Comextat - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/comextat/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 07 Jul 2026 23:39:57 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Comextat - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/comextat/ 32 32 Brasil já venceu o “Tariflávio” (Parte 2) https://www.ocafezinho.com/2026/07/07/brasil-ja-venceu-o-tariflavio-parte-2/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/07/brasil-ja-venceu-o-tariflavio-parte-2/#respond Tue, 07 Jul 2026 23:39:57 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261393 O cenário geopolítico global está passando por uma metamorfose profunda, mas a oposição conservadora brasileira parece não ter recebido o memorando. A audiência recente no Senado envolvendo política externa e comércio internacional serviu apenas para escancarar o anacronismo da extrema direita. O papel desempenhado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi apenas ridículo; foi a encarnação de uma diplomacia colonizada.

Ao abordar a política tarifária e comercial do Brasil — um país continental e a maior potência agroambiental do mundo —, Flávio abriu mão do histórico filtro do Itamaraty. Em vez de adotar a tradicional, pragmática e apartidária lente da “política de Estado”, o senador preferiu vestir o espartilho da política partidária doméstica e de um servilismo pueril à agenda “América First” de Donald Trump. O que se viu foi a defesa de um alinhamento canino ao Norte Global, ignorando o fato de que a salvação tarifária de Trump significa, invariavelmente, o encolhimento do mercado brasileiro.

Mas enquanto o senador desfilava o seu complexo de vira-lata tarifário — o que já podemos batizar de “Tariflávio” —, os números reais da economia brasileira provavam que o Brasil já venceu essa disputa nos portos e nas planilhas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O protecionismo americano e o isolacionismo defendido por Flávio foram engolidos pelos recordes do pragmatismo Sul-Sul.

A leitura fria dos dados do Comex Stat revela a derrota absoluta da tese bolsonarista. Se olharmos para a métrica mais confiável do comércio exterior — o acumulado de 12 meses (julho de 2025 a junho de 2026) —, o país esmigalhou suas marcas históricas. A nossa corrente de comércio (a soma do que vendemos com o que compramos) ultrapassou os inéditos US$ 615 bilhões.

Isso só foi possível porque as exportações totais romperam o teto histórico, atingindo US$ 350 bilhões no período, garantindo ao Brasil o segundo maior saldo comercial positivo (superávit) da sua história, na casa dos US$ 85 bilhões. Houve um salto estupendo de quase 40% na corrente comercial se comparado à safra 2020/2021. O Brasil não se isolou, ele se expandiu de maneira voraz.

Corrente de Comércio do Brasil

O motor que esmaga a narrativa de submissão aos EUA continua rugindo alto através das commodities. O petróleo bruto consolidou-se como o campeão de faturamento, enquanto o complexo da soja compensa as oscilações de preço com volumes formidáveis de embarque.

Mas as grandes surpresas vieram das nossas raízes históricas. Tanto o café verde (grão cru) quanto o café solúvel registraram faturamentos assombrosos impulsionados pelas altas cotações internacionais. O setor de carnes faturou mais de US$ 23 bilhões no acumulado Jul/Jun, com frango e boi enchendo os contêineres que partem diariamente para a Ásia e o Oriente Médio.

Principais Exportações do Brasil

A Revolução da Alta Tecnologia e a Derrota do Norte

No entanto, o que mais humilha a diplomacia amadora e subserviente de Flávio Bolsonaro é o eixo geográfico das nossas importações tecnológicas. Enquanto os Estados Unidos travam uma “Guerra Fria” inútil sancionando e bloqueando a tecnologia oriental, o Brasil usa os dólares de seus superávits para modernizar sua matriz produtiva direto da fonte. E a fonte não fica no Texas, fica em Shenzhen e Guangzhou.

A revolução digital brasileira é indiscutivelmente asiática. Nos últimos 12 meses, importamos quase US$ 3 bilhões em smartphones, cerca de US$ 5 bilhões em computadores e quase US$ 7 bilhões em chips e semicondutores. Quase a totalidade desse hardware, vital para a economia rodar, cruza o Pacífico.

Importações Brasileiras de Alta Tecnologia

No asfalto, a mudança de paradigma é ainda mais agressiva. A importação de carros disparou impulsionada exclusivamente pelo fenômeno do carro elétrico e híbrido chinês. Montadoras como BYD e GWM invadiram o mercado. O Brasil injetou quase US$ 3 bilhões em veículos asiáticos sustentáveis, engolindo as montadoras tradicionais ocidentais. Na geração de energia, o brasileiro consumiu US$ 4 bilhões em painéis solares (majoritariamente chineses), acelerando de forma descentralizada a transição energética nas fazendas e nos tetos urbanos.

Ao tentar reduzir a grandiosidade geopolítica do Brasil às miudezas da guerra ideológica americana, Flávio Bolsonaro provou estar completamente alheio ao que acontece nos portos de Santos, Paranaguá e Suape. O Brasil pragmático, que vende aviões, carne e energia para o mundo inteiro, e compra carros elétricos e semicondutores do Oriente, não cabe nas cartilhas protecionistas do Norte Global.

O “Tariflávio” não é uma política comercial. É apenas o delírio reacionário de um país que já ficou para trás.

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