Ideologia - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/ideologia/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Mon, 09 Feb 2026 12:04:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Ideologia - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/ideologia/ 32 32 Boulos critica esquerda “purista” e defende política ancorada na vida real do povo https://www.ocafezinho.com/2026/02/09/boulos-critica-esquerda-purista-e-defende-politica-ancorada-na-vida-real-do-povo/ https://www.ocafezinho.com/2026/02/09/boulos-critica-esquerda-purista-e-defende-politica-ancorada-na-vida-real-do-povo/#comments Mon, 09 Feb 2026 12:04:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=225623 1 Comentário 🔥]]>

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, responsável pela articulação do governo com os movimentos sociais, fez um duro desabafo contra setores da esquerda que, segundo ele, preferem “lacrar na internet” a disputar transformações concretas na vida do povo.

A fala foi feita em entrevista recente ao podcast Três Irmãos e ganhou repercussão por expor, de forma direta, uma tensão interna histórica da esquerda brasileira: o conflito entre o purismo ideológico e a política feita a partir das condições reais da sociedade.

Boulos partiu do debate sobre a proposta do governo Lula de acabar com o regime de trabalho 6×1, por meio de um projeto de lei enviado com regime de urgência ao Congresso.

“Sabe o que o Lula vai fazer no Carnaval? Vai botar um projeto de lei com regime de urgência pelo fim do 6×1. Sabe o que isso significa? Projeto de lei com regime de urgência mandado pelo Presidente da República, o Congresso é obrigado a votar em 60 dias, se não tranca a pauta.”

Ele explicou que a proposta estabelece jornada máxima de cinco dias de trabalho por dois de descanso, limite de 40 horas semanais e sem redução salarial.

“Então vai ter que votar 6×1. Máximo de jornada de 5×2, máximo de 40 horas semanais, sem redução de salário.”

Para o ministro, trata-se de uma disputa concreta, que exige mobilização social para pressionar o Legislativo, inclusive enfrentando o empresariado.

“Aí, bicho, nós temos que fazer o que a gente tem condição de fazer, nós estamos fazendo. Inclusive vai precisar da mobilização social para ajudar a pressionar no Congresso.”

Boulos criticou duramente a reação de setores da esquerda que classificam a proposta como insuficiente por não avançar diretamente para um regime 4×3 ou para jornadas ainda menores.

“Aí você ainda vê gente dizendo: ‘Pô, mas então isso é uma traição do governo Lula’. O Lula comprando briga com a CNI, com a CNA, com tudo. ‘Porque tinha que ser o máximo de 4×3 e de 36 horas.’”

Em tom irônico, ele reagiu ao que chamou de purismo desconectado da realidade.

“Aí você olha e fala: ‘Jesus, dai-me luz, Jesus!’”

Segundo o ministro, esse tipo de postura ignora as contradições reais da política e da vida social.

“Fazer política significa enfrentar a contradição e partir da realidade.”

Ele então passou a formular uma crítica mais ampla ao que chamou de um setor “academicista ou lacrador” da esquerda.

“É uma turma que se comporta como se fosse uma consciência crítica da esquerda, um superego da esquerda. O trabalho principal é você ficar falando o que a esquerda não faz, onde a esquerda erra — a esquerda real, a esquerda popular, a esquerda que disputa de verdade.”

Para Boulos, trata-se de uma militância que fala apenas para convertidos, sem capacidade de mobilização social.

“Só que só prega para convertido. É uma vanguarda muito aguerrida, só que sem nenhuma retaguarda. É o general sem exército. Não tem ninguém atrás dele. Não bota 10 pessoas na rua, não convence o vizinho das suas posições.”

Ele afirmou que esse comportamento se sustenta justamente porque não precisa lidar com as dificuldades concretas da vida popular.

“Sabe por quê? Porque não precisa lidar com a vida real.”

Na avaliação do ministro, a política real exige negociação e a recusa do tudo ou nada.

“Na vida real não dá para você ser purista e falar: ‘é tudo ou nada!’”

Boulos argumentou que essa postura acaba abandonando a disputa da consciência dos trabalhadores reais, citando um exemplo eleitoral.

“A manicure lá da Cidade Tiradentes que falou: ‘não vou votar no Boulos não, porque o Boulos é radical demais. Ele defende só pobre, eu não sou pobre’.”

O ministro também defendeu a pluralidade interna da esquerda, mas com diferenças colocadas de forma honesta, e não caricatural.

“A esquerda não tem pensamento único e nem deve ter.”

Ao falar de sua experiência no movimento social, Boulos recorreu a um exemplo concreto de quando organizava ocupações de moradia.

“Quando eu organizava ocupação de terra improdutiva pelo MTST, se eu chegasse na assembleia com 5 mil pessoas que estavam pagando aluguel sem poder ou numa área de risco e dissesse: ‘Ou é socialismo e a desapropriação da especulação imobiliária ou é nada’, eu ia ser linchado.”

Segundo ele, a prática cotidiana exigia negociação em múltiplas frentes.

“A gente tinha que negociar com o proprietário para não ter despejo, a gente tinha que negociar prazo na justiça, a gente tinha que negociar com o governo, às vezes de direita, para poder sair um bolsa-aluguel, para poder sair uma moradia.”

Para Boulos, esse é o divisor entre a política real e o discurso performático.

“Essa é a vida real de quem trabalha com o povo. Não é a vida de quem está propagando e dizendo ‘eu sou o mais revolucionário do mundo e todo mundo está traindo’. Falar isso, bicho, até papagaio fala.”

O ministro concluiu defendendo a construção de uma esquerda com capacidade real de disputar poder, mobilizar o povo e derrotar a extrema direita.

“A questão é quem constrói uma esquerda real que tem capacidade de disputar e derrotar a extrema direita em eleição.”

Ele ainda destacou a atuação internacional do presidente Lula como exemplo de política concreta e efetiva.

“O que o Lula está fazendo na geopolítica mundial… foi o único cara que bateu de frente com o Trump.”

Segundo Boulos, ignorar a correlação de forças, o peso do centrão no Congresso e a consciência real do povo é se refugiar em uma “lista de desejos”, incapaz de produzir mudanças efetivas.

https://twitter.com/ocafezinho/status/2020829917072764961

Aqui o link para assistir a entrevista completa:

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https://www.ocafezinho.com/2026/02/09/boulos-critica-esquerda-purista-e-defende-politica-ancorada-na-vida-real-do-povo/feed/ 1
A supercorreção anti-woke já deu no saco https://www.ocafezinho.com/2025/02/22/a-supercorrecao-anti-woke-ja-deu-no-saco/ Sat, 22 Feb 2025 08:10:27 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=202294 O problema com fanáticos, conspiracionistas, monomaníacos e excêntricos é que, a princípio, parecem razoáveis. Poucos começam uma conversa com sua opinião mais extrema. A tática é estabelecer um terreno comum primeiro, como um vendedor que faz o cliente dizer “sim” para algumas perguntas iniciais. Só então o fanatismo se infiltra, e, nesse ponto, torna-se constrangedor discordar. Assim, preso em uma conversa em uma festa, posso acabar passando por algo assim:

Excêntrico: Esse prefeito é um desastre.
Pobre Janan: Pois é, complicado.
E: Vive mudando o nome de ruas pra agradar militância.
PJ: É tipo, amigo, só foca em resolver o trânsito.
E: Mas, né, já era de se esperar.
PJ: Como assim?
E: Ora, você sabe que ele é um fantoche da elite globalista, né?
PJ: Ah…

À medida que a conversa fica mais absurda, eu me limito a murmúrios genéricos (“Mmm!”) em vez de responder com palavras.

Agora imagine essa tática do anzol e da isca em escala nacional, e você tem o movimento anti-woke. Até pouco tempo atrás, os conservadores apresentavam um argumento com o qual muitos eleitores concordavam: que o woke é um dogma iliberal, e que os próprios liberais eram fracos demais para enfrentá-lo.

Agora, depois de vencer essa batalha, esse discurso está escorregando para um absolutismo da liberdade de expressão, patrulhamento do patriotismo alheio e uma obsessão com cultura que não encontra tanto interesse no público. Leia o discurso de JD Vance em Munique. Ou o de Kemi Badenoch em Londres logo depois, no qual essa aspirante de 45 anos ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido começou com uma frase (“A civilização ocidental está em crise”) que poderia muito bem ser o tema de um debate universitário.

O público quer que o woke suma, não uma conversa interminável sobre o assunto.

Como alguém que identificou o auge do movimento woke cedo, e não ficou triste ao vê-lo desaparecer, digo o seguinte: o público quer que o woke suma. Mas isso não significa que queira ser submetido a uma conversa interminável sobre o tema. E certamente nunca aprovou o extremo oposto desse movimento, que é o conservadorismo cultural. A direita está exagerando na dose.

Como prova da crise ocidental, Badenoch destacou uma pesquisa que mostrou que os jovens britânicos demonstram pouco amor pelo próprio país. (Sobre a Rússia, no entanto, ela passou apenas uma frase, o que já deveria ser suficiente para questionar sua seriedade.) Mesmo se o discurso não se contradissesse — nossa civilização é “incrível”, mas também tão frágil que não pode sobreviver a uma geração de jovens mal-humorados — por que ela está gastando tempo falando essas besteiras? O que um governo do Reino Unido pode fazer sobre o destino da civilização? Eu não sei qual é o plano econômico dela, mas estou cada vez mais informado sobre sua angústia cultural. Se isso já é Hegel demais para mim, imagine para o eleitorado.

Uma das vantagens de envelhecer é que a vida começa a se revelar reconfortantemente cíclica. Quando você vive sua terceira recessão, já não se empolga tanto com o próximo boom. No esporte, até um Manchester United ou um Arsenal conquista títulos em rajadas e depois passa décadas em declínio, porque a soberba leva a decisões ruins. O velho ditado sobre a história chinesa (“o império, há muito dividido, deve se unir; há muito unido, deve se dividir”) tem um apelo universal, porque essa lógica de ciclos se aplica a muitas coisas. Uma safra ruim de Bordeaux é um bom indicador de que uma excelente virá em breve.

A política talvez seja o melhor exemplo. A opinião pública é muitas vezes “termostática”, ou seja, começa a pender para a direita assim que um governo de esquerda é eleito, e vice-versa. Foi isso que gerou o auge do woke após a chegada de Donald Trump ao poder. Se isso é instabilidade ou prudência, não sei, mas nos dá uma ideia de como os próximos anos vão se desenrolar.

Tendo rejeitado o woke, os eleitores vão se tornar cada vez mais protetores de outras conquistas liberais. Os conservadores, interpretando isso de forma errada e intoxicados com sua própria vitória, acabarão assustando as pessoas. Não dá para prever exatamente qual será o excesso fatal da direita — o equivalente conservador do Defund the Police — mas alguma forçação de barra desastrosa vem aí. Essas pessoas simplesmente não sabem aceitar um “sim” como resposta. É impressionante que defensores tão apaixonados da cultura ocidental ignorem um dos seus princípios fundamentais, inscrito no Templo de Apolo como um alerta eterno: “Nada em excesso.”

Por Janan Ganesh
Publicado no Financial Times em 22 de fevereiro de 2025.

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Por que não faz sentido chamar Hitler de comunista https://www.ocafezinho.com/2025/01/13/por-que-nao-faz-sentido-chamar-hitler-de-comunista/ https://www.ocafezinho.com/2025/01/13/por-que-nao-faz-sentido-chamar-hitler-de-comunista/#comments Mon, 13 Jan 2025 20:08:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=200385 1 Comentário 🔥]]> Candidata da sigla ultradireitista alemã AfD afirmou em conversa com o bilionário Elon Musk que ditador nazista não era “de direita”, e sim um “socialista, comunista” – algo que historiadores refutam veementemente.

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, e Alice Weidel, candidata do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) a chefe de governo da terceira maior economia do mundo, se posicionaram sobre diversos temas em um bate-papo transmitido via X nesta quinta-feira (09/01).

Embora a tentativa de reinterpretar e distorcer fatos históricos sobre o nazismo não seja novidade, uma alegação de Weidel em particular causou perplexidade entre historiadores: a de que Adolf Hitler não seria “de direita”, e sim um “socialista, comunista”.

O que Weidel disse

“[Os nazistas] estatizaram toda a indústria. […] O maior sucesso após essa era terrível da nossa história foi ter caracterizado Adolf Hitler como de direita e conservador. Era exatamente o oposto. Ele não era conservador. Ele era esse cara socialista, comunista”. Após a conversa com Musk, Weidel insistiu na afirmação em entrevista à emissora de TV alemã ntv: “Eu não recuo [do que disse]: Adolf Hitler era um esquerdista.”

O bilionário Elon Musk, dono do X, não refutou a alegação falsa de Alice Weidel (foto) sobre Hitler | Kay Nietfeld/REUTERS

Não, Hitler não era um esquerdista

A alegação de Weidel não só não tem base na realidade como minimiza os horrores do nazismo praticados sob a liderança de Hitler entre 1933 e 1945.

A AfD tem vários diretórios estaduais monitorados de perto por serviços de inteligência por suspeita de atividades inconstitucionais. O partido refuta associação com o nazismo e reage às acusações frequentes de que abriga neonazistas. Foi o que fez Weidel em conversa com Musk, ao alegar falsamente que Hitler seria um “esquerdista”.

Foi também o que fez recentemente o vice-presidente eleito dos Estados Unidos, JD Vance, ao afirmar que a AfD seria mais bem votada em regiões da Alemanha onde houve mais resistência aos nazistas – o que também não é verdade, como mostrou a DW em outro artigo.

Hitler também não era comunista

O historiador alemão Thomas Sandkühler classificou a fala de Alice Weidel sobre a orientação política de Hitler de “estupidez”. “O que Weidel fala é pura estupidez, que eu não quero valorizar ao discuti-la seriamente”, respondeu ele à DW antes de dar a entrevista por encerrada.

Também o historiador e especialista em nazismo Michael Wildt se refere à fala como uma “grande besteira”. “Hitler combateu o marxismo desde o início da forma mais brutal e violenta, e as primeiras vítimas a serem trancafiadas em 1933 nos campos de concentração eram esquerdistas, comunistas, social-democratas, socialistas”, observa.

E se politicamente ele não tolerava a esquerda, economicamente também não era diferente. “O NSDAP [sigla do partido nazista] não mexeu na concentração de propriedade privada”, ressalta.

“Principalmente do ponto de vista econômico Hitler não era comunista”, concorda Thomas Weber, historiador e autor do livro Tornando-se Hitler: A construção de um nazista.

“O comunismo tem como objetivos, do ponto de vista econômico: a) A superação da propriedade privada; b) A superação de uma economia voltada para o lucro; e c) A coletivização [leia-se, estatização] dos meios de produção [mineradoras e fábricas, por exemplo] e dos recursos naturais mais importantes.” E Hitler, como lembra Weber, rejeitava tudo isso.

Hitler permitiu que muitos empresários enriquecessem na Alemanha à custa de trabalho escravo desempenhado por pessoas que o regime nazista desprezava; na foto, prisioneiros do campo de concentração em Dachau fabricam armas para a guerra | picture-alliance/dpa

Ainda assim, porém, muitos internautas parecem acreditar ou endossar a afirmação de Weidel sobre Hitler ser de esquerda.

Hitler era um antissemita e racista

Hitler também não pode ser classificado como comunista “porque ele era um antissemita e racista”, afirma o historiador Wildt. “E isso não tem nada a ver com a ideia de uma sociedade comunista em que as pessoas são iguais, é exatamente o contrário disso.”

O nazismo não surgiu durante a ditadura de Hitler, e sim após a Primeira Guerra Mundial, tornando-se cada vez mais popular à medida em que a Alemanha caminhava rumo à Segunda Guerra.

“O nazismo era extremamente nacionalista, antidemocrático, antipluralista, antissemita, racista, imperialista e anticomunista”, define a Central para Educação Cívica do estado de Brandemburgo, na Alemanha. O órgão ressalta ainda que a exclusão de minorias com base em critérios racistas teve importância central para o nazismo até o Holocausto.

O “nacional-socialismo” não era socialismo?

Para muitos nazistas, algumas ideias do socialismo e termos como “socialista” e “partido dos trabalhadores” foram úteis para atrair votos da classe operária e chegar ao poder em 1933.

A própria sigla do partido nazista, NSDAP, deriva de Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, que pode ser traduzido como Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores.

Vem daí a abreviação nazi, usada na Alemanha para designar apoiadores dessa ideologia (o Nationalsozialismus), e é desta abreviação que deriva a palavra nazismo, a denominação consagrada da ideologia na língua portuguesa.

Na prática, porém, o direito social e trabalhista instituído pelos nazistas após a tomada de poder serviu para reprimir, perseguir e assassinar comunistas, social-democratas e sindicalistas.

O historiador Weber frisa: “O principal ponto aqui é que da perspectiva de Hitler e de muitos nazistas, o ‘socialismo’ no nome do partido não era uma palavra vazia ou um truque, e sim algo que definia como Hitler via a si mesmo e como ele queria mudar o mundo. Ele sempre ressaltou isso.”

Quando surgiu, o partido nazista tinha uma autointitulada ala socialista, que foi desmantelada em 1933, após os nazistas ascenderem ao topo do poder. Gregor Strasser, liderança dessa ala, foi executado a mando de Hitler junto com outros correligionários em junho de 1934.

Cinco anos antes da guerra, ainda em 1934, Adolf Hitler mandou matar Gregor Strassner (à dir.), líder de ala do partido nazista que defendia ideias socialistas (mas só para a classe trabalhadora da raça ariana) | Design Pics/picture alliance

O grupo de Strasser, segundo Wildt, queria um socialismo excludente, que beneficiasse apenas e somente a classe trabalhadora alemã, sendo tão racista e antissemita quanto o resto do NSDAP.

É por isso que há muito tempo há consenso entre a maioria dos historiadores de que não é possível equiparar o nazismo ao socialismo – mas é exatamente isso que muitas pessoas tentam fazer por razões políticas, observa Weber.

“Essa questão geralmente é discutida de forma muito limitada, à la ‘Hitler era de esquerda ou de direita?’. E aí ou a direita tenta apresentar Hitler como um socialista ou esquerdista clássico – o que não faz sentido –, ou tentam reduzir o uso do termo ‘socialismo’ por Hitler e pelos nazistas a uma tática eleitoral. Isso também não faz sentido, porque desconsidera como Hitler e os nazistas se autodefiniam, como viam o mundo e como tentaram mudá-lo.”

Publicado originalmente pelo DW em 10/01/2025

Por Kathrin Wesolowski e Tetyana Klug

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As análises estão erradas https://www.ocafezinho.com/2024/10/08/as-analises-estao-erradas/ https://www.ocafezinho.com/2024/10/08/as-analises-estao-erradas/#comments Tue, 08 Oct 2024 10:37:22 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=194319 8 Comentários 🔥]]> Não, o Brasil não é de direita. As eleições municipais não são ideológicas.

Tenho visto análises totalmente equivocadas, ou no mínimo exageradas, sobre as eleições municipais. É o problema do senso comum e do clichê, que arrastam os analistas para opiniões mais baseadas em movimentos de manada do que numa avaliação ponderada sobre questões complexas.

O senso comum decretou: a direita venceu as eleições municipais; a esquerda foi derrotada; o Brasil é de direita. 

Desculpe, mas isso não faz sentido.

Há dois anos, Lula venceu as eleições no Brasil. Foi a terceira vitória de Lula numa eleição presidencial, e a quinta vitória do PT. Uma eleição presidencial é muito mais ideológica do que uma eleição municipal. 

Eleição municipal é muito mais guiada por outras variáveis políticas do que pela dicotomia direita X esquerda. 

E após a vitória do PT pela quinta vez consecutiva ninguém saiu ecoando que “o Brasil é de esquerda”, ou que a “direita foi derrotada”. Porque também o voto para presidente, mesmo sendo mais ideológico, não define necessariamente a ideologia do eleitor.

O sujeito que vota num candidato a prefeito de centro-direita ou mesmo de direita não segue, necessariamente, a ideologia daquele candidato. As razões do voto são inúmeras, e a ideologia é uma delas, mas provavelmente está num dos últimos lugares.

E por que tantas análises sobre a “derrota da esquerda”, “vitória das direitas” e que “o Brasil é de direita”? Ora, é simples. Se as eleições municipais não são ideológicas, a interpretação de seu significado certamente é. A direita quer impor a narrativa de que ela é vitoriosa nos pleitos locais e que o Brasil é de direita, porque isso lhe ajuda a produzir uma atmosfera política hostil ao governo Lula.

No caso da esquerda, ela tem uma personalidade crítica que lhe é inerente. A esquerda sempre estará insatisfeita, justamente por ser de esquerda e estarmos num país profundamente desigual. Não faria sentido que a esquerda brasileira ficasse satisfeita com o país que temos ou com o resultado das urnas. Ela quer muito mais, e tem razão. Só que essa ansiedade, somada ao desejo do intelectual de esquerda, ou do jornalista, um pouco ingênuo, de provar independência, acaba produzindo um viés equivocado. 

Quanto à cultura política do brasileiro, como podemos defini-la? O brasileiro é de direita? 

Vamos repetir a pergunta, para respondê-la sob diferentes perspectivas: as eleições municipais deste ano sinalizaram uma derrota da esquerda e indicam que o brasileiro é conservador? 

Minha resposta, reitero, é não.

Claro que temos milhões de brasileiros que se identificam muito claramente como conservadores e de direita. Mas temos outros que não se consideram assim. E temos ainda uma maioria que não se identifica com nenhum lado. Isso sem contar com aqueles que estão equivocados sobre a própria ideologia: identificam-se como de direita ou de esquerda, mas não o são propriamente.

Há várias pesquisas que mostram essa confusão. Que é uma confusão comum, até porque a linha demarcatória que separa direita e esquerda não é tão clara como desejariam alguns ideólogos, jornalistas e “analistas”.

A maioria esmagadora dos brasileiros, segundo inúmeras pesquisas, defende uma saúde pública e gratuita, o que é uma posição de esquerda. A maioria também defende que o governo intervenha na economia em favor do emprego e do desenvolvimento, o que é igualmente uma posição de esquerda.

No Brasil, ainda temos uma característica muito peculiar da direita, que é a sua hostilidade em relação às vacinas, uma posição que lhe deixou claramente em minoria na opinião pública.

Apenas esses elementos serviriam para afastar este senso comum de que o brasileiro é “de direita”.

Pior ainda é dizer que “o Brasil é de direita”, como se o Brasil fosse uma pessoa…

Quem votou em Eduardo Paes, do PSD, e não em Tarcísio Motta, do PSOL, é uma pessoa de direita? Não. Um eleitor de baixa renda, da periferia de São Paulo, que vota em Eduardo Nunes, do MDB, é uma pessoa de direita? Não necessariamente.

Então, quem venceu as eleições municipais: direita ou esquerda? Nenhum dos dois, ou pelo menos a resposta deveria ser um pouco mais sofisticada. Vejamos um exemplo.

No Ceará, o PT foi o partido que mais elegeu prefeitos, seguido do PSB. Isso quer dizer que o Ceará é de esquerda, ou que o “Ceará profundo” é de esquerda? Não. O PT ganhou porque as articulações políticas dos candidatos do PT e do PSB foram mais bem costuradas, ou simplesmente porque os candidatos apresentaram propostas mais convincentes, ou ainda porque fizeram campanhas mais sedutoras. Mas não necessariamente porque os cearenses são de esquerda.

Admito, porém, que temos hoje algumas regiões do país extremamente ideologizadas, como Santa Catarina. Muita gente nesses estados foi mobilizada eleitoralmente a votar num candidato por ele ser “de direita”. Não esqueçamos, todavia, que a mesma Santa Catarina foi o estado que mais deu votos, proporcionalmente, ao presidente Lula em 2002. Lula teve 57% em Santa Catarina no primeiro turno! Isso significava que fosse um estado “de esquerda”? Mudou assim radicalmente da esquerda para a direita?

Aliás, repare nesse mapa eleitoral do Brasil, referente às eleições de 2002, todo avermelhado. Ele reflete um país “de esquerda”? Não creio que as opiniões dos brasileiros em 2002 fossem tão à esquerda daquelas que têm hoje. Possivelmente, o contrário é mais verdadeiro. Tínhamos um Brasil mais conservador em 2002 do que hoje.

Por outro lado, está claro que a esquerda, ou o que entendemos por esquerda, tem um “problema de imagem”, e que muitos setores da política exploram isso para mobilizar o voto “antiesquerda”.

Mas isso é muito antigo, e provavelmente remonta a milhares de anos, quando os primeiros plebeus romanos começaram a se organizar para a lutar contra os patrícios, que controlavam o poder local há séculos. 

A esquerda carrega, em sua essência, o DNA antissistema, e essa é sua maior virtude, mas também o seu maior problema. 

Por exemplo, apesar de toda presepada de setores extremistas da direita sobre serem “antissistema”, quem é verdadeiramente antissistema no Brasil é somente e exclusivamente a esquerda, sobretudo sua ala mais radical. E tanto é antissistema que paga um alto preço por sê-lo. É perseguida, marginalizada, combatida, pelo próprio sistema.

Quem é antissistema? Uma liderança de trabalhadores sem terra, ou sem-teto, ou um filhinho de papai de classe média alta que acha que ser antissistema é vomitar preconceito nas redes sociais e falar mal de vacina?

Quem é antissistema, quem defende o imperialismo americano, ou quem defende um mundo mutipolar, e a emergência das nações outrora oprimidas e colonizadas do Sul Global?

O Brasil hoje está mais consciente dos problemas agudos de educação, saúde e mobilidade urbana do que antes. E por isso, a meu ver, está mais à esquerda do que antes.

E por que, então, ainda tem tanta gente que vota na direita? Aí entra uma outra interpretação filosófica que considero fundamental para evitarmos esses erros analíticos, como o que vimos nessas últimas 48 horas.

Ser de direita não é uma identificação biológica, como ser branco, pardo ou preto. Tampouco é uma identificação de gênero ou sexual. A ideologia de uma pessoa é um conjunto dinâmico e complexo de ideias, que varia enormemente no tempo, a depender de uma gama imensa de fatores psicológicos, sociais e históricos.

Ansiar por um Estado eficiente na captura e isolamento dos criminosos, mesmo que isso signifique colocar de lado algumas preocupações com direitos humanos, por exemplo, não é, pelo menos não do ponto de vista histórico ou mesmo geopolítico, uma posição de direita. Caso contrário, a China comunista seria de direita. A União Soviética também seria de direita.

A questão das drogas também é emblemática. Onde há mais permissividade para o uso de drogas, nos direitistas Estados Unidos, ou na esquerdista China? Nos EUA, as cidades estão tomadas por cracolândias, a maconha já é legalizada em quase todo o país, e o americano é, de longe, o maior consumidor médio de drogas do mundo. A China está do lado exatamente oposto. É um dos países com menor consumo médio de drogas do mundo.

Para finalizar, queria arrostar, desde logo, a percepção de que eu não estaria sendo “crítico” o suficiente dos erros da esquerda, referindo-se tanto aos erros no debate político quanto aos erros eleitorais. É uma das características mais nobres da esquerda, esse orgulho de ser crítica de si mesma, o que muitas vezes a leva a ser também pessimista.

Só que aí eu vejo também um perigo. O pessimismo, já dizia Gramsci, é importante apenas quando se limita à razão, sem que interfira na necessidade de mantermos nosso otimismo e assertividade na ação. 

O pessimismo, quando interfere na ação, acaba derivando, sem que a pessoa perceba, para um caminho reacionário. Interessa ao capitalismo que a pessoa de esquerda seja um pessimista desesperançado, porque isso a deixa inofensiva.

Tudo que o capitalismo quer é vender a ideia de que ele oferece um regime democrático, mas ele apenas suporta a democracia se os seus elementos rebeldes, ou esquerdistas, estiverem devidamente domesticados. E o pessimismo e a desesperança são instrumentos muito eficientes para domesticar ou castrar politicamente o cidadão rebelde.

Em suma, eu também quero ser um crítico da esquerda. Também acho que a esquerda vem cometendo muitos erros, e alguns deles bastante perigosos, e que podem nos levar a terríveis derrotas eleitorais no futuro próximo.

Entre esses erros, porém, eu incluo também esse pessimismo militante, estéril, assim como um estado de espírito rancoroso, sectário, disposto a hostilizar ou mesmo a linchar qualquer um que não esteja inteiramente vestido com os trajes retóricos adequados. Isso eu acho um erro grave da esquerda, ou da parte mais visível dela, a militância de rede social, que é o sectarismo e a agressividade.

Há muitos anos que eu combato essa cultura, que reputo nociva à esquerda, à democracia, ao debate, e que consiste no principal alimento da direita. Essa esquerda tem a mania de empurrar para a direita qualquer pessoa, qualquer ideia, qualquer projeto, que não esteja rigorosamente pintado com as cores partidárias ou corporativas corretas. 

Quanto ao brasileiro ser conservador, aí também temos uma confusão. O Brasil é um país com uma história de escravidão, desigualdade profunda, subdesenvolvimento e exploração ultracapitalista. Todas as estruturas políticas, sociais e culturais do país foram construídas pela direita. Por isso é tão ridículo, a propósito, que a extrema direita se arvore como “antissistema”. Ela não é antissistema. Ela é profundamente sistema.

A esquerda, por sua vez, vem lutando, há décadas, para não dizer séculos, para promover ideais democráticos em nosso país, o que incluiria reformas profundas no próprio “sistema”. Ou seja, mudando a educação, a cultura e a comunicação. É uma luta que se renova a cada geração, cheia de altos e baixos.

Seria cruel e injusto com o povo brasileiro, portanto, defini-lo como conservador, sem considerar que ele é a principal vítima de um sistema terrível de opressão, que desde muito tempo também opera no âmbito da cultura e das ideias, escravizando-o tanto espiritual como fisicamente. 

O brasileiro não é conservador. Ele é explorado, espezinhado, humilhado e mantido prisioneiro no cárcere da ignorância e da pobreza. E isso como um projeto de país, como dizia Darcy Ribeiro. E a vítima não é apenas o pobre. A classe média também sucumbe a essas estruturas ideológicas construídas pelo grande capital. Não devemos esquecer que, num país pobre, inseguro, instável, não é apenas a falta de recursos que escraviza o povo, mas igualmente o medo de perdê-los. 

A principal bandeira da esquerda brasileira, portanto, deve ser ajudar o povo a emancipar a si mesmo, e por isso deve tomar muito cuidado para não repetir as ladainhas da elite predadora sobre o “Brasil ser de direita”.

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Rodrigo Perez: os dilemas da esquerda https://www.ocafezinho.com/2024/06/10/rodrigo-perez-os-dilemas-da-esquerda/ https://www.ocafezinho.com/2024/06/10/rodrigo-perez-os-dilemas-da-esquerda/#comments Tue, 11 Jun 2024 01:43:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=185161 2 Comentários 🔥]]>

As eleições para o parlamento europeu realizadas no último dia 09 sinalizam para aquilo que qualquer observador minimamente atento á cena política contemporânea já percebeu faz tempo: a força da nova extrema direita não é nuvem passageira. Veio para ficar no ecossistema político-ideológico mundial e nada indica que essa situação mudará no curto prazo.

Os reveses eleitorais de Trump nos EUA, em 2020, e de Bolsonaro no Brasil, em 2022, não significam que as forças democráticas conseguiram recuperar o terreno perdido. O próprio Trump é favorito para as eleições estadunidenses neste ano de 2024. Milei venceu na Argentina. O bolsonarismo continua forte no Brasil. Agora, partidos de extrema direita passam a controlar 11% do parlamento europeu, numa contundente derrota para os governos francês e alemão. Olaf Scholz e Emmanuel Macron estão em maus lençóis, assim como Biden nos EUA e Lula no Brasil. A única exceção parece ser o México, onde López Obrador elegeu com facilidade sua sucessora, Cláudia Sheinbaun. Precisamos, urgentemente, estudar o México com mais atenção.

Apesar de ser um fenômeno mundial, essa nova extrema direita assume feições específicas em cada país. Neste texto, quero mirar o caso brasileiro, apontando aqueles que me parecer ser os principais dilemas das esquerdas nacionais. Quero jogar luz sobre os gargalos, sobre aquilo que precisa ser resolvido no curto prazo, se não quisermos ver a derrota de Lula em 2026, em exercício de mandato e no controle da máquina. Sem dúvida, seria a maior derrota já imposta à democracia brasileira, pior até que o golpe de 1964.

Alguns desses dilemas também se aplicam às esquerdas de outros países. Deixo claro quando for o caso. Então, vamos lá, por partes:

1) A dificuldade em apresentar um projeto próprio para a sociedade, e isso acontece também em outros locais do mundo. Cada vez mais, a polarização não se dá entre “direita” e “esquerda”, nos sentidos convencionais cristalizados desde o século XVIII. A disputa, hoje, é travada entre uma extrema direita ideologicamente estruturada em valores claros e um campo democrático ampliado, difuso e fundado no consenso mínimo de que a democracia liberal representativa deve ser conservada. Dentro dessa coligação ampla estão as esquerdas, precisando conviver com as contradições impostas pela “frente ampla”, para usar um termo bastante acionado no Brasil durante as eleições de 2022. Portanto, o governo do presidente Lula, tal como o governo de Pedro Sánchez na Espanha, não são governos de esquerda. São governos de frente ampla, o que naturalmente impõe limites políticos que frustram as expectativas nutridas pelas bases sociais organicamente de esquerda. Lidar com essa frustração não é algo fácil.

2) O atual momento da história da acumulação capitalista impossibilita os acordos de classe que viabilizaram a versão brasileira da social-democracia, exatamente com o reformismo petista entre 2003 e 2016. O pacto gerenciado pelo presidente Lula consistia, basicamente, em não alterar as estruturas do capitalismo periférico brasileiro e utilizar o Estado para garantir direitos sociais básicos para uma massa de miseráveis que foram transformados em pobres.

Transformar o miserável em pobre. Esse foi o grande feito do reformismo petista, mas também é o seu limite. Uma vez transformado em pobre, o sujeito quer ser classe média, quer consumir mais, quer comer, morar e vestir melhor. Esses desejos são ainda mais excitados pela internet, que nos bombardeia todos os dias com propagandas direcionadas. É impossível atender a essas expectativas sem enfrentar as estruturas do capitalismo. O acordo que por mais de uma década sustentou o reformismo petista, portanto, não é mais possível. Sob a liderança do ministro Fernando Haddad, a esquerda brasileira está tentando liderar um movimento mundial em defesa da taxação das grandes fortunas. Hoje, não existe agenda política mais importante que essa. Disso, depende a sobrevivência da democracia e daquilo que costumamos chamar de “civilização”.

3) A comunicação digital está vocacionada para a simplificação. Na internet, viraliza aquilo que é escrito com poucos toques, que causa efeito conclusivo. É a tal da “lacração”. Por outro lado, a vocação das esquerdas sempre foi a complexificação da realidade. Vejam, por exemplo, o debate sobre segurança pública. O populista de extrema-direita diz “bandido bom é bandido morto”. Essa simplificação grotesca de uma realidade complexa é muito mais compatível com a linguagem digital, sem contar a manipulação dos algoritmos. É muito difícil enfrentar a nova extrema-direita neste espaço virtual. Por isso, é fundamental a regulação da internet pelo Estado nacional democrático, e isso vale apara todas as democracias ocidentais.

4) A dificuldade em desenvolver um discurso eficiente para a segurança pública, e aqui estamos no terreno do principal drama da esquerda brasileira, o calcanhar de Aquiles. A esquerda insiste em um garantismo ingênuo que não tem a menor credibilidade junto à população, principalmente com as populações periféricas. É fundamental a formulação de um discurso para a segurança pública que consiga reivindicar as ideias de “lei” e “ordem”. A dupla Flavio Dino/Ricardo Capelli conseguiu fazer isso no período em que esteve no comando do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, quando o governo do presidente Lula apresentou os melhores índices de aprovação popular. Hoje, ninguém ocupa esse espaço.

5) No mundo inteiro, a esquerda contemporânea está fundada no paradigma da diversidade, ou no “identitarismo”, se quisermos adotar vocabulário menos polido. Trata-se de olhar para a sociedade e buscar as diferenças, a diversidade, o que inviabiliza o desenvolvimento de uma abordagem política que seja capaz de afetar a totalidade das pessoas, ou pelo menos as maiorias numéricas. A esquerda abandonou completamente as pretensões universalistas. É urgente o esforço de pensar a sociedade a partir daquilo que aproxima as pessoas, daquilo que elas têm em comum. As agendas da moradia, do meio ambiente, da saúde pública e do trabalhado parecem ser promissoras.

6) A esquerda contemporânea abandonou as utopias, não é mais capaz de produzir uma imaginação política encantada pela promessa de um futuro melhor para TODAS as pessoas. A politização do tempo está acontecendo em outros termos: mirando o passado, com a agenda da reparação histórica. O afeto político provocado não é o da esperança, mas sim o do ressentimento. Fora das bolhas de militantes iniciados, o ressentimento não encanta, não mobiliza, não seduz. Soa antipático e cansativo.

7) No Brasil, a esquerda colide com absolutamente todos os consensos sociais. Aborto, políticas de gênero e outras pautas ligadas ao comportamento. Sem entrar no mérito dessas agendas, é fato que são rejeitadas pela maiora da população. Como a democracia de massa é majoritária por premissa, têm o direito de governar apenas aqueles que conquistaram o apoio da maioria. Como conquistar esse apoio enfrentando todos os valores e consensos estabelecidos?

Enfim, são muitos os dilemas e as respostas não são claras. Tampouco há consenso sobre o que deve ser feito. Enquanto isso, a sensação que fica é que estamos todos marchando para o abismo civilizatório, com o relogío da barbárie em contagem regressiva,

10, 9, 8..

Tempo é tudo o que não temos.

Por Rodrigo Perez, professor e pesquisador de História na UFBA.

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A PM não pode sair de pauta https://www.ocafezinho.com/2021/05/29/a-pm-nao-pode-sair-de-pauta/ https://www.ocafezinho.com/2021/05/29/a-pm-nao-pode-sair-de-pauta/#comments Sat, 29 May 2021 18:04:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=124725 11 Comentários 🔥]]> São chocantes as imagens da ação da PM de Pernambuco na manifestação contra Jair Bolsonaro, hoje. Acompanhei a transmissão ao vivo da Mídia Ninja e as cenas são brutais: manifestantes absolutamente pacíficos sendo perseguidos e encurralados sob tiros e bombas. Vi duas deputadas do PSOL tentaram se aproximar dos policiais para dialogar; eles simplesmente entraram na sua caminhonete e bateram em retirada, cantando pneu.

Uma vereadora do PT também tentou conversar com os PMs, que responderam com um jato de spray de pimenta diretamente no rosto da parlamentar:

Há relatos de que a polícia sequer está deixando as pessoas voltarem pra suas casas, depois da dispersão: continuam atirando balas de borracha, soltando bombas de gás e prendendo pessoas.

Tudo isso é chocante, porém não surpreendente.

É evidente que o governador Paulo Câmara, do PSB, precisa ser responsabilizado. Mas o buraco é mais embaixo.

Não há margem para qualquer dúvida razoável sobre a discrepância nos procedimentos da PM (de todos os estados) em manifestações da direita e da esquerda. Há uma evidente orientação ideológica da polícia quando sua atuação é quase sempre no sentido de amedrontar, dispersar, prender e abater militantes de esquerda. Quando a direita vai às ruas o clima é, em geral, de condescendência e até camaradagem.

Outro vídeo que está circulando com força nas redes foi gravado ontem em uma cidade de Goiás. Dois policiais militares abordam um jovem negro (que apenas fazia manobras em sua bicicleta) de forma violenta e doentia, sem motivo algum. Tudo foi filmado pelo celular do jovem:

https://twitter.com/oblogdobiel/status/1398399799314026500

Eis aí um exemplo escarrado de outra face macabra da atuação da PM: seu viés explicitamente racista, peça chave na manutenção do apartheid silencioso que vigora no Brasil.

A PM é uma instituição violenta, truculenta, autoritária e que age ideologicamente, desequilibrando o jogo democrático e mesmo a luta de classes. E isso não é de hoje.

E o que podemos fazer para mudar o quadro?

Os governadores dos estados têm o comando formal da PM, mas a uniformidade de seus procedimentos por todo o país e as características da instiuição – especialmente o fato de ser uma polícia militar – indicam que não basta a necessária resposabilização do governante da vez.

Quando o braço armado do Estado age sistematicamente contra os movimentos sociais, os partidos e militantes de esquerda, contra a população negra e pobre, é preciso um enfrentamento mais amplo e profundo do problema.

Propostas como a desmilitarização da polícia militar e outros projetos que a tornem mais transparente, politicamente neutra e menos truculenta precisam ter proridade na pauta dos partidos de esquerda e de seus líderes políticos. Não basta esbravejar nos dias em que a PM mostra seus dentes. É preciso agir consequentemente construindo seminários, debates públicos, apresentando projetos de lei, pautando o tema, enfim.

Se as manifestações de rua dos movimentos democráticos, que parecem ter voltado com força hoje por todo o país, tiverem os atores institucionais ligados à esquerda como aliados permanentes, o caminho para um futuro em que a polícia não aja na base do tiro, porrada e bomba (contra os de sempre) fica mais curto.

P.S.: Quando acabava de redigir este post vi a notícia de que a vice-governadora de Pernambuco Luciana Santos (PCdoB) declarou o seguinte em seu Instagram:

“A ação da PM contra manifestantes não foi autorizada pelo governo do Estado. Nós estamos ao lado da democracia. Os atos de violência, que repudiamos desde já, estão sendo apurados e terão consequências. #ForaBolsonaro”

Que haja consequências!

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O PDT é de direita? https://www.ocafezinho.com/2020/11/17/o-pdt-e-de-direita/ https://www.ocafezinho.com/2020/11/17/o-pdt-e-de-direita/#comments Tue, 17 Nov 2020 18:22:49 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=117085 57 Comentários 🔥]]> A virulência com que alguns militantes e eleitores de esquerda estão tentando empurrar – mais uma vez – o PDT para a direita no espectro político me fez refletir.

E se o PDT for mesmo um partido de direita? E se o Ciro Gomes for um expoente do conservadorismo nacional? Se assim for, minha capacidade de análise está realmente prejudicada e peço que as leitoras desconsiderem minhas colunas aqui no Cafezinho dos últimos 4 anos e pouco – ou seja, todas.

Talvez o critério para definir se alguém é de esquerda é o purismo. Quem se alia com a direita não é de esquerda. Parece um bom critério – ao menos é simples e prático.

Sob esse critério, é forçoso reconhecer que o PDT não é um partido de esquerda, pois faz alianças com a direita. Contudo, o PT também faz alianças com a direita. E o PT é considerado um partido de esquerda por muitos dos que vociferam contra Ciro e o PDT.

O PSOL, este sim seria um partido de esquerda. Puro e imaculado. Mas o PSOL está bastante próximo do PT. Muitos militantes do PSOL consideram que o PT está à esquerda do PDT. E o PT faz aliança com a direita. Governou o país com a direita. Por esse critério, portanto, é um partido de direita. E, nesse caso, o PSOL também é de direita, porque faz aliança com partido de direita.

Ficou confuso. Melhor tentar outro critério.

Política econômica, quem sabe? É o que define, afinal, para onde vão os recursos do país, para os grandes ou para os pequenos, para os especuladores ou para os trabalhadores.

O PSOL é de esquerda, sem dúvidas. Vamos comparar o PT com o PDT, então.

Lula, o líder máximo do PT, adotou políticas econômicas neoliberais em boa parte do seu governo. Ciro Gomes, líder máximo do PDT, se engalfinha com liberais em debates religiosamente, há mais de 20 anos.

Lula se orgulha, em seus discursos, de que os bancos nunca ganharam tanto dinheiro nesse país quanto nos seus governos. Henrique Meirelles, um banqueiro conservador, foi presidente do Banco Central nos oito anos do seu governo. Dilma Rousseff nomeou um cara do Bradesco para o Ministério da Fazenda após se reeleger em 2014. Ciro Gomes bate na especulação financeira religiosamente, há mais de 20 anos.

Dilma vetou a auditoria da dívida pública no auge das movimentações pelo impeachment, em seu segundo mandato. A auditoria havia sido milagrosamente aprovada pelo Congresso Nacional. Ciro bate no gasto de metade do orçamento nacional com a dívida pública religiosamente, há mais de 20 anos.

Curioso. Esse critério é importante, mas ainda assim o PT parece figurar à esquerda no imaginário de uma parcela dos militantes e eleitores.

Talvez seja a estética, então. O PT usa mais a cor vermelha que o PDT…

Ou, quem sabe, o comportamento do partido imediatamente após o 1º turno das eleições seja o critério supremo para a averiguação ideológica.

Não subiu no palanque do PT no 2º turno? Direita. “Mas transferiu os votos e…” Não interessa. Direita. Demorou mais de doze horas para definir o apoio a apoio a uma candidatura do campo progressista? Direita. “Mas e a reciprocidade no apoio em outras cidades e…” Não interessa. Direita.

Sei lá, viu. Acho que o cara do Bradesco na Fazenda pesa mais…

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Comentários sobre a idolatria ao Véio da Havan https://www.ocafezinho.com/2020/10/20/comentarios-sobre-a-idolatria-ao-veio-da-havan/ https://www.ocafezinho.com/2020/10/20/comentarios-sobre-a-idolatria-ao-veio-da-havan/#comments Tue, 20 Oct 2020 20:41:07 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=115823 42 Comentários 🔥]]> O que explica a elevação de Luciano Hang ao patamar de popstar? Esta é a pergunta que surgiu em muitas confusas e desorientadas mentes (incluindo a minha) após os recentes episódios em que o famigerado Véio da Havan é aclamado pelo público ao inaugurar (mais) lojas. Em Belém, uma chocante aglomeração repetia, em ritmo de torcida de futebol, “Havan! Belém!” enquanto esperava a abertura da loja. (O momento em que o Véio surge  batendo alucinadamente com as mãos espalmadas nas paredes de vidro da loja é positivamente perturbador.)

Um primeiro ponto a ser apontado é o esquisitíssimo patriotismo que exalta as cores verde e amarelo enquanto coloca réplicas da Estátua da Liberdade na frente das suas lojas. É a versão empresarial do patriotismo de Jair Bolsonaro, que professa seu amor à pátria enquanto bate continência, literal e figurativamente, para Trump ou seus subordinados. Como estamos ainda imersos na onda bolsonarista, é natural que um dos mais midiáticos de seus cabos eleitorais arregimente um séquito próprio de seguidores.

Mas esta ainda é uma explicação superficial. Analisemos o vídeo a seguir, postado recentemente no canal de Luciano Hang no YouTube:

O vídeo começa com imagens externas e internas da loja. A trilha sonora é o grito “Ô Luciano, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!”, acompanhado de um piano pseudoapoteótico. Em seguida é reproduzido um trecho de uma fala de Hang:

Dinheiro pra mim não tem valor. O que me importa é o que eu consigo fazer com dinheiro. O que importa numa pessoa é a bondade. É a generosidade que cada um pode fazer. E eu só posso ser cada vez mais generoso quanto mais dinheiro eu tenho, porque eu vou distribuir toda a minha fortuna em empregos.

De saída, salta aos olhos a falta de coerência lógica na fala “distribuir toda a minha fortuna em empregos”. O emprego é uma relação em que uma das partes vende sua força de trabalho em troca de uma remuneração. É um contrato, portanto. No caso de um megaempresário como Luciano Hang, é um contrato muito mais vantajoso para ele do que para o empregado, pois este fica com uma parte infinitesimal dos ganhos financeiros obtidos pelo seu patrão. Assim, a ideia de que Hang seria “generoso” por empregar pessoas é apenas idiota.

E “distribuir a fortuna em empregos” é uma impossibilidade: ou você distribui sua fortuna ou faz contratos de emprego. A não ser que você distribua a fortuna pagando salários exorbitantes aos seus funcionários, o que, ao que consta, não é o caso da Havan – e não, os funcionários da Havan não estão pulando e gritando de alegria (minuto 0:38 do vídeo) por conta dos seus supersalários.

A ideologia dominante e os empresários “bondosos”

Apesar de não fazer sentido, a lógica de que os empresários devem ser aclamados por “criarem empregos” é martelada há algum tempo na cabeça das pessoas por jornalistas, políticos, influenciadores, por meio de todas as mídias possíveis. Diante disso, não surpreende que a bazófia do Véio surta efeito.

Se você visitar a página de Luciano Hang no Instagram, com 3,3 milhões de seguidores, verá, em cada post, muitos comentários louvando-o e felicitando-o por criar empregos. Talvez o Véio da Havan seja a expressão máxima, o crème de la crème da narrativa que atribui à bondade dos empresários o fato de existirem empregos – como se os empresários não precisassem dos trabalhadores para que suas empresas gerem lucro. É curioso que muitos trabalhadores não se deem conta disso, mas esta é a vantagem da ideologia dominante: ser dominante.

Há que se considerar ainda o crescimento do número de pequenos empresários na população – em abril deste ano o número de microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 10 milhões. Estas pessoas são, naturalmente, propensas a comprar o discurso do empresário generoso, e certamente muitos dos que idolatram Luciano Hang pertencem a esta parcela de cidadãos que tenta ganhar a vida tocando pequenos negócios.

O eixo do debate

A vitória comunicacional da direita se deve, em boa medida, ao eixo do debate. Convenientemente se coloca a disputa entre Estado e iniciativa privada como fulcral para os destinos das nações e do planeta. No entanto, qualquer estudo econômico sério aponta para a centralidade de outra disputa neste momento de crise aguda do capitalismo: capital produtivo x capital especulativo.

A especulação financeira, o dinheiro fictício gerando mais dinheiro fictício, vem se tornando cada vez mais insustentável para a economia global, visto que suga o dinheiro que deveria ir para quem trabalha ou investe em produção. Não é que faltem recursos, o problema é que os recursos são apropriados pelo sistema financeiro e não são investidos na produção. É o que aponta, por exemplo, o economista Ladislau Dowbor em seu livro A Era do Capital Improdutivo: “O sistema financeiro passou a usar e drenar o sistema produtivo, ao invés de dinamizá-lo”.

Outro eixo de debate também pode ser interessante para que se reverta a idolatria a ídolos de barro como Hang: pequenos x grandes empresários. É evidente a diferença abissal entre ambos, e o campo progressista deveria desenhar, e rápido, uma política específica para os pequenos empresários. Se não o fizer, o discurso de Bolsonaros da vida, que iguala todos os empresários na sofrência por conta dos “muitos direitos trabalhistas” soa como música aos ouvidos dos peixes pequenos.

Horizontes de curto e longo prazo

É preciso, portanto, concatenar primeiramente os interesses dos que querem investir na produção e dos que dependem dela para trabalhar e sobreviver. Ao mesmo tempo, é preciso criar uma coesão política entre trabalhadores e pequenos empresários, se não por outros motivos, porque todos são igualmente esmagados em momentos de crise. Quem sobrevive, invariavelmente e cada vez mais confortáveis, são os tubarões.

O Estado deve dar suporte financeiro pesado a quem quer começar e manter um pequeno negócio, assim como garantir os direitos e a dignidade dos trabalhadores, tanto os de pequenas quanto de grandes empresas, seja por meio de verbas orçamentárias, seja por meio de novas legislações. Um projeto bem pensado que converse com esses dois setores da população seria realmente poderoso. É esse tipo de coisa que aquece e faz girar a economia real.

Para o longo prazo, o bom senso indica que caminhemos para um mundo onde a tecnologia faça a maior parte do trabalho pesado e onde as pessoas tenham o direito soberano de exercer seus talentos criativos, de desenvolver suas habilidades e de contribuir com a sociedade por meio do seu trabalho, se quiserem. Um mundo em que, portanto, não seja preciso que algum milionário supostamente generoso salve as pessoas “doando a fortuna em empregos”. Um mundo em que as diferenças de renda e patrimônio entre os cidadãos sejam limitadas a patamares civilizados. 

Um mundo onde posar de rico generoso quando na verdade é um sonegador de impostos malandro seja motivo para desprezo e não para idolatria.

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Domínio abstrato do capital, o ponto cego do capitalismo https://www.ocafezinho.com/2020/10/12/dominio-abstrato-do-capital-o-ponto-cego-do-capitalismo/ https://www.ocafezinho.com/2020/10/12/dominio-abstrato-do-capital-o-ponto-cego-do-capitalismo/#comments Mon, 12 Oct 2020 23:35:51 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=115609 1 Comentário 🔥]]> Por Wilton Cardoso, publicado originalmente no blog Engenheiro Onírico

Sem dúvida, quando um povo entra em colapso; quando sente esvair-se para sempre a fé no futuro, a sua esperança na liberdade; quando a submissão se lhe afigura de primeira utilidade e as virtudes dos servos se insinuam na consciência como condições de sobrevivência, então há também que mudar o seu Deus.
(Nietzsche, O Anticristo)

O capitalismo caminha para o colapso inevitável

O capitalismo é uma totalidade direcional, uma estrutura que instaura uma evolução determinista em meio ao real indeterminado. Por isso, é impossível “moderar os mercados”, a não ser provisoriamente, como foi o caso dos 30 anos dourados do Primeiro Mundo do Pós-Guerra e seu estado do bem-estar social.

Por conta de sua lógica determinista, as leis tendenciais do capitalismo são inevitáveis e irreversíveis, como a tendência da substituição do trabalho humano pela automação, que baixa os custo e, em consequência, provoca a queda da taxa de lucro por unidade de mercadoria. Daí a necessidade de se compensar essa queda produzindo um volume sempre maior de mercadorias, conjugada com uma maior exploração do trabalho. Isso, por sua vez, deságua em dois problemas: a devastação do meio ambiente e as crises de superprodução, agravadas pelo desemprego estrutural e o baixo rendimento dos trabalhadores superexplorados, que comprimem o mercado de consumo.

A saída encontrada para esta enrascada produtiva foi fabricar, a partir da década de 1980, montanhas de capital fictício, alavancando a economia por meio de dívidas e bolhas. Ou seja, a financeirização não provocou a crise atual do capitalismo, mas foi uma tentativa de administrá-la, relativamente bem sucedida até 2008, quando ela se explicita como uma crise existencial do capital e se espraia das finanças para a economia ‘real’ e daí para as esferas política, moral e subjetiva da sociedade capitalista.

Diante desse quadro de crise estrutural e incontornável do capital, não será o retorno a um Keynes renovado, invenções progressistas como a Moderna Teoria da Moeda (MMT), nem a busca da restauração do estado do bem-estar que vão solucionar o problema. O capitalismo entrou em colapso definitivamente, pois a tendência à automação e superexploração do trabalho se aceleram e as taxas de lucro seguem diminuindo para próximo de zero em todos os setores. Não há capitalismo sem lucro e, por isso, ele vai colapsar como sistema, provavelmente de forma lenta, em décadas.

A incapacidade dos sujeitos perceberem a dominação indireta do capital

E as pessoas, no fundo (no inconsciente), sabem que sua sociedade caminha para o colapso. Do ponto de vista psíquico, o século XXI é marcado pela desilusão, cansaço e falta de perspectivas em relação ao futuro. Mesmo nos países centrais, as pessoas sabem que a tendência é a queda do padrão de vida, os filhos ganharem menos que os pais, o Estado oferecer menos proteção social, diminuírem os bons empregos e cada um ter que se virar como pode no mercado de trabalho massivamente precarizado, uberizado e bazarizado. Esta desesperança difusa desperta nos indivíduos, como defesa psíquica, seus sentimentos mais sombrios, como a angústia, a ansiedade, o medo, o ressentimento e o ódio.

A causa dessa crise existencial do capitalismo são suas pŕoprias contradições sistêmicas e a esperança de Marx e dos marxistas era que os trabalhadores e marginalizados, que são a imensa maioria da população, tomasse consciência dessa situação e promovesse a revolução comunista, que iria instaurar uma comunidade concreta, não hierárquica e autogerida, substituindo a razão instrumental pela razão humanitária, que organizaria uma produção material e simbólica voltada para as necessidades humanas, e não para a reprodução do capital.

O que eles não previram é que a quase totalidade das pessoas, exploradas (perdedores) ou exploradoras (ganhadores), poderiam não ter condições de tomar consciência de que a verdadeira causa da crise é o sistema capitalista, com suas contradições internas derivadas da substituição de trabalho por automação e sua socialização abstrata, concorrencial e individualista.

As pessoas, em geral não compreendem que o sistema mercantil, sua lógica da mercadoria e sua forma sujeito impessoal, vazia e abstrata são a causa de grande parte de seu sofrimento. Esta incapacidade de crítica radical, de ‘ver’ o capital como a raiz da crise existencial de nossa sociedade, decorre da natureza complexa e abstrata da dominação no capitalismo, que não é exercida de forma direta por um grupo social sobre o outro. A dominação, ao contrário, é indireta, exercida por meio da lógica da mercadoria, a lei do valor-trabalho que tem a força quase objetiva de uma “lei natural” (uma segunda natureza) embora seja uma construção social.

As pessoas, em geral, tendem a atribuir a causa dos problemas sociais a indivíduos ou grupos sociais dominantes ou supostamente dominantes. E, de fato, durante toda a história imperial da humanidade, podia-se atribuir o sofrimento do povo a relações concretas entre grupos sociais dominantes e dominados. No capitalismo, porém, a dominação é indireta, pois é exercida pelo capital, um ‘ser’ inumano, cego, impessoal e abstrato. Se na idade média fazia sentido sentir raiva e exigir a expiação moral do clero e da nobreza, que exploravam diretamente o povo, tais reações se tornam inócuas atualmente, pois o capital não é um grupo social (embora as elites o representem) nem uma pessoa, não tem rosto nem moralidade, sentimentos ou caprichos, e é insensível aos afetos humanos.

A primeira dificuldade para as pessoas ‘verem’ a dominação do capital é, portanto, a forma inusitada e inédita (na história humana) em que ela se manifesta, como dominação indireta e abstrata exercida pelo capital/dinheiro, um meio criado pelos humanos que se autonomiza e se torna um fim em si mesmo. Numa reviravolta irônica, o dinheiro, criado pelas pessoas para servi-las, acaba por se servir delas para se multiplicar como mais dinheiro (lucro). Esse modo de dominação, impessoal, complexo, sutil e indireto, vai contra o senso comum das pessoas, que acabam não o compreendendo em sua intrincada totalidade.

A incapacidade dos sujeitos se perceberem como estruturados a partir do capital

Mas há um outro motivo para a dificuldade da tomada de consciência das pessoas em relação ao capital. Um motivo, ao mesmo tempo cultural (coletivo) e psíquico (individual), pouco explorado pelos marxistas em geral e é consequência do capitalismo não ser apenas um sistema econômico, embora se estruture de forma a reduzir a sociedade à economia, e o humano ao valor-trabalho e sua lógica. O capitalismo se constitui, na verdade, como um regime social que abrange todas as esferas da existência humana, inclusive a psíquica. Mais que um sistema econômico, e mais que um sistema social, o capitalismo é uma cultura, no sentido antropológico do termo, em que a esfera da economia (na forma de capital) se torna central e passa a regular as demais, inclusive a esfera subjetiva (psique) dos indivíduos.

Este arranjo em que o coletivo estrutura as individualidades (o homem) de uma cultura não é novidade para a antropologia ou a sociologia. Grande parte das “leis” e “formas” compartilhadas pelos indivíduos de uma cultura são, em qualquer sociedade, construídas de forma tácita e coletiva; e permanecem inconscientes para os indivíduos, que costumam entender essas forças desconhecidas do mundo social como pertencentes ao território do sagrado e/ou da natureza, que lhes são impostas a partir de fora do mundo dos homens e sobre às quais sua vontade e ação, individual ou coletiva, têm alcance limitado.

Com o capitalismo não é diferente e para as pessoas, em geral, a centralidade do capital na estruturação da coletividade e da subjetividade foi construída de forma inconsciente e assim permanece, em grande medida. Na verdade, seu grau de inconsciência, se é que se possa falar assim, é até maior na modernidade do que nas culturas pré-capitalistas, uma vez que a principal dominação social no capitalismo é indireta, exercida pelo capital sobre as pessoas e não por um grupo social sobre outro.

A centralidade do capital (que muitos antropólogos chamariam de ‘fato social total’) se espraia por todas as esferas da vida, inclusive a vida íntima, estruturando, desde o cerne, a psique do indivíduo. Este, em geral, tem pouca consciência de que sua identidade como “homem moderno” é constituída, desde suas bases mais fundas, pelo capital. Ser um homem moderno é ser um homo economicus ― sujeito automático, capital subjetivado ― delimitado e regulado pelos atributos masculinos da racionalidade instrumental e da competitividade, abstraídos do homem concreto das sociedades patriarcais pŕe-capitalistas. Por isso o termo preciso e correto é ‘homem’ moderno (ou pós-moderno), mesmo quando se fala da mulher e sua incorporação (que se luta para ser) igualitária no mundo do trabalho e dos negócios da sociedade mercantil. (Cf. “O capital é masculino” in Gênero, política e sujeito no capitalismo).

A primazia da razão instrumental e da competitividade, abstraídas dos sujeitos concretos (uma mulher ou um negro podem ser racionais e competitivos) e que reduz o humano a caracteres abstratos estritamente necessários à reprodução do capital é o ponto fulcral (o centro) a partir do qual é regido todo o resto da psique moderna. Esta redução da alma à racionalidade instrumental e à competitividade abstratas é a maneira como o capital estrutura a psique desde suas bases, de acordo com suas necessidades.

Então, o maior empecilho para se criticar o capital e suas categorias (trabalho, valor, mercadoria) como causa principal do mal estar moderno e pós-moderno vai além da dificuldade das pessoas em compreender a complexidade e o contra-senso de uma dominação abstrata e impessoal, sem poder culpar grupos sociais específicos. A dificuldade de crítica reside também, e principalmente, no fato de que o cerne da estrutura psíquica das pessoas é o capital, ou seja, a própria subjetividade é formada, desde a raiz, a partir do sujeito automático e seus imperativos abstratos de racionalidade abstrata e competitividade.

Ponto cego: a dificuldade de se criticar o que molda a própria crítica

É a partir do sujeito automático (capital) como base apriorística, como pré-formação naturalizada da psique que molda de antemão os modos de ver e ser do homem moderno, que este vai interpretar e criticar o mundo. É o capital, como centro estrutural ao mesmo tempo coletivo e individual, que pré-determina as subjetividades de modo a delimitar o que elas podem ver e criticar e, principalmente, o que não se pode ver: o próprio capital subjetivado como fonte das perspectivas modernas, como fôrma que pré-molda o homem desde a raiz mas cujo acesso a suas formas e conteúdos são proibidos, ou melhor esquecidos, mergulhados no inconsciente.

Este esquecimento das perspectivas e razões pré-formadas transforma a centralidade, subjetiva e social, do capital num ponto cego para o sujeito, cuja capacidade de compreender e criticar o mundo é moldada a priori a partir do próprio capital. Por outras palavras, a visão de mundo, valores, modo de ser, agir e sentir se desenvolvem no interior dos limites estruturais da forma sujeito, cujo centro (que tudo organiza e dá o sentido inicial e final aos movimentos da psique) é o sujeito automático/capital. Para o sujeito, criticar o capital e sua dominação abstrata significa, portanto, negar sua própria identidade de “homem moderno” e, ao mesmo tempo, renegar sua cultura e seu povo – a modernidade e sua civilização.

As categorias básicas do capital, como trabalho, valor e mercadoria, bem como os imperativos do sujeito automático instaurados a partir da razão instrumental e da competitividade se tornam tabus na sociedade mercantil. A crítica radical (da raiz, do núcleo causal) do capital não é proibida de forma explícita, mas é silenciada por um interdito ainda mais eficaz e poderoso que a proibição ao se tornar impensável e absurda para os sujeitos, destituída de qualquer bom senso e razoabilidade. Quem ousa chamar atenção para a historicidade e as contradições da forma sujeito abstrata, do trabalho, do valor e da mercadoria, criticando as bases apriorísticas do sujeito e da sociedade capitalistas é sumariamente ignorado como um delirante/utopista fora da realidade, não apenas pelas “pessoas comuns”, mas inclusive no meio intelectual e acadêmico, cujos limites permitidos para a contestação da modernidade liberal é o conservadorismo de direita, de um lado, e o progressismo de esquerda, de outro.

Um exemplo desta cegueira é a insistência dos economistas de diversos matizes ideológicos (inclusive os marxistas tradicionais) em confundir as atividades voltadas para satisfazer as necessidades humanas das sociedades pré-capitalistas com a categoria trabalho, uma invenção da modernidade capitalista. As pesquisas historiográficas e antropológicas mostram de forma recorrente a inviabilidade de se reunir as diversas atividades humanas dos povos pré-capitalistas e abstraí-las no conceito de trabalho, operação possível apenas na gramática estrutural da sociedade mercantil regida pela lei do valor-trabalho.

Decorre daí a impossibilidade das culturas pré-capitalistas terem uma economia tal como a entendemos, e muito menos serem regidas por ela. Mercados, estados, trocas, moedas, tudo isso existiu de fato nas sociedades imperiais e cidades-estado, mas seu significado e função eram completamente diferentes até o advento do capitalismo, que fez o mundo girar em torno dos imperativos do valor-trabalho, da mais-valia e da lucratividade, do dinheiro enfim. O que dizer então dos chamados povos primitivos, sem escrita, moeda ou estado, cuja organização e reprodução social apenas com muita imaginação podem ser interpretadas a partir das categorias e conceitos capitalistas como trabalho, mercado e economia?

Ao negar a historicidade das categorias e instituições da sociedadade capitalista, como trabalho, mercado, economia, estado nacional, caipital/dinheiro e forma sujeito (que se consolidaram apenas em meados do século XVIII), os sábios enganam a si mesmos e à sociedade, afirmando que tais categorias são inevitáveis como forma de organização das sociedades humanas em geral. Mesmo nas sociedades primitivas os economistas enxergam um proto-mercado de escambo, teoria que tenta projetar a ordem capitalista no humano em geral e desmentida por várias pesquisas de campo antropológicas. Enxergar a historicidade do capitalismo e suas categorias é (auto)vedado à maioria dos intelectuais acadêmicos e midiáticos, pois vê-la implicaria em questionar as bases liberais (capitalistas) de seus próprio pensamento, constituídas a partir da tradição iluminista.

Apesar de tudo, a crítica radical é possível. E necessária

O capital e suas categorias, a forma sujeito e o sujeito automático são o tabu da sociedade capitalista. São o ponto cego do sujeito moderno e pós-moderno, a face de Deus que nem o homem comum nem o sábio podem olhar de frente, sob pena de enlouquecer. Os que se atrevem a olhar e tentar compreender a face do Ser/Capital e seu mundo/estrutura são tidos como utopistas fora da realidade ou críticos radicais guiados por falsas convicções, mesmo que sua argumentação seja racional e comprovada pelos fatos.

Este ponto cego do capitalismo, que é o próprio capital em sua essência imutável (pelo menos enquanto houver capitalismo) não deixa de gerar contradições no sistema capitalista. Como motor imóvel que movimenta a estrutura, o capital, para se reproduzir e permanecer idêntico a si mesmos (preservar-se como Ser), necessita acelerar a história e a promoção de rupturas técnicas, científicas, políticas, de valores morais, de mentalidades e da vida cotidiana. E como o capital é tempo de trabalho acumulado, ele necessita também servir-se do humano como instrumento para sua reprodução. Esta instrumentalização das pessoas, conjugada com um mundo voltado para o futuro, que nunca repousa e em estado acelerado de mudanças (a tradição da ruptura de Octavio Paz), provoca uma síndrome de Sísifo nos sujeitos, que passam a vida realizando um trabalho intenso e perpétuo sem sair do lugar, sem se realizarem como seres humanos, pois, no fim das contas, o trabalho humano serve à realização do capital.

A esta crise permanente dos sujeitos da sociedade mercantil se somam as crises periódicas da economia capitalista, que provocam carências materiais e explicitam o sofrimento psíquico das pessoas. É por estas frinchas abertas pelas contradições da subjetividade e da sociedade capitalistas, que surge a possibilidade de se ‘ver’ e compreender e, a partir daí, criticar o capital como núcleo comum da psique e da cultura modernas. Muitos artistas, com sua recusa em enquadrar sua atividade estética na categoria trabalho, já vislumbraram o capital e as perspectivas decorrentes da lógica da mercadoria como pontos cegos de nossa sociedade.

Da mesma forma, o Marx da crítica do valor-trabalho fundou toda uma tradição de desconfiança e abalo das estruturas culturais do capitalismo. Tradição que passa por vários marxismos não ortodoxos, como o da Escola de Frankfurt; por um certo pensamento ecológico, como o de André Gorz; por alguns filósofos pós-estruturalistas, como Deleuze e Foucault; e deságua na crítica radical (da raiz, do núcleo) de Moishe Postone e da Nova Crítica do Valor.

Agora que o capital parece se chocar com seus limites internos (desvalorização do valor) e externos (ecológicos) de reprodução, entrando numa fase de colapso, aumentando exponencialmente o sofrimento humano, torna-se mais necessário do que nunca a quebra do verdadeiro tabu do capitalismo, que é o questionamento do capital e sua lógica, em busca de uma outra racionalidade, realmente voltada para as necessidades humanas.

Até mesmo o homem comum, de forma inconsciente, já perde a fé no capital e é tomado pela revolta fascista e seu desejo de destruição sem fim. É preciso encontrar uma alternativa anticapitalista que não sejam o ódio e a irracionalidade suicidas do fascismo, trazendo o domínio abstrato do capital para a consciência e desafiando suas coerções e formas sociais à luz do dia. Está na hora de criticar e, depois, abolir o trabalho, a mercadoria, o dinheiro, lucro, o estado e a forma sujeito, para darem lugar a outras formas e relações sociais, sobre as quais se possa erguer uma sociedade fundada numa razão comunitária (ou comunista). Uma sociedade que satisfaça igualmente as necessidades materiais e simbólicas de todos sem solapar o suporte natural da vida.

É a hora da visão humana dar um salto evolutivo e superar seu ponto cego. A hora de ‘ver’ a face do Deus-Pai decadente e renegá-Lo.

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Mas e o Stálin? https://www.ocafezinho.com/2020/09/21/mas-e-o-stalin/ https://www.ocafezinho.com/2020/09/21/mas-e-o-stalin/#comments Mon, 21 Sep 2020 21:41:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=114770 36 Comentários 🔥]]> Em Israel, país com algo em torno de 9 milhões de habitantes, o governo acaba de impor novo lockdown para tentar conter a proliferação da Covid-19. Hoje, 21 de setembro, contabilizam-se 1.256 mortes naquele país por conta da pandemia.

No município de São Paulo, onde habitam mais de 12 milhões de pessoas, temos 12.366 óbitos confirmados em decorrência da pandemia. Esqueçamos, apenas por um instante, que o Brasil não é um dos países com mais subnotificação do mundo, em virtude da baixa testagem, e mesmo assim a desproporção é evidente: se em São Paulo tivéssemos a mesma proporção de mortos em relação à população que em Israel, os paulistanos chorariam por volta de 1.800 mortes.

Por essas contas, mais de 10 mil pessoas morreram sem necessidade apenas no município de São Paulo. No Brasil, temos 136.240 óbitos oficialmente contabilizados.

E o que o presidente do nosso país pensa disso tudo?

Bem, não é exatamente que ele pense: ele delira em público, para delírio de uma parcela alucinada da população. Como por exemplo nesta fala de um mês atrás:

No meu entender, guardando-se as devidas proporções, não vi no mundo quem enfrentou melhor esta cuestão [da pandemia] do que nós [governo federal].

Mais recentemente, há poucos dias, Bolsonaro disse que ficar em casa durante a pandemia, recomendação que é consenso científico, é “conversinha mole” e coisa “para os fracos”.

É um tanto desesperador constatar que a brutalidade genocida do presidente da República se impôs dessa forma sobre o país. Seguimos no patamar altíssimo de mil mortes diárias. Somos um dos países que pior lidou com a pandemia no mundo, exatamente o contrário do que afirmou o presidente.

Agora, enquanto a Europa começa a se preparar para novas quarentenas duras, em virtude da segunda onda de contaminações, por aqui, onde temos uma espécie de onda contínua, considerando que ignoramos os protocolos recomendados, ensaia-se (e coloca-se em prática) uma “volta à normalidade”. Praias, bares, escolas, instituições públicas, todos querem voltar às atividades corriqueiras, e se houve mais contaminações por causa disso, e as consequentes internações, sequelas permanentes e mortes, bem, paciência, está tudo voltando ao normal, não é mesmo?

De repente virou algo “normal” desaparecerem para sempre mais de 130 mil brasileiros (fora os não oficialmente contabilizados).

O que poderia se esperar quando se elege um sociopata para comandar o país, não é mesmo? A pandemia foi a oportunidade perfeita para Bolsonaro e seu séquito de alucinados exercerem sua desumanidade brutal.

Mas e o resto da direita, aquele pessoal que se apresenta no debate público como liberal, democrático etc. etc.? Será que se arrependeu do apoio ao führer tropical? Está fazendo uma autocrítica, um mea-culpa, quem sabe ao menos refletindo, no íntimo de seus pensamentos, sobre suas opções políticas?

Pelo frenesi das últimas semanas, não é o caso. Eles estão preocupados com outra ameaça, esta no âmbito internacional. Poderia ser o terrorismo de Estado praticado pelos EUA nas últimas décadas, as invasões, os golpes, os assassinatos políticos promovidos ao redor do globo. Ou quem sabe uma crítica às ações censórias do Trump, que resolveu proibir até aplicativo de vídeos chinês.

Mas, não esqueçam, estamos falando dos liberais brasileiros, e o que importa, no fundo, é se o Estado autoritário é de direita ou de esquerda. Se é de direita e tem uma fachada democrática, ainda que cretina, está tudo certo, tudo tranquilo. Se é de esquerda, é “ditadura, populismo, censura” etc.

Estão criticando Cuba, então? Ou a China? Também não. A preocupação é com algo incomparavelmente mais terrível do que qualquer ator atual do jogo político global, ou com o genocida que ocupa a presidência da República: precisamos ter cuidado, e combater as perigosas ideias de, ninguém mais ninguém menos que… Josef Stálin.

O professor, youtuber e militante do PCB Jones Manoel, que viralizou por ter influenciado o Caetano Veloso a ser menos “liberalóide”, está atormentando nossos valorosos liberais, que o estão criticando impiedosamente por sua análise sobre o período em que Stálin governou a URSS.

Quem sabe se Bolsonaro e Trump usassem bigode…

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A Terra é plana https://www.ocafezinho.com/2020/07/12/a-terra-e-plana/ https://www.ocafezinho.com/2020/07/12/a-terra-e-plana/#comments Sun, 12 Jul 2020 22:47:30 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=110383 14 Comentários 🔥]]> Não se assuste, cara leitora, este colunista não aderiu ao terraplanismo. A Terra é Plana (Behind the Curve, no original) é o título de um documentário (tem no Netflix) sobre o pitoresco debate acerca do formato do nosso planeta. No filme, composto basicamente por entrevistas, os traços paranoicos e megalomaníacos dos terraplanistas são apresentados de forma certeira e, na medida do possível, sutil. O resultado é positivamente engraçado.

Alguns dos defensores da Terra plana, estes um pouco menos delirantes, estão determinados a comprovar cientificamente que não vivemos sobre uma esfera. Seus experimentos são rigorosos (às vezes precisam do trabalho árduo de vários pessoas ou de generosas quantias de dinheiro) e invariavelmente refutam a teoria da Terra plana. Mas eles não desistem.

O documentário vai, contudo, além: aspectos psicológicos e sociológicos relacionados ao ressurgimento dos terraplanistas (esta teoria foi popular em momentos anteriores da história humana) são abordados por cientistas, psicólogos e outros entrevistados. A tese desvelada mais para o final da película me deixou pensativo: essas pessoas, ou ao menos boa parte delas, sempre sentiram-se rejeitadas pela sociedade; ao unirem-se a uma coletividade com um sentido comum, experimentam um acolhimento e um espírito de grupo que lhes faz sentir parte de algo maior. Como isso gera efeitos benéficos em suas vidas, é muito difícil convencê-las de que a ideia da Terra plana é simplesmente idiota.

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Há algumas semanas, conversando com um amigo sobre o ensaio fascista que dá as caras no Brasil, ele falou algo na mesma linha. Tem muita gente que acabou de achar a sua turma e sente que está lutando por algo maior. Pessoas que sentiram-se à margem da sociedade (ao menos em relação a algum aspecto de sua personalidade) durante a vida toda e agora encontraram uma causa, um coletivo com o qual se identificar e algumas ideias pelas quais vale a pena dedicar sua atuação política.

Considerando que as ideias fascistas não são exatamente ideias, mas comandos de opressão e extermínio cuja origem parece ser um medo terrificante de tudo que cheire a algo diferente do que já se conhece, não basta derrotar o fascismo no campo institucional. Este é, sim, um imperativo, uma tarefa urgente que exige o emprego de todos os esforços possíveis. Entretanto, é necessário pensarmos em estratégias que mirem um objetivo de longo prazo: fazer com que a sociedade brasileira crie anticorpos intelectuais e morais contra o ideário fascista, para que este jamais veja a luz do dia outra vez.

Manifestação bolsonarista no DF, 19/04/2020 – Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

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Trata-se de um trabalho árduo e lento (do contrário, não seria de longo prazo), porém essencial. Não é simples, afinal, estimular uma cultura democrática em uma população carente (em vários sentidos) como a brasileira.

Um projeto que revolucione a comunicação brasileira é um primeiro passo. Se o domínio do oligopólio de mídia era um inferno para as pretensões soberanas do Brasil, agora o cenário está ainda pior: a emergência de sofisticados sistemas de manipulação da informação e difusão de notícias falsas por meio de redes sociais precisa ser debatida e enfrentada com inteligência. Esperar pela boa vontade do Mark Zuckerberg (dono do Facebook, Whatsapp e Instagram), dos donos do Google (Larry Page e Sergey Brin) ou dos barões da mídia tradicional brasileira no combate às fake news é pedir para ser massacrado em todas as eleições.

Tornar o sistema de comunicação do país mais democrático, transparente e menos sujeito a interesses financeiros ou de nações estrangeiras seria uma conquista tremenda.

Mas, ainda assim, insuficiente.

Em um país desigual como o Brasil, é preciso, se quisermos uma população mais consciente politicamente, antes garantir o básico: comida na mesa, saúde pública e escola de qualidade para todos. A federalização do ensino básico e médio deveria estar no horizonte de futuros governos à esquerda. Uniformizar a educação em todo o território nacional parece ser uma boa medida para impedir que as dificuldades financeiras e as peculiaridades políticas de cada cidade ou estado resultem em um desenvolvimento desigual dos alunos.

Partindo daí, chegamos ao ponto nevrálgico para implementar uma cultura humanista, solidária e democrática na sociedade brasileira: nosso modelo de educação. Um bom começo é realmente aplicar o que a direita lunática acusa a esquerda de implementar: Paulo Freire. Sua tese de que deve ser desenvolvida uma consciência crítica nos alunos é fundamental para os tempos nos quais adentramos rapidamente – tempos de descontrole total da informação. Por isso mesmo, é possível defender a aplicação do pensamento de Freire fugindo do rótulo de “comunista” ou algo do gênero – um rótulo imbecil, de todo modo – que assusta parte importante da sociedade.

Pensemos, por exemplo, nas deep fake. Se nosso debate público é influenciado por fake news que chegam a virar folclore de tão grosseiras (como a da famigerada “mamadeira de piroca”), o que acontecerá quando montagens de vídeo extremamente realistas se espalharem por aqui? Há deep fakes tão bem feitas que somente por meio de softwares se pode confirmar a falsidade do material. Ou seja, qualquer político ou figura pública pode viralizar falando qualquer coisa que o autor da montagem deseje, inclusive “confessando” as coisas mais sórdidas imagináveis.

Agora reparem neste pequeno trecho de Pedagogia do Oprimido, livro seminal de Freire:

Outro recurso didático, dentro de uma visão problematizadora da educação e não “bancária”, seria a leitura e a discussão de artigos de revistas, de jornais, de livros (…). (…) parece-nos indispensável a análise do conteúdo dos editoriais da imprensa, a propósito de um mesmo acontecimento. Por que razão os jornais se manifestam de forma diferente sobre um mesmo fato? Que o povo então desenvolva o seu espírito crítico para que, ao ler jornais ou ao ouvir o noticiário das emissoras de rádio, o faça não como mero paciente, como objeto dos “comunicados” que lhes prescrevem, mas como uma consciência que precisa libertar-se.

Basta acrescentarmos as novidades comunicacionais decorrentes da evolução tecnológica (novos dispositivos, novas redes de comunicação) e temos aí uma habilidade indispensável para os nossos tempos: saber discernir informação bem embasada de notícia falsa, bem como ser capaz de identificar os vieses políticos e ideológicos que estão por trás de cada notícia ou comentário sobre os fatos do mundo. Qual mãe e qual pai não desejaria que as filhas e filhos saibam discernir as informações confiáveis dentre o oceano de notícias no qual estamos quase todos imersos? Cabe a nós apenas vender o peixe de Paulo Freire.

Paulo Freire: pedagogia crítica.

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E buscar outros paradigmas também.

A Finlândia, por exemplo, possui um sistema educacional considerado modelo. O cineasta americano Michael Moore visitou o país para descobrir as razões; a visita foi retratada em um documentário de 2015 cujo título foi traduzido no Brasil como O Invasor Americano. Menos horas de estudo, quase zero lição de casa, desenvolvimento das habilidades lúdicas e criativas são algumas das dicas dos finlandeses, as quais visam proporcionar felicidade aos alunos, bem como prepará-los para o mercado do trabalho do futuro, quando esse tipo de habilidade deve predominar, considerando que as máquinas ficarão com o labor mais pesado e repetitivo.

Ressalte-se que a educação por lá é eminentemente pública: o fim do apartheid educacional entre alunos de escolas privadas e públicas deve, também, ser ponto central em um projeto revolucionário para a educação. É um debate complicado, não há dúvidas, e por isso mesmo deve ser suscitado o quanto antes. O objetivo, me parece, não pode ser outro que não o fim das escolas particulares. A ideia é levar a meritocracia a sério, não é mesmo? Abaixo, o trecho do documentário de Moore sobre a Finlândia:

https://www.youtube.com/watch?v=CLhxOufPH6E&t=357s

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Outro paradigma da humanidade, este mais profundo, que implora por uma intervenção da educação para começar a ser transformado, é o do egoísmo. O egoísmo, o pensar em si antes de todos os demais ou mesmo do planeta, é o sentimento basilar do modo de vida capitalista. É o egoísmo o motor da busca desenfreada por riqueza e status que, por sua vez, redunda em um consumismo altamente destrutivo – individual e coletivamente.

Estamos levando nosso planeta ao colapso ambiental, e isso é uma façanha e tanto. Se não adotarmos um modo de vida cooperativo (ou ao menos lançarmos as bases para este), nossa geração entrará para a história das civilizações do universo como a que colaborou para o fim da espécie humana sobre a Terra. As crianças devem aprender desde cedo que o egoísmo leva à violência, à opressão e à destruição, e que a cooperação, o trabalho em equipe e a solidariedade são ferramentas para a construção de uma sociedade próspera e pacífica.

E então voltamos aos terraplanistas. Há, neste grupo, semelhanças (inclusive de identidade) com aqueles que se aproximam das ideias fascistas. Nesta pandemia, aliás, os fascistas vêm empreendendo uma guerra alucinada justamente contra a ciência. Uma educação pública, universal, moderna e que ensine os alunos a pensarem criticamente é fundamental para que esse tipo de pensamento torto não viceje nas próximas gerações.

Existe, todavia, um problema para ser resolvido agora. Esses grupos estão por aí, pipocando. Percebe-se que são grupos cujas ideias são marginalizadas, muitas vezes porque são realmente intoleráveis em uma sociedade minimamente civilizada e racional. Contudo, empurrá-los ainda mais para o isolamento não deve resolver a questão. O problema continuará existindo, provavelmente com um acúmulo ainda maior de raiva por parte dos excluídos.

É evidente que há uma militância fascista agressiva e bem ciente de que sua visão de mundo é autoritária, violenta, odienta. Estes devem ser combatidos de forma enérgica, inclusive fisicamente, se necessário. Entretanto, há também, e são muitos, os que professam ideias grotescas sem muita noção do que estão defendendo. Em realação a estes, talvez seja interessante buscar, quando possível, o diálogo, o debate de ideias em termos respeitosos.

Em um encontro de cientistas mostrado em A Terra é Plana, o físico Lamar Glover faz algumas ponderações interessantes sobre os terraplanistas complexo de superioridade científico:

Não podemos apenas dizer que é um delírio ou chamá-los de malucos. Eu acho que muitas vezes quando usamos a palavra “maluco”, trata-se de um termo guarda-chuva. Quantos aqui já foram chamados de maluco? [Alguns levantam as mãos.] Terraplanistas, antivacinas… Quando deixamos essas pessoas para trás, nós deixamos mentes brilhantes emudecerem e estagnarem. Esses caras são cientistas em potencial que pegaram um caminho completamente errado. A sua natural propensão inquisitória e rejeição a normas poderiam ser benéficas para a ciência se eles fossem mais letrados cientificamente.

Lamar Glover em cena de A Terra é Plana

Quantas inteligências que poderiam contribuir para o bem estar da sociedade são capturadas por fenômenos políticos lamentáveis como o bolsonarismo? E por acaso não é um trabalho nobre – e necessário – restabelecer pontes com esses indivíduos?

Respiremos fundo e coloquemos as mãos à obra, portanto.

Encerro este artigo com as palavras de outro físico, Spiros Michalakis, também apresentadas em A Terra é Plana (vale a pena assisitr):

O problema que eu vejo está, na verdade, não no lado dos que acreditam em teorias da conspiração, mas do nosso lado, o lado da ciência. Às vezes é difícil não olhar com desprezo. Um amigo disse: “Às vezes o único jeito de fazer alguém mudar de ideia é pela vergonha”. E eu disse: “Não acho que esse recurso deva ser usado”. É o mesmo que dizer que se uma criança não entende uma matéria, não é culpa sua, como professor, é culpa dela. Eu não acredito nisso. Você simplesmente não desenvolveu sua empatia até o ponto de ver, a partir do ponto de vista deles, onde eles estão empacados. O pior cenário possível é você apenas empurrar completamente esses indivíduos para a franja da sociedade e, então, a sociedade simplesmente os perde.

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Radicalização ideológica https://www.ocafezinho.com/2020/02/06/radicalizacao-ideologica/ https://www.ocafezinho.com/2020/02/06/radicalizacao-ideologica/#comments Thu, 06 Feb 2020 21:44:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=105887 45 Comentários 🔥]]> Em um episódio recente da série animada Rick e Morty, Rick, um cientista que é considerado o ser mais inteligente do universo, viaja por diferentes realidades paralelas e encontra outras versões de si mesmo, muitas das quais são nazistas ou vivem em um mundo no qual o nazismo impera. Em uma dessas realidades — na qual as pessoas têm “corpos de camarão”, em tamanho humano — Rick é perseguido pela polícia nazista dos camarões e, antes de ser espancado, reclama: “Porra, quando essa merda virou o padrão?”. Em outro episódio, Rick, ao encontrar um planeta povoado por cobras no qual está acontecendo uma guerra global por questões de raça, comenta, rindo:

— Quão engraçado é isto? Imagine ser uma cobra racista! “Ei, outra cobra, eu te odeio porque você é uma cobra da cor errada”. Meu Deus!

O discurso antinazista e antirracista proferido por uma série estadunidense de estrondoso sucesso é um evidente efeito da ascensão mundial de um pensamento que se aproxima perigosamente de ideias nazistas, racistas e fascistas — quando não as emula de forma desavergonhada. É inevitável, bem-vinda e urgente a reação dos que percebem a insanidade na qual parte da humanidade ensaia embarcar de novo. 

South Park, outro desenho animado dos EUA, tão genial quanto Rick e Morty, foi ainda mais longe. Em um episódio da temporada de 2018, a Amazon abre uma filial na cidade em que se desenrola a série e, muito embora os consumidores fiquem felizes com a rapidez com que os produtos encomendados agora chegam em suas casas, os negócios locais quebram e os funcionários da Amazon são explorados pela megacorporação, trabalhando em condições desumanas. Um dos empregados é atropelado por um robô e a empresa afirma que foi “falha humana”, o que desencadeia a revolta dos trabalhadores, que fazem uma greve e causam uma convulsão na cidade. O trabalhador mutilado pelo robô — e empacotado em uma caixa da Amazon a qual não pode ser aberta, sob pena de seus órgãos “vazarem”, em um clássico nonsense southparkiano — torna-se o líder dos grevistas e faz discursos marxistas, falando em tomar os meios de produção e tudo mais.

Um crítico que conhece bem a série ficou impressionado com a virada esquerdista dos criadores de South Park, os quais adotavam posturas pró-capitalistas em temporadas anteriores. Para o referido crítico, a mudança se deve ao fato de que os efeitos maléficos do capitalismo estão evidentes nos dias de hoje: “Agora, qualquer um que preste atenção está bem consciente do que está acontecendo, e o quão totalmente sem limites o capitalismo se tornou” (tradução livre; leia aqui o artigo, em inglês).

A possibilidade real de que Bernie Sanders, um socialista declarado, concorra à presidência dos EUA certamente não estaria desconectada de um movimento mais profundo na sociedade norte-americana. Imagine a pane mental nos liberais brasileiros, tão servis ao propalado paraíso capitalista, caso Sanders vença Trump nas eleições.

Se a direita radicalizou de um lado, escancarando sua face violenta bem conhecida, a reação newtoniana só poderia ser uma radicalização em sentido oposto.

No Brasil, cairia bem uma radicalização, não só do discurso mas principalmente da prática, dos grupos políticos à esquerda. Uma radicalização em sentido amplo, abarcando desde a linha econômica até a mecânica interna de cada organização, que deve ser a mais democrática e transparente possível. Entretanto e ao mesmo tempo, é sábio que construam-se pontes com setores não tradicionalmente alinhados ao campo canhoto. Achar este equilíbrio não é uma arte simples, mas não me parece haver outro caminho.

Do contrário, corremos o risco de assistir novamente à ascensão das cobras nazistas, como em um episódio de série de ficção científica. Sem a parte engraçada.

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Ironias https://www.ocafezinho.com/2019/05/17/ironias/ https://www.ocafezinho.com/2019/05/17/ironias/#comments Fri, 17 May 2019 14:19:12 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=94855 16 Comentários 🔥]]> Os protestos contra os cortes na educação sacudiram o tabuleiro político. Seu sucesso foi reconhecido até mesmo por expoentes da direita como o MBL e o Antagonista – com todo o respeito à palavra “expoentes”.

Jair Bolsonaro preferiu seguir viagem na sua louca nave que desbrava um universo paralelo a cada dia. Depois de chamar os manifestantes que encheram as ruas do país de idiotas úteis, o presidente disse que só viu “faixa de Lula Livre, mais nada”. Os toscos comentários foram proferidos a partir de Dallas, nos EUA, onde Bolsonaro recebeu um prêmio deveras duvidoso e, depois das bordoadas do prefeito de Nova York, fragorosamente esvaziado.

Se Bolsonaro estivesse no Brasil e resolvesse sair às ruas para uma averiguação – disfarçado, é claro – talvez percebesse que a liberdade de Lula esteve longe de ser a pauta central dos protestos. O foco foi mesmo a educação – e como é lindo ver a educação no foco do país, mesmo que seja em um momento defensivo.

A quantidade de estudantes que compareceu aos atos foi notável. Desde pré-adolescentes com seus uniformes do colégio até universitários com seus jalecos, todos unidos em uma balbúrdia só, restou evidente que o governo Bolsonaro começa a ser visto pelos jovens como o que de fato é: um inimigo mortal da educação.

Nada mais didático do que um governo de extrema-direita. Parece paradoxal, mas a ascensão de Bolsonaro ao poder pode ser o marco inicial da derrocada da onda conservadora. 

O paradoxo é, afinal, apenas aparente. Ao assumir o poder central, o conservadorismo passou de pedra a vidraça. Suas visões de mundo estão sendo testadas pela afiada espada da realidade.

Como suas respostas para as demandas da sociedade transitam entre a nulidade e o agravamento dos problemas, a tendência é que um contingente de jovens cada vez maior posicione-se na oposição aos desmandos do executivo. Consequentemente, esses jovens tendem a cerrar fileiras no lado oposto da carcomida ideologia que agarra-se a um passado que nunca existiu, tremendo de medo das inevitáveis mudanças que são a tônica da existência. TFP e Senhoras de Santana revival é démodé demais.

Uma nova geração de alunos do Olavo que despontava tragicamente no horizonte pode, a partir do irremediável desastre que atende pelo nome de governo Bolsonaro, dar lugar a uma politização da juventude forjada nas ruas, nos debates e nas lutas.

Mesmo que seja apenas a materialização da terceira lei de Newton, não deixa de ser irônico que um governo de extrema-direita seja o responsável por fazer ressurgir um ambiente revolucionário e ativista na juventude brasileira.

***

Outra ironia interessante é a suspeita do Ministério Público de que Flávio Bolsonaro comprou e vendeu diversos imóveis para lavar dinheiro – a valorização de alguns imóveis negociados supera, e muito, a valorização média dos imóveis na região. Os Bolsonaro saíram de seu papel marginal na política nacional diretamente para o núcleo do poder surfando na onda da criminalização da política e do antipetismo. A difundida crença de que os filhos de Lula possuem jatos, Ferraris, ilhas, a Friboi e o escambau é um bom retrato da insanidade ideológica que tomou conta do país. Eis a ironia: a fama é dos filhos de Lula, mas é o filho de Jair Bolsonaro quem deve explicações sobre os indícios de crimes apresentados pelo MP. Aguardemos as correntes de Whatsapp sobre os esquemas do Flavinho.

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Patacoada militar https://www.ocafezinho.com/2019/02/25/patacoada-militar/ https://www.ocafezinho.com/2019/02/25/patacoada-militar/#comments Mon, 25 Feb 2019 14:45:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=92337 12 Comentários 🔥]]> É seguro afirmar, por sua maciça votação final e por inúmeras declarações de voto, que Bolsonaro foi o escolhido de muitas pessoas cujas categorias profissionais eram frontalmente atacadas no discurso do então candidato. Dois exemplos: professores, ameaçados em sua liberdade de cátedra por conta de uma suposta – e delirante – doutrinação marxista nas escolas, e servidores públicos, atingidos em cheio pela linha econômica de Paulo Guedes, a qual tem como princípio basilar uma drástica redução do tamanho do Estado.

A que se deve este estranho fenômeno?

Uma boa pista está em uma palavra muito em voga: ideologia, aqui considerada como um conjunto de ideias, pensamentos, doutrinas ou visões de mundo de um indivíduo ou grupo.

Se o ego pode ser definido como a concepção que o indivíduo faz de si mesmo e de sua própria personalidade, a ideologia parece reproduzir o mesmo mecanismo no âmbito coletivo. Acaba tornando-se, assim, uma espécie de identidade coletiva.

Por conta de sua própria natureza, o ego apresenta um notável efeito colateral: uma dificuldade exacerbada de admitir estar errado. Seu impulso é o de sempre tentar sustentar a ideia que faz de si mesmo.

Se a ideologia emula o mecanismo básico de funcionamento do ego, reproduz também seu efeito colateral. Eis uma boa explicação para o tanto de pessoas com posições e opiniões políticas flagrantemente contrárias aos próprios interesses: o ego coletivo, digamos assim, tenta a todo custo manter sua identidade de grupo.

Estas reflexões me vieram à mente após a leitura de alguns comentários em notícias sobre as movimentações militares que rondam a Venezuela. Muito embora aparentemente estejam diminuindo, não são poucas as manifestações de brasileiros favoráveis à linha intervencionista que Donald Trump está claramente disposto a adotar.

Linha que vem contando, aliás, com o auxílio bovino de Bolsonaro. O presidente vem fazendo exatamente o oposto de sua estapafúrdia promessa de “acabar com o viés ideológico” nas ações do governo – como se isso fosse possível. O que mudou é que agora a ideologia passa por cima de qualquer razoabilidade nas tomadas de decisões.

Bolsonaro resolveu meter o bedelho no conflito que se desenha, a despeito do alerta dos militares e até do Rodrigo Maia de que a empreitada de mandar “ajuda humanitária” serviria apenas como forma de elevar os conflitos na fronteira e, assim, fornecer justificativas para uma invasão dos EUA. Se os militares não bancarem uma posição sensata, corremos o risco de entrarmos em uma bela furada.

Ainda mais quando são evidentes as motivações imperialistas dos Estados Unidos, que reconheceram de imediato um curioso “presidente autodeclarado” que agora sugere não descartar um pedido de intervenção militar estrangeira para depor Maduro. E a Venezuela é rica em petróleo… Já vimos esse filme, não? O roteiro está ficando manjado.

Diante dos fatos, basta um pouco de lógica – acompanhada de uma singela pitada de bom senso – para perceber que apoiar uma guerra em um país vizinho é insanidade. Ser consorte dos EUA no plano de, se necessário, transformar a América Latina em um novo Oriente Médio é positivamente estúpido.

A não ser para quem é controlado pela própria ideologia. Nesses casos, Trump é o capitalista de sucesso, Maduro é o ditador esquerdista. Trump só pode estar certo e Maduro, como sempre, errado. Guerra à Venezuela, portanto.

Se acontecer de nos metermos em uma impensável guerra, que os militares tenham o bom senso de instituir um filtro ideológico nas convocações. Algo como “Só é obrigado a se apresentar quem foi favorável a esta patacoada”.

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A esquerda precisa amadurecer https://www.ocafezinho.com/2019/02/15/a-esquerda-precisa-amadurecer/ https://www.ocafezinho.com/2019/02/15/a-esquerda-precisa-amadurecer/#comments Fri, 15 Feb 2019 12:13:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=92068 48 Comentários 🔥]]> É hora de sermos estratégicos.

Sempre é, na verdade, mas o início de um governo de extrema-direita e a forte guinada da população na direção do conservadorismo exigem que a prioridade natural que deve(ria) ser dada, pela esquerda, à estratégia seja ressaltada.

Por exemplo.

Esta semana foi votado, na Câmara dos Deputados, um projeto sobre sanções a pessoas ou entidades consideradas terroristas.

O PT e o PSOL  votaram contra o projeto. O bloco composto por PDT, PCdoB e PSB optou por fazer uma negociação com o relator. Caso fossem retirados os movimentos sociais da lista dos que podem ser considerados terroristas, o bloco votaria a favor do projeto. A negociação foi bem-sucedida.

Não é emblemático?

Pode até parecer cool e revolucionário se recusar a negociar com políticos antipopulares, conservadores, de direita, enfim. Na dura realidade, porém, lugar em que a balança do poder não anda nada favorável para a esquerda, fazê-lo é, muitas vezes, rifar quem está na linha de frente das lutas de rua, na cidade ou no campo. Beira a irresponsabilidade.

A postura de não fazer aliança, negociação ou acordo com quem não está no mesmo espectro ideológico é uma bandeira do PSOL. O partido têm muitas qualidades, especialmente uma militância jovem e lutadora.

Esperar, todavia, que a conjuntura vire drasticamente e a população eleja um(a) psolista para algum cargo executivo de peso – acompanhado, por suposto, de uma generosa bancada para fazer a sustentação no parlamento sem precisar de alianças, enquanto o trator acelera para cima dos marginalizados de sempre, não me parece uma postura nem remotamente consequente. O mesmo vale para a atitude de não negociar com a direita no parlamento em nome de manter-se “puro” e, dessa forma, abrir mão de possibilidades de mitigação de danos como a conquistada na questão do projeto antiterrorismo.

O PT, por sua vez, atuava de forma diametralmente oposta quando era governo federal. Abdicou quase que completamente do diálogo com as bases para focar tão somente nas negociações parlamentares. Enquanto a economia ia bem, tudo certo. Bastou abater-se a crise sobre o país para o governo, sem sustentação popular, ser abatido.

Agora que está praticamente isolado no jogo do poder, o PT de certa forma volta às suas origens e alinha-se ao PSOL na tática “jogar para perder mas ficar bem na fita diante da militância”.

O que fazer, então?

Articular a atuação institucional com o diálogo com as bases, oras. É claro que é mais complexo do que parece em uma simples frase com meia dúzia de palavras, mas se este não for o norte, estamos muito mal arranjados.

Não é possível vender a ilusão de que basta fincar o pé nas nossas posições que tudo, magicamente, uma hora vai dar certo. É cruel demais com quem sente na pele a violência de um governo truculento e antipovo. A gente sofrida das periferias e dos rincões do Brasil não pode e não tem condições de esperar que a conjuntura vire a nosso favor.

Política é a arte do diálogo. De conquistar mentes e corações. Perdemos a eleição para um desqualificado. A sociedade foi para a direita.

Se esta não for a hora de baixarmos a bola e negociarmos o que for negociável no campo institucional – sempre às claras e sem abrir mão das lutas por fora dos governos e parlamentos, não sei quando será.

Precisamos amadurecer.

Chega de empurrar para o outro lado todo mundo que não se encaixa no que eu entendo por esquerda.

Achei ruim o Ciro Gomes repetir a frase do seu irmão Cid sobre o Lula. Daí a usar isso para vaticinar que Ciro, um quadraço que defende com unhas e dentes pautas caríssimas à esquerda e ao desenvolvimento nacional, é “oportunista”, “de direita”, “traidor”, e etc. vai uma distância abissal. Isto é simplesmente estúpido. Isolacionista. E é claro que muitas das análises furibundas do episódio (mal) escondem o medo de que qualquer outra liderança desbanque algumas hegemonias desmoronantes por aí.

Menos show para os holofotes. Mais estratégia.

Menos picuinha infantil. Mais discussão de projetos.

Eis o caminho.

A propósito: em que pese qualquer errônea relação que se possa fazer entre a imagem que abre o post e o título deste, que sigamos, para desespero do Pondé, festivos.

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A raiz da questão https://www.ocafezinho.com/2019/02/01/a-raiz-da-questao/ https://www.ocafezinho.com/2019/02/01/a-raiz-da-questao/#comments Fri, 01 Feb 2019 15:50:47 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=91749 3 Comentários 🔥]]> O termo radical normalmente é utilizado para se referir a alguém ou algum grupo extremado, inflexível e avesso ao diálogo.

Há, no entanto, um sentido clássico da palavra radical que deveria ser melhor aproveitado nos debates sobre as questões da sociedade. É o sentido, segundo o Michaelis, de “relativo ou pertencente à raiz, à base, ao fundamento, à origem de qualquer coisa”.

Tragédias com a magnitude da de Brumadinho – até ontem (31) foram contabilizados 110 mortos e 238 desaparecidos – exigem que busquemos as raízes do problema.

O rompimento da barragem de Mariana, em 2015, provocou 19 mortes e danos incalculáveis ao ecossistema da região. Deveria ter sido um grave alerta para que as empresas tomassem as medidas de segurança adequadas com vistas a prevenir um novo desastre, bem como para que o poder público intensificasse a fiscalização.

Não parece ter ocorrido nem uma coisa, nem outra.

No ano seguinte à tragédia de Mariana, a Vale diminuiu em 44% os investimentos na área da segurança, segundo o UOL. A Agência Nacional de Águas afirma que existem nada menos que 1.118 barragens no país com alto risco de rompimento. A de Brumadinho era considerada como de baixo risco.

O que leva as empresas a, perdoem a expressão mas ela é exata demais para não ser usada aqui, tacarem o foda-se para o risco de novas catástrofes?

A resposta é evidente: sede por lucro. A possibilidade de um sem número de mortes ou de cidades, rios e florestas serem destruídos transforma-se em meros números nos cálculos dos executivos que definem para onde irá o orçamento das grandes mineradoras.

Eles, os executivos, certamente acabam concluindo que é mais lucrativo gastar com lobby junto aos órgãos de governo ou com campanhas de deputados do que garantir a maior segurança possível para seus predatórios empreendimentos.

O grupo Vale gastou a bagatela de R$ 79,3 milhões em “doações” para políticos nas eleições de 2014. “Doações” – haja aspas – cuja contrapartida é a leniência dos políticos com a leniência dos megaempresários. Cujo resultado é morte e destruição.

A sede por lucro está por trás de muitos tipos de tragédias sociais.

O SUS está sempre sob ataque por parte dos detentores do poder porque há megaempresários sedentos por lucrar ao máximo com planos privados de saúde.

A previdência é constantemente apontada como causa maior para as crises porque há megaempresários sedentos por lucrar ao máximo com planos privados de previdência.

A educação pública é sucateada porque, dentre outros motivos, há megaempresários sedentos por lucrar ao máximo com educação paga.

Esses megaempresários financiam políticos, os quais viram garantidores dos seus interesses nas esferas públicas de poder. Esses megaempresários são aliados dos donos da mídia – até porque estes também são megaempresários -, os quais garantem a manipulação da opinião pública para minimizar o número de políticos renitentes.

Ainda temos o sistema financeiro, do qual estes mesmos megaempresários são atores de peso, que abocanha algo em torno de metade (!) do orçamento do país e usa todos os meios de pressão imagináveis para que o Estado não mexa no seu generoso quinhão.

É um sistema bruto, perverso, frio e calculista.

Mas a raiz deste sistema não é a sede por lucro. A ganância é a expressão de algo mais profundo.

O que faz com que os seres humanos percam a sua… humanidade em nome de, estupidamete, acumular dinheiro, posses e bens?

Roger Waters, aliás, zombou espetacularmente do modo de vida dos ricos na entrevista que deu a Caetano Veloso. Para o ex-vocalisa do Pink Floyd, os ricos são como esquilos exibindo suas nozes. “Olhe, eu tenho uma noz maior que a sua!”, dizem uns aos outros, enquanto incontáveis seres humanos suam sangue para sobreviver.

A minha resposta à pergunta logo acima: uma deturpação completa do que é valioso na vida.

A propaganda capitalista, que está impregnada em todo o espectro cultural e social – dos filmes de Holywood às fofocas de bairro -, vende a ideia de que ter dinheiro é sinônimo de sucesso e felicidade.

Isto é obviamente uma fraude. Ter um jatinho ou morar em uma mansão é nada perto de viver com paz de espírito, em harmonia com os demais e com liberdade para divertir-se e desenvolver seus talentos.

Ocorre que para que um punhado de nababos ostentem suas grandes nozes, uma multidão resta sem acesso ao mínimo de dignidade necessário para se alcançar as coisas realmente importantes na vida.

E não venham os liberais com o lenga-lenga de que não há limite para a riqueza e de que é possível conciliar a existência de bilionários com uma sociedade sem pobres e miseráveis. É evidente que o capitalismo não se importa – mais do que isso, precisa – destes para fazer o trabalho duro e manter as engrenagens funcionando a troco de nada.

O nome do sistema diz tudo: nosso deus é o capital. A balela da meritocracia transforma a brutal desigualdade própria da estrutura capitalista em simples mérito ou demérito individual. A meritocracia seria saudável desde que em patamares civilizados e justos de competição – e com o mínimo de dignidade garantido a todos. Na barbárie capitalista, meritocracia é escárnio.

Há que se mudar os valores dominantes, portanto.

A começar pela conduta pessoal. O deslumbre com besteiras como usar roupas ridiculamente caras ou possuir um iate deve dar lugar à chacota. A cada vez que alguém ostentar riqueza em uma roda de conversa, ironizemos.

Na esfera da luta política, que usemos os espaços de poder para problematizarmos o modelo de acumulação capitalista.

Que saibamos nos comunicar com a população e fomentar discussões sobre outras formas de sociedade, com novos valores. Por que não debatermos a imposição de um limite para a acumulação de capital, para começar?

Que participemos de movimentos, associações, sindicatos e partidos para que, fortalecendo os instrumentos de luta da classe trabalhadora, tenhamos condições de travar o bom combate contra os tubarões do capital, os quais drenam os recursos provenientes do trabalho duro para sustentar seu frívolo padrão de vida.

Que tenhamos inteligência e paciência para debatermos em alto nível, seja ao vivo ou na internet, seja falando ou escrevendo.

Que, quando no governo, possamos implementar um modelo de educação que, ao invés de formar soldadinhos do sistema, liberte consciências das amarras do individualismo acumulador.

À luta.

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Há luta.

Hoje tem ato em homenagem às vítimas de Brumadinho na Praça da Sé, em São Paulo, organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB. Há atividades também em outros estados.

O MAB lançou uma campanha de arrecadação de fundos:

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Pondé e o erro básico do conservadorismo https://www.ocafezinho.com/2018/12/17/ponde-e-o-erro-basico-do-conservadorismo/ https://www.ocafezinho.com/2018/12/17/ponde-e-o-erro-basico-do-conservadorismo/#comments Mon, 17 Dec 2018 18:00:15 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=90992 65 Comentários 🔥]]> O filósofo Luiz Felipe Pondé é um dos mais destacados intelectuais da direita – é claro que a léguas de distância do emplacador de ministros Olavo de Carvalho, que não tem adversário intelectual do seu nível nem na esquerda. Segundo o próprio, é claro.

Pondé publicou, esses dias, um artigo sobre uma proeminente questão filosófica dos nossos tempos: será que homens que gostam de ver fotos de outros homens usando lingerie são gays?

O filósofo leu, no The Guardian, uma opinião sobre o tema, segundo a qual “as namoradas devem estimular o anseio secreto dos namorados”, e aparentemente ficou furibundo:

(A namorada) Deve, quem sabe, estimulá-los a usar calcinhas e batom.

Mundo louco esse, não? Se antes você sonhava com um príncipe —e todo mundo dizia que você era uma idiota manipulada por isso—, agora as especialistas estão a dizer que se seu namorado gosta de ver fotos de homens vestidos de mulher, isso não implica em ele ser gay.

Lamento, mas, provavelmente, você está namorando um gay. Não à toa, uma das perguntas mais comuns das mulheres feitas ao Google nos EUA é “como saber se meu marido é gay?”.

Antes você esperava que seu namorado enfrentasse perigos por você. Agora, especialistas dizem que você deve, quem sabe, estimulá-lo a sair de saia e salto alto para as festas com você.

Uau. Espero que Pondé não frequente blocos de carnaval; aquela profusão de homens de saia deve irritá-lo profundamente.

Para o filósofo, namorado de verdade é o “príncipe” que “enfrenta perigos” pela namorada. Quem sabe arrumar uma briga desnecessária em um bar ou reagir estupidamente a um assalto seriam as provas de valentia modernas? Não se fazem mais machões como antigamente…

Pondé nos brinda, no texto, com mais alguns preciosos decretos filosóficos:

O fato é que os jovens desconhecem dados básicos da realidade, tipo: mulheres mais jovens sempre gostaram de sair com homens mais velhos, seja por amor, encanto, paixão, dinheiro, ascensão social, enfim.

E não estou sendo “judgmental” —adoro essa palavra gourmet: ser “judgmental” é julgar alguém ou algo. O cool é ser “nonjudgmental”, isto é, não julgar ninguém, como se isso fosse possível.

Namorado de verdade só se estiver no padrão “príncipe machão”, mulheres jovens gostarem de homens mais velhos é um “dado básico da realidade”, é impossível não julgar as pessoas… Pondé poderia constar no dicionário como exemplo do que é um conservador.

Depois deste um tanto tortuoso introito com as opiniões terminantes do Pondé – me perdoem, leitoras – chego ao ponto que gostaria de abordar, o erro básico do conservadorismo: a vida, inapelavelmente, evolui.

O erro, portanto, começa pelo nome. Lutar pela simples conservação de estruturas sociais, morais, políticas ou qualquer outra é remar contra o fluxo natural da vida, que, das colônias de insetos às sociedades humanas, é o da evolução.

Além disso, o conservadorismo esconde duas manifestações contraproducentes do ego humano.

Uma delas é o medo. A mudança é sempre desafiadora, pois nos tira da confortável e supostamente segura posição de estagnação.

Nada neste universo, entretanto, pode permanecer para sempre como está. A impermanência é uma característica fundamental da realidade. Tudo tem seus ciclos. Tudo nasce, cresce, atinge seu ápice e morre, seja um brócolis, sua avó, o império romano ou o Sol. Reivindicar a conservação das estruturas vigentes é, portanto, inútil. Como canta o Lulu, tudo muda o tempo todo no mundo.

A outra manifestação do ego subjacente à posição conservadora é a empáfia. O conservadorismo contém em si, implicitamente, a ideia de que chegamos ao ápice do nosso desenvolvimento. Se é bom que conservemos as coisas como são, a decorrência lógica é assumirmos que não temos mais como evoluir. Atingimos, finalmente, a perfeição.

Isso é obviamente falso. O filósofo Sócrates já tinha sacado, na Grécia Antiga, que estar consciente da própria ignorância é infinitamente mais sábio do que achar que se sabe tudo. Estamos no século XXI e os conservadores, inclusive seus representantes filósofos, ainda não captaram a mensagem simples e profunda do pensamento de Sócrates. Ah, se o Pondé tivesse pelos filósofos de antigamente o mesmo apreço que tem pelos namorados…

A mudança e a evolução são, portanto, duas bem estabelecidas leis da natureza. Tanto é assim que os próprios conservadores mudam e evoluem ao longo do tempo. Ou algum conservador ainda defende que a escravidão seja legal, por exemplo?

É evidente que não há uma linearidade na evolução, como o demonstra o momento que o Brasil e boa parte do mundo vive, de reação às mudanças. Mas se o conservadorismo porta um erro insanável em si mesmo, o que dizer do reacionarismo?

Ambos terão que, inapelavelmente, ceder às leis da mudança e da evolução.

Para encerrar, lembro ao Pondé que os grandes mestres espirituais da história da humanidade afirmaram ser possível, sim, não julgar os outros. Trata-se, como tudo na vida, de uma questão de prática. Tirar o rótulo de impossível do nonjudgmental é um bom começo.

Afinal, se é possível não julgar, com muito esforço, quem faz pose de intelectual segurando um cachimbo, você também pode, Pondé.

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A macabra semelhança entre João Amoêdo e Bolsonaro (e Alckmin, Meirelles, Álvaro, Marina…) https://www.ocafezinho.com/2018/08/23/a-macabra-semelhanca-entre-joao-amoedo-e-bolsonaro-e-alckmin-meirelles-alvaro-marina/ https://www.ocafezinho.com/2018/08/23/a-macabra-semelhanca-entre-joao-amoedo-e-bolsonaro-e-alckmin-meirelles-alvaro-marina/#comments Thu, 23 Aug 2018 16:37:03 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=88342 78 Comentários 🔥]]> O Partido Novo se define, em sua página no Facebook, como o “resultado da iniciativa de cidadãos comuns com um mesmo objetivo: devolver poder ao cidadão e assim melhorar a vida das pessoas”. O patrimônio de quase meio bilhão – com “b” mesmo – de reais do seu candidato a presidente demonstra o quão comuns são os cidadãos do partido.

A Wikipedia fornece uma definição muito mais acurada do Novo: “um partido político brasileiro de direita alinhado às ideias do liberalismo econômico”.

Esta definição se aplica com perfeição às candidaturas de Bolsonaro, Alckmin, Meirelles e Álvaro Dias. Todas são de direita e alinhadas às ideias do liberalismo econômico. Excluindo-se as pautas ambientais, Marina Silva também entra nessa lista.

O modelo econômico adotado por cada candidato é o fator que delimita os campos, separando os interesses populares e os interesses do capital. É, portanto, a questão fulcral na eleição.

Para os defensores do capital – adeptos do liberalismo econômico – o Estado deve abster-se de investir em tudo o que interessa para a população: saúde, educação, transporte, etc. O que importa é não atrasar o pagamento da infinita dívida pública e, assim, garantir o lucro dos especuladores. Em uma economia liberal, é importante que o desemprego seja alto para que o valor dos salários possa ser rebaixado e, assim, aumente a taxa de lucro dos grandes empresários.

Ou seja, o liberalismo econômico convive muito bem com a pobreza e a miséria. Elas são parte fundamental do seu projeto, melhor escrevendo. Também a morte não é problema para os liberais, afinal, na “meritocracia”, se você não tiver dinheiro para pagar um plano de saúde, não merece ser tratado e, por consequência lógica, merece morrer. É, em suma, um sistema macabro.

O fato de o escandaloso lucro dos bancos brasileiros – cujas taxas de juros são das maiores do planeta – aumentar nos períodos de crise – mais de R$ 21 bilhões apenas entre maio e junho, 15% maior do que no mesmo período do ano passado – é outra evidência de que o 1% até prefere que o resto da população tenha dificuldades para sobreviver. Já que falamos em bancos, não poderíamos deixar de mencionar que alguns dirigentes do Itaú são os grandes financiadores do Partido Novo.

Claro que nada disso pode ser dito para a população. Usam-se, então, diversos artifícios.

Pintar o Estado como vilão é um deles. Daí o papo furado de “devolver o poder ao cidadão”, como se a guerra se desse entre o Estado e as pessoas. Na realidade, os Estados nacionais são as únicas instituições que têm estatura para defender o cidadão diante do poderio descomunal do capital e seus tentáculos (bancos, multinacionais, mídia, Judiciário).

As palavras que Bolsonaro decorou e os outros candidatos desenvolvem com um pouco mais de sofisticação – desregulamentar, desburocratizar, etc. – também fazem parte do arsenal retórico para esconder a tragédia social que resulta da aplicação dos dogmas liberais.

Outra tática usada pelos representantes do capital é simplesmente mudar de assunto. Daí a insistência exasperante de Bolsonaro nas pautas morais, de Álvaro Dias na Lava Jato, da mídia na questão da corrupção, e assim por diante.

Lula/Haddad, Ciro Gomes e Guilherme Boulos são as candidaturas relevantes que, cada uma a seu modo e com diferentes intensidades, propõem-se a enfrentar a barbárie liberal.

Amoêdo, Bolsonaro, Alckmin, Meirelles, Álvaro Dias e Marina podem diferir em questões pontuais e no modo como se apresentam. Temos o novo, o moralizador, o gestor, o homem do emprego (risos), o lavajateiro, a ambientalista.

Na questão que importa – o orçamento do país vai servir para garantir os investimentos públicos, o emprego e o bem-estar da população ou os lucros dos bancos e dos especuladores? – são idênticos: todos servem ao capital em detrimento dos interesses populares.

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O fantástico festival de mentiras da direita brasileira https://www.ocafezinho.com/2018/08/08/o-fantastico-festival-de-mentiras-da-direita-brasileira/ https://www.ocafezinho.com/2018/08/08/o-fantastico-festival-de-mentiras-da-direita-brasileira/#comments Wed, 08 Aug 2018 14:59:31 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=87883 8 Comentários 🔥]]> Boa parte do trabalho de um(a) militante de esquerda, em tempos de concentração de mídia na mão de meia dúzia de famílias conservadoras, é basicamente apontar as mentiras e distorções que surgem aos borbotões no debate público.

Ao abrir os sites dos vetustos jornalões, logo me deparei com 3 lorotas. E das graúdas.

A primeira saiu na coluna da Mônica Bergamo, na Folha. Segundo a articulista, a campanha de Alckmin tentará descolar-se do governo Temer vinculando-o ao PT. “O argumento é que ele só chegou à Presidência porque Lula o escolheu para vice de Dilma Rousseff. A ideia é usar fotos da dupla e imagens em que petistas elogiam o agora presidente”, informa a coluna.

Cara de pau pouca é bobagem. O PSDB aliou-se a Temer para perpetrar o golpe e para governar, indicando tucanos de alta plumagem para ministérios de peso, como José Serra, Alexandre de Moraes – que depois foi nomeado ministro do STF por Temer – e Aloysio Nunes. O programa econômico privatizante e a política externa subserviente aos EUA são profundamente tucanos. O apoio amplo, geral e irrestrito dos congressistas do PSDB às medidas temeristas é outro elemento que não deixa margem para dúvidas sobre a ligação entre Alckmin e o governo do golpe.

Usar fotos e elogios de petistas a Temer para falsear esta estrondosa realidade só pode ser brincanagem – uma mistura de brincadeira com sacanagem.

A segunda lorota do dia é o editorial do Globo, que discorre sobre o programa de governo apresentado pelo PT. O editorial é o combo completo do reaça, parecendo que foi escrito por um comentarista clássico do G1: defesa canhestra das privatizações; fala em Hugo Chávez e Venezuela para criticar a ideia de uma Constituinte; e por fim afirma que a proposta – óbvia, singela, constitucional – de regular as comunicações, para impedir que detentores de concessões públicas restrinjam o pluralismo e a diversidade, “resulta (n)o estrangulamento da liberdade de expressão e de imprensa”.

A repetição ad infinitum de mentiras e distorções pode até fazê-las parecerem verdade. Essas da Globo, contudo, são tão simplórias que dão é sono.

Por fim temos Bolsonaro distorcendo o dicionário. Questionado sobre as declarações bizarras do seu vice – o general Mourão disse que herdamos a “indolência índigena” e a “malandragem africana” -, Bolsonaro disse o seguinte:

O que é a indolência? É a capacidade de perdoar? Veja aí no dicionário. É a capacidade de perdoar? O índio perdoa. Não é isso? Que mais? Malandragem. Esperteza. É a mesma coisa? É isso? Ohhhh. Me chamam de malandro carioca o tempo todo. O que mais?

Olhei aqui no dicionário e não há nada remotamente perto de “capacidade de perdoar” no vocábulo “indolência”. O general quis dizer que índio é preguiçoso mesmo. É uma daquelas adjetivações usadas por reacionários que tentam justificar o seu injustificável preconceito. Bolsonaro sabe disso e sabe também que a malandragem atribuída aos africanos por Mourão não quer dizer simplesmente esperteza. Sua saída é tentar enrolar os desavisados.

Alckmin, Globo e Bolsonaro são as estrelas de hoje do eterno e deplorável festival de mentiras e distorções proporcionado pela direita brasileira.

É o que lhes resta, levando em conta a indefensabilidade do seu programa brutal de manutenção da exclusão, da miséria e da sociedade de castas em que vivemos.

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Uma teoria psicológica sobre o lulismo juvenil de Bretas https://www.ocafezinho.com/2018/06/06/uma-teoria-psicologica-sobre-o-lulismo-juvenil-de-bretas/ https://www.ocafezinho.com/2018/06/06/uma-teoria-psicologica-sobre-o-lulismo-juvenil-de-bretas/#comments Wed, 06 Jun 2018 22:00:51 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=86414 25 Comentários 🔥]]> (De lulista a morista: Bretas oferecendo pipoca a Sérgio Moro)

Por Pedro Breier

Obrigado pela sua postura no depoimento. É relevante a sua história para todos nós. Para mim, inclusive, que aos 18, 17 anos estava aqui num comício na avenida Presidente Vargas com 1 milhão de pessoas. Vivíamos um momento diferente no país. Estava lá, usando boné e camiseta com o seu nome.

As palavras acima foram proferidas pelo juiz Marcelo Bretas e dirigidas a Lula, durante depoimento realizado ontem (5) por videoconferência. Lula, com seu bom humor habitual, disse que chamaria o juiz para participar de um próximo comício.

Ao tomar conhecimento desta estranha manifestação espontânea de Bretas, lembrei-me imediatamente das acaloradas discussões que tomaram o Brasil no período que precedeu o golpe de 2016.

A partir de 2015, o antipetismo histérico atingiu seu ápice. Era comum, então, que os favoráveis ao impeachment antecedessem seus argumentos com colocações ao estilo Bretas.

“Eu sempre votei no Lula” ou “eu fazia campanha pro PT” virou uma espécie de salvo-conduto autoconcedido para posicionar-se a favor do golpe.

Na época, uma amiga me contava, aos risos, de uma colega de trabalho que sempre precedia seus posicionamentos reacionários com um “Eu fui fundadora do PT!”.

Até no filme sobre a Lava Jato essa espécie de justificativa aparece. Em uma cena, o pai de um dos investigadores questiona o filho sobre a seletividade da operação e este responde: “Quem cai na nossa mão é investigado. Até parece que eu não votei neles também. Eu fiz campanha, esqueceu?”

Tamanha recorrência do mesmo recurso “argumentativo” é bastante interessante, a ponto de este colunista pedir licença aos leitores para lançar uma tese psicológica de botequim sobre o tema.

A minha teoria é a seguinte: no fundo, bem no fundinho, no nível subconsciente, o antipetista atávico sabe que seus posicionamentos políticos decorrem de sentimentos nada nobres como o ódio de classe e o racismo.

O ódio das classes média e alta, usado como combustível para a derrubada do governo Dilma, nunca foi ao PT especificamente, mas à ascensão social que os governos petistas representam no imaginário popular – e, em boa medida, na prática.

Sabendo disso, ainda que inconscientemente, a mente do antipetista tenta, de forma instintiva, esconder essas motivações profundas para dar um ar de legitimidade aos seus posicionamentos conservadores/antipovo/antidemocráticos.

Daí o estrondoso sucesso da tática de alegar que sempre votou no PT, fez campanha ou até que usou boné e camiseta do Lula quando era jovem.

Quer dizer, o estrondoso sucesso passou.

Depois que o golpe mostrou a que veio, por meio do desastre que atende pelo nome de governo Temer, a tática saiu de moda, junto com as panelas e a camisa da CBF.

P.S.: Para quem quiser prescrutar os verdadeiros posicionamentos políticos de Bretas, aqueles que ficam (mal) escondidos sob o suposto lulismo juvenil, recomendo o artigo Os recados abertamente fascistas de Marcelo Bretas, do Miguel do Rosário.

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