diplomacia global - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/diplomacia-global/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Fri, 31 Oct 2025 16:47:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png diplomacia global - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/diplomacia-global/ 32 32 Nunca confie na América de Trump https://www.ocafezinho.com/2025/11/03/nunca-confie-na-america-de-trump/ https://www.ocafezinho.com/2025/11/03/nunca-confie-na-america-de-trump/#respond Mon, 03 Nov 2025 21:30:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220237 Entre a bajulação e a força militar, Trump mistura pacificação e intimidação, deixando o mundo à mercê de decisões pessoais e arbitrárias

O ar em Washington está pesado. Um ano se passou desde a controversa reeleição de Donald Trump, e o cenário diplomático global não é apenas instável; ele é irreconhecível. A previsibilidade, mesmo a tensa previsibilidade da Guerra Fria ou da “Guerra ao Terror”, evaporou. O que resta é o personalismo.

Como um observador veterano da Casa Branca resumiu: “Um ano após sua reeleição, a diplomacia está sendo conduzida pelos caprichos pessoais do presidente a um ponto sem precedentes na era moderna.”

Para as nações do mundo, de aliados históricos a adversários declarados, a lição aprendida neste último ano é brutal e clara: a única política externa que importa é a que agrada o ego do homem no Salão Oval.

A fila da subserviência global é longa e cresce a cada dia. Esta semana, a nova primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, fez sua peregrinação a Washington. Ela não veio de mãos vazias; trazia a notícia de que estava indicando Donald Trump para o Prêmio Nobel da Paz.

Com isso, o Japão se junta a uma lista que inclui os governos do Camboja, Paquistão e Israel. Todos correm para lisonjear o presidente, na esperança de evitar sua ira.

O espetáculo cruza o Atlântico. Sir Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, usou seu primeiro encontro com Trump para anunciar um convite para uma segunda visita de Estado ao Reino Unido. Em um momento de clara submissão, Starmer enfatizou que o gesto era “verdadeiramente histórico” e “sem precedentes”.

Fontes diplomáticas, falando sob condição de anonimato, descrevem esse tipo de comportamento bajulador como “indigno”. Mas, um ano após a consolidação do poder de Trump, os aliados dos Estados Unidos concluíram que a bajulação é, dolorosamente, indispensável.

E o que acontece com quem não se curva? A punição é imediata e desproporcional.

As relações entre os EUA e a Índia, antes uma aliança estratégica em ascensão, deterioraram-se drasticamente. O crime do primeiro-ministro Narendra Modi? Ele se recusou a dar crédito público a Trump pela pacificação entre a Índia e o Paquistão. A vingança veio na forma de tarifas punitivas de 50% sobre os produtos indianos.

O Canadá, vizinho e aliado de longa data, também provou do veneno. Trump ofendeu-se pessoalmente com um anúncio televisivo contra tarifas veiculado pela província de Ontário. A resposta foi um aumento imediato das tarifas sobre o país. A soberania nacional virou um detalhe irrelevante diante da fúria presidencial.

Embora os acessos de raiva e as mudanças súbitas de direção façam a política externa de Trump parecer um furacão imprevisível, temas muito claros emergiram nestes últimos nove meses.

O presidente tem obsessões inabaláveis. Ele ama tarifas alfandegárias. Ele genuinamente acredita que elas tornarão os Estados Unidos mais ricos e poderosos, ignorando o consenso econômico global.

Ele também está entrincheirado na convicção de que os EUA foram “explorados” por seus aliados. É uma narrativa vitimista que serve como justificativa moral para sua política predatória “América Primeiro”.

A abordagem de Trump é profundamente transacional. Aquele velho discurso sobre “valores americanos” e “liberdade” — tão caro aos presidentes anteriores, fosse ele hipócrita ou não — foi completamente abandonado. Em vez disso, Trump fala de “força americana” e de embolsar “vitórias”.

Essas “vitórias” podem ser a promessa de investimentos bilionários nos EUA. Ou podem ser mais um acordo de paz do qual ele possa se apropriar publicamente.

Ironicamente, o desejo do presidente de ser um pacificador parece, por vezes, genuíno. Fontes internas sugerem que pode refletir um horror real à guerra. Outros, mais cínicos, apontam que é motivado por uma vontade desesperada de igualar o Prêmio Nobel da Paz que foi concedido a Barack Obama em 2009.

O próprio Trump, em um momento de estranha reflexão, sugeriu que quer melhorar suas chances de ir para o céu, ponderando: “Estou ouvindo que não estou indo bem. Estou realmente na base da pirâmide.”

Neste exato momento, a máquina de propaganda da Casa Branca está a todo vapor, destacando seu papel na intermediação de um cessar-fogo em Gaza e na assinatura, por Israel e Hamas, de um plano de 20 pontos. Ele também canta vitória por um acordo entre a Tailândia e o Camboja.

Mas a máscara de pacificador cai com uma velocidade assustadora.

Trump também se mostrou mais do que disposto, em algumas ocasiões, a “dar uma chance à guerra”. Em junho, após Israel atacar instalações nucleares iranianas, ele fez o que sucessivos presidentes americanos evitaram por 20 anos: autorizou a participação americana em ataques aéreos subsequentes contra o Irã.

Após os ataques, Trump não hesitou em reivindicar o mérito de ter “aniquilado” as instalações. Críticos dentro do Pentágono foram rapidamente silenciados.

E enquanto se regozija pelos acordos de paz asiáticos, Trump vira sua máquina de guerra para o Caribe. Nas últimas semanas, os EUA realizaram uma série de ataques mortais contra embarcações que alegadamente transportavam drogas. O porta-aviões USS Gerald R. Ford acaba de ser enviado para a região. O cheiro de intervenção militar é forte, e fala-se abertamente em Washington sobre uma tentativa de forçar uma “mudança de regime” na Venezuela. O imperialismo clássico, sem disfarces, está de volta às Américas.

Para grande parte do mundo, especialmente o Sul Global, as tarifas são a face diária da opressão trumpista. As enormes tarifas globais anunciadas no seu chamado “dia da libertação” — 2 de abril — foram rapidamente atenuadas após uma reação violenta do mercado.

Mas, desde então, o governo tem seguido uma política sádica de imposição de tarifas específicas, decididas de forma opaca. Após processos que ninguém em Bruxelas ou Brasília consegue entender, o Reino Unido acabou com uma taxa de 10%, o Japão e a UE com 15%, as Filipinas com 19% e a África do Sul com 30%.

A China foi recentemente ameaçada com tarifas de 100%. Contudo, após um encontro pessoal entre Trump e Xi Jinping em Seul, a tarifa média sobre as importações da China será de 45%. Um “desconto” concedido após um aperto de mão.

O aparente desejo de Trump por um “grande acordo” pessoal com Xi perturbou a única área onde havia consenso em Washington: a “competição entre grandes potências”.

Foi a própria primeira administração Trump que recolocou a China como o principal desafio ao poder americano. A administração Biden, no intervalo, chamou a China de “a principal ameaça” e tentou unir aliados para conter Pequim.

Esperava-se que o segundo mandato de Trump desse continuidade a esse esforço. Mas os instintos pessoais do presidente atropelaram a estratégia.

As mesmas tarifas que Trump impôs a aliados cruciais na Ásia — como Japão, Índia, Taiwan e Coreia do Sul — contrariam diretamente os esforços para isolar a China. O resultado é um desastre geopolítico para os EUA: países como a Índia e o Vietnã, temendo a instabilidade americana, estão agora tentando se aproximar de Pequim.

O que o mundo deve pensar disso? Será que os livros de história reconhecerão uma “Doutrina Trump”, assim como houve uma “Doutrina Truman”?

Provavelmente é pedir demais que uma figura “instintiva e egocêntrica” como Trump desenvolva uma abordagem coerente. Mas há muitas pessoas em sua administração ansiosas para criar uma “política externa para o MAGA”.

Uma análise influente de 2022 (do Conselho Europeu de Relações Exteriores) identificou “três tribos” que disputam o ouvido do presidente:

  • Os Primacistas: São os imperialistas tradicionais. Comprometidos com o papel dos EUA como superpotência global, querem policiar a Europa, Ásia e Oriente Médio. Figuras como o Secretário de Estado Marco Rubio e o Senador Lindsey Graham lideram esse grupo.
  • Os Moderadores (Restrainers): Ligados ao vice-presidente JD Vance, são mais isolacionistas. Marcados pelas guerras do Iraque e Afeganistão, eles desconfiam de aliados, temendo que arrastem os EUA para novas guerras que não gerem lucros óbvios.
  • Os Priorizadores (“Ásia Primeiro”): Argumentam que os EUA não têm mais recursos para serem a polícia global. Querem escolher as batalhas. Na visão deles (como Elbridge Colby), isso significa abandonar a Ucrânia e focar todos os recursos na contenção da China.

Enquanto essas três tribos da direita radical disputam o poder em Washington, o mundo real — da Faixa de Gaza ao Caribe, das fábricas indianas às Filipinas — paga o preço. A “Doutrina Trump”, ao fim deste primeiro ano, é simplesmente a doutrina do caos. E sua única máxima é aquela que dá título a esta reportagem: “não confie na América.”

Leia também: Diplomacia à mercê de um único homem

O próprio Trump, no entanto, não pertence a nenhum desses grupos. Como resumiu Jeremy Shapiro, coautor do estudo: “O presidente não se importa com nenhuma dessas escolas de pensamento. Ele é movido por seus próprios interesses pessoais e psicológicos.”

Consequentemente, a política externa do segundo mandato de Trump tornou-se um campo de batalha interno, onde as três tribos tentam desesperadamente influenciar as políticas públicas, não através da lógica estratégica, mas alinhando seus objetivos aos caprichos do presidente e ao seu desejo insaciável por “vitórias” televisionáveis.

Cada facção teve seus dias de glória e suas derrotas humilhantes.

Os defensores da contenção (os “moderadores”), intimamente ligados ao vice-presidente JD Vance, eram entusiastas da ideia de romper com a Ucrânia e buscar uma reaproximação cínica com a Rússia de Vladimir Putin.

Eles tiveram vitórias. Vance desempenhou um papel central no infame confronto televisionado de fevereiro, no Salão Oval, com Volodymyr Zelenskyy, o presidente ucraniano. O resultado foi o corte de toda a ajuda financeira à Ucrânia, uma decisão que forçou os europeus, relutantes, a cobrir o déficit financeiro. Eles também apoiaram o ceticismo de Trump em relação à OTAN, o que resultou na exigência bem-sucedida de que os países europeus pagassem mais por sua própria defesa.

Mas a grande aposta — uma reaproximação com Putin — fracassou. Trump ficou visivelmente desapontado com sua cúpula no Alasca, em agosto. Desde então, ele tem se mostrado estranhamente mais amigável com Zelensky e até endureceu sanções contra a Rússia, provando que sua lealdade é efêmera.

Os isolacionistas sofreram seus maiores reveses no Oriente Médio. A decisão de bombardear o Irã causou uma cisão aberta no movimento MAGA; figuras influentes como Tucker Carlson e a congressista Marjorie Taylor Greene condenaram publicamente a medida.

Um bate-papo em grupo vazado entre Vance, o secretário de Defesa Pete Hegseth e outros, revelou a frustração do vice-presidente. Sobre a decisão de bombardear os houthis no Iêmen, Vance escreveu: “Acho que estamos cometendo um erro. Detesto ter que socorrer a Europa novamente.”

O bombardeio do Irã foi, ironicamente, um triunfo para os “primacistas” — os que acreditam no uso robusto e tradicional do poder militar americano em todo o mundo. Este grupo, que inclui o Secretário de Estado Marco Rubio e o Senador Lindsey Graham, aplaudiu a agressão.

Mas a vitória foi incompleta. A decisão de Trump de interromper abruptamente a campanha decepcionou a facção, que esperava que os EUA continuassem a guerra e pressionassem por uma mudança de regime no Irã.

Rubio, o principal primacista, agora foca sua energia na Venezuela. Ele é a figura-chave na defesa de uma política agressiva contra o governo Maduro. A estratégia é clara: ao alinhar a intervenção na Venezuela com as preocupações domésticas do presidente (drogas e imigração), Rubio espera conquistar mais uma vitória para os imperialistas.

Esta facção também conseguiu frear o impulso de Trump de se retirar da OTAN. A política atual — permanecer na aliança, enquanto humilha e força os europeus a gastarem muito mais — parece ser o compromisso viável entre os isolacionistas e os imperialistas.

Os “priorizadores” (o grupo “Ásia Primeiro”), que argumentavam que os EUA deveriam minimizar a Europa e o Oriente Médio para focar na China, tiveram o pior desempenho.

O argumento de Elbridge Colby parece estar perdendo força. Embora os cortes na ajuda à Ucrânia se encaixem em sua visão, o rumor de que o Departamento de Guerra (como o Pentágono é agora chamado) está trabalhando em uma nova estratégia de defesa que priorizará o hemisfério ocidental em detrimento da Ásia, soa como uma rejeição total de sua visão de mundo.

Qualquer acordo comercial pessoal entre Trump e Xi Jinping que sacrifique os interesses de Taiwan seria o golpe final tanto para eles quanto para os primacistas.

As três tribos, no entanto, não conseguem explicar os impulsos mais caóticos do presidente.

Uma campanha que quase ninguém previu foi a declaração de uma nova, e bizarra, forma de imperialismo americano. Isso se manifestou no desejo declarado do presidente de anexar a Groenlândia e em suas repetidas sugestões de que o Canadá deveria se tornar o 51º estado.

Isso foi forte demais — mesmo para os primacistas de Rubio. Ainda há controvérsia sobre quem exatamente colocou essas ideias na agenda de Trump. Por enquanto, esse imperialismo declarado está sendo minimizado, embora fontes falem de esforços secretos em curso na Groenlândia.

Ameaçar o Canadá e a Dinamarca, insultar a Índia e o Brasil, impor tarifas a todos os aliados e incentivar a extrema-direita na Europa, no entanto, terá um custo de longo prazo.

Os apoiadores de Trump argumentam que as queixas sobre essas políticas são “lamúrias liberais”. Eles acreditam que a disposição de Trump em usar o poder americano garantiu resultados: o cessar-fogo em Gaza, uma OTAN “melhorada” e termos comerciais mais favoráveis.

Uma visão alternativa é que, como afirma Shapiro, “Trump está trocando vitórias de curto prazo por problemas de longo prazo. Ele está desperdiçando 80 anos de capital diplomático americano.”

Esse capital foi acumulado, em grande parte, sustentando o sistema de comércio global e garantindo a segurança de aliados na Ásia e na Europa. Isso tornou países como Japão, Reino Unido e Canadá altamente dependentes dos EUA — o que conferiu à América uma influência gigantesca.

Mas, ao usar essa influência de forma “surpreendentemente implacável”, Trump enviou uma mensagem clara: confiar na América é um risco.

A consequência é inevitável. Os aliados dos Estados Unidos começarão a se proteger contra o poderio americano. Às vezes, o processo é explícito, como quando Mark Carney, o primeiro-ministro canadense, deixou claro que pretende diversificar as relações comerciais de seu país para longe dos EUA. Outras vezes, é discreto, como o novo esforço europeu para desenvolver capacidades de defesa e de satélite que possam operar independentemente dos EUA.

Países que não são aliados dos EUA — e que não dependem de sua garantia de segurança — têm ainda mais liberdade para responder com firmeza ao que consideram intimidação.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, reagiu com veemência aos esforços do governo Trump para impedir o processo e a possível prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, um importante aliado de Trump. Na Índia, Narendra Modi, após a disputa tarifária, teria se recusado a atender ligações telefônicas de Trump.

Como resultado, os Estados Unidos estão perdendo influência sobre atores-chave no Sul Global. Em um artigo recente para a revista Foreign Affairs, analistas lamentam que os Estados Unidos estão alienando os países indecisos no sistema global. O argumento é sombrio: “Washington está levando os BRICS a se tornarem um bloco anti-americano.”

Ao usar a força americana de maneiras novas e controversas, Trump está, sem dúvida, demonstrando o enorme poder que os EUA ainda detêm. Mas ele também pode estar garantindo que, nos próximos anos, seus sucessores tenham significativamente menos poder global à sua disposição.

Com informações de Financial Times*

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Diplomacia à mercê de um único homem https://www.ocafezinho.com/2025/11/02/diplomacia-a-merce-de-um-unico-homem/ https://www.ocafezinho.com/2025/11/02/diplomacia-a-merce-de-um-unico-homem/#respond Sun, 02 Nov 2025 16:30:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220236 Enquanto se proclama pacificador, Trump alterna entre negociações de prestígio e ações militares arbitrárias, deixando o mundo à mercê de sua vontade

Um ano se passou desde a reeleição de Donald Trump, e o panorama da diplomacia global está irreconhecível. Washington, antes sinônimo de previsibilidade — mesmo a tensa previsibilidade da Guerra Fria ou da chamada “Guerra ao Terror” —, hoje se transforma em um território dominado pelo capricho de um único homem. O personalismo se tornou o eixo central da política externa americana, com consequências que reverberam de aliados históricos a rivais declarados.

Como descreveu um veterano da Casa Branca: “Um ano após sua reeleição, a diplomacia está sendo conduzida pelos caprichos pessoais do presidente a um ponto sem precedentes na era moderna.” Para o mundo, a lição é clara e brutal: a única política externa que importa é aquela que alimenta o ego do ocupante do Salão Oval.

Bajulação global

A lógica do “agradar para sobreviver” virou regra internacional. Esta semana, a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, chegou a Washington carregando uma declaração inusitada: indicou Donald Trump para o Prêmio Nobel da Paz. O gesto não é isolado; governos do Camboja, Paquistão e Israel também se empenham em lisonjear o presidente na esperança de evitar represálias.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Sir Keir Starmer usou seu encontro inicial com Trump para anunciar um convite para uma segunda visita de Estado. O gesto foi exaltado como “verdadeiramente histórico” e “sem precedentes”, evidenciando o clima de submissão que agora permeia as relações transatlânticas. Fontes diplomáticas, sob anonimato, descrevem essa bajulação como “indigna”, mas para aliados e parceiros, tornou-se quase uma obrigação dolorosa.

E aqueles que não se dobram? A punição é imediata e severa. A relação entre Estados Unidos e Índia, antes em ascensão estratégica, despencou após Narendra Modi recusar-se a creditar Trump publicamente pelo cessar-fogo entre Índia e Paquistão. A resposta americana foi dura: tarifas de 50% sobre produtos indianos. O Canadá, outro aliado histórico, também sentiu a força do ego presidencial: uma crítica de Ontário às tarifas desencadeou uma retaliação tarifária, mostrando que a soberania nacional virou detalhe irrelevante diante da fúria de Trump.

O método do caos

Apesar do aparente caos, algumas constantes surgem com clareza. Trump é obsessivo com tarifas alfandegárias, convencido de que elas enriquecerão e fortalecerão os Estados Unidos. Ele acredita que seus aliados historicamente exploraram o país, e essa narrativa vitimista justifica a política predatória do “América Primeiro”.

O velho discurso sobre valores americanos e liberdade — caro a presidentes anteriores, mesmo que hipócrita — foi abandonado. Agora, Trump se concentra exclusivamente em força e vitórias, entendidas como investimentos bilionários, acordos comerciais e tratados de paz que ele possa reivindicar pessoalmente.

Ironia ou ambição? Fontes internas sugerem que o desejo de ser reconhecido como pacificador pode refletir um horror genuíno à guerra. Mas outros percebem na busca pelo Prêmio Nobel da Paz uma vontade desesperada de igualar Barack Obama em prestígio internacional. O próprio presidente chegou a ponderar: “Estou ouvindo que não estou indo bem. Estou realmente na base da pirâmide.”

Enquanto a Casa Branca destaca sua atuação em cessar-fogos em Gaza e acordos entre Tailândia e Camboja, a máscara de pacificador rapidamente cai. Trump autorizou ataques aéreos contra o Irã, reivindicando o mérito das ações, e, simultaneamente, envia o porta-aviões USS Gerald R. Ford para o Caribe, ameaçando uma possível intervenção na Venezuela. O imperialismo clássico volta às Américas, sem disfarces.

Tarifas é uma arma de pressão

No Sul Global, as tarifas são o dia a dia da opressão trumpista. Após o chamado “dia da libertação” em 2 de abril, com aumentos globais, a política tarifária se tornou seletiva e opaca: Reino Unido (10%), Japão e União Europeia (15%), Filipinas (19%), África do Sul (30%). Para a China, ameaçada com tarifas de até 100%, o encontro pessoal entre Trump e Xi em Seul resultou em uma redução média para 45% — um “desconto” decidido no aperto de mãos.

A busca pessoal de Trump por um “grande acordo” com Xi Jinping desorganizou a única área com algum consenso em Washington: a contenção da China como grande potência emergente. As mesmas tarifas impostas a aliados na Ásia — Japão, Índia, Taiwan e Coreia do Sul — contrariam diretamente os esforços de coalizão contra Pequim. O resultado é um desastre geopolítico: países temendo a instabilidade americana buscam agora aproximação com a China.

Analistas sugerem que Trump não possui uma doutrina coerente. No entanto, dentro de sua administração, três grupos disputam influência:

  • Os Primacistas: Imperialistas tradicionais que defendem o papel global dos EUA e intervencionismo em todos os continentes, liderados por Marco Rubio e Lindsey Graham.
  • Os Moderadores (Restrainers): Isolacionistas céticos sobre aliados, representados por JD Vance, buscando evitar guerras não lucrativas.
  • Os Priorizadores (“Ásia Primeiro”): Propõem abandonar frentes secundárias e concentrar esforços na contenção da China, com figuras como Elbridge Colby.

Enquanto essas tribos brigam em Washington, o mundo real — de Gaza ao Caribe, das fábricas indianas às Filipinas — arca com as consequências. Um ano após sua reeleição, a “Doutrina Trump” é simplesmente a doutrina do caos, e sua máxima é inequívoca: “não confie na América.”

Leia também: Tarifas e vaidade dominam Washington

Um ano após a reeleição de Donald Trump, a política externa americana se transformou em um teatro de improvisos, onde as decisões estratégicas dependem mais do humor e dos caprichos pessoais do presidente do que de qualquer análise racional de poder global. Como resumiu Jeremy Shapiro, coautor de estudo sobre a administração Trump: “O presidente não se importa com nenhuma dessas escolas de pensamento. Ele é movido por seus próprios interesses pessoais e psicológicos.”

O resultado é um ambiente em que três facções da extrema-direita americana — isolacionistas, primacistas e priorizadores — disputam desesperadamente a atenção presidencial, alinhando suas ambições à sede do presidente por vitórias de curto prazo e publicidade imediata. Cada grupo experimentou tanto triunfos quanto humilhações ao longo do primeiro ano do segundo mandato.

O grupo moderador, liderado pelo vice-presidente JD Vance, buscava uma política pragmática e cínica, incluindo a reaproximação com a Rússia de Vladimir Putin e a redução da ajuda americana à Ucrânia. Em fevereiro, Vance desempenhou papel central no episódio histórico do corte total de ajuda à Ucrânia, forçando os europeus a cobrir o déficit financeiro. Também apoiou a pressão sobre a OTAN para que os países membros aumentassem seus gastos de defesa.

No entanto, a grande aposta de reaproximação com Putin falhou. A cúpula no Alasca, em agosto, decepcionou Trump, que passou a demonstrar uma postura mais amistosa com Zelensky e até endureceu sanções contra Moscou. No Oriente Médio, a decisão de bombardear o Irã provocou cisão interna, com figuras influentes do MAGA, como Tucker Carlson e Marjorie Taylor Greene, criticando publicamente a medida. Vance, em um chat interno, não escondeu a frustração: “Acho que estamos cometendo um erro. Detesto ter que socorrer a Europa novamente.”

Para os primacistas, como Marco Rubio e Lindsey Graham, a ação contra o Irã foi celebrada, mas a decisão de Trump de encerrar a campanha abruptamente decepcionou a facção. Agora, Rubio foca na Venezuela, promovendo uma política agressiva contra Maduro, alinhando a questão a preocupações domésticas de Trump, como drogas e imigração, na esperança de conquistar mais uma vitória “televisionável”.

Apesar de divergências internas, esta facção conseguiu manter Trump na OTAN, garantindo que os aliados europeus aumentassem gastos, um compromisso que equilibra as tensões entre isolacionistas e primacistas.

O grupo “Ásia Primeiro”, liderado por Elbridge Colby, teve seu desempenho mais frágil. O objetivo de reduzir o foco europeu e do Oriente Médio para conter a China enfrenta resistência. Rumores indicam que o Pentágono está revisando sua estratégia, priorizando o hemisfério ocidental, o que enfraquece a visão de Colby. Qualquer acordo pessoal entre Trump e Xi que prejudique Taiwan representaria um golpe final à influência deste grupo e aos primacistas.

Imperialismo pessoal

O próprio Trump frequentemente ignora todas as tribos e seus objetivos estratégicos. A tentativa de anexar a Groenlândia ou sugerir que o Canadá se tornasse o 51º estado revela um impulso imperialista pessoal, caótico e imprevisível. Até os primacistas de Rubio consideraram essas ideias extremas, e atualmente esforços discretos buscam minimizar tais iniciativas. No entanto, a combinação de insultos a aliados, tarifas arbitrárias e incentivo à extrema-direita europeia terá consequências de longo prazo.

A máquina de Trump garante “vitórias” visíveis — cessar-fogos, OTAN fortalecida e acordos comerciais favoráveis —, mas Shapiro alerta: “Trump está trocando vitórias de curto prazo por problemas de longo prazo. Ele está desperdiçando 80 anos de capital diplomático americano.”

Esse capital foi construído durante décadas, sustentando o sistema de comércio global e garantindo segurança a aliados estratégicos, consolidando a influência americana no Japão, Reino Unido, Canadá e além. Hoje, a disposição de Trump em usar essa influência de forma arbitrária envia um recado devastador: confiar na América tornou-se arriscado.

A reação de países fora da órbita direta dos EUA é ainda mais assertiva. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou com firmeza as tentativas de Washington de interferir em processos internos envolvendo Bolsonaro. Na Índia, Modi tem ignorado chamadas de Trump após a disputa tarifária.

Como observa um artigo recente da Foreign Affairs, os EUA estão alienando aliados indecisos, enquanto blocos como os BRICS ganham coesão anti-americana. Trump demonstra o poder residual dos EUA, mas simultaneamente pavimenta um futuro em que o país terá menor capacidade de influência global.

Ao fim do primeiro ano do segundo mandato, a “Doutrina Trump” mostra-se cada vez mais clara: o mundo vive sob o caos do personalismo americano, onde a máxima que governa a política externa é simples e implacável — “não confie na América.”

Com informações de Financial Times*

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Rússia exige saída da OTAN e Trump pode ceder https://www.ocafezinho.com/2025/02/20/russia-exige-saida-da-otan-e-trump-pode-ceder/ https://www.ocafezinho.com/2025/02/20/russia-exige-saida-da-otan-e-trump-pode-ceder/#comments Thu, 20 Feb 2025 15:20:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=202203 1 Comentário 🔥]]> Putin quer retirada da OTAN do leste europeu nas negociações de paz, enquanto aliados temem que Trump ceda e permita a restauração da influência soviética

A Rússia usou a primeira rodada de negociações com os EUA sobre o fim da guerra na Ucrânia para exigir a retirada das forças da Otan do flanco leste da aliança, provocando preocupação nas capitais europeias de que a administração Trump pudesse ceder para selar um acordo de paz. Segundo o Financial Times, Cristian Diaconescu, chefe de gabinete e assessor de defesa e segurança nacional do presidente romeno, disse na quarta-feira que a delegação dos EUA havia rejeitado a exigência de Moscou, mas que não havia garantias de que Washington não acabaria fazendo essa concessão a Vladimir Putin.

“Até onde eu entendo, a situação pode mudar de hora em hora ou de dia para dia”, disse Diaconescu à Antena3, referindo-se às duras críticas de Donald Trump ao líder ucraniano e às concessões feitas à Rússia mesmo antes do início das negociações.

Diaconescu enfatizou que a delegação russa nas conversas em Riad no início desta semana “não conseguiu convencer os americanos” sobre a retirada da Otan e que as próximas visitas dos líderes do Reino Unido e da França a Washington buscariam persuadir Trump a não ceder a essa demanda.

Veículos militares poloneses, eslovenos e americanos são vistos juntos durante um exercício militar em 2023 / Artur Widak / Reuters

No entanto, as concessões da administração Trump nos últimos dias — desde descartar a adesão da Ucrânia à Otan até prometer normalizar as relações entre EUA e Rússia — estão deixando governos dos estados do flanco leste da aliança nervosos quanto às intenções do presidente americano. Um alto funcionário da região disse ao Financial Times que não tinha certeza se sua mensagem estava sendo ouvida.

“Fizemos extensos briefings em Washington em vários níveis, [mas] não sei o que está chegando a Trump. Então, o risco e a preocupação permanecem de que a Rússia engane Washington em algo por meio de pressão sobre a Ucrânia.”

O presidente russo há muito busca restaurar a esfera de influência de seu país no leste europeu seguindo os moldes do acordo alcançado pelos EUA, Reino Unido e União Soviética no final da Segunda Guerra Mundial durante uma conferência de paz em Yalta.

A retirada das forças da Otan dos antigos países soviéticos e do bloco comunista que ingressaram na aliança no final da década de 1990 foi uma das principais exigências de Putin aos EUA antes de lançar seu ataque total à Ucrânia em 2022.

Trump alarmou ainda mais os aliados ao repetir a alegação de Putin de que a tentativa da Ucrânia de aderir à Otan foi a razão para sua invasão.

O presidente dos EUA também descreveu nesta semana o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy como um “ditador sem eleições” — avisando-o que ele poderia perder seu país em breve se não aceitar um acordo de paz — e excluiu as capitais europeias das primeiras negociações de paz.

O presidente romeno Ilie Bolojan se encontrou com seu homólogo francês Emmanuel Macron em Paris na quarta-feira e saiu convicto de que os líderes europeus enfatizarão, em seus contatos com os EUA, a necessidade de estarem envolvidos em quaisquer arranjos de segurança que afetem a região, disse Diaconescu.

A situação atual é “extremamente complicada e séria”, acrescentou Diaconescu. “Pode apostar que vamos lutar até o último minuto para que [isso] não aconteça.” Ele alertou as gerações mais jovens da Europa, que nunca experimentaram a vida atrás da Cortina de Ferro, de que este momento poderia representar um retorno aos “portões do inferno”. “Filas por gasolina, pobreza, mulheres morrendo em hospitais, pessoas sem aquecimento… duas horas de louvações na TV ao líder supremo. É isso que Yalta significa.”

Sandu-Valentin Mateiu, analista de defesa romeno, ex-comandante naval e oficial de inteligência, disse que a Europa estava novamente em um ponto de inflexão histórico.

“A Europa conhece a lição de 1938”, afirmou, referindo-se ao Pacto de Munique, que entregou parte da Tchecoslováquia a Adolf Hitler, mas falhou em evitar a Segunda Guerra Mundial. O continente não permitirá outro enfraquecimento de seus arranjos de segurança, disse Mateiu. “A Europa vai resistir”, acrescentou, caso os EUA retirem suas garantias de segurança, o que seria “o pior cenário”.

Vladimir Putin quer restaurar a esfera de influência da Rússia na Europa Oriental, nos moldes do acordo alcançado pelos EUA, Reino Unido e União Soviética no final da Segunda Guerra Mundial, em uma conferência de paz em Yalta / Heritage Images/Getty Images

“Temos a velha ideia russa de remover os EUA da arquitetura de segurança europeia, deixando os europeus orientais à disposição [da Rússia] — sua esfera de influência”, disse Mateiu. “Até agora, a resposta dos EUA foi não — mas estou convencido de que a Rússia continuará. Essa era sua estratégia, sua principal política após Putin assumir o poder.”

O governo em Varsóvia insiste até agora que não tem razão para temer que Trump abandone a Polônia, enquanto incentiva seus parceiros europeus a responder ao chamado de Trump para aumentar os gastos com defesa do continente.

O ministro da Defesa, Władysław Kosiniak-Kamysz, disse na quarta-feira que “a retirada das tropas americanas é um cenário que a Polônia não está considerando”.

Mas a condução das negociações com a Rússia por Trump abalou a política polonesa antes das eleições presidenciais de maio e está deixando inquietos políticos de direita que há muito se dizem adversários ferrenhos da Rússia e fortes aliados de Washington.

“Isso agora é mais Yalta para a Ucrânia do que para a Polônia, mas sabemos que, se Trump pode vender a Ucrânia para a Rússia, ele poderia fazer o mesmo com os Estados bálticos ou a Polônia, infelizmente”, disse Bartosz Rydliński, professor assistente de política na Universidade Cardinal Stefan Wyszyński em Varsóvia.

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