juros altos - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/juros-altos/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Thu, 27 Nov 2025 14:55:32 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png juros altos - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/juros-altos/ 32 32 Juros altos elevam peso das contas no dia a dia das famílias https://www.ocafezinho.com/2025/11/27/juros-altos-elevam-peso-das-contas-no-dia-a-dia-das-familias/ https://www.ocafezinho.com/2025/11/27/juros-altos-elevam-peso-das-contas-no-dia-a-dia-das-familias/#respond Thu, 27 Nov 2025 14:55:27 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=222036 Dados do Banco Central mostram que o comprometimento de renda chegou a 28,8% em setembro, o maior já registrado, impulsionado por juros elevados e orçamento cada vez mais comprimido

O aperto no orçamento das famílias brasileiras voltou a ganhar força e alcançou um patamar inédito, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta quarta-feira (26). O comprometimento de renda chegou a 28,8% em setembro, o maior índice de toda a série histórica, consolidando um cenário de fragilidade que afeta principalmente os lares de menor renda.

Somente com o pagamento de juros — que seguem elevados em meio ao aperto da política monetária — as famílias destinam 10,23% de tudo o que ganham, um custo que pesa diretamente sobre a capacidade de consumo e de organização financeira.


Avanço supera período que motivou o Desenrola

O dado atual é pior do que o registrado em julho de 2023, quando o governo lançou o programa Desenrola para tentar socorrer milhões de brasileiros endividados. À época, o comprometimento de renda estava em 27,3%. O programa, que ofereceu descontos de até 90% e se estendeu por cerca de um ano, havia ajudado a aliviar momentaneamente a pressão sobre quem se viu esmagado pelos juros recordes.

Ao longo de 2024, o indicador até chegou a cair temporariamente e operar próximo de 26%, mas começou a subir de forma sustentada a partir de dezembro. Do piso observado entre o fim de 2023 e o início de 2024 até agora, o salto foi de quase 3 pontos percentuais — retomando e ultrapassando justamente o nível que levou o governo a lançar um programa emergencial.


Crédito mais caro empurra famílias para modalidades de alto risco

Segundo o Banco Central, o agravamento do quadro resulta de uma combinação perversa: maior contratação de crédito no segundo semestre de 2024, juros mais altos e atividade econômica em desaceleração. Com menos fôlego no bolso, mais famílias têm recorrido a modalidades notoriamente caras — como rotativo do cartão, cheque especial e empréstimos pessoais — apenas para manter o básico funcionando.

A nota do BC detalha o avanço das taxas: os juros médios das novas concessões para famílias chegaram a 36,6% ao ano, alta de 0,3 ponto em um mês e 4,2 pontos em 12 meses. Para empresas, a taxa alcançou 21,7% ao ano.


Endividamento volta a crescer e se aproxima de nível pré-recorde

Além do comprometimento de renda, o endividamento total das famílias também subiu. A relação entre o estoque de dívidas e a renda acumulada dos últimos 12 meses chegou a 49,1% em setembro, acima dos 48,95% registrados em agosto e dos 48,64% de julho.

O indicador estava perto de 47% um ano atrás e, antes da pandemia, permanecia abaixo de 44%. Com isso, a tendência é de retomada da curva ascendente que marcou os períodos de juros altos e renda comprimida.

Evolução do endividamento das famílias:

  • 2022 — 49%
  • 2023 — 47,69%
  • 2024 — 48,44%
  • 2025 — 49,10% (até setembro)

Inadimplência cresce e atinge maior aceleração anual em três anos

A piora no orçamento das famílias não fica restrita aos números de dívida. A inadimplência no sistema financeiro atingiu 4% em outubro, uma alta de 0,83 ponto percentual em 12 meses — a maior aceleração anual em três anos.

Há um ano, o índice era de 3,17%. Em 2023, girava em torno de 3,3%, e, em 2022, no auge do ciclo de aperto monetário, havia chegado próximo ao patamar atual.


Os dados mostram uma realidade dura: enquanto a renda cresce pouco e o crédito fica mais caro, famílias brasileiras entram em um ciclo de endividamento difícil de romper. Para muitos, pagar as contas do mês passou a exigir concessões dolorosas — e a sensação de que o esforço nunca é suficiente. Em meio a esse cenário, o desafio para o país é evidente: construir políticas que aliviem o peso das dívidas sem abandonar quem mais sente o impacto dos juros altos no dia a dia.

Com informações da CNN*

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Mídia americana aponta crescimento econômico no Brasil mesmo com ataques de Trump https://www.ocafezinho.com/2025/08/26/midia-americana-aponta-crescimento-economico-no-brasil-mesmo-com-ataques-de-trump/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/26/midia-americana-aponta-crescimento-economico-no-brasil-mesmo-com-ataques-de-trump/#respond Tue, 26 Aug 2025 12:57:38 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216151 A reportagem da Bloomberg reconhece a capacidade do país em enfrentar adversidades sem abrir mão de soberania e escolhas próprias

A economia brasileira voltou a ser pauta internacional e, desta vez, em tom positivo. De acordo com reportagem divulgada pela agência americana Bloomberg, o Brasil mostra sinais consistentes de resiliência mesmo diante de um cenário de juros altos, inflação acima da meta e turbulências externas como a guerra comercial imposta pelo governo de Donald Trump.

Segundo dados oficiais divulgados nesta terça-feira, a inflação anual desacelerou no início de agosto, puxada pela queda nos preços de alimentos e transportes. No acumulado de 12 meses, o índice registrou alta de 4,95%, abaixo da previsão anterior de 5,3% e ligeiramente acima da mediana estimada por analistas consultados pela própria Bloomberg, de 4,89%. Na comparação mensal, houve recuo de 0,14%, a primeira queda desde 2023.

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Embora a desaceleração ofereça algum alívio ao bolso do consumidor, o Banco Central segue firme na decisão de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 15% – o maior patamar em quase vinte anos. A medida busca assegurar o controle da inflação, que, apesar da queda recente, ainda está distante da meta oficial de 3%.

Outro fator que contribuiu para aliviar pressões inflacionárias foi o fortalecimento do real frente ao dólar. A valorização da moeda brasileira reduziu parte do custo de produtos importados, ainda que o comércio varejista tenha registrado retração.

No campo político e internacional, o Brasil enfrenta o peso das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. Ainda assim, a postura firme do governo em defesa da soberania e da produção interna tem repercutido positivamente. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia sofrido críticas no início do ano devido ao aumento nos preços de itens básicos como carne e café, conseguiu recuperar apoio popular ao mobilizar o país contra as barreiras comerciais de Washington.

Apesar do ambiente global desafiador e da cautela dos investidores, a Bloomberg reconhece que a maior economia da América Latina continua demonstrando vitalidade. O cenário de inflação em queda, somado à política monetária rígida e à valorização do real, reforça a capacidade do Brasil de enfrentar adversidades externas sem abrir mão de suas próprias decisões econômicas.

A mensagem que fica é clara: mesmo sob pressões internacionais, o Brasil segue em crescimento, preservando sua soberania e mostrando ao mundo que é capaz de construir seus próprios caminhos de estabilidade.

Mercado financeiro reduz previsão de inflação

O mercado financeiro voltou a revisar para baixo a expectativa de inflação no Brasil. De acordo com o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (25) pelo Banco Central, a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 4,95% para 4,86% em 2025. Esta é a décima terceira queda consecutiva nas estimativas do mercado, sinalizando uma confiança crescente de que a inflação está sob maior controle.

Apesar da revisão, o número ainda ultrapassa o limite estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A meta de inflação é de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo — o que significa que o teto permitido é de 4,5%.

Cenário recente da inflação

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em julho, a inflação oficial ficou em 0,26%, influenciada principalmente pela alta da energia elétrica. Por outro lado, os preços dos alimentos tiveram queda pelo segundo mês consecutivo, o que ajudou a aliviar a pressão sobre o índice.

No acumulado de 12 meses, o IPCA ainda está acima do esperado, chegando a 5,23%, o que reforça o desafio do Banco Central em trazer a inflação para dentro da meta estabelecida.

As projeções de médio e longo prazo também foram ajustadas: para 2026, a inflação esperada caiu de 4,4% para 4,33%; para 2027, ficou em 3,97%; e para 2028, em 3,8%.

Política de juros e perspectivas

Para segurar a inflação, o Banco Central mantém a taxa Selic em 15% ao ano, patamar mais alto em quase duas décadas. O Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu, na última reunião, o ciclo de altas consecutivas da Selic após sete aumentos seguidos. A decisão foi influenciada pelo recuo gradual da inflação e pelo início de desaceleração da economia.

Em comunicado, o Copom ressaltou que a política comercial dos Estados Unidos tem gerado incertezas adicionais sobre os preços no mercado internacional. Embora tenha sinalizado a manutenção da taxa de juros no curto prazo, não descartou a possibilidade de novos aumentos, caso a inflação volte a se descolar das metas.

As previsões do mercado indicam que a Selic deve encerrar 2025 ainda em 15%, caindo gradualmente para 12,5% em 2026, 10,5% em 2027 e 10% em 2028.

Taxas elevadas têm impacto direto no consumo e no crédito. De um lado, encarecem os financiamentos e estimulam a poupança, ajudando a conter a inflação. Por outro, podem frear a atividade econômica, dificultando a expansão da produção e do emprego.

PIB e atividade econômica

No campo do crescimento, a projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) foi levemente revisada, de 2,21% para 2,18% em 2025. Para os próximos anos, a expectativa é de crescimento mais modesto: 1,86% em 2026, 1,87% em 2027 e 2% em 2028.

Os resultados recentes, no entanto, mostram que a economia brasileira vem resistindo. No primeiro trimestre, puxada principalmente pela agropecuária, o PIB avançou 1,4%. Já em 2024, o país registrou crescimento de 3,4%, consolidando o quarto ano seguido de expansão — a maior sequência desde 2021, quando o avanço foi de 4,8%.

Moeda americana

Em relação ao câmbio, as projeções do mercado indicam que o dólar deve encerrar 2025 em torno de R$ 5,59. Para 2026, a expectativa é de leve alta, com a moeda norte-americana cotada a R$ 5,64.

Resiliência em meio aos desafios

Os números revelam um país que, mesmo diante de incertezas externas e da necessidade de manter juros elevados, segue em trajetória de crescimento. A combinação entre inflação em queda gradual, crescimento sustentado e fortalecimento de setores como a agropecuária indica que o Brasil preserva sua capacidade de enfrentar turbulências globais sem perder de vista seus objetivos de desenvolvimento.

Com informações de Bloomberg e Agências de Notícias*

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Altos preços e juros recordes afastam americanos do sonho da casa própria https://www.ocafezinho.com/2025/08/13/altos-precos-e-juros-recordes-afastam-americanos-do-sonho-da-casa-propria/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/13/altos-precos-e-juros-recordes-afastam-americanos-do-sonho-da-casa-propria/#respond Wed, 13 Aug 2025 14:38:26 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=215178 A diferença entre renda familiar e custo de imóveis dispara, ameaçando décadas de estabilidade financeira e planejamento social

Nos Estados Unidos, cada vez mais pessoas estão vendo o sonho da casa própria se tornar inacessível. O aumento expressivo nos preços dos imóveis e das taxas de hipoteca está fazendo com que o que antes era considerado um passo sólido para a segurança financeira agora pareça distante para muitos americanos, com consequências que podem alterar profundamente a estrutura social do país.

Um exemplo marcante é o casal Paul Woods e Nora Stout, que por seis anos viveu o que parecia ser o auge da realização do sonho americano. Proprietários de uma casa em Altadena, subúrbio de Los Angeles, eles cultivavam limões e laranjas, organizavam festas animadas ao redor da piscina e desfrutavam da vista das montanhas de San Gabriel. Após anos de aluguel, a aquisição da casa parecia garantir estabilidade e prosperidade a longo prazo.

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Mas a vida mostrou sua imprevisibilidade. Em janeiro, um incêndio florestal devastador destruiu a residência. Woods e Stout venderam o terreno incendiado por US$ 540 mil — 20% a menos do que pagaram em 2018 e cerca da metade do valor máximo da casa antes do incêndio. A reconstrução, além de extremamente cara, não compensava diante das mudanças irreversíveis na região. Hoje, o casal voltou a morar de aluguel em um pequeno apartamento no Condado de Orange, a mais de 60 quilômetros de Altadena.

No entanto, situações extremas como incêndios não são mais necessárias para que o sonho da casa própria se torne complicado. Em todo o país, os custos imobiliários estão em constante alta devido a uma combinação de fatores: a escassez de novas construções desde a crise financeira de 2008, proprietários relutantes em abrir mão de hipotecas antigas com juros baixos, políticas governamentais que encarecem tanto a compra quanto a construção de imóveis e os impactos cada vez mais frequentes de desastres climáticos. Essa equação crescente de custos tem levado cada vez mais americanos a repensarem se comprar faz sentido.

As taxas de hipoteca, próximas aos maiores patamares em duas décadas, e os preços recordes de imóveis são apenas a ponta do iceberg. Segundo o Harvard Joint Center for Housing Studies, em 2024 a renda anual necessária para custear uma casa mediana nos EUA era de US$ 126.670, um salto de 60% em relação aos US$ 79.330 de 2021. Enquanto isso, a renda familiar mediana subiu apenas para US$ 80.610 em 2023, alta de apenas 1,3% em três anos. “Não há pressa em ser proprietário de uma casa, dada essa diferença”, afirma Laurie Goodman, fundadora do Housing Finance Policy Center do Urban Institute.

Durante décadas, a lógica era simples: ao comprar uma casa, as prestações da hipoteca geralmente saíam mais baratas do que o aluguel. Hoje, essa regra está virando exceção. Dados do Realtor.com mostram que, em junho, alugar era, em média, US$ 908 por mês mais barato do que comprar uma primeira casa. Entre as 50 maiores áreas metropolitanas do país, a compra se tornou mais cara do que o aluguel em 49 delas — apenas Pittsburgh ainda oferece vantagem para os proprietários. Em 2021, quando os juros ainda estavam baixos, adquirir um imóvel ainda era mais barato ou equivalente a alugar em 21 mercados, incluindo cidades como Atlanta, Cleveland, Filadélfia e Tampa, na Flórida.

O cenário revela uma mudança histórica: para uma parcela crescente da população americana, o sonho da casa própria está se tornando não apenas difícil de alcançar, mas, em muitos casos, economicamente desvantajoso. À medida que os preços continuam a disparar e os juros permanecem altos, especialistas alertam que o país pode enfrentar um período prolongado em que alugar se torne a norma, em vez da exceção, mudando para sempre a forma como as famílias planejam seu futuro financeiro e sua estabilidade social.

Nos Estados Unidos, a ideia de comprar uma casa própria, por décadas considerada símbolo de estabilidade e ascensão social, está se tornando inacessível para um número crescente de americanos. Os altos preços dos imóveis, combinados com taxas de hipoteca próximas de máximas históricas e custos adicionais crescentes, estão afastando famílias do mercado, com implicações profundas para o patrimônio e a mobilidade social.

O aumento acelerado dos custos imobiliários está sendo impulsionado por fatores econômicos e ambientais. De acordo com a Cotality, o valor médio do seguro residencial nos EUA subiu 74% desde 2010, refletindo o impacto cada vez maior de inundações, incêndios florestais e outros desastres naturais. Entre 1980 e 2024, o Texas, um dos mercados mais aquecidos do país com amplas reservas de terra e poucas restrições ao desenvolvimento, liderou o país em desastres anuais que causaram mais de US$ 1 bilhão em danos. Somente em 2024, os EUA registraram 20 eventos desse tipo, um aumento significativo em relação a cinco ocorrências em 2014, sem contar as enchentes repentinas de julho, que mataram pelo menos 135 pessoas e afetaram dezenas de milhares de edifícios.

O impacto financeiro desses eventos se reflete também nos impostos prediais, que dispararam em várias regiões. Na Flórida, o imposto predial aumentou quase 50% entre 2019 e 2024; em Dallas, subiu 33%, e no Condado de Clark, Nevada — onde está Las Vegas — o aumento foi de 32%. Além disso, construir ou comprar uma casa nova está cada vez mais caro, pressionado pelas tarifas sobre materiais impostas pelo governo Trump e pela escassez de mão de obra. Muitos trabalhadores imigrantes, essenciais para a construção civil — como gesseiros, pedreiros e pintores — estão evitando o mercado devido a batidas do Serviço de Imigração e Alfândega, elevando ainda mais os custos de construção.

Historicamente, possuir uma casa própria sempre foi visto como um marco de conquista nos EUA. Desde a fundação do país, ter imóveis era associado a direitos políticos, e após a Segunda Guerra Mundial, a valorização das casas e incentivos fiscais consolidaram o imóvel como um tipo de poupança passiva que podia ser transmitida às gerações seguintes. No entanto, políticas de crédito nos anos 2000, incluindo os chamados empréstimos Ninja, que praticamente não exigiam comprovação de renda ou patrimônio, levaram milhões de famílias a inadimplência, desencadeando a maior onda de execuções hipotecárias desde a Grande Depressão.

A escassez de novas construções, agravada pela retração do setor após a crise de 2008, criou um déficit habitacional que chegou a cerca de 4,7 milhões de unidades em 2023. A oferta insuficiente mantém os preços altos, mesmo diante da redução da demanda, beneficiando proprietários antigos, mas impedindo que novos compradores entrem no mercado.

Essa realidade tem consequências diretas para o acúmulo de riqueza. O patrimônio líquido mediano de um proprietário de imóvel nos EUA é 43 vezes maior que o de um inquilino, segundo estimativa de 2025 da Pesquisa de Finanças do Consumidor do Federal Reserve. Mas mesmo o aluguel elevado impede que muitos jovens consigam poupar para dar entrada em uma casa. Joel Berner, economista sênior do Realtor.com, explica: “O fim do perdão da dívida de empréstimos estudantis e o aumento do custo de vida — há menos poupança por vários motivos.”

As barreiras para compradores iniciantes são evidentes. A idade média de quem adquire um imóvel pela primeira vez subiu para 38 anos em 2024, ante 28 anos em 1991. A participação desses compradores caiu para 24% do mercado, o nível mais baixo desde 1981, e cerca de um quarto deles depende de ajuda de familiares ou amigos para a entrada. Para pessoas cujos pais não possuíam imóveis, essa ajuda é menos acessível, criando um ciclo de exclusão intergeracional.

Além disso, as disparidades raciais persistem. Comunidades historicamente negras, como Altadena, perderam décadas de patrimônio devido a desastres recentes, e pessoas de cor continuam enfrentando discriminação no mercado imobiliário. Hoje, o acesso à casa própria está cada vez mais restrito, especialmente para quem não possui grandes recursos financeiros, tornando o sonho americano, para muitos, uma meta quase impossível de alcançar.

O papel do governo e a redefinição do sonho da casa própria

Diante desse cenário, surge a pergunta: a ação governamental pode mudar o jogo? Algumas medidas da nova lei de cortes de impostos e gastos de Trump buscam apoiar compradores de imóveis pela primeira vez, como a expansão dos créditos tributários para crianças e as chamadas “Contas Trump”, que ajudam as pessoas a poupar para a entrada ou outros investimentos de grande porte. No entanto, a maior parte dos benefícios tende a favorecer famílias e investidores de maior renda, segundo analistas, deixando os compradores de renda média ainda em desvantagem.

Sem programas federais significativos voltados à expansão do acesso à moradia, a iniciativa passou a ser, em grande parte, local. Utah destinou recentemente US$ 300 milhões a empréstimos com juros baixos para construção de moradias voltadas a compradores de renda moderada. Rhode Island oferece financiamento para estimular o desenvolvimento de casas populares ocupadas por seus proprietários. Minneapolis trabalha com incorporadoras sem fins lucrativos que promovem programas de arrendamento com opção de compra. Na Califórnia, o governador Gavin Newsom sancionou uma lei em julho para acelerar a construção de moradias, limitando contestações sob a Lei de Qualidade Ambiental do estado, historicamente usada por opositores do desenvolvimento. Ainda assim, os esforços para aumentar a densidade habitacional não tiveram grande impacto: o número de licenças de construção caiu em 2023 e 2024 devido aos altos custos de construção e financiamento.

Neste contexto, a posse de uma casa própria começa a ser repensada. Para alguns, a liberdade de não ter uma hipoteca que os prenda a um local pode ser mais vantajosa. Uma pesquisa da Entrata revelou que 83% dos inquilinos da Geração Z preferem investir em experiências como viagens e desenvolvimento profissional em vez de economizar para comprar um imóvel. Além disso, concentrar uma parte desproporcional dos ativos em uma casa aumenta a vulnerabilidade à volatilidade do mercado imobiliário.

Especialistas recomendam cautela, até mesmo para os proprietários mais antigos, que possuem hipotecas menores e juros baixos. Daryl Fairweather, economista da Redfin, sugere considerar a venda do imóvel e a mudança para uma opção de aluguel: “Acho que eles supervalorizam a permanência em uma casa. Imóveis são caros.”

Assim, à medida que os preços disparam e o acesso à casa própria se torna mais restrito, os Estados Unidos podem estar caminhando para uma sociedade de inquilinos — e, para muitos, essa realidade pode não ser tão ruim quanto parece. O sonho americano de décadas pode estar se transformando, mas abre espaço para novas formas de viver, investir e planejar o futuro.

Com informações de Bloomberg*

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Brasil, campeão mundial da usura e da desigualdade – o papel (ou papelão) do Banco Central, por Paulo Nogueira Batista Jr https://www.ocafezinho.com/2025/07/05/brasil-campeao-mundial-da-usura-e-da-desigualdade-o-papel-ou-papelao-do-banco-central-por-paulo-nogueira-batista-jr/ https://www.ocafezinho.com/2025/07/05/brasil-campeao-mundial-da-usura-e-da-desigualdade-o-papel-ou-papelao-do-banco-central-por-paulo-nogueira-batista-jr/#respond Sat, 05 Jul 2025 22:02:57 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=212094 Com juros nas alturas, o Brasil volta ao pódio mundial da desigualdade e penaliza os setores produtivos enquanto favorece a elite financeira

Hoje vou tratar de uma questão econômica especialmente complexa – a política de juros do Banco Central. O artigo vai ser um pouco mais técnico. Não desista, porém, leitor ou leitora. Se tiver dificuldades com alguma parágrafo ou termo técnico, pule a passagem e continue, ou faça na rede consultas conceituais rápidas.

Desde o ano passado, na gestão Roberto Campos Neto, e em 2025, na gestão Gabriel Galípolo, o BC aumentou expressivamente a taxa básica de juro, a Selic. Os juros reais ex ante (a taxa nominal descontada a inflação esperada) subiram para níveis recordes, colocando o Brasil, mais uma vez, como campeão ou vice-campeão mundial da usura. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o comando do BC indicou que os juros continuarão altos por muito tempo, adaptando-se de maneira mais ou menos passiva às expectativas do mercado financeiro.

Esses movimentos do BC desencadearam intensa controvérsia no país. Muitos foram contra, outros tantos a favor. Quem tem razão? Os financistas, rentistas e economistas do mercado, que costumam defender taxas de juro elevadas? Ou os setores industriais, os outros setores produtivos e os economistas mais heterodoxos, que rejeitam a política do BC? Como o leitor ou leitora provavelmente sabe, eu estou no segundo campo.

A questão é mais intrincada do que geralmente se imagina. As avaliações deveriam ser feitas portanto com certo cuidado, o que raramente acontece. A usual troca de slogans e adjetivos produz, como sempre, mais calor do que luz.

Mas esse cuidado não vai me impedir de ser incisivo nas conclusões do artigo.

A política de juros altos diminui mesmo a inflação? A que custo?

A política do Banco Central desmonta a economia real e transfere renda para os super-ricos, sob aplausos do mercado e silêncio institucional.
É possível reduzir a inflação sem sacrificar o povo? A atual política monetária responde com austeridade e concentração de renda / Agência Brasil

Algumas perguntas iniciais: juros elevados conseguem, de fato, controlar e reduzir a taxa de inflação, como costumam dizer seus defensores? E, em caso positivo, a que custo em termos de efeitos adversos sobre PIB, emprego, finanças públicas e distribuição da renda nacional? Trata-se de uma política eficaz? Ela é, também, eficiente?

Não há muita dúvida de que juros altos contribuem em geral e de forma importante para reduzir a inflação. Por meio de três canais, pelo menos. Primeiro porque comprimem a demanda agregada de consumo e investimento na economia, o que exerce pressão baixista sobre os preços dos bens e serviços não comercializáveis internacionalmente (non-tradeables), inclusive sobre remuneração do trabalho. Segundo porque tendem a provocar valorização cambial, o que deprime os preços em reais dos produtos comercializáveis internacionalmente (tradeables), tantos exportáveis como importáveis. Terceiro, porque a alta dos juros básicos, se for vista como sustentável, normalmente diminui as expectativas de inflação e, por essa via, tende a reduzir a inflação corrente e as taxas de juro de longo prazo. Assim, a política de juros altos é, normalmente, eficaz em reduzir a inflação.

Porém, isso não significa que ela seja eficiente, pois diversos fatores limitam os seus efeitos anti-inflacionários e produzem impactos colaterais adversos. Ela é eficaz porque gera queda da inflação; mas não é eficiente porque obtém esse resultado produzindo grandes estragos e efeitos colaterais.

Vamos a alguns desses fatores. Numa economia continental como a brasileira, o grau de abertura comercial externa, medido pela razão fluxos de comércio exterior/PIB, é inferior àquele que se observa em países pequenos e abertos. Em países pequenos, como a Suíça, a Bélgica ou a Holanda, entre muitos outros, onde o grau de abertura é muito elevado e quase sempre bem superior a 100%, a valorização externa da moeda nacional induzida por juros altos tem impacto decisivo sobre a inflação. No caso do Brasil, quem tem um grau de abertura da ordem de 40%, o impacto anti-inflacionário de uma apreciação externa do real, ainda que não desprezível, raramente chega a ser decisivo. (Diga-se de passagem que nos Estados Unidos, outra economia continental, o grau de abertura é ainda menor do que o nosso, inferior a 20%). Ou seja, a apreciação cambial requerida para obter determinada queda da inflação é maior em países como o Brasil, o que tende a solapar a competitividade internacional da economia e gerar desequilíbrio no balanço de pagamentos em conta corrente.

Um segundo aspecto da questão: há sempre alguma rigidez dos preços e salários à baixa. Em economias como a brasileira, que tem longa tradição de indexação, existe também alguma inércia da inflação, isto é, a tendência a trazer a inflação passada para o presente. Assim, o efeito anti-inflacionário de uma determinada contração da demanda agregada é menor do que seria se os preços e salários fossem mais flexíveis e menor o componente inercial da inflação.

Em suma, por esses e outros motivos, é preciso muita contração da demanda e/ou muita apreciação cambial para reduzir a inflação e colocá-la dentro da meta, especialmente quando essa meta é fixada de modo excessivamente ambicioso. É o que temos hoje – herança da incompetente gestão econômica do governo Temer, aquela que era conduzida por um suposto “dream team”, como se dizia na época em relação à Fazenda e o Banco Central. O governo Lula deveria, logo de cara, ter aumentado a meta central de inflação e o intervalo em torno dela, como queria o presidente Lula. Nada foi feito, porém. Prevaleceu na área econômica o receio de desagradar o mercado.

Efeitos sobre as finanças públicas e a distribuição da renda nacional

Os juros altos produzem efeitos colaterais destrutivos. Além de desacelerar a economia, eles desestabilizam as finanças púbicas de duas formas – diretamente (ao sobrecarregar o custo da dívida pública) e indiretamente (via efeitos adversos da retração do nível de atividade sobre arrecadação e gastos cíclicos como o seguro-desemprego). O setor público como um todo arca atualmente com despesas líquidas de juros da ordem de 8% do PIB! Esse componente, e não o badalado resultado fiscal primário, é que explica o déficit público e o crescimento da dívida do governo. O déficit primário está em torno de 0,6% do PIB.

E o problema não para aí. Quando o governo paga juros escorchantes, quem recebe? Quem são os credores do governo? Fundamentalmente, as instituições financeiras, os super-ricos, os ricos e, em menor medida, a classe média alta, além dos credores estrangeiros. Os juros altos são, na verdade, um poderoso instrumento de concentração da renda em um país que já é, há muito tempo, o campeão ou um dos campeões mundiais em matéria de desigualdade social. Convém reparar, além disso, que essa política monetária coloca reais exatamente na mão daqueles que têm alta propensão à fuga de capitais em momentos de incerteza, como no final de 2024 – fuga facilitada, recorde-se, pela liberalização prematura da conta de capitais, herança lamentável da gestão Fernando Henrique Cardoso. Alimenta-se assim com juros generosos o monstro da especulação cambial desestabilizadora. O país sofre e a turma da bufunfa comemora.

Ninguém está pedindo que o novo comando do Banco Central dê uma cavalo-de-pau na política monetária. Mas, francamente, status quo?? Manter tudo como estava nas gestões anteriores da instituição??


Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora LeYa Brasil o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição 2021, e pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.

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Paulo Nogueira Batista Júnior: Os rumos do Banco Central https://www.ocafezinho.com/2025/05/19/paulo-nogueira-batista-junior-os-rumos-do-banco-central/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/19/paulo-nogueira-batista-junior-os-rumos-do-banco-central/#respond Mon, 19 May 2025 13:12:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=209005 A gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central ainda não mostrou mudanças significativas, mantendo traços da administração anterior

Gabriel Galípolo e os demais indicados pelo presidente Lula para o comando do Banco Central ainda não disseram a que vieram. São economistas competentes e, pelo que se sabe, de orientação econômica menos ortodoxa. Mas até agora pouco mudou – talvez nada. Visto de fora, é como se o Banco Central continuasse a ser presidido por Roberto Campos Neto – com a diferença de que o governo agora não tem mais o bode expiatório.

Não quero exagerar, entretanto. A visão de fora pode não captar mudanças ocultas, em gestação. E a verdade é que pouco tempo se passou desde a saída do presidente anterior. Pode-se supor que Galípolo e os novos diretores ainda estejam tomando pé da situação. Afinal, como ignorar que o Banco Central é uma instituição grande e complexa? Não se dá cavalo-de-pau num transatlântico. Vamos então dar o benefício da dúvida a Galípolo e cia.

Para entender a situação do comando do Banco Central neste momento é fundamental ter em conta, entre outros fatores, o seguinte fato básico: a política econômica obedece em alguma medida à influência do ciclo político. A perspectiva de eleições influencia inevitavelmente a condução da política econômica, inclusive a monetária.

Do ponto de vista do governo brasileiro, faz sentido praticar políticas monetária e fiscal razoavelmente apertadas entre o final de 2024 e meados de 202, de forma a conter um pouco a inflação, para em seguida relaxar a política econômica, no final de 2025 e início de 2026, ajudando a criar um clima mais propicio à reeleição de Lula (ou à eleição de quem ele resolver indicar em seu lugar). Isso significaria começar a reduzir a taxa básica de juro nos próximos meses.

Um economista ortodoxo discordará e dirá certamente que o Banco Central tem autonomia em relação ao governo e não deve subordinar a seus objetivos político-eleitorais. Isso é teoria, entretanto. Na prática, os bancos centrais quase nunca são totalmente autônomos em relação ao poder político. Acabam refletindo em alguma medida, de forma não declarada, a orientação geral do governo pelo qual os seus dirigentes foram indicados.

Evidentemente, o mandato do Banco Central requer obediência às metas de inflação estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional. Ora, a inflação e as expectativas de inflação estão “desancoradas”, isto é, superam o centro da meta (3%). A política monetária deve então, argumenta-se, fazer a inflação convergir para a meta (ou, pelo menos, situá-la dentro do intervalo previso no regime de metas).

Porém, um risco central, sempre presente, é que alcançar a meta de inflação pode cobrar um preço proibitivo dos pontos de vista social e político. De que adiantaria colocar a inflação no centro da meta e entregar o país de mão beijada para a direita ou a ultra direita em 2026? Quando se considera o baixíssimo nível da oposição, tanto a bolsonarista, como a direita tradicional, a perspectiva é aterradora.

Parte do problema que estamos enfrentando, leitor ou leitora, está na definição da meta de inflação – 3% com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Estabelecer metas ambiciosas como essa contribui para forçar o Banco Central a praticar juros muito elevados.

O responsável por essa definição, recorde-se en passant, foi o presidente do Banco Central Ilan Goldfajn no governo Temer, uma das várias figurinhas carimbadas que exerceram esse cargo ao longo das décadas recentes. Na época, o argumento “científico” era que a Colômbia e o Chile tinham meta de 3%. Por que não o Brasil? – argumentavam Goldfajn e seus asseclas. Como dizia Brizola, a elite brasileira é um lixo.

O governo Lula deveria ter revisto a meta de inflação logo no seu início em 2023, como parecia querer o próprio Presidente da República. Diversos economistas, inclusive eu mesmo, argumentaram que seria conveniente elevar o cento da meta para 3,5% ou 4%, aumentando ao mesmo tempo o intervalo entre o piso e o teto da banda de 1,5 para 2 pontos percentuais. O teto para a meta ficaria em 5,5% ou 6%, o que permitiria absorver choques de oferta sem praticar juros exorbitantes. Manteve-se entretanto a meta ambiciosa, com as consequências que estamos vendo.

Não há dúvida de que uma taxa básica de juro elevada pode ajudar no combate à inflação. Como? Primeiramente, porque tende a gerar apreciação do real, favorecendo o controle dos preços dos bens e serviços comerciáveis internacionalmente. Em segundo lugar, porque derruba o nível de atividade e de emprego, comprimindo os preços dos bens e serviços transacionados domesticamente.

O problema, como se sabe, é que a redução ou desaceleração da atividade econômica, ao afetar o emprego e a renda, provoca deterioração do quadro social e prejudica o governo do ponto de vista político. Além disso, tende a reduzir a arrecadação tributária, piorando o resultado primário das contas públicas.

Ainda mais importante do ponto de vista das finanças governamentais: a taxa básica de juro aumenta direta ou indiretamente o custo da dívida, que é majoritariamente interna. A despesa líquida de juros do setor público consolidado já supera os 8% do PIB! O propalado crescimento do déficit e da dívida do governo tem muito mais a ver com essa carga de juros do que com o déficit primário (que está em torno de 0,6% do PIB) – contrariamente ao que sustentam ou insinuam os economistas da Faria Lima e a mídia tradicional.

Não se pode esquecer, além disso, que os juros altos concentram a renda nacional. Não é por acaso que a turma da bufunfa defende uma política monetária apertada. Quem embolsa os juros pagos pelo governo? Os ricos e super-ricos com elevada poupança financeira aplicada em títulos públicos. O Banco Central está desfazendo, pelo menos em parte, o considerável progresso feito em termos de distribuição de renda pelo governo Lula em 2023 e 2024.

Um último ponto, nem sempre notado: a taxa de juro exorbitante coloca dinheiro nas mãos daqueles que têm meios de remeter recursos para o exterior quando bem entenderem. Com a liberdade que se concedeu mandar dinheiro para fora, a turma da bufunfa faz o que bem entende, entrando e saindo do país quando lhe convém – um legado da desastrosa gestão Fernando Henrique Cardoso, que promoveu a liberalização prematura da conta de capitais. Algo que a China, por exemplo, jamais fez.

Depois do último aumento da Selic, a taxa real de juros ex ante se aproxima de 10%! Preciso dizer mais? Por todos esses motivos econômicos, sociais e políticos, Galípolo e cia. não podem demorar a reduzir os juros.


Versão ampliada de artigo publicada na revista Carta Capital.

O autor é economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços.

E-mail: paulonbjr@hotmail.com

Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br

Portal: www.nogueirabatista.com.br

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Selic alta e Moody’s eleva nota do Brasil https://www.ocafezinho.com/2024/10/01/selic-alta-moodys-eleva-nota-brasil/ https://www.ocafezinho.com/2024/10/01/selic-alta-moodys-eleva-nota-brasil/#respond Tue, 01 Oct 2024 22:34:35 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=193713 Selic alta e Moody’s eleva nota do Brasil: a decisão de elevar a Selic contrasta com a elevação da nota do Brasil pela Moody’s, apontando divergências sobre o futuro da economia.


Recentemente, o Banco Central decidiu elevar a taxa Selic para 12,25% ao ano, contrariando o movimento da agência Moody’s, que elevou a nota de crédito do Brasil para Ba1 e manteve uma perspectiva positiva. Isso levanta uma importante questão sobre a interpretação das condições econômicas do país e os rumos da política monetária. A alta da Selic e a confiança expressa pela Moody’s parecem apontar direções opostas para o futuro do Brasil.

Segundo a Moody’s, o upgrade na nota do Brasil reflete melhorias significativas no desempenho de crescimento, bem como um histórico crescente de reformas econômicas e fiscais que contribuem para uma maior resiliência do perfil de crédito do país. A agência destaca que o crescimento real do PIB foi revisado para 2,5% em 2024 e ao longo do médio prazo, superando os anos anteriores à pandemia, impulsionado por reformas estruturais e aumento dos investimentos.

Crescimento robusto e reformas estruturais versus alta da Selic

A Moody’s indica que a economia brasileira surpreendeu positivamente entre 2022 e 2024, com crescimento tanto no setor industrial quanto no de serviços, apoiado por um mercado de trabalho mais forte e maiores salários reais. A agência também menciona que, apesar de um ambiente político polarizado, governos sucessivos conseguiram avançar em reformas essenciais, como a implementação da independência do Banco Central e melhorias na governança das empresas estatais.

Por outro lado, o Banco Central optou por elevar os juros, alegando a necessidade de ancorar expectativas de inflação e manter a credibilidade da política monetária. No entanto, essa decisão ocorre num momento em que a Moody’s destaca uma trajetória positiva de crescimento e melhorias institucionais. Essa discrepância entre a alta da Selic e a visão otimista da Moody’s levanta questionamentos sobre o que está orientando as ações do Banco Central e se elas não estão sendo excessivamente conservadoras, considerando o atual momento econômico.

Crítica às declarações de Campos Neto e a divergência com o governo

O presidente do Banco Central, Campos Neto, defendeu recentemente a elevação dos juros e se manifestou sobre a desconfiança do mercado em relação ao arcabouço fiscal. Segundo ele, essa desconfiança “não é exagerada”, ressaltando uma visão pessimista sobre a credibilidade da política fiscal atual. Essa declaração ocorre num momento em que outros membros do governo criticam abertamente o patamar dos juros, indicando uma clara divergência de abordagem dentro do próprio governo.

Essa tensão ficou evidente com críticas direcionadas a Campos Neto, que foi acusado de “se meter onde não deve”, fazendo referência ao fato de ele comentar sobre a política fiscal enquanto mantém os juros elevados. A crítica sugere uma inconsistência: enquanto Campos Neto não aceita que outros membros do governo questionem a alta da Selic, ele se posiciona publicamente sobre o arcabouço fiscal, contribuindo para o aumento da percepção de risco.

Riscos e limitações da política fiscal

A Moody’s também destaca que, embora o crescimento e as reformas tenham trazido resiliência ao perfil de crédito do Brasil, ainda existem limitações importantes. Rigididades estruturais nos gastos e a elevação dos desembolsos obrigatórios, como previdência e programas sociais, continuam sendo desafios que dificultam uma consolidação fiscal mais rápida. A agência observa que o déficit fiscal permanecerá elevado, principalmente devido aos altos pagamentos de juros, que consomem cerca de 15% das receitas do governo.

Nesse contexto, a alta da Selic parece ampliar a pressão sobre a política fiscal. Juros mais altos aumentam o custo da dívida, o que dificulta ainda mais o equilíbrio das contas públicas e retarda o progresso na redução do endividamento. O relatório da Moody’s sugere que, na ausência de grandes choques, o cumprimento do arcabouço fiscal levará à estabilização da dívida pública em torno de 82% do PIB no médio prazo, um nível relativamente elevado, mas que pode ser sustentável desde que a economia continue apresentando crescimento sólido.

Perspectivas futuras e o impacto da política monetária

O contraste entre a avaliação da Moody’s e a decisão do Banco Central coloca em evidência uma diferença de abordagem sobre como gerenciar o crescimento econômico e a estabilidade fiscal. Enquanto a Moody’s projeta um cenário de crescimento robusto e reformas que impulsionam a credibilidade fiscal, o Banco Central adota uma postura que prioriza o controle da inflação em detrimento do crescimento econômico de curto prazo.

O relatório da Moody’s também aponta que uma redução nos custos de endividamento teria um impacto positivo na trajetória da dívida do Brasil, especialmente se combinado com um desempenho sólido do crescimento. Isso sugere que manter a Selic alta pode não ser a melhor estratégia para reduzir o risco fiscal e estabilizar a economia a longo prazo. A confiança no cumprimento das metas fiscais e no avanço das reformas estruturais, como a reforma tributária e os esforços de transição energética, poderia criar condições mais favoráveis para a redução dos custos de dívida e, consequentemente, para a recuperação econômica.

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