Competição EUA China - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/competicao-eua-china-2/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Sun, 20 Apr 2025 15:45:22 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Competição EUA China - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/competicao-eua-china-2/ 32 32 A irracionalidade e a estupidez por trás das tarifas de Trump contra a China https://www.ocafezinho.com/2025/04/20/a-irracionalidade-e-a-estupidez-por-tras-das-tarifas-de-trump-contra-a-china/ Sun, 20 Apr 2025 15:45:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=207162
Para Thomas Friedman, a estratégia de Donald Trump de impor tarifas sobre produtos chineses é uma resposta primitiva a um desafio complexo — e pior: sem um plano real para reconstruir a competitividade dos Estados Unidos.

“Construir um muro tarifário sem investir no que vem depois é como erguer uma muralha e depois atirar nas próprias empresas americanas”, afirmou Friedman.

Há alguns dias (15/abr), no podcast The Ezra Klein Show do New York Times, Thomas Friedman analisou o impacto e as contradições das tarifas comerciais de Donald Trump contra a China. O bloco da conversa destacou como a resposta americana à ascensão chinesa, baseada apenas em barreiras protecionistas, revela a falta de visão estratégica para preparar a economia dos EUA para os desafios do século XXI.

Um muro vazio

Friedman deixou claro que não é contra a ideia de impor tarifas — desde que façam parte de um projeto mais amplo. “Se você vai construir um muro contra a China, ótimo. Mas o que vai construir atrás do muro?”, provocou. Para ele, Trump e seus aliados pensam apenas no “primeiro movimento”: aplicar tarifas altíssimas, mas sem acompanhar isso de políticas de investimento, reindustrialização ou inovação tecnológica.

“Esses caras são pensadores de primeira ordem. Eles não pensam no dia seguinte”, criticou.

No entender de Friedman, as tarifas de Trump se tornaram um espetáculo político interno, voltado para impressionar eleitores, mas totalmente desconectado da realidade complexa do comércio global. “Se você quer proteger a indústria americana, não basta impor taxas sobre produtos chineses. Você precisa criar aqui o ecossistema de robótica, baterias, veículos autônomos e inteligência artificial que vai nos manter competitivos.”

Atirando nas próprias empresas

Friedman apontou o paradoxo gritante da atual política comercial: enquanto constrói barreiras para “proteger a América”, Trump prejudica as mesmas empresas que deveriam ser o motor da nova economia. Ele citou o caso da Ford, que investiu em fábricas de baterias para veículos elétricos com apoio da legislação climática de Joe Biden. Mesmo assim, a Ford foi atacada politicamente pela direita trumpista, que passou a demonizar veículos elétricos como “coisa de gente fraca”.

“A Ford fez tudo que um país racional pediria a uma empresa. E agora está sendo alvejada porque EVs são ‘coisa de viado’? Me poupe.”

A consequência, segundo Friedman, é devastadora: enquanto a China acelera a transição para a mobilidade elétrica e as energias renováveis, os EUA correm o risco de ficar presos ao século passado, presos à nostalgia da indústria de carvão e petróleo.

Trump e o isolacionismo burro

Outro erro grave, na visão de Friedman, foi Trump ter transformado sua guerra comercial numa luta de “América contra o mundo” — não apenas contra a China. “Ele impôs tarifas contra aliados como Europa, Japão, Coreia do Sul. Jogou fora nosso maior trunfo: os amigos.”

Para o jornalista, a maneira inteligente de pressionar a China seria construir uma coalizão global, reunindo democracias industriais para estabelecer padrões comuns de comércio, tecnologia e inovação. Em vez disso, Trump optou pela via do confronto unilateral e errático, afastando parceiros estratégicos.

“A China tem vassalos. Nós tínhamos aliados. Agora estamos abrindo mão disso.”

Friedman lamentou ainda que o trumpismo tenha transformado a política comercial num teatro de macho alfa, onde o objetivo é “mostrar quem manda” em vez de resolver problemas estruturais da economia americana.

Um recuo estratégico

Na conversa com Ezra Klein, Friedman observou que o próprio Trump acabou recuando quando as consequências financeiras de suas tarifas começaram a se tornar insustentáveis. A volatilidade nos mercados, a ameaça à estabilidade dos títulos do Tesouro americano e a reação negativa de setores empresariais forçaram o ex-presidente a suspender temporariamente parte das medidas.

“Trump brinca de ‘estrategista do caos’, mas a verdade é que ele não aguenta quando o mercado dá o troco.”

Esse recuo, para Friedman, mostrou o blefe por trás da retórica: Trump não tinha um plano para aguentar o impacto real de uma guerra tarifária prolongada. E, pior ainda, ao agir de maneira errática e imprevisível, o governo americano reduziu sua própria credibilidade como potência econômica confiável.

Perdendo a guerra invisível

Enquanto isso, na avaliação de Friedman, a China segue construindo suas fortalezas de verdade: cadeias produtivas completas, domínio em tecnologias-chave, liderança em energia limpa e infraestrutura digital integrada. Cada tarifa isolada, sem estratégia, apenas compra tempo — mas não resolve o problema.

“Nós estamos lutando com retórica e tarifas enquanto eles lutam com inovação, escala e disciplina.”

Friedman reforçou que a verdadeira resposta à ascensão chinesa deveria ser um projeto nacional ambicioso de renovação econômica — algo mais parecido com o New Deal verde de Biden (mesmo que imperfeito) do que com a política de improviso e ressentimento de Trump.

A escolha americana

Encerrando o bloco, Friedman resumiu o dilema: os Estados Unidos podem escolher entre o protecionismo vazio e o investimento real em futuro. Um muro de tarifas, sozinho, não sustenta uma superpotência — ainda mais em um século dominado por inteligência artificial, robótica e energias renováveis.

“O futuro não será conquistado por quem gritar mais alto ‘América primeiro’. Será conquistado por quem construir o próximo ecossistema industrial global.”

Se os EUA quiserem liderar esse novo mundo, alerta Friedman, terão que fazer muito mais do que taxar produtos estrangeiros: terão que reinventar a si mesmos.

Aqui a minutagem do vídeo. O texto acima se refere ao capítulo “As tarifas de Trump”, que começa a partir do minuto 30:15:
0:00 Introdução
1:36 Por que os americanos não entendem a China
10:30 Os avanços tecnológicos da China
15:23 Consenso de Washington sobre a China
30:15 As tarifas de Trump
51:42 Democratas sobre a China
56:17 A revolução cultural americana?
1:02:11 Impressões da China
1:04:55 Recomendações de livros.

]]>
O salto tecnológico da China que os americanos insistem em ignorar https://www.ocafezinho.com/2025/04/20/o-salto-tecnologico-da-china-que-os-americanos-insistem-em-ignorar/ Sun, 20 Apr 2025 14:51:28 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=207157 Em meio ao debate sobre o futuro da economia global, Thomas Friedman alerta: enquanto os Estados Unidos se distraem com disputas internas, a China avança rapidamente em setores estratégicos, consolidando uma vantagem que poucos em Washington parecem querer enxergar.

“Quando voltei à China depois da pandemia, percebi que as empresas que antes faziam celulares agora fabricam carros. Elas simplesmente colocaram smartphones sobre rodas”, descreveu Thomas Friedman.

Há alguns dias (15/abr), no podcast The Ezra Klein Show do New York Times, Friedman compartilhou suas impressões mais recentes após visitar o país asiático. Em especial, o jornalista destacou a aceleração da inovação tecnológica chinesa nos últimos anos, especialmente em setores como veículos elétricos (EVs), baterias e inteligência artificial (IA). O que ele viu, conta, foi uma China em plena transformação — enquanto a percepção americana ainda se baseia em estereótipos ultrapassados.

Smartphones sobre rodas

Friedman explicou que, para entender o salto chinês, basta observar o setor automotivo. Empresas como Xiaomi e Huawei, originalmente fabricantes de celulares, migraram rapidamente para a produção de carros elétricos inteligentes. “Quando eu estava lá pela última vez, a Xiaomi era uma companhia de celulares. Agora eles são uma montadora. A Huawei também”, relatou. Segundo ele, essas empresas não apenas adaptaram suas tecnologias: elas criaram veículos profundamente integrados ao ecossistema digital chinês.

O jornalista contou, por exemplo, ter feito uma viagem num carro da Huawei onde o passageiro podia conectar seu laptop a uma tela que descia do teto, acessar a nuvem da empresa e até assistir a um show do Paul Simon em poucos segundos. “A qualidade do som dentro do carro era melhor do que qualquer coisa que eu já tenha ouvido em veículos americanos”, impressionou-se.

“Eles colocaram o smartphone no carro, integraram tudo com inteligência artificial, e criaram uma experiência totalmente nova de mobilidade digital.”

A academia do futuro

Friedman introduziu um conceito para explicar a dinâmica de inovação chinesa: o “China Fitness Club”. Funciona assim: quando uma nova indústria promissora é identificada — como painéis solares ou robótica — dezenas ou até centenas de startups locais surgem, muitas vezes apoiadas por subsídios governamentais. Essas empresas competem ferozmente entre si até que apenas algumas sobrevivem.

“É como uma academia brutal de treinamento. Quem sobrevive dentro da China fica tão preparado, tão eficiente, que depois conquista o mercado global”, resumiu.

O caso da indústria de painéis solares ilustra esse processo: hoje a China domina o mercado mundial após anos de competição interna feroz e massiva construção de cadeias produtivas.

O que torna o modelo ainda mais formidável, segundo Friedman, é o ecossistema de suporte que se desenvolve em torno dessas indústrias. “Se você tiver a ideia mais maluca para um produto — digamos, uma camisa com um botão que canta o hino chinês ao contrário —, haverá alguém que fabricará esse botão para você amanhã”, brincou.

Inovação própria — e não só cópia

Uma parte importante do relato de Friedman foi desmentir a ideia, ainda popular nos círculos políticos americanos, de que a China só sabe copiar. Ele reconheceu que houve espionagem industrial no passado, mas insistiu que a realidade atual é diferente. “Se você conversa com empresas americanas e europeias que operam na China, todas dizem a mesma coisa: hoje estamos aqui não só pelo mercado, mas porque aqui está a inovação.”

Na avaliação dele, a China já supera os EUA em vários campos: baterias, veículos elétricos e infraestrutura para veículos autônomos. E na corrida pela inteligência artificial, os dois países estão separados “por poucos meses, se tanto”.

“Se queremos ser competitivos no futuro, precisamos entender que eles não estão brincando. Eles são muito sérios”, alertou.

Friedman também fez uma provocação direta a políticos americanos, como o senador Josh Hawley, que declarou que a China “não é capaz de inovar, apenas de roubar”: “Então por que as principais montadoras europeias estão transferindo centros de pesquisa para a China? Por que a Volkswagen diz que precisa estar lá para acompanhar o que há de mais avançado?”

O que os EUA estão perdendo

Em vez de investir em reindustrialização e inovação, Friedman lamenta que a política americana esteja consumida em guerras culturais internas e projetos pouco estratégicos. “Se estivermos ocupados brigando sobre questões ideológicas enquanto eles constroem o futuro, vamos ser atropelados”, advertiu.

Para ele, a decisão de muitos políticos americanos de demonizar o desenvolvimento tecnológico chinês, em vez de aprender com ele ou buscar uma resposta estratégica, é suicida. Friedman citou o exemplo da Ford, que construiu uma fábrica de baterias no Michigan com tecnologia chinesa da CATL. Em vez de ser aplaudida, a empresa passou a ser atacada politicamente, enquanto concorrentes chineses avançam.

“Não se trata de querer ser a China. Trata-se de não querer ser irrelevante.”

A corrida invisível

Outro ponto importante abordado no podcast foi o grau de digitalização da sociedade chinesa. Segundo Friedman, a China hoje é uma sociedade quase totalmente cashless, em que até pedintes nas ruas aceitam doações via QR code. Essa digitalização em massa cria uma base perfeita para a implementação rápida de inteligência artificial em todos os setores.

“Eles já têm a infraestrutura. Basta injetar IA na veia da economia. E essa capacidade de integração vai acelerar tudo: carros, fábricas, bancos, transporte.”

Enquanto nos EUA ainda se discute como integrar pagamentos digitais, carros autônomos e plataformas de IA, a China já está operando uma versão inicial desse futuro em escala nacional.

O que está em jogo

No encerramento do bloco, Friedman foi enfático: ignorar a transformação chinesa é um erro que os Estados Unidos não podem mais cometer. A competição não é apenas econômica, mas estratégica. E não haverá fórmulas mágicas: ou os EUA investem pesado em educação, pesquisa, manufatura avançada e infraestrutura — ou assistirão à perda gradual de sua liderança global.

“A questão não é se gostamos ou não da China. É se vamos nos preparar para o mundo que ela está ajudando a moldar.”

Aqui a minutagem do vídeo. O texto acima se refere ao capítulo “Os avanços tecnológicos da China”, que começa a partir do minuto 10:30:
0:00 Introdução
1:36 Por que os americanos não entendem a China
10:30 Os avanços tecnológicos da China
15:23 Consenso de Washington sobre a China
30:15 As tarifas de Trump
51:42 Democratas sobre a China
56:17 A revolução cultural americana?
1:02:11 Impressões da China
1:04:55 Recomendações de livros.

]]>