Literatura - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/literatura-2/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Sat, 30 Aug 2025 14:35:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Literatura - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/literatura-2/ 32 32 Escritor Luis Fernando Verissimo morre aos 88 anos https://www.ocafezinho.com/2025/08/30/escritor-luis-fernando-verissimo-morre-aos-88-anos/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/30/escritor-luis-fernando-verissimo-morre-aos-88-anos/#respond Sat, 30 Aug 2025 17:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216429 Ele estava internado em Porto Alegre, após uma grave pneumonia

O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, de 88 anos, morreu na madrugada deste sábado (30) após complicações causadas por um caso grave de pneumonia. Ele estava internado desde o dia 11 de agosto em uma unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O velório será na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a partir de meio-dia.

Verissimo deixa a esposa, Lúcia Helena Massa, e três filhos: Pedro, Fernanda e Mariana Verissimo. Ele tinha mal de Parkinson, problemas cardíacos e sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2021. Um ano depois, recebeu um marca-passo no coração.

Filho do escritor Érico Verissimo, Luis Fernando publicou mais de 80 títulos, entre eles As Mentiras que os Homens Contam, O Popular: Crônicas ou Coisa Parecida, A Grande Mulher Nua e Ed Mort e Outras Histórias.

Foram as crônicas e os contos que o tornaram um dos escritores contemporâneos mais populares no país. O Analista de Bagé, lançado em 1981, teve a primeira edição esgotada em uma semana.

O escritor construiu uma trajetória profissional rica, com atuação em diferentes áreas e produção em vários formatos. Trabalhou como cartunista, tradutor, roteirista, publicitário, revisor, dramaturgo e romancista. Sua obra é marcada pelo bom humor, assertividade e crítica. Além das palavras, foi um amante da música, dedicado à prática do saxofone.

Em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, ele contou como iniciou “tarde” na carreira de escritor, após começar a trabalhar na redação do jornal Zero Hora, na década de 1960.

“Até os 30 anos eu não tinha a menor ideia de ser escritor, muito menos jornalista. Eu fiz de tudo, e nada deu certo. Aí quando eu comecei a trabalhar em jornal – e naquela época não precisava de diploma de jornalista – foi quando eu descobri a minha vocação. Sempre li muito, mas nunca tinha escrito nada. Então, eu sou um caso meio atípico”, disse.

Assista ao trecho da entrevista no Sem Censura

Com fama de ser um homem calado, Verissimo costumava dizer que não era ele que falava pouco, “os outros é que falam muito”. Em 2017, quando tinha chegado aos 80 anos, ele disse em entrevista ao programa Conversa com Rosean Kennedy, da TV Brasil, como gostaria de ser lembrado.

“Gostaria de ser lembrado pelo o que eu fiz, pela minha obra, se é que posso chamar de obra, mas pelos meus livros. E, talvez, pelo solo de um saxofone, um blues de saxofone bem acabado”, contou.

Na mesma entrevista ele disse que tinha uma fantasia de ser conhecido e viver apenas da música, que era sua paixão. E aconselhou que a vida não deve ser levada tão a sério.

“No fim, pensando bem, a vida é uma grande piada. Acontece tudo isso com a gente, e a gente morre…que piada, né? Que piada de mau gosto. Mas acho que temos que encarar isso com uma certa resignação, uma certa bonomia [bondade]”.

Assista a íntegra da entrevista ao programa Conversa com Rosean Kennedy, da TV Brasil

Publicado originalmente pela Agência Brasil* em 30/08/2025

*colaborou Anna Karina de Carvalho

Edição: Amanda Cieglinski

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Theófilo Rodrigues lança “Capitalismo e Sustentabilidade” no Rio nesta terça-feira (12/11) https://www.ocafezinho.com/2024/11/11/theofilo-rodrigues-lanca-capitalismo-e-sustentabilidade-no-rio-nesta-terca-feira-12-11/ https://www.ocafezinho.com/2024/11/11/theofilo-rodrigues-lanca-capitalismo-e-sustentabilidade-no-rio-nesta-terca-feira-12-11/#respond Mon, 11 Nov 2024 17:41:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=196853 Coquetel de lançamento acontecerá na Livraria Argumento, no Leblon; O livro sai pela Editora Vozes.

“Capitalismo e Sustentabilidade: empresa regenerativa e a sustentabilidade corporativa no século XXI”, novo livro de Theófilo Rodrigues, terá seu coquetel de lançamento no Rio de Janeiro na próxima terça-feira (12/11), na Livraria Argumento, no Leblon.

Publicado pela Editora Vozes, o livro conta com prefácio do professor titular da UFRJ, Fabio Scarano, e orelha do pesquisador do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), Paulo Branco.

Ao longo de 240 páginas, o autor demonstra como o aquecimento global, as mudanças climáticas, a degradação dos ecossistemas e a perda da biodiversidade transformaram a sustentabilidade na grande agenda do século XXI.

O evento de lançamento no Rio de Janeiro contará com um bate papo com a presença do autor e do consultor em sustentabilidade, Paulo Branco. O primeiro lançamento do livro aconteceu em outubro na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Sinopse

O aquecimento global, as mudanças climáticas, a degradação dos ecossistemas e a perda da biodiversidade transformaram a sustentabilidade na grande agenda do século XXI. Algumas empresas compreenderam isso ao adotarem elementos da sustentabilidade corporativa como práticas cada vez mais corriqueiras. Há, no entanto, muitas dúvidas ainda sobre as melhores formas de aplicação dessa sustentabilidade corporativa no dia a dia das empresas. Nos últimos anos, abordagens como a do ESG tornaram-se usuais, mas esses modelos são criticados por suas complexas operacionalidades e por seus escopos insuficientes. Além disso, a maquiagem verde e social – greenwashing, socialwashing – tornou-se fenômeno recorrente. Para superar esse cenário, este livro apresenta um conceito original e inovador de sustentabilidade corporativa – a “Empresa regenerativa”.

Serviço

Coquetel de lançamento do livro “Capitalismo e Sustentabilidade”

Data: Terça-feira, 12/11, às 18:30

Local: Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417, Leblon)

Clique aqui para adquirir o livro pela internet.

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Prêmio Camões vai para o português João Barrento https://www.ocafezinho.com/2023/10/11/premio-camoes-vai-para-o-portugues-joao-barrento/ https://www.ocafezinho.com/2023/10/11/premio-camoes-vai-para-o-portugues-joao-barrento/#respond Wed, 11 Oct 2023 14:31:40 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=166681

Ensaísta, crítico literário, cronista e tradutor português conquista o prêmio mais importante da literatura em língua portuguesa

O ensaísta, crítico literário, cronista e tradutor português João Barrento é o vencedor do Prêmio Camões 2023, a mais importante premiação da literatura em língua portuguesa. Barrento foi escolhido após consenso entre os jurados, em reunião realizada de forma virtual nesta terça-feira (10). Leia a nota de justificativa do júri:

“João Barrento foi reconhecido pelo júri como autor de uma obra relevante e singular em que avultam o ensaio e a tradução literária. Em particular, as suas traduções de literatura de língua alemã, que vão da idade média à época contemporânea, e em todos os gêneros literários, formam o mais consistente corpo de traduções literárias do nosso patrimônio cultural e constituem indubitavelmente um meio de enriquecimento da língua e de difusão em português das grandes obras da literatura mundial”.

Logo após o anúncio, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, parabenizou João Barrento: “É uma alegria ver nomes valorosos da Literatura recebendo reconhecimento por seu trabalho. João Barrento tem uma importante contribuição na formação do público, para além das traduções, é autor de ensaios e crônicas atemporais riquíssimas”.

O júri foi composto por seis membros: os professores portugueses Abel Barros Baptista e Isabel Cristina Mateus; o escritor Deonísio da Silvia e o professor Cléber Ranieri Ribas de Almeida, ambos brasileiros; e os dois representantes das demais nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): a professora Inocência Mata, de São Tomé e Príncipe, e o ensaísta e crítico de arte Dionísio Bahule, de Moçambique.

João Barrento receberá 100 mil euros pela conquista, um dos maiores valores do mundo entre os prêmios literários. A quantia é concedida por meio de subsídio da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) – uma entidade vinculada ao Ministério da Cultura – e do Governo de Portugal.

“João Barrento é dos nomes mais representativos da literatura portuguesa. Sua trajetória de professor, pesquisador, prosador e tradutor constitui uma das mais sólidas bases humanísticas do nosso tempo. Particularmente, preso a perspectiva de seus estudos alemães. Ótimo tradutor, excelente ensaísta – de que cito especialmente a sua biografia do poeta alemão Hölderling. Merecido prêmio. Reconhecimento e aplauso”, afirmou o presidente da FBN, Marco Lucchesi.

Sobre o Prêmio

O Prêmio Camões de Literatura foi instituído em 1988 com o objetivo de consagrar um autor de língua portuguesa que, pelo conjunto de sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural de nossa língua comum.

A Menção Internacional foi criada pelo Protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre os governos português e brasileiro, representados, respectivamente, pela Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas/Secretaria de Estado da Cultura (Portugal), e pela Fundação Biblioteca Nacional/Ministério da Cultura (Brasil).

Considerado o mais importante prêmio da Língua Portuguesa, o Camões contempla anualmente autores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP.

A comissão julgadora é composta por representantes do Brasil, de Portugal e de países africanos de língua oficial portuguesa.

O autor premiado, além de ter o conjunto de sua obra reconhecida, recebe uma láurea no valor de 100 000€. Metade deste valor é subsidiado pela Fundação Biblioteca Nacional.

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A única entrevista com Clarice Lispector https://www.ocafezinho.com/2017/12/11/unica-entrevista-com-clarice-lispector/ https://www.ocafezinho.com/2017/12/11/unica-entrevista-com-clarice-lispector/#comments Mon, 11 Dec 2017 20:26:06 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82062 2 Comentários 🔥]]> ]]> https://www.ocafezinho.com/2017/12/11/unica-entrevista-com-clarice-lispector/feed/ 2 Um poema traduzido do filme Paterson https://www.ocafezinho.com/2017/08/22/um-poema-traduzido-do-filme-paterson/ https://www.ocafezinho.com/2017/08/22/um-poema-traduzido-do-filme-paterson/#comments Tue, 22 Aug 2017 15:51:23 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=77680 5 Comentários 🔥]]> Traduzi um dos poemas do filme Paterson, de Jim Jarmush. Os textos são, na verdade, do poeta americano Ron Padgett, e a maioria deles foi escrita especialmente para o filme.

Poema de amor

A casa está cheia de caixas de fósforo
Nós as deixamos sempre a mão
No momento, nossa marca favorita
É a Ohio Blue Tip
Mas até pouco tempo preferíamos o Diamond
Isso foi antes da gente descobrir
Os fósforos da Ohio Blue Tip
Eles são excelentemente guardados
Em sólidas e pequenas caixas
De rótulo escuro, branco e azul claro
Com palavras estilizadas
Em forma de megafone
Como se quisesse gritar alto ao mundo
Aqui está o mais belo palito do mundo
Um delicado palito de quatro centímetros
Com uma cabeça granulada, escura e púrpura
Tão sóbrio e furioso e determinadamente pronto
A irromper em chamas
Acendendo, talvez, o cigarro da mulher que você ama
Pela primeira vez
E nada mais foi o mesmo depois disso.

Tudo que eu quero te dar
É o que você deu a mim
Eu tornei-me o cigarro e você o fósforo
Ou eu o fósforo e você, o cigarro
Queimando com beijos que fumegam até o céu

(Tradução: Miguel do Rosário)

***

Love Poem

We have plenty of matches in our house
We keep them on hand always
Currently our favourite brand
Is Ohio Blue Tip
Though we used to prefer Diamond Brand
That was before we discovered
Ohio Blue Tip matches
They are excellently packaged
Sturdy little boxes
With dark and light blue and white labels
With words lettered
In the shape of a megaphone
As if to say even louder to the world
Here is the most beautiful match in the world
It’s one-and-a-half-inch soft pine stem
Capped by a grainy dark purple head
So sober and furious and stubbornly ready
To burst into flame
Lighting, perhaps the cigarette of the woman you love
For the first time
And it was never really the same after that

All this will we give you
That is what you gave me
I become the cigarette and you the match
Or I the match and you the cigarette
Blazing with kisses that smoulder towards heaven

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Tome e leia, amigo leitor! https://www.ocafezinho.com/2017/01/03/tome-e-leia-amigo-leitor/ https://www.ocafezinho.com/2017/01/03/tome-e-leia-amigo-leitor/#comments Tue, 03 Jan 2017 14:49:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=64778 3 Comentários 🔥]]>

 

Convite à leitura do novo livro de Paulo Henrique Amorim

Por Epaminondas Demócrito d’Ávila*

Diz a lenda que Agostinho, imerso em profunda crise intelectual e existencial, ouviu no verão de 386 uma voz de criança, dizendo-lhe repetidas vezes: tolle, lege – Tome e leia! Agostinho seguiu o conselho, leu – e virou Santo Agostinho. O resto é história.

***

O Brasil está mal. O jornalismo, bem.

Explico-me: não me refiro à mídia impressa e televisiva, à Rede Globo, à VEJA, ÉPOCA e ISTOÉ, aos jornalões, à asinina opinião publicada, que usurpa a opinião pública e é controlada por algumas famílias ou, como diz com mais propriedade o termo italiano, do Mezzogiorno: famiglie.

Refiro-me ao jornalismo renascido, renovado, reinventado, não apenas vivo, mas vigoroso nesses tempos bicudos. Ao jornalismo primevo, que retorna às suas origens no séc. XVIII, quando os iluministas europeus opuseram aos arcanos do Estado absolutista a “esfera pública” (Öffentlichkeit), descrita por Jürgen Habermas na sua famosa tese de livre-docência de 1961, publicada em 1962.

Paulo Henrique Amorim, ou simplesmente PHA, sociólogo de formação, é um dos representantes mais originais desse novo e velho jornalismo. É também um dos seus representantes mais completos. Move-se com igual desenvoltura na escrita e na oralidade, em benefício de ambas.

Lançado há um ano, seu livro O quarto poder é uma das melhores obras sobre a mídia no Brasil. Seu blog Conversa Afiada e os clips da TV Afiada são um esforço diário em desasnar o leitor e ouvinte e lançar fachos de luz nas trevas midiáticas.

Seu novo livro, Manual inútil da televisão e outros bichos curiosos (São Paulo, Hedra, 2016) foi lançado em 22 de novembro em São Paulo na Livraria Saraiva em Higienópolis, perto da residência de FHC, que não deve ter comparecido na noite de autógrafos para comprar o livro do colega.

O livro contém vários manuais de TV e muitas histórias do repórter de televisão Paulo Henrique Amorim. Na opinião do autor, “histórias e nada mais do que isso” (p. 9; os números entre parênteses sempre indicam a página). Permito-me discordar. As histórias de PHA são uma forma muito clássica e peculiar de narrar a História: permitem ouvir na anedota o sopro da História, apresentam o universal no particular. São histórias e muito mais que histórias: ecos da História. Sua brevidade é resultado de longa observação do mundo e de um extraordinário poder de síntese, que muitos pensadores acadêmicos não alcançam.

Nesse sentido, a sugestiva dedicatória a Hedyl Valle Jr., “que me levou do jornal para a televisão na esperança de ‘trocar a profundidade pelo alcance'” (7), merece um comentário, aqui formulado como pergunta retórica: seriam a profundidade e o alcance mutuamente excludentes?

A composição do livro é engenhosa e de simplicidade sofisticada. Os manuais e as anedotas, estas contadas com virtuosismo e elegância, são pontuados por frequentes textos de extrema brevidade. Eles funcionam como contrapontos à ‘música’ do texto e convidam o leitor a estabelecer novos nexos entre os capítulos. Três exemplos: O Ministério Público é o DOI-CODI da democracia”. De um constituinte de 1988 (51), “Mídia técnica foi o jeito que o Lula e a Dilma acharam de, tecnicamente, fazer publicidade do governo na Globo.” Roberto Requião (62) e “Jornal, rádio e tevê são instrumentos políticos.” Assis Chateaubriand (69). “Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère” (Baudelaire, na tradução de Ivan Junqueira: “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”): você pode imaginar testemunho mais insuspeito do que o de “Chatô, o rei do Brasil”?

Livros são também escritos pelos seus leitores, que glosam os raciocínios sugeridos pelos autores. Na melhor tradição iluminista, PHA conta com o leitor co-autor. Mobiliza o leitor, dá asas à sua imaginação. Deixa espaços nas entrelinhas do seu texto. Sabe que sem leitores co-autores nunca teremos uma esfera pública.

Concluo essa breve resenha com uma das muitas sutilezas, que PHA acomodou em uma oração subordinada relativa, ao mencionar que a cantora Madonna dera “uma entrevista ao David Letterman, que o Jô Soares inutilmente tenta imitar”.

***

Tome e leia, amigo leitor! Você não se arrependerá.

 

* Jurista, filósofo e professor emérito

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Vazou a reunião da CIA! https://www.ocafezinho.com/2016/11/16/vazou-reuniao-da-cia/ https://www.ocafezinho.com/2016/11/16/vazou-reuniao-da-cia/#comments Wed, 16 Nov 2016 14:34:44 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=59861 9 Comentários 🔥]]> Num país onde a realidade supera a ficção em surrealismo, e desafia as regras de verossimilhança, vale um pouco de exercício ficcional para desvendar a realidade.

Reunião na CIA em novembro de 2016 [1]

Por Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia, em seu blog

Em torno de imensa mesa, no escritório central desta agência, em Langley, estão acomodadas cerca de vinte pessoas. Em uma cabeceira, está o anfitrião que inicia a reunião:

– Faz um ano e dez meses que nos reunimos nesta mesma sala. Tivemos enorme sucesso com a nossa trama, elaborada a partir daquela reunião. Muitos dos que aqui estavam no passado voltaram hoje. Devemos analisar a situação do Brasil, novamente, e discutirmos ações para não perdermos o controle. Contudo, é interessante recapitular o que conseguimos realizar no período entre as duas reuniões, inclusive para situar novos integrantes. Por favor, tenha a palavra, Greg.

– Pois não. A nossa grande vitória, no período, foi a expulsão da presidente eleita e a colocação em seu lugar de um colaborador antigo nosso. A trama arquitetada funcionou esplendidamente. Os representantes do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia e da classe política, por nós cooptados e treinados representaram seus papéis magistralmente. A mídia, dominada há anos por nós, atuou também com extrema perfeição, conseguindo convencer a maioria da população que a honesta presidente tinha participado de deslizes éticos. É conhecido que a mídia dominada faz o povo do país agir contra seus próprios interesses. Além disso, a dominação através da mídia é mais barata do que a militar e tem a vantagem de deixar a população satisfeita, dentro do mundo irreal criado por ela, o que não acontece com a dominação através da força bruta.

– Seria interessante, agora, você nos expor o que acontece atualmente no Brasil.

– Sim. Infelizmente, o vice na chapa da presidente eleita, que tomou posse após nossa trama, não é das mentes mais brilhantes e não seria a nossa preferência, se fosse possível escolher. Apesar dos esforços que nossa mídia fez para melhorar a sua imagem, a maioria da população o rejeita e a seu governo. Sabíamos sobre as suas limitações, tanto que mandamos mensagem a ele que quem iria governar de fato seria o Ministro da Fazenda, mas como uma “eminência parda”. Não tínhamos outra opção, a menos que o golpe pudesse ficar bem mais caracterizado.

– Não se esqueça de explicar o que nos surpreendeu.

– Certo. Em parte por causa do mau ator que está na Presidência, mas também devido a uma resposta rápida de sindicalistas, movimentos sociais, associações de classe, artistas, intelectuais, partidos e militantes de esquerda ou nacionalistas, através da mídia alternativa, nossa trama começou a ser desmascarada.

– Não houve controle da mídia alternativa?

– Está-se tentando este controle, tanto que muitas delas estão pedindo suporte financeiro aos leitores. Consta que a única revista semanal de esquerda, Carta Capital, e uma das mais antigas revistas mensais de esquerda, Caros Amigos, correm o risco de sair do mercado. Vejam bem, essas mídias têm motivação ideológica, pois são capazes de quebrar a serem cooptados. Por outro lado, havíamos abandonado nossa mídia, porque eles, sentindo-se muito importantes, estavam reivindicando mais retorno. Nosso mau ator ou alguém que trabalha com ele estava criando dificuldades. Mas isso já foi corrigido e, como exemplo, a Globo e a Abril acabaram de receber quantias vultosas.

– Podemos ficar tranquilos que o pior já passou e a dominação continuará?

– Não. Por uma razão simples. A esquerda realmente tem o interesse de satisfazer a sociedade. Alguns de seus representantes andaram metendo os pés pelas mãos, para felicidade nossa. Assim, se são dadas explicações verdadeiras à sociedade, ela vai querer o que é melhor para ela. Nós precisamos de grande dose de criatividade para declarar objetivos, que não são os nossos verdadeiros, e conseguir ludibriar a população. No nosso caso, qualquer mínimo tropeço pode ser fatal. Por exemplo, o cidadão que colocamos na Presidência pensou em nos satisfazer e está propondo virar o Brasil de cabeça para baixo do dia para noite. Ele pensa que não existirá a solidariedade entre os desafortunados? Que não ficará óbvia a nossa trama? O pessoal que será prejudicado com os cortes na saúde se solidarizará com os que terão seus salários, pensões e aposentadorias comprimidas, ambos se solidarizarão com os estudantes que perderão uma boa educação, todos marcharão junto aos petroleiros em protesto contra a dilaceração da Petrobras e, por aí, vai. Está sendo provado que as esquerdas não se solidarizam só na cadeia. Solidarizam-se também em momentos de grande opressão, como o que está sendo providenciado, hoje, pelo mau ator e, também, pelo Ministro da Fazenda.

– Como assim?

– Vamos analisar, em detalhe, o momento atual. Foram mandados para o Congresso, simultaneamente, propostas de emenda à Constituição (PEC), projetos de lei (PL) e medidas provisórias (MP), sobre uma variedade de temas. Há a PEC que reduz os gastos públicos nos próximos 20 anos, permitindo cortes em orçamentos deste período, na educação, saúde, mobilidade urbana e outras áreas. Existe a MP que reformula o ensino médio. Acabou de ser aprovado o PL que “flexibiliza” a exploração do Pré-Sal. Fala-se muito da reforma da previdência, que certamente é o tema mais sensível de todos. Está-se providenciando também a reforma política, de enorme interesse dos próprios votantes desta reforma. Está na lista de espera também a reforma trabalhista, quase tão explosiva quanto a previdenciária, onde se ouve falar que o acordado irá prevalecer sobre o legislado. Para aumentar a confusão, o presidente do Senado ameaça colocar em pauta o projeto de lei relativo ao abuso de autoridade.

– E o povo o que acha?

– O brasileiro, que é um povo bastante dócil, não deve aguentar tanto massacre! Estas reformas são comunicadas, à exaustão, como sendo necessárias para a retomada do crescimento. Porem, esta retomada nunca virá por estas providências. Todas elas visam garantir os recursos para o pagamento de uma dívida, que talvez seja inexistente. Servem também para aumentar os lucros dos empresários à custa da pauperização dos trabalhadores. Como já foi dito, Meirelles é um homem de confiança nosso e ele acha possível a implantação deste plano tão excludente com essa rapidez. Houve discussão entre nós, pois uma corrente achava que este massacre iria acordar as massas brasileiras. Outros apostavam em que a nossa mídia iria camuflar tudo e o povo aceitaria o sofrimento na esperança de chegar algo, que verdadeiramente nunca ocorrerá. O comando resolveu aceitar a posição do Ministro. Enquanto isso, piorando o clima político, o ator desastrado fez mais, pois nomeou seu ministério sem nenhuma mulher e nenhum negro, deu aumentos polpudos para juízes e outras classes privilegiadas, enquanto o aumento do salário do povo era mínimo, nomeou ministros polêmicos, como o da Educação, que prega a “Escola sem partido”, dentre outras medidas.

– Mas, nos digam o que vai resultar de tudo isso?

– Esta pergunta é difícil de responder exatamente porque optamos pelo caminho mais rápido, com maiores incertezas. Tudo vai depender da conscientização do povo, que é função da capacidade de enganar da mídia tradicional, principalmente dos telejornais, grande influenciador da opinião das massas, da interferência da mídia alternativa na mesma formação de opinião das massas, do comportamento de grandes lideranças etc. Estamos tendo desavenças entre grupos de nossos apoiadores, todos com interesses nas eleições de 2018. Não podemos, com grande antecipação, apoiar qualquer grupo que deseja chegar à Presidência. Já apoiamos o PSDB no passado. Aliás, fomos responsáveis por sua chegada à Presidência com o perfeito plano de conquista do poder proporcionado pelo real. E, nesta época, o PSDB cumpriu todas as promessas que fez conosco. Agora, o PMDB passou a ter também um projeto de poder para 2018, possivelmente com o atual presidente. Este quer chegar em 2018 com todas as reformas que indicamos implantadas e exigir reciprocidade. Por isso ele tem pressa em fazê-las passar, para demonstrar competência.

– Mas, ele não é corrupto também?

– É o que um delator da Lava Jato diz! No Brasil, há muito tempo, tem corrupção na política com raras exceções. Em quase todos os partidos, há corruptos, sim! Nosso plano de chamar a atenção para os casos do PT deu certo. Não queremos mais o PT, nem Lula e nem Dilma no poder. E, sobre este tópico, existe uma versão errada: não queremos mais eles à frente do Brasil, não pela inclusão social que eles promoveram desde que ela não comprometesse as retiradas dos nossos investidores no Brasil. Não os queremos pelas iniciativas de soberania com desafio à nossa hegemonia. Paralisaram as privatizações. Elaboraram um Plano Nacional de Defesa, no qual os potenciais inimigos não eram mais os comunistas brasileiros, os narcotraficantes colombianos e o MST. Passaram a considerar como inimigas as Forças Armadas estrangeiras que buscariam se apropriar do Pré-Sal ou de área da Amazônia. Ousaram ter submarino nuclear, caças com o conhecimento da tecnologia e a ultracentrifugação de urânio. Participaram da criação dos BRICS. Aventaram a possibilidade de fazerem comércio só com as cinco moedas do bloco e, não, com o dólar. Criaram o Banco e o Fundo Monetário dos BRICS. Incrementaram o comércio com a África e com os países árabes. Participaram ativamente do MERCOSUL. Criaram a UNASUL e a CELAC. Colocaram-se como mediador entre o Irã e os Estados Unidos, quando deveriam nos apoiar. As empresas de engenharia brasileiras passaram a receber financiamento para os serviços vendidos no exterior, deslocando empresas norte-americanas. Criaram um novo marco regulatório para o Pré-Sal, quando deveria continuar valendo a Lei das Concessões. Enfim, o Brasil estava tomando posições de um nascente hegemon. E futuros competidores devem ser frustrados ao nascer, enquanto ainda são frágeis.

– E o tal juiz Moro e os procuradores de Curitiba? Onde ficam neste contexto?

– Eles fazem parte do sistema implantado. Está certo que eles tiveram e têm papéis fundamentais, que estão sendo bem desempenhados. Mas são só peças no tabuleiro.

– Uma pergunta que todos devem estar formulando. Com a nova administração Trump, tudo muda?

– Como representante do governo norte-americano, eu não sei lhe responder. Pensamos, inclusive, em cancelar esta reunião. Mas, como a havíamos convocado, há muito tempo, não quisemos mudar.

– Vocês pensaram que a Hillary iria ganhar! Mas o que vai acontecer agora?

– A partir de agora, abstraindo-se das eventuais novas diretrizes, dois caminhos poderão ser trilhados e eles se diferenciam pela percepção ou não da sociedade brasileira do que está ocorrendo. Se ela perceber, muito do que conseguimos até agora poderá ser perdido. No entanto, se continuarmos a ludibriar a sociedade, teremos a vitória total. E o Brasil será uma simples colônia.

[1] Não é indispensável, a leitura do artigo anterior “Reunião na CIA em janeiro de 2015”, disponível em: http://paulometri.blogspot.com.br/2016/08/reuniao-na-cia-em-janeiro-de-2015.html

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O golpe, visto do futuro https://www.ocafezinho.com/2016/11/07/o-golpe-visto-do-futuro/ https://www.ocafezinho.com/2016/11/07/o-golpe-visto-do-futuro/#comments Mon, 07 Nov 2016 22:19:46 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=59078 3 Comentários 🔥]]>  

(Imagem da animação Uma História de Amor e Fúria, de 2011. Tirada do Blog de Cinema, no Diário do Nordeste).

Arpeggio – coluna política diária – 07/11/2016

Por Miguel do Rosário

Queridas leitoras, segue abaixo mais um trecho exclusivo de Vana, o romance sobre o golpe que estou escrevendo.

O trecho abaixo é uma parte do primeiro capítulo, que é um distopia futurista. Passa-se em 2046. Vana, que em 2016 era uma jovem universitária, agora é uma atraente mulher de 50 anos, recentemente de volta ao Brasil depois de algumas décadas exiladas no exterior.

O livro está em fase de finalização. Meu plano é lançá-lo ao final deste mês.

***

(…)

Desde o golpe de 2016, que havia derrubado a presidenta Dilma Rousseff, a história brasileira tinha vivido três ciclos políticos. O primeiro ciclo durou até pouco antes de 2030: começa com a chegada ao poder de Michel Temer, a destruição das grandes empresas estratégicas, privatizações em massa, fim de eleição direta para presidente da república. O segundo é mais curto. Inicia-se ao final de 2028, com a volta das diretas e a eleição de um presidente progressista, Nelson Murad.

Murad governa por cinco anos, mas é derrubado no primeiro ano após sua reeleição – pelo mesmo modus operandi já usado em 2016, contra Dilma, e conduzido pelas mesmas organizações.

O terceiro ciclo tem início em 2033, com o golpe (o segundo em 17 anos) que derrubou o governo eleito, e se estende até os dias de hoje.

Por razões que não cabe explicar agora, o Brasil era dominado, desde meados dos anos 20 (anos 2020, que fique bem entendido), por duas grandes organizações: a Hermes e a Millenium.

Hermes representava a burocracia, a Millenium, a mídia e a classe política.

Policiais, juízes, desembargadores, auditores da receita, um ou outro professor universitário, a elite do funcionalismo, em suma, reunia-se sob a Hermes, a organização que indicava os chefes do Executivo desde a ascensão de Michel Temer, o primeiro fantoche de uma longa lista que vinha até nossos dias.

Quer dizer, em 2016, a Hermes ainda não estava oficialmente constituída, mas já havia uma grande organicidade nas decisões da burocracia, como se viu no jogo de cartas marcadas que foi o impeachment da presidenta Dilma. A organização seria inaugurada oficialmente em 2021, já em plena ditadura.

Competindo com a Hermes na disputa pelo poder, a Millenium, era composta por barões da mídia nacional, alguns bilionários domésticos e um pool de corporações multinacionais lideradas pela Blackrock, o maior fundo de investimentos do mundo. Ela também foi criada no início dos anos 20, mas igualmente já existia um esboço de organização durante o golpe de 2016.

As duas organizações tinham um acordo entre si, uma espécie de divisão de tarefas.

A Hermes caberia o controle do Estado, através de sua influência na elite do serviço público, em especial nas esferas jurídicas e policiais. Como recompensa, juízes, promotores e delegados receberiam os maiores salários do planeta, em termos proporcionais, e a Hermes indicaria o presidente da república, ao qual blindaria contra qualquer processo judicial.

A Millenium era o braço financeiro e midiático do consórcio. Manteria o controle da opinião pública, e patrocinaria, com dinheiro e mídia, a eleição dos parlamentares certos. A recompensa era óbvia. Leis favoráveis seriam aprovadas e sancionadas, tanto para as empresas de mídia quanto para as multinacionais que operavam no Brasil, e cujo espaço tinha crescido muito após a limpeza de terreno promovida pela Lava Jato, primeira grande operação em parceria das forças em que gerariam, alguns anos depois, a Hermes e a Millenium.

O acordo entre as duas organizações se manteve estável por muitos anos. A eleição de Murad em 2028 e seus cinco anos de governo popular são apenas uma pausa democrática entre períodos autoritários.

Em 2036, porém, o acordo começara a ruir. Rompendo a tradição e desequilibrando a balança de poder, a Millenium rechaça o candidato à presidente da república defendido pela Hermes e persuade uma maioria de ocasião no senado a eleger um outro, mais ligado a seus interesses.

Na verdade, o acordo entre as duas organizações sempre tivera pontos de tensão, que eram no entanto ignorados em nome do objetivo em comum: manter a ordem, coibir protestos, evitar qualquer mudança no sistema político.

Dois fatores afetaram o equilíbrio de poder entre elas, contribuindo decisivamente para o aumento das divergências. O primeiro foi o que ficou conhecido como o Grande Vazamento, em junho de 2039. Um grupo de hackers de várias nacionalidades havia conseguido desenvolver um super script que derrubou, por alguns dias, todos os sigilos e sistemas de segurança do mundo.

Contas bancárias ilegais, despesas militares secretas, sistemas de espionagem, fortunas ocultas, esquemas de corrupção, tudo veio à tôna bruscamente. Corporações e governos conseguiram, em poucos dias, implementar criptografias novas para proteger seus segredos, mas era tarde demais. O mundo veio abaixo com a revelação de tantas conspirações sujas. Representantes políticos, juízes, empresários, donos de canais de TV, pessoas públicas do mundo inteiro foram desmascaradas.

Como era de se esperar, revoltas populares, que já não tinham sido pequenas nos últimos dez anos, multiplicaram-se, em tamanho e frequência. No Brasil, onde a mídia exercia um poder sem paralelo no resto do mundo, aconteceram, pela primeira vez em nossa história, imensas manifestações contra a concentração dos meios de comunicação. Um fator em especial contribuiu para isso: os vazamentos tinham trazido à tôna documentos que provavam o papel das oligarquias midiáticas nas conspirações que geraram o golpe de 16, marco primeiro da ditadura que vigorava até o momento.

O lado irônico do vazamento é que foram também divulgados documentos internos das organizações, inclusive alguns onde estas conspiravam uma contra a outra.

Os vazamentos não foram suficientes para derrubar o regime, porque a desmoralização era tão abrangente que ganhou corpo o sentimento – um tanto artificial, plantado pela mídia, é verdade – de que era preciso promover uma ampla anistia. E assim o fizeram. Criminosos de todos os tipos foram perdoados e o sistema conseguiu resistir à tsunami de revelações constrangedoras. Claro que o fato do governo ter desenvolvido inúmeros instrumentos autoritários, e a imprensa corporativa evitar disseminar verdades como quem guarda um vírus mortal, ajudou a conter a estranheza da situação.

No início de 2040, um outro fator colocaria as duas organizações em lados opostos.

Desde o final da década de 20, os sistemas de inteligência artificial vinham se popularizando e tomando conta de empresas e governos. Então começaram a haver debates sobre os limites. Conforme os debates avançavam, as tecnologias avançavam ainda mais, e os limites iam caindo ou sendo levados para um nível superior. Até onde se podia atribuir responsabilidades a um sistema de inteligência artificial? Um médico virtual podia cuidar de seu filho? Melhor do que um médico de carne e osso? O seu filho aprenderia mais rápido, e de maneira mais eficaz, com um professor virtual? Em todos os debates, sempre havia, naturalmente, a questão da empregabilidade. Afinal, se todos os serviços fossem executados por computadores, onde as pessoas iriam trabalhar?

Em 2040, porém, os sistemas de inteligência artificial já tinham tomado conta de quase tudo. Em alguns países, até mesmo o judiciário era controlado por computadores. O sistema avaliava os prós e contras de cada decisão judicial, analisava o texto constitucional, cotejava-o com tratados internacionais, e chegava à solução mais justa. Tudo muito rápido e imparcial. Ninguém precisava mais temer um juiz partidário ou corrupto.

Depois de alguns anos de experiência, outras formas de opressão e desvirtuamento da justiça vieram à tôna, mas isso será abordado mais tarde neste livro.

Surgiram os sistemas de inteligência artificial pessoais, que poderiam ser acessados pelo celular ou qualquer aparelho eletrônico.

A última grande fronteira tecnológica agora era a integração entre o sistema de inteligência artificial individual e o cérebro humano. Era um avanço lógico e até mesmo simples, se formos pensar bem. Um chip no cérebro conectava-se aos sentidos e podia nos transportar para qualquer experiência. Surgiram os filmes em realidade virtual, e depois os programas de vivência virtual, onde você podia conhecer, relacionar-se, transar, casar-se com pessoas de outros países, e manter esse relacionamento por anos.

Todos esses avanços eram desfrutados por uma minoria privilegiada. No Brasil, a má distribuição de renda permanecia uma das mais perversas do planeta. A ditadura mal disfarçada tentava coibir qualquer manifestação, e a minoria tinha pouco contato com a maioria pobre em função do controle absoluto da notícia exercido pela mídia. Mesmo assim, as manifestações de protesto contra a ditadura midiático-judicial, como os movimentos sociais chamavam a democracia artificial dominada pelas organizações, cresciam cada vez mais.

As lideranças mais tradicionais da Hermes olhavam com desconfiança e, frequentemente, hostilidade, para os avanços dos sistemas de inteligência artificial, porque entendiam, corretamente, que eles poderiam reduzir o seu poder. Em países mais avançados, como já se disse aqui, os aparelhos judiciais haviam sido completamente entregues a sistemas de IA. Se isso acontecesse no Brasil, implodiria o principal capital político de Hermes: o controle dos juízes. O poder político seria então monopolizado pela Millenium, cujos membros vinham aumentando sua participação acionária nos sistemas virtuais que, apostavam eles, dominariam toda a estrutura do Estado. (…)

 

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Paulo Leminski: Elogio ao zen inquieto https://www.ocafezinho.com/2016/10/24/paulo-leminski-elogio-ao-zen-inquieto/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/24/paulo-leminski-elogio-ao-zen-inquieto/#respond Mon, 24 Oct 2016 18:17:11 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=57844 Por Jéferson Assumção, colunista de Literatura do Cafezinho.

Ele era faixa preta de judô e escrevia poesia. O pai descendia de poloneses e a mãe era uma negra brasileira. Compôs versos em latim, mas foi um poeta vanguardista, filho de pai militar. Mesmo brasileiro e descendente de polacos, considerava-se nipônico de coração. Falava francês, inglês, japonês e era grande conhecedor de latim e grego. Dedicou-se ao haicai e às letras de rock, aos trocadilhos e à crítica literária. Por essas e muitas outras, o curitibano Paulo Leminski (1944-1989) é o poeta tão vivo que é nos dias de hoje. Em nossos tempos de dissolução tecnológica das fronteiras geográficas, históricas, culturais, linguísticas, formais, Leminski é cada vez mais lido e amado. E isso por uma obra que pareceu ser feita para a era da infinita reprodutibilidade técnica digital e da diversidade cultural em rede.
Ex-seminarista, curtia o zen e o contemporâneo e buscava pela forma uma informalidade e pela técnica a simplicidade. Não por acaso escreveu sobre a vida de Cruz e Souza (1861-1898), Jesus Cristo (1-33 d.C), León Trotski (1879-1940) e Matsuo Bashô (1644-1694). Para ele, essas eram quatro manifestações radicais da forma-vida, com as quais sentia uma profunda identificação e a ressonância de suas obras e biografias em seu íntimo inquieto. O primeiro, o poeta simbolista negro de Santa Catarina. O segundo, um profeta-santo rei dos judeus. Os dois últimos, o revolucionário russo e o poeta zen-budista japonês, que trocou a vida samurai pelo caminhar e fazer sua poesia. Não tinha nada a ver com cada um deles em particular, mas os amou e promoveu a vida toda.
Morou em uma comunidade hippie nos anos 70, mas era publicitário. Amou a vida e morreu jovem, aos 45 anos, de cirrose hepática. Era a mesma idade de outro samurai-escritor japonês a quem Leminski admirava e que cometeu suicídio num ritual de harakiri aos 45 anos: Yukio Mishima (1925-1970). Com Matsuo Bashô, que nascera exatos 300 anos antes de Leminski, e com o grande autor de “Confissões de uma máscara”, Leminski partilhava o projeto zen de transformar a vida em arte. E assim o fez. Ensinou, com seu ecletismo, um amor por viver tudo, todos, o todo, a centenas de milhares de leitores, nunca inertes ante tanta e transbordante vida, a dele e a de que seus poemas foram veículo.
Zen quase monge beneditino, Leminski foi um homem do século XXI, avançado no tempo, capaz de antecipar em vida e versos a informalidade da cultura contemporânea, a hipermoderna, a líquida vida contemporânea. Os anos 70 e 80 não se tratavam de uma época de tanta conexão tecnológica como a atual, mas a inquietude movia o olhar, a mão, a boca desejosos para o outro lado do mundo e da rua. Essa vontade transbordante realizava a presencialidade do outro como resultado da magia do arrebatamento, do amor e do elogio. Se presentifica na vivacidade do escrito, cheio de vida a nos puxar para dentro não de um mundo, mas do próprio mundo. A simplicidade da poesia mostra o afã de claridade e desvelamento, porque no fundo está impregnada da fé no mistério que faz tudo aparecer e ser. Incluindo o luminoso, a palavra concreta, com casca, com som, com a cara que a gente vê na rua.
Ele não era Cruz e Souza ou Bashô, não era Jesus nem Trotski, mas um caprichoso relaxado que ajudou a modernizar a poesia brasileira pela marginal, combatendo a careta formalidade da academia e abrindo registros de descolonizações. Redefiniu mapas afetivos, que iam do Japão do lago Biva, na Otsu, de Bashô, à Ilha de Santa Catarina, negra, simbolista e pulsantemente erótica da poética de Cruz. Este Cruz amado por Paulo, como um Jesus do Desterro, carregando seu sinal e o instrumento de seu suplício: poeta assinalado.
Já Paulo, poeta pop, ex-estranho, íntimo em seu exílio geográfico-metafísico, de pequenos e negros olhos arregalados dentro do freme dos óculos, abertos como máquinas de ver apontadas para tudo. Tudo mesmo, do corpo ao dentro dos órgãos dos sentidos, às palavras como elas andam em casa, como elas se mostram na janela, como elas tomam banho e fazem suas necessidades. Marginal, diziam. Preferível autêntico e anti-parnasiano, poeta de símbolos claros, diretos, sem sombras, som do pulo do sapo na água de alguma província como Nara ou Shiga, no silêncio de um mato do Japão feudal.
Esse nosso John Lennon, o de Curitiba, nipônico como o próprio, pop como o outro, amado igualmente pela cara que tinha, tão cheia de espírito e frontalidade, urgente em sua vida também curta de só 40 anos, pelo gesto que propunha, pela roupa e os bigodes que envergava, os cabelos desgrenhados de hippie com o poder da flor instalada no cabelo quase que contrastando com os bigodões.
Tudo isso para complexificar, simplificando, retirando as máscaras ao colocá-las, ao assumi-las enquanto um Yukio Mishima sem a loucura ultradireitista do japonês halterofilista, faixa preta em Kendô, espécie de São Sebastião trespassado pela própria espada. Samurai, também, Mishima, como Paulo e John e Bashô e Cruz e por que não Jesus. Viu a vida em close, venceu com a distração do perplexo ante o que não conhecia mas amava e assim se filiou à mais brasileira tradição dos antropófagos, dos tropicalistas, mesmo que desde a gelada Curitiba, da terra dos muitos pinhões, centro de uma das literaturas mais diversas e interessantes do Brasil. Leminski assim como Trotski, sabia por os pingos nos is também no que se referia ao mundo da exploração à brasileira, dos negros pobres e indigentes, dos polacos e imigrantes que ele tematizou e pincelou com o riso melopeico que tanto também fez rir e ver.
Assim como os delicados, Leminski era um homem que sabia elogiar, praticamente só o tipo de pessoa capaz de chegar ao outro, de estar aberto para a beleza da alma e da carne do outro, tanto dos referidos e preferidos Cruz e os santos de sua mitologia pessoal, mas também Gilberto Gil, o “mimo de todos os orixás”, o Torquato e o Trotski, a Alice, Moraes, Caetano, Borges, Bandeira, Pound, Oswald, Haroldo, Poe, Bob Marley, Lennon. Um homem que sabe elogiar é um homem com uma flor no cabelo, um homem que come tudo ao redor, Abaporu polaco, abaporu negro de bigodes, como Cruz, nome que ele preferia em relação ao completo, o nome Souza do dono branco.
Quando escreveu sobre Cruz e Sousa, em Blues & Souza, explicitou-se nos sentimentos da Sabishisa, do Spleen, do Banzo e do Blues. A melancolia que é ao mesmo tempo condição para a poesia (e para a filosofia): seja ela o blues que vai dentro do rock, o baço amargo do romantismo, o banzo de Cruz, a Sabishisa do caminhante Bashô e seus haicais a buscar a simplicidade complexa da lágrima do peixe, da lua na neve. Leminski teve a acuidade necessária para enxergar a poesia disso e daquilo e por isso é o poeta, o prosador, o homem do elogio.
Caetano também gosta de enaltecer e o gabou algumas vezes. Numa delas, disse que ele tem uma mistura de concretismo com beatnik, que seus poemas eram concisos, rápidos e inspirados, “um barato muito único na curtição da literatura no Brasil”. A professora Leyla Perrone-Moysés o chamou de Samurai-malandro, que bastava olhar nos olhos dos poemas de Leminski para ver que o poeta estava dentro deles, que o que não interessava não ia junto para dentro da poesia. Era uma forma de escrever só como essencial. Haveria um “olho do furacão imóvel”, enquanto o poeta administra o que escreve jogando com isso e para dentro dele. “Do rio de palavras, Leminski se ri, e à verborragia desatada ele pede, exigente, um momento de silêncio. Para bom entende-dor, meia palavra raspa; e para bom gozador, uma piscada basta. Leminski já foi e já voltou, e quem não percebe a inteireza de suas meias-palavras ainda nem saiu de casa”, disse em comentário publicado em Toda a Poesia, de 2013.
Este samurai malandro, segundo a comentadora, ganha a partida seja com a lâmina da malandragem ou um jogo de cintura que, em sua velocidade, nos surpreende, golpe e ginga tão simples que soam a um desaforo. É o que preconiza Leila. De tal forma este efeito de simplicidade na poesia de Leminski se dá que, diz Leila, qualquer “metagesticulçaão crítica ficaria ridícula, contraposta ao gesto exato do poeta”. A crítica literária lhe faz também fez o encômio de o chamar de beatnik caboclo com filosofia de malandro zen.
Haroldo de Campos resolveu apelidá-lo de um “Rimbaud curitibano com físico de judoca”. Outros elogios atravessados: Caipira cabotino, polilingue paroquiano cósmico!, para o concretista. Era em si um oxímoro, uma contradição em termos ao mesmo tempo que a dubiedade irônica de um dioscuro. Foi chamado de punk parnasiano, dadaísta clássico, a aliança da concentração com a descontração, conforme José Miguel Visnik, para quem Leminski era uma espécie de lugar entre o erudito e o desbundado.
Assim mesmo, se percebe a cada tentativa de uma definição de Leminski uma espécie de língua bífida, antagônica, contrastante, a ter que fazer uma coisa outra que não os elementos de que dispõe. É que falar de Leminski instaura uma espécie de fala, pois afim de captar a poesia do que se equilibra em opostos e gera um outro sempre arejador e adâmico, mesmo que em sua impossibilidade de ser qualquer coisa pela primeira vez. A poesia de Leminki, uma espécie de lisa prosa, concisa e prometeica. A prosa, poética e catártica, entranha do antropófago, barriga cheia de ideias, formas, cores e carnes. Ele escancara a erudição provinciana dos nossos, aplaude Visnik, mas não pelo flanco e sim por dentro. Chamou a prosa da torrente do Catatau de “enxame de consciência”, em que o pai do racionalismo, René Descartes se viu nos trópicos como que o próprio ocidente dentro do olho do furacão vital-natural-mítico de uma realidade plena de razões sempre além das que se conhece.

Paulo Leminski, além do poeta

Homem-antena poundiano, liquidificador subtropical de frutos do pensamento artístico de todo o mundo, estava vivo o tempo todo, a ponto de quase explodir. Os concretistas o acolheram, mas ele andava de lado, com uma forma inquieta e desajustada de estar no mundo, como se num exílio. Em 1964, foram publicados seus primeiros poemas, na revista dos paulistanistas da poesia concreta: Invenção, que tinha Décio Pignatari no comando. Deu aulas de História e de Redação a partir de então. Casou-se com a poeta Alice Ruiz ainda em 1968, com quem teve Áurea e Estrela, além de Miguel ângelo, que morreu com dez anos.
Leminski era também tradutor de John Lennon (Um atrapalho no trabalho), John Fante (Pergunte ao Pó), Yukio Mishima (Sol e Aço), Petronio (Satyricon), Samuel Beckett (Malone morre), James Joyce (Giacomo Joyce), entre outros. Compôs diversas músicas. Uma delas, Verdura, gravada em 1981, tornou o escritor-poeta curitibano conhecido em todo o País. Paulinho Boca de Cantor gravou-o também (Valeu, 1981) e Ney Matogrosso (Promessas demais, com Moraes Moreira e Zeca Baleiro, 1982), Moraes Moreira (Desejos manifestos, com Moraes Moreira e Zeca Baleiro, 1986), Arnaldo Antunes (Luzes, 1994), Itamar Assumpção (Dor elegante, 1998) e outros. A partir da década de 1970, publicou poemas em diversas revistas. Paralelamente, o trabalho, belíssimo, em prosa. Foi em 1975 que saiu Catatau, livro em “prosa experimental”. A dor elegante o matou no dia 7 de junho de 1989.

* Escritor, autor de mais de 20 livros, entre eles Notas sobre “Turibio Núñez, escritor caído” (BesouroBox, 2016), “Cabeça de mulher olhando a neve” (BesouroBox, 2015) e A vaca azul é ninja em Uma vida entre aspas (Libretos, 2014). Pós-doutorando em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), doutor em Filosofia pela Universidade de León, Espanha. É professor de Escrita Criativa em Brasília.
Contato: jassumcao@gmail.com

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Prêmio Cágado destaca contribuições negativas à Cultura https://www.ocafezinho.com/2016/10/17/premio-cagado-2016-destaca-contribuicoes-negativas-a-cultura/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/17/premio-cagado-2016-destaca-contribuicoes-negativas-a-cultura/#comments Mon, 17 Oct 2016 18:28:49 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=57117 4 Comentários 🔥]]> PRÊMIO CÁGADO 2016 – Piores contribuições para a cultura brasileira

O Grupo Cágado, com sede em Brasília, torna público o Prêmio Cágado – Piores contribuições para a cultura brasileira 2016. Concorrerão as iniciativas com maior impacto para o atraso cultural do país no corrente ano.

JUSTIFICATIVA

Não há dúvidas de que o Brasil vem passando por intensas transformações nos últimos meses, com inúmeras ideias e iniciativas de governos, personalidades do mundo da cultura, da política e da sociedade civil, que vem colocando o país num novo momento. O Brasil parece enfim acordar para algo ainda não compreendido. Há diversos fatos extremamente relevantes no período, envolvendo desde brilhantes ideias para a Educação, a Cultura, a Ciência e a Tecnologia que nos fizeram pensar: não estará na hora de destacarmos os melhores dentro deste enorme universo? É o que o Grupo Cágado, criado para defender a utilização do acento agudo e da liberdade linguística em nosso país, vem propor, embalado principalmente pelo enorme sucesso alcançado na semana passada pelo Senhor Bob Dylan, recentemente laureado com um merecido Nobel de Literatura.
As reações foram tais, entre aplausos, choros e apedrejamentos verbais, que nos fizeram em última assembléia pensarmos em “entrar na onda” do sucesso alcançado pelo bardo e lançar nosso próprio edital. Nosso objetivo, no entanto, não é orientar o mercado de consumo, como tem sido o efeito Nobel, mas refletir em terras brasilis sobre o que não devemos fazer, se é que queremos um país mais pujante em termos de sua diversidade cultural e desenvolvimento de sua criatividade.
Não, não nos interessa se a culpa é de Bob Dylan ou da jornalista bielorrussa Svetlana Alexiévitch, Nobel do ano passado. A distinção aos dois escritores vindos de outras paragens que não a narrativa de ficção tradicional pode até ter baixado de novo os sinais vitais da literatura (pelo menos aquela que conhecemos). Mas o Grupo Cágado também pensa que tal distinção significa uma chacoalhada em uma arte com diversos atestados de óbito ao longo de sua extensa vida. Não queremos saber se a literatura morreu de novo, mas aproveitar o ensejo para a discussão nacional sobre como nos inserir no próximo bonde.
Para chegarmos lá, a primeira coisa a fazer é saber, afinal, “onde erramos?” Essa a razão de ser do Prêmio Cágado. Diante do exposto e com toda a agilidade do nosso andar anunciamos preciosa doação de nosso grupo à sociedade brasileira, hoje boquiaberta diante da obra de ficção que se desenrola como realidade: o Prêmio Cágado 2016 às piores contribuições à cultura brasileira.

INSCRIÇÕES

As inscrições poderão ser feitas pelo e-mail premiocagado@gmail.com, entre os dias 1 de novembro e 20 de novembro de 2016.

DIVULGAÇÃO DOS VENCEDORES

A comissão organizadora do Prêmio Cágado divulgará no dia 25 de novembro uma lista de quatro grandes vencedores por ordem de relevância da contribuição destrutiva ao desenvolvimento cultural nacional nas categorias:

a) Propostas de Emendas Constitucionais;
b) Ideias para o desenvolvimento da Educação;
c) Reformas Ministeriais;
d) Personalidades

QUEM PODERÁ PARTICIPAR

Poderá participar todo o cidadão brasileiro que contribua negativamente para a diversidade cultural brasileira, fora o presidente da República, fora Michel Temer.

PROMOÇÃO
Grupo Cágado

Leia também o documento inspirador:
“MANIFESTO DO CÁGADO”

“O sentimento e? de revolta, mas o Grupo Ca?gado na?o desiste de, mesmo a passos ta?o lentos, seguir sua luta pela utilizac?a?o do u?til acento agudo na internet. Trac?o de resiste?ncia, de dureza num mundo ja? tomado pela obscenidade do mercado, o acento que queremos na?o e? no Conselho de Seguranc?a da ONU, mas um signo da liberdade lingui?stica numa e?poca de homogeneizac?a?o e fordismo da produça?o e do consumo cultural.
O Grupo Ca?gado, andando a?s voltas com problemas desta e de outras naturezas, pretende com seu formato ser uma espe?cie de escudo vivo para aqueles que se revoltam diante da desfac?atez do mercado e seu jeitinho voraz que tanto lhe serve para melhor abocanhar boquinhas, como vemos por ai?.
Na?o nos calaremos diante da infa?mia e erigiremos o acento como um dedo indicador diante dos narizes mais poderosos. Inclinada em diagonal ascendente, como os acentos que defendemos, arma afrontosa aos costumes dos bom-moc?os e boas moc?as que por ai? trocam o trac?o despudoradamente por aga?s, pondo a nu o intuito de arreganhar nossa li?ngua ou mesmo espatifa?-la com patifarias desta espe?cie.
Mas o Ca?gado ruge ao ataque e corre a defender a u?ltima flor do La?cio (inculta e bela, sabemos, mas nossa flor, hoje despetalada por impudicos interesses). O sangue da li?ngua ma?tria, pa?tria, fra?tria, escorre pelas pe?talas devassadas desta delicada flor latina, transformada a cada dia em balbucio gutural pelos ba?rbaros do norte que, com a forc?a de sua prata e do bronze, fazem do nosso falar estes arreganhos terminados com “h” que recebemos em nossos celulares e e-mails, lugares ja? desolados de qualquer proparoxi?tona ou paroxi?tona que se preze.
Na?o amoleceremos! E em nossa jornada dia?ria estara? a bandeira erguida pela riqueza da diversidade linguística, assim mesmo, sem trema. Alia?s, diversidade e? o que queremos, no?s, homens e mulheres gra?ceis e ao mesmo tempo jubilantes e de boca u?mida pela vito?ria. Por isso, voce?, leitor (a), que tambe?m se sente humilhado (a) por não poder fazer sua expressa?o mais plena cante com a gente:
Viva a li?ngua portuguesa!
Viva o acento agudo!
Viva o ca?gado!
Viva o Brasil!”

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Chegou a hora de ler Felisberto Hernández https://www.ocafezinho.com/2016/09/29/chegou-a-hora-de-ler-felisberto-hernandez/ https://www.ocafezinho.com/2016/09/29/chegou-a-hora-de-ler-felisberto-hernandez/#comments Thu, 29 Sep 2016 16:24:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=55467 1 Comentário 🔥]]> Por Jéferson Assumção*, colunista de literatura do Cafezinho

Pouco tempo antes de morrer, entristecido pelo pouco reconhecimento ao seu trabalho, o escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) disse à sua filha Ana Maria Hernández Nieto, que sua literatura só seria compreendida dali a 50 anos. Pois bem, já está passando da hora. Em 2014, completou-se meio século da morte de um dos escritores mais surpreendentes e desconhecidos da literatura latino-americana.
Felisberto publicou pouco. Suas obras completas, organizadas em 1983 pela mexicana Siglo XXI, não chegam a 800 páginas. Muitos de seus contos, novelas e minúsculas peças de teatro têm um tom inacabado. Poderiam parecer esboçados, mais que realizados plenamente. Poderiam. Ao conviver com eles, o leitor atento, aos poucos, se vê entrando num mundo de poderosas invenções, como que infantilmente destacadas do cotidiano, num museu de objetos lúdicos de uma originalidade desconcertante. E com um poder inspirador reconhecido por alguns dos maiores escritores latino-americanos do século XX.
Dele, disse Gabriel García Márquez: “Se não tivesse lido as histórias de Felisberto Hernández em 1950, hoje não seria o escritor que sou”. Italo Calvino, que conheceu seu trabalho por intermédio de Cortázar, e traduziu Nadie Encendia Las Lámparas para o italiano, escreveu: “Felisberto Hernández é um escritor que não se parece a nenhum outro: a nenhum dos europeus e a nenhum dos latino-americanos; é um ‘atípico’ que escapa a toda classificação e fechamento mas se apresenta como inconfundível apenas com a abertura de uma de suas páginas”.
Para Julio Cortázar, Felisberto era uma espécie de parceiro espiritual de Macedonio Fernández e Lezama Lima, pertencente a uma estirpe qualificada por ele de “pré-socrática” e para a qual as operações mentais, “diferentemente da tradição do Ocidente”, apenas intervêm como articulação e fixação (com as palavras) de outro tipo de contato com a realidade. Basta ler Felisberto para perceber essa rarefação da consciência, quase como declaração de impotência dela diante do maravilhoso do comum. De um comum de onde sai outra coisa, colhida pelo escritor já com aquilo que seu olhar enxerga nele. Leitor de Bergson, Proust e Kafka, a memória é gatilho para a busca disso que pode parecer lateral e pouco importante e que no fundo talvez seja apenas uma mágica animação de objetos inanimados, numa brincadeira ou um jogo. Mas o que seria a literatura senão isso?
Assim, entre a eroticidade de pernas de mesas desnudas, cadeiras que parecem se mexer, um corredor de guarda-chuvas abertos, um piano branco que lhe parece um caixão de criança e casas inundadas por onde se anda apenas de barco, o fantástico vive como frutos nos galhos do cotidiano. E o texto traz a naturalidade de quem está o tempo todo, quase infantilmente, nesse mundo próprio, com uma admiração arcaica, original sobre seu funcionamento. Mas sem a afetação escandalosa do poeta. Antes, a precisão da execução e o silêncio típico das pessoas que amam a música. É o que parece constituir a especial dicção de onde nascem O Crocodilo, O Balcão, Ninguém Acendia as Lâmpadas, O Cavalo Perdido, As Hortênsias ou Pelos Tempos de Clemente Colling (uma recorrência em delicados relatos são os professores de piano, especialmente Clemente Colling, pianista cego e personagem principal deste livro, o preferido do mestre uruguaio Juan Carlos Onetti).
Na edição uruguaia de Nadie Encendia las Lámparas, da Lectores de Banda Oriental, Felisberto é descrito da seguinte maneira: “Seus contos nos situam em um mundo onde a relação entre pessoas e objetos parece não terminar de se definir. Oscilam entre um realismo transbordado pela estranha e poderosa imaginação do criador e um matiz fantástico que parece sobrepor-se à própria condição das coisas, enquanto estas se debatem entre seu caráter inanimado e o sopro de vida que uma escrita obstinada e frequentemente deslumbrante lhes infunde”. No Brasil apenas duas coletâneas de seus textos estão publicados, mas abrangem boa parte da obra de Felisberto. O Cavalo Perdido e Outras Histórias (Cosac Naify, 2006) e As Hortênsias/Las Hortensias (Grua, 2012).

Vida quase ficção

Não fosse pela literatura, a vida de Felisberto já mereceria atenção. Nasceu em 1902 em Montevidéu. Começou a estudar piano em 1911 e se apresentou em diversos concertos pela Argentina e Uruguai. Paralelamente à música, com a qual teve intensa vida profissional, começou a publicar. Em 1925, saiu Fulano de Tal, livro de bolso bastante experimental, no formato e no conteúdo. O segundo se chamou Livro sem capa (1929), destinado a não ter começo nem final.
Em 1942, teve que vender seu piano, por problemas financeiros, dedicando-se a partir daí inteiramente à literatura. O sensacional El Caballo Perdido (1943), cujas memórias rondam Celina, a professora de piano, sai um ano depois. A sutileza e interioridade da obra despertaram a atenção do poeta franco-uruguaio Jules Supervielle (1884-1960), quem alguns anos depois o levou para viver em Paris por dois anos. Como de outras vezes, o individualista militante deixou tudo para trás, inclusive o segundo de seus seis casamentos, e partiu em busca de uma fama que não chegou.
O crítico uruguaio Gabriel Saad conta que, depois de ter se casado e separado novamente, viveu, na França, dois outros estrondosos amores. Um com uma inglesa que perdera os braços e as pernas. Utilizava próteses, que ele retirava nas horas de maior intimidade. Na volta da França para o Uruguai, Felisberto, reconhecidamente anticomunista, veio acompanhado de Maria Luiza, uma coronela da KGB (a agência de segurança russa) espiã conhecida por “A Espanhola”. Viveram casados cerca de dois anos, sem que Felisberto jamais desconfiasse de suas atividades clandestinas. Aliás, foi precisamente por isso, para que a Espanhola pudesse fazer seu trabalho sem levantar suspeitas, que os russos escolheram o escritor ainda na Europa. A espiã montou no Sul da América Latina o braço da KGB, do México à Patagônia. Anos depois, em 1964, pouco antes de morrer, o médico que o atendia disse a ele: “o senhor não sabe, mas eu sou comunista”, ao que Felisberto teria respondido que se tivesse sido informado não deixaria que o tocasse. Isso faz 50 anos, os tais 50 anos que ele achava necessário passarem para ser finalmente compreendido. Pois então, chegou a hora de ler Felisberto Hernández.

* Olá, pessoal. Meu nome é Jéferson Assumção, escritor, autor de mais 20 livros, entre os quais “Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído” (BesouroBox, 2016), “Cabeça de mulher olhando a neve” (BesouroBox, 2015) e “A Vaca Azul é Ninja em Uma vida entre Aspas” (Libretos, 2014). Pós-doutorando em Teoria Literária na Universidade de Brasília (UnB) e dou aulas de Escrita Criativa, em Brasília, por dez anos atuei na política cultural, como coordenador e diretor de Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura (MinC), secretário de Cultura de Canoas-RS e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul. Todas as semanas estarei aqui, no Cafezinho Literário, trazendo artigos, contos, poemas e trechos de romances de autores escondidos (ou que poderiam ser melhor conhecidos) da literatura brasileira e latino-americana. Vai ter uma estante de coisas boas que se podem encontrar nos sebos e pequenas livrarias de todo o País.

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Paulo Bentancur, o menino escondido https://www.ocafezinho.com/2016/09/24/paulo-bentancur-o-menino-escondido/ https://www.ocafezinho.com/2016/09/24/paulo-bentancur-o-menino-escondido/#comments Sat, 24 Sep 2016 17:44:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=55024 2 Comentários 🔥]]> Por Jéferson Assumção, colunista de literatura do Cafezinho*

Não, eu não conheci o Paulo Bentancur, embora tenha sido seu amigo por quase 30 anos. A última vez que estive com ele foi em julho passado, aqui em Brasília, para participar da 1 a Jornada Literária do Paranoá. Ia se mudar no mês seguinte para o Rio de Janeiro e foi explicando o que significava aquele novo momento: amor, trabalho, um giro que o ajudaria acima de tudo a retomar com mais força uma relação que eu sempre – e com uma inveja muito sincera – considerei um tanto doentia: sua vida com a literatura. No meio dos sorrisos, estava um Paulo delicado, simples e nervoso, capaz de escolher imagens claras, de fazer surgir uma porção de detalhes expressivos a cada frase, de criar metáforas como bolotas maduras, e que pareciam colhidas no ar enquanto falava.

Amoroso com todos, desajeitado com os livros que carregava, distraído, risonho. Mais uma vez eu pensei que estava vendo o velho Paulo sair de seu esconderijo. Não da casa da Regina, a irmã querida e cheia de atenção, mas do espaço misterioso, entre o real e o ideal, em que eu o via metido desde que fomos apresentados. Do autor de Frio, A Solidão do Diabo, Bodas de Osso, e do livro sem gênero Instruções para Iludir Relógios, entre dezenas de infantis e infanto-juvenis, um deles sempre foi meu título preferido: O menino escondido, sobre, claro, Freud.

O estudo formal não era a praia do Bentancur. Com um itinerário próprio, talvez a princípio com um pouco de Paulo Hecker na direção, no meio de toneladas de livros ele tornou-se não só um grande escritor, professor de escrita e crítico autoditada, mas um cara com uma formação pessoal rigorosa e inspiradora. De longe, parecia alguém que preferira os livros à vida; de perto, uma sensibilidade para o humano, uma atenção para o corriqueiro, para os outros e para o que ele queria compreender e, que, sinceramente, não sei o que era. Por isso sua poesia, principalmente em Bodas de Osso, é o espanto de um menino escondido diante do relógio, da panela, do pátio da casa em Santana do Livramento, da professora, dos pais, do avô. Um espanto diante do mundo em seus diários mistérios.

“O que eu sinto pela literatura? Gratidão”, ele me disse uma vez, há muitos anos. Entendi que aquilo tinha para ele – e então deveria ter para mim também – um sentido ético, estético e mesmo político. Sim, político, pelo modo como amplificava a vida comum e dava a quem lia a capacidade de mexer no mundo. Conheci o Paulo quando eu era ainda camelô em Canoas. Tinha não mais que 20 anos e era por isso mesmo o próprio Rimbaud. Na época, uma amiga, a fotógrafa Suzana Pires, a fim de me ajudar entrou em contato com o Benta e o convenceu a receber-me em sua casa. Nunca mais fui o mesmo, desde que pela primeira vez, naquela tarde de um sábado do início dos anos 90, entrei em seu pequeno apartamento no Cristo Redentor, tomado por livros, jornais, revistas, uma máquina de escrever, e um estilo de vida que eu achei que devia ser o meu. Incontáveis sábados à tarde como aquele eu estive com o Paulo no mesmo pequeno apartamento, a tomar café, a mostrar e ler poemas, a conversar sobre livros e sobretudo aprender sobre como se deve amar a literatura. Saía de lá com uma sacola semanal cheia do que eu precisava conhecer: os oito volumes da História da Literatura Ocidental, do Otto Maria Carpeaux; o ABC da Literatura, do Erza Pound; Princípios de Crítica Literária, do I. A. Richards; poemas, poemas, poemas, sobretudo (T.S. Eliot, Auden, Murilo Mendes); Campos de Carvalho (tudo, claro); os argentinos, obviamente; Tchecov e os curitibanos, a começar por Jamil Snege e Valêncio Xavier. Mas sobretudo, ele ensinava, generoso, o que não ler. Impossível esquecer os impropérios hilários, os insultos engraçados. Opiniões absurdas que só com o tempo se mostravam certeiras. Exageradas e peremptórias, mas no alvo, sempre. A gente se divertia com aquilo e eu, no ímpeto dos ingênuos, achava que estava dentro, salvo da burrice galopante ao redor, pelos sermões do padre Paulo. O mundo, disse-me, em outra ocasião, é uma espécie de suporte para a literatura. Eu o via frequentemente como um Walter Pater de província, na mesma frequência fanática, dedicada, comovente de quem estava sendo incluído na vida pelo que lia.

Aos 35 anos o Paulo assinara um artigo de jornal com uma daquelas suas inversões em que eu tanto encontrei verdades: “Paulo Bentancur se chama Paulo, que em latim quer dizer “pouco”.Outra: “Paulo Bentancur tem 35 anos, mas já foi mais velho”. Eu não tenho dúvidas de que já foi e que cada vez ficava mais menino, até se esconder de todo. O que fica agora, para mim e acho que para muitos amigos que conviveram com ele, é a sensação de que eu não o conheci realmente e que com isso nunca vou ver na profundidade o mistério do que é a literatura.

* Olá, pessoal. Meu nome é Jéferson Assumção, escritor, autor de mais 20 livros, entre os quais “Notas sobre Turibio Núñez, escritor caído” (BesouroBox, 2016), “Cabeça de mulher olhando a neve” (BesouroBox, 2015) e “A Vaca Azul é Ninja em Uma vida entre Aspas” (Libretos, 2014). Estou terminando um pós-doutorado em Teoria Literária na Universidade de Brasília (UnB) e dou aulas de Escrita Criativa, em Brasília. Por dez anos atuei na política cultural, como coordenador e diretor de Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura (MinC), secretário de Cultura de Canoas-RS e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul. Todas as semanas estarei aqui, no Cafezinho Literário, trazendo contos, poemas e trechos de romances de autores escondidos (ou que poderiam ser melhor conhecidos) da literatura brasileira e latino-americana. Vai ter uma estante de coisas boas que se podem encontrar nos sebos e pequenas livrarias de todo o País. Pra começar, trouxe este artigo bem pessoal sobre o Paulo Bentancur, autor gaúcho falecido dia 28 de agosto passado. Paulo Roberto Ribeiro Bentancur (1957-2016) nasceu em Santana do Livramento-RS, morou em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Autor de cerca de 40 livros, entre os quais destaco “Instruções para iludir Relógios” (Artes e Ofícios, 1994), “Frio” (Sulina, 2001), “Bodas de Osso” (Bertrand Brasil, 2004) e “A Solidão do Diabo” (Bertrand Brasil, 2006). Artigo publicado na edição de hoje do Caderno de Sábado do Correio do Povo. Foto: Correio do Povo.

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Novo evento literário na Baixada Fluminense https://www.ocafezinho.com/2016/07/15/novo-evento-literario-na-baixada-fluminense/ https://www.ocafezinho.com/2016/07/15/novo-evento-literario-na-baixada-fluminense/#comments Fri, 15 Jul 2016 16:07:15 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=50313 3 Comentários 🔥]]> Vinícius Silva, colaborador de O Cafezinho, é responsável pelo Clube do Livro Saraiva em Nova Iguaçu/RJ.

Por Bruno Cardoso, do site Cultura BXD:

EVENTO LITERÁRIO ATRAI JOVENS E ADULTOS EM NOVA IGUAÇU

Clube do Livro Saraiva chega a sua terceira edição reunindo 3 autores da Baixada no Shopping de Nova Iguaçu.

Com a chegada do novo shopping, o município de Nova Iguaçu ganhou mais um ponto de cultura. No dia 23 desse mês, acontecerá o Encontro Clube do Livro Saraiva. O evento, que já está em sua terceira edição, começará às 18 horas e contará com a presença de três convidados, que são eles, Luiz Coelho Medina, autor dos livros Pavio D’speranca, Morador de Lua e Alados. Marlos Degani, poeta e dono dos títulos Internado e Sangue da Palavra. E Moduan Matus, que já assinou 13 livros, entre os mais recentes estão As margaridas estão cada vez mais raras de contos e Aforismos Afloram de poesias. A temática do encontro será a Literatura e poesia da Baixada: histórias, presente e futuro.

O clube do livro surgiu a partir de um convite da Saraiva ao Vinícius Fernandes da Silva, mestre e doutor pela UFRJ, autor dos livros Palavras Sobre Qualquer Coisa e (in)contidos, além de assumidamente defensor da Baixada Fluminense. Os dois primeiros encontros trouxeram temas escolhidos por ele, como o movimento negro, o feminismo e as diversas formas como eles se relacionam com a literatura. Esses eventos permitem que exista a discussão não só da produção local, como a literatura e poesia em geral.

“Se a gente conseguir consolidar esse espaço, a ideia é começar a produzir oficinas para produzir obras dessa juventude e das pessoas que queiram fazer literatura aqui na baixada. E nada melhor do que fazer uma atividade literária no meio de livros”. – Vinícius ressalta.

A grande novidade que pegou a todos de surpresa é o público que têm participado dos encontros. Jovens e adultos presentes, mostrando que existe uma demanda grande por esses eventos na Baixada.

Serviço

3° Encontro Clube do Livro Saraiva Nova Iguaçu

Local: Saraiva – Shopping Nova Iguaçu,
Endereço: Avenida Abílio Augusto Távora, 1111 – Nova Iguaçu – RJ. Data: 23 de julho, sábado
Horário: 18h00
Entrada gratuita
Informações: https://www.facebook.com/groups/1397078790318586/

Link original: https://culturabxd.com/2016/07/13/evento-literario-atrai-jovens-e-adultos-em-nova-iguacu/

 

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Cafezinho Literário: Todas as cartas de amor https://www.ocafezinho.com/2016/07/13/cafezinho-literario-todas-as-cartas-de-amor/ https://www.ocafezinho.com/2016/07/13/cafezinho-literario-todas-as-cartas-de-amor/#respond Wed, 13 Jul 2016 15:19:08 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=49935 Quem nunca escreveu uma carta de amor que rasgue a primeira página. Lílian Almeida escreveu todas. Baiana de Salvador, Lílian é professora na Universidade do Estado da Bahia e tem a vida imersa em Letras. Seu livro de estreia, o romance epistolar “Todas as cartas de amor”  (Ed. Quarteto), é o monólogo de uma mulher em trânsito. Cada carta revela um pouco da protagonista, uma executiva que, enquanto viaja a negócios, escreve para um amado ausente.

Na orelha do livro, Aleilton Fonseca define a obra: “Estas cartas ao amado – um ser prefigurado no espaço do desejo e do sonho -, tecem-se e se estendem numa linha tênue de reflexão. Nesse lance de cartas, a mulher se mostra consciente de si mesma, enquanto sujeito desejante, em busca de se tornar pronta para o jogo do amor, sempre incerto mas necessário ao equilíbrio da vida na cena cotidiana”.

Se você está gostando das postagens do Cafezinho Literário, saiba que nosso trabalho depende do apoio de autores e leitores como você. Doe qualquer valor ou escolha uma de nossas opções de assinatura. Lembrando que assinantes recebem uma newsletter semanal exclusiva com novidades sobre o universo dos livros. O Cafezinho Literário conta com você! Clique aqui e saiba como colaborar.

Boas leituras e ótima semana.

Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

Lílian Almeida, autora de "Todas as cartas de amor"

Lílian Almeida, autora de “Todas as cartas de amor”

 

Folga das retas e ângulos

Lílian Almeida

Pela janela do hotel o Pão de Açúcar aponta a direção. Seguir em curvatura de ângulos e linhas. Por quê? Na estrada reta não te encontrarei? O que busco fora dos esquadros e dos traços? Onde os riscos me cortam, esquadrinham?

Na sala de refeições, as mesas são redondas. Além dos vidros, os morros ondulam o céu. Na parede, o relógio insinua as sinuosidades do mapa brasileiro. Curvaturas. Por que não a linearidade do mapa português? Onde as esquinas dos edifícios que rasgam o azul em quadrados? Cadê as mesas retangulares, quadradas, triangulares? A bancada do hotel recepciona em longa curva. A mesa de centro é um triângulo de redondas quinas. A voz nasalizada do taxista arredondava qualquer informação. Curvaturas envolviam linearidades e os ângulos retos.

Pelo vidro da sala de reuniões os retos edifícios ficam embaçados. Exercito o encurvamento dos lábios em risos e sorrisos. Exerço a precisão dos prognósticos e a doçura de reconhecer o trabalho da equipe. Experimento folgar as linhas. Os números e anotações e percentuais e relatórios agitam-se efusivamente numa visão longínqua.

A noite deita-se sobre o dia. O táxi amarelo leva-me de volta ao hotel. Peço um filet à milanesa com arroz e batata sauté, no quarto. Ligo a TV no noticiário internacional. Não escuto. Atravesso a tela com um olhar que se perde no sem fim. Aonde as curvaturas do dia vão me levar? Onde estive, estou, estarei? Onde você está? Aumento a potência do condicionador de ar. O frio diminuirá o calor dessa noite? Diminuirá a velocidade das minhas lembranças? Minha cabeça em giro. Meus olhos em caleidoscópio. O apartamento frio. A chuva pelo vidro. Eu sozinha. O ônibus na estrada. A felicidade lá fora. A mulher farta. As roupas dançantes. A Redenção. Eu elegante e estúpida. Olhos de não ver. Pé no chão. Pálpebras abertas. Meus redondos olhos enquadrados trincam perante o Pão de Açúcar.

A memória matutina do rosto em riso alivia o peso de mim mesma. Leveza. Todas as curvas do dia são leves, graciosas, desembaraçadas, ágeis. A curvatura dos meus lábios descomplica-me. Na folga das retas e dos ângulos vicejam os espaços. Tênue ampliação de mim mesma comigo. Na curva, tudo se amplia. Sentada na cama, movimento-me em direção aos pés. Esforço-me. Exercito o encurvamento do corpo em posições várias. Flexibilizo o tronco e as angulações.

A noite é útero. Em posição fetal exerço a renovação. Curvilineamente refaço os traçados dentro e fora de mim mesma. O sono embala-me. Quando for o tempo dançarei com as linhas um bailado sinuoso. O arqueado das minhas costas pergunta e responde onde estou quando estou aqui. Estou comigo.

***

 As marcas de Lílian Almeida

Uma definição para Lílian Almeida.

Definição? Definição implica em limitar para explicar. Prefiro falar de marcas fortes que trago e que, de algum modo, formam o filtro através do qual leio a vida. Nasci mulher negra em Salvador. Três marcas que se amalgamam na minha constituição enquanto sujeito social e compõem a lente a partir da qual experiencio estar no mundo e   insiro a minha impressão na vida. As outras marcas, como as da profissão, por exemplo, se somam a estas e vão tecendo os caminhos por onde ir. Ademais, sou sonhadora e gosto da vida, serenamente, como água de baía e brisa de mar.

Do que trata o livro “Todas as cartas de amor”?

“Todas as cartas de amor” é uma narrativa composta por doze  textos em prosa poética que apresentam cenas e vivências de uma executiva que está sempre viajando e avaliando empresas, a missivista. O livro fala da vida acelerada contemporânea, da solidão, dos enquadramentos comportamentais, da busca humana pelo amor. O amado é o destinatário das cartas. Gradativamente, por entre viagens e cidades, a busca muda de foco e a trama volta-se para o plano interior, psíquico. A personagem descobre que as cartas podem conduzi-la a outro encontro.

Como as pessoas podem encontrar o seu livro?

Eis uma dificuldade enfrentada pelo autor que não está nas editoras de grande circulação: onde encontrar o livro. A realidade que vislumbro daqui da Bahia, é a de que o livro, sobretudo do autor iniciante, é comercializado pelo próprio autor, através das redes sociais, ou em participações em eventos literários. Levo-o embaixo do braço para onde sou convidada a falar. Afora isso, “Todas as cartas de amor” pode ser adquirido através do site da Quarteto Editora e também comigo, por e-mail ou Facebook.

Você acha que o mercado editorial tem dado a devida atenção aos autores do Nordeste?

A gente tem um país continental e penso que o mercado editorial brasileiro é também imenso e diverso. A presença de autores do Nordeste nas editoras consideradas importantes e de visibilidade nacional, situadas principalmente no Sudeste, ainda é pequena. E isso não diz respeito apenas aos iniciantes. Se sairmos do foco do mercado editorial estabelecido no Sudeste e olharmos para o mercado editorial baiano, por exemplo, vemos que as editoras estão pouco dispostas a investir na publicação de escritores jovens. Tenho visto por aqui iniciativas pessoais de produção de livros-objeto com confecção artesanal e em edições cartoneras. Ainda é difícil materializar a literatura no formato de livro impresso, sob a chancela de uma editora.

Você mantém um blog. O que as pessoas encontrarão por lá?

O Cartas, fotografias e outros guardados é um blog onde veiculo alguma produção literária minha e de autores que caem em minhas mãos. Lá também se encontra letra de música, algum comentário sobre livros que li, peças teatrais que assisti e fotografias minhas que uso geralmente para ilustrar os posts ou fazer fotopoemas, também publicados lá. É um espaço onde há um pouco de literatura, de arte e de vida.

*A imagem em destaque nesta postagem se chama Hotel Room (1931) e é de autoria de Edward Hopper.

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Cafezinho Literário: um conto sobre palcos e paixões de Porto Velho https://www.ocafezinho.com/2016/07/03/cafezinho-literario-um-conto-sobre-palcos-e-paixoes-de-porto-velho/ https://www.ocafezinho.com/2016/07/03/cafezinho-literario-um-conto-sobre-palcos-e-paixoes-de-porto-velho/#comments Mon, 04 Jul 2016 00:50:50 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=49475 1 Comentário 🔥]]> O Cafezinho Literário lançou um desafio: queremos publicar autores das regiões Norte e Nordeste. O chamado foi atendido e recebemos trabalhos de contistas e poetas da Bahia, do Ceará, de Pernambuco… Mas a região Norte teve, até o momento, uma participação discreta. Sabemos, contudo, que em terra de Milton Hauton não faltam talentos.  Entre estes, está a jornalista Luciana Oliveira.

Ela mora em Porto Velho, capital de Rondônia, e nos brindou com o conto “Papai tomou um tiro e acertou mamãe no coração”. O texto é despretensioso. Talvez um tanto ingênuo. Mas possui a rara – e indispensável – qualidade de nos fazer crer no que foi contado. Convido você, leitor, a se sentar em um dos assentos deste teatro para assistir ao espetáculo.

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Boas leituras e ótima semana.

Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

 

Papai tomou um tiro e acertou mamãe no coração

Luciana Oliveira

Corria o ano de 1963. A noite caía bela feito um viaduto e a plateia aguardava ansiosa pela estreia da peça ‘O Cidadão do Inferno’ no Colégio Maria Auxiliadora.

O roteiro era sobre a Revolução Francesa e papai integrava a trupe com um personagem que deveria morrer no último ato. O ápice do realismo só não foi alcançado porque a apresentação foi suspensa.

Na coxia, papai se maquiava e ajeitava o figurino que incluía uma jaqueta vermelha, cá pra nós, o encosto de Robespierre. Se a peça era sobre revolução o uso de armas na encenação era obrigatório e algumas réplicas foram providenciadas. À época, alunos novos e mais velhos formavam o elenco e um dos atores, o João Izídio, era policial e guardou embaixo de uma camisa na mesa em que papai estava, seu instrumento de trabalho.

À época também se repetia e ouvi muito: “não brinca com arma que o cão atenta!”

Um adolescente de 14 anos apelidado de Tarzan achou a pistola calibre 22, brincou, acertou papai no peito e pôs fim a seu sonho de se tornar o Skakespeare das barrancas de terras caídas de Porto Velho.

Com a jaqueta vermelha ensopada de sangue papai pedia socorro ao padre Miguel: “Acho que levei um tiro padre!”.

Foi um corre-corre danado e a noite que caía bela feito um viaduto acabou tumultuada no Hospital São José.

Mal tinha raio x pra ver onde a bala havia se alojado, mas os médicos Jacob Atalah e Leônidas Rachid salvaram a vida de papai, sem remover o projétil. O babado correu e outros médicos que integravam o elenco apareceram pra visitar o colega, inclusive Victor Sadeck, vascaíno doente, se preocupou em salvar o flamenguista que acabara de levar um tiro de raspão no coração.

A peça que havia sido um sucesso no Colégio Dom Bosco foi suspensa, o pobre do garoto que disparou acidentalmente em papai sofreu na boca das fofoqueiras e foi preciso que minha finada tia Nazaré acalmasse os ânimos.

Ah, não acaba aqui a história. Minha mãe viveu o drama na plateia e naquela noite, após a peça, estava tudo combinado com os parentes para selar o tão esperado noivado que seria uma surpresa. Ao saber disso no hospital, na dúvida se papai sobreviria, ela fez o que? Noivou na enfermaria e meu finado avô português colocou as alianças sem criar objeções.

Papai levou um tiro no peito e naquela noite acertou mamãe em cheio no coração, há 52 anos.

Sem ensaio, meus pais interpretaram Shakespeare, para quem o “curso do amor verdadeiro nunca fluiu suavemente”.

De lá pra cá, papai carrega no peito a bala e o amor por mamãe.

***

Luciana Oliveira em poucas palavras

A Luciana é…

Sou jornalista, bacharel em Direito, ciberativista em causas sociais. Militante da cultura popular e dos movimentos sociais.

O que a levou a escrever este conto?

Meu pai é escritor e completa 50 anos de casado com minha mãe em julho. Ele escreve uma poesia a cada data: namorados, dia do casamento, Natal, enfim. Maria, minha mãe, é a mulher que tem o acerto romântico mais extenso que conheço.

Quais são seus autores de referência na região Norte?

Aqui, temos autores regionais muito bons e meu pai, claro, é um. Tem vários livros escritos, como “Madeira Mamoré – O Vagão dos Esquecidos”*. Do Norte, gosto de Miltom Hatoum, J. G. De Araújo e Thiago de Melo.

Você mantém algum canal de publicação?

Tenho um blog chamado blogdalucianaoliveira.com.br/blog, por meio do qual divulgo matérias e crônicas.

*O pai da Luciana Oliveira é o escritor Antônio Cândido da Silva, membro da Acadêmia de Letras de Rondônia.

**A imagem que ilustra esta página se chama “In the theater”, de Honoré Daumier, e se acredita que foi pintada entre 1860 e 1864.

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Cafezinho Literário: um conto vermelho de José Rezende Jr. https://www.ocafezinho.com/2016/06/19/cafezinho-literario-um-conto-vermelho-de-jose-rezende-jr/ https://www.ocafezinho.com/2016/06/19/cafezinho-literario-um-conto-vermelho-de-jose-rezende-jr/#comments Mon, 20 Jun 2016 01:46:25 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=48604 2 Comentários 🔥]]> O Cafezinho Literário comemora um mês de existência e a festa quem oferece é o jornalista e escritor José Rezende Jr. O conto “Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho” abre a coletânea “Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)”, publicado pela 7Letras. A obra foi vencedora do Prêmio Jabuti, em 2010, na categoria Contos e Crônicas. E, com um pedacinho dela, brindamos a esses primeiros dias de vitória.

O José é um cara discreto. De fala mansa. Repertório diversificado. Seu mestre foi o escritor Moacir Scliar, que decerto assistiu com orgulho ao revelar do pupilo. A escrita de José Rezende Jr. é consistente, dura como a realidade que descreve, mas envolvente como as unhas vermelhas da personagem que você conhecerá a seguir.

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Um abraço,

Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho
José Rezende Jr.

eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho mesmo
sabendo que suas unhas te deixarão com cara de puta, eu
morrendo e você com cara de puta, eu morrendo e você diante
do espelho vestindo-se como quem vai a uma festa dançar
a noite inteira, a saia rodada que eu gostava de ver rodando
no meio do salão deixando à mostra suas pernas de ginasta
e exaurindo meu fôlego de amante sedentário, eu sem fôlego
de tanto tossir sangue e você com o salto alto vermelho que
lhe empina a bunda, você enorme no alto das sandálias e eu
ainda menor do que antes encolhido em meu leito de morte,
eu morrendo e seu corpo tão cheio de vida, meu corpo já
quase vazio da alma, eu pálido e quase morto e o rosa vivo
dos seus mamilos durinhos, minha boca seca e o beijo úmido
que adivinho se desenhando no forro da sua calcinha, sua
menor calcinha, a que mal acomoda seus lábios cor de flor,
lábios que eu beijava e mordiscava prendendo sua fome entre
meus dentes, os poucos dentes que me restam trincando
de febre e você de peito de fora ignorando o frio que congela
minhas veias perfuradas, você demorando de propósito a
vestir o sutiã, você vestindo o sutiã que em outros tempos eu
abriria com não mais que dois dedos da mão esquerda, meus
dedos entrevados e você vestindo o sutiã que faz seus peitos
ainda maiores, meu peito ardendo por causa da falta de
ar e você com ares de puta que vai a uma festa trepar a noite
inteira, a noite inteira eu morrendo e você se encharcando
de perfume caro neutralizando o suor futuro do seu corpo
de dançarina e os odores de morte que já empestiam o
quarto, a sombra da morte passando pelos meus olhos e você
com mão firme desenhando sombras debaixo dos olhos,
você de rímel e sutiã mais radiante do que nunca e eu envelhecido
pela radiação inútil contra os tumores que me devoram,
sua boca que eu devorava vermelha no espelho que
reflete você de saia rodada e o batom vermelho da sua boca,
minha boca clamando em silêncio pelo algodão molhado sobre
o pires no criado-mudo, você sedenta de vida e meus lábios
ressecados, minha garganta seca e você desfilando pelo
quarto com a leveza de Debbie Reynolds dançando na chuva,
meu pijama encharcado de suor e urina e você limpa, saudável
e linda, sua cabeleira bailando feito um açoite, meu corpo
todo lanhado, minha cabeça quase sem cabelo, eu já quase
sem dentes, eu quase sem tempo, a areia do meu tempo
escorrendo ligeira entre os dedos e você com todo o tempo
do mundo se enfeitando diante do espelho, você rodando
a saia antecipando festas para as quais eu nunca mais serei
convidado, você enorme na frente do espelho e no fundo do
espelho eu minúsculo no leito de morte, eu em meus catéteres,
até que no espelho eu vejo você só de sutiã e saia rodada
flutuando de salto alto na direção da cama, até que sinto
seu frescor no mau-hálito da minha boca, meus últimos suspiros
e você suspirando no meu ouvido, descendo até minha
virilha, colhendo meus bagos feito um cacho de uvas secas,
meu membro moribundo voltando devagar à vida com o bálsamo
da sua língua, lázaro ressuscitado entre os mortos, tudo
o que resta da minha circulação sanguínea atendendo ao
chamado urgente das suas mãos e da sua boca, eu morrendo
e você chupando e empunhando meu pau com as unhas pintadas
de vermelho, e somente um segundo antes da morte
e do gozo árido que chega com a morte eu vejo você inteira
e descubro o rímel borrado, a nascente salgada que escorre
dos seus olhos vermelhos, os soluços que fazem seu corpo
tremer como num orgasmo furioso, mas não é gozo, você
treme de tristeza e horror, eu gozando a seco e suas lágrimas
molhando meus pentelhos, eu morrendo e você a mais bela,
a mais triste, a mais doce viúva do mundo.

***

José Rezende Jr. diante do horror

Quem é José Rezende Jr.?

Um menino que envelheceu sem perder o encantamento de olhar as coisas como se as visse sempre pela primeira vez. Mas que volta e meia sucumbe à tentação de resumir a existência humana àquela célebre passagem de “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad: “o horror, o horror”.

Acredita em amor incondicional?

Depois de tanto conviver com cães, gatos e outros bichos, minha resposta não poderia ser outra: sim, acredito em amor incondicional.

O que é ser homem nos dias de hoje?

As conquistas feministas nos libertaram. Ser homem nos dias de hoje é o mesmo que ser mulher. É ser livre para lutar por uma mesma causa: um mundo com mais delicadeza.

Quais foram as motivações para escrever este conto?

Se eu fosse crítico literário diria que José Rezende Jr. escreve obsessivamente sobre dois temas: vida e morte. “Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho” é um conto sobre a delicadeza e o horror; o encontro entre a vida e a morte, num único suspiro.

* A obra que ilustra esta postagem se chama Yellow Nude (1908), de Sonia Delaunay.

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Cafezinho Literário: queremos publicar autores do Norte e do Nordeste https://www.ocafezinho.com/2016/06/19/cafezinho-literario-queremos-publicar-autores-do-norte-e-do-nordeste/ https://www.ocafezinho.com/2016/06/19/cafezinho-literario-queremos-publicar-autores-do-norte-e-do-nordeste/#respond Sun, 19 Jun 2016 22:43:18 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=48598 No dia 15 de junho, a coluna Cafezinho Literário completou um mês de existência. De lá para cá, publicamos trechos de romances, contos, poesia e crônica. Também enviamos, semanalmente, uma newsletter exclusiva para os assinantes da coluna e trocamos ideia com leitores e autores de todo o país. Foi um início vitorioso.

Para comemorar, queremos publicar autores das regiões Norte e Nordeste. Sabemos que existem bons escritores produzindo em todos os cantos do mapa, mas não é fácil conquistar visibilidade fora do circuito literário convencional, ainda muito concentrado no eixo Sul-Sudeste.

A ideia é fazer um Cafezinho Literário arretado. Para tanto, receberemos, até o dia 20 de julho, apenas textos de autores nascidos ou residentes nas regiões citadas. A temática é livre e, portanto, não há qualquer necessidade de reproduzir regionalismos nos textos; traços culturais aparecem naturalmente na escrita. Lembrando que os trabalhos não precisam ser inéditos.

Como é que eu faço?

Os contos, as crônicas e os trechos de narrativas longas devem ter até duas laudas. A fonte deve ser Times ou Arial, tamanho 12, com 1,5 de espaçamento entre as linhas. Os poemas devem ter até uma lauda em qualquer tipo de fonte. O texto deve vir acompanhado de uma breve biografia do autor e, no caso de trechos de narrativas longas, de um resumo da obra. Mande tudo para: ocafezinholiterario@gmail.com.

Qualquer pessoa pode submeter um texto ao Cafezinho Literário e as postagens serão públicas. Mas, para que esta editoria exista, precisamos da sua colaboração. Vocês já sabem que O Cafezinho se mantém sobretudo de assinaturas e doações dos leitores. Com o Cafezinho Literário não é diferente. Você pode fazer uma assinatura mensal, trimestral ou semestral com descontos progressivos. E pode fazer doações pontuais para fortalecer a editoria, se preferir.

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* A obra que ilustra esta postagem é de autoria de Jonathan Wolstenholme.

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Cafezinho Literário: o breu e o baile de Cláudia Almeida https://www.ocafezinho.com/2016/06/12/cafezinho-literario-o-breu-e-o-baile-de-claudia-almeida/ https://www.ocafezinho.com/2016/06/12/cafezinho-literario-o-breu-e-o-baile-de-claudia-almeida/#comments Mon, 13 Jun 2016 01:48:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=47979 1 Comentário 🔥]]> O flamenco é uma poderosíssima ‘linguagem silenciosa’. Foi assim que Cláudia Almeida, assinante do Cafezinho Literário, explicou suas motivações para escrever “Breu e baile”. Enviou o texto com uma mensagem muito simpática, em que se notava uma leitora assídua desta coluna. Talvez não esperasse vê-lo publicado. Mas este seu baile tem um irresistível poder de arrebatamento.

A autora apresentou “Breu e baile” como uma crônica. A narrativa, no entanto, se aproxima da de um conto, sem a ação que se espera deste gênero. O texto me fez lembrar de “O museu dos queijos”, do Ítalo Calvino, publicado em Palomar. Um exercício de profunda observação, destinado a contar uma história não pelos atos das personagens, mas pelo estado do mundo em torno delas.

Embora escreva com frequência, a Cláudia ainda não publica seus textos. O que é uma pena, pois faz belezas quando escreve… “Breu e baile” é um desses textos capazes de criar uma atmosfera quente e densa em torno da cena. O leitor se vê logo envolvido pelo universo de cores, texturas e vibrações sonoras próprias da cultura flamenca. Quando menos espera, está lá, batendo palmas para a bailaora.

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Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

A autora Cláudia Almeida, bailarina de flamenco

A autora Cláudia Almeida, bailarina de flamenco

Breu e baile

de Cláudia Almeida

Breu. Uma guitarra hesitante ensaia os primeiros acordes, amarrando o fio da harmonia. Alguns compassos. O cajón entra com sua marcação ritmada, insistente. Em seguida, palmas ‘sordas’ vão se integrando à cadência e ao andamento. Fluidez e pulsação. Uma voz pungente se desprende em queixumes, longos ‘ais’. Uma luz tênue vai amansando a escuridão. O palco está montado. Não há cenário algum, nada que desvie a atenção; só há protagonistas, cada um fazendo e sendo música. No lado esquerdo do palco revela-se aos poucos uma silhueta quase arbórea, com o torso sinuoso e os braços suspensos, alcançando o que não está lá.

Num suspiro repentino, os braços se abrem em galhada e vão voluteando, as mãos acompanhando o movimento espiralado. O tronco permanece imóvel; só há vida e movimento nos braços que gravitam na penumbra. De repente, a bailaora vira e golpeia o tablado com ímpeto e atrevimento, impondo o andamento com seu taconeo preciso. Seu rosto é pura irreverência e ousadia; os golpes, tacos, puntas e tacóns se enredam nas palmas que se tornam vivas e vão acelerando num sapateado febril e enérgico; não são mais apenas passos, é música que parece se desprender da pele, tão resoluto e intenso o corpo. Um remate; um cierre. Só a respiração ofegante da bailaora dita agora o ritmo do silêncio.

A guitarra retoma o compasso, ansiosa. Inicia uma levada mais lenta e suave, chamando um bruxuleio delicado de mãos e braços, os pés agora quase inaudíveis. Ela se mostra inteira, seu colo arquejando da bravura anterior e antevendo a delicadeza da letra que o cantaor agora entoa. É uma soleá. Solidão, desterro. E é com esse mesmo abandono que ela esquadrinha sua própria soledade e impõe aos espectadores sua dor, sua inquietude, sua angústia. São paseos e braceos impiedosos mas serenos, as mãos arrancando do peito o desassossego e lançando-o lentamente na plateia embriagada de intensidade. Os olhos da bailaora fitam cada um, e nenhum. Ela baila para si.

Um último fôlego e guitarra, cajón, palmas e cante eclodem em acordes impetuosos, desafiando a bailaora, que responde com o corpo em uníssono, toda ela uma enxurrada de sensações. A música interpela, ela revida. Sua saia volumosa incendeia o tablado, seus volantes serpenteando e pintando o movimento, como um Matisse reinventado. Tudo nela é mobilidade e ela provoca o público, que agora não é mais assistente, é quase testemunha hipnotizada da franqueza e desassombro do baile arrebatado. Inesperadamente, ela para. Com o queixo, ela afronta cada um de nós e enceta mais um sapateado impossível antes de fazer um gesto de premeditado enfado e sair, tão tênue e imperceptível como entrou.

A guitarra ainda triturou uns poucos compassos desvanecidos antes de também libertar a mudez significativa. Nada mais havia a ser dito. Mas todos ouviram.

***

Cláudia Almeida e o ritmo das palavras

Cláudia Almeida é…

…carioca ‘quase calango’, de tanto tempo que vive em Brasília. É professora de inglês e tem paixão pelas palavras – e os silêncios. Em maio de 2016, se deu de presente de 50 anos a assinatura do Cafezinho Literário e espera ansiosa pelos e-mails todo domingo.

E essa carioca-quase-calango escreve com que frequência? Tem blog ou textos publicados? 
Escrevo sempre, geralmente ideias aleatórias em post-its. Algumas viram texto; outras viram poeira, mas não tenho blog ou textos publicados… ainda. Tenho algumas coisas borbulhando, mas ainda em estado vaporoso.
Quais são seus autores favoritos, aqueles que mais a influenciam?
Amo Gabriel Garcia Márquez, paixão desde a adolescência. Machado de Assis também me fala ao coração. Recentemente descobri João Anzanello Carrascoza, um lirismo encantador.
Qual é o lugar do flamenco na sua escrita?
O flamenco tem lugar cativo no meu coração, desde sempre e para sempre. O que escrevo tem muito do ritmo do flamenco.

*A obra que ilustra esta postagem se chama El Jaleo (1882), de John Singer Sargent.

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Cafezinho Literário: um conto de Wagner Martins, o autor ausente https://www.ocafezinho.com/2016/06/05/cafezinho-literario-um-conto-de-wagner-martins-o-autor-ausente/ https://www.ocafezinho.com/2016/06/05/cafezinho-literario-um-conto-de-wagner-martins-o-autor-ausente/#comments Sun, 05 Jun 2016 19:46:51 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=47474 5 Comentários 🔥]]> O Cafezinho Literário desta semana está enigmático: publicamos um autor ausente. Wagner Martins submeteu o conto “Zé Mariano” logo na primeira semana de existência da coluna. Depois da avaliação, retornamos com uma resposta positiva. Sim, Wagner, seu conto é muito bom e queremos publicá-lo. Enviamos algumas perguntas sobre a obra e o autor e pedimos uma fotografia. Semanas depois, ele respondeu, satisfeito e de forma lacônica: “Ficarei muito honrado com a publicação”. Sem foto, sem respostas às perguntas, sem nada.

Insisti sobre a entrevista e a fotografia, aguardei alguns dias e concluí que aquele autor não tinha urgência de conversas. Talvez não respondesse nunca. E fiquei sem saber como é o Wagner. Se ele tem cabelos castanhos, louros ou não os tem. Não sei quando e como ele começou a escrever. Tampouco conheci suas motivações para desenvolver esse conto. Mas estou certa de que o Wagner é um leitor maduro, experiente. Ele tem traquejo com a palavra, como podemos notar em “Zé Mariano”

Embora a trama seja simples, a narrativa é madura. Wagner apresenta linguagem de Wagner. Não escreve por distração, não está em busca de válvulas para pequenas ou grandes emoções. Ele ama Literatura e isso faz toda a diferença na trajetória do autor. Estou especulando demais? Talvez. Mas será que importam, de fato, a biografia, os interesses, a cara do escritor? Se tomarmos como referência J. D. Salinger, Raduan Nassar e Harper Lee, não. O que importa, sempre, é o texto. O resto, todo o resto, é artigo de decoração.

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Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

Zé Mariano

de Wagner Martins

Tomar cachaça era coisa utópica. Ninguém tomava cachaça. Bebia-se cachaça. Essa história de tomar, degustar uma boa cachaça é coisa de agora. Virou moda; viralizou para se utilizar de uma linguagem bem rede social. Tem controle de qualidade, selo, sommelier de cachaça, com curso teórico e tudo e já nem há mais o preconceito contra a cachaça. Aqueles nomes esquisitos que se lhe aplicavam, ficaram no passado. Tomar cachaça passou a ser coisa chique.

Pobres miseráveis se entupiam e se jogavam pelos cantos de ruas. Quase uma normalidade para fins de semana. Havia a figura do bêbado oficial, o sistêmico, o infalível, cheio de bordões e pegadas, o marca registrada, o bêbado da praça. Piu era um deles. Numa eleição qualquer aprendeu a gritar “É o Tim”, referência ao apelido, bordão político de um certo candidato a prefeito. Fim de semana era comum ouvir-se o grito afogado e sonolento num canto qualquer de muro ou cerca: “É o Tim”. Todo mundo entendia e o grito quase sempre era repercutido por passantes e adolescentes que não davam sossego pro amiudado senhor de chapéu de lontra amarrotado e atolado na cabeça, e que respondia pela alcunha de Coelho, quando sóbrio.

Cachaça não era coisa que se avaliava por procedência ou por selinho de qualidade. Cachaça ou era da mais fraca ou era da mais forte. Cachaça era “coisa do Piu”, que ficava tonto e mijava na roupa; era coisa de cachaceiro, na sua mais pejorativa adjetivação – resmungavam os impolutos cristianos do lugar. Mas era raro os que não sorviam, moderada e sorrateiramente um gole de pinga “antes do almoço ou do jantar, sô doutô,que é pra abrir o apetite, ou quando tá muito frio, pra esquentá os peito”.

Patrão que se preza não rela balcão de venda sustentado por copo de pinga, de jeito nenhum. Uma passadinha rápida, de forma despistada umas duas ou três vezes no dia, pra não levantar suspeita. Em casa, não tinha espaço nas cristaleiras, mas se escondiam num paiol, na tulha ou na despensa.

Toda venda, mesmo as que não toleravam cachaceiros, vendiam o produto e se gabavam de ter a melhor da região. Não era diferente na venda de Zé Carro. Lá, no debaixo do balcão, os vidros esverdeados acondicionavam o produto e na prateleira ou no canto do balcão, a baciinha com os copinhos de fundo pesado e grosso repousando na água, que era pra manter tudo limpinho.

Zé Mariano entrou no recinto e lançou o cumprimento: ‘lovado seja nosso senhor Jesus Cristo’! O silêncio não deu resposta. ‘Lovado seja nosso senhor Jesus Cristo’! Insistiu num repique estusiástico e puxado pra cantoria. ‘Para sempre seja lovado’! Veio lá do fundo a resposta num tom de respeito e louvação. Zé Mariano virou os olhos e do alto de seus cento e noventa e três centímetros balançou a cabeça. “Povo semducação”. Pediu uma lingüiça assada e um gole de pinga – “Não agora, depois que assar a lingüiça”.

Zé Carro colocou o prato esmaltado sobre o balcão, despejou o álcool, arrumou a trelicinha de arame de cobre por cima daquilo tudo e tacou fogo. Colocou vinte centímetro de lingüiça em cima da trelicinha e o chiado subiu como um canto telúrico espalhando cheiro e uma fumaça pelo recinto, tanto mais ardente, quando a gordura do chouriço começava a pingar sobre o álcool.

No chiado da chama azulada e “crocante”, o tira-gosto foi se aprumando enquanto consumia o álcool. Zé Mariano pegou o copo, levantou acima dos olhos e observou a consistência. O liquido cristalino movimentou em forma de circulo no copo e acumulou o rosário no interior do recipiente

‘Vai uma canelinha?’ – ‘Nada, macho vai na pura’. Jogou lá na garganta e apertou os olhos como se estivesse tendo uma alucinação.

Na terceira, quarta, quinta dose… não tocara o tira-gosto. Contou da última viagem com a tropa lá pelas bandas do Boachá. Muita chuva, barro, e muito trabalho e de sua habilidade no lançamento do tolete. Atirava o artefato e acertava na mira, na madrinha, responsável pela condução da tropa na trilha, a seu comando ecoando de um peitoral enfeixado de sinos.

– ‘Covardia nada, patrão, era só um pedaço roliço de pau d’alho. Coisa leve, só de assustação’

Foi falando, numa fala fina, e as palavras fluíam como se estivessem sendo despejadas de sua boca. A entonação firme e segura garantia a certeza de que era um homem forte e corajoso, embora a sonoridade não combinasse com o seu porte físico de quase dois metros de altura. Mas era crível. Além de amado por todos, Zé Mariano era figura respeitada na cidade pela sua coragem, pela honestidade e pela forma respeitosa com que tratava a todos a quem se dirigia ou quem dele precisava. Nos domingos assumia a posição de beque central do time de futebol e segurava vitórias homéricas com seu desempenho arrojado e decidido: ‘ou fica a bola ou fica o homem’

A narrativa seguia fluente, intercalada com mais um gole de pinga. Vez por outra ria com alguma brincadeira e repetiam o bordão de Piu, como forma de caçoada: ‘é o Tim’. E voltava o sorriso na boca ornada com um dente apenas. E todos riam. Levava a mão em direção da lingüiça ardendo no fogo mas recuava sem tocar. De repente tombou o pescoço para o lado, ajustou o chapéu na cabeça e soltou a preferência que o acompanhava:

‘o riiiiiiiii de piracicaaaaba,

vai  jooooooooga água pra fooora

quaaaaaaaando chegar a água.

dos oooooooolhos, de alguém que chora’

A vozinha que já não era lá muita coisa, soou esganiçada e comprida se saindo de uma garganta embriagada. Aprumou o corpo ergueu a cabeça e se apoiou na parede encardida. Olhou o prato com a borra do fogo, ameaçou de buscar com os dedos longos o chouriço nele recostado e desistiu mais uma vez.

‘Meu Joel. Escorpião matou.. .matou; matou. Escorpião matou meu Joel…’

As lágrimas correram-lhe da face e mataram a alegria daquele negro de dois metros de altura e fala fina. Cambaleante saiu e deixou no prato o gosto que não tirou.

***

Wagner Martins pelo buraco da fechadura

Esta é a adaptação de uma breve biografia que o autor enviou quando da submissão do conto. Além dessas, não temos quaisquer outras informações sobre Wagner Martins. Encare este parágrafo como uma espiada pelo buraco da fechadura, como um fragmento da foto 3X4, como um pedaço desse escritor que, esperamos, um dia todos possam conhecer.

Advogado, poeta, escritor, autor dos livros: “Fala, filho da mãe!!!” e “Um bichinho à toa” pela editora Biblioteca 24 horas de São Paulo. É natural de Entre Folhas e reside em Sabará, ambas cidades de Minas Gerais. Atua como declamador e diretor em grupos de teatro. Um dos fundadores do grupo Sarau de Sabará, que realiza performances e eventos culturais em bares e espaços culturais.

* A obra que ilustra esta postagem se chama McSorley’s Bar (1912), de John French Sloan.

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Cafezinho Literário: a poesia de Bruna Baldez https://www.ocafezinho.com/2016/05/29/cafezinho-literario-a-poesia-de-bruna-baldez/ https://www.ocafezinho.com/2016/05/29/cafezinho-literario-a-poesia-de-bruna-baldez/#respond Sun, 29 May 2016 03:01:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=46652 Maio de 2016 entra para os calendários como um mês triste. Mas, em diversos aspectos, ele exigiu de nós um posicionamento, uma postura firme, uma ampla capacidade de defender nossos ideais. E isso, de certo modo, é algo muito positivo. Maio falou, sobretudo, às mulheres; estivemos no vórtice dos piores acontecimentos, tanto na vida política quanto na vida privada. Os reflexos desses eventos são vistos em toda parte, inclusive na Literatura.

O poema “Jatos arbitrários”, de Bruna Baldez, parece ter sido escrito para este mês de maio. Bruna diz que acredita “na palavra e na arte como manifestações de luta e vida”. Dessa crença, notamos que ela extrai a matéria bruta de seus versos. Carioca de 23 anos, formada em Letras pela UFRJ, ela quer mudar o mundo e pincela o caminho com rimas.  No final desta página, há uma breve entrevista com ela. E é com a Bruna que o Cafezinho Literário encerra o mês de maio.

Quero publicar também!

Nosso chamado continua aberto. Saiba aqui as condições para submeter um texto, que não precisa ser inédito. Lembrando que todos podem enviar trabalhos para análise. No entanto, assinantes desta coluna recebem newsletter semanal com novidades incríveis sobre o universo dos livros. A existência do Cafezinho Literário depende da colaboração de autores e leitores como você. Participe!

Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

Bruna Baldez, autora do poema "Jatos arbitrários"

Bruna Baldez, autora do poema “Jatos arbitrários”

Jatos arbitrários

Ao despertar cruel

Das marés terrenas

Golpeiam, temidas,

Covardes hienas.

 

Sussurram nas ondas

De ódio assombroso.

Devoram, na farsa,

O sonho do povo.

 

Afogam denúncias

Na contracorrente

Das armas impunes

Do sangue da gente.

 

Resistem os gritos

De amor

(Não escuta?)

Do mar, fez-se arte.

Da dor, faz-se luta.

***

Entre silêncio e palavra, uma conversa com Bruna

As primeiras coisas primeiro: Quem é Bruna Baldez?
Uma mistura de calmaria e inquietação. Voz baixa, mente em ebulição. Mistério e transparência. Silêncio e palavra. Formada em Letras pela UFRJ, apaixonada pela Língua Portuguesa e Literatura. Do fazer poético, procuro não a solução, mas o entendimento (ainda enviesado) do mundo, do eu e do outro.

Quando a poesia entrou na sua vida?
O primeiro encontro aconteceu ainda na infância. Ganhei de aniversário um livro que reunia poesias de Vinicius de Moraes, Cecília Meireles e Mário Quintana. Mais tarde, conheci autores que inspiraram grande parte da minha escrita, como Baudelaire e os modernistas Drummod e Manuel Bandeira.

Pensa em publicar um livro? Tem blog ou qualquer outro canal de publicação?
Quando criança, eu já dizia: quero ser escritora. Aos onze anos, escrevi e registrei um livro. Em 2015, tive a minha primeira poesia selecionada em um Concurso Literário da Editora AMC Guedes. Hoje, reúno os meus escritos no blog brunabaldez.blogspot.com e sonho em publicar futuramente um livro de poesia.

Na sociedade em que vivemos hoje, tão pautada pela violência, qual é o lugar e a missão da poesia?
A poesia não pode ser pensada como um lugar de fuga, de introspecção ou alienação. Qualquer manifestação artística e cultural é, também, uma manifestação social. Em uma sociedade contaminada pelo ódio e pela injustiça, as palavras se oferecem como instrumento vivo de luta, resistência e desconstrução.

*A ilustração desta postagem é um detalhe da obra Pink Branches, do artista havaiano Chris Campbell.

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