dívida pública - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/divida-publica/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Wed, 01 Jul 2026 09:20:15 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png dívida pública - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/divida-publica/ 32 32 Lula formaliza adesão do Rio a programa que reduz em mais de 90% a parcela da dívida com a União https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/lula-formaliza-adesao-do-rio-a-programa-que-reduz-em-mais-de-90-a-parcela-da-divida-com-a-uniao/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/lula-formaliza-adesao-do-rio-a-programa-que-reduz-em-mais-de-90-a-parcela-da-divida-com-a-uniao/#respond Tue, 23 Jun 2026 11:44:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/lula-formaliza-adesao-do-rio-a-programa-que-reduz-em-mais-de-90-a-parcela-da-divida-com-a-uniao/ A adesão do estado do Rio de janeiro ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) foi formalizada nesta segunda-feira, 22. A iniciativa, que havia sido solicitada pelo governo estadual em dezembro de 2025 e autorizada pelo presidente no início de maio, representa um alívio financeiro imediato para um dos entes federativos mais endividados do país.

Segundo dados do Tesouro Nacional, o estoque total da dívida do Rio com a União supera a marca de R$ 237 bilhões. Com a renegociação, a prestação mensal desaba de cerca de R$ 1,3 bilhão para aproximadamente R$ 110 milhões, conforme destacou o próprio Lula no evento. O Palácio do Planalto detalhou que o valor ficará em torno de R$ 113 milhões nos primeiros meses, com um cronograma de aumento gradual ao longo dos próximos cinco anos.

O presidente fez questão de apontar a magnitude da folga orçamentária conquistada pelo estado. “O estado do Rio de janeiro pagava uma dívida de R$ 1,3 bilhão por mês e vai pagar agora R$ 110 milhões. O que é importante é que vai sobrar mais dinheiro para o governador administrar o Rio de janeiro”, afirmou, em declaração repercutida pelo portal Metrópoles.

A solenidade marca um momento político singular para o Rio, que vive uma situação de dupla vacância no Executivo estadual. Desde 23 de março de 2026, o comando do Palácio Guanabara está nas mãos do desembargador Ricardo Couto, que assumiu o cargo de governador em exercício. Lula dirigiu-se diretamente ao magistrado, ressaltando a responsabilidade de gerir os novos recursos de maneira eficiente.

“Sobrar dinheiro sem que você decida corretamente onde irá colocá-lo, ele pode entrar no ralo comum das coisas improdutivas que, muitos de nós que estamos no poder público, sabemos que existe”, ponderou o presidente. Na sequência, expressou confiança na gestão interina: “Eu tenho certeza, governador, que você não vai jogar fora essa chance de mostrar ao povo do Rio de janeiro a que você veio”.

A reestruturação do passivo fluminense se insere em uma estratégia mais ampla do governo federal de saneamento das finanças estaduais. O Propag, ao refinanciar os débitos, permite que os estados recuperem capacidade de investimento em áreas críticas como segurança, saúde e infraestrutura, sem a asfixia provocada pelo serviço da dívida com a União. No caso do Rio, o alívio mensal de quase R$ 1,2 bilhão representa uma virada de chave para o caixa estadual.

Lula também contextualizou a crise financeira fluminense como um problema estrutural e histórico. “É um estado que não tem problemas de hoje. É um estado que tem problemas há muito tempo, sobretudo financeiros”, declarou. A fala reconhece o endividamento crônico que limitou sucessivas administrações e que agora encontra uma janela de solução por meio da articulação política entre o governo federal e o Executivo estadual.

A agenda do presidente no Rio de janeiro segue com foco em infraestrutura. Na manhã de terça-feira, está prevista a inauguração da primeira etapa das obras da nova Serra das Araras, na Rodovia Presidente Dutra. O trecho, de 4 quilômetros de extensão no sentido São Paulo, contará com quatro faixas de rolamento, acostamento, iluminação completa e oito novos viadutos, melhorando a segurança e a fluidez de um dos principais corredores logísticos do país.

Com informações de Metrópoles.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/lula-formaliza-adesao-do-rio-a-programa-que-reduz-em-mais-de-90-a-parcela-da-divida-com-a-uniao/feed/ 0
Correios ampliam prejuízo para R$ 3,2 bilhões no 1º trimestre https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/correios-ampliam-prejuizo-para-r-32-bilhoes-no-1o-trimestre/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/correios-ampliam-prejuizo-para-r-32-bilhoes-no-1o-trimestre/#respond Tue, 02 Jun 2026 08:26:40 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/correios-ampliam-prejuizo-para-r-32-bilhoes-no-1o-trimestre/ Os Correios fecharam o primeiro trimestre de 2026 com prejuízo de R$ 3,16 bilhões, resultado 82,3% maior do que o registrado no mesmo período de 2025, quando as perdas somaram R$ 1,72 bilhão. O balanço divulgado pela estatal mostra que a empresa segue enfrentando dificuldades financeiras mesmo após o início de um plano de reestruturação.

O resultado negativo ocorre após os Correios acumularem prejuízo recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025, o pior desempenho da história da companhia.

Os principais números do balanço:

  • Prejuízo líquido: R$ 3,16 bilhões no 1º trimestre de 2026;
  • Prejuízo no mesmo período de 2025: R$ 1,72 bilhão;
  • Aumento das perdas: 82,3%;
  • Prejuízo acumulado em 2025: R$ 8,5 bilhões;
  • Receita bruta: R$ 4,04 bilhões, queda de 2,2% em relação ao 1º trimestre de 2025;
  • Despesas financeiras: R$ 985 milhões, alta de 248%;
  • Provisão para ações judiciais: R$ 1,06 bilhão;
  • Patrimônio líquido negativo: R$ 16,2 bilhões.

Segundo a estatal, o prejuízo foi provocado por uma combinação de queda nas receitas, aumento das despesas financeiras e revisão das provisões para processos judiciais. O principal impacto extraordinário veio do reconhecimento de uma provisão de R$ 1,06 bilhão relacionada a ações trabalhistas. Na prática, trata-se de uma reserva contábil criada para cobrir possíveis perdas em processos que ainda estão em tramitação na Justiça. A reclassificação desses passivos já vinha sendo defendida por órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU). Com a atualização, o valor total reservado para contingências judiciais subiu de R$ 3,6 bilhões no fim de 2025 para R$ 4,66 bilhões em março deste ano.

A receita dos Correios continuou em queda nos primeiros meses do ano. O desempenho por segmento:

  • Encomendas: R$ 2,2 bilhões (-5,5% em relação ao 1º trimestre de 2025);
  • Postagens internacionais: R$ 156 milhões (-60,3%);
  • Mensagens (cartas e documentos): R$ 1,2 bilhão (11,4%);
  • Outras receitas: R$ 465 milhões (48%).

A redução das receitas ocorre em meio ao avanço da concorrência no setor de logística e à queda da demanda por serviços postais tradicionais. Apesar do resultado negativo, a empresa conseguiu reduzir parte dos custos operacionais em relação ao primeiro trimestre de 2025. Os custos de produtos e serviços caíram de R$ 4,01 bilhões para R$ 3,7 bilhões (-7,6%) e as despesas com pessoal passaram de R$ 2,8 bilhões para R$ 2,7 bilhões (-4,1%). Segundo os Correios, o Programa de Demissão Voluntária (PDV), implantado em 2024, contribuiu para a diminuição dos gastos com pessoal.

As despesas financeiras foram um dos principais fatores de deterioração do resultado. O valor saltou de R$ 283 milhões no primeiro trimestre de 2025 para R$ 985 milhões no mesmo período deste ano. O aumento está relacionado aos financiamentos contratados pela estatal para reforçar o caixa e sustentar o plano de recuperação financeira.

Outro indicador que apresentou forte crescimento foi o das indenizações pagas a clientes por atraso na entrega de encomendas. Em março de 2025, o valor foi de R$ 2 milhões; em março de 2026, saltou para R$ 30,5 milhões. O valor é mais de 15 vezes superior ao registrado um ano antes e reflete os problemas operacionais enfrentados pela empresa, especialmente após a greve de funcionários ocorrida no fim de 2025.

Sob a presidência de Emmanoel Rondon desde setembro de 2025, os Correios executam um plano de reestruturação para tentar recuperar o equilíbrio financeiro. As medidas incluem redução de despesas administrativas, revisão de contratos, venda de imóveis sem uso operacional, modernização tecnológica, ajustes logísticos e busca por novas fontes de receita. Em 2025, a estatal também contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões com garantia da União para regularizar passivos e financiar parte da reorganização financeira.

Embora tenha registrado lucro bruto de R$ 153,4 milhões – indicador que considera apenas receitas e custos diretos da operação –, os Correios continuam pressionados por despesas administrativas, financeiras e judiciais. Diferentemente do lucro líquido, o lucro bruto exclui impostos e despesas fixas, como aluguel, material de escritório, publicidade e salários administrativos. A meta da companhia é concluir o processo de reestruturação e voltar a apresentar resultados positivos a partir de 2027. Até lá, o desafio será reduzir o ritmo de crescimento das perdas e recuperar receitas em um mercado cada vez mais competitivo.

Fonte: Agência Brasil

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/correios-ampliam-prejuizo-para-r-32-bilhoes-no-1o-trimestre/feed/ 0
Dívidas em recorde assombram as famílias brasileiras https://www.ocafezinho.com/2026/05/29/dividas-em-recorde-assombram-as-familias-brasileiras/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/29/dividas-em-recorde-assombram-as-familias-brasileiras/#respond Sat, 30 May 2026 01:23:13 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/29/dividas-em-recorde-assombram-as-familias-brasileiras/ O Brasil atingiu, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo o levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Esse índice é impulsionado pela alta taxa de juros, pelo crescimento do uso do crédito rotativo, pela pressão do custo de vida e pelo avanço das apostas online (bets) sobre o orçamento doméstico. O aumento do comprometimento da renda das famílias também acendeu um alerta sobre os impactos econômicos e sociais do superendividamento no país.

Diante do cenário, especialistas apontam que o problema vai além do consumo e já afeta diretamente o crescimento econômico, o mercado de trabalho e a capacidade de investimento das famílias brasileiras. Ao mesmo tempo, o Congresso Nacional discute medidas para ampliar a proteção aos consumidores endividados e fortalecer programas de renegociação, como o Novo Desenrola Brasil, relançado pelo governo federal em maio deste ano (MP 1.355/2026).

Para o senador Flávio Arns (PSB-PR), propostas estruturais são necessárias para impedir que milhões de brasileiros permaneçam presos em ciclos permanentes de inadimplência.

— Em um país com os juros mais altos do mundo, precisamos avançar em mecanismos permanentes de proteção às famílias e em políticas de educação financeira para evitar o efeito bola de neve das dívidas.

Por outro lado, o senador Rogério Marinho (PL-RN) entende que programas de renegociação de dívidas não reduzem a inadimplência nem enfrentam o problema estrutural do endividamento da população.

— [O primeiro Desenrola] levava em consideração a possibilidade de haver uma troca de dívidas antigas por dívidas novas, com taxas de juros melhoradas. O resultado é que, dois anos após, o calote do que foi renegociado cresceu 15%.

Dívidas e inadimplência

O mês de abril de 2026 registrou um marco crítico para as finanças domésticas no Brasil, atingindo o recorde histórico de 80,9% de famílias endividadas. Este foi o quarto mês consecutivo de alta na série da Peic, superando significativamente os patamares registrados no mesmo período entre 2022, quando a pesquisa passou a fazer o boletim mensal, e 2025.

Embora o número total de endividados tenha crescido, a inadimplência apresentou uma relativa estabilidade na margem, com 29,7% das famílias possuindo contas em atraso, comparado aos 29,1% de abril do ano anterior. No entanto, um dado preocupante é que 12,3% dessas famílias declararam que não terão condições de quitar suas dívidas.

Custo do crédito

O cenário de endividamento recorde registrado no Brasil em abril de 2026 é acompanhado por um custo de crédito elevado. As diferentes modalidades de taxas de juros revelam a profundidade da pressão sobre o orçamento doméstico.

De acordo com os dados do Banco Central, o cartão de crédito rotativo consolida-se como a linha mais dura do mercado, com taxas que podem atingir entre 428% e 440,5% ao ano. O cartão é o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias e compromete, sozinho, 54% da renda familiar.

Segundo a economista Catarina Carneiro, da CNC, o peso do cartão de crédito acaba reduzindo diretamente a capacidade de consumo das famílias.

— Essa grande parcela de dívidas acumulada no cartão, a modalidade com a maior taxa de juros do mercado, freia a intenção de consumo para os próximos meses, fazendo com que as famílias analisem com cautela suas condições de arcar com os pagamentos futuros e consumam menos do que fariam com crédito menos custoso — explica.

Outras modalidades de crédito voltadas ao consumo também apresentam patamares alarmantes: o cartão parcelado registra juros de 181,2% ao ano, enquanto o cheque especial e o crédito pessoal não consignado mantêm-se em níveis de aproximadamente 130% e 106,6%, respectivamente. Mesmo a taxa de crédito livre médio para pessoas físicas, que serve como um termômetro geral para o consumidor, situa-se no patamar de 59,4% ao ano.

Para o economista Rodrigo Saraiva Marinho, CEO do Instituto Livre Mercado — organização que acompanha debates sobre economia, crédito e ambiente de negócios —, o problema dos juros elevados começa no próprio desequilíbrio das contas públicas brasileiras.

— Não há como falar sobre esse tema sem falar no nível de endividamento do próprio Estado brasileiro. O Estado é muito endividado e isso faz com que os juros sejam muito altos. O governo não consegue se sustentar com aquilo que arrecada de tributos e precisa de empréstimos para complementar seus gastos – afirma.

Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, afirma que os juros e a dívida pública se alimentam mutuamente, tornando a solução do problema cada vez mais inexequível.

— Os juros altos praticados historicamente no país constituem o principal fator de crescimento da dívida pública. O volume acumulado de juros nominais da dívida supera o estoque da dívida líquida do setor público, ou seja, temos uma dívida de juros sobre juros. O Tribunal de Contas da União já demonstrou em audiência pública ao Senado Federal que nenhuma despesa orçamentária classificada como investimentos foi custeada com recursos advindos da venda de títulos da dívida pública. Isso significa que a dívida pública tem servido apenas para financiar os gastos financeiros com a própria dívida, principalmente os juros exorbitantes.

Essa estrutura de juros é sustentada por fatores macroeconômicos persistentes, como o endividamento do país e o valor comparativo da moeda com o dólar, e pela taxa Selic (taxa básica definida pelo Banco Central). Para Marcos Melo, professor do IBMEC Brasília e mestre em finanças, a taxa básica de juros é hoje um dos principais fatores por trás do avanço do endividamento no país.

— A taxa básica Selic no Brasil é de 14,5% ao ano, uma taxa muito alta. Ela é uma referência para todas as outras taxas de juros no Brasil. Quando ela está muito elevada, os bancos passam a emprestar a taxas ainda maiores, o que prejudica diretamente as famílias e empresas.

A referência da Selic eleva o custo do crédito de forma generalizada e coloca o Brasil com a segunda maior taxa real de juros do mundo (9,3%), atrás apenas da Rússia.

Renda comprometida

O comprometimento da renda das famílias brasileiras com o pagamento de dívidas apresenta uma trajetória de crescimento consistente, e também atinge recordes em 2026. Essa métrica representa a relação entre os pagamentos esperados para o serviço da dívida e a renda mensal disponível.

Segundo dados do Banco Central, a fatia de renda das famílias que está comprometida com dívidas saltou de aproximadamente 22% em 2019 para 29,7% no fim de 2025. Isso significa que quase um terço do orçamento doméstico já está carimbado para as dívidas antes mesmo de outras despesas básicas serem pagas.

O avanço do comprometimento da renda também afeta diretamente a atividade econômica, especialmente o comércio e os serviços. Com menos renda disponível, as famílias reduzem gastos considerados não essenciais. O professor Marcos Melo avalia que os juros elevados acabam afetando toda a dinâmica econômica do país.

— Além da situação das famílias, a taxa de juros tão alta significa menor oferta de emprego, prejudica a renda do trabalhador e permite uma disfunção no mercado de trabalho — afirma.

Além da pressão dos juros, novos fatores estruturais — como o impacto das apostas online (bets) no consumo e a alta nos custos de vida com alimentação e moradia — têm forçado as famílias, especialmente as de baixa renda, a utilizarem o crédito como complemento salarial. Como resultado, o endividamento total das famílias em relação à renda acumulada atingiu o recorde histórico de 49,9%, sinalizando que metade de tudo o que as famílias recebem e produzem em um ano já está comprometido com dívidas.

Fatores internacionais, como conflitos e oscilações no mercado global, também impactam diretamente preços e consumo no Brasil e podem pressionar ainda mais a economia brasileira e afetar diretamente o orçamento das famílias.

Novo Desenrola

Programas de refinanciamento de dívidas e ações de assistência social são ferramentas para ajudar as pessoas a organizarem suas vidas financeiras quando as contas saem do controle. O principal exemplo atual é o Novo Desenrola Brasil (Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias), lançado em maio de 2026, que funciona como um grande mutirão para que brasileiros, estudantes e até pequenas empresas consigam negociar o que devem com condições facilitadas.

A iniciativa foi instituída pela Medida Provisória (MP) 1.355/2026, publicada em 4 de maio e já em vigor. A MP criou o Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias – Novo Desenrola Brasil, vinculado ao Ministério da Fazenda, com o objetivo de promover a renegociação e regularização de dívidas em atraso junto ao sistema financeiro.

Segundo o senador Flávio Arns, programas como o Novo Desenrola possuem impacto social imediato relevante, especialmente entre as famílias de baixa renda, mas são apenas o começo.

— Seus efeitos ainda são paliativos. São necessárias medidas estruturais de médio e longo prazo, voltadas para geração de emprego, aumento da renda, acesso ao crédito mais barato e educação financeira da população.

O senador Rogério Marinho critica escolhas feitas na formatação do Novo Desenrola.

— O governo nos oferece velhas fórmulas, as mesmas práticas, e nós já sabemos o resultado. Vão usar recursos de saque do FGTS para pagamento de dívidas, ou seja, segregar o recurso para fortalecer o sistema financeiro brasileiro.

Para que o auxílio chegue a quem precisa, o programa foi dividido em diferentes categorias:

O Desenrola Famílias é focado em pessoas que ganham até cinco salários mínimos e possuem dívidas atrasadas de cartão de crédito, cheque especial ou empréstimos.

O Desenrola Fies ajuda estudantes a regularizarem seus financiamentos educativos, oferecendo descontos que podem chegar a 99% para quem está há muito tempo sem conseguir pagar.

Existem também versões específicas para ajudar pequenos negócios e produtores rurais a recuperarem seu crédito.

As vantagens oferecidas por esses programas são pensadas para que o pagamento caiba no bolso do cidadão. Entre os principais benefícios estão:

Descontos generosos: As dívidas podem ser reduzidas em até 90% do valor total.

Juros mais baixos: O programa define um teto de juros de 1,99% ao mês, taxa muito menor do que a do cartão de crédito rotativo, que pode passar de 400% ao ano.

Nome limpo mais rápido: Para dívidas de até R$ 100, o nome do consumidor é retirado dos órgãos de proteção ao crédito (como SPC e Serasa) logo no início do programa.

Uso do FGTS: O trabalhador pode usar uma parte do seu saldo do FGTS para ajudar a pagar a dívida negociada.

Além de facilitar o pagamento, esses programas também trazem medidas de proteção social. Uma regra importante de 2026 é que quem participar da renegociação terá o seu CPF bloqueado para realizar apostas online (bets) por 12 meses. O objetivo é garantir que o dinheiro economizado com o desconto da dívida seja usado para o bem-estar da família e não gasto em atividades de alto risco.

A MP do Novo Desenrola tem previsão de duração de 90 dias, e ainda precisa ser analisada e aprovada pelas duas Casas do Congresso Nacional para se tornar lei definitiva.

Peso das bets

O cenário de recorde histórico no endividamento das famílias brasileiras é sustentado por uma combinação de fatores macroeconômicos persistentes e novas causas estruturais. No centro desse problema está a manutenção da taxa Selic em patamares elevados, recentemente ajustada para 14,5% a 14,75% ao ano, o que encarece o crédito de forma generalizada. Para o professor Marcos Melo, do IBMEC, a redução sustentável dos juros depende diretamente do equilíbrio fiscal do país.

— É preciso um trabalho muito grande de maior responsabilidade fiscal, gastar menos e gastar melhor, para que num futuro mais adiante seja possível diminuir a taxa básica de juros. Só assim os problemas relacionados ao endividamento das famílias, das empresas e do crescimento do país acabam sendo resolvidos ao longo do tempo — avalia.

Esse custo elevado do dinheiro se agrava pela alta concentração bancária, que permite aos cinco maiores bancos do país manterem um spread bancário de 34,6 pontos percentuais. O spread representa a diferença entre o custo que os bancos pagam para captar dinheiro e os juros cobrados dos clientes nos empréstimos. Esse valor é drasticamente superior à média global de 6 p.p., calculada pelo Banco Mundial.

Como reflexo direto dessas taxas, o uso do cartão de crédito cria uma “bola de neve” financeira que atinge severamente as famílias de baixa renda (até 3 salários mínimos), que muitas vezes recorrem ao crédito para cobrir despesas como alimentação, saúde e moradia.

Somando-se aos fatores tradicionais, as apostas online (bets) surgiram como uma nova e relevante causa estrutural entre 2024 e 2025, passando a ser o principal fator associado ao endividamento em certas faixas da população e superando o impacto do acesso ao crédito comum. De acordo com a economista Catarina Carneiro, da CNC, embora os juros altos continuem sendo o principal fator de inadimplência, as apostas passaram a agravar significativamente o problema.

— As apostas online deixaram de ser um gasto de entretenimento residual e passaram a atuar como um dreno severo na restrição orçamentária das famílias brasileiras, afetando de forma desproporcional as classes de menor renda.

Um estudo econométrico realizado pela CNC estima que, desde a regulamentação das plataformas em 2023, cerca de R$ 30 bilhões por mês deixaram de circular no consumo tradicional para abastecer sites de apostas.

Propostas do Senado

Para tentar mitigar esse ciclo, tramitam no Poder Legislativo propostas como o PL 2.944/2022, que trata do superendividamento de consumidores. O projeto redefine o chamado “mínimo existencial”, que é a quantia que não pode ser comprometida na renegociação de dívidas e na concessão de crédito. Atualmente, um decreto estabelece o mínimo existencial no valor de 25% do salário mínimo.

Autor do projeto, o ex-senador Mecias de Jesus (RR), argumenta que o crescimento do endividamento das famílias brasileiras exige mecanismos capazes de impedir que consumidores comprometam recursos indispensáveis à própria sobrevivência para conseguir quitar dívidas bancárias. Para ele, um valor fixo — e tão reduzido — não atende a esse objetivo.

“O valor estabelecido foi considerado por especialistas em direito do consumidor muito baixo para o pagamento de despesas básicas, o que compromete a efetividade da lei e as condições de sobrevivência dos brasileiros superendividados. O conceito não deveria se basear em um critério fixo, mas sim em um índice de comprometimento de renda a ser aplicado caso a caso. Esse modelo levaria em conta a realidade de cada consumidor individualmente”, escreveu Mecias na justificativa para o projeto.

O projeto já foi aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e aguarda decisão final na Comissão de Fiscalização e Controle (CTFC).

Para o senador Flávio Arns, que participou da aprovação do texto na CAS, a proposta é necessária diante do avanço do superendividamento no país. O senador também defende o fortalecimento de políticas públicas de educação financeira como forma de prevenção ao descontrole das finanças pessoais.

— O Congresso discute políticas de educação financeira, inclusive projetos para torná-la obrigatória na educação básica e também no ensino superior. A lógica dessas propostas é preventiva: formar hábitos de consumo, poupança e uso do crédito antes que o endividamento se torne estrutural.

Outra iniciativa é o PL 2.356, de 2024, do senador Jayme Campos (União-MT), que incorpora a educação financeira ao currículo de todos os níveis da educação básica. O projeto já foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e está na Comissão de Educação (CE).

“A escola não cumprirá sua missão civilizadora se for incapaz de formar cidadãos preparados para se inserir na vida produtiva de forma empreendedora e com competências financeiras”, argumenta ele na justificativa.

Fonte: Agência Senado

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/05/29/dividas-em-recorde-assombram-as-familias-brasileiras/feed/ 0
Tcu alerta para risco fiscal em socorro bilionário aos Correios https://www.ocafezinho.com/2026/05/27/tcu-alerta-para-risco-fiscal-em-socorro-bilionario-aos-correios/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/27/tcu-alerta-para-risco-fiscal-em-socorro-bilionario-aos-correios/#respond Thu, 28 May 2026 01:41:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/27/tcu-alerta-para-risco-fiscal-em-socorro-bilionario-aos-correios/
Fachada do prédio dos Correios com bandeira brasileira ao lado, em dia claro. (Foto: cartacapital.com.br)

O Tribunal de Contas da União (TCU) alertou o governo federal sobre riscos no plano de reestruturação financeira dos Correios. A decisão foi tomada em julgamento de processos relacionados ao empréstimo de R$ 12 bilhões contratado pela estatal com garantia da União.

Segundo reportagem da Carta Capital, o TCU apontou que o plano de recuperação foi aprovado sem análises técnicas suficientes para medir os riscos da operação. O relator do caso, ministro Augusto Nardes, afirmou que o governo aceitou projeções financeiras da estatal sem avaliação detalhada sobre a viabilidade das metas.

Órgãos como o Tesouro Nacional, o Ministério da Fazenda e a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest) fizeram análises consideradas superficiais pelo tribunal. O TCU alertou que isso pode representar descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, que exige planejamento e transparência em operações que afetem as contas públicas.

O empréstimo de R$ 12 bilhões foi autorizado para tentar recuperar financeiramente os Correios, que aparecem na lista de alto risco do TCU. Além da operação de crédito, o contrato prevê novos aportes de recursos, e o governo precisará garantir mais R$ 6 bilhões até 2027.

Os ministros alertaram que o risco não se restringe aos Correios, podendo atingir diretamente as contas públicas. A União entrou como garantidora da dívida, e o Tesouro Nacional pode ser acionado pelos bancos credores em caso de inadimplência.

O TCU também apontou que o governo não avaliou adequadamente a capacidade de pagamento dos Correios antes de autorizar a garantia federal. O tribunal destacou demora na ação governamental diante da crise financeira da estatal, mesmo após alertas anteriores.

A Corte não anulou o plano de reestruturação, mas determinou que o governo crie mecanismos de monitoramento em 120 dias. Os Correios deverão apresentar relatórios periódicos detalhados sobre o andamento das medidas de recuperação e indicadores de desempenho.

O tribunal abriu processo separado para investigar possíveis responsabilidades de servidores públicos envolvidos na aprovação do plano. A análise poderá avaliar falhas técnicas ou irregularidades na condução do processo.

Os Correios enfrentam dificuldades financeiras acumuladas nos últimos anos, com passivos elevados e problemas contábeis. O TCU destacou que a empresa continua classificada como não dependente, mesmo precisando de empréstimos garantidos pelo governo federal.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/05/27/tcu-alerta-para-risco-fiscal-em-socorro-bilionario-aos-correios/feed/ 0
Rendimento per capita atinge recorde, mas endividamento já alcança 80% das famílias brasileiras https://www.ocafezinho.com/2026/05/21/rendimento-per-capita-atinge-recorde-mas-endividamento-ja-alcanca-80-das-familias-brasileiras/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/21/rendimento-per-capita-atinge-recorde-mas-endividamento-ja-alcanca-80-das-familias-brasileiras/#respond Thu, 21 May 2026 11:21:57 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/21/rendimento-per-capita-atinge-recorde-mas-endividamento-ja-alcanca-80-das-familias-brasileiras/ Gabriel Albuquerque*

Em 2024, o rendimento mensal real per capita dos domicílios brasileiros chegou ao maior valor da série histórica do módulo “rendimento de todas as fontes”, da PNAD Contínua, que foi iniciada em 2012. O índice chegou a R$ 2.020, com alta de 4,7% em relação a 2023 e de 19,1% quando comparado aos R$ 1.696 de 2012, ano inicial da série histórica.

Contudo, dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que 80% das famílias brasileiras possuem alguma dívida, o que levanta questionamentos sobre possíveis relações entre os dois dados. Rodrigo De Losso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, explica as possíveis razões para o aumento do rendimento.

“Nós estamos com o mercado de trabalho um pouco aquecido, há um estímulo de gasto do governo que está influenciando o mercado. Ao mesmo tempo, nós temos uma valorização do real e uma desvalorização do dólar, que está mantendo a inflação relativamente controlada, ainda que subindo acima desse rendimento. A oferta de trabalho aumentou, a inflação está controlada, as pessoas estão conseguindo comprar e o rendimento aumentou. Com esse aumento do rendimento é importante destacar que tem uma camada da população que está dizendo que o rendimento aumentou, mas que os juros estão altos também. A camada mais alta da pirâmide está se beneficiando desses juros altos e por isso seus rendimentos também estão aumentando, uma parte do rendimento vem sendo puxado por esses juros altos.”

Rendimento x dívida: existe uma relação?

Luciano Nakabashi, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, não acredita que exista conexão entre o aumento do rendimento com o crescimento das dívidas entre as famílias.

“A gente não espera que o aumento da renda vá levar a um aumento do endividamento das famílias. O que eu acredito que aconteça é ter uma taxa de juros alta por muito tempo, essa taxa de juros alta de fato faz com que a dívida das pessoas cresça mais rapidamente, se você faz uma dívida com juros mais altos, o teu endividamento vai crescendo mais rapidamente. Existe a possibilidade mais recente desse endividamento ter relação com os jogos on-line, as chamadas Bets. Parece que isso tem afetado a questão do endividamento das famílias, a maioria das pessoas tende a perder mais do que ganhar. Acho que esse ponto é um elemento que ajuda a explicar esse aumento do endividamento das famílias no Brasil.”

De Losso explica que, historicamente, a população brasileira tem como característica gastar muito e que o aumento do endividamento tem relação com o aumento das chamadas fintechs.

“O brasileiro em geral é bastante impaciente, ele quer consumir o mais rápido possível, talvez por fatores históricos, como, por exemplo, o da poupança ter sido confiscada no passado. O nível de endividamento do brasileiro sempre foi alto, mas ele aumentou. No meu entendimento, uma parte da explicação é que o brasileiro ficou mais bancarizado depois do surgimento das fintechs.”

“Parte dos brasileiros que não tinha acesso a bancos, agora passa a ter acesso a bancos que passam a oferecer cartão de crédito, as pessoas passam a consumir mais no parcelado, sem saber se vão conseguir pagar a conta. Elas fazem a conta naquele mês para conseguir pagar, mas acontece um fato extraordinário ao longo do parcelamento que faz com que não consiga mais pagar a conta. Depois chegam os juros altíssimos, mas o dinheiro já não dá mais para o final do mês, elas vão tomar mais empréstimos para poder cobrir os juros anteriores. É uma espécie de retroalimentação, que vai gerar uma bola de neve de dinheiro”, explica De Losso.

Soluções para o endividamento

De acordo com De Losso, uma educação financeira bem estabelecida é fundamental para evitar o acúmulo de dívidas.

“As pessoas não têm muita educação financeira, a gente teria que estimular esse tipo de coisa, mas é uma solução de longo prazo até elas terem noção dos juros e como funciona o parcelamento. Quando você vai em uma loja e vê uma placa escrito ‘parcelamento em dez vezes sem juros’, aquilo é uma mentira, se elas pagassem à vista, elas poderiam pagar menos. A educação financeira é importante para entender que tem juros, que não pode fazer dívida, que é necessário fazer um orçamento do mês. As pessoas acabam entrando nessa loucura de comprar vários bens ao mesmo tempo porque vai pagar em não sei quantas parcelas, às vezes é um bem necessário, mas acaba como se fosse uma armadilha, e aí orçamento é importante para você fazer uma reserva, poder comprar à vista e fazer frente ao que acontece com toda a família.”

Nakabashi comenta a falta de poupanças e Previdências privadas entre os brasileiros.

“A maior parte do sistema de Previdência e repartição faz com que você, de fato, reduza a poupança das famílias de uma forma significativa. Todas as ações que dão seguro social, acesso à educação ou saúde pública tendem a reduzir a poupança das famílias, porque as pessoas precisam guardar menos dinheiro para a aposentadoria ou para eventualidades. Tudo isso acaba afetando a poupança das pessoas e o governo gasta muito, o governo reduz muito a poupança nacional, a quantidade de poupança que o País tem. É necessário interferir e mudar os problemas estruturais, as pessoas têm que poupar para poder aposentar lá na frente, talvez algum tipo de intervenção que aumente a poupança das pessoas. O que seria menos invasivo são os programas de educação financeira, que podem ser aplicados na escola”, finaliza o professor.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira

Fonte: Jornal da USP

]]> https://www.ocafezinho.com/2026/05/21/rendimento-per-capita-atinge-recorde-mas-endividamento-ja-alcanca-80-das-familias-brasileiras/feed/ 0 Reino Unido adota o roteiro italiano de instabilidade fiscal e política https://www.ocafezinho.com/2026/05/18/reino-unido-adota-o-roteiro-italiano-de-instabilidade-fiscal-e-politica/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/18/reino-unido-adota-o-roteiro-italiano-de-instabilidade-fiscal-e-politica/#respond Mon, 18 May 2026 15:53:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=248731 Assim como a Itália, o país enfrenta rendimentos crescentes de títulos públicos e uma base de investidores cada vez mais volátil

Quatorze meses. Esse número, aparentemente trivial, carrega um peso histórico considerável: representa a duração média de um governo italiano no período pós-Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, a Itália serviu como exemplo clássico de nação politicamente fragmentada, incapaz de sustentar lideranças duradouras. Hoje, porém, esse retrato ganha um protagonista inesperado — o Reino Unido.

A tradição britânica sempre foi associada à solidez institucional. Westminster, o sistema bipartidário, a monarquia constitucional — tudo isso criou uma imagem de país inabalável. Entretanto, ao longo da última década, o tempo médio de mandato dos primeiros-ministros britânicos caiu para pouco menos de dois anos. Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e, mais recentemente, Keir Starmer desfilaram por Downing Street em um ritmo que envergonharia até o mais caótico dos gabinetes romanos.

Essa aceleração política não seria, por si só, um problema tão grave. O verdadeiro perigo está no que ela arrasta consigo: a instabilidade fiscal. Historicamente, governos que trocam de liderança com frequência tendem a comprometer a disciplina orçamentária — seja por falta de tempo para implementar reformas estruturais, seja pela tentação de agradar eleitores com gastos de curto prazo.

Nenhum episódio ilustra melhor essa correlação do que os 49 dias de governo de Liz Truss, em 2022. Sua proposta de um “mini” orçamento — expansivo e sem cobertura fiscal — provocou uma reação imediata dos mercados. O rendimento dos títulos britânicos de 30 anos disparou de menos de 3,4% para 5% em questão de semanas. Foi uma demonstração brutal de que os investidores globais não perdoam improviso fiscal, mesmo quando ele vem de uma das economias mais antigas do mundo.

Desde então, o cenário piorou. Com a incerteza em torno do futuro político de Starmer e de sua chanceler Rachel Reeves, somada à queda acentuada dos mercados provocada pela inflação gerada pela guerra com o Irã, os rendimentos dos gilts — como os britânicos chamam seus títulos públicos — subiram ainda mais. Na última contagem, eles chegaram a 5,8%.

Para efeito de comparação, o pico italiano durante a crise que derrubou Silvio Berlusconi chegou perto de 8%. Os britânicos ainda não chegaram lá. Mas a trajetória preocupa — e o temor dos investidores, agora, não é apenas de incompetência administrativa. É de que uma guinada à esquerda mais pronunciada em Downing Street leve a uma menor disciplina nas contas públicas.

Existe ainda outro paralelo com a Itália que merece atenção. Por décadas, Roma se preocupou com o fato de que uma parcela expressiva de sua dívida estava nas mãos de investidores estrangeiros — fundos de hedge, gestores internacionais e capitais voláteis que, ao menor sinal de turbulência, vendem posições sem hesitar. Estima-se que mais de 30% dos títulos do governo italiano pertençam a investidores de fora do país.

O Reino Unido caminhou na mesma direção. Segundo o Escritório de Gestão da Dívida (Debt Management Office), aproximadamente um terço dos gilts hoje está em mãos estrangeiras. Trata-se de um aumento expressivo em relação ao que se observava há uma década. Esse processo reflete, em parte, a própria internacionalização da economia britânica e a migração de investidores institucionais em direção a outros mercados — sobretudo os Estados Unidos.

O resultado prático é que a base de detentores de títulos públicos britânicos se tornou menos estável. Investidores estrangeiros reagem com mais velocidade a notícias políticas e ajustes macroeconômicos, o que amplifica a volatilidade dos rendimentos e eleva o custo de financiamento do Estado.

A Itália, diante de problema semelhante, recorreu a uma estratégia clássica: pressionar instituições financeiras nacionais a absorver mais títulos do governo, além de lançar emissões específicas voltadas para o investidor de varejo. Essa combinação ajudou a criar um colchão doméstico mais resistente às turbulências externas.

No Reino Unido, porém, as pressões têm seguido o sentido oposto. Mudanças nas regras das pensões e a progressiva redução dos planos de previdência com benefícios definidos diminuíram o apetite interno pelos gilts. Além disso, a reversão do programa de flexibilização quantitativa do Banco da Inglaterra — que envolvia a compra de títulos — reduziu ainda mais a base de sustentação da dívida pública.

Contudo, nem tudo está perdido. O banco Barclays apresentou recentemente ao governo uma proposta concreta: flexibilizar as regulamentações sobre o capital que os bancos precisam manter para compensar participações em títulos públicos. Segundo essa estimativa, a demanda por gilts poderia crescer em £150 bilhões, reduzindo os custos de financiamento em até £2,5 bilhões por ano.

Além disso, o governo poderia criar incentivos fiscais ou regulatórios para estimular o investimento doméstico em títulos públicos. A recente Lei dos Planos de Pensão foi alvo de críticas por tentar direcionar investimentos para capital privado — o que colide com o princípio do dever fiduciário. Mas nada impede a adoção de medidas que, sem forçar escolhas, tornem os gilts mais atrativos para investidores nacionais por meio do sistema tributário ou de outros mecanismos de incentivo.

Aqui o enredo ganha uma virada irônica. A Itália de hoje não é mais a mesma de décadas atrás. A dupla formada pela premiê Giorgia Meloni e pelo ministro das Finanças Giancarlo Giorgetti — que já acumula mais de três anos no cargo — manteve uma disciplina orçamentária surpreendente para os padrões históricos do país. Como recompensa, os juros dos títulos italianos de 30 anos estão hoje um ponto percentual abaixo dos britânicos. A instabilidade virou estabilidade. O aluno ultrapassou o professor.

Há, ainda, uma lição política que os investidores britânicos parecem ignorar seletivamente. Em 2018, os rendimentos dos títulos italianos dispararam quando Matteo Salvini — então vice-primeiro-ministro e líder populista de extrema-direita — sinalizou intenção de romper com a disciplina fiscal europeia. Os mercados puniram imediatamente. Os detentores de gilts demonstram, com razão, preocupação com a perspectiva de um governo de esquerda mais gastador no Reino Unido. No entanto, revelam um otimismo curioso — e talvez ingênuo — diante da possibilidade de ascensão de uma liderança reformista de direita, apesar dos paralelos evidentes entre Salvini e Nigel Farage.

Com informações de Financial Times*

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/05/18/reino-unido-adota-o-roteiro-italiano-de-instabilidade-fiscal-e-politica/feed/ 0
Economistas reunidos em Dakar rejeitam FMI e propõem alternativas soberanas para a crise da dívida do Senegal https://www.ocafezinho.com/2026/05/12/economistas-reunidos-em-dakar-rejeitam-fmi-e-propoem-alternativas-soberanas-para-a-crise-da-divida-do-senegal/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/12/economistas-reunidos-em-dakar-rejeitam-fmi-e-propoem-alternativas-soberanas-para-a-crise-da-divida-do-senegal/#comments Wed, 13 May 2026 01:20:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/12/economistas-reunidos-em-dakar-rejeitam-fmi-e-propoem-alternativas-soberanas-para-a-crise-da-divida-do-senegal/ 5 Comentários 🔥]]>
Especialistas e economistas participam de conferência sobre a crise da dívida do Senegal. (Foto: © RFI/Léa-Lisa Westerhoff)

A dívida externa do Senegal atingiu um nível que os próprios economistas do país descrevem como insustentável, paralisando qualquer política pública de investimento.

Diante desse quadro, uma conferência reuniu especialistas em Dakar para propor caminhos que fujam das receitas tradicionais das instituições financeiras internacionais. O alvo central das críticas foi o Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem o governo senegalês negocia há mais de um ano sem chegar a um acordo sobre a retomada de um empréstimo.

O encontro foi organizado sob o patrocínio do primeiro-ministro Ousmane Sonko, que não compareceu à abertura por razões de saúde, segundo informou a ministra da Justiça, Yacine Fall. Em seu lugar, discursou o presidente do grupo parlamentar do Pastef — Patriotas Africanos do Senegal para o Trabalho, a Ética e a Fraternidade —, Ayib Daffé, que defendeu a urgência de ampliar perspectivas e sair do pensamento único.

A referência era direta ao impasse com o FMI, que propõe a reestruturação da dívida senegalesa diante da incapacidade de pagamento. Dakar rejeita essa saída, e a conferência, organizada pelo grupo de reflexão Ideas Africa Network, foi convocada para explorar o que os participantes chamam de alternativas reais ao modelo imposto pelas instituições de Bretton Woods.

O economista Souleymane Bah foi direto ao expor o nó fiscal do país: “As receitas do Estado atualmente não permitem pagar o principal e os juros. O que fazem normalmente é tomar emprestado para pagar — com as taxas de juros continuando a subir, isso não é solução alguma.” A lógica de endividamento em espiral é exatamente o ciclo que os participantes da conferência querem romper.

O pesquisador e economista Ndongo Samba Sylla, também do Ideas Africa Network, foi ainda mais contundente. Segundo ele, a abordagem do FMI é oposta à transformação econômica e funciona de forma puramente contábil e pró-credor, voltada a garantir que o país continue pagando credores — não a investir no desenvolvimento nacional.

Entre as propostas debatidas estão a reforma do sistema monetário regional e a saída do Franco CFA, moeda herdada do colonialismo francês e atrelada ao euro. Os participantes também defenderam o cancelamento de parte da dívida considerada ilegítima, por ter sido contraída de forma opaca pelo governo anterior sem declaração formal.

A conferência expôs uma tensão interna no próprio governo senegalês. Enquanto os especialistas debatiam em Dakar caminhos fora do FMI, o presidente Bassirou Diomaye Faye estava em Nairóbi, no Quênia, reunido com a diretora-geral do fundo, Kristalina Georgieva — sem que qualquer avanço concreto tenha sido anunciado. O duplo movimento revela a contradição entre o discurso soberanista do governo e a pressão real dos mercados e credores internacionais.

A agência de classificação de risco Standard & Poor’s já havia rebaixado a nota de crédito do Senegal, sinalizando risco de crescimento ainda maior da dívida pública, conforme reportou a Rádio França Internacional (RFI). O cenário coloca o governo diante de uma escolha cada vez mais difícil: aceitar as condições do FMI — com seus cortes e ajustes fiscais — ou apostar em alternativas soberanas que ainda carecem de financiamento concreto e articulação política regional para se tornarem viáveis.

Com informações de RFI.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/05/12/economistas-reunidos-em-dakar-rejeitam-fmi-e-propoem-alternativas-soberanas-para-a-crise-da-divida-do-senegal/feed/ 5
Lula sanciona adesão do Rio de Janeiro a plano que reduz dívida pública https://www.ocafezinho.com/2026/05/06/lula-sanciona-adesao-do-rio-de-janeiro-a-plano-que-reduz-divida-publica/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/06/lula-sanciona-adesao-do-rio-de-janeiro-a-plano-que-reduz-divida-publica/#comments Wed, 06 May 2026 13:39:52 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/06/lula-sanciona-adesao-do-rio-de-janeiro-a-plano-que-reduz-divida-publica/ 8 Comentários 🔥]]>
Placa indica o Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro. (Foto: metropoles.com)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aprovou a adesão do estado do Rio de Janeiro ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), medida voltada a aliviar os compromissos financeiros dos entes federativos com a União.

A adesão permitirá que o estado deixe o Regime de Recuperação Fiscal (RRF). O Rio passará a contar com condições mais vantajosas de refinanciamento.

Segundo o Palácio do Planalto, as parcelas mensais pagas pelo estado à União cairão de cerca de R$ 490 milhões para aproximadamente R$ 113 milhões. Esse valor será ajustado de forma progressiva ao longo de cinco anos.

A dívida total do estado com o governo federal ultrapassa R$ 237 bilhões, conforme dados do Tesouro Nacional. A medida representa alívio significativo para as contas públicas fluminenses, que enfrentam desafios históricos de gestão fiscal.

A solicitação para ingressar no Propag foi feita pelo governo do Rio em dezembro de 2025. A aprovação veio após reunião entre Lula e representantes do estado, na qual foram discutidos os termos da transição para o novo regime.

O Propag foi desenvolvido como parte de uma articulação liderada pelo então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. O programa busca criar um modelo mais competitivo de renegociação de dívidas estaduais e já beneficiou Minas Gerais, que aderiu anteriormente.

Como contrapartida ao alívio financeiro, os estados participantes devem cumprir compromissos específicos. No caso do Rio, uma das exigências é a alocação de recursos para o programa “Juros por Educação”, que transforma parte dos juros da dívida em investimentos no ensino técnico de nível médio.

O governo estadual planeja ainda utilizar ativos como imóveis e créditos de royalties do petróleo para abater o saldo devedor com a União. Essa estratégia visa liberar recursos para outras prioridades das finanças públicas.

A mudança para o Propag abre espaço para o Rio reestruturar suas contas e direcionar investimentos para educação e infraestrutura. A expectativa é que o novo modelo contribua para uma gestão fiscal mais equilibrada e fomente o desenvolvimento social e econômico do estado.

A iniciativa reflete um esforço mais amplo do governo federal para apoiar estados em dificuldades financeiras. Mais detalhes podem ser encontrados no portal oficial do governo.

Com informações de Metrópoles.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/05/06/lula-sanciona-adesao-do-rio-de-janeiro-a-plano-que-reduz-divida-publica/feed/ 8
Com precatórios, governo tem maior déficit para meses de março https://www.ocafezinho.com/2026/04/29/com-precatorios-governo-tem-maior-deficit-para-meses-de-marco/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/29/com-precatorios-governo-tem-maior-deficit-para-meses-de-marco/#respond Wed, 29 Apr 2026 20:01:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/29/com-precatorios-governo-tem-maior-deficit-para-meses-de-marco/ O pagamento antecipado de precatórios, dívidas da União com sentenças judiciais definitivas, pressionou as contas públicas e levou o governo central a registrar um déficit primário de R$ 73,783 bilhões em março, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional nesta quarta-feira (29).

O resultado é o pior já registrado para o mês desde o início da série histórica, em 1997.

O déficit representa uma forte deterioração frente a março do ano passado, quando houve superávit de R$ 1,527 bilhão. De acordo com o Tesouro, a principal explicação está na mudança do calendário de pagamento dos precatórios, que em 2026 se concentraram em março. Em 2025, a maior parte dessas despesas foi paga em julho.

O déficit primário ocorre quando as receitas com tributos e impostos ficam abaixo das despesas do governo, desconsiderando os juros da dívida pública.

Despesas

As despesas totais dispararam no período, impulsionadas principalmente pelos gastos com decisões judiciais e seus efeitos indiretos sobre outras rubricas do orçamento.

Principais números de março:

  • Déficit primário: R$ 73,783 bilhões;
  • Despesas totais: R$ 269,881 bilhões (49,2% acima da inflação em relação a março do ano passado);
  • Receita líquida: R$ 196,1 bilhões (7,5% acima da inflação).

Maiores aumentos de gastos:

  • Sentenças judiciais e precatórios (custeio e investimento): R$ 34,903 bilhões;
  • Benefícios previdenciários: R$ 28,615 bilhões, dos quais R$ 23,982 bilhões em precatórios;
  • Pessoal e encargos sociais: R$ 11,258 bilhões, dos quais R$ 8,786 em precatórios.

Segundo o Tesouro, os precatórios também influenciaram o aumento de gastos com Previdência e folha de pagamento, já que parte dessas despesas está vinculada a decisões judiciais.

Apesar da piora no resultado fiscal, a arrecadação apresentou crescimento, impulsionada pelo desempenho da economia e por medidas tributárias recentes.

Entre os destaques:

  • Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): R$ 2,8 bilhões em relação a março do ano passado;
  • Imposto de Importação: R$ 2,3 bilhões;
  • Imposto de Renda: R$ 2,3 bilhões;
  • Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL): R$ 1,4 bilhão;
  • Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins): R$ 1,5 bilhão.

Ainda assim, o avanço das receitas foi insuficiente para compensar o salto das despesas.

Resultado do ano

No acumulado do primeiro trimestre, as contas públicas registraram déficit de R$ 17,085 bilhões, revertendo o superávit de R$ 54,993 bilhões observado no mesmo período de 2025.

Acumulado de janeiro a março:

  • Déficit primário: R$ 17,085 bilhões;
  • Receita líquida: R$ 626,4 bilhões (4,2% real);
  • Despesas totais: R$ 643,5 bilhões (23,3% real).

Assim como em março, o resultado acumulado foi impactado pela antecipação no pagamento de precatórios.

No primeiro trimestre, o déficit está baixo por causa do superávit primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro. Tradicionalmente, o primeiro mês do ano é caracterizado por resultados positivos.

Investimentos

Os investimentos federais registraram crescimento expressivo em março, indicando aumento da execução orçamentária.

  • Investimentos em março: R$ 14,8 bilhões (323,9% acima da inflação);
  • Acumulado em 2026: R$ 24,4 bilhões (146,4% acima da inflação).

O avanço reflete a aceleração de projetos públicos e execução de despesas discricionárias (não obrigatórias) no início do ano.

Meta fiscal

A meta fiscal para 2026 prevê superávit de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões, com margem de tolerância que permite resultado entre zero e R$ 68,6 bilhões positivos.

No entanto, regras aprovadas permitem excluir até R$ 63,5 bilhões em despesas do cálculo, incluindo precatórios. Mesmo com esses abatimentos, a previsão oficial do governo é de déficit efetivo de R$ 59,8 bilhões no ano.

Se confirmada, será mais um ano de contas no vermelho.

Fonte: Agência Brasil.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/04/29/com-precatorios-governo-tem-maior-deficit-para-meses-de-marco/feed/ 0
Dívida Pública Federal cai 2,34% em março e volta aos R$ 8,6 trilhões https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/divida-publica-federal-cai-234-em-marco-e-volta-aos-r-86-trilhoes/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/divida-publica-federal-cai-234-em-marco-e-volta-aos-r-86-trilhoes/#respond Mon, 27 Apr 2026 23:33:28 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/divida-publica-federal-cai-234-em-marco-e-volta-aos-r-86-trilhoes/ O forte vencimento de títulos vinculados à Taxa Selic (juros básicos da economia) fez a Dívida Pública Federal (DPF) cair em março. Segundo números divulgados nesta segunda-feira (27) pelo Tesouro Nacional, a DPF passou de R$ 8,841 trilhões em fevereiro para R$ 8,633 trilhões no mês passado, queda de 2,34%.

Em agosto do ano passado, o indicador superou pela primeira vez a barreira de R$ 8 trilhões. De acordo com o Plano Anual de Financiamento (PAF), apresentado em janeiro, o estoque da DPF deve encerrar 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

A Dívida Pública Mobiliária (em títulos) interna (DPMFi) recuou 2,17%, passando de R$ 8,511 trilhões em fevereiro para R$ 8,302 trilhões em março. No mês passado, o Tesouro resgatou R$ 302,32 bilhões em títulos a mais do que emitiu, principalmente em papéis ligados à Selic. A queda só não foi maior por causa da apropriação de R$ 93,01 bilhões em juros.

Por meio da apropriação de juros, o governo reconhece, mês a mês, a correção dos juros que incide sobre os títulos e incorpora o valor ao estoque da dívida pública. Com a Taxa Selic (juros básicos da economia) em 14,75% ao ano, a apropriação de juros pressiona o endividamento do governo.

No mês passado, o Tesouro emitiu R$ 93,29 bilhões em títulos da DPMFi. No entanto, com o alto volume de vencimentos em março, os resgates foram muito maiores e somaram R$ 395,60 bilhões.

A Dívida Pública Federal externa (DPFe) subiu 0,61%, passando de R$ 329,65 bilhões em fevereiro para R$ 331,64 bilhões em março. Além da alta de 1,36% do dólar no mês passado, provocada pelo início da guerra no Oriente Médio, a dívida aumentou por causa de um empréstimo de R$ 6,88 bilhões com organismos internacionais no mês passado.

Colchão

Após uma alta em janeiro, o colchão da dívida pública (reserva financeira usada em momentos de turbulência ou de forte concentração de vencimentos) caiu em março. Essa reserva passou de R$ 1,192 trilhão em fevereiro para R$ 885 bilhões. O principal motivo, segundo o Tesouro Nacional, foi o resgate líquido (resgates menos emissões) no mês passado. No entanto, a recompra de R$ 49 bilhões em títulos da dívida pública nos primeiros dias da guerra no Oriente Médio, para estabilizar o mercado, também contribuiu.

Atualmente, o colchão cobre 5,69 meses de vencimentos da dívida pública. Nos próximos 12 meses, está previsto o vencimento de R$ 1,68 trilhão em títulos federais.

Composição

Com o forte vencimento de títulos vinculados à Selic, a composição da DPF variou da seguinte forma de fevereiro para março:

  • Títulos vinculados à Selic: 49,1% para 47,71%;
  • Títulos corrigidos pela inflação: 25,85% para 26,67%;
  • Títulos prefixados: 21,33% para 21,80%;
  • Títulos vinculados ao câmbio: 3,71% para 3,83%.

O PAF prevê que os títulos encerrarão o ano nos seguintes intervalos:

  • Títulos vinculados à Selic: 46% a 50%;
  • Títulos corrigidos pela inflação: 23% a 27%;
  • Títulos prefixados: 21% a 25%;
  • Títulos vinculados ao câmbio: 3% a 7%.

Normalmente, os papéis prefixados (com taxas definidas no momento da emissão) indicam mais previsibilidade para a dívida pública, porque as taxas são definidas com antecedência. No entanto, em momentos de instabilidade no mercado financeiro, as emissões caem porque os investidores pedem juros muito altos, o que comprometeria a administração da dívida do governo.

Em relação aos papéis vinculados à Selic (juros básicos da economia), esses títulos estão atraindo o interesse dos compradores por causa das altas promovidas pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) até meados do ano passado. A dívida cambial é composta por antigos títulos da dívida interna corrigidos em dólar e pela dívida externa.

Prazo

O prazo médio da DPF subiu de 4 para 4,1 anos. O Tesouro só fornece a estimativa em anos, não em meses. Esse é o intervalo médio que o governo leva para renovar (refinanciar) a dívida pública. Prazos maiores indicam mais confiança dos investidores na capacidade do governo de honrar os compromissos.

Detentores

A composição dos detentores da Dívida Pública Federal interna ficou a seguinte:

  • Instituições financeiras: 31,47% do estoque;
  • Fundos de pensão: 23%;
  • Fundos de investimentos: 20,86%;
  • Não residentes (estrangeiros): 10,7%;
  • Demais grupos: 13,97%.

Apesar da maior tensão no mercado financeiro em março, com a guerra no Oriente Médio, a participação dos não residentes (estrangeiros) oscilou levemente em relação a fevereiro, quando estava em 10,74%. Quanto maior a fatia de estrangeiros na dívida interna, maior a confiança no Brasil.

Por meio da dívida pública, o governo pega dinheiro emprestado dos investidores para honrar compromissos financeiros. Em troca, compromete-se a devolver os recursos depois de alguns anos, com alguma correção, que pode seguir a taxa Selic (juros básicos da economia), a inflação, o dólar ou ser prefixada (definida com antecedência).

Fonte: Agência Brasil

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/divida-publica-federal-cai-234-em-marco-e-volta-aos-r-86-trilhoes/feed/ 0
Tesouro Nacional quita R$ 384 milhões em dívidas de estados e municípios https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/tesouro-nacional-quita-r-384-milhoes-em-dividas-de-estados-e-municipios/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/tesouro-nacional-quita-r-384-milhoes-em-dividas-de-estados-e-municipios/#comments Mon, 27 Apr 2026 16:11:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/tesouro-nacional-quita-r-384-milhoes-em-dividas-de-estados-e-municipios/ 79 Comentários 🔥]]>
Ilustração editorial sobre Tesouro Nacional quita R$ 384 milhões em dívidas de estados e municípios. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O Tesouro Nacional desembolsou R$ 384,11 milhões para cobrir dívidas garantidas pela União em fevereiro, com destaque para os estados do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.

O Rio Grande do Sul teve R$ 250 milhões quitados pela União. O Rio de Janeiro respondeu por R$ 128,67 milhões no mesmo período.

Os municípios de Iguatu, no Ceará, Paranã, no Tocantins, e Santanópolis, na Bahia, também tiveram suas dívidas honradas pelo governo federal. Esses pagamentos são acionados quando os entes federativos não cumprem obrigações em operações de crédito com garantia da União.

O Tesouro assume o compromisso junto aos credores e depois retém repasses constitucionais para reaver os valores. No acumulado de 2026, os desembolsos totais somam R$ 993,80 milhões.

O Rio de Janeiro lidera esse montante acumulado com R$ 492,85 milhões. O Rio Grande do Sul aparece em seguida, com R$ 389,74 milhões.

Parte relevante desses recursos associa-se a estados no Regime de Recuperação Fiscal, como é o caso do Rio de Janeiro. O RRF permite a reestruturação das contas com a possibilidade de refinanciamento dos débitos em até 360 meses.

Esse instrumento reduz o impacto imediato nas finanças dos entes federativos que aderem ao programa. As medidas de ajuste fiscal são exigidas como contrapartida para a recuperação da capacidade de pagamento autônoma.

Os dados constam do relatório do Tesouro Nacional sobre garantias honradas pela União, conforme noticiou o portal Metrópoles.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/tesouro-nacional-quita-r-384-milhoes-em-dividas-de-estados-e-municipios/feed/ 79
Gleisi Hoffmann denuncia terrorismo fiscal da Folha em editorial sobre dívida pública https://www.ocafezinho.com/2026/04/22/gleisi-hoffmann-denuncia-terrorismo-fiscal-da-folha-em-editorial-sobre-divida-publica/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/22/gleisi-hoffmann-denuncia-terrorismo-fiscal-da-folha-em-editorial-sobre-divida-publica/#comments Wed, 22 Apr 2026 04:12:03 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/22/gleisi-hoffmann-denuncia-terrorismo-fiscal-da-folha-em-editorial-sobre-divida-publica/ 14 Comentários 🔥]]>
Gleisi Hoffmann discursa segurando um microfone em evento. (Foto: diariodocentrodomundo.com.br)

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, criticou duramente editorial da Folha de S.Paulo que classificou a dívida pública como fracasso do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A petista acusou o jornal de praticar terrorismo fiscal ao avaliar a gestão econômica apenas pelo endividamento do setor público.

Gleisi Hoffmann afirmou que o texto ignora a redução expressiva do déficit primário obtida pelo governo federal. A ministra ressaltou que o editorial repete narrativa antiga destinada a pressionar por cortes em investimentos sociais e de infraestrutura.

O editorial da Folha de S.Paulo acusou a administração de recorrer a artifícios contábeis na apuração dos resultados do Tesouro Nacional. O texto comparou o momento atual ao governo da ex-presidenta Dilma Rousseff e atribuiu a ela o maior retrocesso econômico desde a redemocratização.

Gleisi Hoffmann rebateu que o jornal não demonstrou preocupação equivalente durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela citou o estouro do teto de gastos, o calote de quase 100 bilhões de reais em precatórios e a manipulação orçamentária que deixou despesas de 250 bilhões de reais para a atual administração.

A ministra lembrou ainda o rombo fiscal acumulado de 795 bilhões de reais ao longo de quatro anos no período anterior. Para ela, a diferença de tratamento revela viés político contra as políticas de valorização do salário mínimo e de proteção social.

Gleisi Hoffmann relacionou o aumento da dívida aos juros elevados mantidos pelo Banco Central. A petista observou que os mesmos analistas consideram naturais essas taxas enquanto cobram austeridade do governo federal.

A ministra defendeu que o governo mantém compromisso com a responsabilidade fiscal e com o desenvolvimento social. Ela argumentou que o equilíbrio entre contas públicas e investimentos é essencial para gerar emprego, elevar a renda e expandir a infraestrutura nacional.

Gleisi Hoffmann criticou a reprodução da pressão do mercado financeiro por parte da grande mídia. A ministra afirmou que nenhum editorial fará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abandonar o povo brasileiro.

O caso expõe disputa sobre os indicadores prioritários da política econômica. O governo sustenta que a melhora do déficit primário e a retomada de investimentos públicos demonstram estratégia mais ampla de crescimento.

Segundo o Diário do Centro do Mundo, Gleisi Hoffmann reafirmou a prioridade de políticas sociais e de investimentos estruturantes. A ministra criticou os ajustes que apenas aprofundariam as desigualdades e comprometeriam o desenvolvimento do país.


Leia também: A dura resposta de Gleisi à Folha


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/04/22/gleisi-hoffmann-denuncia-terrorismo-fiscal-da-folha-em-editorial-sobre-divida-publica/feed/ 14
Juros da dívida superam investimentos em 2025 cinco vezes mais https://www.ocafezinho.com/2026/04/14/juros-da-divida-superam-investimentos-em-2025-cinco-vezes-mais/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/14/juros-da-divida-superam-investimentos-em-2025-cinco-vezes-mais/#respond Tue, 14 Apr 2026 20:12:08 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=234291 Relatório do Inesc mostra que o país destinou R$ 371,7 bilhões ao pagamento de juros enquanto investiu apenas R$ 70,8 bilhões em infraestrutura e políticas estruturantes.

O Brasil gastou R$ 371,7 bilhões com juros da dívida pública em 2025, cinco vezes mais do que os R$ 70,8 bilhões investidos em infraestrutura e políticas estruturantes.

Os dados são do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), no relatório Orçamento e Direitos: Balanço da Execução de Políticas Públicas (2025).

As despesas totais da União no ano passado atingiram R$ 5,39 trilhões.

Os investimentos públicos representaram cerca de 20% do que foi gasto apenas com juros. Regras fiscais restritivas, combinadas com juros elevados, comprimiram o espaço para políticas sociais, ambientais e de direitos humanos.

A taxa básica de juros ficou em 15% ao ano em 2025, com juros reais próximos a 9%. Esse patamar é o mais alto desde 2006.

Teresa Ruas, assessora política do Inesc, alertou que qualquer abertura de espaço fiscal nas contas primárias se torna ineficaz enquanto a política monetária continuar encarecendo a dívida.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/04/14/juros-da-divida-superam-investimentos-em-2025-cinco-vezes-mais/feed/ 0
“Vamos tentar encontrar a solução e vai ser boa”, diz Lula, sobre o endividamento dos brasileiros https://www.ocafezinho.com/2026/04/09/vamos-tentar-encontrar-a-solucao-e-vai-ser-boa-diz-lula-sobre-o-endividamento-dos-brasileiros/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/09/vamos-tentar-encontrar-a-solucao-e-vai-ser-boa-diz-lula-sobre-o-endividamento-dos-brasileiros/#respond Thu, 09 Apr 2026 04:21:57 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/09/vamos-tentar-encontrar-a-solucao-e-vai-ser-boa-diz-lula-sobre-o-endividamento-dos-brasileiros/ O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou, nesta quarta-feira, 8 de abril, em entrevista concedida aos jornalistas Eduardo Moreira e Leandro Demori, do ICL Notícias, que o governo trabalha para apresentar o quanto antes uma proposta para reduzir o nível de endividamento dos brasileiros. Segundo o presidente, o endividamento será tratado com a mesma seriedade das medidas adotadas para evitar que o aumento do preço dos combustíveis gerado pela guerra no Oriente Médio impacte a economia brasileira.

“Vamos tentar encontrar a solução e vai ser boa. Da mesma forma que nós encontramos com o petróleo. Eu disse textualmente: a gente não vai permitir que a guerra do Trump com o Irã aumente o preço do feijão, do arroz, da alface e da cebola que o povo brasileiro come”, disse Lula.

“Estamos trabalhando seriamente e vamos tentar encontrar uma solução para o endividamento da sociedade brasileira. Já fizemos o Desenrola e nós, agora, estamos outra vez preocupados. Vamos tentar encontrar a solução e vai ser boa. Da mesma forma que nós encontramos com o petróleo. Eu disse textualmente: a gente não vai permitir que a guerra do Trump com o Irã aumente o preço do feijão, do arroz, da alface e da cebola que o povo brasileiro come”, afirmou Lula.

O presidente também destacou que seu governo seguirá adotando medidas para combater de modo cada vez mais efetivo uma das questões que mais envergonham o Brasil na atualidade: o feminicídio. Para ele, a educação e a conscientização, principalmente entre os homens, é um dos fatores que devem ser cada vez mais destacados quando se discute o combate à violência contra a mulher.

“Vamos pegar a questão do feminicídio, a quantidade de violência contra a mulher. Essa coisa é um negócio tão podre. Veja o machismo impregnado na nossa cultura, no nosso DNA. Nós temos que educar os homens, porque quem é violento é o homem. Temos que nos educar e temos que começar da creche à universidade. Educar o ser homem para ele saber que ele não é dono da mulher. Ele pode ser no máximo um parceiro”, afirmou.

Para Lula, no caso das mulheres, é preciso investir em outro tipo de educação: aquela que lhes permitam cada vez mais avançar em suas profissões, de modo que elas tenham independência financeira e, assim, não dependam dos homens. “Por isso que eu aposto muito na educação da mulher. Se ela tiver uma profissão, se ela estiver no mercado de trabalho, ganhando o salário dela, e se o cara se meter à besta, ela manda o cara para fora de casa”.

Ao falar sobre outra questão que preocupa os brasileiros, a segurança, Lula esclareceu que a aprovação da PEC da Segurança Pública é de suma importância, para permitir que o Governo do Brasil tenha mais força no combate aos crimes no país.

Lula lembrou que, com a Constituição de 1988, o comando da segurança pública passou dos militares para os governos estaduais. “A União praticamente não tem nenhum papel na segurança pública. Ela tem um fundo de R$ 2 bilhões hoje para repassar para os estados e tem a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal”, declarou.

“A gente aprovou agora a Lei Antifacção, e eu estou querendo que aprovem a PEC (da Segurança Pública), porque eu quero criar um Ministério de Segurança Pública. Porque aí nós vamos ter que definir qual é o papel da União. O papel é não ter que pedir autorização para o Estado para fazer uma intervenção num crime violento, como o caso da Marielle. Se não fosse a Polícia Federal, a gente não teria apurado aquele caso”, prosseguiu.

Lula lembrou ainda que, mesmo sem a aprovação da PEC, a Polícia Federal tem atuado, dentro de seus limites, com total independência e com muito mais eficiência do que no governo anterior. “Em quatro anos no governo passado, a Polícia Federal fez 6.500 operações. No nosso governo, até agora, foram feitas 10.002 operações. Agora é palavra de ordem: a Polícia Federal tem independência na sua ação. A gente não se mete na apuração. O que eu digo para os delegados é que não mintam, não façam pirotecnia. Porque quando vocês acusam uma pessoa publicamente sem prova, vocês destroem a vida da pessoa. Então é preciso ter respeito”.

Fonte: Governo Federal.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/04/09/vamos-tentar-encontrar-a-solucao-e-vai-ser-boa-diz-lula-sobre-o-endividamento-dos-brasileiros/feed/ 0
Haddad sai com a economia de pé https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/haddad-sai-com-a-economia-de-pe/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/haddad-sai-com-a-economia-de-pe/#respond Sat, 21 Mar 2026 21:40:20 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=227842 Entre o barulho do mercado e os dados concretos, a gestão Haddad deixa crescimento, emprego e uma reconstrução fiscal em marcha.

Fernando Haddad deixa o Ministério da Fazenda após quase 1.200 dias de gestão marcados por crescimento econômico robusto e por uma disputa política permanente para reconstruir as finanças públicas devastadas pelo desmonte bolsonarista.

Os indicadores sociais e de atividade revelam um país em movimento, enquanto os números fiscais expressam o custo de reparar anos de negligência e de enfrentar a resistência dos setores privilegiados a contribuir com a conta.

Levantamento com base em dados oficiais, citado pela Folha, mostra que a economia brasileira avançou a um ritmo de 3% ao ano durante sua passagem pela Fazenda.

Esse desempenho contrasta fortemente com o baixo crescimento e com os períodos de recessão que marcaram o pós-2014. Também se distancia do quadro herdado dos governos Temer e Bolsonaro, quando a economia patinou sob compressão fiscal e perda de dinamismo.

O desemprego caiu ao menor patamar da história recente. Ao mesmo tempo, a inflação foi domada e voltou ao centro da meta estabelecida pelo Banco Central.

Esse controle de preços ocorreu mesmo em um ambiente de juros básicos mantidos em níveis historicamente elevados pelo Comitê de Política Monetária. Trata-se de uma política frequentemente criticada por estrangular o crédito, desestimular o investimento produtivo e impor freios adicionais à atividade.

A Bolsa de Valores acumulou alta de aproximadamente 80% no período, e o dólar se afastou dos picos de estresse, operando abaixo de R$ 5,30 antes da recente escalada geopolítica. O quadro macroeconômico, portanto, tornou-se mais sólido e previsível do que o país recebeu em 2022.

No front fiscal, porém, a trajetória foi a de uma reconstrução sob fogo cerrado. A dívida bruta encerrou 2025 em 78,7% do PIB, acima dos 71,58% registrados no início do governo Lula, mas esse dado não pode ser lido de forma isolada nem fora de contexto histórico.

A elevação da dívida resulta de uma sucessão de déficits primários herdados da gestão Paulo Guedes. Foi um período de fiscalismo de fachada, com corte de investimentos e congelamento de salários de um lado, e abertura de torneiras de gasto sem contrapartida de receita de outro.

Haddad assumiu, assim, um rombo em andamento e a obrigação de reverter o austericídio que sufocava a economia. Seu primeiro grande movimento, em janeiro de 2023, foi lançar um pacote para cortar despesas discricionárias e elevar a arrecadação.

Poucos meses depois, o ministro conseguiu aprovar no Congresso o novo arcabouço fiscal. A medida enterrou a irracionalidade do Teto de Gastos e instituiu regras mais realistas, menos recessivas e mais compatíveis com a necessidade de reconstrução do Estado.

A boa relação com o Legislativo naquele momento também foi decisiva para a aprovação da Reforma Tributária. A mudança, de caráter histórico, simplificará o sistema e buscará onerar mais a renda e o patrimônio do que o consumo.

Esse avanço estrutural foi um dos fatores que levaram a agência de risco S&P a melhorar a nota de crédito do Brasil no fim de 2023. Não se tratou apenas de um gesto simbólico, mas de um reconhecimento externo de que o país havia retomado algum grau de racionalidade institucional e econômica.

O segundo ano de gestão, contudo, expôs com mais nitidez as tensões com o mercado financeiro e com setores do Congresso. A revisão de metas fiscais, considerada necessária diante de um cenário global adverso, foi recebida com pessimismo pelos rentistas, sempre mais sensíveis à preservação de ganhos financeiros do que ao desempenho da economia real.

A aprovação de um pacote para ampliar a isenção do Imposto de Renda para assalariados também gerou volatilidade artificial nos ativos. Uma medida de justiça social passou a ser tratada como ameaça, num reflexo previsível de um sistema acostumado a proteger o topo e a empurrar o custo do ajuste para baixo.

A agenda de corte de benefícios fiscais, essencial para equilibrar as contas públicas, encontrou resistência feroz. Depois de meses de embate, Haddad chegou a um acordo para o fim gradual da desoneração da folha e do Perse, programa criado durante a pandemia.

Ainda assim, o Congresso barrou parte de uma medida provisória que cortava créditos tributários para grandes empresas. Na prática, preservou privilégios corporativos justamente no momento em que o governo tentava recompor receitas sem sacrificar emprego, investimento público e políticas sociais.

Em 2025, com a mudança na mesa diretora do Congresso, as divergências se acirraram. A elevação do Imposto sobre Operações Financeiras sobre operações financeiras, apresentada como forma de tributar a especulação, foi derrubada pelos parlamentares.

Coube ao Supremo Tribunal Federal arbitrar o conflito. O resultado foi uma vitória parcial para o Ministério da Fazenda, suficiente para mostrar que a disputa fiscal já não se dava apenas nos números, mas no terreno mais amplo da correlação de forças entre Executivo, Congresso e interesses econômicos organizados.

O segundo semestre trouxe, ainda assim, uma sequência de vitórias legislativas importantes para a consolidação fiscal. Foram aprovados a Lei do Devedor Contumaz, o projeto de corte de benefícios fiscais, a segunda etapa de regulamentação da reforma tributária e, por fim, a reforma do Imposto de Renda, promessa de campanha do presidente Lula.

Pouco antes de deixar o cargo, Haddad fez uma defesa contundente de sua própria gestão. Afirmou ter reduzido em 70% o déficit primário ao comparar o resultado de 2025 com a projeção catastrófica deixada para 2023 pelo ex-ministro Paulo Guedes.

Esse dado é central e costuma ser sistematicamente ignorado pela narrativa dominante do mercado. Em vez de considerar o ponto de partida e o esforço de correção realizado, prefere-se fixar o debate no nível da dívida, como se ela tivesse surgido no vazio e como se crescimento, emprego e arrecadação não fossem parte da equação.

A saída de Haddad para disputar o governo de São Paulo atende a uma estratégia política mais ampla. Seu legado na Fazenda é duplo: recuperar a capacidade de o Estado investir e estimular o crescimento, e iniciar o processo longo, difícil e politicamente custoso de corrigir distorções tributárias que historicamente beneficiam os mais ricos.

Os números indicam que, sob seu comando, o Brasil voltou a crescer, gerar empregos e controlar a inflação. O desafio fiscal continua enorme, mas agora está apoiado em uma economia real em expansão, e não no ajuste recessivo defendido pelo financismo.

A diferença não é pequena. Pela primeira vez em muitos anos, a conta do ajuste começou a ser cobrada também de quem sempre esteve protegido dela.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/haddad-sai-com-a-economia-de-pe/feed/ 0
O juro que sequestra o futuro https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/o-juro-que-sequestra-o-futuro/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/o-juro-que-sequestra-o-futuro/#respond Sat, 21 Mar 2026 20:35:40 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/o-juro-que-sequestra-o-futuro/ Vendida como prudência, a cruzada fiscal encobre uma engrenagem de juros altos que drena o país e sabota o desenvolvimento.

A taxa de juros real brasileira, entre as mais altas do mundo, opera ao mesmo tempo como ímã para capitais voláteis e como freio brutal sobre a economia produtiva.

Especialistas do mercado financeiro ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias do Grupo Estado, afirmam que esse quadro se tornou insustentável no longo prazo.

Segundo esses agentes, sem um ajuste fiscal considerado crível, a dívida pública pode alcançar 100% do produto interno bruto dentro de uma década.

Luciano Rostagno, estrategista-chefe da EPS Investimentos, sustenta que um afrouxamento monetário consistente exige sintonia fina com a política fiscal. Sem isso, diz ele, as projeções já apontam para uma dívida equivalente a 100% do produto interno bruto em dez anos, patamar que classifica como insustentável para uma economia emergente.

Marco Antonio Caruso, economista do Santander, afirma que a política fiscal é vista como a única variável efetivamente controlável para influenciar os juros reais. Na avaliação dele, há pouca capacidade de controle sobre o crescimento, a inflação e até mesmo sobre o juro nominal definido pelo Banco Central.

A tese de que o país convive com um juro real estruturalmente elevado e perigoso ganhou força a partir de 2022, segundo a leitura desses analistas. Caruso afirma que o juro real de longo prazo está cerca de 200 pontos-base acima da média histórica dos últimos 15 anos.

Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset, observa que a rigidez dos gastos públicos e a volatilidade da arrecadação alimentam uma percepção negativa sobre a dívida. Como consequência, afirma, os agentes econômicos passam a exigir um prêmio de risco maior.

Esse discurso quase uníssono produz uma sensação de urgência inevitável, como se a única saída possível fosse um corte profundo de gastos públicos. O problema é que essa narrativa deixa de lado o contexto histórico da escalada dos juros e apaga os custos sociais da receita proposta.

Também fica fora de foco o fato de que a disparada dos juros reais está ligada à guinada monetária radical iniciada no governo anterior, quando se abandonou uma taxa Selic de 2% ao ano para levá-la a 15%. O próprio Rostagno reconhece que a dinâmica da dívida piorou de forma significativa no pós-pandemia justamente por causa desse movimento.

Os juros altos, portanto, não surgem como fatalidade da natureza econômica, mas como resultado de escolhas de política monetária com efeitos profundos. Ao mesmo tempo em que atraem o chamado fast money, comprimem o crédito para investimento produtivo e elevam o custo do serviço da dívida pública.

Gean Lima, gestor da Connex Capital, reconhece que o Brasil atrai capital estrangeiro por combinar juros elevados com expectativa de crescimento. Mas esse fluxo especulativo é volátil por definição e pode deixar o país ao primeiro sinal de instabilidade.

Rostagno resume essa contradição ao afirmar que o juro alto busca evitar fuga de capitais, mas atrai apenas capital especulativo e reduz o capital produtivo. A experiência de dezembro de 2024, lembrada por Sichel, expôs essa fragilidade de forma eloquente.

Naquele momento, o real sofreu forte desvalorização mesmo sob juros elevados, porque o mercado considerou insuficientes as medidas de contenção de gastos apresentadas pelo governo Lula. O episódio mostrou que a pressão nunca cessa e que as exigências do mercado se deslocam continuamente, mesmo quando o país já paga um preço altíssimo.

É aí que a discussão deixa de ser apenas técnica e revela seu conteúdo político. A âncora dos juros altos transfere renda em escala monumental para o setor financeiro por meio dos títulos da dívida pública, ao mesmo tempo em que serve de justificativa para conter investimentos sociais e obras de infraestrutura.

A cobrança por um ajuste fiscal crível funciona, na prática, como eufemismo para mais austeridade. E austeridade, no Brasil real, significa quase sempre compressão do gasto público que atinge os mais vulneráveis, enquanto se preserva a remuneração generosa do capital financeiro.

Caruso, do Santander, tenta relativizar o quadro brasileiro ao lembrar que a deterioração fiscal se espalhou pelo mundo no pós-pandemia. Segundo ele, como outros países também pioraram, a situação brasileira talvez não seja tão ruim.

Mas esse tipo de relativização corre o risco de normalizar o que deveria ser tratado como anomalia. Aceitar juros reais em patamar tão elevado como se fossem destino inevitável significa bloquear a retomada do desenvolvimento e manter o país preso a uma posição subordinada na economia global.

O debate central, portanto, não deveria girar em torno de quão rapidamente o Estado deve se curvar às exigências de um mercado que prospera justamente em ambientes de crise e escassez. A questão decisiva é como recuperar margem de comando sobre a política monetária e recolocar o orçamento público a serviço do crescimento, do investimento e da redução das desigualdades.

A armadilha foi montada ao longo dos últimos anos e seus mecanismos estão à vista. O desafio do governo é encontrar força política e capacidade técnica para desmontá-la sem aceitar como inevitável uma lógica que premia a financeirização e pune a economia real.

No fundo, a urgência fiscal vendida como verdade neutra esconde uma escolha de país. De um lado está o modelo que subordina tudo à confiança do mercado e à remuneração dos rentistas, de outro está a possibilidade de reconstruir uma estratégia de desenvolvimento que devolva prioridade ao trabalho, à produção e à soberania econômica.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/03/21/o-juro-que-sequestra-o-futuro/feed/ 0
Haddad sai, o projeto fica https://www.ocafezinho.com/2026/03/20/haddad-sai-o-projeto-fica/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/20/haddad-sai-o-projeto-fica/#respond Fri, 20 Mar 2026 15:34:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/03/20/haddad-sai-o-projeto-fica/ Lula troca o rosto da Fazenda sem entregar o comando da estratégia.

A política econômica do governo Lula enfrenta seu primeiro teste de força, e ele não vem dos mercados, mas da própria engrenagem política que sustenta o projeto de 2026.

A nomeação de Dario Durigan para o Ministério da Fazenda, após a exoneração de Fernando Haddad, está longe de ser uma simples troca de comando.

É um movimento calculado para preservar uma linha econômica em andamento enquanto o governo desloca uma de suas peças centrais para a disputa eleitoral em São Paulo.

A decisão foi publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira, conforme noticiado originalmente pelo InfoMoney. O gesto indica uma transição desenhada para garantir continuidade administrativa em meio a um cenário de delicado equilíbrio fiscal.

Haddad deixa o ministério para assumir a pré-candidatura do PT ao governo de São Paulo. Trata-se de um objetivo estratégico perseguido pelo partido há décadas no estado mais rico e politicamente mais decisivo do país.

Sua despedida da Fazenda ocorreu em terreno carregado de simbolismo, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ao lado do presidente Lula. A cena vinculou sua saída à base histórica do lulismo e ao aval direto do Palácio do Planalto.

A mensagem política é inequívoca: Haddad não sai enfraquecido, mas deslocado para uma frente considerada central para o futuro do projeto governista. Ao mesmo tempo, a escolha de Dario Durigan funciona como garantia de que a retaguarda econômica permanecerá sob controle.

Durigan não chega como corpo estranho à Esplanada. Como secretário-executivo da Fazenda, era o operador central da pasta, conhecedor dos detalhes das articulações orçamentárias e das negociações no Congresso.

Sua ascensão evita o trauma da descontinuidade e mantém no comando alguém profundamente imerso na lógica do atual arcabouço fiscal. Em vez de ruptura, o governo oferece ao país uma solução de continuidade cuidadosamente montada.

A permanência de outros nomes de confiança de Haddad em postos-chave, como apontou a reportagem do InfoMoney, reforça a percepção de que o núcleo duro da política econômica seguirá intacto. Para um mercado sempre atento a qualquer sinal de guinada populista ou afrouxamento fiscal, a leitura tende a ser de alívio cauteloso.

Durigan encarna a face técnica e a memória institucional de um ministério que, sob Haddad, tentou conciliar responsabilidade fiscal, retomada do investimento público e preservação de programas sociais. Não é pouco, sobretudo num país em que a ortodoxia costuma exigir sacrifícios permanentes dos de baixo e complacência eterna com os de cima.

O novo ministro herdará a mesma equação difícil, mas sem o capital político e a projeção nacional de seu antecessor. Terá de conduzir as tratativas do novo regime fiscal, enfrentar pressões por mais gastos e, ao mesmo tempo, melhorar as expectativas de crescimento sem reacender pressões inflacionárias.

Seu principal ativo é a expertise burocrática combinada com a confiança do presidente, que evidentemente endossou essa solução. Do ponto de vista da estratégia do governo, a jogada é astuta: libera um dos quadros mais capazes e midiáticos do PT para uma missão eleitoral histórica sem desmontar os pilares da gestão econômica.

A campanha em São Paulo passa a contar com um candidato de peso, munido da experiência de ter comandado a economia nacional. Para Haddad, a travessia do Planalto para o palanque parece menos uma ruptura do que uma continuação natural de sua trajetória política.

Ele nunca foi apenas um técnico de gabinete, e São Paulo sempre representou o grande desafio de sua carreira. Agora, sua capacidade de traduzir um discurso econômico sofisticado para a linguagem das ruas será testada no estado mais rico e mais fragmentado do país.

O resultado dessa empreitada terá efeitos diretos sobre o capital político do governo federal e sobre o próprio futuro de Lula. Uma vitória em São Paulo reconfiguraria o mapa do poder nacional e daria novo fôlego ao projeto lulista para além de 2026.

Enquanto Haddad troca a mesa de negociações pelo campo eleitoral, Durigan assume um posto que exige discrição, firmeza e capacidade de atravessar turbulências sem produzir manchetes desnecessárias. Seu desempenho será medido pela habilidade de manter o navio no rumo, consolidar a queda da inflação e abrir espaço para que o crescimento econômico finalmente apareça na vida concreta da população.

A dança das cadeiras na Fazenda, portanto, não marca um recomeço. É antes um ajuste de curso que tenta provar que o projeto econômico do governo é maior do que seus personagens mais visíveis.

Essa é a aposta central de Lula: mostrar que a estrutura resiste à troca de nomes e que a estratégia pode sobreviver ao deslocamento de uma peça importante para o tabuleiro eleitoral. Em outras palavras, o governo tenta servir a dois objetivos ao mesmo tempo, estabilidade econômica e conquista política.

A verdadeira prova de Durigan começa agora, longe do simbolismo da sucessão e perto da rotina dura do Tesouro Nacional e das reuniões do Copom. Ele precisará demonstrar que o equilíbrio entre social e fiscal não é apenas uma fórmula elegante de discurso, mas uma política sustentável e capaz de produzir efeitos tangíveis no bolso dos trabalhadores.

A economia brasileira, ainda marcada por anos de austericídio e estagnação, não comporta mais uma interrupção traumática. A aposta do Planalto é que a solidez técnica de Durigan, somada à ofensiva política de Haddad, produza uma sinergia capaz de impulsionar tanto os números do PIB quanto as ambições eleitorais do campo progressista.

O ano de 2026, na prática, já começou. E seu primeiro ato foi uma troca de ministros desenhada para preservar a Fazenda enquanto se abre a guerra por São Paulo.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/03/20/haddad-sai-o-projeto-fica/feed/ 0
Impasse nos precatórios ameaça meta fiscal de 2027 https://www.ocafezinho.com/2026/03/18/impasse-nos-precatorios-ameaca-meta-fiscal-de-2027/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/18/impasse-nos-precatorios-ameaca-meta-fiscal-de-2027/#respond Wed, 18 Mar 2026 03:29:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/03/18/impasse-nos-precatorios-ameaca-meta-fiscal-de-2027/ Uma disputa jurídica dentro do governo pode forçar a equipe econômica a buscar até R$ 44 bilhões extras para fechar as contas de 2027.

O governo Lula enfrenta um impasse fiscal de grandes proporções ainda no primeiro semestre de 2025.

A promulgação da nova PEC dos Precatórios, em setembro de 2024, gerou uma dúvida jurídica que redefine as regras para o Orçamento de 2027.

A questão central é saber quanto das despesas com sentenças judiciais pode ser excluído do cálculo que define o cumprimento da meta de resultado primário.

A norma constitucional estabelece que os precatórios sairão do limite de gastos a partir de 2027. Eles serão incorporados gradualmente à meta fiscal, em no mínimo 10% ao ano.

A redação ambígua do texto abriu duas interpretações com impactos radicalmente diferentes para as contas públicas.

Na leitura mais favorável ao governo, a regra valeria para o total de precatórios previstos para 2027, estimados em R$ 106,8 bilhões. Isso permitiria excluir até R$ 96,1 bilhões da meta.

Essa visão aliviaria a pressão sobre a equipe econômica e abriria espaço para gastos sem a necessidade de novas receitas.

A interpretação mais restrita, defendida no Ministério do Planejamento, usaria como base apenas os valores já excluídos por decisão do Supremo Tribunal Federal.

Nesse cenário, o desconto máximo seria de R$ 52,1 bilhões. O governo precisaria encontrar R$ 44 bilhões extras para alcançar o superávit de 0,5% do PIB previsto para 2027.

Os precatórios são uma das despesas mais antigas e mal resolvidas da história fiscal brasileira. São dívidas da União com cidadãos que venceram ações judiciais.

Em 2021, o governo Bolsonaro aprovou a primeira PEC dos Precatórios para escapar do teto de gastos. A manobra abriu espaço para o pagamento do Auxílio Brasil às vésperas das eleições.

Agora, o governo Lula se vê diante de um dilema semelhante. A interpretação mais folgada facilitaria o cumprimento formal da meta, mas elevaria o endividamento e poderia irritar os mercados.

A leitura mais rigorosa preserva a trajetória da dívida, mas exige um esforço fiscal adicional em ano pré-eleitoral.

O prazo para resolver o impasse é 15 de abril. Essa é a data limite para o envio do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2028 ao Congresso.

O Orçamento Anual precisa ser entregue até 31 de agosto. O momento coincide com o início da corrida eleitoral municipal de 2026.

O fator político pesa de forma inegável. A opção pela interpretação restrita e por novas receitas daria munição a adversários para criticar o aumento da carga tributária.

A escolha pela via mais folgada poderia provocar uma reação negativa do mercado financeiro. A pressão sobre o custo da dívida viria com a Selic em patamar historicamente elevado.

O Brasil encerrou 2024 com a taxa básica de juros a 10,5% ao ano. Cada ponto percentual a mais na Selic representa dezenas de bilhões a mais no serviço da dívida pública.

O Ministério da Fazenda reconheceu publicamente a discussão técnica e prometeu transparência. O Planejamento confirmou o debate, mas preferiu o silêncio sobre detalhes.

A Casa Civil não respondeu aos questionamentos da imprensa até o fechamento da matéria original.

Técnicos do governo afirmam que a decisão final não será puramente jurídica. A capacidade de encontrar receitas e o impacto político de cada escolha terão peso decisivo.

Uma saída intermediária já começa a ser aventada. Mesmo adotando a leitura mais permissiva, a equipe econômica poderia voluntariamente incorporar um percentual superior a 10% dos precatórios à meta.

O objetivo seria sinalizar comprometimento com a responsabilidade fiscal sem abrir mão do espaço jurídico conquistado pela nova PEC.

O objetivo declarado do governo é entregar uma proposta orçamentária equilibrada em 2027. A peça deve ser diferente da enviada por Bolsonaro em 2022, marcada por cortes e truques contábeis.

O desafio, contudo, é imenso. Mesmo antes desse impasse, as projeções do Tesouro Nacional já apontavam para a necessidade de novas fontes de receita.

O arcabouço fiscal, aprovado em 2023, passa agora por seu teste mais duro. Cumprir a meta de superávit primário sem abrir mão de investimentos sociais exigirá engenharia jurídica e crescimento econômico.

O desfecho dessa disputa dirá muito sobre a capacidade do governo de equilibrar prudência fiscal e proteção às políticas públicas. O equilíbrio precisa evitar tanto o rentismo dos mercados quanto a irresponsabilidade orçamentária do passado.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/03/18/impasse-nos-precatorios-ameaca-meta-fiscal-de-2027/feed/ 0
Rumor de greve de caminhoneiros provoca alta nos juros futuros https://www.ocafezinho.com/2026/03/17/rumor-de-greve-de-caminhoneiros-provoca-alta-nos-juros-futuros/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/17/rumor-de-greve-de-caminhoneiros-provoca-alta-nos-juros-futuros/#respond Tue, 17 Mar 2026 19:33:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/03/17/rumor-de-greve-de-caminhoneiros-provoca-alta-nos-juros-futuros/ A mera possibilidade de uma paralisação dos caminhoneiros agitou o mercado financeiro e elevou as taxas de juros futuros nesta terça-feira.

O mercado financeiro brasileiro demonstrou nervosismo nesta terça-feira.

A circulação de rumores sobre uma possível greve nacional de caminhoneiros derrubou o humor dos operadores ao longo da tarde.

As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs) haviam registrado queda durante boa parte do dia, refletindo um ambiente global mais calmo.

O cenário mudou rapidamente com as notícias sobre a paralisação. A taxa do DI para janeiro de 2027 saltou para 14,245%, acumulando alta de 17 pontos-base em minutos.

O movimento ilustra a rapidez com que o mercado antecipa riscos inflacionários. A sensibilidade a rumores, sem data ou adesão confirmada, revela frágil confiança no sistema.

A motivação alegada dos caminhoneiros é o aumento do preço do óleo diesel. O Brasil possui uma matriz de transporte extremamente dependente das rodovias.

Qualquer ameaça de paralisação se torna um vetor real de pressão sobre preços em toda a economia.

O episódio de 2018 deixou marcas profundas. A greve daquele ano paralisou o abastecimento e custou bilhões, resultado de uma política de preços que priorizou acionistas.

A política de preços dos combustíveis é um nó histórico. O governo atual buscou alterar a lógica anterior de paridade internacional.

Adotou um modelo mais atento às condições internas, conhecido como Preço de Paridade de Importação (PPI).

Mesmo assim, o preço do diesel segue pressionado por fatores estruturais e pela oscilação cambial. O dólar valorizado encarece as importações e os custos logísticos.

O Tesouro Nacional atuou no mercado de títulos públicos nesta terça, contribuindo para derrubar as taxas futuras no início do pregão.

A ação é parte de uma estratégia para administrar o custo da dívida pública e sinalizar compromisso com a estabilidade fiscal.

A reação do mercado ao rumor evidencia uma contradição. Movimentos de trabalhadores por condições dignas são tratados como ameaça inflacionária.

A especulação financeira, por sua vez, produz volatilidade diária sem constrangimento.

O Banco Central mantém a Selic em 13,75% ao ano, com perspectivas de manutenção. A taxa básica permanece entre as mais altas do mundo em termos reais.

Isso impõe um custo elevado ao investimento produtivo e ao crédito para famílias e empresas.

Não existe paralisação que produza dano comparável ao que os juros altos causam cotidianamente. O custo do capital corrói margens, eleva endividamento e retira recursos de áreas essenciais.

Uma greve, se confirmada, precisará ser tratada como questão política e social. Exigirá diálogo e soluções estruturais para a política de combustíveis.

Transformar a pauta dos trabalhadores em pretexto para apostas especulativas desqualifica demandas legítimas.

O governo federal terá o desafio de mediar este cenário. Precisará agir sem ceder ao pânico do mercado e sem ignorar as razões que levam uma categoria à paralisação.

A soberania econômica começa quando o Estado não se curva ao primeiro tremor nos terminais de negociação.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/03/17/rumor-de-greve-de-caminhoneiros-provoca-alta-nos-juros-futuros/feed/ 0
O alarmismo fiscal não resiste aos dados https://www.ocafezinho.com/2026/01/22/o-alarmismo-fiscal-nao-resiste-aos-dados/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/22/o-alarmismo-fiscal-nao-resiste-aos-dados/#respond Thu, 22 Jan 2026 17:13:44 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=224888 Não caia no terrorismo fiscal da Faria Lima e de seus tentáculos na mídia.

Parte relevante da cobertura econômica brasileira segue operando sob um registro quase automático de catástrofe. Qualquer debate sobre dívida, resultado primário ou trajetória fiscal costuma ser tratado como sinal iminente de colapso, independentemente dos dados disponíveis. O problema não é apenas de opinião: é um descolamento crescente entre o discurso midiático e as projeções técnicas produzidas pelo próprio Estado brasileiro, com metodologias explícitas, hipóteses transparentes e horizonte de médio e longo prazo.

O Relatório de Projeções Fiscais (RPF) – 2º semestre de 2025, publicado pela Secretaria do Tesouro Nacional, é um exemplo claro desse contraste. Longe de pintar um cenário idílico, o documento apresenta projeções realistas, conservadoras em vários pontos, mas estruturalmente incompatíveis com a narrativa de insolvência ou descontrole fiscal frequentemente difundida.

O relatório trabalha com projeções até 2035, baseadas no cenário macroeconômico da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda e nas regras do Regime Fiscal Sustentável (Lei Complementar nº 200/2023). Trata-se, portanto, de um exercício técnico, não de propaganda, nem de defesa de políticas específicas.

Os resultados são inequívocos.

No cenário de referência, o déficit primário do setor público é transitório. Após registrar -0,5% do PIB em 2025, o resultado primário melhora gradualmente, alcançando equilíbrio em 2028 e passando a superávits crescentes a partir daí. Em 2030, o superávit primário já se aproxima de 0,7% do PIB, chegando a 1,1% em 2035. No caso do Governo Central, a trajetória é semelhante, com superávits superiores a 1% do PIB no final do horizonte projetado.

Essa dinâmica desmonta a tese de que o Brasil estaria condenado a déficits permanentes. O ajuste ocorre de forma gradual, sem choque recessivo, apoiado em crescimento econômico, estabilização das despesas e recomposição de receitas, não em cortes abruptos.

A trajetória da dívida pública, outro foco recorrente de pânico, também é muito mais estável do que sugerem as manchetes alarmistas. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) sobe até o início da próxima década, atingindo um pico em torno de 88,6% do PIB em 2032, e passa a recuar em seguida, fechando 2035 em 88,0% do PIB. A Dívida Líquida do Governo Geral segue padrão semelhante, com estabilização e posterior queda.

Não há explosão da dívida. Não há trajetória fora de controle. Há um movimento conhecido, observado em diversas economias, em que a dívida cresce em um primeiro momento — pressionada por juros ainda elevados e heranças fiscais — e se estabiliza à medida que o resultado primário melhora e o crescimento nominal do PIB supera o custo médio da dívida.

O próprio relatório explicita que, para estabilizar a dívida no nível de 2025, seria necessário um resultado primário médio de cerca de 1,3% do PIB, algo plenamente compatível com a trajetória projetada a partir do início da próxima década. Não se trata de uma meta fantasiosa, mas de um cenário construído a partir de parâmetros conservadores de crescimento, inflação e juros.

Aliás, o cenário macroeconômico utilizado pelo Tesouro é tudo menos complacente. O crescimento real médio do PIB projetado para o período 2025–2035 é de 2,7% ao ano — um número moderado, longe de qualquer otimismo excessivo. A inflação converge para 3% ao ano a partir de 2028, em linha com a meta. A taxa Selic cai gradualmente, estabilizando-se em torno de 6,4% ao ano no longo prazo, o que corresponde a juros reais pouco acima de 3%.

Nada disso sugere um país em colapso. Ao contrário: sugere uma economia que, mesmo sob hipóteses prudentes, consegue organizar sua trajetória fiscal ao longo do tempo.

Outro ponto frequentemente distorcido no debate público é a evolução das despesas. O relatório mostra que a despesa primária do Governo Central, como proporção do PIB, cai de cerca de 19% em 2025 para 17,2% em 2035. Essa redução não decorre de cortes lineares ou desmonte do Estado, mas do próprio funcionamento do novo arcabouço fiscal, que vincula o crescimento real das despesas à evolução da receita líquida ajustada, com limites mínimos e máximos.

As despesas obrigatórias crescem, especialmente previdência, saúde e educação, mas em ritmo compatível com o crescimento do PIB e do limite fiscal. As despesas discricionárias, longe de serem esmagadas, apresentam crescimento real médio de 2,6% ao ano no cenário de referência, o que contraria a ideia de asfixia completa do investimento público.

O relatório também é explícito ao tratar dos riscos. Analisa cenários alternativos, choques de juros, crescimento e resultado primário, além de simulações estocásticas para a dívida. Em todos eles, a mensagem é a mesma: a trajetória da dívida é sensível, mas administrável. Não há dinâmica explosiva automática. O fator decisivo continua sendo o resultado primário, não algum suposto “pecado original” fiscal.

É revelador que, mesmo após incorporar os efeitos da Emenda Constitucional nº 136, que alterou o tratamento dos precatórios, o relatório não identifica ruptura na trajetória fiscal. Há impacto, há desafios adicionais, mas o ajuste continua viável dentro das regras existentes.

Diante desse conjunto de evidências, a insistência em um discurso catastrófico diz mais sobre preferências políticas e vícios narrativos do que sobre a realidade fiscal brasileira. Não se trata de negar problemas, mas de reconhecê-los na escala correta, com base em dados, projeções e métodos transparentes.

O Relatório de Projeções Fiscais é um documento técnico. E exatamente por isso ele desmonta, com números e séries longas, a caricatura de um país fiscalmente inviável. A ciência econômica aplicada ao setor público, quando levada a sério, mostra algo bem diferente do colapso permanente anunciado em parte da mídia: um país com desafios, sim, mas com trajetória fiscal sustentável no médio e longo prazo.

Os números negativos do déficit primário, nesse gráfico, correspondem na verdade a superávits primários (ou seja, são números positivos, bons).

Para baixar a íntegra do relatório, clique aqui.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2026/01/22/o-alarmismo-fiscal-nao-resiste-aos-dados/feed/ 0