Mariana T Noviello - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/mariana_tnoviello/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 16 Oct 2018 09:37:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Mariana T Noviello - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/mariana_tnoviello/ 32 32 Bolsonaro? Consciência pesada? Não se preocupe… https://www.ocafezinho.com/2018/10/15/nao-se-preocupe-com-a-consciencia-pesada-a-culpa-sera-do-pt/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/15/nao-se-preocupe-com-a-consciencia-pesada-a-culpa-sera-do-pt/#comments Mon, 15 Oct 2018 23:00:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=89910 50 Comentários 🔥]]> Seja qual for o resultado das eleições, podemos ter certeza de uma coisa: a culpa será posta no PT e, principalmente do Lula.

As eleições desse ano são, sem dúvida nenhuma, o resultado concreto do processo de um impeachment sem crime de responsabilidade e o PT foi de longe o partido que menos perdeu, apesar de todo o bombardeio que recebeu, vejamos:

Geraldo Alckmin, amargou no primeiro turno menos de 5%. Pífio resultado para o PSDB que, desde sua emergência, vem protagonizando as eleições presidenciais com o PT. Não fez um só governador no primeiro turno, reduziu a sua bancada de deputados federais em quase 50%, passando de terceiro maior partido para o nono, perdeu quatro senadores e está vivendo o fratricídio no 2ndo turno no seu berço, São Paulo.

O MDB, que mudou de nome para se distanciar de sua história recente idem, perdeu mais ou menos 50% da sua bancada na Câmara, um terço dos 18 senadores, governava 7 estados (incluindo o Rio de Janeiro), mas conseguiu eleger somente um governador no primeiro turno (aliás o único que se elegeu, se aliou ao PT, Renan Filho), apesar de ainda disputar o 2ndo turno em três estados. E sabe-se lá por que razão resolveu sair com um candidato inviável à presidência, dividindo ainda mais a chamada ‘centro-direita’.

A Rede se saiu bem no Senado, com cinco senadores, mas elegeu uma única deputada, a indígena Joênia Wapichana, e Marina derreteu, com apenas 1% dos votos na disputa presidencial.

O impeachment, levado a cabo pela ganância e desespero de um partido (PSDB) que não via suas chances nas urnas e por outro (PMDB) que temia a eliminação de seus quadros pela Lava Jato, se revelou um ato auto-destruidor.

Os ganhadores? Além de ascensão exponencial de Bolsonaro, foram os partidos do chamado ‘centrão’ que, apesar de terem pactuado com Alckmin para transmitir ao ex-governador de SP seus míseros segundos de televisão, foram migrando para a campanha de Jair Bolsonaro, como é de suas naturezas fazer, uma vez confirmada a súbita popularidade do capitão. O PP, partido conhecido por ter o maior número de envolvidos em atos corruptos, incluindo o notório Maluf, foi o que mais ganhou.

Temos na câmara agora 30 partidos! Todos sabemos que a fragmentação partidária é uma das razões para a falta de governabilidade, o fisiologismo e a corrupção.

Outro ganhador destas eleições é o partido Novo, que saiu do nada para fazer uma bancada de oito deputados, com a possibilidade de eleger um governador em Minas Gerais. O Novo, com ideologia claramente de mercado, não tem o empecilho do rótulo ‘social democracia’ e ainda (por ser novo) não tem casos de corrupção. O PSDB que se cuide.

Com isso, teremos (quase não é possível imaginar) o que deve ser, o pior Congresso já visto desde a redemocratização (isto é, se a maltratada democracia se manter). Pior que o congresso eleito em 2014. Mais fragmentado, mais conservador e mais fisiológico, com um aumento das bancadas BBB. A consolação? Algumas mulheres a mais e uma indígena.

Ah, e Ciro?

O Partido alugado por Ciro Gomes, o PDT se saiu bem, ganhou nove cadeiras, elegendo 28 deputados. Pena que não poderemos contar totalmente com esta bancada quando for necessário proteger (pois é só isso que vamos conseguir fazer) a agenda progressista.

Ciro teve uma votação digna, 12%, mas nada que justificasse a campanha que seus apoiadores fizeram, tentando convencer a massa petista a trocar de partido, sendo que era impossível Ciro tirar o voto da maioria dos petistas e grande parte de seus eleitores, especialmente no Nordeste, com exceção do seu estado, o Ceará.

O antipetismo subestimou a força do PT. Mas quando Haddad, o substituto de Lula, começou a dar sinais, em tão pouco tempo, de chegar ao segundo turno, o desespero bateu forte.

Então todos os candidatos, todos, com exceção de Boulos, começaram a equivaler o candidato do PT – o acadêmico de fala mansa e ‘o mais tucano dos Petistas’ Haddad – ao candidato abominável. Risível se não fosse trágico e criminoso, considerando a atual conjuntura.

Erro fatal esse, os votos que esperavam ganhar, retirados de Haddad e Bolsonaro, nunca vieram. Em vez disso, foram transferidos diretamente para Bolsonaro.

Perderam eles e perdemos nós. Perdemos nós porque parte considerável da população realmente acredita que não há diferença entre Haddad e Bolsonaro e, sem ninguém ainda para desmentir, continuam acreditando.

Pois Haddad patinou, enquanto Marina e Alckmin derreteram.

Mais de dez anos de mensalões, impeachments e lavas jatos impulsionaram o “candidato novo e apolítico”, e fundamentou o trabalho sigiloso e sujo nos zaps que, com a ajuda de algumas igrejas, de forma eficiente e precisa, inventou FakeNews e mentiras, sem ser incomodado.

Assim chegamos no segundo turno: o ‘Mito’, que se diz contra a corrupção, vai ganhar com base nas mentiras que vem espalhando e sem ter dito quase nada publicamente ou defendido suas ideias.

E não há nada de surpreendente neste segundo turno, infelizmente.

Marina, a candidata que mais bateu no Bolsonaro, a representante das mulheres, lavou as mãos e foi para casa – como fez depois de ter apoiado o Aécio e o impeachment, sem fazer críticas à Lava Jato. Pelas mágoas com o PT, a mulher que construiu toda a sua carreira no ambientalismo achou que não era necessário lutar contra um candidato que, não é só misógino e machista, mas que declarou querer renunciar ao Acordo de Paris, unir os ministérios da agricultura e meio ambiente e acabar com a demarcação das terras indígenas e quilombolas.

O PSDB também lavou as mãos, e apesar de Haddad ter se declarado aberto, não há conversa com o PT até que haja a tal ‘autocrítica’.

E o que seria a ‘autocrítica’, quando o PT reconhece que houve corrupção de alguns de seus quadros? Quando Haddad e até a própria Dilma já admitiram erros na condução da economia e em outras áreas?

Miriam Leitão, que só agora descobriu que o PT é mais democrático que Bolsonaro e admitiu que o partido foi republicano no trato da corrupção, nos dá uma pista: a ‘autocrítica’ é reconhecer que não há perseguição jurídica contra o PT.

Em outras palavras, implicaria rejeitar as exceções do judiciário. Ora, isto é completamente fora de cogitação para os petistas. Primeiro, porque não são só petistas que lamentam o ‘estado de exceção jurídico’ no qual estamos mergulhados e principalmente porque isso quer dizer a cabeça de Lula dada de bandeja.

Podemos, portanto, supor que o PSDB, ou aquilo que resta de vagamente decente no partido, também lave as mãos em relação ao futuro do país. Porém, considerando os resultados das eleições, não seria de tudo implausível pedir que os Tucanos também fizessem sua própria ‘autocrítica’.

E Ciro, o novo herói da classe média progressista, se encontra estranhamente calado. Flertou, ele também, com a equivalência PT-Bolsonaro. Alguns no seu partido, já até confiam na ‘contra-revolução’, propondo que Haddad ceda o lugar a Ciro. Quem sabe Ciro, já esperando uma derrota do PT, queira manter distância para se fortalecer, sem se imiscuir com o petismo para que, quando Bolsonaro cair, ele possa retornar como herói?

Estranha ironia a que vivemos, Lula, o “Salvador (ou destruidor) da Pátria”, tem partido e militância. Mas é ele o ‘Monstro Maquiavélico’, escondido em sua cela de Curitiba, ditando a sorte do país, mexendo os títeres da política brasileira, de esquerda e de direita. Enquanto os progressistas não-petistas esperam que Ciro, político solitário, de fala bonita e gatilho rápido, salve o Brasil das garras do Petismo e Antipetismo.

Seja qual for o resultado, as reclamações choverão sobre o Lula: porque ele – e só ele – dono imperioso e voluntarioso do seu partido detém as chaves do futuro do Brasil. E, vejam só, ainda que na prisão, ele não quer ceder!

Seja porque não convidou Ciro para ser cabeça de chapa, ou porque Haddad não cederá a candidatura a ele ou porque o PT não fez a devida autocrítica, se o Bolsonaro ganhar as eleições, Lula será o culpado.

E se, por ventura, o PT ganhar, ele será responsabilizado diretamente e sozinho, pela sua incapacidade de nos retirar da crise tamanha em que nos encontramos.

E é bom que assim seja, porque ninguém precisará ter a consciência pesada ou se remoer sobre os estragos que o impeachment e o golpe jurídico-mediático-parlamentar causaram.

Que todos agradeçam, FHC e seus Tucanos, Ciro, Marina e até Bolsonaro que na mitologia política brasileira Lula passou de um despreparado analfabeto para se tornar o mais brilhante criminoso que o Brasil já viu.

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Acadêmicos alertam para o desmantelamento da saúde e políticas sociais no Brasil https://www.ocafezinho.com/2018/07/25/academicos-alertam-para-o-desmantelamento-da-saude-e-politicas-sociais-no-brasil/ https://www.ocafezinho.com/2018/07/25/academicos-alertam-para-o-desmantelamento-da-saude-e-politicas-sociais-no-brasil/#comments Wed, 25 Jul 2018 08:57:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=87512 2 Comentários 🔥]]> No prestigioso periódico científico inglês “The Lancet”, acadêmicos denunciam o desmantelamento das políticas de saúde e sociais no Brasil que o governo Temer vem promovendo e alertam para as futuras implicações das políticas neoliberais de privatização do SUS.

Acessem o texto em inglês aqui.

Abaixo segue a tradução:

Catástrofe na Saúde brasileira

A crise política e econômica que o Brasil vem atravessando tem desviado a atenção do modelo neoliberal de saúde que este governo vem aplicando. A seguir, um breve resumo das reformas na área de saúde e suas prováveis implicações no longo prazo. As novas políticas de saúde podem ser vista através de três lentes: a austeridade, a privatização e a desregulamentação.

Em primeiro lugar, o governo brasileiro lançou um dos mais duros pacotes de medidas de austeridade da história moderna. A emenda constitucional aprovada em dezembro de 2016, a PEC¬55, congela o orçamento federal – incluindo os gastos com saúde – nos níveis de 2016 por vinte anos.1 Além disso, em 2017, pela primeira vez em 30 anos, o governo gastou abaixo do mínimo orçamentário estipulado pela Constituição (R$ 692 milhões a menos). Outros setores associados à saúde, como educação e ciências, também sofrem cortes de gastos, que chegam a 45% para a pesquisa científica e 15% nas universidades públicas.

O governo brasileiro vem gradativamente reduzindo planos de proteção social essenciais, como o Brasil Sem Miséria, que dá ajuda financeira e acesso a bens e serviços básicos para populações vulneráveis, por meio de 70 programas especializados. Há cortes orçamentários em muitos programas de assistência social, de saúde preventiva e de redução de desigualdades.

Em 2017, mais de 1 milhão de famílias foram excluídas do Bolsa Família, cujo objetivo é erradicar a pobreza e a fome através de transferências condicionais de renda para as famílias mais pobres. De acordo com o prognóstico feito por Rasella et al., as medidas de austeridade que impactam o programa devem levar a um aumento da morbidade e mortalidade infantil na próxima década.8 O Pronaf, programa voltado para educação rural, abastecimento de água e geração de empregos, foi um dos principais responsáveis por retirar o país do mapa da fome da FAO, e agora encontra-se gravemente comprometido.1 O financiamento do Programa Cisternas, que dá acesso a água potável a comunidades rurais mais pobres, foi reduzido em mais de 90%. Dado que uma das causas principais da violência nas comunidades rurais é a falta de acesso à água, a perda deste programa ameaça significativamente a segurança destas comunidades. O Programa de Aquisição de Alimentos, que compra alimentos da agricultura familiar para distribuir aos mais pobres também foi reduzido em 99%. Estas mudanças drásticas nas políticas sociais podem reverter os avanços alcançados nas últimas duas décadas, que retiraram 28 milhões de pessoas da pobreza e trouxeram 36 milhões para a classe média.

Em segundo lugar, o governo planeja implementar os planos de saúde privados (Planos Populares), que visam a substituição de funções então prestadas gratuitamente pelo SUS. Os planos privados são mais limitados do que o mínimo prestado pelo SUS e estão sujeitos a menor controle regulatório, resultando em serviços de baixa qualidade e altos custos extras para os usuários.

Em terceiro lugar, por lei, estados e municípios são obrigados a repassar recursos federais, através dos chamados bloques financeiros em áreas estratégicas da saúde, incluindo saúde primária e vigilância sanitária. As novas regras isentam as administrações regionais destas obrigações, que passam a poder investir quantias específicas em áreas estratégicas da saúde, o que pode contribuir para a degradação do SUS e o aumento as desigualdades regionais. Além disso, as novas regras reduzem o número obrigatório de médicos nas unidades de emergência, e o número de funcionários das unidades de saúde primária, incluindo uma diminuição nos números de agentes comunitários de saúde. Esta reorganização do serviço primário de saúde não só confere mais poder ao setor privado devido à redução da qualidade dos serviços públicos, mas também diminui a capacidade efetiva do SUS na promoção de saúde, administração de emergências e prevenção. A desvalorização do setor público já está afetando a cobertura vacinal e a vigilância sanitária, o que resultou num surto de sarampo.

Estas medidas mostram que o governo brasileiro está renunciando aos princípios de cuidado universal da saúde, apesar de inscritos na Constituição brasileira. As políticas de saúde neoliberais, combinadas com a desregulamentação das leis trabalhistas,14 em meio a uma grave crise econômica, não vão apenas contra a concepção de justiça social, como também podem agravar dois grandes problemas da saúde pública no país: as desigualdades sócio-espaciais e socioeconômicas da saúde e a alta taxa de homicídios. Esperamos que este texto estimule o debate sobre a crise do sistema de saúde no Brasil e possa contribuir para uma análise rigorosa das tendências neoliberais nas políticas de saúde e suas consequências em várias partes do mundo.

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Rui Costa Pimenta em Londres: O Povo vs as Forças armadas? https://www.ocafezinho.com/2018/05/27/rui-costa-pimenta-em-londres-o-povo-vs-as-forcas-armadas/ https://www.ocafezinho.com/2018/05/27/rui-costa-pimenta-em-londres-o-povo-vs-as-forcas-armadas/#comments Sun, 27 May 2018 20:14:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=86119 3 Comentários 🔥]]> 2o Secretário da Embaixada da Venezuela, Marcos García; Rui Costa Pimenta e Nara Jararaca, ativista londrina
Foto: Ana Rojas

Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, está em Londres, primeira cidade de um tour pela a Europa, cuja missão é divulgar o golpe de estado, a prisão de Lula e a intervenção militar.

Na sexta-feira, no Bolivar Hall, da Embaixada da Venezuela, Rui explicou a situação brasileira.

O 2o Secretário da Embaixada Venezuelana, Marcos García, abriu a palestra.

Além de delinear o contexto geral, García descreveu o histórico da situação em que se encontra seu próprio país.

Fez um breve relato das recentes eleições e elencou os golpes e atentados que a Venezuela sofreu desde os anos 90.

Rui se utilizou deste contexto para situar o golpe brasileiro no quadro latino-americano mais amplo:
“Podemos fazer uma discussão sobre os ‘erros do PT’”, disse, “mas é uma perda de tempo, porque a causa real do golpe é externa”.

De acordo com Rui, este seria o ponto de partida para entender toda a crise política brasileira.

Não vou me estender a explicar tudo o que Rui disse, mesmo porque há muitos relatos sobre suas opiniões nos blogs de esquerda, inclusive suas próprias transmissões semanais.

Mas talvez o mais interessante da palestra fosse a comparação, muito atual, da situação venezuelana e a brasileira.

O governo bolivariano, apesar de todos os seus problemas e crise econômica grave, bem ou mal, tem resistido a qualquer tentativa de destituição, inclusive tentativas armadas, enquanto que o governo petista desabou diante de uma ofensiva institucional.

Debate-se muito a ‘real’ mudança provocada pelo Chavismo, que imediatamente modificou a Constituição Venezuelana; o ‘aparelhamento’ institucional, da máquina, do judiciário; fala-se muito também sobre as ‘bases populares’ da Revolução Bolivariana, que até agora continuam a apoiar o governo e que foram imprescindíveis nestas últimas eleições. Especialmente quando se compara tudo isso à chamada ‘maquiagem’ petista.

No entanto, o que mais me tocou na fala do Sr. García, foi o apoio dos militares ao chavismo. Não é novidade. Todos sabemos que o chavismo tem uma base de apoio nas forças armadas. Mesmo porque Chavez era militar.

O interessante foi a comparação.

Especialmente num momento onde vemos o Fantoche da República pedir mais uma intervenção militar para lidar com mais uma crise causada por ele, porque ele não sabe, pode, ou quer solucionar.

García, nos recordou que Chavez tentou a via golpista em 1992 e foi malsucedido.

Uma vez fechada esta possibilidade, Chavez decidiu disputar as eleições democraticamente sem, entretanto, perder o apoio militar que sempre esteve nas bases e foi – e continua sendo – em parte responsável, relatou García, pela manutenção do governo até os dias de hoje.

No Brasil, bastante diferente do que acontece na Venezuela, a esquerda não tem o apoio das forças armadas.

Na verdade, nós sabemos que a nossa história com estas forças, depois da ditadura militar, foi muito mal resolvida e que suas consequências, como estamos vendo, reverberam ainda hoje.

Não estou de nenhuma maneira advogando o aparelhamento das forças armadas pela esquerda, ou fazendo nenhum julgamento positivo ou negativo em relação ao papel das mesmas na história venezuelana. Inclusive, minha posição pessoal é anti-militarista e pacifista.

Entretanto, acho importante salientar este ponto, que muitas vezes é esquecido, quando comparando a resiliência das esquerdas governistas. E o fato é que as forças armadas têm um papel importante dentro de tudo isso.

Podemos não concordar com Rui, que acha que o governo já está nas mãos dos militares. Mas o fato é que estamos vendo, cada vez mais nitidamente, que o golpismo brasileiro se apoia, pelo menos em parte, nas forças armadas. E que, ultimamente, os militares se deram a ameaçar a democracia, se as coisas não parecem ser de seu gosto, tal como se deu no caso do julgamento do habeas corpus de Lula.

Diz Rui que a situação no Brasil está mais explosiva do que se pensa e vê na greve dos caminhoneiros um potencial para acabar com os golpistas.

Ele continua: se é verdade que a greve pode causar “um golpe dentro do golpe”, e que os grevistas são em grande parte apoiadores da direita, também é verdade que “não importa a ideologia da manifestação e sim seu ‘dinamismo’” e que a disputa das narrativas e o protagonismo estão em aberto.

Diz Rui, que se a greve (que deveria ser chamada pela CUT) se generalizar e a população aderir, há uma verdadeira possibilidade de derrotarmos o golpismo. Ele acredita que, apesar de Lula não ter conseguido por pessoas em números suficientes na rua com a sua prisão, “a temperatura do país subiu muito” com este fato.

E os militares não derrotariam o povo?

Rui parece crer que, se a população reagir, os militares não seriam capazes de se levantar contra o povo. Será? Vamos condedê-lo este ponto, mesmo com todas as incertezas.

O que é ainda mais díficl de acreditar é que este seria realmente o tal momento elusivo, tão esperado pela esquerda, de finalmente ver a população brasileira ser ‘protagonista de sua própria história’.

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Sindicalistas de todo o mundo fazem ato LulaLivre em Londres https://www.ocafezinho.com/2018/05/24/confederacao-sindical-internacional-faz-ato-lulalivre-em-frente-a-embaixada-brasileira-em-londres/ https://www.ocafezinho.com/2018/05/24/confederacao-sindical-internacional-faz-ato-lulalivre-em-frente-a-embaixada-brasileira-em-londres/#comments Thu, 24 May 2018 11:24:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=86003 2 Comentários 🔥]]> Sharan Burrow, Secretária Geral da CSI e Antonio Lisboa, Secretário Internacional da CUT lideram ato Lula Livre com ativistas londrinos
Foto: M. Noviello

Às vésperas da reunião do Conselho Geral da Confederação Sindical Internacional (CSI), que acontece hoje e amanhã (dias 24 e 25 de maio) em Londres, sindicalistas de todo o mundo participam de um ato em frente à embaixada Brasileira contra a prisão do ex-presidente Lula, que contou também com a presença de grupos ativistas de Londres.

Entre os representantes de várias Confederações internacionais, estavam os Secretários de Relações Internacionais da TUC (Reino Unido), Owen Tudor, e da CUT, Antônio Lisboa.

A Secretária Geral da Organização, Sharan Burrow, também se manifestou, falando da prisão ilegal de Lula, lembrando que a ONU está formalmente investigando as violações contra as garantias fundamentais do ex-presidente.

Reiterou o apoio ao presidente e, junto com representantes sindicais de vários países, reafirmou que eleições sem Lula é Fraude.

Antes do evento, o Secretário de Relações Internacionais da CUT, Antônio Lisboa, se encontrou com membros das comunidades de ativistas em Londres, sob a direção de Nara Jararaca e seus grupos Democracy for Brazil e comitêlulalivreUK, na sede da TUC (Confederação Britânica), onde mostrou seu agradecimento pelas atividades feitas no exterior, salientando a necessidade de continuar trabalhando para mudar, através do soft power, a opinião pública sobre os acontecimentos no Brasil.

Disse também que o movimento sindical global tem “muita clareza” do golpe que o Brasil sofreu com a retirada da Presidenta Dilma Rousseff do poder e dos retrocessos nas políticas públicas que isto desencadeou.

O movimento sindical vê com muita preocupação as reformas trabalhistas que mudaram mais de 100 artigos da CLT, mudança esta condenada pelo Comitê de Peritos da OIT.

A Respeito da Decisão da ONU

Os advogados de Lula em Londres, liderados por Geoffrey Robertson Q.C., se mostraram satisfeitos com a decisão da ONU em continuar formalmente a investigação do caso Lula.

Disseram que não esperavam que a ONU pedisse a soltura do ex-presidente e que a investigação leva em conta, e espera, que o Brasil garanta os direitos civis e políticos de Lula: isto é, que ele possa participar das eleições de outubro.

Ainda disseram que a decisão da ONU seria uma vitória moral para os advogados de Lula contra o governo brasileiro.

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Dilma, Lula e o clamor pelo Plano B https://www.ocafezinho.com/2018/05/10/dilma-lula-e-o-clamor-pelo-plano-b/ https://www.ocafezinho.com/2018/05/10/dilma-lula-e-o-clamor-pelo-plano-b/#comments Thu, 10 May 2018 11:09:23 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=85564 19 Comentários 🔥]]> Foto Ana Rojas: Dilma Rousseff na Universidade de Queen Mary’s, Londres

Abandonar candidatura de Lula seria legitimar golpe, diz Dilma em Londres

Em suas andanças pela Inglaterra, a Presidenta Dilma Rousseff criticou aqueles que estão clamando pelo Plano B do PT.

A Presidenta Dilma Rousseff argumenta que um plano B, seria fazer o papel de carrasco quando, na verdade, o Partido dos Trabalhadores e Lula são as vítimas.

É mais fácil e melhor para a consciência do torturador conseguir aquilo que ele quer sem ter que aplicar a tortura, pois mesmo para ele, a tortura é uma opção difícil.

Dilma argumenta que durante o seu processo de impeachment pediram que renunciasse porque seria ‘melhor para ela’, evitando desconfortos políticos, e ‘melhor para o Brasil’, pois o país não precisaria passar por este processo ‘difícil e doloroso’ que eles próprios inventaram.

Mas renunciar para quê? pergunta ela, “para perder a narrativa, perder o futuro, perder a dignidade?”

De acordo com Dilma, foi justamente a sua resistência que revelou a natureza golpista do impeachment: tiveram que inventar desculpas frágeis para justificá-lo, como as pedaladas fiscais, e nada explicitou melhor o Golpe do que aquele dia fatídico do voto na câmara dos deputados.

Ela pergunta: seria agora papel do PT de conciliar o país quando foram eles, os golpistas, que ‘abriram a caixa de Pandora dos monstros brasileiros, instilando o ódio e fazendo surgir a extrema direita’?

O mesmo argumento, diz ela, é utilizado quando se fala num Plano B para o PT.

A mídia, de repente, se ‘preocupa’ com a viabilidade política do partido que sempre atacou: com Lula na cadeia, o que vão fazer? Porque Lula, todos sabem, não vai sair e não vai governar, dizem, e PT precisa trazer o ‘novo’.

Continua Dilma: “Eles querem que nós tiremos o Lula por eles. Mas Lula não é culpado, é inocente, a prisão de Lula faz parte do processo do Golpe. Plano B é como eles queriam. Nós sustentamos a posição de inocência de Lula e não cabe a um inocente ser retirado do pleito. Quem fizer este papel perde a narrativa e perde o futuro.”

Dilma diz que Lula é expressão legítima do anseio de parte povo brasileiro, o político mais popular que o Brasil tem. E como Lula está na cadeia justamente para não participar das eleições, um Plano B implicaria em aceitar o Golpe como legítimo, condenando um homem inocente à prisão, e ainda negando ao povo brasileiro a possibilidade de elegê-lo.

Um Plano B, Dilma reitera, seria como a vítima fazer o papel do carrasco: assim, as vítimas do Golpe dão aos golpistas o que eles mais querem – Lula fora do páreo.

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Lula, justice and the case of the Beachfront Apartment https://www.ocafezinho.com/2018/04/21/lula-justice-and-the-case-of-the-beachfront-apartment/ https://www.ocafezinho.com/2018/04/21/lula-justice-and-the-case-of-the-beachfront-apartment/#comments Sat, 21 Apr 2018 10:15:17 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=85007 1 Comentário 🔥]]> By Mariana T Noviello

Photo: (Facebook Guilherme Boulos) MTST member on the rooftop of the beachfront apartment attributed to Lula

On 16th April, approximately 50 members of the MTST – The Homeless Workers’ Movement – decided to occupy the three-floor apartment attributed to Lula.

“It was the first time that the MTST occupied a property with the owners’ endorsement”, said Guilherme Boulos, the movement’s leader, sarcastically.

Lula had stated several times that if the apartment was his, then the housing movement should occupy it.

The group’s action was always meant to be symbolic.

They wanted to highlight, in a very concrete way, some of the problems with Judge Moro’s decision.

They claimed that “if the apartment belongs to Lula, there is no problem, we can stay. If the apartment does not belong to Lula, then why is he in prison?”

Their stay was short-lived, the police arrived rather quickly and threatened protesters with arrest.

Removal orders, of course, did not come from the former president.

Legally, the flat belongs to OAS, the infrastructure company involved in the Petrobras corruption scandal.

Lula has never owned the apartment, never had the deeds or even spent a single night in the building. He only visited the apartment twice*.

The apartment is meant to have been ‘attributed’ to Lula for ‘undetermined’ services rendered by him to the Company in return for the Petrobras contracts – even though no specific links were ever established between these contracts and Lula.

Indeed, BBC Brasil reported that Moro, in a recent seminar at Harvard University, likened ‘Lula’s action’ to that of Don Corleone in ‘the Godfather’: Lula, allegedly, granted a favour and OAS was indebted ‘to retribute later’.

Interestingly, one of the things that came out of the MTST short occupation were videos and photos of the inside of the triplex.

Part of the case against Lula rested on the fact that OAS apparently refurbished the flat to the tune of R$1.2 million (approximately £250,000) for the use of Lula’s family.

According to the Brazilian press, refurbishments included a fully-fitted kitchen and a lift, linking all three floors.

Internal images of the apartment taken my MTST members can be found in the Revista Forum site.

Brazilian site R7 had even published images (which were later deleted) of what the interior was meant to look like.

During the hearings, Lula’s lawyers requested a visit to the apartment, which the courts refused.

Many now wonder whether the defense was denied the visit because refurishments were not as ostentatious as they were expected to be.

The MTST showed that the apartment was simple inside and that claims of the million Brazilian reals spent on the refurbishment were widely off the mark.

The ‘Master Criminal’, as the Public Prosecutor Dallagnol described Lula, received as his part in a corruption scheme, involving over a 100 people and hundreds of millions of dollars, a second-rate apartment on a second-rate beach resort…

On 18th April, the appeal court in Porto Alegre unanimously rejected all final questionings made by Lula’s defence without analysing their merit.

The Housing movement’s action provided us with the opportunity to reveal the prosecutors’ and the court’s ‘gymnastics’ in their attempt to find a crime to ascribe to former President Lula.

Unfortunately, it also casts further doubts on the credibility of the Brazilian Justice system.

*For further analysis of Moro’s decision see “Comments on a Notorious Verdict: the Trial of Lula

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Para aqueles que começam a clamar conciliações, novas narrativas e um virar de páginas https://www.ocafezinho.com/2018/04/14/para-aqueles-que-comecam-a-clamar-conciliacoes-novas-narrativas-e-um-virar-de-paginas/ https://www.ocafezinho.com/2018/04/14/para-aqueles-que-comecam-a-clamar-conciliacoes-novas-narrativas-e-um-virar-de-paginas/#comments Sat, 14 Apr 2018 09:54:53 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=84832 7 Comentários 🔥]]> Em 2009, deixei o Brasil, no auge do sucesso do Governo Lula, para passar um ano na Argentina.

Como toda boa brasileira, um dos temas que mais me fascinavam era o da comparação entre Argentina e Brasil.

Apesar de todo o charme e sofisticação da capital argentina, tudo no Brasil parecia melhor, mais evoluído e mais ‘funcionante’ (o que não me impediu de me apaixonar completamente pelo país e seu povo).

Na época, uma das grandes ‘diferenças’ que eu via, equivocadamente, era que o Brasil, que ainda era (e é) o país do apartheid social, parecia ter se conciliado politicamente de uma maneira que não tinha acontecido na Argentina.

Na Argentina de Cristina Kirchner, as Madres ainda saíam todas as semanas na Plaza de Mayo, as Abuelas procuravam (e achavam) seus netos e não passava um dia onde não se mencionava de alguma maneira algo relacionado à ditadura e aos terríveis crimes cometidos na época.

Uma ferida aberta, ainda dolorida e fétida, que trazia paixões de ambos os lados.

Ademais, a polarização na Argentina não parecia exatamente social (em seu sentido estrito, obviamente que de base social), mas política, onde os dois lados, um Peronismo ainda vigente se batia fortemente contra um conservadorismo que, na época, achava muito mais acirrado que o Brasileiro.

Barricadas nas ruas, greves e manifestações faziam parte da rotina do país.

E eu achava os dois jornalões argentinos, o Clarín e a Nación, ainda piores e mais mentirosos que os nossos Folha e Estadão (se isso é possível de imaginar).

Achava, erroneamente, que no Brasil, havíamos aprendido a ‘conciliar’. E não obstante o conservadorismo gritante e inerente de nossas elites, as nossas feridas
se cicatrizavam.

Um aparte: curiosa e contraditoriamente à minha análise, a Argentina de Kirchner tinha conseguido passar duas leis que o Brasil nem perto chegou, a lei dos meios e a lei dos campos (ambas causavam considerável reações por parte da mídia e da elite conservadora).

Pois bem, como fomos descobrir somente alguns anos depois, se a ferida argentina ainda pulsava vermelha e quente, a nossa, cicatrizada por cima, não dava sinal dos vermes que se adentravam e se alimentavam de nossa carne, antes da explosão da ferida e a emergência de grandes e inúmeras moscas, já adultas, deixando nossa carne corroída, podre e infectada.

O golpe dado não foi um movimento político comum, parte da disputa de ideias. Foi um assalto, um ataque sujo à nossa democracia.

Deixou nosso país acéfalo. De um lado e do outro.

Parte do sentido da alternância de poderes numa democracia é que a parte governante vai perdendo gradualmente sua capacidade de ação, sua ligação natural com as bases que fizeram possível a sua ascensão.

Enquanto isso, a oposição vai se preparando organicamente e ganhando simpatia da população.

Já devo ter dito isso várias vezes, mas repito, a formação de líderes é um processo orgânico. Não acontece de um dia para o outro.

É por isso que o golpe, além de terrível, foi mais que tudo, burro.

Já me explicaram várias vezes que, na época do chamado mensalão, a oposição, em sua versão mais republicana, tentou o ‘deixar sangrar’, certos que a ‘corrupção’ derrubaria Lula.

(In)felizmente para nós, Lula não só sobreviveu, mas emplacou uma presidente DUAS vezes!

Nunca me esqueço da cara dos Mervais e asseclas na Globonews apresentando os resultados das eleições de 2014.

Ouvi inúmeras vezes que o golpe aconteceu porque, depois de Dilma, Lula voltaria.

Se o Golpe nos deveria ensinar alguma coisa é que o futuro não é previsível.

Minha suspeita é que depois de 4 mandatos do PT, principalmente do último da Dilma, que a ninguém agradava, teríamos a tão ‘desejada’ alternância de poder.

Mas não, não puderam esperar. Não confiavam na capacidade do povo brasileiro de ‘saber escolher’ um presidente.

O fato é que estamos onde estamos.

E me indigna a sugestão de certos setores que deveríamos ‘virar a página’. Ou como disse o New York Times ‘achar um novo líder dentro dos seis meses que nos restam até as eleições’.

Voltando de novo às nossas feridas: o país que elegeu a ex-guerrilheira Dilma como presidente, não conseguiu se conciliar com o seu passado.

Me parece que não estávamos preparados para tão grande feito: eleger uma mulher (sim, além do mais, mulher) que afrontou a ditadura ainda representada em setores não só do parlamento, mas de todas as instâncias e esferas de poder do nosso país.

Esconder tudo debaixo do tapete e achar que poderíamos avançar sem analisar o passado, sem dar uma resolução adequada aos acontecimentos, não funcionou.

E agora nos pedem para deixar ‘nossas mágoas’ de lado? Como se houvesse equidistância entre a esquerda e a direita? Como se ambas as partes fossem igualmente culpadas pela destrução do país?

Reclamam que não temos nada mais a oferecer que o ‘velho’ e ‘ultrapassado’ Lula?

Que ‘narrativa nova’ pode sair disso tudo tão abruptamente, tão cedo?

E o que seria exatamente esta ‘narrativa’? Marina da Silva e seu ambientalismo apolítico e importado, de mãos dadas com as grandes corporações? O velho e batido ‘nem esquerda, nem direita’, num país assolado por preconceitos de classe?

Infelizmente para os afobados precisamos de tempo. Mesmo se a decapitação ocorrida pudesse ser chamada de ‘poda’, ela demoraria para dar frutos.

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Minha Carta ao Presidente Lula https://www.ocafezinho.com/2018/04/14/minha-carta-ao-presidente-lula/ https://www.ocafezinho.com/2018/04/14/minha-carta-ao-presidente-lula/#comments Sat, 14 Apr 2018 09:08:43 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=84754 3 Comentários 🔥]]> Foto: Edson Costa – Palestra com Geoffrey Roberson, SOAS, Universidade de Londres

Meu Querido Presidente Lula,

Escrevo esta minha cartinha enviando solidariedade, um grande abraço e muito, muito agradecimento por ter sido, simplesmente, o melhor Presidente que o Brasil já teve.

Escrevo de Londres, mas se pudesse estaria aí no Brasil, estaria em São Bernardo, em Curitiba, junto como o pessoal do MST para bradar um belo bom-dia todas as manhãs.

Escrevo para o homem, o Luiz Inácio Lula da Silva, de carne e osso, e não para o mito. Porque o trabalho do ’mito’, como o sr. mesmo disse, está feito. As sementes já foram plantadas.

Isso se vê com cada estudante que resistiu em sua escola. Com cada indígena e quilombola com doutorado que agora luta por sua comunidade. Com cada pessoa humilde de cabeça erguida, que não aceita mais um papel subserviente na sociedade.

Pode ser que, neste momento, eles estejam por cima, mas é um momento passageiro.

Estes velhos (ou velhos de coração) velhacos que tomaram conta do poder, por seus próprios preconceitos e insularidade social, foram incapazes de ver isso.

Achavam que o Brasil de 2018 era o mesmo de 1968 ou de 1978. Não perceberam que foram justamente as políticas do seu governo, que mudaram o Brasil.

Não se deram conta disso quando deram o golpe, pensaram que ia ser fácil.

Era só tirar Dilma… e por Lula na cadeia tachado de corrupto… E… em 2018, Aécio, ou qualquer outro irrelevante, seria presidente!

Mais não, estão como um Macbeth que, para se manter no poder, mais sangue precisam derramar.

Por isso que eles, a cada dia, radicalizam ainda mais o golpe.

Mas não se preocupe, meu Presidente Lula, nós venceremos. E venceremos porque novas bases foram assentadas e, mais cedo ou mais tarde, o povo Brasileiro saberá sair dessa.

Portanto, deixo aqui a minha solidariedade e todo meu carinho ao homem, Lula, que está sendo indigna e injustamente tratado.

O homem que, por ter se tornado o símbolo de seu povo, está fadado a levar todo o peso da nossa terrível história nos ombros, sinto muito por isso, Presidente.

Meus pensamentos estão com o Sr. e com sua família, não posso conceber o sofrimento pelo qual vocês têm passado estes últimos anos.

Saiba, também, que mesmo aqui de Londres estamos na luta.

Um grupo de Brasileiros, cada vez maior, está fazendo de tudo para trazer o Brasil de novo à pauta.

Digo que, depois do golpe, isto não é tarefa fácil – O Brasil se tornou simplesmente ‘mais uma má notícia’, entre as várias más notícias no mundo, uma injustiça a mais entre tantas outras. Porque se interessar pelo Brasil, quando há tragédias na Síria? No Iêmem?

Nos mobilizamos em atos de rua, nos articulando com sindicatos, partidos políticos, artistas, acadêmicos e intelectuais. Tentando dar publicidade à cada violação de direitos ou retrocesso social que acontece no nosso país.

Mas, sabemos também, que o trabalho que fazemos é de apoio e pressão, porque o verdadeiro trabalho é feito pelo povo brasileiro, no Brasil.

Ninguém de fora nos salvará – e isso é algo que o Sr., Presidente Lula, compreendeu muito bem!

Portanto, mais uma vez, deixo meu grande respeito e um caloroso abraço desta fria Londres.

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Support for Lula is not just Populism https://www.ocafezinho.com/2018/04/07/support-for-lula-is-not-just-populism/ https://www.ocafezinho.com/2018/04/07/support-for-lula-is-not-just-populism/#comments Sat, 07 Apr 2018 16:51:39 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=84613 2 Comentários 🔥]]> To support Lula is also to support Brazilian Democracy

When thinking about Lula it is to separate two facts that the foreign media has either not understood or has deliberately decided not to explain to their non-Brazilian readers.

Lula’s support is not just part of a ‘Populist trend’.

There are two fundamental and distinct reasons as to why Lula attracts support, not just from a large part of the Brazilian population, but from many law professionals, intellectuals, artists and academics.

These are:
1) Lula’s record as the most successful and popular president in Brazil – leaving office with over 85% of approval and;
2) The unfairness and flaws in Lula’s trial.

Unless this is explained, we will be left with an impression that all Lula’s supporters close their eyes to corruption, which is not true.

1) Lula’s record in Government: in coalition with other parties the Workers’ Party (PT) has promoted several very successful ‘left of centre’ policies on which the media has indeed reported, such as taking millions out of poverty and Brazil out of the UN’s “Hunger Map”.

a. It is this success (translated into 4 presidential mandates) that makes a large part of the population remember the PT years fondly – particularly when compared with Temer’s post-impeachment rule and
b. partly why the opposition ousted President Dilma through the impeachment.

2) A concern for democracy, Brazil’s Constitution and the Rule of Law:
a. Dilma’s impeachment has led to worrying trends of which the most notorious are:
– the murder of Councillor Marielle Franco;
– the rise in violence against minorities and the most vulnerable populations, community leaders and activists (indigenous, former slave communities, landless peasants, black young people in the favelas, prisoners);
– the rise in fascist and extreme right views and attitudes (such as the gun attack on Lula’s bus).
– a disregard for the rule of law.

b. Within this scenario, Lula’s trial and conviction is the most symbolic.

That is why a considerable number of renowned Brazilian legal experts (academics, practicing professionals) have consistently pointed out flaws AT ALL LEVELS of Lula’s trial: from the unnecessary bench warrant that led to his forceful arrest by the Federal Police, his appeal at the second level court (TRF4) in Porto Alegre, to Judge Moro’s order for his imprisonment, EVEN BEFORE the Supreme Court had officially issued its decision on his Habeas Corpus or his recourses to justice had been fully exhausted.

That is also why over 100 jurists have written a book called “Comments of a Notorious Verdict: the Trial of Lula”, available IN ENGLISH and FOR FREE to DOWNLOAD.

These concerns also featured in Supreme Judge Lewandowski’s justification as to why he voted to grant Lula a Habeas Corpus. He stated that when the second level court (TRF4) rejected Lula’s appeal, they failed to provide adequate reasons for their decision.

Concern for Brazilian democracy and the blatant way that President Lula has been unfairly treated by the Courts has managed to achieve something that is very rare, not only in Brazil, but in the world: unite the left, left of centre, progressives and democrats in general.

That is why not only a ‘sea of red’ and the ‘usual PT supporters’ have surrounded Lula in the city of his “political birth”, São Bernardo do Campo, but also why Lula’s rights to a fair trial and to participate in the October presidential elections are supported by progressive politicians of all hues – including the PT’s break-away leftist party, PSOL.

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As certezas de todos nós, parte II: a esquerda irreconciliável https://www.ocafezinho.com/2018/03/29/as-certezas-de-todos-nos-parte-ii-a-esquerda-irreconciliavel/ https://www.ocafezinho.com/2018/03/29/as-certezas-de-todos-nos-parte-ii-a-esquerda-irreconciliavel/#comments Thu, 29 Mar 2018 15:15:34 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=84308 9 Comentários 🔥]]> Foto: Vaso grego mostrando Odisseu, o herói humano e falível, e seus companheiros se preparando para juntos cegarem o cíclope Polifemo

No primeiro destes textos, dividido em três partes, falei sobre as ‘certezas’ da direita que nos trouxeram à situação onde estamos. Neste texto discuto o que chamo de ‘certezas’ das esquerdas.

Acabei o texo passado dizendo que a direita não tinha conseguido chegar onde pretendia. E acabou criando o ‘imbatível monstro Lula’.

Disse também que o papel de Lula vai muito além do homem político que deveria ter o direito de disputar as eleições simplesmente porque ele representa os anseios de boa parte da população.

Até a morte de Marielle, Lula era também um escudo para toda a esquerda, já que ele e o PT eram os principais alvos de ataque. E, também, porque é o alarme que chama a atenção às arbitrariedades do golpe.

Talvez uma das grandes diferenças entre a esquerda e a direita, é que a direita, apesar de suas enormes contradições conceituais, (melhores representadas pelo conflito entre o ‘conservadorismo de costumes’, que não concebe uma abertura a novas práticas sociais e os conceitos de um ‘liberalismo econômico’, que destrói tudo e qualquer prática e costume a favor dos lucros econômicos) consegue se unir, pelo menos em um bloco de conceitos hegemônicos, enquanto que esquerda, é incapaz de se reconciliar (apesar dos atuais sinais encorajadores, se um tanto atrasados).

Isso porque quase qualquer pessoa que se diz de esquerda tem uma concepção diferente dos problemas do mundo e dos caminhos para resolvê-los. E, geralmente estão tão convencidos de suas posições que uma conciliação com as ‘outras’ esquerdas se faz praticamente impossível.

Deixo – antes de tudo – minha opinião clara aqui: não sou contra opiniões diferenciadas no campo da esquerda. Concordo com Boulos, o que nos diferencia é justamente esta diversidade de opiniões. O que critico é o fato da esquerda, muitas vezes, não saber quem são seus reais inimigos, e nem quando tem que se unir para combater um mal maior.

Como dizia, os pontos de vistas são múltiplos:

Há, por exemplo, o antigo debate sobre as ‘mudanças estruturais’ que o PT nunca fez e que, dizem alguns, levaram a o governo ao ‘fracasso’ e o Brasil ao golpe.

Alguns queriam tanto as mudanças estruturais que olham com desprezo qualquer outra política, se distanciando e lavando as mãos de tudo que é, ou foi feito, ‘só para remediar’, como diriam.

Tem o também velho argumento de que melhor não se deixar ‘corromper’ e não governar do que tentar fazer pelo menos algo de valor para melhorar a vida da população.

De novo, a atitude ‘reformista’ ou ‘conformista’ (dependendo do seu ponto de vista) do governo petista deixou alguns muitos revoltados, uma parcela significativa da esquerda ficou com enorme ódio, como se a vida concreta das pessoas não importasse, esquecendo-se de que, esperando o momento conjuntural apropriado para a revolução se vão vidas e mais vidas.

Depois vem o argumento da luta ‘fora da via institucional’, que também está dividindo a esquerda. “Se o PT não tivesse…”, dizem alguns, “agora só fora das instituições…” dizem outros, também com ódio daqueles que tentam o caminho das instituições.

Mas a luta fora da via institucional, apesar de mencionada como panaceia, também traz uma série de questões práticas: O que significa exatamente? Principalmente se não estamos falando de ‘luta armada’.

É por pessoas na rua? Greve? Desobediência Civil? Tudo ao mesmo tempo? Temos pessoas engajadas em números suficientes? Os movimentos sociais poderiam bancar estas ações sozinhos? E o chamado ‘povo’, ele foi educado para ver isso como realístico? E se forem às ruas, aguentariam até quando?

E tampouco é verdade dizer que não há ação. Alguns movimentos estão lá, lutando o tempo todo – por seus direitos específicos e no geral.

Boulos e Guajajara, os pré-candidatos do PSOL, por exemplo, representam movimentos que estão em luta constante contra uma sociedade que não lhes dá espaço e de forma mais generalizada, contra o golpe e seus desencadeamentos nefastos.

E houve certa demonstração de resistência ‘das ruas’ assim que o Golpeachment foi dado, e algumas vitórias pontuais.

A mídia alternativa está cheia de exemplos de movimentos batalhadores, desde os movimentos negros e feministas, movimentos das favelas, etc. até o ciberativismo.

Portanto, não estamos falando da falta de luta não-institucional, mas de sua massificação. E essa massificação é possível? Quem, como, quantos, por quanto tempo?

E ainda podemos perguntar, se a luta ‘das ruas’ não acontece de forma massiva, não acontece por que? Aí temos uma série de argumentos que vão de um extremo ao outro.

Temos o velho ‘vamos culpar o caráter do povo brasileiro’, tipo: ‘o brasileiro é muito dócil e burro, nunca luta’, e o mais recente, ‘o pobre de direita’ que, francamente, remonta aos mesmos insultos vira-lata de sempre.

Não podemos também esquecer o ‘vamos culpar o Lula por tudo’: desde ‘Lula e o PT retiraram o protagonismo dos movimentos sociais…’ até o ‘Lula não chama, se Lula chamasse, todos estariam na rua…’

Será? O que não seria mais desmoralizador do que uma grande chamada para parar o país e o país não parar?

Meu irmão é um desses que acredita na necessidade da desobediência civil, mas quando pergunto o que ele vai fazer, ele diz que não pode porque tem filhos e família para cuidar… Quantos esperam dos outros o que não esperam de si mesmo?

Dizem que parte importante do povo está com Lula.

Mas há um grande caminho entre 40% da população dizer em pesquisas de opinião que ‘se houverem eleições votam no Lula’ e que ‘Lula está sendo discriminado’, e sair contra a injustiça que Lula está sofrendo a ponto de fazer mobilizações, protestos por dias e dias, atos de desobediência civil, com possibilidade até de perder o emprego.

Há diferenças que, até agora, nos pareciam irreconciliáveis, portanto. Cada um na sua trincheira tentando provar que a sua teoria é a única válida. Ou então com medo de se ‘manchar’, de ‘sujar a biografia’, se pondo ao lado de pessoas ‘desmerecedoras’, como seria o caso de Lula e do PT.

A execução de Marielle e os ataques às caravanas de Lula trouxeram um certo sentido de urgência e muitas vozes começam a conclamar uma ‘esquerda unida’.

Estamos chegando perto das eleições que, se acontecerem (e precisamos fazer de tudo para que elas aconteçam, em primeiro lugar), poderiam (pelo menos teoricamente) nos tirar do buraco no qual nos enfiamos.

Muitos de nós, mas não todos ainda, têm a consciência de que só unidos poderemos reverter os estragos: ontem boa parte da esquerda – pelo menos através de alguns de seus líderes mais relevantes – demonstraram uma rara, e necessária, união.

Mas o que quer dizer isso? Será que esta união vai além de atos pontuiais?

E para refletir, se a esquerda decidir disputar o primeiro turno fragmentada, isso é necessariamente ruim?

Deixo para discutir isso na terceira parte.

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As certezas de todos nós: parte I – a onisciência da direita https://www.ocafezinho.com/2018/03/25/as-certezas-de-todos-nos-parte-i-a-onisciencia-direita/ https://www.ocafezinho.com/2018/03/25/as-certezas-de-todos-nos-parte-i-a-onisciencia-direita/#comments Sun, 25 Mar 2018 11:25:24 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=83898 7 Comentários 🔥]]> Foto: Vaso grego – o semideus Hércules lutando contra o monstro Hidra

Este é o primeiro de três textos em que pretendo discutir a conjuntura atual e a situação que nos encontramos face às eleições de 2018.

Começo este artigo, de maneira, quem sabe, pretensiosa, com a frase de Sócrates que, nos próximos dias, minha filha terá que desmiuçar para a matéria ‘teoria do conhecimento’: “só sei que nada sei”.

Mas talvez nestes mundos de manipulações e atuações cibernéticas, a dúvida seja o que está nos faltando – a todos.

A Onisciência da Direita

A direita é tão convicta de suas ideias que não se importa de quebrar as regras do jogo, quando elas não a interessam, para impor o seu ponto de vista.

E se tivesse mais humildade e menos certeza não se encontraria neste impasse e na necessidade de implodir o Brasil, como anda fazendo.

Sim, porque foi a convicção de que o povo brasileiro é bobo e burro que a levou a achar que ganhariam a disputa de narrativas.

Foi isso que fez com que ela surfasse na onda da corrupção, atiçando a população contra o PT, tentando fazê-la acreditar que a corrupção tinha partido.

Foi a certeza do convencimento que a levou à desesperada “solução pelo o impeachment”, acreditando que a deposição de Dilma seria suficiente para ‘estancar a sangria’, virar o jogo, e que se Dilma fosse deposta e Lula tachado de corrupto e criminoso o povo correria para os braços da direita.

Foi a certeza e arrogância da direita, que uma vez dado o Golpe, não importando o motivo, ela se pôs a destruir o arcabouço social fragilmente consolidado nos 12 anos de PT no governo e ainda foi além, destruindo também a Constituição de 1988 e o que vinha desde Vargas.

Foi certeza e arrogância que a fez, e a faz, acreditar piamente em suas ideologias (menos Estado, mais mercado; que a economia é uma ciência exata; que a globalização afeta a todos igualmente, etc.).

E tão convencidos estão seus adeptos por suas ideologias que precisam implementá-las na marra, num momento de ‘suspensão democrática’ (uma oportundade única, alguns clamam!), enquanto parte considerável dos brasileiros se encontram (ainda?) em estado de ‘suspensão de descrença’, desejando acreditar que ‘o PT é o partido mais corrupto’; o governos petistas ‘destruidores do Brasil’; e que ‘o impeachment ocorreu dentro da lei’, entre tantas outras ilusões necessárias para viabilizar a tragédia política brasileira.

E como estamos vendo, estas ‘certezas’ não levaram nem ao que eles esperavam e tampouco a alguma solução política ou econômica para os chamados ‘problemas’ do Brasil.

Porque, se a esquerda errou, se não tinha força suficiente para desarmar este jogo, a direita também perdeu: não conseguiu impor suas mentiras e ideologias – nem por força.

O erro estratégico foi tão profundo, que agora se encontram completamente perdidos para as eleições dentro de alguns meses, pondo todos nós em risco de ver Bolsonaro presidente.

E pior, se afundaram tanto que, como Macbeth, a única saída parece ser contiunar pelo caminho nefasto pelo qual se enveredaram.

Reiterando: se o golpe tivesse dado certo, a direita teria alta popularidade e estaria em boas condições para disputar as eleições de outubro – seja esta direita quem for, MDB (que até teve que se distanciar de si mesmo, tentando nos iludir que é o mesmo partido da incipiente democracia brasileira), PSDB, Dem ou a profusão de pequenas siglas fisiológicas e socialmente conservadoras.

Mas, até agora, fora a destruição (ainda parcial) do Brasil, só conseguiram criar o ‘Monstro’ Lula.

Porque Lula está ficando cada vez mais imbatível, parecendo aqueles monstros horríveis de desenho animado japonês ou da mitologia grega, que quanto mais se atira, mais se fere, mais se corta, mais ele volta, inteiro, grande, com várias cabeças ou em inúmeras multiplicações.

A direita está precisando mesmo de um semideus – sem fraquezas no calcanhar – para atingir com a sua espada o exato lugar que fará o Monstro Lula virar pó (e esse parece não ter sido Moro).

Mas apesar da vida não ser tragédia grega, como disse Wanderley dos Santos, infelizmente, Lula não tem mais o direito de ser simplesmente ‘humano’ – livre ou preso, nas eleições ou fora.

Empresto as palavras de Fernando Horta:

Lula caminha para seu destino. Destino, que, como disse Wanderley em tom desesperado, “ninguém sabe qual é”. Ninguém, nem a direita. Nem os fascistas e nem mesmo o judiciário. Lula neste momento cumpre 4 papéis: (1) mantém-se como alvo das ilegalidades e assim escudo de toda a esquerda, (2) causa consternação e dúvida em todas as esferas do golpe, (3) mantém acesa as esperanças de ação política dos mais pobres (evitando a alienação política por desilusão) e (4) aumenta exponencialmente os custos das arbitrariedades”.

Em outras palavras, Lula cumpre um papel que vai muito além do homem político que deveria ter o direito de disputar as eleições simplesmente porque ele representa os anseios de boa parte da população.

No próximo texto, é exatamente disso que eu pretendo tratar – a difícil relação das esquerdas (e suas certezas) com Lula’.

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Neoliberalismo: Carillion, Capita e o Colapso do Estado Mínimo Britânico https://www.ocafezinho.com/2018/02/07/carillion-capita-e-o-colapso-do-estado-minimo-britanico/ https://www.ocafezinho.com/2018/02/07/carillion-capita-e-o-colapso-do-estado-minimo-britanico/#comments Wed, 07 Feb 2018 14:57:38 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=83195 3 Comentários 🔥]]> o Royal Liverpool Hospital, reformado pela falida “Carillion” deveria ter aberto em março de 2017. “É pouco provável que abra este ano”, diz a BBC. A Carillion também mantém 50 prisões
Foto: BBC

Enquanto na Europa, o neoliberalismo expõe as suas víceras, no Brasil ele é implementado na marra

Nestes tempos de luta política intensa, da necessidade de salvar o símbolo, o homem, a gente tende a deixar de lado o porquê da luta.

A luta por Lula e o que ele significa é imprescindível.

Mas na premência de salvá-lo, corremos o risco de deixar passar a proposta teórica, rejeitada pela população brasileira, que está sendo implementada na marra.

Portanto, é importante observar o que acontece em outras partes do mundo.

O Reino Unido é um dos precursores na implementação do neoliberalismo.

Dada as condições específicas do sistema político britânico, o partido governante detém todo o poder de fazer o que quiser com o Estado (com grande aparelhamento – o que, para os nossos ilustres Deuses do judiciário, significaria corrupção).

Isso pode ser positivo ou negativo, dependendo do nosso ponto de vista ideológico (mas não é um crime).

O fato é que, por causa deste sistema, nas últimas décadas do século XX as ideias neoliberais, como o estado mínimo e a supremacia do mercado, puderam avançar sem qualquer obstáculo.

E o país virou um palco de experiências e experimentos baseados em teorias nunca antes aplicadas, mas que, mesmo sem resultados concretos foram – e continuam sendo – exportadas mundo a fora.

Hoje, 40 anos depois da chegada do neoliberalismo pelas mãos de Margaret Thatcher, todas as partes do sistema público britânico estão em crise.

Fora os problemas mais gritantes como o Brexit (resultado da não inclusão dos excluídos), a crescente desigualdade, a falta de produtividade da mão de obra, a dependência do país nas importações e o trabalho precário, a população reivindica a re-nacionalização de vários setores e indústrias e, a iniciativa privada, prestadora de serviços públicos – antes aclamada como panaceia – está em apuros.

Cheguei na Inglaterra pela primeira vez em 1979, junto com a Margaret Thatcher.

Criança ainda, me lembro bem de estar num hotel com meus pais e ver, pela televisão, a queda de Callaghan e a entrada da chamada Dama de Ferro.

Na época, não sabia o impacto que isso teria, mas Margaret Thatcher marcou a minha vida.

Não estava presente durante o “Winter of Discontent”*, o evento que aparentemente pôs boa parte da população britânica contra os sindicatos, abrindo espaço para a aceitação do neoliberalismo.

Como disse, cheguei em março, junto com Thatcher, não vi o malfadado final do consenso socialdemocrata.

Com ela cresci.

Vi as guerras das Malvinas; as greves dos mineiros; as privatizações da mineração, do aço, das telecomunicações e da aviação; as rebeliões em Brixton, Toxteth e Handsworth e, finalmente, os protestos contra o chamado ‘poll tax’ (IPTU britânico), que a derrubaram.

Vi a total destruição do sistema industrial e a destituição social de seus trabalhadores, mineiros, fabris, servidores públicos e o ‘fim’ da classe trabalhadora.

A mão de obra das ex-colônias que reconstruiu a grandeza da Metrópole pós-guerra, e que veio em massa para criar e consolidar o Estado de bem-estar social Britânico, de repente, não tinha mais razão de ser.

O racismo aflorou, como sempre aflora em tempos de crise.

Antes dos mulçumanos, dos imigrantes europeus e refugiados, o ‘problema’ era negro.

Depois, veio a aceitação.

Thatcher prometeu o sonho da classe média para todos: a casa própria.

Mas o sonho veio às custas da destruição do Estado social.

O setor público, que passou 40 anos construindo moradias, tirando populações inteiras de cortiços e escombros, foi forçado a vender seus imóveis, seus mais valiosos bens.

E foi proibido de construir mais casas.

Money, Money, Money – ‘Loadsa Money’ era o moto dos anos 80 – Madonna e seu Material Girl.

O império financiero da City se consolidou e a potência industrial se transformou em provedora de serviços e conhecimento.

Margaret Thatcher ganhou sua implacável luta contra o trabalho organizado.

Mas a revolução não parou com ela.

Tinha coisas que nem ela tinha a coragem de mudar.

O “welfare state” era sagrado: educação, saúde, assistência social para todos.

Então John Major, seu sucessor, resolveu atacar o sistema de dentro para fora.

Veio a invenção dos ‘mercados internos’ e a introdução do setor privado para administrar o serviço público e as PFIs – Iniciativas de Financiamento Privado.

Frederick Hayek com seu mercado e estado mínimo e os teóricos da escolha pública que exaltavam o egoísmo, a racionalidade, o lucro e o setor privado, se tornaram reis (e, aparentemente, os consumidores também).

O Reino Unido se transformou em “Britain Plc” e seus cidadãos, em consumidores, objeto de minha tese de mestrado.

No começo dos anos 90, eu trabalhava no NHS, o serviço nacional de saúde, que passava por grandes transformações.

Ainda antes de meus estudos, apesar do mantra, apesar de anos de Thatcherismo, não conseguia entender o porque do privado ser sempre melhor que o público.

Vi de primeira mão a formação do ‘mercado interno’: a saúde foi dividida entre ‘provedores’ e ‘tomadores’ de serviços.

Isso não era simples terminologia. Implicava em certas organizações, como hospitais e médicos, venderem os seus serviços que uma entidade central comprava, dinheiro passando de uma parte do NHS para a outra, através de contratos.

Contratos, envolviam a contratação de gerentes para administrar a nova camada administrativa e financeira do sistema.

A ideia era que a introdução do lucro traria maior eficiência.

Mas em vez de eficiente, o sistema se tornou mais pesado, mais complexo.

De dentro para fora, não conseguia entender o porque de se gastar tanto dinheiro em trocas hipotéticas.

Apesar dos cortes, privatizações e outras inovações do mercado, nem Thatcher e nem Major conseguiram diminuir o tamanho do Estado – a lógica por trás de todas estas ações.

Enquanto isso, aclamavam as privatizações como modelo de eficiência, sem tentar compreender a complexidade dos eventos.

Afinal as inovações tecnológicas ocorreram ao mesmo tempo que as privatizações.

Quem pode dizer se a aparente maior ‘eficiência’ da privatizada BT (empresa de telecomunicações) tinha a ver com as teorias da escolha pública ou com as inovações em informática que começaram a emergir na época? Ou simplesmente porque qualquer mudança leva a melhorias, pelo menos temporariamente?

O fato é que o mercado interno não funcionou.

Em 1989, o muro cai e aclamam o ‘fim da história’. A morte da ideologia.

Sai Major. Entra Blair.

Social democracia e socialismo são substituídos pela justiça social e igualdade de oportunidades.

A palavra ‘classe’ é enterrada pela retórica da sociedade sem classes. Separam as lutas identitárias das questões socioeconômicas.

A terceira via sinalizou o reconhecimento da morte de qualquer teoria socialista. O que importava agora era a eficiência – cientificamente comprovada – e não mais, direita ou esquerda; Estado ou iniciativa privada.

Mas os quase 20 anos de governo conservador deixou os serviços públicos britânicos arrasados.

Blair precisava investir. De onde viria o dinheiro?

E Blair, apesar de seus inúmeros erros (alguns imensos, como a guerra do Iraque), investiu no sistema público, construiu e transformou hospitais e escolas, melhorou a qualidade do setor público e a pobreza caiu (mas não a desigualdade).

Acontece que Blair fez isso através da iniciativa privada. Nos 13 anos de governo trabalhista foram 620 contratos de PFI, a maioria para a construção de escolas, hospitais e prisões.

Os contratos viabilizavam os lucros de umas poucas empresas que agora detêm não só o monopólio dos contratos, mas também alguns serviços públicos essenciais, que não podem falhar.

A ideia era que o setor privado poderia construir o projeto e parte do pagamento viria da administração destes bens por um número de anos. Assim, o governo não teria que desembolsar imediatamente pelo custo da construção.

Os lucros embutidos nestes contratos foram imensos. O NAO (Serviço de Auditoria Britânico) calcula que as reformas de escolas custaram 40% mais caras do que se tivessem sido feitas pelo setor público, e os hospitais 70% mais caros.

De acordo com The Guardian, o hospital universitário de Norfolk and Norwich, cuja construção custou £229 milhões, e implicou na administração do hospital pela empresa até 2037, prevê à empresa privada £1 bilhão (aproximadamente 5 vezes o custo da construção).

A necessidade do pagamento destes investimentos (mais juros) está avolumando dívidas, chegando a causar cortes de serviços e até o fechamento de hospitais.

Já faz anos que os próprios proponentes do empreendedorismo privado, em universidades como a LSE, sabem que este tipo de empreendimento não é o mais barato.

E nem sequer o melhor, causando uma série de outros problemas à sociedade, como a cascata de tercerizações, sem qualquer tipo de responsabilização social pelos trabalhadores na ponta final deste processo, que não recebem nenhum tipo de proteção formal.

Hoje em dia, buscam-se alternativas para o financiamento público e fala-se do retorno à emissão de títulos (especialmente considerando as baixas taxas de juros no país) ou a criação de um banco nacional de investimento e desenvolvimento (tipo BNDES, que neoliberais brasileiros adorariam ver extinto).

Para além de todos estes problemas, agora descobrem, que algumas destas empresas estão quebrando.

Oito anos de governo conservador implicaram em oito anos de austeridade e cortes no financiamento dos serviços públicos, mesmo aqueles que ainda precisam ser pagos através de contratos feitos anos atrás.

E o setor privado parece não ser mais eficiente que o setor público.

Carillion, responsável por hospitais, a construção de estradas e da controversa linha de ferro HS2, já faliu, deixando muitos governos locais em situações difíceis.

Mesmo com seus próprios orçamentos estourados, agora vão ter que lidar com as consequências destas quebras, porque, afinal de contas, os serviços são públicos e a responsabilidade final é do governo.

Capita, outra empresa prestadora de serviços públicos, também advertiu que sua situação financeira não é boa.

Durante as Olimpíadas de 2012, o exército teve que fazer a segurança porque a firma contratada, a G4S, outra grande prestadora de serviços na época, não conseguiu proporcionar a quantidade de funcionários qualificados.

£10 bilhões foram pagos a uma outra prestadora para atualização de serviços informáticos que nunca se materializaram.

Sem contar as várias histórias de superfaturamento, ou de insatisfação com os serviços privatizados como água, luz e ferrovias (ironicamente prestados por empresas nacionais de outros países como a francesa EDF).

E pensar que o Golpe brasileiro foi dado para forçar mudanças que, com cada ano que passa, se mostram cada vez mais equívocas e baseadas em ideologias falsas.

Talvez mais irônico é o fato de que, no intuito de acabar com a mão grande “planejadora e reguladora do Estado”, se planejou um golpe para que aquele ente, não-identificável, que tudo sabe e tudo equilibra, o Mercado, fosse rei.

*O “Winter of Discontent” é uma frase emprestada de Shakespeare que deu o nome ao inverno de 1978-79, quando o setor público fez uma greve geral e o país parou: O lixo ficou sem recolher, e os mortos sem enterrar. É tido como o exemplo da “força” e falta de responsabilidade dos sindicatos da época.

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“Prova é tudo aquilo que o juiz aceita”, diz Dodge https://www.ocafezinho.com/2018/01/27/prova-e-tudo-aquilo-que-o-juiz-aceita-diz-dodge/ https://www.ocafezinho.com/2018/01/27/prova-e-tudo-aquilo-que-o-juiz-aceita-diz-dodge/#comments Sat, 27 Jan 2018 20:27:07 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=83002 38 Comentários 🔥]]> foto: Democracy for Brazil

A PGR, Raquel Dodge, esteve em Londres no fatídico dia 24 de janeiro, dia da confirmação da condenação de Lula pelo TRF4, para falar sobre Escravidão Moderna

A Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, esteve no Reino Unido esta semana para discutir a questão do trabalho escravo, justamente na semana em que o recurso de Lula seria considerado pelo TRF4 em Porto Alegre.

O trabalho escravo é algo que motiva a Procuradora Geral já faz muitos anos e também tema prioritário para a Conservadora Primeira-Ministra, Theresa May.

Os britânicos se encantaram com uma mulher engajada na luta contra a escravidão moderna, como ficaram impressionados com uma comitiva totalmente feminina.

Um contraste aos ‘homens brancos’ de Temer.

Raquel Dodge é pequenininha e dá a impressão de ser uma mulher humilde e retraída.

Não conhecendo os bastidores de Brasília e os círculos pessoais de Temer, me arrisco a dizer que não me surpreenderia se Temer a tivesse escolhido da lista tríplice, em parte, por machismo, isto é, pelo desprezo geral que ele e seus comparsas já demostraram tantas vezes ter pelas mulheres.

Desprezo este que se faz ainda maior se os interesses destas mulheres sejam aqueles denominados “soft”, “femininos” ou “periféricos” como as questões indígenas e o trabalho escravo, num mundo onde sabemos que é a economia e outras teorias apartadas da realidade do dia a dia que valem, e tanto ocupam as mentes masculinas.

Afinal, que risco poderia trazer uma mulherzinha que se interessa mais pelo trabalho escravo do que pela “corrupção geral da nação”?

Na verdade, o interesse pelo trabalho escravo, seria uma cereja, dando um je-ne-sais-quoi civilizatório ao bolo velho e impalatável que é este governo.

E aqui nós entramos em águas escuras.

Qual seria o verdadeiro norte do mandato de Raquel Dodge para além de fazer prioridade matérias que são normalmente relevadas a segundo plano?

Estivéssemos nós em uma democracia que funcionasse, tendo como chefe de estado uma presidenta eleita, de popularidade alta ou não, estaria aqui aplaudindo Raquel Dodge abertamente.

Exatamente como fiz no comecinho do governo Lula, quando as ações sociais, que mais tarde dariam lugar ao bolsa-família, deixaram de ser ações para aliviar o ócio das primeiras-damas (por mais eloquentes e intelectualmente aptas que fossem) e se transformarem em políticas de Estado.

Tal qual com Raquel Dodge.

Suas prioridades complementariam, no nível jurídico, as de um governo voltado para a erradicação da pobreza e o bem-estar social da população mais vulnerável com um apreço aos direitos humanos.

Entretanto, este não é o mundo em que vivemos.

Temos um executivo assaltado por bandidos e um judiciário que se acha Deus.

E aí está o cerne dos problemas que nos assolam.

O Ministério Público brasileiro tem total independência. E sua missão vai muito além de processar criminosos.

Esta seria a atividade principal da maioria das procuradorias do mundo: um órgão do estado, sob o controle do executivo, agindo para processar aqueles que infringem as leis.

Certamente, no Reino Unido, o Crown Prosecution Service (que, aliás, está sendo severamente criticado por ajuizar casos sem os fundamentos necessários), só tem este objetivo.

Esta instituição está sujeita à Advocacia Geral da União, cuja função principal é aconselhar o governo. Portanto, a ideia de que esta poderia vir a processar o Estado é remota.

Isso não quer dizer que o judiciário não exerça controle sobre o executivo britânico.

Mas, com certeza, é um sistema muito menos judicializado, onde a teoria da ‘soberania parlamentar’ é tão predominante que embasa a visão pró-Brexit de muitos Conservadores.

Voltemos ao nosso Ministério Público.

A primeira coisa que disse Raquel Dodge em sua palestra para professores e estudantes do King’s College foi que “as instituições brasileiras estão funcionando normalmente” e que “o Brasil experimenta o seu mais longo período de estabilidade desde a proclamação da República”.

Talvez ela estivesse se desculpando frente a uma plateia mais interessada em saber sua posição sobre Lula do que o trabalho escravo.

Mas parte do que disse é sincero.

Dentro da lógica bitolada dos agentes do judiciário, que têm total liberdade de ação, tudo está funcionando a mil maravilhas.

Pouco importa se o país esteja passando por uma de suas maiores crises.

Crise esta que se dá justamente pela falta de controle sobre o judiciário que, de tão poderoso, começa a violar a própria constituição do qual são guardiões e os direitos dos indivíduos, para os quais a independência do Ministério Público foi concebida.

Não sou a primeira a alertar aqui sobre os problemas que a chamada independência destes órgãos está causando, inclusive à nossa soberania nacional, quando uma instituição como o Ministério Público e outras partes do judiciário se acham no dever de ser mais leais ao combate à “criminalidade internacional” do que ao próprio país.

Ou quando começam a ver os políticos em geral como criminosos que precisam ser combatidos nacional e internacionalmente.

Diz a BBC que a Procuradora Geral firmou termo de entendimento com o SFO (Departamento de Investigação de Fraudes) britânico, como seu predecessor teria firmado com outros países.

Os poderes ilimitados do Ministério Público poderiam ter nos parecido salutar pela sua função de fazer valer a Constituição, com a ideia de ajudar resguardar os direitos dos mais fracos contra os mais fortes, mesmo se este ‘mais forte’ fosse o Estado.

Mas o que acontece quando os poderes deste órgão vão para além da Constituição e atacam o Estado e a nação em nome da luta contra o crime organizado em conjunto com agentes internacionais?

Se os nossos procuradores e outros membros do judiciário se acham “Cavaleiros contra o Crime”, o que dizer de seus pares estrangeiros?

Será que os membros do Serious Fraud Office britânico teriam a independência para fazer investigações em conjunto com as forças brasileiras que tivessem impacto deletério ao estado britânico?

Sinceramente não acredito.

Mesmo porque acordos maiores teriam que ser firmados a nível ministerial, o que não é o caso nem do Crown Prosecution Service ou do Serious Fraud Office, que lida com os casos graves de fraude e corrupção.

E o que dizer da total falta de controle democrático de tais ações conjuntas?

Se na segunda metade do século XX a luta era contra o ‘comunismo’ em nome da ‘liberade’, no século XXI parece ser contra a corrupção.

Sem querer aqui julgar a procedência dos casos, o fato é que mais de uma dezena de líderes mundiais estão ou já foram acusados (e alguns derrubados) sob a bandeira da corrupção.

Afetando países extremamente diferentes, governos de esquerda e de direita. Do Brasil à Arábia Saudita, passando por outros países latino-americanos, africanos e asiáticos.

Sim, estes países se encontram na África, Ásia e América Latina – o teatro de operações quentes da chamada ‘guerra fria’.

Nenhum destes países são do chamado “Norte” ou “desenvolvidos” ou “países do primeiro mundo”.

Façam deste fato o que quiserem.

Mas a maioria, como o Brasil, a África do Sul, Coreia (e até a Arábia Saudita!!) são países de porte médio, vistos com potencial para crescimento e liderança mundial.

De novo, não conheço nenhum destes casos e tampouco me interessa a procedências deles. O fato é que a ‘corrupção’ se tornou a nova bandeira mundial.

E se nós não conseguimos a atenção devida dos países chamados desenvolvidos para as aberrações que estão acontecendo no caso de Lula, é porque a maioria das pessoas aqui – quando sabem alguma coisa ou demonstram algum interesse – tendem a aplaudir o Brasil pelas suas ações “anti-corrupção”.

Elas não se debruçam sobre o caso e as questões de direito da defesa, imparcialidade, etc.

Porque tudo é muito simples: Brasil, país periférico, conhecido por sua corrupção.

Líder esquerdista que aparentemente ‘ajudou’ os mais pobres é depois flagrado por corrupção.

Como se diria em inglês “What’s new?” O que há de novo nisso?

Não é isso que esperamos destes paisécos? Não é isso que está acontecendo em vários outros cantos do mundo?

E a luta contra a corrupção não é digna de ser aplaudida?

Pois é.

Como mesmo finalizou Raquel Dodge quando perguntada sobre as provas contra Lula: “Prova é tudo aquilo que o juiz aceita”.

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Se Lula for impedido, será péssimo para o Brasil, péssimo para a democracia e ótimo para a imagem de Lula https://www.ocafezinho.com/2018/01/25/se-lula-for-impedido-sera-pessimo-para-o-brasil-pessimo-para-democracia-e-otimo-para-imagem-de-lula/ https://www.ocafezinho.com/2018/01/25/se-lula-for-impedido-sera-pessimo-para-o-brasil-pessimo-para-democracia-e-otimo-para-imagem-de-lula/#comments Thu, 25 Jan 2018 11:17:57 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82940 8 Comentários 🔥]]> Se a tendência jurídica de condenar Lula se confirmar, o ex-presidente nunca mais poderá se candidatar e participar ativamente da política do país.

E como muito de nós acreditamos, este é o verdadeiro objetivo de um judiciário viciado que julga Lula na velocidade da luz e leva à prescrição o julgamento de outros políticos cujos casos são arquivados sem nenhuma cerimônia.

Fora aqueles que fazem batalha ideológica e torcem para que Lula esteja fora do páreo, ou os que não têm nenhuma compreensão do que significa ‘justiça’ e ‘imparcialidade’, no Brasil, mesmo os cidadãos mais conservadores, se dão conta do tratamento injusto e parcial recebido pelo ex-presidente e o tamanho do golpe contra o nosso país.

Se Lula não puder ser presidente de novo, ele será, simplesmente, o melhor presidente que o Brasil já teve. Ponto.

E sua imagem só crescerá na história.

Quando os historiadores futuros puderem se debruçar minuciosamente sobre todos os documentos que estarão disponíveis sobre lava jatos, mensalões e demais achaques da nossa história recente, quando eles puderem quebrar os sigilos impostos por políticos contemporâneos a Lula (como Alckmin) e descobrir o porquê destes sigilos, a figura do Lula se revelará ainda maior do que é hoje.

Se a estupidez daqueles que governam o país no momento – nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário – não fosse tamanha, eles entenderiam que Lula não é simplesmente um símbolo da esquerda. Ele é também um ser humano.

Uma segunda presidência significaria a possibilidade de errar, de cair, de não conseguir fazer o que é esperado dele.

Isto é, se ele for eleito.

Vale lembrar os usurpadores, que numa democracia, existe sempre esta possibilidade.

E não nos iludamos, a tarefa que está, ou estaria, na frente de Lula é extremamente árdua.

Principalmente, porque não vejo a possibilidade de elegermos um parlamento com a dignidade e decência necessária para reverter todos os danos causados durante estes dois anos de lambança.

Não vejo a possibilidade de eleger um parlamento, que mesmo sob a liderança de um Lula, estaria interessado não só em “reverter danos”, mas ir além, fazendo tudo aquilo que seria necessário ter sido feito lá trás, em 2002, como a reforma das leis da mídia e do judiciário.

Retirar Lula da política, não significa somente retirar o maior empecilho para o projeto de poder da direita e seus aliados corruptos. Significa também retirar o ser humano, Luís Inácio Lula da Silva.

Já fui acusada muitas vezes de ser ‘lulista’.

E, sinceramente falando, como ‘lulista’ – pessoa mais fiel à figura do ex-presidente do que às ideologias de esquerda – temo pelo ex-presidente.

Temo a possibilidade de Lula chegar lá e não conseguir lidar com as enormes expectativas que, cada vez mais, o PT, os movimentos sociais, a população em geral e até mesmo a esquerda inteira, depositam (como já depositaram) sobre os ombros de um só homem.

Como me dói também pensar no quanto ele já sofreu e continuará a sofrer (na sua vida privada) por causa desta cruzada inútil e injusta.

Mas como pessoa de esquerda e engajada na luta pela democracia e justiça social no meu país continuo e continuarei a defender o direito de poder eleger Lula.

Isso porque, considerando a atual conjuntura política, Lula continua e continuará a ser o grande símbolo aglutinador, capaz de atingir massas, ouvir demandas, conciliar partes e – apesar de tanto ódio – talvez seja o único que seria capaz de manter o diálogo necessário com aqueles que destruíram o nosso país.

Nossa democracia já foi manipulada demais.

O golpe, e a decapitação precoce de líderes em potencial, fez com que não tivéssemos o tempo para o amadurecimento necessário para formar novas lideranças.

A interferência forçada do judiciário na política fez com que não possamos ver o crescimento orgânico de novos personagens.

E não só de esquerda – a direita está aí, correndo como galinhas sem cabeça num quintal, sangrando…

Mas não por muito tempo – a direita que se cuide.

Porque toda essa ebulição está trazendo de volta jovens, que doutra maneira poderiam continuar apáticos, à política.

Está mostrando à população que existe sim uma diferença entre esquerda e direita no governo.

E longe do que diz a elite, do que quis o judiciário e a mídia, o que eles fizeram foi mostrar ao povo que o engajamento político é necessário.

O futuro será fruto deste episódio macabre pelo qual estamos passando.

Isso no futuro.

Por ora é importante fazer tudo o que for possível para que a corja que está aí não destrua completamente o país a curto prazo.

Arruinando vidas que não verão este futuro mais longínquo.

E para isso, precisamos de Lula, o símbolo.

Por isso, precisamos ter a coragem de continuar a defender e estar do lado de Lula.

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Elections without Lula is Fraud! https://www.ocafezinho.com/2018/01/10/elections-without-lula-is-fraud/ https://www.ocafezinho.com/2018/01/10/elections-without-lula-is-fraud/#comments Wed, 10 Jan 2018 17:37:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82663 19 Comentários 🔥]]> In the UK, Brazilians are organising themselves to show solidarity to President Lula.

On the 13th January, the London International Committee for Solidarity with Lula will be launched and there will be an Act of Solidarity on 24th of January, date in which Former President Lula will have his appeal heard in Porto Alegre.

The Committee will bring together individuals and organisations in Britain that have for the past 2 years been fighting for democracy in Brazil.

There are three established groups formed by Brazilian activists in London: the PT Nucleus (members of the Workers’ Party), and two civil societies organisations, Democracy for Brazil and Arts for Democracy.

In addition, there is the Trades Union based “No Coup in Brazil” – which provides the support and solidarity of British Trade Unions, in particular to President Lula, who is still regarded as one of the most important men to come out of the world trade union movement – and the Labour Party’s “Labour Friends of Progressive Latin America”.

These organisations and individuals have also come together to urge people to sign the petition “Elections without Lula is Fraud”.

Your can read their contribution below:

Over 155k have signed the petition “Elections without Lula is fraud”, amongst them legal professionals, academics, politicians, artists and union leaders across the world.

On 24th January, the case against the former president of Brazil, Lula da Silva, will be tried on appeal.

Lula is currently well ahead in the polls for the presidential elections in October this year.

If the appellate court decides to uphold the conviction, which is very likely, Lula will not be able to stand for re-election.

There is something rotten in the Brazilian Judicial System…

An average appeal to this 2nd tier court, the TRF4 in Porto Alegre, takes at least 70 days to be assessed.

President Lula’s appeal was assessed in record time – 42 days – (the second judge only taking 6 days to make up his mind, though the sentence was over 250 pages long!).

In addition, other cases were put aside so it would be heard as quickly as possible, raising suspicions that the timing has more to do with stopping Lula becoming a candidate.

Expecting Lula’s conviction to be upheld, Brazil’s stock exchange is already commemorating in anticipation of 24th January!

But what about his original trial and why do we contest it?

Former President Lula was accused of illegally receiving an apartment in a popular beach resort.

The trial was not able to prove he is the owner.

Indeed, the flat is still in OAS’ (civil construction company) name and has been given as security to a bank in exchange for financial investment. This means that OAS was not free to give the flat to Lula!!

This apartment was meant to be the fruit of a kickback related to three Petrobrás contracts with construction company OAS.

No links were found between the fraudulent contracts and President Lula’s actions or the flat.

And yet…

President Lula was convicted and sentenced for over 9 years.

There are other problems with the trial…

In Brazil’s inquisitive system, Judge Moro was the investigation judge AND also the trial judge

That’s why Geoffrey Robertson QC, the human rights lawyer, is taking Lula’s case to the UN.

And…

That’s why we are calling it Lawfare. We believe that the law in Brazil is being used for political purposes.

Judge Moro did not convict Lula on the basis of the version provided by the Public Prosecutors.

Indeed…

He agreed that no links could be found between Lula’s actions and the Petrobrás contract.

So instead…

Lula was convicted on the basis of ‘undetermined and unidentified’ illicit acts.

The judge ‘attributed’ the flat to Lula even though he did not specify what ‘attributing a property to someone’ involves and…

Once again, Lula does not own the flat.

Also…

Lula only visited the property once!

That is why many people across the world are defending Lula’s right to have a fair trial AND his right to stand in the next presidential elections!

On the 24th January there will be acts in support of President Lula in Porto Alegre, where the trial is taking place, and in many other cities in Brazil.

There will also be acts in many cities across the world when members of Brazil’s Workers’ Party, union members, politicians, jurists, artists, academics and people who just care about democracy, the rule of law and human rights will be standing in solidarity with president Lula.

Please help us by signing the petition Elections without Lula is fraud or supporting our acts on 24th January.

Let the Brazilian people decide if they want Lula as their president and not the judiciary on trumped up charges!

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Geoffrey Roberston diz ser uma honra advogar para Lula https://www.ocafezinho.com/2017/12/07/geoffrey-roberston-diz-ser-uma-honra-advogar-para-lula/ https://www.ocafezinho.com/2017/12/07/geoffrey-roberston-diz-ser-uma-honra-advogar-para-lula/#comments Thu, 07 Dec 2017 23:59:44 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=81882 6 Comentários 🔥]]> Photo: Ana Rojas – Geoffrey Robertson e Cristiano Zanin falando no parlamento britânico

Dias 2 e 4 de dezembro, Geoffrey Robertson Q.C., o advogado de Lula junto à Comissão de Direitos Humanos da ONU, explicou o caso Lula a sindicalistas e parlamentares britânicos, que se mostraram preocupados com as violações do direito de defesa de Lula, como também com as eleições de 2018.

Em sua linguagem tipicamente simples, sem uso do ‘juridiquês’, o eminente jurista explicou aos parlamentares, membros da Câmara dos Lordes e convidados as mirabolantes acusações contra o ex-presidente brasileiro, a inexplicável conduta de seu juiz algoz e os resquícios do sistema inquisitório que ainda estão em vigor no Brasil.

Com a experiência de quem, muitas vezes, protagonizou mudanças na jurisprudência em várias áreas do direito internacional, Geoffrey Robertson diz que aceitou levar o caso de Lula a ONU porque acredita que o ex-presidente não está sendo julgado de maneira justa e imparcial.

Ele argumenta que há graves violações dos direitos humanos e fundamentais. “Eu aceitei o caso, não por Lula ser inocente, mas sim porque os métodos utilizados no processo são extremamente abusivos”.

Entretanto, Robertson diz ter “muito orgulho de defender Lula, uma pessoa fenomenal”, salientando a sua biografia e a luta do ex-presidente pelos trabalhadores e membros mais vulneráveis da sociedade.

Reitera que as políticas para a redução da pobreza implementadas pelos governos do PT são copiadas mundo afora e promovidas pela ONU.

Robertson comparou a justiça brasileira com a inquisição espanhola. Literalmente.

No Brasil, o juiz “tira o seu capacete de policial e investigador e põe a peruca para julgar o acusado”, o que seria uma grave violação dos direitos do indivíduo, acabando com um elemento fundamental, a imparcialidade do juiz.

Todas as vezes que Roberston apresenta o caso de Lula, explicando que o mesmo juiz que ordena o grampeamento de conversas (e o seu vazamento ilegal), a condução coercitiva, e as buscas e apreensões na casa do acusado, também atuacomo julgador, as pessoas se mostram incrédulas.

Robertson, que foi tanto advogado de defesa como de acusação (notoriamente no caso Pablo Escobar) em vários tribunais internacionais, e também como Juiz de Recursos na Corte Especial das Nações Unidas para Serra Leoa (2002-7), salienta que nos países da União Europeia, sistema jurídico algum jamais permitiria que um juiz investigador pudesse também atuar como julgador do caso. E pior, no Brasil o julgamento em primeira instância acontece sem júri.

Em outras palavras, não há ninguém que possa pelo menos moderar ou avaliar as ações do juiz.

Ele denuncia também a auto-promoção dos procuradores de Curitiba e seus Powerpoints, e de Moro, que assina livros sobre si mesmo e participa de estreias de filmes sobre a Lava Jato, “comendo pipoca e vendo o filme, baseado em vazamentos de grampos e imagens, se divertindo com os elogios a si mesmo”, enquanto o processo ainda está correndo na justiça.

“Este é o juiz que condenou Lula”, continua, “tratado como herói, não só no Brasil, mas também nas revistas americanas como a Time e a Fortune”. “Como é possível haver imparcialidade assim? Como fica a presunção de inocência?” pergunta.

O especialista em direitos humanos também se disse estarrecido com as afirmações feitas por juízes, como a do Presidente do TRF-4, o desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz:

“Dá para acreditar?” indaga, “a sentença de Moro tem mais de 260 páginas, e em poucos dias, o Presidente da corte de apelo que irá decidir sobre o caso de Lula e que – se manter a sentença, fará com que ele não possa se candidatar para as eleições de 2018 – descreveu o julgamento que condenou o ex-presidente de “irretocável”. Quais são as verdadeiras chances de Lula?”.

Não tem conduta de Moro que Robertson não critique: fala dos grampos ilegais de parentes, da defesa de Lula, fala dos vazamentos ilegais e do timing e como estes vazamentos são feitos para causar comoção política, menciona a condução coercitiva (desnecessária), como também a prática – rotineira – das detenções preventivas para a delação premiada.

Ele ironiza a reverência de Moro pela Operação Mãos Limpas na Itália, cujo desfecho foi a eleição de Berlusconi.

“Posso dizer que eu estou numa situação privilegiada”, continua Robertson, “não estou aqui para disputar os fatos. Sou bem cínico em relação aos políticos. Inclusive fui advogado da acusação em vários casos em que foram condenados por corrupção. O que me trouxe ao caso foram as aberrações do processo. Lula está sendo perseguido e não processado (persecuted and not prosecuted, no inglês). Portanto, não tinha opinião sobre a culpabilidade de Lula. E me mantive neutro até ler todas as 264 páginas da sentença de Moro… mesmo se fôssemos acreditar… [nas histórias de apartamentos em resorts de segunda categoria], não há provas de ‘quid pro quo’…, não há nada que demonstre que Lula tenha feito algo específico que o levasse a receber alguma coisa em troca, o que é essencial para qualquer processo envolvendo suborno… portanto, tenho certeza que Lula é inocente em relação a esta acusação”.

Quando menciona o segundo processo, o do sítio de Atibaia, que Robertson acredita ter ainda menos fundamento, compara a estadia de Lula no sítio com as visitas de Tony Blair às várias propriedades de amigos milionários (incluindo do próprio Berlusconi), arrancando gargalhadas da platéia inglesa, que reage da mesma maneira quando são mencionadas as palestras de Lula em comparação às doações à fundação Bill Clinton.

Com sua fala simples e sua reputação, o poder de persuasão de Robertson é grande. Jornalistas britânicos, mais acostumados em acreditar nos relatos de amigos jornalistas brasileiros, ficam boquiabertos ouvindo Robertson discursar sobre o caso Lula, que é capaz também de impressionar até as mais conservadoras das Ladies da Câmara dos Lordes.

Um jornalista pergunta, “Não é meio estranho que Lula seja inocente quando aqueles que o rodeiam sejam culpados?” E cita o caso da Presidenta Dilma Rousseff, “que foi presidente da Petrobrás…”, mostrando a falta de compreensão da situação brasileira (e a má tradução do termo “Presidente do Conselho”, que constou nas versões inglesas do caso na época).

E falando de jornalistas, por incrível que pareça, o choque do Brexit, deixou os britânicos mais cínicos em relação as empreitadas da mídia na política.

Desde o referendo que desencadeou no Brexit, o jornal the Observer vem trazendo todos os domingos matérias investigativas sobre as manobras utilizadas, nas redes sociais e nos jornais, por grupos de direita para manipular eleitores e fazer a opinião pública.

Estas similaridades fazem com que seja mais fácil compreender as táticas da Globo e da grande mída brasileira em geral, já que a maioria da imprensa britânica é dominada por três ou quatro magnatas, como os Murdochs.

Os britânicos normalmente conhecem pouco do Brasil. Eles tendem a se interessar mais pelas partes do mundo que por eles foram colonizadas. E é bem verdade que eles têm também pouco tempo a perder com sistemas e governos que não se encaixem dentro das regras do capitalismo anglo-saxônico.

A tendência, portanto, é apoiar tudo que vá na direção de maior livre comércio (para eles) e a possibilidade de negócios que tragam lucro para o país, como a oferta de serviços financeiros e know-how tecnológico.

Mas, pelo menos teoricamente, a liberdade e os direitos dos indivíduos são sagrados, como é também o direito de defesa.

Hoje, para as elites estrangeiras, donas das teorias (e as práticas) do mercado, Moro pode se passar pelo ‘mocinho do filme’.

Mas pouco a pouco, as verdade vai se revelando e, como disse Geoffrey Robertson durante um discurso em outubro: “O homem que agora é visto como grande herói hoje por querer derrubar Lula, será visto amanhã como inimigo”.

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Tate Modern, Londres, comemora 50 anos de “Terra em Transe” https://www.ocafezinho.com/2017/11/11/tate-modern-londres-comemora-50-anos-de-terra-em-transe/ https://www.ocafezinho.com/2017/11/11/tate-modern-londres-comemora-50-anos-de-terra-em-transe/#comments Sat, 11 Nov 2017 10:07:03 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=81151 3 Comentários 🔥]]> foto: Ana Rojas

Entre 9 -12 de novembro o Tate comemora 50 anos de Tropicália artística com uma mostra de cinema e artes plásticas.

É impossível ver “Terra em Transe” em seus 50 anos, sem nos referir aos recentes acontecimentos políticos.

Para uma audiência do século XXI, a imersão na obra de Glauber é um pouco difícil: em preto e branco, com sonoridade destoante e uma teatricalidade gritante.

Um filme que conta a sua história tanto através dos atores, como em alegorias e simbolismos.

Não há absolutamente nada de sutil no filme de Glauber.

Para um público ‘moderno’ e desacostumado, ou que não cresceu com os exageros de programas como o do Chacrinha, esse tipo de performance pode até afugentar.

Mas com o avançar das cenas, a plateia já se encontra em estado de plena absorção.

Dava para sentir as pessoas, se mexendo desconfortavelmente nas pontas de suas poltronas, loucas para trocar palavras com os companheiros ao lado sobre a imensidade das scenas que se desenrolavam na tela.

Conscientes do momento político atual, as imagens, sons e símbolos que chegavam às nossas mentes iam se mesclando com ideias já em ebulição.

“Terra em Transe” estreou em 1967, depois do Golpe dado pelos militares, mas antes do quinto Ato Institucional (o notório AI-5) que iria cercear mais fortemente os direitos, e por consequência, censurar as artes.

Porém, é preciso ter cautela para não fazer a correspondência absoluta entre a situação atual com a história aludida no filme.

Há similaridades sim, mas estas se dão menos pela realidade do que pela mentalidade parecida dos protagonistas do atual golpe e de parte da elite intelectual, que decidiu lavar as mãos em vez de ajudar o país a evitar tamanho desfecho nocivo.

Se por um lado, nós que nos consideramos de esquerda, achamos que o povo se calou perante um golpe absurdo, por outro, até agora, as únicas coisas que os golpistas conquistaram é o desgoverno e o caos.

Não há política que tenha dado certo, não há pensamento ou visão maior.

O erro deles foi tão grande, que agora se encontram sem projeto, nomes políticos, líderes ou popularidade.

Isso nos leva de encontro à cena do filme onde Paulo Autran, no papel de Porfírio Diaz, elabora o golpe. Ele explica ao industrialista e dono da mídia, Júlio Fuentes, que se deixarem a história seguir seu percurso sem interferência, o populista Vieira ganharia, dando “poder às massas”.

E, como se sabe, as “massas”, instigadas pelos “intelectuais extremistas”, são sempre radicais, inconstantes e impossíveis de controlar.

Portanto, o golpe é preferível, desencadeado com o apoio das elites locais ‘reconquistadas’, e com a ‘simpatia’ do capital estrangeiro, simbolizado pela empresa Explit, que pagaria todas as campanhas e ainda por cima financiaria a mídia local.

Mas quem sabe, o que tem de mais interessante no filme, é a crítica que Glauber faz aos intelectuais de esquerda na figura de Paulo Martins:

uma intelligentsia, que nasceu nos braços da elite, e que apesar de aderir ao conteúdo marxista puro, abstrato, toda vez que se depara frente a frente com o povo mostra seu desprezo, ódio e até agressão.

Intelectuais esses que demonstram nojo em participar da prática política rotineira, mas não pensam duas vezes em pegar nas armas para derramar o sangue do povo.

Imagem imortalizada, talvez, através da cena em que Paulo põe a mão na boca de Jerônimo, o sindicalista, e diz: “Estão vendo o que é o povo? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado. Já pensaram, um Jerônimo no poder?”

Enquanto isso, um camponês, um sem-terra, vai abrindo caminho para clamar que o povo é ele.

Ao sem-terra lhe é imposto uma corda no pescoço e, a gritos de “extremista”, é levado ao chão chupando o cano de uma arma.

A pergunta fica: a até que ponto a obra de Glauber, feita durante a conjuntura pós golpe militar, se aplica às realidades pós golpe dos dias de hoje?

Se parece que repetimos a história e que não conseguiremos jamais sair de nossa condição de país secundário, isso se deve à imagem errônea que a elite nossa e grande parte da intelectualidade têm do ‘povo’ brasileiro.

Mas o círculo não é vicioso. Nos encontramos, no máximo, dentro de uma espiral.

Porque é justamente na representação das ‘massas’ que percebemos a distância do mundo de hoje, do mundo de Glauber.

Se os brasileiros eram vistos como um povo pacífico e fadado a aturar as injustiças caladamente, não é mais esta a ‘massa’ com a qual os golpistas atuais se deparam.

Pode ser que, para a tristeza dos intelectuais, não tenhamos chegado à “massa crítica” necessária que levaria a deposição deste (des)governo ou, à tão aclamada ‘revolução’. Mas isso não quer dizer que não haja resistência e que o povo brasileiro aceitará tudo o que lhe é imposto.

Hoje em dia, temos uma população infinitamente mais educada, culta e capaz de lutar pelos seus direitos.

Só para dar uma ideia, em 1970, a taxa de analfabetismo correspondia a 33% para pessoas acima de 15 anos.

Em 2015, esta taxa era aproximadamente 8%, onde somente 2,7% desta população tinha entre 15 e 24 anos.

Em 2015, a média de anos que os brasileiros passavam na escola era 8,2, nos anos 60 esta taxa ficava abaixo dos 6 anos.

Para além disso, os brasileiros de hoje estão conscientes e têm orgulho de quem são, um exemplo é que entre 2004 e 2014 o número de pessoas que se denominam negras e pardas cresceu de 48% a 53%.

Na representação glauberiana não existe líderes que não os políticos e intelectuais paternalistas. A ‘massa’ nada mais é que massa de manobra:

O sindicalista Jerônimo parodia no filme a figura de pelego do governo, que quando urgido a falar, primeiro não tem nada a dizer, depois é rudemente calado pela mão do intelectual Paulo, para ser finalmente ‘desmascarado’ como não-representante do ‘povo’.

O peão sem-terras, este sim, legítimo, mas sem-nome, é o povo (num país onde ainda aproximadamente 50% da população residia nas zonas rurais) que é rapidamente contido em sua pequena ânsia revolucionária – a de reivindicar moradia.

Não há dúvida que o país ainda não resolveu (apesar de enorme migração para os centros urbanos) a questão da reforma agrária, que continua premente. Como também os sindicatos, apesar de seu imenso protagonismo nos anos 80 e 90, continuam a serem vistos como ‘pelegos’, principalmente do governo Lula.

Mas não se pode ignorar a atuação destes movimentos sociais na história pós ditadura e que alguns de seus líderes surgiram do povo (como Lula, sempre vilipendiado da mesma forma que Jerônimo é por Paulo em Terra em Transe “um imbecil, um analfabeto… já pensaram um Lula no poder?”).

Como também não podemos menosprezar outras lideranças que se apresentam atualmente dentro de suas esferas de atuação como lideranças, intelectuais e artistas dos movimentos negro (ex. Djamila Ribeiro) indígena (ex. Sonia Guajajara) e outros como o de mulheres, LGBT, de favelas que não só tem preparação, mas entendem a necessidade de se unirem em prol de um país mais inclusivo, generoso, respeitoso de seus direitos e menos desigual.

O filme de Glauber é precioso.

Em cena após cena ele nos remete a fazer a reflexão necessária entre o nosso presente e o nosso passado, entre a fantasia e a realidade, entre a teoria e a prática política.

Através de suas alegorias, Terra em Transe se faz atualíssimo 50 anos depois e vê-lo de novo é fundamental.

Mas talvez o que Glauber Rocha mais tenha a nos ensinar, numa época (dentro e fora do Brasil) onde poucos acreditam que a política possa ser uma saída para um mundo melhor, é a coragem de trazer o político e o social para dentro das artes.

Afinal este compromisso é um dos elementos que distanciou o Cinema Novo de suas raízes europeias, como a Nouvelle Vague francesa e o Neorealismo italiano.

Viva Glauber Rocha, viva Terra em Transe!

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E o golpe ambiental, Marina? https://www.ocafezinho.com/2017/10/19/marina-silva/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/19/marina-silva/#comments Thu, 19 Oct 2017 15:20:33 +0000 https://ocafezinho.com/?p=80095 18 Comentários 🔥]]> Foto: José Patrício

Em palestra em Londres, Marina Silva não explica apoio a um Golpe com tantas implicações negativas à causa ambiental

“Eu quase dormi na sala”, me disse uma companheira de esquerda ao sairmos. “Sim, ela é entediante”, disseram outros mais tarde, que nem mesmo na palestra estavam.

Falávamos do mesmo evento? Aparentemente sim, Marina Silva, no “Brazil Institute” do King’s College, em Londres. Um dos mais importantes centros de estudos sobre o Brasil no Reino Unido.

Primeira regra de qualquer guerra: conhecer o inimigo.

Não, Marina não foi chata ou entediante, foi sim boa oradora empolgando a plateia acadêmica com a sua erudição e ideias atraentes.

Marina, a menina da selva, mostrou bem porque é igualmente a Darling das elites e dos banqueiros, técnicos da ONU e donos de pequenas ongs ambientais.

Marina conta sua história de pobreza e violência nas florestas do Acre citando Lacan, Satre e Freud, fala das civilizações gregas e romanas, e com um sorriso maroto, diz que a crise civilizatória atual (maior do que as anteriores porque globalmente abrangente) é resultado de seu sucesso e não de suas falhas.

Marina, entremeio conhecimento clássico e saber Amazônico, avança com suas próprias ideias e vaticina: a sustentabilidade tem mais dimensões que as citadas pela a ONU e que a crise da insustentabilidade ambiento-sócio-econômica advém das dimensões por ela identificada: falta de sustentabilidade política, ética e estética.

Marina a pensadora.

Enquanto Lula fala prático, simples, Marina fala de subjetividades, tramas, identidades plasmadas e o tecer do ser.

Lula, o não-erudito, mostra sua rudez em voz rouca, traz soluções e fala do agora e do já. Tem as mãos sujas pelo ‘fazer’.

Marina, ser limpo, vislumbra longe.

Lula tem seu passado presente para formar o futuro dos outros.

Marina diz ter seu passado superado para criar um futuro seu.

Mas a existencialista Marina, na urgência da luta ambiental, parece ter se desfeito também dos conflitos e polaridades, das malícias e desonestidades dos outros.

Superado o seu passado, superado também as lutas histórica-sociais de brancos e negros, ricos e pobres, norte e sul.

Banqueiros e empresas petrolíferas, think-tanks e centros acadêmicos estrangeiros todos benvindos para a construção do novo amanhecer terrestre.

Todos, com suficiente ‘maturidade’, como ela própria, para entender que o mundo anda em perigo e que o já-já do atual precisa logo-logo virar o Agora.

Precisa, portanto, será.

Marina não vê ironia no fato de que aqueles que financiam ‘projetos ambientais’ – pífios investimentos de empresas e indivíduos milionários – fazem no dia a dia o lobby pró-óleo e buscam persistentemente o lucro através da produção cada vez maior de bens de consumos supérfluos e de vida curta, jogando suas responsabilidades trabalhistas nas mãos de empresas de terceirização inescrupulosas.

Parece não perceber as vantagens do marketing que anuncia a altos brados atos voluntários pseudo-altruístas cujo objetivo é aliciar o público conscientizado em questões ambientais.

Afinal, melhor gastar alguns dólares em doações escolhidas do que outros a mais em impostos sem fim. Não é Marina?

Ela parece não ver o paralelo entre as ações destes endinheirados com um assalariado que passa, deixando algumas moedas nas mãos de um mendigo, satisfazendo seu próprio ego, sem resolver o problema mais amplo.

Foi Marina capaz de rebater questões sobre alianças com Aécios e apoios a Golpes?

Pois é…

“Como é que eu iria saber que haveria concorrência entre os partidos para ver quem era o mais corrupto?” explicou Marina Inocente.

E acusou PT, PSDB e PMDB de se unirem para acabar com a Operação Salva a Jato.

Na mente de Marina, Dilma e Temer se convergem.

Corrupção? Tudo culpa das chapas ‘Dilma-Temer’ ou ‘Temer-Dilma’, sei lá, como nos demonstrou claramente as cruzadas pela Salvação Nacional de Moro e Dallagnol.

Mas Marina não explica e ninguém pergunta como é que a defensora de seringueiros, indígenas e quilombolas fez tão grande erro político-estratégico que pos em risco aquilo e aqueles pelo qual lutou a vida inteira?

Trocou conhecidos colegas partidários de décadas para aceitar promessas de velhas raposas de direita?

O que explica jogar no lixo anos na frente do Ministério do Meio Ambiente, cujo ponto alto foi a redução do desmatamento em 80%, por uma aposta no ‘impeachment’?

Marina teve sua função – a de ser mais uma ‘liderança’ a dizer que entre corruptos tanto faz. Que Lula, Dilma, Temer e, como reconhece agora, Aécio são todos iguais.

Todos iguais.

Semana passada Temer mudou as regras sobre o trabalho escravo (mais uma para o saco de maldades) e o Brasil não é mais referência em relação a este tema, diz a ONU.

No mensalão (sorry, a compra de votos) do Temer, ruralistas forçam a revogação de terras indígenas. A violência contra os pobres, os negros, os sem poder no geral aumenta em velocidade escandalosa.

E o que Marina tem a dizer sobre os retrocessos nas políticas ambientais? sociais?

Mas Marina está no éter.

Lá de cima, ela vislumbra as soluções para o enlameado Brasil atual. No ar rarefeito que respiram as elites suas ideias leves flutuam, empolgam, dão voltas ao mundo.

Porque ela, Marina, a da radicalidade de um modelo terrestre sustentável, não espanta, não dá medo, como dá o velho barbudo sindicalista com suas ideias defasadas…

Por que será?

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Há um ano do Golpe, intelectuais, parlamentares, sidicalistas e artistas britânicos pedem Diretas Já https://www.ocafezinho.com/2017/09/01/ha-um-ano-do-golpe-intelectuais-parlamentares-sidicalistas-e-artistas-britanicos-pedem-diretas-ja/ https://www.ocafezinho.com/2017/09/01/ha-um-ano-do-golpe-intelectuais-parlamentares-sidicalistas-e-artistas-britanicos-pedem-diretas-ja/#comments Fri, 01 Sep 2017 13:13:10 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=78176 1 Comentário 🔥]]> (Há um ano, brasileiras em Washington foram receber Aloysio Nunes, senador tucano, que ganhou um ministério importante sem que seu partido tivesse vencido as eleições. A foto é delas mesmas.)

Cada vez mais pessoas fora do Brasil estão preocupadas com a situação do nosso país.

Há um ano do Golpe jurídico-parlamentar, o saldo para o Brasil não tem sido nada positivo.

O cerceamento de direitos civis, sociais e trabalhistas, o descaso com direitos humanos, a escalada da violência e as ameaças ao meio ambiente vem causando alarme.

Está ficando cada vez mais claro que a remoção de Dilma Rousseff e sua substituição por Michel Temer, apesar de revistida de legitimidade pelo rito do impeachment, nada mais era que uma oportunidade para fazer tudo que não seria possível fazer através da democracia, desconsiderando assim os direitos políticos dos cidadãos brasileiros.

Ontem, 31 de agosto, dia em que o Golpe completou 1 ano, um grupo de intelectuais, parlamentares, sindicalistas e artistas britânicos publicaram uma carta no jornal britânico “The Guardian” apoiando as Diretas Já.

Veja a tradução abaixo:

Dia 31 de agosto marca um ano desde que Dilma Rousseff foi retirada da presidência do Brasil, quando 61 senadores passaram por cima do desejo político expressado nas urnas de 54 milhões de brasileiros.

Em um ano, o governo liderado pelo presidente ilegítimo Michel Temer não tem escondido suas verdadeiras cores, implementando duríssimas políticas de auteridade.

Sem mandato, o governo reverteu programas sociais que tiraram 40 milhões de pessoas da pobreza, fez o país entrar em uma profunda crise, com impactos negativos aos serviços públicos como saúde, e rebaixando a qualidade de vida de milhões de trabalhadores e cidadãos mais pobres.

Não nos surpreende, portanto, que a popularidade de Temer esteja abaixo de dois dígitos – estamos com os milhões de brasileiros que reivindicam as Diretas Já.

Brian Eno, Linton Kwesi Johnson, Ann Pettifor, Andy de la Tour, Richard Gott, Chris Williamson MP Labour Friends of Progressive Latin America, Louise Haigh MP, Jo Stevens MP, Elaine Smith MSP, Neil Findley MSP, Ross Greer MSP, Tony Burke Assistant general secretary Unite & No Coup in Brazil, Owen Tudor Head of European Union and international relations, TUC, Mick Cash General secretary, RMT, Manuel Cortes General secretary, TSSA, Ronnie Draper General secretary, BFAWU, Dr Francisco Dominguez, Prof Julia Buxton, Prof George Irvin, Sue Branford Editor, Latin America Bureau, Lindsey German Stop the War Coalition.

Leiam o texto em inglês no The Guardian

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De Caravanas, Populismos e Política https://www.ocafezinho.com/2017/08/23/de-caravanas-populismos-e-politica/ https://www.ocafezinho.com/2017/08/23/de-caravanas-populismos-e-politica/#comments Wed, 23 Aug 2017 16:32:59 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=77722 14 Comentários 🔥]]> Foto: Ricardo Stuckert

O PT, o Partido de Todos os Erros, tem agora mais um mea culpa para a sua larga lista de meas culpas: o fato de que Lula não ‘fez’ um sucessor.

As elites intelectuais, que foram desertando o partido quando se depararam com os conflitos e contradições da impossibilidade de se manterem puros na prática política, e que desbandou em massa com o surgimento do mensalão, assistiram impassíveis o desenrolar do impeachment.

Cheios de desdém, sentados em suas cadeiras de couro, em escritórios enlivraçados, cuspiram um “bem-feito” do canto das bocas ao ver o desmoronamento do Partido, seus líderes desgraçados, encarcerados.

Quando, nos últimos momentos, se deram conta que o impeachment era golpe, se desesperaram, ensaiaram um retorno à política, mas já era demasiadamente tarde.

Agora assistimos a grupos de direitos humanos se chocarem com o rápido aumento nos números de jovens negros mortos nas periferias e cadeias, e nas zonas rurais, com sem-terras e indígenas massacrados.

Ambientalistas atônitos e impotentes face à falta de pudor dos ruralistas.

Educadores e sanitaristas mal acreditam que políticas gradualmente incrementadas e aperfeiçoadas desde a Constituição de 1988, sejam descartadas e enterradas sem cerimônia.

Desevenvolvimentistas-nacionalistas se encontram boquiabertos face ao saque da Nação.

E, frente a tão descarado assalto ao Estado, alguns, limpando as migalhas de pão de seus colos, botando o copo de vinho meio tomado na mesa-escrivaninha, levantaram de suas cadeiras para tentar algum tipo de re-ação em nome da nação, do povo, dos pobres, da educação, da cultura e da ciência, da igualdade, dos direitos humanos, da justiça, da verdade, seja lá qual causa motiva mais alguns que outros.

Mas Lula, o Sobrevivente, impedido participação no governo Dilma (Seria este ‘Lula, o Negociador Nato’ ou ‘Lula, o Corrupto que atende às necessidades de todos’?), sua vida íntima eviscerada, condenado pela justiça, vendo todo o seu legado político-social esfacelado em poucos meses, decide que vai se candidatar de novo à presidência.

Entra ‘Lula, o Salvador da Pátria’, em caravanas por um mítico Nordeste onde Canudos se ergue enlameada de um açude ressecado.

António Lula Conselheiro, beijado, abraçado, bajulado, tumultuado por um povo sedento por amor, é claro (e não por materialidades terrenas, como educação e saúde).

Morra ou não morra Lula ascende ao Céu Brasileiro.

Os intelectuais, ateus, semi-ateus espiritualistas, religiosos corretos se retorcem enojados.

E não foi o vinho nacional que não caiu bem.

Foram as movimentações fervorosas de um Povo, que não poderia jamais entender Política, só Populismo.

Um Povo que só poderia ver o bolsa-família como uma dádiva do Pai-Lula, e não como política de transferência de renda.

É.

Porque, em suas mentes, mesmo com toda a seriedade do Progresso dos Positivistas, e suas Ordens Militares e Empresariais, nunca conseguiram transformar o Povo Macunaímico em Cidadãos Ativos e Motivados como os das Nações Modernas do Norte.

Antes das Caravanas, nossos articulistas, atrasados eles mesmos na ação, se indagavam:

Cadê o Povo nas ruas?

Mas até em termos de participação popular existem regras sobre que tipo pode ou não pode, que participação é válida ou inválida.

É bonitinha quando em versos velados e cômicos, em letras de marchinhas e sambas de carnaval. Ou, em sua versão atual, memes internéticos.

É correta quando clamam por altos valores abstratos de direitos humanos.

Mas quando aquele Povo, que nunca se vê na mídia, saídos de amontoados, escondidos como formigueiros, para dar apoio a um líder massacrado, aah isso não pode.

Isso faz as elites engasgarem: Não, não e não! Forma de participação errada. Não está no Manual da Modernidade.

Mas quem foi que transformou Lula em Messias?

O PT dos Erros, não tem outro líder.

Esqueçamos o fato de que todos os potenciais do partido, inclusive a malfadada Dilma, foram derrubados.

Dizem até que o Marinho da Globo teria se encontrado com o próprio Lula para que ele tomasse o lugar de Dilma em 2014.

Esqueçamos o canibalismo Tucano, que em sua fome por poder, jogou fora ética, decência e a democracia tão amada das elites mundiais, acabando sem líder ou liderança.

Esqueçamos o fato que o atual PMDB não estava apto para tomar conta sozinho nem de uma barraquinha de festa de São João.

Fomos politicamente decapitados.

Sobrou… Bolsonaro? Dória? Moro? Kim Kataguiri e os MBLs?

Mais um reviravolta nos estômagos intelectuais.

Esqueçamos também a ganância de ideólogos de direita, que (ainda!!) acham que podem promover a maior revolução de Estado já vista durante um interregno de caos e falta de democracia, porque o Povo… aah o Povo.

E o que queremos deste Povo?

Quando não participam são alienados, se não protestam são ingratos.

Políticas sociais são mamação do Estado e se o Povo gosta, é populista.

E quando sai para saudar o Lula – o único presidente que implantou políticas sociais de maneira que nem o velho Vargas fez – é messiânico.

Lula, o ex-retirante, está querendo virar Deus.

E porque Lula, o ex-sidincalista, não formou sucessores, vamos cumprir a sina que já nos fora delineada:

Virar Venezuela – O destino de qualquer pais latino americano que ouse contemplar o Povo.

Tudo culpa de Lula em seu outono de patriarca e, é claro, do PT.

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