jornalismo - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/jornalismo/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Sat, 24 Jan 2026 17:28:12 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png jornalismo - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/jornalismo/ 32 32 Na era Trump, precisamos de sátira mais do que nunca. Só não espere que ela salve a democracia https://www.ocafezinho.com/2026/01/25/na-era-trump-precisamos-de-satira-mais-do-que-nunca-so-nao-espere-que-ela-salve-a-democracia/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/25/na-era-trump-precisamos-de-satira-mais-do-que-nunca-so-nao-espere-que-ela-salve-a-democracia/#respond Sun, 25 Jan 2026 15:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=224965 Nos Estados Unidos, o humor há muito preenche o espaço deixado pela mídia jornalística partidária. Agora, a França está seguindo o mesmo caminho

Às vezes, a liberdade e a abertura da comédia permitem que ela responda melhor aos acontecimentos mundiais do que os meios de comunicação tradicionais. Veja, por exemplo, as representações estridentes, desvairadas e visualmente perturbadoras de Donald Trump em South Park – mais recentemente, traindo Satanás (que está carregando seus filhos ) com JD Vance na Casa Branca. De fato, Trey Parker e Matt Stone dominam esse terreno.

Mas não há razão para que programas de sátira televisiva como o The Daily Show tenham que assumir o papel de provedor de notícias , jornalista investigativo e crítico. No entanto, ao longo das últimas três décadas, a incapacidade da mídia corporativa americana de cobrir adequadamente a política decadente do país levou pessoas como Jon Stewart a preencher essa lacuna.

O problema foi identificado já em 2000 pelo economista americano Paul Krugman. Ele criticou a imprensa por estar “fanaticamente determinada a parecer imparcial”, a ponto de se recusar a denunciar mentiras absurdas. “Se um candidato à presidência declarasse que a Terra é plana”, escreveu Krugman, “certamente veríamos uma análise jornalística com a manchete ‘Forma do Planeta: Ambos os Lados Têm Razão'”.

Foi nesse contexto que a sátira americana alcançou seu triunfo catártico nos primeiros anos do século XXI. O The Daily Show começou a realizar entrevistas mais incisivas do que a maioria dos programas de horário nobre da TV. Stephen Colbert ganhou destaque ao interpretar um apresentador fictício de talk show conservador, numa paródia assumida do programa de Bill O’Reilly na Fox News em meados dos anos 2000. Já John Oliver foi pioneiro na “comédia investigativa”, frequentemente revelando escândalos com mais sucesso do que os próprios programas de notícias que satirizava.

Como argumentam dois pesquisadores das universidades de Innsbruck e Groningen em um artigo publicado no verão passado, as “mudanças afetivas” no público permitem que os comediantes de programas noturnos construam confiança com sua audiência, “o que, em última análise, permite que a comédia política atue como uma forma de jornalismo opinativo”.

Uma nova geração de comediantes de stand-up parece entender esse poder instintivamente. “Os comediantes não precisam seguir as mesmas regras, então podem apontar o óbvio ululante – tão óbvio que chega a ser subjetivo”, disse-me o jornalista e comediante parisiense Charles Pellegrin. Enquanto isso, Safia Benyahia, que dirige uma produtora de comédia em Paris, afirmou que o stand-up ganhou popularidade “porque tudo está mais político e divisivo. As pessoas estão pisando em ovos e confiam na comédia para abordar temas difíceis de forma segura”.

Mas as fronteiras estão cada vez mais tênues. Das declarações oficiais absurdas emitidas pela Casa Branca aos roteiristas de comédia que se esforçam para satirizar eventos sérios e horríveis, as notícias políticas quase romperam com a comédia.

“Trump nos deu tanto material que só era possível abordá-lo superficialmente, e muitos espectadores, eu acho, pensaram: você está apenas relatando o dia”, disse-me o astro do stand-up americano da geração millennial, Gianmarco Soresi. A comédia, em sua melhor forma, continuou ele, “é tentar explodir coisas. A comédia deve questionar o poder, e no momento em que a comédia se torna poder, ela perde sua eficácia, e é por isso que foi tão ofensivo quando os comediantes se aliaram a Trump”.

No entanto, Soresi também fez questão de dizer que a comédia não pode substituir a política: há limites para o seu poder. “Acho que podemos criar um espaço para alívio? Sim. Acho que pode criar um espaço para reflexão? Sim. Acho – como judeu americano – que pode apontar as falhas da agenda geopolítica de Israel? Sim”, diz Soresi. “Acho que pode construir um movimento político que derrube Netanyahu? Não.”

Frequento bastante shows de stand-up comedy em bares subterrâneos parisienses, onde a cena de Pellegrin e Benyahia está em plena expansão. Dei boas risadas com a última temporada de South Park e sei que comediantes como Stewart, Oliver e Colbert ajudam regularmente a preservar a sanidade dos meus amigos americanos. Mas existe um perigo no que estamos pedindo à comédia: assumir a responsabilidade do jornalismo de informar o público e atuar como um fórum público – mas sem nenhuma das salvaguardas institucionais do jornalismo.

Quando me mudei para a França, em 2012, me perguntei por que não parecia haver a mesma prevalência de programas de comédia política satírica na TV francesa como nos EUA. Aos poucos, percebi que isso acontecia porque a mídia jornalística estava fazendo seu trabalho corretamente. O programa político noturno Des Paroles et Des Actes, da France 2, incluía checagem ao vivo das afirmações feitas por seus convidados. Os debates presidenciais eram mais do que uma simples coleção de frases de efeito de 30 segundos: os moderadores faziam perguntas adicionais aos candidatos, às vezes várias vezes, e a imparcialidade era garantida pelo controle do tempo total de fala.

Contudo, na última década e meia, a qualidade da mídia francesa também vem caindo. Dois bilionários de direita, em particular, absorveram emissoras de televisão, estações de rádio e jornais. A CNews se posicionou como uma versão francesa da Fox News, a confiança na mídia caiu e a desinformação ganhou força. Ao mesmo tempo, a sociedade francesa se sente mais polarizada e a extrema direita aumentou seu desempenho eleitoral.

Temo que a França esteja trilhando o mesmo caminho dos EUA, onde a mídia tradicional se torna mais fraca e partidária, a política vira uma farsa e a comédia preenche o vazio: veja, por exemplo, o site satírico Le Gorafi desmascarando Sarkozy por suas absurdas memórias da prisão, após apenas três semanas na cadeia .

O movimento antipolítico prospera onde o movimento antimídia cria raízes, deixando a comédia como catarse e causa. Não sei se isso pode ser revertido, mas sei que precisamos tentar. Seja qual for o custo, o retorno a longo prazo será muito maior. Sem isso, corremos o risco de transformar o palco do humorista em nosso fórum público mais importante. Isso é perigoso para a sociedade e também o oposto do que a comédia deveria ser.

Publicado originalmente pelo The Guardian em 24/01/2026

Por Alexandre Hurst

Alexander Hurst é colunista do Guardian Europe.

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Liberdade de imprensa melhora sob Lula, com Brasil subindo para 63º lugar no ranking da RSF https://www.ocafezinho.com/2025/12/11/liberdade-de-imprensa-melhora-sob-lula-com-brasil-subindo-para-63o-lugar-no-ranking-da-rsf/ https://www.ocafezinho.com/2025/12/11/liberdade-de-imprensa-melhora-sob-lula-com-brasil-subindo-para-63o-lugar-no-ranking-da-rsf/#respond Thu, 11 Dec 2025 14:51:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=222939 O Brasil registrou avanço significativo no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa divulgado pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A melhora no índice acompanha a transição política ocorrida após o fim do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e o início da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No levantamento de 2025, que classificou 180 países e territórios, o Brasil subiu para a 63ª posição, com pontuação geral de 63,80, contra a 82ª colocação em 2024 e posições ainda mais baixas nos anos anteriores. Em comparação com 2022, último ano completo do governo Bolsonaro, o país pulou 47 posições, um dos maiores saltos de melhoria registrados no ranking naquele ano.

Segundo a RSF, essa recuperação se deve a um contexto considerado menos hostil à imprensa no período recente, com normalização das relações entre o poder público e os veículos de comunicação, além de sinais de redução de pressões diretas e linguagem agressiva contra jornalistas em espaços públicos. A análise leva em conta indicadores políticos, econômicos, legislativos, sociais e de segurança para medir as condições de trabalho jornalístico no país.

Internacionalmente, esse aumento no ranking é interpretado como um reflexo de políticas públicas e de ambiente institucional que favorecem o pluralismo, a independência editorial e a possibilidade de atuação crítica e investigativa dos meios de comunicação, elementos que, segundo a RSF, se deterioraram em anos recentes em diversos países.

Ainda que reconheça a melhora, a RSF classifica a situação do Brasil como “problemática”, indicando que desafios estruturais — como a concentração da propriedade dos meios de comunicação, riscos à segurança dos profissionais e impactos da desinformação — persistem e limitam uma situação de liberdade plena. A organização também observou que a melhora do índice brasileiro contrasta com um contexto global preocupante: mais da metade dos países avaliados registrou queda entre 2024 e 2025, e o índice global alcançou seu menor nível histórico, com muitos governos adotando posturas repressivas ou criando barreiras legais e econômicas à ação da imprensa.

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Um estudo europeu desmonta o mito da precisão artificial https://www.ocafezinho.com/2025/11/09/um-estudo-europeu-desmonta-o-mito-da-precisao-artificial/ https://www.ocafezinho.com/2025/11/09/um-estudo-europeu-desmonta-o-mito-da-precisao-artificial/#respond Sun, 09 Nov 2025 19:40:18 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220895 As máquinas erram, mas com autoridade: uma geração aprende a confiar em oráculos que mentem metade das vezes

A máscara caiu. Os novos arautos da verdade, os assistentes de inteligência artificial vendidos ao público como ferramentas revolucionárias de informação, são fundamentalmente “não confiáveis”. Esta não é uma suspeita ou um temor ludita; é a conclusão inequívoca de um estudo massivo conduzido pela União Europeia de Radiodifusão (UER), a maior aliança de meios de comunicação de serviço público do mundo. O relatório, uma colaboração robusta que incluiu gigantes da radiodifusão pública como a BBC, a Radio France e a Deutsche Welle, expõe a nu a negligência sistêmica das corporações que controlam o fluxo de informação digital.

O estudo não foi superficial. Envolveu 22 veículos de comunicação de serviço público de 18 países, que metodicamente fizeram as mesmas 30 perguntas sobre notícias e assuntos da atualidade às versões gratuitas das ferramentas mais onipresentes do Vale do Silício: ChatGPT da OpenAI, Copilot da Microsoft, Gemini do Google e Perplexity.

O resultado é um atestado de falência informacional. No geral, 45% de todas as respostas geradas por estas IAs apresentaram “pelo menos um problema significativo”. Quase metade do tempo, a informação fornecida por estes monopólios de tecnologia é, na melhor das hipóteses, falha.

O que é ainda mais alarmante é a natureza desses erros. O estudo descobriu que uma em cada cinco respostas “continha problemas graves de precisão”. Não estamos falando de pequenos erros de digitação, mas de “detalhes alucinatórios e informações desatualizadas”. Em suma, as máquinas estão mentindo, inventando eventos, confundindo paródias com fatos e errando datas cruciais.

A anatomia dessa falha revela uma crise de responsabilidade corporativa. A principal causa de problemas, respondendo por 31% dos casos, foi a falta de fontes — atribuições ausentes, enganosas ou simplesmente incorretas. Em um mundo pós-verdade, onde a proveniência da informação é a única âncora que temos, as Big Techs decidiram soltá-la. Seguem-se a falta de precisão (20% dos problemas) e a ausência de contexto (14%).

Essas ferramentas não estão apenas errando; estão ativamente poluindo o ecossistema de informação com dados fabricados, apresentados com uma autoridade algorítmica inquestionável.

O desempenho do Gemini, do Google — uma das empresas mais ricas e poderosas da história humana — foi particularmente desastroso. O estudo aponta que o Gemini teve o “pior desempenho, com problemas significativos em 76% das respostas”. Três quartos das vezes, a ferramenta falhou, “em grande parte devido ao seu fraco desempenho na busca de fornecedores”.

Um exemplo destacado é tão absurdo quanto perigoso. A Rádio França perguntou ao Gemini sobre uma suposta saudação nazista de Elon Musk. O chatbot respondeu que o bilionário tinha “uma ereção no braço direito”. A IA do Google aparentemente consumiu um programa de rádio satírico e o regurgitou como fato literal.

O pior, no entanto, foi o que veio a seguir: o Gemini citou a própria Rádio França e a Wikipédia como fontes para essa informação grotescamente falsa, sem fornecer qualquer link. Como o avaliador da Rádio França escreveu, “o chatbot transmite informações falsas usando o nome da Rádio França, sem mencionar que essas informações provêm de uma fonte humorística”. Vemos aqui a máquina corporativa não apenas errando, mas ativamente difamando e minando a credibilidade de uma instituição de mídia pública ao usá-la como escudo para sua própria alucinação.

A incompetência não para aí. Múltiplos veículos de comunicação, incluindo o finlandês YLE e os holandeses NOS e NPO, perguntaram ao ChatGPT, Copilot e Gemini “Quem é o Papa?”. As respostas indicaram “Francisco”. No entanto, no momento do estudo, o Papa Francisco já havia falecido e sido sucedido por Leão XIV. Essas plataformas, com acesso a um volume de dados sem precedentes, não conseguem sequer acompanhar um dos eventos globais mais noticiados.

Notícias de rápida evolução e citações diretas também se provaram obstáculos intransponíveis, com as IAs frequentemente inventando ou modificando declarações. Um avaliador da BBC resumiu perfeitamente o problema ético central: “Como todos os resumos, a IA falha em responder à pergunta com um simples e preciso ‘não sabemos’. Ela tenta preencher a lacuna com explicações em vez de fazer o que um bom jornalista faria, que é explicar os limites do que sabemos ser verdade.”

O jornalismo público é construído sobre a verificação e a admissão de limites. A IA corporativa é construída sobre a presunção de autoridade e o preenchimento de lacunas com falsidades.

Este não é um problema técnico; é um problema democrático.

De acordo com um relatório do Instituto Reuters, 15% das pessoas com menos de 25 anos já utilizam essas ferramentas defeituosas semanalmente para obter resumos de notícias. Uma geração inteira está sendo ensinada a confiar em oráculos que mentem metade das vezes.

Jean Philip De Tender, vice-diretor geral da UER, foi direto ao ponto: “Os assistentes de IA ainda não são uma forma confiável de acessar e consumir notícias.” Ele enfatiza que as falhas não são “incidentes isolados”, mas sim “sistêmicas, transfronteiriças e multilíngues”.

A conclusão de De Tender deveria servir como um alarme de incêndio para todas as sociedades livres: “Acreditamos que isso põe em risco a confiança pública. Quando as pessoas não sabem em quem confiar, acabam não confiando em nada, e isso pode inibir a participação democrática.”

O estudo da UER não é apenas um relatório técnico; é uma acusação formal. As gigantes da tecnologia, em sua busca desenfreada por domínio de mercado, lançaram produtos inacabados e perigosos que estão ativamente erodindo a fundação da realidade compartilhada. Enquanto os serviços públicos de comunicação lutam para manter padrões de precisão e contexto, os monopólios do Vale do Silício inundam o mundo com desinformação conveniente, alucinatória e sem fontes. A confiança pública está sendo sacrificada no altar da inovação corporativa, e a própria participação democrática é a vítima colateral.

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IA confunde notícias reais com paródias https://www.ocafezinho.com/2025/10/23/ia-confunde-noticias-reais-com-parodias/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/23/ia-confunde-noticias-reais-com-parodias/#respond Thu, 23 Oct 2025 07:30:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220897 O estudo constatou que uma em cada cinco respostas “continha problemas graves de precisão, incluindo detalhes alucinatórios e informações desatualizadas”

Um recente estudo da União Europeia de Radiodifusão (UER) revelou aquilo que muitos jornalistas, educadores e pensadores críticos da tecnologia já suspeitavam: os assistentes de inteligência artificial, tão exaltados como o futuro da informação, estão longe de serem confiáveis. ChatGPT, Copilot, Gemini e Perplexity — os quatro grandes modelos testados — erraram em quase metade das vezes em que foram questionados sobre notícias e assuntos atuais. E o mais grave: os erros não foram pontuais, mas sistemáticos, atravessando fronteiras, idiomas e contextos culturais.

Em uma época em que a desinformação é uma arma política e econômica, o resultado desse estudo não é apenas um alerta técnico — é um chamado político. A dependência crescente de ferramentas controladas por megacorporações privadas, quase todas norte-americanas, para mediar o acesso à informação mundial, é um risco para a democracia e para a soberania informacional dos povos.

Os dados são contundentes: 45% das respostas dadas pelos assistentes de IA apresentaram “pelo menos um problema significativo”. Uma em cada cinco continha erros graves de precisão — informações falsas, desatualizadas ou simplesmente inventadas. Em muitos casos, as IAs confundiram sátiras com fatos, erraram datas ou criaram eventos inexistentes. O exemplo mais chocante veio da Rádio França, que testou o Gemini, do Google: ao ser perguntado sobre uma suposta saudação nazista de Elon Musk, o sistema afirmou que o bilionário teria “uma ereção no braço direito”, baseando-se em um programa humorístico, mas citando a Rádio França como fonte real. Eis o retrato do perigo: a mentira com aparência de credibilidade.

A falta de fontes confiáveis — ausentes, enganosas ou incorretas — foi o principal problema, responsável por 31% dos casos. E o que isso revela? Que essas tecnologias, ao contrário do que vendem os seus criadores, não são “neutras” nem “objetivas”. Elas operam dentro de uma lógica de mercado, moldada por algoritmos proprietários e por interesses corporativos. Quando uma IA responde, não há jornalismo: há cálculo estatístico. E cálculo algum é capaz de substituir a apuração, o contexto e o compromisso ético que caracterizam o trabalho jornalístico.

O caso do “Papa morto” é outro exemplo sintomático. Quando veículos públicos da Finlândia e da Holanda perguntaram quem era o Papa, ChatGPT, Copilot e Gemini responderam que ainda era Francisco — mesmo ele já tendo falecido e sido sucedido por Leão XIV. Trata-se de um erro que parece banal, mas que, em escala global, mina a confiança nas instituições e reforça a desinformação.

Jean Philip De Tender, vice-diretor geral da UER, foi direto: “Essas falhas não são incidentes isolados. Elas são sistêmicas, transfronteiriças e multilíngues, e isso põe em risco a confiança pública”. Quando o público não sabe em quem confiar, como ele diz, acaba não confiando em nada. E esse é justamente o terreno fértil onde o autoritarismo cresce.

Há, portanto, um pano de fundo mais profundo: a crise de confiança no jornalismo é alimentada não só pela desinformação política ou pelo extremismo ideológico, mas também pela privatização da verdade — pela entrega do processo de produção e disseminação de informação a empresas que não têm compromisso público algum. Enquanto as redações jornalísticas enfrentam cortes, precarização e censura econômica, os grandes conglomerados tecnológicos lucram com a confusão.

Os jovens, especialmente, estão sendo moldados por esse novo ecossistema. O Instituto Reuters revelou que 15% das pessoas com menos de 25 anos usam assistentes de IA semanalmente para se informar. Ou seja, a geração que deveria ser mais crítica, plural e engajada, está sendo educada por sistemas que distorcem fatos e apagam contextos — uma forma de alienação digital sutil, mas poderosa.

Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de politizá-la. A IA pode, sim, ser uma ferramenta poderosa para o jornalismo e para o conhecimento, mas desde que seja pública, transparente e regulada. É urgente que os Estados, as universidades e os veículos de comunicação públicos se unam para desenvolver modelos abertos e auditáveis, livres da lógica de lucro e voltados para o interesse coletivo.

A Europa já começa a implementar novas regras de IA, mas enfrenta a resistência das gigantes tecnológicas. Não é surpresa: quem lucra com a opacidade teme a transparência. Enquanto isso, seguimos em uma encruzilhada histórica. Se aceitarmos passivamente que as máquinas decidam o que é verdade, estaremos abrindo mão de um dos pilares da democracia: o direito à informação livre, plural e verificável.

O estudo da UER deixa claro: confiar cegamente em assistentes de IA é abdicar do pensamento crítico. E, em tempos de crise política e de manipulação em massa, pensar criticamente é, mais do que nunca, um ato de resistência.

Com informações de RFI*

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Assistentes de IA ‘não são confiáveis’ https://www.ocafezinho.com/2025/10/22/assistentes-de-ia-nao-sao-confiaveis/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/22/assistentes-de-ia-nao-sao-confiaveis/#respond Wed, 22 Oct 2025 23:30:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220896 Estudo da União Europeia de Radiodifusão sobre inteligência artificial revelou que assistentes de IA, como o ChatGPT, cometiam erros em cerca de metade das vezes

Em uma era onde a busca por informação instantânea se tornou rotina, um balde de água fria vem da Europa. Um estudo de peso, liderado pela União Europeia de Radiodifusão (UER), concluiu que os assistentes de inteligência artificial, como ChatGPT e Gemini, simplesmente ‘não são confiáveis’ quando o assunto é atualidade. A pesquisa é alarmante: em quase metade das vezes (45%) que foram questionados sobre notícias, os chatbots apresentaram “pelo menos um problema significativo”.

Os erros vão do cômico ao perigoso. Em um dos testes mais absurdos, a Rádio França perguntou ao Gemini sobre uma suposta saudação nazista de Elon Musk na posse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A IA respondeu que o bilionário tinha “uma ereção no braço direito”. A fonte? O chatbot aparentemente interpretou um programa de rádio satírico de forma literal.

Para piorar, o Gemini citou a própria Rádio França e a Wikipédia como fontes da informação falsa, sem fornecer links. “Portanto, o chatbot transmite informações falsas usando o nome da Rádio França, sem mencionar que essas informações provêm de uma fonte humorística”, desabafou o avaliador da emissora francesa.

Esse não foi um caso isolado. O estudo, divulgado na quarta-feira (22 de outubro de 2025), revelou que uma em cada cinco respostas “continha problemas graves de precisão, incluindo detalhes alucinatórios e informações desatualizadas”. As IAs confundiram notícias reais com paródias, erraram datas e, em alguns casos, simplesmente inventaram eventos.

Em outro exemplo gritante de informação desatualizada, diversos veículos de comunicação, incluindo a emissora pública finlandesa YLE e as holandesas NOS e NPO, fizeram uma pergunta simples: “Quem é o Papa?”.

Tanto o ChatGPT quanto o Copilot e o Gemini responderam categoricamente que era “Francisco”. O problema: na época da consulta, o Papa Francisco já havia falecido e sido sucedido por Leão XIV.

O relatório foi um esforço colaborativo de fôlego. A UER realizou o estudo em parceria com a gigante britânica BBC, aprofundando uma análise interna anterior da própria BBC.

Entre o final de maio e o início de junho, 22 veículos de comunicação de serviço público de 18 países — incluindo nomes de peso como a alemã Deutsche Welle e a americana NPR, além das já citadas — participaram da investigação.

O método foi simples e direto: jornalistas fizeram as mesmas 30 perguntas relacionadas a notícias às versões gratuitas de quatro dos assistentes de IA mais populares do mercado:

  • ChatGPT (OpenAI)
  • Copilot (Microsoft)
  • Gemini (Google)
  • Perplexity

As mais de 3.000 respostas geradas foram minuciosamente verificadas por jornalistas humanos, que as avaliaram com base em cinco critérios rigorosos: precisão, fontes, distinção entre opinião e fato, editorialização e contexto.

A principal falha encontrada não foi apenas a invenção de fatos, mas a opacidade. A falta de fontes — atribuições ausentes, enganosas ou incorretas — foi a principal causa de problemas, representando 31% dos casos. Em seguida, vieram a precisão, que causou 20% dos problemas, e a falta de contexto suficiente, com 14%.

Dos quatro assistentes testados, o Gemini, do Google, teve o pior desempenho. O relatório afirmou que ele apresentou “problemas significativos em 76% das respostas, mais que o dobro dos outros assistentes, em grande parte devido ao seu fraco desempenho na busca de fornecedores”.

Notícias de rápida evolução e a verificação de citações diretas provaram ser obstáculos quase intransponíveis para as máquinas, que por vezes inventaram ou modificaram as falas.

Um avaliador da BBC, analisando uma resposta do Gemini, resumiu a frustração: “Como todos os resumos, a IA falha em responder à pergunta com um simples e preciso ‘não sabemos’. Ela tenta preencher a lacuna com explicações em vez de fazer o que um bom jornalista faria, que é explicar os limites do que sabemos ser verdade”.

Para Jean Philip De Tender, vice-diretor geral da EBU, os resultados são um sinal de alerta para a sociedade, especialmente num momento em que, segundo o Instituto Reuters, 15% dos jovens com menos de 25 anos já usam IAs semanalmente para obter resumos de notícias.

“Os assistentes de IA ainda não são uma forma confiável de acessar e consumir notícias”, declarou De Tender.

Ele foi enfático ao afirmar que o problema é estrutural: “Esta pesquisa demonstra conclusivamente que essas falhas não são incidentes isolados. Elas são sistêmicas, transfronteiriças e multilíngues, e acreditamos que isso põe em risco a confiança pública.”

A conclusão do executivo é sombria e serve como um aviso para a era da informação automatizada: “Quando as pessoas não sabem em quem confiar, acabam não confiando em nada, e isso pode inibir a participação democrática.”

Com informações de RFI*

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Morre Mino Carta, fundador da CartaCapital e figura central da imprensa brasileira https://www.ocafezinho.com/2025/09/02/morre-mino-carta-fundador-da-cartacapital-e-figura-central-da-imprensa-brasileira/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/02/morre-mino-carta-fundador-da-cartacapital-e-figura-central-da-imprensa-brasileira/#respond Tue, 02 Sep 2025 11:12:20 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216625 Mino Carta, jornalista responsável pela criação de alguns dos mais importantes veículos do país, morreu nesta terça-feira (2), em São Paulo, aos 91 anos. Internado havia duas semanas no Hospital Sírio-Libanês, ele não resistiu a complicações de saúde. A causa da morte não foi divulgada.

Nascido em Gênova, na Itália, em 1933, Mino chegou ao Brasil ainda criança após seus pais, também jornalistas, serem perseguidos pelo regime fascista de Mussolini. Foi um dos fundadores do Jornal da Tarde em 1966, da revista Veja em 1968, da IstoÉ em 1976 e do Jornal da República em 1979, que teve curta duração. Em 1994, lançou a CartaCapital, publicação que dirigiu até os últimos anos e que se tornou referência no debate político e econômico nacional.

Ao longo de mais de seis décadas de atividade, Mino Carta se destacou pela capacidade de estruturar redações, formar equipes e propor novos modelos de reportagem e análise, sempre atento ao papel da imprensa no debate público. Além da atuação em jornais e revistas, também se dedicou à literatura, publicando livros como O Castelo de Âmbar (2000), romance em que mescla memória e ficção, A Sombra do Silêncio (2003), relato de forte cunho autobiográfico, e A Sombra do Poder (2019), em que revisita sua experiência na imprensa e analisa as relações entre mídia e política no Brasil. Foi ainda autor de Minhocarta – O Brasil (2012), livro em que expõe sua visão crítica do país. Fora da escrita, cultivava também a pintura, com obras expostas em diversas galerias do Brasil.

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A ofensiva discursiva de Milei contra o jornalismo: acusações, desinformação e tensão institucional https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/a-ofensiva-discursiva-de-milei-contra-o-jornalismo-acusacoes-desinformacao-e-tensao-institucional/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/a-ofensiva-discursiva-de-milei-contra-o-jornalismo-acusacoes-desinformacao-e-tensao-institucional/#respond Fri, 02 May 2025 11:56:24 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=207819

Em mais um ataque retórico que já não surpreende, mas continua preocupando, o presidente argentino Javier Milei intensificou seu confronto com a imprensa por meio de uma série de publicações nas redes sociais, nas quais lançou acusações infundadas e fez ataques pessoais. O chefe de Estado não apenas reafirmou sua tese de que jornalistas “treinam” para provocar entrevistados, como também chegou a sugerir que deveriam ser ainda mais “odiados” pela sociedade.

Durante o Dia do Trabalhador, Milei elevou o tom. Em sua conta oficial na rede X (antigo Twitter), publicou uma enxurrada de perguntas retóricas para justificar a atitude de seu assessor Santiago Caputo, que dias antes havia intimidado um repórter fotográfico antes de um debate eleitoral. O presidente insinuou que jornalistas perseguem, assediam, empurram com microfones e até invadem a privacidade de figuras públicas com drones e luzes potentes, com o objetivo de agredir ou expor.

“É lícito que jornalistas usem drones na casa de uma pessoa? É lícito que mintam, caluniem e difamem sem permitir defesa?”, escreveu. E concluiu: “Por isso odeiam as redes sociais. Hoje não podem extorquir nem chantagear. Suas receitas caem e por isso batem”.

Sem apresentar provas ou dados verificáveis, Milei compartilhou a imagem de uma suposta cartilha de “treinamento” jornalístico, onde se ensinaria a “empurrar, pisar e até cuspir” propositalmente para provocar uma reação do entrevistado. A imagem serviu de gatilho para uma nova rodada de acusações, com a repetição de uma frase que se tornou frequente em seu discurso: “Não odiamos o suficiente os jornalistas”.

A resposta de profissionais da comunicação foi rápida. Fontes de instituições acadêmicas ligadas ao ensino de jornalismo, assim como representantes do setor midiático, desmentiram categoricamente a existência de tais práticas. Explicaram que o chamado media training, ao qual Milei se refere, não é voltado para jornalistas, mas sim para autoridades, dirigentes ou porta-vozes — com o objetivo de prepará-los para entrevistas, e não de estimular hostilidade.

O ataque também tem nomes. Milei passou a apontar diretamente comunicadores como Diego Brancatelli, Nacho Girón e Paulino Rodríguez, numa estratégia de personalização que busca criar inimigos visíveis para sua narrativa. Esses ataques elevaram o alerta em organizações que atuam em defesa da liberdade de imprensa.

Tanto o Foro de Periodismo Argentino (FOPEA) quanto a Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (ADEPA) expressaram preocupação com o progressivo enfraquecimento das garantias institucionais para o exercício livre do jornalismo no país. Em notas públicas, destacaram o efeito intimidador desse tipo de retórica, que atinge não só jornalistas, mas a qualidade democrática como um todo.

Embora Milei se diga vítima de uma suposta conspiração midiática, seu discurso parece mais voltado a enfraquecer os contrapesos críticos do que a resolver problemas concretos. Em um contexto econômico e social frágil — com mais de 200 mil pessoas desempregadas em La Plata e na Grande La Plata, segundo o último levantamento do INDEC —, o confronto permanente com a imprensa se revela mais como uma manobra de distração do que como política de governo.


2 de maio de 2025
Fonte: Infoplatense

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https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/a-ofensiva-discursiva-de-milei-contra-o-jornalismo-acusacoes-desinformacao-e-tensao-institucional/feed/ 0
Dia dos jornalistas: como conteúdos profissionais podem vencer fakes https://www.ocafezinho.com/2025/04/07/dia-dos-jornalistas-como-conteudos-profissionais-podem-vencer-fakes/ Mon, 07 Apr 2025 14:01:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=206147 Pesquisadores avaliam estratégias para combater desinformação

De um lado do front, postagens com conteúdos que se assemelham a notícias ou mesmo aqueles com aparência de amadorismo, mas que se apresentam como se estivessem interessados em denunciar irregularidades. Do outro lado, notícias e reportagens produzidas por jornalistas profissionais baseadas em apuração e checagem de fatos. Eis o duelo.

Vencer essa disputa pela atenção da sociedade tem sido um dos maiores desafios da categoria e dos veículos de comunicação, e esse é um debate que se impõe em datas como o Dia dos Jornalistas, celebrado nesta segunda, 7 de abril.

De acordo com pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, o que pode estar em jogo nessa batalha é a garantia do direito humano à informação e também a manutenção da democracia. Mesmo não se tratando de um contexto simples de ser enfrentado, quem estuda o tema garante que há estratégias em diferentes dimensões para proteger a sociedade.

Apelo da desinformação

O interesse maior de parcela da sociedade por esses conteúdos desinformativos pode ser explicado também pela elitização no acesso a conteúdos profissionais até a revolução digital, no final do Século 20. Segundo a professora Sílvia Dal Ben, que faz pesquisa de doutorado na Universidade do Texas, em Austin (EUA), sobre jornalismo automatizado, a internet gerou um processo de democratização, tanto do acesso ao conteúdo quanto dos meios de produção dos conteúdos.

Se o jornalismo sensacionalista atrai muito os leitores, isso ocorre, no entender dela, tanto por causa do ponto de vista estilístico, mas também pelas condições tecnológicas de infraestrutura.

“Essa democratização dos meios de produção e da mídia, nos últimos 30 anos, abriu espaço para públicos, leitores, espectadores, terem contato com mensagens e conteúdos jornalísticos de comunicação e de mídia que antes não tinham”, pondera.

O problema é que também abre espaço para disseminação de conteúdos que não são confiáveis e com interesse de gerar manipulação. “É como se a gente vivesse hoje numa Torre de Babel. As pessoas se comunicam, têm muita informação, mas parece que elas não se entendem”, diz Silvia Dal Ben.

“É preciso mudar a mentalidade”

A pesquisadora brasileira, que conclui a tese este ano nos Estados Unidos, avalia que foi um “tiro no pé” a ideia de que, com a internet, a informação deveria ser em um formato mais conciso, simples e curto. “A gente abriu espaço para uma alfabetização de conteúdo digital muito superficial. Nós, jornalistas, precisamos mudar essa mentalidade e as práticas jornalísticas de ficar produzindo notinhas mal apuradas e pouco aprofundadas”, critica.

Ela não entende que postagens apenas em nome de audiência possam fortalecer o jornalismo profissional. “A base do jornalismo é informação checada. Com boa apuração, informação checada e de qualidade”. Para vencer a “batalha”, o fundamental, como defende a pesquisadora, é, em primeiro plano, oferecer para as audiências um conteúdo de qualidade proporcionado por uma estrutura que garanta aos profissionais tempo e recurso.

“Mais apuração”

No campo das estratégias, inclusive, a professora Fabiana Moraes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que materiais desinformativos já têm sido combatidos pelo jornalismo profissional com estéticas semelhantes às das fakes, mas com conteúdos responsáveis.

Para ela, pode ser útil buscar semelhanças à estética desses tipos de postagens e incorporar informações socialmente responsáveis. “A estética é a forma, mas [é necessário] preenchê-la com um conteúdo profissional, bem escrito e apurado. Ou seja, jornalismo”, diz a docente que teve, na carreira jornalística, a marca de pautas aprofundadas em direitos humanos, que lhe renderam, por exemplo, três prêmios Esso e seis livros.

Ela considera que está incluída, nesse contexto de batalha, outra “densidade de disputa”, tanto nas redes sociais quanto fora delas. Isso porque, conforme considera, as fake news têm facilidade de capturar essa atenção por conta do “espírito de achaque”, com elementos de sensacionalismo e de baixa qualidade informativa.

“Nova distribuição”

Outra estratégia que precisa ser reconfigurada nesse cenário, segundo Sílvia Dal Ben, é o da distribuição de conteúdo para as pessoas.

“Os jornalistas e os meios de comunicação têm que utilizar as mesmas ferramentas que os influenciadores e as personalidades de redes sociais. E distribuir os seus conteúdos de qualidade em diferentes formatos”, receita.

Da mesma forma, a professora de comunicação Thaïs de Mendonça Jorge, da Universidade de Brasília (UnB), defende necessidade de aperfeiçoar as estratégias de chamada de atenção, uma vez que existe uma queda no interesse da leitura no País. “Nós temos que interpretar mais e fazê-las compreender como aquele tema pode ser interessante para a vida delas”.

A professora da UnB organizou a publicação do livro o livro Desinformação – O mal do século – Distorções, inverdades, fake news: a democracia ameaçada, resultado de uma parceria entre a UnB e o Supremo Tribunal Federal

A pesquisadora defende que a indústria de desinformação tem tentáculos que organizam e distribuem os materiais para enredar o público. “Eles usam esse artifício do bombardeamento. Muita gente não tem instrução e se deixa levar por essa onda, que é uma ‘modalidade’ de informação”, lamenta.

“Alfabetização para a mídia”

Aliás, sobre o desafio diante das audiências, segundo o que argumenta a professora Silvia Dal Ben, é necessária a alfabetização de mídia para ensinar diferentes públicos a diferenciar um conteúdo profissional com credibilidade de conteúdos falsos e manipuladores. Em acréscimo, a professora considera que o caminho da distribuição é outra ação importante nessa guerra, uma vez que há um fenômeno internacional de se “evitar notícias”.

Inclusive, para o pesquisador Josenildo Guerra, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), diante da dificuldade notória de enfrentamento, são necessários produtos que possam conciliar uma qualidade informativa com uma narrativa que possa se tornar também interessante para esse público.

“É muito desafiador, porque as fake news operam com informações truncadas e de certo apelo que se tornam objetos de consumo fácil”. Por isso, ele defende mais pesquisas para desenvolver novos produtos que aliem qualidade informativa com uma narrativa que seja interessante e acessível para o público.

“Escuta plural”

Samira de Castro Cunha, presidente da FENAJ, em audiência na Câmara dos Deputados Lula Marques/ Agência Brasil

A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Samira Castro, pondera, entretanto, que o jornalismo profissional tem uma força que as fake news não têm: o compromisso com a verdade, com a apuração séria, com a escuta plural e com a responsabilidade pública.

A representante da categoria defende que, quando o jornalismo consegue traduzir temas complexos de forma acessível, com rigor e sensibilidade, conquista confiança.

“E é essa confiança que pode vencer o ruído das mentiras. A credibilidade, construída com ética e consistência, é o nosso maior trunfo nesse duelo”.

Publicado originalmente pela Agência Brasil em 07/04/2025

Por Luiz Claudio Ferreira – repórter Agência Brasil – Brasília

Edição: Vinicius Lisboa

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Sindicatos repudiam ataque a jornalistas que reportaram atos golpistas https://www.ocafezinho.com/2025/03/25/sindicatos-repudiam-ataque-a-jornalistas-que-reportaram-atos-golpistas/ Tue, 25 Mar 2025 23:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=205127 Ataques na internet insinuam que elas foram ‘responsáveis’ por prisões

Entidades ligadas ao jornalismo profissional manifestaram indignação após ataques virtuais e onda de desinformação dirigidos às jornalistas Gabriela Biló e Thaísa Oliveira, da Folha de S.Paulo, em função de reportagem sobre os atos antidemocráticos do dia 8 de janeiro de 2023.

Entre os ataques na internet, há uma insinuação de que as profissionais seriam “responsáveis” pela prisão de Débora Rodrigues dos Santos, acusada de participar dos atos golpistas e de pichar a frase “Perdeu, mané” na estátua A Justiça.

Dentro dessa falsa informação, há ilações de que as jornalistas teriam entregado registros fotográficos e outras informações para o Supremo Tribunal Federal (STF)

“Além de se tratar de uma desinformação, tal ilação revela o absoluto desconhecimento sobre o livre exercício profissional e sobre a tarefa jornalística de produzir registros de interesse público”, aponta nota assinada pelos sindicatos dos jornalistas profissionais do Distrito Federal (SJPDF), e de São Paulo (SJSP) e pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

Cinco crimes

A Justiça vandalizada, na sede do Supremo Tribunal Federal | Joedson Alves/Agencia Brasil

Segundo o que argumentam as entidades, a condenada respondeu judicialmente por cinco crimes diferentes, incluindo tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e associação criminosa.

Débora é acusada ainda de vandalizar a estátua que representa a Justiça na Praça dos Três Poderes. A nota emitida considerou “intolerável que profissionais de imprensa sejam caluniados, convertidos em alvo de campanha difamatória e de tentativa de linchamento público por cumprirem aquilo que deles se espera em termos de exercício da profissão”.

As entidades apontam que é fundamental desestimular a cultura da violência contra jornalistas “por meio de uma ágil e justa responsabilização dos algozes, sem impunidade”. Os representantes da categoria colocaram as assessorias jurídicas à disposição das profissionais.

Publicado originalmente pela Agência Brasil em 24/03/2025

Por Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil – Brasília

Edição: Denise Griesinger

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Evento global discute nova ordem da informação em Cuba https://www.ocafezinho.com/2025/03/22/evento-global-discute-nova-ordem-da-informacao-em-cuba/ Sat, 22 Mar 2025 16:39:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=204791 O Colóquio Pátria reúne comunicadores do Sul Global para debater inteligência artificial, desafios legais e a luta por uma mídia progressista

“A Revolução deve ser comunicada. Se Martí vivesse na Cuba de hoje, ele seria a força motriz por trás deste Colóquio”, afirmou Ronquillo Bello, presidente da União dos Jornalistas Cubanos, diante de um auditório lotado com mais de 200 participantes na abertura do 3º Colóquio Internacional Pátria.

Este é o terceiro ano consecutivo em que o evento é organizado em Havana. Um encontro que reúne jornalistas, acadêmicos e influenciadores com o objetivo de debater e trocar experiências em comunicação progressista e de esquerda. Ao longo de vários dias, são discutidos diferentes tópicos, como inteligência artificial, os desafios legais, econômicos e narrativos do ativismo nas redes do Sul Global. A atualidade e as possibilidades de uma nova ordem internacional de informação e comunicação também são abordadas.

“Os propósitos deste evento só serão cumpridos quando os humildes e abandonados do mundo se levantarem para defender seus projetos de justiça frente a toda manipulação”, conclui Bello em seu discurso de abertura.

O nome do evento vem do famoso jornal Patria, fundado em 1892 pelo lutador pela independência cubana José Martí como órgão de divulgação das ideias do Partido Revolucionário Cubano (PRC), que lutou pela independência de Cuba e Porto Rico do domínio espanhol.

Este ano, a reunião contou com a participação dos canais de televisão Telesur, o pan-arabista Al Mayadeen e o canal on-line La Iguana TV. Outros participantes incluíram importantes revistas teóricas de esquerda, como a New Left Review, Monthly Review e Jacobin, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e os portais de notícias Dongsheng News e Opera Mundi.

Durante a conferência, foram prestadas homenagens aos jornalistas Farah Omar e Rabih Al-Meemari, da Al Mayadeen, dois dos mais de 134 jornalistas assassinados pelo Estado israelense na Palestina.

O primeiro Colóquio foi realizado em 2022, no aniversário de 130 anos da fundação do jornal. Em suas três edições, o evento vem mudando sua modalidade. Esta edição tem uma perspectiva muito mais ampla e plural em sua convocação, em relação às edições anteriores.

As diferentes palestras apresentadas foram abertas ao público e podem ser vistas no YouTube.

Uma plataforma para articular as forças de esquerda

Pedro Jorge Velázquez, jovem comunicador cubano, explica ao Brasil de Fato que “o que mais interessa à Cuba é a articulação dessas forças de esquerda, da comunicação de esquerda, que estão espalhadas pelo continente e muitas vezes não se tocam”.

Há pouco mais de três anos, Velázquez tem sido a força motriz por trás do El Necio, um dos principais projetos de comunicação independente de Cuba. Concebido como espaço para ativismo político e comunicação em redes sociais, El Necio nasceu com a recente expansão dos serviços de Internet na ilha, que conta com dados móveis há apenas cinco anos.

“Não creio que Cuba queira lucrar com um evento como esse. Ou que exista para defender a posição de Cuba no mundo ou algo do gênero”, diz ele.

Para o jovem jornalista, o evento é espaço para aprendizado mútuo e articulação de experiências de comunicação. Segundo ele, é a partir dessa mesma articulação que “a esquerda e os progressistas poderiam fortalecer suas próprias agendas nas lutas populares e causas justas”.

“Acredito que esse evento significa para Cuba dar continuidade à tradição internacionalista fundada pela revolução cubana”.

Posicionamento

“A comunicação não é algo isolado da forma econômica, social e ideológica de produção. A comunicação também é uma expressão da luta de classes. É por isso que, por um lado, se forma a mídia corporativa, mas também, por outro lado, a mídia militante como parte da luta pelo senso comum”, reflete a jornalista e educadora popular Alina Duarte, que faz parte do projeto de comunicação De Raíz, ao Brasil de Fato.

De Raíz é uma das várias iniciativas de comunicação que visam contar a realidade do México e do continente diante da lógica das corporações de mídia. Duarte se sente parte de um amplo ecossistema formado por muitos projetos de comunicação que foram criados no país nos últimos anos.

Há seis anos, a chegada do governo progressista de Andrés Manuel Lopez Obrador provocou uma série de mudanças que reordenaram o mapa político e social do México. Duarte afirma que o surgimento de projetos de comunicação alternativa é parte essencial das transformações que vêm ocorrendo no país. Entretanto, mesmo sendo militante do projeto político liderado por Andrés Manuel López Obrador, a jovem jornalista é muito enfática quando se trata de delinear quais devem ser as tarefas dos projetos de comunicação.

“Muitas vezes não se tem a plena noção de que não precisamos defender o Estado ou um governo. A mídia independente hoje temos que abraçar as causas. Muitas vezes acho que não se entende que não se trata de abraçar partidos ou abraçar governos. Mas abraçar a justiça social, abraçar as lutas feministas, abraçar as conquistas sociais que historicamente custaram muitas vidas e muito trabalho, muitas lágrimas, suor e sangue. Isso às vezes é dissipado pelo imediatismo do que significam os processos políticos”.

Dessa forma, para o jovem ativista, a mídia, além de cumprir um papel estritamente informativo, tem o enorme desafio de fornecer ferramentas pedagógicas para a batalha de ideias.

“Acho que há uma urgência. Há uma urgência direta em abraçar essas causas populares abaixo e à esquerda. E acho que ainda há muito a ser disputado nesse terreno. Mas, acima de tudo, há muita consciência a ser desenvolvida”.

“Explicar desde a raiz o que queremos transformar. Não se trata apenas de descrever a realidade, mas de tentar transformá-la, e a mídia é uma grande trincheira para isso”.

União do povo pela causa

Orlenys Ortiz se define como uma “ativista de comunicação internacionalista”. Atualmente, ela é uma das comunicadoras de mídia social mais reconhecidas na Venezuela. Ela explica que seu ativismo de comunicação surgiu “em autodefesa”. Foi na época das chamadas “guarimbas”, uma série de protestos extremamente violentos realizados por parte da oposição, que levou até mesmo ao assassinato de várias pessoas por serem partidárias do chavismo. Orlenys diz que foi nessa época que ela sentiu “a necessidade de sair e contar o que estava vivendo” diante das mentiras propagadas pelas corporações de mídia.

“O cidadão, a pessoa que vive em uma comunidade, também pode ser um comunicador. Essas coisas não são só para quem estudou jornalismo, nem para quem se identifica como comunicador popular”, disse ao Brasil de Fato.

Orlenys ressalta que a maioria das organizações sociais de base na Venezuela, assim como os conselhos comunitários, são formados por mulheres humildes das comunidades. Mulheres que, no dia a dia, organizam respostas para as diferentes necessidades que suas comunidades enfrentam. Para a jovem ativista, um dos grandes desafios no combate às mentiras da direita é incluir essas pessoas na construção de novas narrativas sobre o que está acontecendo no país.

Convencida da necessidade de criar redes de comunicação de baixo para cima, há anos ela vem promovendo vários seminários nos quais oferece às comunidades as ferramentas para que se tornem cronistas de sua própria realidade.

“As pessoas também podem simplesmente desempenhar o papel de comunicar o que estão fazendo. Essa é a verdadeira forma de influência. Nas comunidades, essa pessoa pode ser um comunicador de sua própria realidade.

Com muita insistência, Orlenys ressalta que o desafio é “pensar a longo prazo” e “evitar o imediatismo de que a cada meia hora há uma notícia diferente para contar e o resto não importa”. Essa matriz de produção de notícias, segundo ele, faz com que percamos de vista o que é “realmente importante”. Pelo contrário, ele propõe assumir a dimensão histórica do que está sendo vivido e pelo que se está lutando.

Construindo narrativas que estarão disponíveis daqui a 10 anos, 15 anos ou 20 anos. É quando nos daremos conta de que o que estamos vivendo agora é história.

“A história que estamos escrevendo agora será vista daqui a alguns anos com esse componente e essa perspectiva histórica. Todos nós fazemos parte disso e é fundamental assumir o papel de liderança que as comunidades têm”, afirma.

Com informações de Gabriel Vera Lopes, de Havana (Cuba), para o Brasil de Fato.

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Bezos orienta páginas de opinião do Washington Post a promover ‘liberdades pessoais e mercados livres’ https://www.ocafezinho.com/2025/02/26/bezos-orienta-paginas-de-opiniao-do-washington-post-a-promover-liberdades-pessoais-e-mercados-livres/ Wed, 26 Feb 2025 20:03:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=202898 Executivo da Amazon e dono de jornal diz em carta que ‘pontos de vista opostos a esses pilares serão deixados para serem publicados por outros’

Jeff Bezos, o autoproclamado proprietário “não intervencionista” do Washington Post, enviou um e-mail aos funcionários esta manhã sobre uma mudança que ele está aplicando na seção de opinião do jornal, que parece alinhá-lo mais de perto com a direita política.

“Estou escrevendo para informá-los sobre uma mudança que está chegando em nossas páginas de opinião. Vamos escrever todos os dias em apoio e defesa de dois pilares: liberdades pessoais e livre mercado”, disse Bezos.

“Também cobriremos outros tópicos, é claro, mas pontos de vista opostos a esses pilares serão deixados para serem publicados por outros. Houve um tempo em que um jornal, especialmente um que fosse um monopólio local, poderia ter visto como um serviço levar à porta do leitor todas as manhãs uma seção de opinião ampla que buscasse cobrir todas as visões. Hoje, a internet faz esse trabalho.”

A decisão de Bezos de injetar temas conservadores mais regulares e pesados ​​também resultará na saída do editor de opinião David Shipley, embora não tenha ficado claro se ele foi demitido por resistir à direção de Bezos ou se decidiu renunciar.

Shipley, que ingressou no Washington Post em 2022 como editor da página editorial, estava entre as principais vozes de protesto quando Bezos impediu o conselho editorial do Post de publicar um apoio a Kamala Harris, adversária democrata de Donald Trump, antes da eleição presidencial de novembro passado.

Mas ele defendeu a decisão do Post em janeiro de não publicar uma charge satírica da vencedora do prêmio Pulitzer Ann Telnaes, que mostrava Bezos e outros donos bilionários de empresas de mídia ajoelhados aos pés de uma figura gigante de Trump, oferecendo sacos de dinheiro.

Telnaes renunciou, uma de um número crescente de saídas de funcionários seniores do Post durante um período tumultuado para o jornal. Perdeu 250.000 assinantes depois que Bezos bloqueou o endosso de Harris, e uma série de escritores famosos se juntaram a publicações rivais.

“Nem todo julgamento editorial é reflexo de uma força maligna”, disse Shipley na época, acrescentando que havia falado com Telnaes e pedido que ela reconsiderasse sua saída.

“Minha decisão foi guiada pelo fato de que tínhamos acabado de publicar uma coluna sobre o mesmo tema do cartoon e já tínhamos programado outra coluna – desta vez uma sátira – para publicação.”

Em sua mensagem na quarta-feira, Bezos enfatizou que ele é “a favor da América e tem orgulho disso” e que ofereceu a “David Shipley, a quem admiro muito, a oportunidade de liderar este novo capítulo.

“Eu sugeri a ele que se a resposta não fosse ‘claro que sim’, então tinha que ser ‘não’. Após cuidadosa consideração, David decidiu se afastar. Esta é uma mudança significativa, não será fácil e exigirá 100% de comprometimento – eu respeito sua decisão”, ele escreveu, acrescentando que o jornal agora está “procurando um novo editor de opinião para assumir esta nova direção”.

Bezos também compartilhou a carta com a equipe diretamente em sua página X.

Após o e-mail de Bezos, Jeff Stein, um repórter de economia do Washington Post, falou sobre o decreto do bilionário.

“A invasão maciça de Bezos na seção de opinião do The Washington Post deixa claro que opiniões divergentes não serão publicadas”, escreveu ele no X e no Bluesky.

“Ainda não senti nenhuma invasão no meu jornalismo no que diz respeito às notícias, mas se Bezos tentar interferir no que diz respeito às notícias, vou pedir demissão imediatamente e avisar vocês.”

Publicado originalmente pelo The Guardian em 26/02/2025

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Governo Temer utiliza comunicação pública como ferramenta de propaganda https://www.ocafezinho.com/2016/11/18/governo-temer-utiliza-comunicacao-publica-como-ferramenta-de-propaganda/ https://www.ocafezinho.com/2016/11/18/governo-temer-utiliza-comunicacao-publica-como-ferramenta-de-propaganda/#comments Fri, 18 Nov 2016 19:23:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=60091 2 Comentários 🔥]]> O episódio da entrevista de Michel Temer ao Roda Viva, exibida na última segunda-feira, dia 14, não pode ser esquecido. Como aponta Heloisa Machado, é o maior exemplo do uso indevido dos meios de comunicação públicos, numa tentativa de transformá-los em “chapa branca”. Em artigo, Heloisa comenta as privações da EBC e a importância da comunicação pública, um espaço de exercício democrático, onde a expressão do contraditório, raramente presente na grande mídia conservadora e privada, pode se realizar.  

No The Intercept

Desmonte da comunicação pública promove propaganda do Governo

Por Heloisa T. Machado

A polêmica edição do programa Roda Viva exibida na última segunda-feira, dia 14, produzida pela TV Cultura, de São Paulo, e transmitida nacionalmente pela TV Brasil, é o maior exemplo do uso indevido dos meios de comunicação públicos, numa tentativa de transformá-los em “chapa branca”. Michel Temer foi o entrevistado do programa, e as perguntas foram todas apresentadas por jornalistas conhecidamente comprometidos com o discurso da mídia hegemônica.

Até o momento crucial do impeachment da presidenta Dilma, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), mesmo que lhe pesem alguns erros e contradições, representou, para os que acreditam na comunicação pública, um espaço de exercício democrático, onde a expressão do contraditório, raramente presente na grande mídia conservadora e privada, pode se realizar.

Criada em 2008, por meio de uma medida provisória aprovada pelo Congresso, com apoio dos movimentos sociais e dos produtores independentes de audiovisual, a EBC nasceu a partir da Carta de Brasília, produzida pelo I Forum de TVs Públicas, em 2007, e entregue ao então presidente Lula. Porém, no alvorecer do que chamamos de golpe, apesar de seus aspectos aparentemente institucionais, outra medida provisória, assinada pelo então presidente em exercício, Rodrigo Maia (durante viagem de Michel Temer), surgia como vetor de forças em sentido contrário ao da MP que criou a EBC. A MP 744 dissolveu justamente o centro democrático da empresa, o Conselho Curador. A partir daí, um verdadeiro desmonte das principais estruturas da organização da EBC foi iniciado ali e continua em curso.

A ausência do Conselho gera inúmeros problemas. Não é por acaso que as estruturas organizacionais das TVs públicas em outros países (e de todos os órgãos de Comunicação) contam com a presença de conselheiros oriundos da sociedade civil. Formado por representantes de vários segmentos, organizados através de movimentos sociais, o controle público foi uma das principais demandas e conquistas dos ativistas e militantes da área da comunicação com o objetivo de manter uma participação social, coletiva e plural nos caminhos da empresa.

A EBC, neste momento, se alinha aos ideais da grande mídia privada e hegemônica

Esse equívoco, porque a empresa é estatal, costuma ser frequente. Evidentemente, pertencer ao Estado é diferente de pertencer e servir a um governo, a um ou mais partidos governantes ou a uma linha de pensamento ideológico e a interesses de grupos políticos específicos. O controle público é fundamental para garantir à empresa justamente seu caráter popular e verdadeiramente democrático, uma vez que seus recursos são frutos da contribuição da população que paga impostos. Através do acompanhamento e do aconselhamento da sociedade civil, exercidos democraticamente pelos conselheiros indicados, escolhidos e eleitos para representar uma gama variada de grupos diversos, o controlo social da Empresa Brasileira de Comunicação era e é ainda uma das prioridades dos movimentos organizados para lutar pela democratização dos meios de comunicação no país.

Como consequência da ausência do controle público exercido pelo Conselho, uma importante norma estabelecida para a nomeação do presidente da EBC foi violada, com a demissão do jornalista Ricardo Melo. Nomeado pela presidenta Dilma, Melo foi arbitrariamente exonerado duas vezes e sem um Conselho Curador que pudesse garantir seu direito ao exercício da presidência, num descumprimento das normas, regras e leis que regem a empresa. O período para nomear o presidente da EBC jamais poderia coincidir com a nomeação de um novo presidente da República, evitando-se, assim, que a comunicação pública esteja nas mãos dos grupos políticos que ocupam o poder.
A independência da EBC como órgão público está aí configurada. Esse aspecto é fundamental para garantir a independência ideológica da empresa, que deve corresponder à diversidade da população, evitando que ela se torne porta-voz oficial do governo – o que reduziria sua verdadeira função, que é ser a expressão ampla da sociedade civil em sua pluralidade.

A partir do momento em que o presidente da empresa é exonerado, na ausência do Conselho, havendo mudança nos rumos editoriais, podemos dizer que a EBC se alinha aos ideais da grande mídia privada e hegemônica, reforçando o campo desregulado da comunicação no Brasil.

Nossa mídia se movimenta em meio ao caos e às violações aos direitos humanos

Aliás, é importante salientar que, diferentemente de vários outros países, a televisão, no Brasil, nasceu, em 1950, da iniciativa privada, e talvez esse aspecto esteja na base do fato de não existir ainda um Marco Regulatório da Comunicação no Brasil. Nossa mídia se movimenta em meio ao caos e às violações aos direitos humanos, sobretudo ao direito à comunicação, crucial para nossa época tão voltada às tecnologias digitais.

Vale ressaltar que o espectro eletromagnético é um bem público, cedido, por meio de outorgas e concessões, a empresas de canais de televisão. Segundo a Constituição, toda a comunicação (assim como essa exploração dos canais) deve seguir objetivos culturais e educativos. A mídia privada e hegemônica desrespeita constantemente esses princípios constitucionais e, enquanto não houver um verdadeiro processo de normatização e a criação de um Marco Regulatório para as Comunicações, seremos manipulados pela opinião dos canais com maior público, cujo poder político é evidente, porém, inadequado.

O mais alarmante é que essas empresas concessionárias, numa tentativa de manipulação da opinião pública, usando nosso espectro eletromagnético público, classificam a regulação da mídia como censura. Ora, censura exercem esses canais ao pretender calar a voz dos que clamam por uma verdadeira liberdade de expressão, válida para todo o povo brasileiro.

Para finalizar, fica o alerta, já divulgado amplamente nas redes sociais, de que a EBC pretende comprar conteúdos da Rede Globo. Seria a mais pura prova da perda do espaço da nossa Empresa Brasileira de Comunicação, tão fundamental à população brasileira, ao lado de uma imensa rede de TVs públicas, comunitárias, universitárias e educativas, que contam com mais de duzentos canais existentes no país, mas que também sairiam perdendo, pelo aumento do poder hegemônico da mídia privada e seus interesses. Isso é liberdade de expressão? Para quem?

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Leandro Fortes se despede da Carta Capital https://www.ocafezinho.com/2013/11/01/leandro-fortes-se-despede-da-carta-capital/ https://www.ocafezinho.com/2013/11/01/leandro-fortes-se-despede-da-carta-capital/#comments Fri, 01 Nov 2013 20:13:25 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=14642 1 Comentário 🔥]]> Reproduzo abaixo um belíssimo depoimento de Leandro Fortes, que se despede da Carta Capital para enveredar por “outras plagas profissionais”.

Eu apenas ressalvaria o seguinte: se há uma desvinculação, a partir de agora, entre Leandro Fortes e a Carta Capital, isso não muda em nada o vínculo de Fortes com o que existe de mais nobre no jornalismo brasileiro. Uma nobreza rara hoje em dia, e por isso mesmo tão valiosa.

De qualquer forma, Fortes foi testemunha ocular e emocional da degradação do jornalismo comercial brasileiro, convertido, em plena democracia, em mero porrete intelectual manipulado pelos donos da mídia.

 

Despedida doída

Eu devo a CartaCapital a oportunidade de ter voltado a amar o jornalismo. Espero ter retribuído à altura

por Leandro Fortes — publicado 01/11/2013 12:07, última modificação 01/11/2013 12:50
No site da Carta Capital

Em outubro de 2005, eu havia desistido do jornalismo.

A fúria com que a mídia havia se debruçado sobre o escândalo do “mensalão” havia, na época, iniciado uma onda de vandalismo editorial que transformara o trabalho das redações de Brasília em gincanas de uma só tarefa: derrubar o governo Lula.

Transformados em soldados de uma estrutura paralisante de pensamento único, os repórteres de Brasília passaram a gravitar em volta desse objetivo traçado pelo baronato da mídia sem maiores preocupações críticas. De repente, a ordem era adaptar todas as teses progressistas e de esquerda vinculadas ao governo do PT ao esgoto do “maior escândalo de corrupção da história do Brasil” e, a partir de então, iniciar a caçada a Lula e seu mandato presidencial. Fracassaram, mas não pararam de se multiplicar.

Assim, meia dúzia de famílias que monopolizava (e ainda monopoliza) o negócio da comunicação no País se uniu, como em 1964, para derrubar um presidente eleito pelo voto popular por meio do mesmíssimo discurso udenista de combate à corrupção agregado, a partir de uma adaptação tosca e deliberadamente manipulada, a conceitos difusos de liberdade de imprensa e liberdade de expressão – uma armadilha retórica que perdura até hoje, cujo o objetivo continua sendo o mesmo, o de não discutir seriamente nem uma coisa nem outra.

Eu havia largado empregos promissores da chamada “grande imprensa” para me dedicar a dar aulas de jornalismo em uma faculdade de Brasília. Pretendia, como acabei fazendo pouco tempo depois, criar um fórum próprio de discussão e formação em jornalismo desvinculado da crescente ideologização de direita, conservadora e medíocre da mídia nacional. Assim nasceu a Escola Livre de Jornalismo, uma arena de ideias, seminários, palestras e oficinas para estudantes e jovens jornalistas em busca de contrapontos ao mau cheiro da mídia tradicional. Dediquei-me, ainda, a escrever livros e fazer palestras Brasil afora.

A CartaCapital entrou na minha vida, em 2005, pelas mãos da mesma pessoa que me fez vir para Brasília, em 1990, Cynara Menezes – minha amiga e contemporânea dos tempos da UFBA, minha irmã querida, jornalista brilhante, desde sempre.

Eu não sabia, mas ao ser indicado por Cynara para assumir o cargo de correspondente da Carta em Brasília, eu teria a chance de viver a mais importante, relevante e satisfatória experiência da minha carreira de jornalista desde que, numa tarde de maio de 1986, eu botei os pés na redação da Tribuna da Bahia, como estagiário não-remunerado, em um velho prédio coberto de fuligem do bairro da Sete Portas, nas entranhas da velha Salvador.

A experiência na Carta traz o traço marcante da convivência com o idealizador e a alma da revista, Mino Carta, de longe o mais importante e referencial jornalista ainda em atividade no Brasil. Eu, que já havia trabalhador para as famílias Mesquita, Sirotsky, Marinho e Nascimento Brito, não sabia o que era ter como patrão um jornalista de verdade. Fosse apenas isso, ter a oportunidade de trabalhar e conviver com um profissional da qualidade – e com a sabedoria – de Mino, a experiência na CartaCapital já teria sido um presente. Mas foi mais do que isso.

Nesses oito anos de CartaCapital, moldei meu espírito de repórter no combate permanente às injustiças sociais, ao moralismo seletivo e ao mau jornalismo vendido à sociedade como suprassumo do pensamento liberal, mas que é somente subproduto risível de certa escola de reportagem a serviço do que há de pior e mais reacionário no pensamento das autodenominadas elites nacionais.

Desde a minha trincheira, na capital federal, parti para percorrer o País a fim de ouvir quem nunca tinha sido ouvido e dar voz a quem nunca pode falar.

Fui, com muito orgulho, o repórter dos invisíveis.

Agora, de partida para outras plagas profissionais, gostaria de compartilhar com todos vocês, queridos amigos, colegas e leitores, esse meu sentimento contraditório, tão típico dos que se despendem sem a certeza de que querem mesmo ir embora.

Eu devo a CartaCapital a oportunidade de ter voltado a amar o jornalismo, com todas as dificuldades e sacrifícios que esse ofício tão especial nos coloca no caminho, todo dia.

Hoje, no meu último dia de trabalho na Carta, olho para trás e espero, sinceramente, ter retribuído à altura.

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Marona: Por que a imprensa finge que não vê o livro do Amaury? https://www.ocafezinho.com/2011/12/14/marona-por-que-a-imprensa-finge-que-nao-ve-o-livro-do-amaury/ https://www.ocafezinho.com/2011/12/14/marona-por-que-a-imprensa-finge-que-nao-ve-o-livro-do-amaury/#comments Wed, 14 Dec 2011 12:31:29 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=2331 Por Mario Marona, em seu blog.

Deve ser possível contar nos dedos quantos amigos José Serra tem nas redações. Quase ninguém na mídia é “serrista”. Não nas redações dos jornais, das tevês e das rádios. Há exceções claro, e pelo que soube esta semana o editor-chefe de um grande jornal teria trabalhado para Serra, mas isto não significa que ele tenha pelo ex-chefe profunda admiração. Serra também não deve ter muitos amigos entre os acionistas das empresas de comunicação. Serra sempre foi apenas uma alternativa possível da imprensa a Fernando Henrique Cardoso para enfrentar Lula e, depois, a candidata de Lula.

Quem finge gostar de Serra nas redações, excetuando os amigos do peito, caso ele os tenha, na verdade não gosta mesmo de Serra – apenas o prefere a Lula. Jornalista que apoia Serra – de novo com as exceções possíveis – o faz por não gostar de Lula, e não gosta de Lula por vários motivos, razoáveis ou não: preconceito, antagonismo político, por considerá-lo populista, por conservadorismo, preferência clara por FHC etc. A imprensa protege Serra por falta de coisa melhor. Fará o mesmo com Aécio Neves, caso ele vire candidato, por motivo idêntico.

Não corre risco de perder quem apostar que Ricardo Noblat não tem qualquer identificação com Serra. Não seria estranho descobrir que Eliane Cantanhêde, Dora Kramer, Lúcia Hipólito e tantos outros, mesmo que queiram no poder alguém que considerem melhor que Lula e Dilma, e certamente querem, ficariam satisfeitos se a opção não fosse Serra nem Aécio. Especulo sobre a vontade destes poucos jornalistas, todos muito conhecidos, mas poderia estar falando da maioria. Cito-os porque estão entre os mais citados.

Serra não é diferente da maioria das fontes: detesta jornalista. Também não gosta de dono de jornal, mas os adula e quase sempre obtém deles o que precisa. Serra gostaria de demitir qualquer jornalista que fizesse matéria negativa para a imagem dele, e é possível que já tenha conseguido isso, embora não seja provável que tenha sido bem sucedido na maioria das tentativas. Hoje em dia, isto não é tão fácil como já foi.

E é aqui que trago ao assunto o livro “A privataria tucana”, sobre o qual a imprensa tradicional faz pesado silêncio.

Decididamente, os colunistas e os editores, pelo menos a maioria, não estão fingindo ignorar o livro de Amaury Ribeiro Jr para proteger Serra. Suspeito que até que alguns achariam divertido ver Serra em maus lençóis, tendo que se explicar sobre as acusações que sofre no livro.

Também não creio realmente que colunistas e editores desprezem o livro porque acreditam que Amaury foi contratado por assessores da campanha petista no ano passado para espionar Serra ou vender informações contra os tucanos. Todos eles sabem que esta foi uma, e apenas uma, das mentiras inventadas durante a campanha.

Este foi um dos fatos “esquentados” na campanha para beneficiar a oposição. Para os jornais e para as emissoras que dedicaram enorme espaço e tempo a este factóide fica muito difícil, agora, admitir que “não foi bem assim”. Como seria difícil, mesmo agora, noticiar que a agenda de Lina Vieira jamais apareceu e que Rubnei Quicoli já confessou que mentiu. Como foi difícil admitir com clareza que a ficha policial atribuída a Dilma era uma montagem mal feita.

Isto seria mais do que um “erramos”. Seria um “mentimos”.

Os jornalistas também sabem que, mesmo sendo meio falastrão e parecendo um tanto estabanado, Amaury é um grande repórter, é honesto e não está mentindo ou, para ser mais isento, pelo menos acredita que está contando a verdade. Sabem, por fim, que a origem desta história que resultou num livro está na reação de Aécio Neves a uma ação mafiosa típica dos serristas.

Por que, então, os colunistas, editores e jornalistas da maioria dos grandes veículos fingem ignorar o livro?

Porque obedecem à linha editorial dos jornais e das emissoras em que trabalham. Obedecem, agora, e sempre obedeceram. [E aqui, em nome da isenção, acrescento a parte que me toca: eu mesmo, quando trabalhei nas grandes redações, me sujeitei à linha editorial dos veículos e se eventualmente me insurgia internamente contra elas, tentando modificá-las, nunca deixei de seguí-las disciplinadamente, uma vez derrotado em minhas posições. Ou pedia o meu boné.]

O que mudou, então? Por que os jornalistas se vêem obrigados a depreciar publicamente um colega de profissão, como o Amaury, com quem, aliás, muitos deles conviveram amistosamente? E por que estamos vendo jornalistas importantes entrando em guerra com seus leitores por causa de um livro que, se pudessem, tratariam como notícia ou comentariam?

Arrisco uma resposta: porque hoje os leitores pisam nos calos destes jornalistas, o que há uma década atrás – ou menos – não acontecia.

No meu tempo, e vale dizer também no tempo do Noblat, da Dora, da Eliane, do Merval, o leitor não existia como figura real. Era um anônimo, mal representado, diariamente, em uma dúzia de cartas previamente selecionadas para publicação e devidamente “corrigidas” em seus excessos de linguagem. Tem gente que não lembra, porque começou a ler jornal depois, mas naquele tempo nem e-mail existia, exceto, talvez, como forma de comunicação interna das empresas.

Noblat, Dora, Merval, Eliane [e eu] escreviam, editavam e publicavam o que queriam, desde que não contrariassem os acionistas, representados pelos diretores de redação. Por acaso, dois dos citados foram diretores de redação e eu fui editor-chefe adjunto no Globo e editor-chefe do JN. Não eram – não éramos – contestados por ninguém. Quem não gostasse que se queixasse ao bispo, ao editor de cartas – por carta, claro – ou então que suspendesse a assinatura ou mudasse de canal.

Publicavam o que queriam, autorizados pelos donos, e continuam agindo da mesma maneira, mas hoje são imediatamente incomodados, cobrados, questionados, xingados pelos leitores, por e-mail, em blogs, por tuites e por caneladas no Facebook.

Fazem a mesma coisa – obedecer à linha dos seus jornais – só que agora têm que dar explicações a um grupo crescente de chatos, nem sempre bem educados, e não podem botar a culpa no patrão. Não podem dizer no twitter: “Olha, gente, eu não vou escrever sobre o livro do Amaury porque o meu jornal decidiu ignorá-lo, pelo menos por enquanto”.

Aparentemente, só existe uma opção: justificar a censura do livro nos seus veículos por meio da depreciação do autor, que está sendo chamado de louco e de venal – o que ele nunca foi, nem quando era um deles, época em todos o exaltavam como um dos maiores repórteres do país. Mesmo porque o ex-PM João Dias, o escroque Rubnei Quicoli e até Pedro Collor nunca foram tratados como cidadãos de reputação ilibada e nem por isso deixaram de ser considerados fontes válidas por estes e por quase todos os demais jornalistas. E estas fontes nem se deram ao trabalho de tentar provar o que diziam.

A alternativa a declarar-se censurado ou tolhido é entrar em guerra com uma parte dos leitores, buscando apoio em outra parte, neste caso naquela que detesta Lula, Dilma e o governo petista. Cobrados, reagem no mesmo tom. Acossados, pedem ajuda ao “outro lado”.

O autor deste texto trabalhou em pequenos e em grandes veículos. Também trabalhou como assessor de imprensa de empresários e de políticos, de vários matizes. É o que faz agora, como redator, razão pela qual fechou temporariamente o blog que mantinha para emitir opiniões. Entende que assessoria de imprensa, ainda que seja um trabalho digno e necessário, não é jornalismo, porque não lhe dá o direito à isenção. Continua analisando a imprensa, como cidadão, de maneira não-metódica, mas toma o cuidado de não depreciar pessoalmente aqueles que eventualmente critica. Não se julga melhor do que ninguém, nem sabe, francamente, como agiria hoje, na mesma situação dos colunistas e jornalistas dos grandes veículos – exceto que, talvez, evitasse o twitter e o Facebook, onde o confronto é muito mais agressivo.

Mas aos que alegam que é preciso ignorar o livro do Amaury porque ele foi acusado disso ou daquilo e não seria um autor confiável, responde com uma experiência pessoal. Editor do Globo em 1992, uma noite recebeu na redação o livro “Passando a limpo, a Trajetória de um Farsante”, de autoria de, vejam só, Dora Kramer e Pedro Collor de Mello. O livro trazia acusações tão pesadas contra Fernando Collor que, em alguns casos, a prova dependeria de exame de corpo de delito. O editor teve que ler o livro em duas horas, para escrever uma resenha rápida, que seria publicada na edição do dia seguinte.

Naquela época, no Globo e, creio, nos demais jornais, não era possível ignorar uma peça de acusação tão enfática, ainda que desprovida de provas. Nem era possível guardar para ler depois. E pouco importava se a origem das acusações de Pedro contra Fernando era uma briga entre irmãos envolvendo até mulher. Era notícia, e pronto.

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