demétrio magnoli - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/demetrio-magnoli/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Mon, 08 Oct 2012 21:55:09 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png demétrio magnoli - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/demetrio-magnoli/ 32 32 A teoria política do pau mandado https://www.ocafezinho.com/2012/09/27/a-teoria-politica-do-pau-mandado/ https://www.ocafezinho.com/2012/09/27/a-teoria-politica-do-pau-mandado/#comments Fri, 28 Sep 2012 00:27:59 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=8077

Como responder a um desclassificado como Demétrio Magnoli, um ressentido que aluga sua pena para atacar, de maneira vil, um dos nomes mais estimados da ciência política contemporânea?

Uma das características mais belas da democracia é a liberdade para divergir, é a pluralidade infinita de pontos-de-vista. Quando esta é feita com elegância, representa talvez o momento mais importante de um regime democrático. O nosso modelo vem do fundador da filosofia moderna, Sócrates, que elogiava seus adversários antes de rebater, sempre de maneira refinada e respeitosa, ponto a ponto seus argumentos.

Infelizmente, a elegância socrática hoje se tornou obsoleta, e vemos os idiotas, como diria Nelson Rodrigues, perdendo a modéstia.

Wanderley Guilherme dos Santos não fez críticas ao conhecimento jurídico dos excelentíssimos ministros do Supremo Tribunal Federal (embora tivesse pleno direito de fazê-lo). Os ministros podem ser sumidades em direito constitucional, mas assim como isso não os torna especialistas em física quântica, também não os faz conhecedores do processos de alianças eleitorais ou pós-eleitorais, eleições, democracia, acordos políticos. Para Wanderley Guilherme, que já escreveu dezenas de livros sobre o tema, deve ser angustiante assistir aos juízes discorrerem sobre assuntos que não dominam e, pior, justificarem seu votos com isso.

Hoje no Globo me deparo com o seguinte comentário de Marco Aurélio Mello, um dos excelentíssimos:

A disputa por caixa é muito grande, e um partido não fortalece o outro, viabilizando, portando, uma melhor campanha eleitoral. A natureza em si, o antagonismo, afasta totalmente a possibilidade de um partido cobrir o caixa um do outro —disse Marco Aurélio ao ser perguntado sobre o trecho do processo relacionado à compra de votos, pouco antes do início da sessão.

O que Marco Aurélio sabe de acordos políticos, meu Deus? O Globo, para piorar, manipula as falas dos ministros para produzir títulos e subtítulos que correspondem a pré-julgamentos, e isso antes deles dizerem qualquer coisa no plenário do STF. Ou seja, há um julgamento em paralelo, na mídia, e com a participação dos próprios ministros, que o estimulam falando – pelos cotovelos – fora dos autos.

Mas voltemos às baixarias de Demétrio. Façamos aquele contraponto parágrafo por parágro. O texto de Magnoli vai em negrito, o meu em fonte normal. Se alguém reproduzir (o que eu agradeço), favor cuidar para manter os negritos. Não quero que confundam meu esforçado raciocínio com este lixo que sou obrigado a remexer.

A teoria política da corrupção

Chamarei esta minha resposta de A teoria política do pau mandado.

POR DEMÉTRIO MAGNOLI, em sua coluna semanal publicada no Globo e Estadao

Nos idos de 2005, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos formulou o discurso adotado pelo PT face ao escândalo do mensalão. O noticiário, ensinou, constituiria uma tentativa de “golpe das elites” contra o “governo popular” de Lula. Ano passado, o autor da tese assumiu a presidência da Casa de Rui Barbosa, cargo de confiança subordinado ao Ministério da Cultura. É nessa condição que, em entrevista ao jornal “Valor” (21/9), ele reativa sua linha de montagem de discursos “científicos” adaptados às conveniências do lulismo. Dessa vez, para crismar o julgamento do mensalão como “julgamento de exceção” conduzido por uma corte “pré-democrática”.

O texto inicia com uma baixaria típica de um medíocre invejoso e venal. Wanderley Guilherme, de fato, foi um dos primeiros intelectuais a detectar o golpezinho hondurenho que mídia e oposição estavam planejando por aqui em 2005. Sua tomada de posição foi assertiva, corajosa e oportuna, num momento em que todo mundo estava embaixo da cama, como deviam estar os intelectuais hondurenhos e paraguaios quando suas respectivas oposições, com apoio de seus respectivos tribunais superiores, derrubaram presidentes eleitos e populares. A mídia, naturalmente, não perdoa Wanderley, mas a História brasileira, a democracia latino-americana e, sobretudo, o povo, lhe são profundamente gratos. E com uma gratidão que não se paga com um emprego na Fundação Rui Barbosa, mas com um prestígio no panteão da história brasileira que um lacaio da direita golpista jamais entenderá.

A entrevista diz alguma coisa sobre o jornalismo do “Valor”. As perguntas não são indagações, no sentido preciso do termo, mas introduções propícias à exposição da tese do entrevistado — como se (oh, não, impossível!) jornalista e intelectual engajado preparassem o texto a quatro mãos. Mas a peça diz uma coisa mais importante sobre o tema do compromisso entre os intelectuais e o poder: o discurso científico sucumbe no pântano da fraude quando é rebaixado ao estatuto de ferramenta política de ocasião. Os ministros do STF narraram uma história de apropriação criminosa de recursos públicos e de fabricação de empréstimos fraudulentos pela direção do PT, que se utilizou para tanto das prerrogativas de quem detém o poder de Estado. Wanderley Guilherme, contudo, transita em universo paralelo, circundando o tema da origem do dinheiro e repetindo a versão desmoralizada da defesa. “O que os ministros expuseram até agora é a intimidade do caixa 2 de campanhas eleitorais (…). Isso eles se recusam a discutir, como se o que eles estão julgando não fosse algo comum (…), como se fosse algum projeto maligno.”

No melhor estilo “Serra”, o pau mandado agora passou recibo da razão de ser do artigo. Foi sobretudo um recado intimidatório ao Valor e a todos os empregados ligados de alguma forma às organizações Globo. Não brinquem de independentes. A linha nossa é bater no PT, sem tergiversação. Magnoli externa (ele é só porta-voz) uma ameaça explícita à independência do Valor e um ataque covarde à sua jornalista. A entrevista com Wanderley tinha como objetivo saber a opinião de um cientista político respeitado sobre um processo com profunda repercussão política. Ela não estava entrevistando um candidato a prefeito e, com isso, obrigada a ser “dura” ou “crítica”. Uma entrevista como a feita com Wanderley é do tipo que se deve deixar o entrevistado à vontade para dizer o que pensa, e fazer as perguntas certas para que ele exponha seus pontos-de-vista. Demétrio, de qualquer forma, apenas deturpa as palavras de Wanderley. Ele sequer as rebate.

Wanderley Guilherme não parece incomodado com a condenação dos operadores financeiros do esquema, mas interpreta os veredictos dos ministros contra os operadores políticos (ou seja: os dirigentes do PT) como frutos de um “desprezo aristocrático” à “política profissional”. O dinheiro desviado serviu para construir uma coalizão governista destituída de um mínimo de consenso político, explicou a maioria do STF. O cientista político, porém, atribui o diagnóstico a uma natureza “pré-democrática” de juízes incapazes de compreender tanto os defeitos da legislação eleitoral brasileira quanto o funcionamento dos “sistemas de representação proporcional”, que “são governados por coalizões das mais variadas”.

Vejam só o nível da crítica: “Wanderley não parece incomodado”. O petulante Magnoli, como aliás é frequente na literatura dos paus-mandados, presume saber o que Wanderley sente acerca dos operadores financeiros. Mais uma vez, ele não rebate, apenas recorta trechos da entrevista de Wanderley.

O núcleo do argumento serviria para a defesa de todo e qualquer “mensalão”. Os acusados tucanos do “mensalão mineiro” e os acusados do DEM do “mensalão de Brasília” estão tão amparados quanto os petistas por uma concepção da “política profissional” que invoca a democracia para justificar a fraude do sistema de representação popular e qualifica como aristocráticos os esforços para separar a esfera pública da esfera privada. A teoria política da corrupção formulada pelo intelectual deve ser lida como um manifesto em defesa de privilégios de impunidade judicial do conjunto da elite política brasileira.

Não serve nada. Cada caso é um caso. Wanderley não se aventura sequer a negar que tenham havido crimes de lavagem de dinheiro ou corrupção, passiva ou ativa, no escândalo do mensalão. Suas críticas são bem específicas em relação ao campo no qual ele é um expert com reconhecimento internacional: democracia, acordo político, financiamento de campanha. Partidos fazem acordos eleitorais sim. Há necessariamente, sempre, dinheiro envolvido, porque eleição envolve gastos. Mais uma vez, os paus mandados revelam que os barões da mídia tentam mostrar as entranhas do processo democrático como algo sujo. Se revelássemos as entranhas do jornalismo político brasileiro, acredito que o fedor seria infinitamente maior. A teoria política do pau mandado formulada por este pseudo-intelectual midiático deve ser lida como mais um gemido de desespero diante do declínio político dos partidos mais caros a nossos Citizen Kanes tupis.

Mas, obviamente, o argumento perde a força persuasiva se for lido como aquilo que, de fato, é. Para ocultar seu sentido, conferindo à obra uma coloração “progressista”, Wanderley Guilherme acrescenta-lhe uma camada de tinta fresca. A insurreição “aristocrática” do STF contra a “política democrática” derivaria da rejeição a uma novidade histórica: a irrupção da “política popular de mobilização”, representada pelo PT. A corte suprema estaria “reagindo à democracia em ação” por meio de um “julgamento de exceção”, um evento singular que “jamais vai acontecer de novo”.

Porque Demétrio não publicou logo a íntegra do artigo de Wanderley? É ridículo ficar pinçando frases desse jeito.

É nesse ponto do raciocínio que a teoria política da corrupção se transforma na corrupção da teoria política. Uma regra inviolável do discurso científico, explicou Karl Popper, é a exigência de consistência interna. Um discurso só tem estatuto científico se está aberto a argumentos racionais contrários.

Opa, agora Demétrio, finalmente, parece que vai rebater. Vamos ver.

Quando apela à profecia de que os tribunais não julgarão outros casos com base na jurisprudência estabelecida nos veredictos do mensalão, Wanderley Guilherme embrenha-se pela vereda da fraude científica. A sua hipótese sobre o futuro — que, logicamente, não pode ser confirmada ou falseada — impede a aplicação do teste de Popper.

Putz! Demétrio agora, ele sim, cometeu uma fraudezinha chinfrim. Pega uma opinião descontextualizada de Wanderley, e que não passa disso, de uma opinião política, um comentário dado a uma jornalista, e tenta convertê-lo numa profecia futurística? Com todo respeito, Magnoli, você é uma anta.

Há duas leituras contrastantes, ambas coerentes, sobre o “mensalão do PT”. A primeira acusa o partido de agir “como os outros”, entregando-se às práticas convencionais da tradição patrimonial brasileira e levando-as a consequências extremas. O diagnóstico, uma “crítica pela esquerda”, interpreta o extenso arco de alianças organizado pelo lulismo como fonte de corrupção e atestado da falência da natureza transformadora do PT. A segunda acusa o partido de operar, sob o impulso de um projeto de poder autoritário, com a finalidade de quebrar os contrapesos parlamentares ao Executivo e perpetuar-se no governo. A “crítica pela direita” distingue o “mensalão do PT” de outros casos de corrupção política, enfatizando o caráter centralizado e as metas de longo prazo do conjunto da operação.

O parágrafo começa estabelecendo, peremptoriamente, que existem duas “leituras” sobre o mensalão do PT. Ora, qual o oráculo que assim decretou? Não podem ser três, quatro, nove teorias? Na verdade, Demétrio expõe unicamente as teorias que lhe convém.

A leitura corrompida de Wanderley Guilherme forma uma curiosa alternativa às duas interpretações. Seu núcleo é uma celebração da corrupção inerente à política patrimonial tradicional, que seria a “política profissional” nos “sistemas de representação proporcional”. Seu verniz aparente, por outro lado, é um elogio exclusivo da corrupção petista, que expressaria a “irrupção da política de mobilização popular” e a “democracia em ação”. Na fronteira onde o pensamento acadêmico se conecta com a empulhação militante, o paradoxo pode até ser batizado como dialética. Contudo, mais apropriado é reconhecê-lo como um reflexo especular da fotografia na qual Paulo Maluf e Lula da Silva reelaboram os significados dos termos “direita” e “esquerda”.

Demétrio Magnoli representa, ele sim, a fronteira entre a submissão covarde à direita midiática golpista e a corrupção intelectual e ideológica que a acompanha. Ele não entende nada de patrimonialismo, nem de representação proporcional, nem de democracia. Seu texto é uma tentativa patética de distorcer as palavras do cientista político mais brilhante do nosso tempo, que reúne qualidades raras num intelectual: fina sensibilidade, intuição política aguçada e erudição esmagadora. Até dá para entender que um escriba de quinta grandeza como Demétrio se roa de inveja de um pensador como Wanderley Guilherme dos Santos, com suas dezenas de livros premiados e estudados no mundo inteiro, e que, mesmo assim, mesmo realizado profissionalmente, ainda tenha disposição de entrar no campo minado das polêmicas políticas e dar uma opinião contrária ao discurso dominante na mídia. Dá para entender, e desprezar. Ele conclui o artigo de maneira que deve ter lhe parecido brilhante: mencionar a polêmica foto em que Lula e Maluf fecham um acordo eleitoral para ampliar o tempo de TV de Haddad em São Paulo. Wanderley explica, em sua entrevista, que o partido de esquerda da Suécia se manteve no poder, por mais de trinta anos, através de uma aliança com uma legenda conservadora, e conseguiu transformar o país num dos regimes políticos mais avançados do mundo. Alianças políticas, no mundo inteiro, são feitas entre forças diferentes. O governo colombiano, conservador, acaba de fechar acordo com as Farcs, marxistas revolucionárias. Churchill ganhou a II Guerra após fechar uma aliança com seu maior adversário ideológico, Stálin. Se foi para derrotar o ultraconservadorismo tucano, o partido golpista da imprensa, e seus escribas lacaios, Lula agiu certo. E se o mais agressivo dos pitbulls da mídia recebe a missão de atacar o nome mais querido da ciência política brasileira, é porque Wanderley Guilherme dos Santos, assim como 1962 e depois em 2005, fez uma análise precisa e devastadora. Diferentemente do que aconteceu em 1962, quando suas advertências não foram ouvidas, hoje as palavras de Wanderley se espalham pelo país como um rastilho de pólvora, incendiando a verdadeira opinião pública, não aquela das cartinhas selecionadas, com o fogo de uma indignação fria, objetiva, terrível. A resposta às suas baixarias, senhor Magnoli, não virá do professor Wanderley. Virá – com um estrondo ensurdecedor – das urnas!

DEMÉTRIO MAGNOLI é sociólogo

Wanderley Guilherme dos Santos é cientista político. Confira sua página no Wikipédia.

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O samba continua doido, Magnoli também https://www.ocafezinho.com/2012/05/24/o-samba-continua-doido-magnoli-tambem/ https://www.ocafezinho.com/2012/05/24/o-samba-continua-doido-magnoli-tambem/#comments Thu, 24 May 2012 17:30:39 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=5460 (Ilustração capa: David Siqueros, muralista mexicano).

Ler a cobertura dos jornais para a CPI permanece um exercício hercúleo para fugir do emaranhado de intrigas, distorções, cortinas de fumaça, e enxergar a realidade. Se Platão voltasse a vida, poderia usar o exemplo para reescrever o mito da caverna. Na República, o filósofo dizia que só veríamos as sombras projetadas na parede da caverna, estando a verdade lá fora. Hoje ele poderia argumentar que se já era difícil distinguir e analisar as sombras, a coisa se complica muito diante da postura da mídia em bagunçar as imagens brincando de fazer imitações de elefante e pato com as mãos.

Ao fim desta CPI, comentaristas e blogueiros estarão com cérebros tão exercitados em destrinchar enigmas (reais ou fajutos), desbaratar armadilhas teóricas e praticar a contrainformação inteligente, que serão capazes de explicar para seus filhos a filosofia de Gilles Deleuze e persuadi-los a trocar o videogame e a batata-frita por sessões de Tarkóvski e legumes cozidos.

Em outras investigações, a imprensa sempre ajudava. Mobilizava seus melhores repórteres para ir atrás de informações novas e contextualizar as denúncias. Fernando Rodrigues reclamava na Folha ontem que os congressistas não estão analisando com a celeridade necessária os documentos da CPI. Pois bem, há toneladas de material já vazados na internet. Por que a Folha não coloca seus estagiários para filtrar os dados, trazendo-os à luz? Por que não vai atrás dos elos de Cachoeira em Goiás? Antes, os congressistas de CPI eram heróis, mosqueteiros, campeões da ética. Hoje são párias que atacam a imprensa!

A explicação é simples, e na verdade eu até compreendo um pouco a mídia. A CPI envolve a disputa partidária, e a mídia tem medo que a oposição, já combalida, desapareça de vez.

Mas a blogosfera não tem esses cuidados – ela segue antes a máxima de William Blake, para quem “a prudência é uma rica e feia rapariga que não casou, a quem a incapacidade faz a corte”.

O interessante mesmo, em termos políticos, é que a guerra de comunicação, muito intensa há tempos, mas correndo nos bastidores, agora explodiu à luz do sol. Não passa um dia sem que os arautos dos barões da mídia lancem ataques contra membros da blogosfera. Hoje foi a vez de Demétrio Magnoli. Em artigo intitulado “Os bons companheiros“, Demétrio “pau pra toda obra” Magnoli faz uma defesa descarada de Poli, Veja, faz os ataques previsíveis a Dirceu, Franklin Martins, Carta Capital, Mino Carta, Paulo Henrique Amorim, e repercute a velha denúncia contra a tentativa de fazer o “controle social da mídia”.

Alguns leitores acham que não deveríamos dar atenção a figuras como Merval ou Magnoli. Esse é um velho debate na blogosfera. Eu não concordo. Uma das funções mais nobres da blogosfera é dar resposta a essas figuras, que se beneficiam de uma estrutura midiática consolidada ao longo da ditadura militar, que nasceram a partir de grandes empréstimos públicos e sempre foram privilegiadas pelos governos, até a chegada do famigerado Lula. De qualquer forma, esse blog tem como função fazer uma análise diária da mídia, então eu não posso fugir dessa missão. Há gente que cuida da limpeza do lixo nas cidades, há equipes responsáveis por dejetos nucleares, e há blogueiros que analisam textos de Demétrio Magnoli e Merval Pereira. Nem todo mundo é personal trainer da Sabrina Sato ou salva-vidas de piscina em resort. À cada um, sua cruz.

Então, seguremos as ânsias, tampemos o nariz e façamos o nosso dever. Analisemos o artigo de Magnoli, naquele esquema: negrito (Magnoli) e fonte normal (eu).

Os bons companheiros

Por Demétrio Magnoli

De “caçador de marajás”, Fernando Collor transfigurou-se em caçador de jornalistas. Na CPI do Cachoeira, seu alvo é Policarpo Jr., da revista “Veja”, a quem acusa de associar-se ao contraventor “para obter informações e lhe prestar favores de toda ordem”. Collor calunia, covardemente protegido pela cápsula da imunidade parlamentar. Os áudios das investigações policiais circulam entre políticos e jornalistas — e quase tudo se encontra na internet. Eles atestam que o jornalista não intercambiou favores com Cachoeira. A relação entre os dois era, exclusivamente, de jornalista e fonte — algo, aliás, registrado pelo delegado que conduziu as investigações.

Não é só Collor que está investigando o jornalista Policarpo Júnior. Magnoli tenta usar a má-fama de Collor para desmerecer uma suspeita que é de milhares de cidadãos brasileiros e de muitos parlamentares: a de que Poli e a revista Veja associaram-se ao crime organizado. É preciso investigar. Uma coisa é o princípio, tão nobre, da “presunção da inocência”, aliás sempre desrespeitado pela grande imprensa. Outra coisa é tratar um jornalista ou empresa de mídia como “acima de qualquer suspeita”. Aliás, o culpado aqui não é tanto Policarpo e sim a Revista Veja. A associação com o esquema Cachoeira não é a única acusação contra a Veja: ela apenas ajudou a montar o quebra-cabeça. Foi a pincelada que faltava para nos dar uma visão do conjunto. A função da imprensa de denunciar o poder é sagrada, por isso mesmo não pode ser conspurcada por órgãos que praticam invencionices delirantes, como a Veja. Sobre proteger jornalistas, Magnoli omitiu que foi a Veja que iniciou um ataque sistemático, através de seu falso bobo-da-corte, Diogo Mainardi, à jornalistas, numa campanha machartista apenas porque eles não comiam no pratinho antilulista que os barões serviam a seus empregados. Aconteceram verdadeiros expurgos ideológicos nas redações, prática que durou até 2010, com a demissão de Maria Rita Kehl, colunista do Estadão, por um “crime de opinião”: ela escreveu um texto que podia ser interpretado como defesa de Lula.

Os delegados entrevistados pela CPI não têm condições, nem deveriam fazer isso, de constatar algum crime na relação entre Policarpo Júnior e o crime organizado em Goiás. De qualquer forma, a informação é enviesada. O primeiro delegado entrevistado era o responsável pela Monte Carlo, que não flagrou conversas sobre plantações de notícia na Veja e encontros de membros do esquema com Poli. Isto aconteceu na operação Vegas, cujo delegado afirmou na CPI que não podia descartar a existência de ilícito na relação entre o repórter da Veja e o Clube Nextel.

Jornalistas obtêm informações de inúmeras fontes, inclusive de criminosos. Seu dever é publicar as notícias verdadeiras de interesse público. Criminosos passam informações — verdadeiras ou falsas — com a finalidade de atingir inimigos, que muitas vezes também são bandidos. O jornalismo não tem o direito de oferecer nada às fontes, exceto o sigilo, assegurado pela lei. Mas não tem, também, o direito de sonegar ao público notícias relevantes, mesmo se sua divulgação é do interesse circunstancial de uma facção criminosa.

Pois é: publicar notícias verdadeiras de interesse público. Tal como as contas de Lula e ministros no exterior? Tal como os dólares de Cuba? Magnoli esquece que a Veja tem um longo histórico de calúnias políticas extremamente cabeludas. Se fossem equívocos pontuais, causados pelo justo desejo de denunciar o poder, tudo bem. Mas não. Suas denúncias não eram desmentidas mesmo quando gritantemente falsas, e inscreviam-se numa tática editorial visando derrubar o governo, conforme sempre se pôde notar em seu porta-voz na internet, Reinaldo Azevedo. Poli oferecia tudo às fontes: publicava denúncias do esquema Cachoeira visando chantagear políticos. Aliás, faça-se justiça à Veja: não era só ela. O esquema Cachoeira comprou espaço em muitos lugares na mídia. O tal Mino Pedrosa, que segundo gravações recebia 100 mil mensais para plantar matérias contra Agnelo, usava Istoé, Correio Braziliense, sites e blogs.

Certo, Magnoli, o jornalista “não tem direito de sonegar ao público notícias relevantes”, como, por exemplo, a promiscuidade entre Demóstenes Torres e um bandidão de Goiás. A Veja omitiu essa informação do público durante anos, assim como omitiu que a fonte de suas denúncias era um esquema criminoso que se utilizava de grampos ilegais.

Os áudios em circulação comprovam que Policarpo Jr. seguiu rigorosamente os critérios da ética jornalística. Informações vazadas por fontes diversas, inclusive a quadrilha de Cachoeira, expuseram escândalos reais de corrupção na esfera federal. Dilma Rousseff demitiu ministros com base naquelas notícias, atendendo ao interesse público. A revista na qual trabalha o jornalista foi a primeira a publicar as notícias sobre a associação criminosa entre Demóstenes Torres e a quadrilha de Cachoeira — uma prova suplementar de que não havia conluio com a fonte. Quando Collor calunia Policarpo Jr., age sob o impulso da mola da vingança: duas décadas depois da renúncia desonrosa, pretende ferir a imprensa que revelou à sociedade a podridão de seu governo.

Temos somente alguns áudios disponíveis na internet, e não se viu nada de rigoroso, nem ético nem jornalístico neles. O que vemos são informações estarrecedoras de que Cachoeira sabia, com antecipação de até duas semanas, exatamente o que seria publicado na Veja, e que inclusive escolhia em qual parte da revista seria plantada a notícia. Dilma demitiu ministros por várias razões, inclusive porque as denúncias da Veja eram repercutidas acriticamente pela mídia, que tratava logo de produzir uma crise política de grandes proporções, mesmo que a denúncia original não ganhasse corpo. Sabemos muito bem como funciona esse processo. Magnoli repete a ladainha sobre Collor, como se fosse apenas ele, e não setores numerosos e qualificados da sociedade, que desejam investigar os crimes midiáticos cometidos pela Veja e outros órgãos.

A vingança, porém, não é tudo. O senador almeja concluir sua reinvenção política inscrevendo-se no sistema de poder do lulopetismo. Na CPI, opera como porta-voz de José Dirceu, cujo blog difunde a calúnia contra o jornalista. Às vésperas do julgamento do caso do mensalão, o réu principal, definido pelo procurador-geral da República como “chefe da quadrilha”, engaja-se na tentativa de desqualificar a imprensa — e, com ela, as informações que o incriminam.

Dizer que Collor opera como porta-voz de Dirceu é uma imbecilidade. No afã de desconstruir a CPI e blindar a Veja, os pitbulls midiáticos apelam para qualquer delírio. O ex-deputado José Dirceu é alçado à eminência parda do governo, quando há anos ele não apita mais nada. Tornou-se antes uma caricatura da mídia que precisa, como estratégia de ataque, individualizar os aspectos malignos do lulopetismo. As críticas à imprensa corporativa existem no mundo inteiro, Magnoli, antes, durante e depois do mensalão. Conferir aura de santidade à mídia brasileira é ridículo. Até concordo que não devemos praticar uma crítica maniqueísta, como se a mídia fosse origem de todo o mal da república, mas é saudável, é necessário, fazermos uma crítica tão dura à mídia como se faz uma crítica ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário. Todo poder precisa e deve ser duramente criticado, porque senão se torna um poder totalitário.

O mensalão, porém, não é tudo. A sujeição da imprensa ao poder político entrou no radar de Lula justamente após a crise que abalou seu primeiro mandato. Franklin Martins foi alçado à chefia do Ministério das Comunicações para articular a criação de uma imprensa chapa-branca e, paralelamente, erguer o edifício do “controle social da mídia”. Contudo, a sucessão representou uma descontinuidade parcial, que se traduziu pelo afastamento de Martins e pela renúncia ao ensaio de cerceamento da imprensa. Dirceu não admitiu a derrota, persistindo numa campanha que encontra eco em correntes do PT e mobiliza jornalistas financiados por empresas estatais. Policarpo Jr. ocupa, no momento, o lugar de alvo casual da artilharia dirigida contra a liberdade de informar.

Magnoli, a denúncia ao golpismo da imprensa brasileira vem sendo estudada por pesquisadores desde o fim da ditadura, porque antes disso era considerado “subversivo” denunciar a imprensa chapa-branca. O debate público sobre o papel da imprensa no golpe de Estado de 1964 ficou interdito pela censura estatal durante todo regime, e depois pela censura comercial e tecnológica, já que os próprios jornalões não se denunciariam a si mesmos. Então este debate só emerge mesmo após o advento da blogosfera, e mesmo assim apenas após entrada na rede dos setores da população mais velhos e mais politizados. Por isso o tom explosivo do debate, porque ele ficou reprimido por décadas!

No jogo da calúnia, um papel instrumental é desempenhado pela revista “Carta Capital”. A publicação noticiou falsamente que Policarpo Jr. teria feito “200 ligações” telefônicas para Cachoeira. Em princípio, nada haveria de errado nisso, pois a ética nas relações de jornalistas com fontes não pode ser medida pela quantidade de contatos. Entretanto, por si mesmo, o número cumpria a função de arar o terreno da suspeita, preparando a etapa do plantio da acusação, a ser realizado pela palavra sem freios de Collor. Os áudios, entretanto, evidenciaram a magnitude da mentira: o jornalista trocou duas, não duzentas, ligações com sua fonte.

Eis aí um defensor da liberdade de expressão! Todos os jornalões repetem o mesmo discurso, os mesmos editoriais, partilham inclusive os mesmos colunistas. E aí Magnoli vem criticar exatamente uma das raríssimas publicações que fogem à panelinha. A divulgação dos 200 telefonemas veio da Polícia Federal, ninguém inventou isso. Também estamos esperando confirmação sobre o número exato de telefonemas, e o conteúdo deles. Ninguém está precondenando Policarpo ou a Veja, o negócio é que eles já estão politicamente condenados por um vasto setor da sociedade. As denúncias que emergem da CPI são como acusações de homicídio a alguém que já estava condenado por sequestro, roubo e estupro.

A revista não se circunscreveu à mentira factual. Um editorial, assinado por Mino Carta, classificou a suposta “parceria Cachoeira-Policarpo Jr.” como “bandidagem em comum”. Editoriais de Mino Carta formam um capítulo sombrio do jornalismo brasileiro. Nos anos seguintes ao AI-5, o atual diretor de redação de Carta Capital ocupava o cargo de editor de “Veja”, a publicação na qual hoje trabalha o alvo de suas falsas denúncias. Os editoriais com a sua assinatura eram peças de louvação da ditadura militar e da guerra suja conduzida nos calabouços. Um deles, de 4 de fevereiro de 1970, consagrava-se ao elogio da “eficiência” da Operação Bandeirante (Oban), braço paramilitar do aparelho de inteligência e tortura do regime, cuja atuação “tranquilizava o povo”. O material documental está disponível no blog do jornalista Fábio Pannunzio (http://www.pannunzio.com.br/), sob a rubrica “Quem foi quem na ditadura”.

Vejam só a desonestidade de Magnoli. Mino Carta era empregado da Veja. A culpa pelos editoriais daquela época deve ser pendurada nos donos da revista, não em seus empregados. Além disso, é cara de pau. Ele publica esse artigo no Globo e Estadão, cujos editoriais sabujos, chapa-brancas e louvadores aos militares golpistas começaram inclusive antes do advento da violência e da censura. Mino Carta escreveu editoriais pró-ditadura num tempo em que era obrigado a fazê-lo por seus empregadores, tanto é que, quando deixou de fazê-lo, foi sumariamente demitido, após uma determinação vinda diretamente do governo militar. Magnoli não diz isso, não informa a seus leitores que Mino Carta foi demitido por finalmente se insurgir contra o papel humilhante que o totalitarismo e a covardia empresarial da Abril lhe impunham. Ele mostra o personagem apenas em sua fase ruim, mas não revela a sua transformação. Os editorais de Mino envergonham-lhe a carreira, mas ele conseguiu pular fora, redimindo-se. Enquanto isso, Magnoli, em pleno período de liberdade democrática, faz o jogo dos mesmos barões – que implantaram a ditadura porque desejavam, como desejam até hoje, perpetuar o subdesenvolvimento com medo de que mudanças democráticas (na mídia, por exemplo) alterem o seu status quo.

PS: Parece que era mentira do Pannunzio, repercutida por Demétrio. O texto que louva a ditadura não era de Mino Carta. Ver nos Comentários.

Na “Veja” de então, sob a orientação de Carta, trabalhava o editor de Economia Paulo Henrique Amorim. A cooperação entre os cortesãos do regime militar renovou-se, décadas depois, pela adesão de ambos ao lulismo. Hoje, Amorim faz de seu blog uma caixa de ressonância da calúnia de Carta dirigida a Policarpo Jr. O fato teria apenas relevância jurídica se o blog não fosse financiado por empresas estatais: nos últimos três anos, tais fontes públicas transferiram bem mais de um milhão de reais para a página eletrônica, distribuídos entre a Caixa Econômica Federal (R$ 833 mil), o Banco do Brasil (R$ 147 mil), os Correios (R$ 120 mil) e a Petrobras (que, violando a Lei da Transparência, se recusa a prestar a informação).

Outra covardia: pretender que Paulo Henrique Amorim, um jovem de vinte e poucos anos, pudesse apitar alguma coisa nas redações da Veja naquela época de trevas. Esses caras acusam os que lutaram contra a ditadura de terem sido “violentos”, e agora acusam os que trabalharam na ditadura de serem “cooperativos”. Ou seja, não se salva ninguém. A culpa da ditadura não pode recair sobre os jovens repórteres que trabalharam para se sustentar na década de 60 e 70, e sim sobre os barões da mídia que articularam para derrubar o governo e depois para apoiá-lo, consolidá-lo e ocultar seus podres! A covardia pior, todavia, é a tentativa de estrangular comercialmente o blog de Paulo Henrique Amorim. Primeiramente, esses mesmos interesses conseguiram fechar seu blog no IG, de maneira insuportavelmente antidemocrática, tentando sequestrar inclusive seus arquivos digitais, e agora acusam-no de ter publicidade! As estatais fazem muito bem em anunciar no blog de Paulo Henrique Amorim. Calúnia por calúnia, a mídia corporativa calunia muito mais gente e numa escala infinitamanente superior e também recebe anúncios de estatais. A Veja, por exemplo, recebe muito mais dinheiro que o blog de Amorim, apesar deste, hoje em dia, atingir um público bem maior. Os concursos nacionais de blogs políticos foram inclusive extintos quando se percebeu que os blogs de PHA e Nassif estavam virando verdadeiros hors-concours, ganhando todas. A blogosfera é a nova fronteira da comunicação de massa, e o governo tem o dever de contribuir para a desconcentração midiática ampliando os anúncios nesta plataforma, mesmo que a contragosto dos lacaios da grande imprensa. Magnoli faz uma crítica interessada, já que recebe salário do Estadão e Globo, que sempre receberam muitos milhões em anúncios de governos, estaduais e federal, afora as mamatas do governo paulista de comprar assinaturas para escolas, comprar livros didáticos e oferecer gratuitamente espaços na tv pública paulista.

Dilma não deu curso à estratégia de ataque à liberdade de imprensa organizada no segundo mandato de Lula. Mas, como se evidencia pelo patrocínio estatal da calúnia contra Policarpo Jr., a presidente não controla as rédeas de seu governo — ao menos no que concerne aos interesses vitais de Dirceu. A trama dos bons companheiros revela a existência de um governo paralelo, que ninguém elegeu.

Interesses de Dirceu… Putz, Magnoli e cia acha que Dirceu é o quê? Um invasor extraterrestre com poderes e inteligência superior que planeja ser o novo ditador do país? Pára de fugir do assunto trazendo Dirceu para o debate! Dirceu não é deputado, não tem cargo no governo, não manda mais nada, é apenas um militante tentando limpar seu nome, como é seu direito. O debate político hoje, porém, passa ao largo de Dirceu, que é apenas mais um blogueiro dando sua opinião.

Governo paralelo que ninguém elegeu existe nesta mídia corporativa, consolidada durante a ditadura, que atingiu um nível de concentração inaudito, causando grande risco à democracia, não fosse a existência dos mesmos blogs que Magnoli tenta desqualificar.

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As mentiras de Magnoli https://www.ocafezinho.com/2012/02/02/as-mentiras-de-magnoli/ https://www.ocafezinho.com/2012/02/02/as-mentiras-de-magnoli/#respond Thu, 02 Feb 2012 08:38:42 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=3820 [s2If !current_user_can(access_s2member_level1) OR current_user_can(access_s2member_level1)]

Eu vinha aqui decidido a escrever uma crítica ao governo brasileiro pela medida que visa coibir a imigração ilegal de haitianos ao Brasil. Li um artigo do Demétrio Magnoli, publicado hoje no Estadão, com o qual tive o desprazer de concordar que a medida recende a preconceito, e até mesmo a racismo.

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Só que agora estou confuso, porque, segundo o Estadão, a medida “foi bem recebida no Haiti”.

Apesar das críticas no Brasil, a medida que estabeleceu uma cota de vistos foi bem recebida no Haiti, que a viu como uma possibilidade de diminuir a rede ilegal de transporte para o Brasil via Equador e Peru

Entretanto, eu mantenho a crítica.

Compreendo, por outro lado, que uma sinalização do governo brasileiro de que o país não só estaria aberto à imigração haitiana, como daria assistência social a todos que chegassem, poderia estimular uma fuga em massa de mão-de-obra qualificada, prejudicando a economia do país. Eu imagino que é neste sentido que o governo haitiano aprovou a medida brasileira. Mesmo assim, não acho que o governo deveria impor uma cota de 100 vistos mensais. Deveria deixar, ao menos, o número em aberto.

Magnoli compara as recentes restrições impostas ao Haiti com a “regularização de 330 mil imigrantes portugueses no Brasil”, no primeiro semestre do ano passado. O articulista, contudo, deliberadamente produz uma distorção. Se o leitor for desatento, pensará que o Brasil recebeu 330 mil portugueses no Brasil de janeiro a junho de 2011. Não foi isso. A informação é falsa. 330 mil é o número total de imigrantes portugueses presentes no Brasil, sendo a maior comunidade estrangeira presente no Brasil, o que acontece pelo fato de falarmos o mesmo idioma. No primeiro semestre do ano passado, houve um mutirão da Polícia Federal para regularizar a situação de 52 mil portugueses.

Ou seja, Magnoli pode até estar certo em sua crítica à medida do governo brasileiro para restringir a entrada de haitianos no país, mas não posso aprovar o uso da mentira e da manipulação.

O texto de Magnoli, aliás, inicia com outra mentira:

Anos atrás, o ministro da Justiça, Tarso Genro, determinou a deportação de dois pugilistas cubanos que tentavam fugir de seu país.

Os dois cubanos não pediram asilo no Brasil. Se o fizessem, o governo os teria atendido, como atendeu a outros atletas da mesma comitiva, e como o faz em todos os casos. Os cubanos fugiram da competição, enganados por um alemão, que lhes fez promessas depois sumiu. Então eles declararam querer voltar à Cuba, para junto de suas famílias. Na ocasião, eles foram ouvidos por um advogado da OAB e um promotor público, que confirmaram o desejo dos pugilistas de retornar à Cuba. Eles quiseram voltar não porque gostassem de Cuba (se gostassem não teriam prejudicado seu país abandonando no meio um campeonato internacional), mas porque pretendiam tentar uma fuga melhor planejada. O irritante, no entanto, é que, tantos anos depois, Magnoli repise a mesma mentira. Isso mostra o trabalho insano de um analista de mídia no Brasil. Não apenas precisa identificar as mentiras contadas diariamente, como precisa estar atento às repetições daquelas já desmentidas no passado.
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