão de forma positiva.

Para a entidade, o julgamento estabelece um precedente importante para a proteção da concorrência no mercado digital.

Em nota, a organização afirmou que a decisão “envia uma mensagem muito clara: as empresas dominantes não podem usar seu poder para eliminar a concorrência e limitar as opções do consumidor”.

A declaração reforça um dos principais argumentos utilizados por defensores de regras mais rígidas para o setor tecnológico: quanto maior a concorrência, maiores tendem a ser as possibilidades de escolha para usuários e empresas.

Sob essa perspectiva, limitar práticas consideradas anticompetitivas também representa uma forma de estimular inovação e impedir que poucas plataformas concentrem influência excessiva sobre mercados estratégicos.

A multa relacionada ao Android integra um conjunto de três grandes processos movidos pela União Europeia contra o Google entre 2017 e 2019.

Somadas, essas ações reduziram em aproximadamente € 8 bilhões o valor das penalidades aplicadas pelos órgãos reguladores ao longo desse período.

O histórico demonstra que o relacionamento entre Bruxelas e a gigante da tecnologia permanece marcado por sucessivos embates envolvendo concorrência e funcionamento dos mercados digitais.

Cada um desses processos analisou aspectos distintos da atuação da empresa em diferentes segmentos da economia digital.

Embora tenha perdido a disputa relacionada ao Android, o Google obteve resultados diferentes em outros processos conduzidos na Europa.

O principal tribunal da União Europeia já confirmou anteriormente uma multa de € 2,42 bilhões aplicada por favorecer seu próprio serviço de comparação de preços em detrimento de concorrentes.

Por outro lado, a empresa conseguiu reverter outra penalidade.

Em 2024, o Tribunal Geral anulou uma multa de € 1,5 bilhão que havia sido aplicada em 2019 por supostas práticas para bloquear concorrentes no mercado de publicidade online.

Esses resultados mostram que as disputas entre o Google e os reguladores europeus seguem caminhos distintos conforme as evidências apresentadas em cada processo.

Novas investigações continuam em andamento

Mesmo com a conclusão desse julgamento, o Google continua no centro de outras investigações conduzidas pela União Europeia.

Atualmente, autoridades europeias analisam diferentes práticas da empresa com base na Lei dos Mercados Digitais, legislação criada para limitar o poder das maiores plataformas digitais.

Entre os casos em andamento está uma investigação sobre o suposto favorecimento dos próprios serviços do Google nos resultados de pesquisa.

Outro procedimento examina as regras utilizadas na Google Play para direcionar usuários entre diferentes aplicativos.

Essas investigações ainda podem resultar em novas penalidades caso as autoridades concluam que houve descumprimento das normas estabelecidas por Bruxelas.

Além dos aspectos jurídicos e econômicos, as ações da União Europeia contra grandes empresas de tecnologia passaram a integrar um debate político mais amplo.

O avanço das investigações ocorre em meio a tensões entre Bruxelas e Washington sobre a regulação das plataformas digitais.

Nesse cenário, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou as multas aplicadas pela União Europeia contra empresas americanas e classificou essas sanções como “uma forma de tributação”.

As declarações evidenciam que o tema ultrapassa o campo da concorrência econômica. Hoje, ele também faz parte das discussões sobre soberania regulatória, equilíbrio entre mercados digitais e limites do poder exercido pelas grandes empresas de tecnologia. Enquanto a União Europeia amplia sua fiscalização sobre plataformas dominantes, os processos em andamento indicam que o debate sobre concorrência, direitos dos consumidores e concentração econômica continuará ocupando posição central nas relações entre governos e gigantes do setor tecnológico.

Com informações de Financial Times* 

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Polícia diz que piloto de avião em Pequim tinha insônia e ansiedade https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/policia-diz-que-piloto-de-aviao-em-pequim-tinha-insonia-e-ansiedade/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/policia-diz-que-piloto-de-aviao-em-pequim-tinha-insonia-e-ansiedade/#comments Thu, 02 Jul 2026 17:30:59 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261245 As autoridades chinesas divulgaram novos detalhes sobre o acidente aéreo que terminou com a queda de um pequeno avião contra o edifício mais alto de Pequim na semana passada. Segundo a polícia, a piloto da aeronave apresentava um “histórico de insônia crônica e ansiedade” e, além disso, fazia “repetidas referências” ao suicídio em seu diário. As informações constam da declaração oficial mais completa divulgada até agora sobre o caso, que também reacendeu questionamentos sobre a eficiência do rígido sistema de controle do espaço aéreo da capital chinesa.

O episódio provocou forte repercussão dentro e fora da China. Afinal, além da morte da piloto e dos feridos registrados no impacto, o acidente revelou vulnerabilidades em uma das áreas urbanas mais protegidas do país. Ao mesmo tempo, o caso foi cercado por intenso controle da informação. Durante vários dias, autoridades restringiram a circulação de imagens e censuraram debates sobre o acidente nas plataformas digitais.

De acordo com o comunicado divulgado pelo governo municipal de Pequim na quinta-feira, a responsável pelo voo era uma mulher divorciada de 66 anos, identificada apenas pelo sobrenome Liu. As autoridades afirmaram que ela vivia sozinha após o divórcio e enfrentava um longo histórico de insônia e ansiedade.

Além disso, a investigação policial revelou que os agentes encontraram em seu diário “referências repetidas” ao suicídio. Apesar dessa informação, o governo chinês não divulgou o nome completo da piloto.

A divulgação desses detalhes ocorreu depois de vários dias marcados por rumores sobre a identidade da pessoa que conduzia a aeronave. Enquanto isso, diferentes versões circularam nas redes sociais, muitas delas sem confirmação oficial. Em resposta, órgãos estatais ampliaram a censura sobre conteúdos relacionados ao acidente, reduzindo ainda mais a circulação de informações independentes.

Voo começou normalmente antes da mudança de rota

Segundo o relatório oficial, Liu obteve sua primeira licença de piloto em 2021. No dia do acidente, ela decolou de uma pista de pouso particular localizada no distrito de Pinggu, região onde funciona uma escola de aviação.

A aeronave envolvida era um Sunward SA60L, um avião monomotor a hélice com dois lugares e matrícula B-12PP.

Inicialmente, o voo seguia dentro da programação prevista. A piloto participava de uma formação com outras aeronaves. No entanto, durante a operação, ela deixou o grupo para realizar um voo solo.

A partir desse momento, conforme relataram as autoridades, a aeronave desviou da rota planejada. Em seguida, perdeu contato com o aeroporto. Pouco depois, o avião atingiu a Citic Tower, provocando a morte da piloto ainda no local.

Até o momento, o comunicado oficial não apresenta informações adicionais sobre as razões que levaram ao desvio da rota nem esclarece se houve tentativa de restabelecer contato antes da colisão.

O impacto aconteceu contra a Citic Tower, sede de um dos maiores conglomerados financeiros estatais da China. Além da morte da piloto, outras 13 pessoas ficaram feridas.

Segundo a atualização divulgada pela polícia, nenhum dos feridos corre risco de vida. Além disso, uma das vítimas já recebeu alta hospitalar.

Equipes de emergência foram mobilizadas logo após o acidente para atender os feridos e isolar a área. O caso rapidamente ganhou repercussão internacional devido ao local atingido e ao nível de proteção normalmente existente sobre o espaço aéreo da capital chinesa.

Falhas na segurança aérea entram no centro do debate

Embora a investigação sobre as causas do acidente continue, o episódio levantou dúvidas importantes sobre os mecanismos de controle da aviação na China.

O país mantém algumas das regras mais rígidas do mundo para o monitoramento do espaço aéreo, especialmente em Pequim, onde estão concentradas instituições do governo central e importantes empresas estatais.

Nesse contexto, especialistas e observadores passaram a questionar como uma pequena aeronave conseguiu deixar a rota prevista e alcançar uma das regiões mais sensíveis da capital sem ser impedida.

A discussão ganhou ainda mais força porque o acidente ocorreu justamente em um edifício de grande importância econômica e simbólica para o país. Assim, além da investigação sobre a trajetória da aeronave, cresce a pressão por explicações sobre possíveis falhas nos protocolos de vigilância aérea.

Na sexta-feira seguinte ao acidente, o jornal Financial Times visitou o aeródromo de onde o avião havia decolado e confirmou a trajetória inicial da aeronave.

Durante a apuração, repórteres observaram policiais realizando buscas nos escritórios da escola de aviação Eastern Pioneer. Os agentes também inspecionaram um SUV Buick preto que, posteriormente, o jornal identificou como pertencente a uma pessoa chamada Liu Junhua.

Esses fatos alimentaram novas especulações nas redes sociais, especialmente porque o nome Liu Junhua é relativamente comum na China e pode ser utilizado tanto por homens quanto por mulheres.

As especulações online também passaram a associar o nome Liu Junhua a uma funcionária da Citic.

Diante da repercussão, a Citic Wealth, subsidiária do conglomerado financeiro, publicou um vídeo mostrando Liu Junhua apresentando produtos de gestão de patrimônio. Embora a empresa não tenha feito uma declaração direta sobre os rumores, a divulgação do material foi interpretada como uma forma indireta de afastar qualquer associação entre a funcionária e a piloto envolvida no acidente.

O episódio evidencia como a ausência inicial de informações oficiais abriu espaço para versões desencontradas e desinformação nas redes sociais. Ao mesmo tempo, a resposta das autoridades, marcada por forte censura ao debate público, também gerou críticas de observadores que defendem maior transparência em casos de grande interesse público.

Com a divulgação do comunicado policial, parte das dúvidas sobre a identidade da piloto foi esclarecida. Ainda assim, permanecem questionamentos relevantes sobre o funcionamento dos mecanismos de fiscalização do espaço aéreo e sobre as circunstâncias que permitiram que a aeronave alcançasse um dos edifícios mais emblemáticos de Pequim.

Enquanto a investigação prossegue, o acidente continua repercutindo tanto pelos elementos revelados sobre a trajetória da piloto quanto pelas fragilidades expostas em um sistema de segurança considerado um dos mais rigorosos do mundo. Além disso, o controle exercido pelas autoridades sobre a circulação de informações reforça um debate recorrente sobre transparência, acesso a dados públicos e liberdade de informação na China, especialmente quando episódios de grande impacto envolvem instituições estratégicas do Estado.

Com informações de Financial Times*

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IA pode reduzir eficiência dos mercados, diz estudo https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/ia-pode-reduzir-eficiencia-dos-mercados-diz-estudo/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/ia-pode-reduzir-eficiencia-dos-mercados-diz-estudo/#respond Thu, 02 Jul 2026 17:00:16 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261243 Texto do Financial Times discute como a IA barateia a informação, mas também pode destruir sinais essenciais para o funcionamento da economia

A inteligência artificial promete acelerar tarefas, cortar custos e aumentar a produtividade em praticamente todos os setores da economia. Contudo, um artigo recente publicado na coluna Free Lunch, do jornal britânico Financial Times, chama atenção para um efeito colateral pouco discutido: a tecnologia também pode prejudicar o funcionamento dos mercados. Segundo o texto, a maior parte do debate público foca na capacidade da IA de substituir tarefas humanas. Poucos, entretanto, param para pensar em como ela pode transformar — para pior — a própria estrutura das trocas econômicas.

Assim, a coluna propõe um exercício diferente. Em vez de olhar apenas para ganhos de produtividade individual, ela recorre à economia da informação para entender os riscos escondidos por trás da euforia tecnológica.

Por que a economia da informação importa agora

De acordo com o autor, a IA é, antes de tudo, uma tecnologia de informação. Ela reduz drasticamente o custo de coletar, processar e produzir dados. Por isso, entender seus efeitos exige recorrer a um campo específico da economia: o que estuda situações em que compradores e vendedores não têm acesso às mesmas informações.

Esse campo, aliás, já revelou resultados curiosos no passado. Um dos exemplos mais conhecidos é o “mercado de limões”, conceito desenvolvido pelo economista George Akerlof para descrever carros usados de baixa qualidade. Nesse modelo, quando o vendedor sabe mais sobre o produto do que o comprador, o mercado tende a expulsar os bons produtos. Afinal, o comprador, temendo comprar um carro defeituoso, só aceita pagar um preço baixo. Consequentemente, apenas donos de carros ruins aceitam vender, enquanto os donos de bons carros — os “pêssegos” — desistem do negócio.

Nesse cenário específico, a IA realmente ajudaria. Um comprador munido de ferramentas inteligentes poderia inspecionar o veículo com mais precisão, reduzindo a assimetria de informação e permitindo negociações mais justas.

No entanto, o artigo argumenta que nem toda assimetria de informação funciona dessa forma. Em muitos mercados, existe um mecanismo chamado sinalização. Basicamente, quando a incerteza impede uma negociação, um dos lados busca demonstrar qualidade por meio de sinais custosos.

Um diploma universitário, por exemplo, funciona como sinal de competência para empregadores. Isso acontece porque, supostamente, apenas candidatos mais capazes conseguem concluir cursos exigentes. Da mesma forma, uma garantia comercial sinaliza confiança do vendedor na qualidade de seu produto.

Contudo, a IA pode corroer justamente esses sinais. A coluna cita como exemplo o uso crescente de modelos de linguagem por estudantes universitários. Se ferramentas de IA passam a nivelar o desempenho acadêmico de todos os alunos, os diplomas perdem força como indicador confiável de capacidade real.

Por consequência, empregadores enfrentariam mais dificuldade para identificar candidatos verdadeiramente qualificados. Ou seja, o mercado de trabalho se tornaria menos eficiente, não mais.

Excesso de informação também tem custo

Além da sinalização, o artigo destaca outro conceito central da economia: a busca custosa. Em processos de contratação, recrutamento ou até relacionamentos amorosos, as pessoas gastam tempo e esforço avaliando possíveis parceiros ou candidatos. Portanto, cada indivíduo precisa decidir quanto investir nessa busca antes de tomar uma decisão.

Segundo a teoria da busca — área que já rendeu um Prêmio Nobel de Economia —, o comportamento de uma pessoa afeta diretamente o esforço exigido das demais. Se muitos candidatos passam a usar IA para gerar currículos ou candidaturas mais sofisticadas, recrutadores precisam trabalhar ainda mais para filtrar opções relevantes.

Assim, o uso individual da IA pode parecer vantajoso a cada participante isoladamente. Entretanto, quando todos adotam a mesma estratégia, o sistema inteiro se torna mais lento e mais custoso.

Curiosamente, o autor compara esse fenômeno a uma tática contemporânea de propaganda, conhecida como “inundar a área”. Nessa estratégia, o objetivo não é convencer alguém de uma ideia específica, mas sim produzir tantas versões plausíveis de uma história que as pessoas simplesmente desistem de buscar a verdade.

Da mesma forma, quando candidaturas de emprego, perfis de namoro ou trabalhos acadêmicos ficam praticamente indistinguíveis entre si, o excesso de informação passa a prejudicar, em vez de ajudar, quem precisa tomar decisões.

Diante desse cenário, a coluna evita conclusões definitivas. Talvez a própria inteligência artificial ajude a criar novos mecanismos de confiança para substituir os sinais perdidos. Ainda assim, o texto deixa um alerta importante para formuladores de políticas públicas, empresas e universidades.

Reduzir o custo da informação não significa, automaticamente, tornar os mercados mais eficientes. Pelo contrário, ao destruir sinais tradicionais de qualidade e intensificar a competição por atenção, a IA pode gerar mais ruído do que clareza.

Portanto, antes de comemorar apenas os ganhos de produtividade prometidos pela tecnologia, sociedades e governos precisam observar com atenção redobrada como ela reorganiza — e, em alguns casos, desorganiza — o funcionamento real dos mercados.

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Mercado imobiliário afunda https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/mercado-imobiliario-afunda/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/mercado-imobiliario-afunda/#comments Thu, 02 Jul 2026 14:54:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261235 Imagine, por um instante, quem hoje tenta vender uma casa recém-construída. Provavelmente, as reuniões de vendas parecem tiradas direto do cinema: vendedores desanimados ouvindo discursos motivacionais que prometem que “o dinheiro está lá fora” e que a ordem é sempre “fechar o negócio”. O problema, porém, é simples e cruel: e se o dinheiro, de fato, não estiver disponível?

A escalada das taxas de juros dos financiamentos imobiliários, somada à instabilidade econômica global, adiou qualquer esperança de recuperação rápida. Ainda que a economia global não tenha vivido o pior cenário imaginado no início dos conflitos no Oriente Médio — em boa parte graças à redução das importações de petróleo pela China —, o impacto sobre o setor imobiliário já é evidente.

Mesmo depois de um acordo de paz reduzir as expectativas sobre taxas de juros e aliviar um pouco as condições de financiamento, os efeitos negativos ainda reverberam pela economia. Assim, o setor da construção civil se vê obrigado a tomar decisões que já não podem mais esperar.

Setor imobiliário perde otimismo com juros no Brasil

O cenário brasileiro caminha na mesma direção — e a confiança do setor já começa a esfriar. Segundo o InfoMoney, diferentemente do otimismo compartilhado no fim de 2025, o setor de incorporação não sustenta mais a mesma expectativa de queda de juros no Brasil. Esse foi o tom predominante nas declarações de executivos durante o Summit ABRAINC 2026, realizado na última quinta-feira, 25 de junho, em São Paulo.

Logo na abertura do evento, Luiz França, CEO da Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), fez um apelo direto pela redução dos juros, que, segundo ele, permanecem em patamar elevado demais para destravar o setor. Afinal, sem crédito acessível, o sonho da casa própria continua distante para boa parte da população brasileira.

Vale lembrar que, no último Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central decidiu por um terceiro corte seguido na taxa básica de juros, de 0,25 ponto percentual (p.p.), levando a Selic para 14,25% ao ano. Ainda assim, especialistas consideraram a decisão branda diante de uma deterioração da inflação já admitida pelo próprio BC na última Ata do Copom.

Diante desse cenário, o clima entre os executivos mudou visivelmente. “A expectativa de queda que se falava no fim do ano mudou. Hoje se fala em aumento de juros”, afirmou Ricardo Gontijo, CEO da Direcional (DIRR3), durante um painel no evento. Segundo ele, os juros afetam diretamente a produção do setor imobiliário e, ainda mais, o ciclo do cliente, que depende de financiamentos longos para viabilizar a compra do imóvel.

Para o CEO da Direcional, inclusive, os juros atuais devem impactar até a demanda por imóveis de alta renda nos próximos dois anos. “O mercado de alta renda vai sofrer, exceto os compactos. A venda dos apartamentos compactos estão voando, mas isso tem um limite. Ninguém tira dinheiro do banco com essa remuneração de quase 15%”, avaliou.

Por outro lado, fora do programa Minha Casa, Minha Vida — cujas taxas seguem subsidiadas, entre 4% e 8% ao ano —, os juros do financiamento imobiliário no primeiro semestre de 2026 variaram entre 12% e 14%, a depender do banco e do perfil de crédito de cada cliente. Ou seja, quem não se enquadra no programa social sente o peso dos juros de forma ainda mais direta.

Nesse contexto, alguns executivos aproveitaram o evento para refletir sobre as raízes estruturais do problema. “Durante muitos anos a gente era feliz e não sabia. Tínhamos uma poupança cheia de recursos e isso foi minando. As pessoas passaram a compreender melhor o mercado financeiro. Vieram alternativas [de funding] interessantes, como LGI, LCI. Elas ficaram mais fortes. No ano passado o governo ajudou, liberou mais recursos da poupança para o setor, mas isso é finito (…) O mercado financeiro evoluiu demais. Tenho certeza que quando tivermos uma taxa de juros razoável, isso [financiamento do setor] vai voar mais ainda”, disse Alex Veiga, CEO do Grupo Patrimar.

A fala de Veiga, portanto, resume bem o dilema atual do setor: por décadas, o financiamento imobiliário brasileiro dependeu quase exclusivamente dos recursos da poupança, uma fonte que, aos poucos, perde força diante de opções mais rentáveis no mercado financeiro. Sem uma alternativa robusta e permanente de funding, o setor segue refém das decisões de política monetária — e, por consequência, das oscilações da Selic.

O diagnóstico: sem juros mais baixos e sem apoio mais consistente do poder público, dificilmente o mercado imobiliário conseguirá destravar sozinho o acesso à moradia digna.

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Controle de imigração europeu deixa aviões sem passageiros https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/controle-de-imigracao-europeu-deixa-avioes-sem-passageiros/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/controle-de-imigracao-europeu-deixa-avioes-sem-passageiros/#respond Thu, 02 Jul 2026 14:34:13 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261229 Aeroportos e companhias aéreas pedem à Comissão Europeia que suspenda temporariamente as novas verificações biométricas antes que o verão agrave ainda mais os atrasos

A poucas semanas do pico da temporada de viagens na Europa, um alerta grave chegou à mesa de Ursula von der Leyen. Companhias aéreas e aeroportos afirmam que os novos controles de fronteira já provocam filas de até cinco horas, passageiros esperando ao relento e aviões decolando com metade dos assentos vazios. Diante desse cenário, a indústria decidiu agir antes que a situação piore.

Segundo o Financial Times, em carta conjunta enviada à presidente da Comissão Europeia, as associações ACI Europe, Airlines 4 Europe e IATA pediram autorização para suspender as verificações do novo sistema de entrada e saída da UE. Afinal, o verão europeu está prestes a trazer milhões de viajantes extras aos aeroportos da região, o que tende a sobrecarregar ainda mais uma estrutura já fragilizada.

Segundo as entidades, o período trará um “agravamento significativo de uma situação já muito difícil para os passageiros”, a menos que a Comissão permita que os aeroportos deixem de aplicar os controles quando necessário. Após a divulgação da carta, um porta-voz da Comissão informou ao Financial Times que uma reunião com representantes do setor será convocada “nos próximos dias”.

Vale lembrar que o sistema começou a ser implementado gradualmente em outubro do ano passado. Desde então, cidadãos de fora da UE precisam se registrar com impressões digitais e fotografia logo na chegada ao aeroporto de destino. Na prática, porém, a execução tem sido marcada por falhas nas cabines automatizadas e por filas cada vez mais longas, à medida que os aeroportos tentam, sem muito sucesso, absorver o tempo extra de processamento.

Por essa razão, os grupos do setor pediram à Comissão que permita a suspensão completa das verificações “sempre que o volume de passageiros exceder a capacidade operacional das instalações de controlo fronteiriço” durante julho e agosto. Além disso, defenderam que uma flexibilidade permanente seja mantida mesmo depois de setembro, aplicável a “circunstâncias excecionais claramente definidas”.

As consequências, segundo as entidades, já ultrapassam o incômodo momentâneo nas filas. “Alguns viajantes internacionais estão reconsiderando viagens para a Europa devido à possibilidade de atrasos excessivos nas fronteiras”, afirmaram os grupos do setor. “Isso está prejudicando a reputação da Europa, o turismo europeu e a conectividade, em particular.”

Atualmente, as regras concedem aos países certa flexibilidade para dispensar parte das verificações, embora essa margem deva desaparecer gradualmente a partir de setembro. Mesmo assim, “filas excessivas” continuam se formando pelo continente, segundo alerta a própria carta.

Em resposta, a Comissão sustenta que o impacto do novo sistema — considerado essencial para a segurança dos cidadãos — permanece “limitado” na “maioria dos aeroportos da UE”. Ainda assim, o órgão reconhece que vem apoiando os Estados-Membros onde a situação exige atenção adicional.

Para os representantes da indústria, contudo, mudanças estruturais são indispensáveis. Isso porque muitos aeroportos ainda não contam com pessoal suficiente para operar o novo sistema, os quiosques automatizados seguem instáveis e o aplicativo de pré-cadastro, que já chegou atrasado, ainda não foi totalmente implementado.

Passageiros presos em pátios e aviões meio vazios

A carta descreve cenas que, à primeira vista, pareceriam exagero, mas que já se tornaram rotina em diversos aeroportos europeus. “Os passageiros já foram obrigados a fazer fila por longos períodos fora dos terminais e em pátios descobertos porque os centros de controle de fronteiras não conseguem processar as chegadas com rapidez suficiente”, relata o documento.

O impacto, portanto, não recai apenas sobre quem viaja. As companhias aéreas também sentem o peso da lentidão. “As companhias aéreas enfrentam aviões com metade da capacidade ociosa no horário de fechamento dos portões de embarque, enquanto os passageiros ficam presos em filas no controle de fronteiras”, denunciou a carta.

Um porta-voz da ACI confirmou que parte desses voos sofreu atrasos, enquanto outros precisaram partir deixando passageiros para trás. Diante disso, as entidades reforçam que não se trata apenas de uma questão operacional. “A reputação da União Europeia e a confiança no quadro regulamentar estão… em jogo”, dizia a carta do grupo.

O momento do alerta não é aleatório. Trata-se, até agora, do apelo mais contundente da indústria sobre o sistema, divulgado justamente semanas antes da grande onda de turistas que costuma tomar conta da Europa durante o verão.

“Só durante julho e agosto, prevê-se que os aeroportos europeus recebam cerca de 40 milhões de passageiros a mais do que nos dois meses anteriores”, acrescentaram as associações. “A Comissão e os Estados-Membros devem avaliar a realidade da situação atual e os desafios que o nosso sistema de transporte aéreo enfrentará nas próximas semanas.”

Nesse contexto, vale destacar que os Estados Unidos seguem como a maior fonte internacional de viajantes rumo à Europa, seguidos de perto pelo Reino Unido. Ou seja, qualquer desgaste na experiência desses visitantes tende a repercutir diretamente na economia do turismo europeu.

Até o momento, a Comissão Europeia não respondeu diretamente aos questionamentos sobre a carta. Na semana anterior, no entanto, um porta-voz do órgão já havia defendido o funcionamento do sistema. Segundo ele, “o sistema de entrada/saída está totalmente operacional em todos os países Schengen e funciona bem”, e “as regras proporcionam a flexibilidade necessária para garantir a fluidez das fronteiras”.

Além disso, o representante da Comissão minimizou a relação entre os atrasos e o novo mecanismo de controle. De acordo com ele, “na maioria das vezes, os longos tempos de espera não estão relacionados às operações do EES, mas a fatores preexistentes, como falta de pessoal, limitações de infraestrutura, bem como concentração de voos em horários específicos”.

Enquanto Bruxelas mede as palavras, porém, quem enfrenta o problema todos os dias é o passageiro comum: aquele que faz fila por horas sob o sol, tenta embarcar a tempo e, mesmo assim, vê seu voo partir pela metade. Resta saber se a reunião marcada para os próximos dias trará respostas concretas antes que o verão europeu comece de fato a testar os limites do sistema.

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Mísseis e drones russos sufocam a Ucrânia https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/misseis-e-drones-russos-sufocam-a-ucrania/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/misseis-e-drones-russos-sufocam-a-ucrania/#respond Thu, 02 Jul 2026 14:20:18 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261226 Ataque acontece horas depois de Volodymyr Zelenskyy alertar sobre uma ofensiva em larga escala preparada pelo Kremlin, e deixa mortos, feridos e prédios em chamas na capital ucraniana

A capital ucraniana amanheceu sob fogo nesta quinta-feira (2). Durante a madrugada, a Rússia disparou uma sequência intensa de mísseis e drones contra Kyiv e outras cidades do país, poucas horas depois de o presidente Volodymyr Zelenskyy avisar que Moscou preparava um golpe de grandes proporções. O aviso, portanto, não era retórica vazia: tornou-se realidade em questão de horas.

Segundo o Financial Times, logo após a meia-noite, moradores de Kyiv correram para abrigos antiaéreos e estações de metrô. Dezenas de explosões ensurdecedoras ecoaram pela cidade, interrompendo o sono de uma população já acostumada, mas nunca resignada, ao som da guerra. Em seguida, vieram as primeiras informações sobre vítimas.

Pelo menos uma pessoa morreu e outras 11 ficaram feridas na capital, segundo o chefe do governo local, Tymur Tkachenko, e o prefeito Vitali Klitschko. Além disso, edifícios residenciais sofreram danos importantes. O telhado de um hotel no centro da cidade pegou fogo, enquanto os andares superiores de um prédio de apartamentos foram consumidos pelas chamas, deixando moradores presos dentro de suas casas, segundo relatou Klitschko.

Uma base de ambulâncias também foi atingida durante o bombardeio, ferindo vários socorristas — um deles em estado grave. Ainda de acordo com o prefeito, um edifício residencial de nove andares desabou parcialmente após sofrer um impacto direto de míssil.

A Força Aérea Ucraniana confirmou que mais de 20 mísseis balísticos e de cruzeiro atingiram Kyiv apenas nas duas primeiras horas de ataque. Simultaneamente, cidades do leste e do sul do país também relataram bombardeios, o que reforça o caráter coordenado e nacional da ofensiva russa.

Nos últimos meses, a Rússia intensificou a produção de mísseis balísticos e passou a combiná-los com enxames de drones, uma tática que explora diretamente a escassez de sistemas de defesa aérea Patriot na Ucrânia. Isso porque esses sistemas, fabricados nos Estados Unidos, são atualmente as únicas armas do arsenal ucraniano capazes de interceptar mísseis balísticos russos.

Por essa razão, Zelenskyy vem pedindo há meses mais unidades Patriot aos parceiros ocidentais de Kyiv. Contudo, a resposta segue insuficiente diante da escala dos ataques russos, o que expõe uma lacuna preocupante no apoio militar internacional à Ucrânia.

Na quarta-feira, antes mesmo do bombardeio começar, o presidente ucraniano já alertava a população para que “tenham um cuidado redobrado — mantenham-se seguros e protejam suas famílias e filhos — procurem abrigo e fiquem atentos aos alertas de ataques aéreos na Ucrânia”.

Ao concluir sua visita à Irlanda, Zelenskyy foi direto ao apontar a origem da ameaça. “Sabemos que [o presidente russo Vladimir] Putin vem preparando um ataque massivo contra a Ucrânia há algum tempo”, afirmou. “Essa é exatamente a ameaça que enfrentamos esta noite.”

Enquanto isso, a extensão total das vítimas segue incerta. Klitschko e Tkachenko informaram que equipes de emergência atuavam simultaneamente em vários locais da cidade, onde acreditam haver moradores presos dentro de prédios e sob escombros.

Vale lembrar que esse não é um episódio isolado. Duas semanas antes, outro ataque russo contra Kyiv já havia matado pelo menos cinco pessoas e danificado o mosteiro de Kiev-Pechersk, um patrimônio histórico com 950 anos de existência. A repetição desses bombardeios contra a capital sugere, assim, uma estratégia deliberada de pressão sobre a população civil.

Paralelamente aos bombardeios russos, a Ucrânia intensificou sua própria campanha de drones, mirando infraestrutura de petróleo e gás, além de alvos militares dentro da Rússia e na Crimeia ocupada. Na semana passada, Zelenskyy revelou que o país havia lançado “uma operação de influência de 40 dias”, conduzida pelas unidades de ataque de longo alcance de Kyiv, “com o objetivo de forçar [a Rússia] a pôr fim à guerra”.

Essa ofensiva ucraniana, vale destacar, já produz efeitos concretos. Os ataques com drones de longo alcance levaram a guerra para dentro do território russo e provocaram escassez de combustível em diversas regiões do país. Nesta semana, o próprio Putin reconheceu o impacto das ações ucranianas, admitindo que os “ataques às nossas infraestruturas estão a criar problemas”.

Além disso, uma campanha crescente de drones ucranianos de médio alcance também vem afetando a logística militar russa. Depósitos e linhas de suprimento no sul da Ucrânia e na península da Crimeia têm sido alvos frequentes, prejudicando diretamente a capacidade operacional das forças terrestres de Moscou.

Mesmo diante desses reveses, Putin sinalizou que não pretende recuar de seus objetivos maximalistas na guerra. O líder russo insistiu que as forças de Moscou continuarão uma ofensiva terrestre implacável no leste da Ucrânia, apesar das pesadas baixas registradas em combate.

Diante desse cenário, Zelenskyy voltou a criticar duramente a postura do Kremlin na noite de quarta-feira. “O líder da Rússia se recusa terminantemente a pôr fim à guerra”, declarou. “Ele só vê mais agressões contra a Ucrânia, contra outros países vizinhos e contra a Europa como um todo.”

Assim, enquanto Moscou aposta na intensificação dos bombardeios contra civis e Kyiv responde atingindo a infraestrutura russa, a guerra entra em uma nova fase de desgaste mútuo. No entanto, quem paga o preço mais alto, mais uma vez, são os moradores de Kyiv que passaram a madrugada entre explosões, abrigos lotados e a incerteza sobre quem ainda estaria soterrado sob os escombros.

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