Kiko Dinucci - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/kiko-dinucci/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 11 Oct 2016 13:57:46 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Kiko Dinucci - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/kiko-dinucci/ 32 32 O samba invocado de Douglas Germano em seu novo disco, “Golpe de Vista” https://www.ocafezinho.com/2016/10/10/o-samba-invocado-de-douglas-germano-em-seu-novo-disco-golpe-de-vista/ https://www.ocafezinho.com/2016/10/10/o-samba-invocado-de-douglas-germano-em-seu-novo-disco-golpe-de-vista/#comments Mon, 10 Oct 2016 14:47:40 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=56100 2 Comentários 🔥]]> Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.
Foto de capa: Arnon Gonçalves

Douglas Germano é uma expressão incontornável, até mesmo necessária, na música brasileira de hoje. Não somente por desenvolver um trabalho musical rico em ideias no plano dos arranjos e dos timbres — um disco de samba que mexe com timbres! — mas pelo traço de simplicidade, originalidade e precisão que atravessa suas composições. Trabalhadas a partir de um vasto repertório de referências, seus sambas falam do ponto de vista daquele tom invocado dos afrosambas de Baden Powell e dos sambas épicos de PC Pinheiro, incorporando também o samba de breque, o “sincopado”, o batuque de santo, o pagode, a cidade, os personagens, o futebol. Em uma articulação repleta de inflexões e referências sutis, evoca poder suficiente para abalar o perceptível engessamento dos modos de compor e tocar o samba no Brasil. Dessa doença, ocasionada em parte pelo oportunismo mercadológico, mas também pela quimera do “samba de raiz”, Germano não padece. Compositor habilidoso, percussionista, violonista, cavaquinista e intérprete eficaz de suas próprias canções, opera a música à semelhança de um estilingue: como um elástico, puxa pela memória uma miríade sonora fortemente marcada pela cultura do samba, da malandragem e da luta política, para logo lançar a música a um futuro que insiste e que não tarda.

O primeiro registro como compositor surgiu em 1991, quando o Fundo de Quintal gravou sua parceria com Carica, “Vida Alheia” para o álbum É aí que quebra a Rocha. Percussionista criado nas fileiras da Nenê da Vila Matilde, foi um dos pontas de lança do Mutirão do Samba, movimento de compositores que renovou o samba paulistano no final dos anos 90. Participou do Bando Afromacarrônico com Kiko Dinucci entre 2005 e 2008, cumprindo uma temporada memorável no bar paulistano Ó do Borogodó — mais tarde, Dinucci gravaria algumas de suas músicas com o Metá Metá, entre as quais se destacariam “Obá Iná”, “Oranian” (com Dinucci) e a aclamada “Vias de Fato” (com Edu Batata e Dinucci). Juçara Marçal gravou “Damião” (com Everaldo F. da Silva) e “Canção pra ninar Oxum” no clássico Encarnado (2014) e, recentemente, sua “Maria da Vila Matilde”, uma canção que denuncia a violência contra a mulher, foi selecionada para integrar o repertório do extraordinário álbum de Elza Soares, A mulher do fim do mundoGolpe de Vista, seu segundo disco, vem na sequência de O retrato do artista quando pede (2009) —  gravado com Dinucci no Duo Moviola — e de Orí (2011), lançado apenas em formato digital, concentrando um material condizente com seu repertório e ideias sobre samba, percussão e harmonia.

Golpe de Vista é trabalho afirmativo e de afirmação, de luta e de festa. Germano enuncia os sins e os nãos do “seu samba”: “Meu samba na?o e? de lamento, e? muito mais de atormentar”, “Meu samba e? ruim da cabec?a, meu samba ate? manca pra andar”, “Meu samba na?o vale o que pesa, meu samba na?o pesa o que da?. Meu samba e? caminho sem volta, e a volta e? o mundo a girar…” O samba que tira e que dá, que leva e que traz (mas não é leva-e-traz), que gira e que ressucita a malandragem através de uma sensibilidade aguçada para tudo o que acontece à sua volta. Mas que seleciona cuidadosamente seu assunto, sua matéria de expressão a partir de escolhas eficazes: a jogada entre a caixinha de fósforo e do afoxé, o coro forte, o cavaquinho cortando o vaivém do violão: o samba em movimento. Golpe de Vista não se resume, assim, a um disco “de samba”, mas o retrato possível de um compositor quando se desloca, deixando a zaga forte do conservadorismo para trás.

A seguir, o papo que Germano bateu com o Cafezinho por email sobre samba, política, cultura, sua trajetória e sobre o Golpe de Vista. (B.O.)

OUÇA O DISCO

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Tenho a impressão de que você é, acima de tudo, compositor, certo? Mas quando fui escutar o disco, descobri um multi-instrumentista original…
Sim. Sou compositor. Não sou um instrumentista e não tenho pretensões com o canto. Meus instrumentos estão a serviço da minha composição. Dificilmente me apresento acompanhando outros repertórios. Já fiz isso muito quando era adolescente. Hoje só me apresento ou participo de situações onde toco minhas músicas.

Como você chegou na música? Quais suas influências, musicais e não-musicais?
Minhas influências são muitas. Desde o funk dos anos 80 como a banda Zapp, por exemplo, passando por Duke Ellington, Domênico Scarlatti, Brahms, Mozart, Noel, Bira e Catoni, Romildo e Toninho, bateria de escola de samba, Francis Hime, Gilberto Gil, João Gilberto, o carnaval, o futebol, a linha de trem de subúrbio, João Antônio, Fausto Wolff, Camus, Rubem Fonseca, seu Nenê, Ruy Weber… É muita coisa, muitas pessoas. E há as músicas que sozinhas fizeram reviravoltas como “Oração de Outono” de Paulinho da Viola, “A Lacrimosa” do aluno do Mozart [Franz Xaver Süssmayr], “Serenata pro Pilger” de Maurício Carrilho, “A Roda” de Gil… muita coisa!… Letra de Aldir, PC Pinheiro, Chico, Elizeth, Elis, Elza, Leny Andrade, uma tabela Zico, Adílio, Ratos e urubus de Joãozinho 30, enfim o Brasil é um assombro pra inspirar.

Em 91 você emplacou uma composição em um disco do Fundo de Quintal, “Vida Alheia”, em parceria com Carica. Por favor, conte um pouco sobre essa história.
Somos contemporâneos e amigos: Eu, Luizinho SP, Carica, Miltinho Conceição, Soró, Paquera, já falecido. Compunhamos muito. Sozinhos ou em parceria. Carica apresentou a música para o Arlindo Cruz na quadra da Camisa Verde e Branco que era, à época, onde essa rapaziada se reunia. Especialmente aos sábados, no “Butiquim do Camisa”. Arlindo gostou e o Fundo de Quintal gravou.

A temporada em que você tocou no Ó do Borogodó [bar de São Paulo] com o Bando AfroMacarrônico foi decisiva para sua forma de compor e pensar música?
Não. Fiz parte do Bando AfroMacarrônico a partir de 2005 ou 2006 até o fim das noites no Ó do Borogodó. Componho desde a segunda metade da década de 1980.

Sim, mas pergunto por conta de uma declaração que você deu ao site Vermelho: “Se virou é porque as pessoas gravam, cantam e falam. Eu fico feliz pra caramba. E o Ó do Borogodó é um dos responsáveis por isso.”
Ah, sim!!! Nesse sentido, absolutamente. O Ó do Borogodó é um oásis. E não só para nós, mas para todos os músicos que por lá passaram ou ainda tocam. É um espaço de liberdade absoluta, absoluta! Você entra lá e faz tua música. E o público, de maneira geral, sabe que irá lá para ouvir coisas diferentes. O Ó do Borogodó não é um bar com música ao vivo, é um bar de artistas, de gente que pensa música e lá expõe essas ideias. Há músicos geniais na lista dos que tocaram e tocam lá.

Você parece um compositor prolífico. Por que cinco anos entre Orí e Golpe de Vista?
Dinheiro para gravar. Tenho muita coisa e continuo fazendo, mas ir para estúdio demanda uma estrutura que ainda não possuo, mas que estou trabalhando para conseguir. Se acontecer, ao menos um disco por ano, seria possível.

Um disco por ano seria ótimo para os que acompanham seu trabalho. Você começou a compor na década de 80, quando a indústria fonográfica tinha um papel preponderante na produção musical. Como você percebe a situação do artista, sobretudo do compositor, atualmente?
Do ponto de vista financeiro, a mesma. Mas esses tempos de redes possibilitam que eu, um compositor, produza e espalhe o trabalho por toda parte. Isso era impensável. E o processo se alterou para esta fórmulazinha básica: grava, espalha na rede e, a partir da repercussão, você faz shows e neles vende o disco. É assim. Pouca gente põe disco em loja. Vende mesmo nos shows e no máximo nas redes de streaming.

Falemos do disco: por que “Golpe de vista”?
Porque é uma ação solitária que depende de poucos ou nenhum instrumento. Fração de segundo. Depende de posicionamento e visão do lance. Como um goleiro, um motorista. É se defender com as armas que se tem à mão. No meu caso, o violão, as composições como as toco e canto e a caixa de fósforo.

A sonoridade do disco é muito particular em relação ao samba que é produzido hoje, sobretudo do ponto de vista da percussão. Como foi a concepção do álbum? Como você chegou nessa sonoridade?
Eu quis, em Golpe de Vista, registrar minha forma. Quando você manda música para um intérprete, não participa da concepção estética, etc. É é bom que seja assim. É surpreendente ouvir as leituras que fazem de suas composições. Golpe de Vista é um disco de compositor, portanto eu não poderia preenchê-lo com arranjos, introduções, interlúdios. Quis fazê-lo registrando as música do jeito que as toco e canto e com pequenas ampliações que tenho na cabeça que contribuem mais para a “dramaturgia” que para a estrutura musical. Como os surdos e o cavaquinho com arco de violoncelo que utilizei em “Zeirô, Zeirô!!!”. A caixa de fósforos é um complemento para a batucada que, de fato, está no violão. É um hábito. Sou fumante e sempre andei com uma caixa de fósforos no bolso ao invés do isqueiro. Exatamente pela possibilidade de batucar esperando um ônibus na madrugada.

Cavaquinho com arco de violoncelo é uma ideia sensacional! Você considera sua música “experimental”, no sentido de uma busca por outras sonoridades?
Não. Não tem experiência. Estou na casa dos 50 anos, Bernardo. Já toquei muito, compus e principalmente ouvi muita coisa de todo tipo. Isso formou minha cabeça e dela saem os sons para cada composição. Estudei violoncelo. A inspiração para utilizar o cavaquinho com arco é o tango de Piazzolla e a forma como ele desenha o violino em sua música. Aquilo tem uma dramaticidade maravilhosa. Me apropriei.

“You S/A” é um dos destaques do disco. Como pintou essa composição? Pergunto porque a letra parece um tanto misteriosa. E o final, inesperado: qual a ideia por trás desse final?
Essa música trata dessa onda relativamente recente dos grandes mentores do “gerenciamento, otimização do capital humano”. São Paulo é uma cidade onde as pessoas pensam no trabalho primeiro e no resto depois. E a palavra resto é proposital. A vida vira um resto. A pessoa sai de férias e se sente mal, deslocado, pois não está habituado a ter nada pra fazer ou só ter que cuidar de si. É uma deformação da pessoa física em pessoa jurídica. E há os mentores citados com suas palestras que no fundo são uma doutrinação dos empregados em favor da empresa. “You S/A” é isso. Você sociedade anônima. Homem com CNPJ ao invés de CPF. A letra é de Everaldo F. Silva, o mesmo parceiro em “Damião”. Nos meus trabalhos sempre haverá música nossa.

São Paulo é uma cidade onde as pessoas pensam no trabalho primeiro e no resto depois. E a palavra resto é proposital. A vida vira um resto.

Quem é “Maria da Vila Matilde”? Essa música na voz de Elza ganha um sentido totalmente particular, pois ela assumiu esse assunto algumas vezes… 
Essa Maria é minha mãe. Penha e Vila Matilde são bairros vizinhos em São Paulo. Dentro da Escola de Samba Nenê de Vila Matilde foi onde vi, pela primeira vez, exemplos de poder feminino. Dessa equação fiz a música.

Sua mãe? Você se importaria de falar um pouco mais sobre isso? Que exemplos de poder feminino foram esses?
Minha mãe. Não sei bem o que dizer. É minha mãe. E ela sofreu violência doméstica. Isso destruiu completamente minha família que hoje é completamente fragmentada no estado de São Paulo. Não há Natal com todos, aquelas coisas todas, não há.

Exemplos de poder feminino podem ser observados em qualquer quadra de escola de samba. Basta você chegar num domingo de ensaio ali por volta da 17h, você verá, invariavelmente, a ala das baianas tomando um chazinho com bolo e dando puxão de orelha em moleque da bateria que fez alguma trapalhada, em diretor de harmonia que fez correr no ensaio passado, no cantor que não cantou tal samba, no carnavalesco pra não pesar o costeiro ou o chapéu etc. E são ouvidas. Se pede benção a elas. É por aí. Isso tudo se pode observar hoje ainda. Comigo aconteceu dentro da Nenê lá pra 82, 83…

Seu pai, Seu Germano, parece ter sido uma grande influência. Ele era percussionista? Li em uma entrevista que você também cita Armando da Mangueira como influência…
Ele era percussionista de conjuntos de baile. Nos anos 60 era aquele formato Originais do Samba. E o crooner dos conjuntos era Armando da Mangueira. Versador imbatível, cantor e autor de vários sambas de enredo da Nenê de Vila Matilde. Por conta dessa proximidade de meu pai com Armando é que fui parar na Nenê. Agradeço muito! Meu pai é o que se convencionou chamar “malandro romântico”. Meu pai está registrado nas páginas de João Antônio. Minha infância foi sustentada com dinheiro de jogo. Sinuca, baralho. Nunca faltou nada em casa… (risos)

Fale-nos um pouco sobre o disco O retrato do artista quando pede (2009), que você gravou com o Kiko Dinucci no Duo Moviola.
Duas crianças curiosas e cheias de ideia trancados num estúdio com tampas de panela, violões, baldes etc.

Duas crianças curiosas e cheias de ideia trancados num estúdio com tampas de panela, violões, baldes etc. [sobre Duo Moviola]

Havia algum tipo de aspiração particular nesse disco, tipo revirar o terreno do samba paulistano?
Não. Não queríamos revirar nada. Isso de fazer algo em detrimento de outra coisa não existe em cabeça de artista. Apenas queríamos levar nossa liberdade às últimas consequências. Como estávamos muito próximos por causa do AfroMacarrônico compúnhamos muitas coisas e parte delas não cabia no repertório do Afro. Montamos o Duo Moviola para tocar essas coisas.

Eu percebo em seu trabalho como compositor uma forma muito criativa de reinventar os “Afrosambas”, a música “épica” de PC Pinheiro… Faz sentido?
É subjetivo. Cada um faz uma leitura e são todas muito interessantes. Mas confesso que quando vou fazer música não penso em nada disso, não. Meu objetivo diante da folha em branco é tornar a história clara, comunicar a minha inquietação.

Você sempre parte de uma inquietação? Você é um indivíduo que se interessa pela política. Sua música é política em sentido amplo?
Sim, sem dúvida. Não saberia fazer se não fosse engajado de alguma maneira. Tudo na vida é uma ação política, né!?

Como você acha que isso acontece com relação à música? Como a música pode ser política sem ser necessariamente partidária (ou sendo)? De que modo ela pode interferir na política?
Eu acho que a partir do momento em que você resolver fazer arte, já está tomando partido. Eu acho que não há questão partidária, mas há a questão política. A música age em outra esfera. A da informação, das referências, dos questionamentos, e principalmente da dúvida, da necessidade de aprender. É alimento à curiosidade, instiga, indica caminho, provoca. Tudo isso tem consequência política já que escolher o lugar onde se vai tomar o cafezinho é uma opção política. A pessoa ouve uma música e a partir dela vai atrás de Darcy Ribeiro, descobre Cunhambebe, Manoel de Barros, Antônio Cândido, vai à Mazzaropi, Truffaut, Camus, volta para Fausto Wolff… Não tem fim e tem: consciência política no sentido mais amplo.

Eu acho que a partir do momento em que você resolver fazer arte, já está tomando partido. Eu acho que não há questão partidária, mas há a questão política.

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Outro de seus personagens ricos e trágicos, Damião, como ele surge?
Damião foi assassinado dentro de um centro para tratamento de pessoas com deficiências cognitivas no ceará em 1999. O caso foi a primeira condenação do Brasil na Corte Internacional de Direitos humanos.

A música parte de uma ideia forte: Damião retorna e se vinga daqueles que o assassinaram. Você poderia falar um pouco sobre o imaginário de suas composições? Elas às vezes parecem grandes sonhos…
Legal sua leitura. Mas não sonho nada. Em “Damião” está a vontade de ir à forra diante de uma desumanidade tão grande. Dá neles e quando cansar me chama. O como há desumanidades!

O “me chama” é o que há de mais emocionante nessa música… Esse aspecto dramático é algo presente na sua música. Você compôs para teatro também, certo? Existem grandes diferenças entre compor por compor e compor por encomenda?
Sim. Por encomenda é menos sofrido e muitas vezes me salva de períodos entressafra.

Pode falar um pouco mais sobre esse trabalho com teatro? Quais peças e em que circunstâncias foram feitas? É possível escutar a música que vc fez para essas peças? 
João Poleto fez direção musical para vários espetáculos teatrais. Em um deles, me chamou para fazer parte do grupo de músicos que executaria a trilha ao vivo. Topei. Isso foi na Cia Teatro X, em 1994 no espétáculo Torre de Babel de Fernando Arrabal. O espetáculo seguinte seria Zumbi. João estava com agenda lotada e uma viagem em temporada para Paris e me indicou a Paulo Fabiano, o diretor da Cia. Ali começou uma grande amizade e meu trabalho para a Cia Teatro X. Ao todos foram 14 espetáculos entre os que participei tocando e os que dirigi musicalmente com trilha original. A trilha do espetáculo Calígula foi finalista no prêmio Shell de 2003 na categoria melhor trilha original.

É possível ouvir parte dessas músicas. A música “Canção de desmeninar” do disco Orí foi feita para o espetáculo Prometeu Enjaulado. A “Marcha do Homem-Bala” gravada recentemente pela cantora Juliana Amaral em seu disco Açoite, foi feita para o espetáculo Espólio de 2002. A Música “Oyá”, recentemente gravada pelo Metá Metá, fiz para o espetáculo Bando de Maria de 2002, 2003. Em 2009 foi letrada por Kiko Dinucci. Há outras que pretendo gravar em trabalhos futuros. Todos os espetáculos citados acima tiveram direção de Paulo Fabiano e foram produzidos e encenados pela Cia.Teatro X.

Mudando um pouco de assunto, sobre samba: você menciona Luizinho SP como um amigo próximo. Percebo que Luizinho compõe dentro de uma forma que deriva do samba do Cacique de Ramos do final dos anos 70. Existe esse negócio de “samba do Rio”, “samba de SP”? Ou hoje a coisa está mais embaralhada?
Existe, sim. Muito. A maneira de produzir o samba hoje, independente de onde o autor estiver, usa essas características que você citou. Às vezes parece linha de produção. Só troca o cantor. Arranjo, instrumentação são os mesmo. Mas é o seguinte — e este “seguinte” é bem importante: se alguém resolver romper com isso, não estará inventando nem rompendo nada. Um exercício simples é ouvir a obra do Paulinho da Viola. Nela você escuta o samba tocado de várias maneiras. No tampo do violão, com caixa de fósforo, com cavaquinho afinado abaixo dos 440, surdo com afinações diferentes a cada faixa, conversas no estúdio, enfim… A boa discussão é descobrir porque se abandonou essa riqueza toda para pasteurizar o som do gênero.

Não é curioso que o reaparecimento do tal “samba de raiz” coincida com essa pasteurização? Quer dizer, supostamente com o retorno do “samba de raiz” (aqui no RJ, o “samba da Lapa” dos anos 2000) o samba deveria perseverar em sua trajetória de reviravoltas e invenções (Estácio, o samba de breque, o partido alto do Martinho, Candeia, Cacique)? Por que você acha que o samba estagnou em termos de ousadia?
Não acho que tenha estagnado. Uma coisa é discutirmos isso a partir do que acontece em rádio e na grande mídia. Outra coisa é discutir sob o ponto de vista da criação. A criação tem vigor, mas às vezes, se perde no funil da produção e, no meu modo de entender, da prejudicial “direção artística”, que muitas vezes não está na mão do criador e atende às demandas da indústria.

O samba sempre foi de dar voltas. Sempre foi porta-voz de carências e reclamações. Os grandes do samba sempre promoveram transformações através do gênero. A grande questão para as novas gerações é pegar o bastão desse artistas e passar adiante. Afinal eles produziram e transformaram com ferramentas e condições infinitamente menores do que as que temos agora. Seja para transmissão e mesmo sob o aspecto social. Acho uma imbecilidade o tombamento do samba.

E o Mutirão do Samba, como foi essa história?
O Mutirão do samba foi um projeto que deu uma revolucionada no samba aqui em Sampa. Eu e meus amigos Antônio Carlos Moreira e Everaldo F. Silva construímos a ideia. Se baseava praticamente no registro da produção de nossa roda de amigos. Muitos compositores, batuqueiros, gente que cantava bem etc. Nos reuníamos a cada 15 dias, fazíamos uma roda de samba aberta para composições da turma e juntávamos dinheiro. Cada um dava quanto podia. Assim que juntássemos o suficiente, íamos para estúdio e gravávamos.

Era o final da década de 1990. O Pagode tomava conta das rádios. Todos os compositores faziam música e colocavam nas gavetas. Os intérpretes não são acessíveis aos desconhecidos, portanto era complicado enviar música para alguém. Resolvemos fazer nós mesmos o registro das nossas músicas. E melhor: tocadas e cantadas por nós mesmos. Algumas pessoas que fizeram parte do Mutirão levaram a ideia e constituíram à sua maneira projetos parecidos. Caio Prado fundou o Projeto Nosso Samba em Osasco, Pacuera o Samba da Vela na Zona Sul e surgiram vários outros e muitos estão ativos hoje.

Fizeram parte do Mutirão do Samba: Antônio Carlos Moreira, Everaldo F. Silva, João Poleto, Gilmar Martins, Ana Valença, Gordinho, Miltinho Conceição, Pacuera que teve atuação extremamente ativa além de sensacional compositor, Paulinho Ribeiro, Arizinho 7 cordas, Caio Prado, Wanderley Mazzucatto, Lima, Roberto Venâncio, Paulinho Formiga, Adriana Moreira que ainda não cantava, Cristiano José, Heitor, Benê, Dedé, Stevão, Raphael Moreira, que era um garotinho à época, Rosely Moreira, os irmãos Júnior e Pedro Pita, Seu Carlitos que muitas vezes arranjou espaço no CMTC clube para nossas rodas. Eu devo estar esquecendo alguém. E muita gente frequentava, mas é impossível registrar. As rodas do Mutirão eram enormes. Fizemos ao todo 9 gravações de nossas composições. E contamos com a participação de Cristina Buarque e Fabiana Cozza cantando duas. Essas gravações estão guardadas. O projeto terminou antes da conclusão do disco que nunca saiu. Eu havia pensado em falar com todos e soltar em um canal de Soundcloud ou similar, mas depois da morte de Pacuera a coisa perdeu o sentido.

Alguns amigos te chamam de Cuca, algum motivo especial?
Cuca é um apelido caseiro dado por meu avô materno por conta de minha moleira que, nos primeiros mêses de vida, era muito evidente e latejava. Mas o apelido pegou com os amigos por causa do futebol. Ingressei em um time de vázea onde havia um Douglas e este era filho do técnico. Me perguntaram se eu tinha apelido. Para não causar confusão em campo . Respondi Cuca. Ficou. Mas só os amigos próximos me chamam assim.

Ah sim, o futebol… Você mencionou Zico, Adílio… O futebol é um de seus assuntos principais? Ouvi dizer que vc tem um clube, o Madrugada… Quem é o “Jesus, camisa 33”?
Gosto, jogo, mas não é meu tema principal. Dele, o futebol, é possível extrair metáfora riquíssimas e compreensíveis. Meu Time é o Madrugada. Time de amigos músicos.

Observe a foto abaixo.

Periferias de São Paulo – Jardim Fernandes

Foto: Ivan Silva

Ela é de autoria do fotógrafo Ivan Silva. Ele fez um projeto chamado Visão Periférica onde retratou a periferia de São Paulo. A intenção de Ivan era fazer um show musical para expor as imagens. Ele me enviou a foto acima com o convite para que eu compusesse uma música para este retrato. Fiz “Zeirô, Zeirô!!!”. Ampliando a imagem você verá o zagueiro 33.

Como serão os shows de Golpe de Vista? Você pretende levar a mesma roupagem do disco para o palco, ou será diferente?
Sim, tenho feito uns com um trio. Baixo Acústico de Renato Enoki, Flauta e Sax de João Poleto, percussão de Rafael Y. Castro ou Júlio Cesar. Quando houver oportunidade de fazê-lo maior, vou acrescentar um trio de vozes e mais um elemento de harmonia cavaquinho, violão ou piano.

Lá em cima você se referiu ao Brasil como um assombro! A situação política não é favorável. Como você vê a música brasileira nesse contexto?
Com um vigor enorme. A propalada “independência” é voz forte nesses momentos. Em temas, em discursos, nas próprias músicas. A música mais interessante hoje não está nas mãos da indústria, tem liberdade e a utiliza. Tenho certeza de que as reclamações, denúncias e protestos não cessarão graças à estes artistas todos.

A música mais interessante hoje não está nas mãos da indústria, tem liberdade e a utiliza. Tenho certeza de que as reclamações, denúncias e protestos não cessarão graças à estes artistas todos.

Eu ia perguntar algo sobre religião, pois algumas de suas músicas andam por esses caminhos, algumas das mais fortes e conhecidas como “Oranian” e “Oba Iná”… Quer declarar algo sobre esse tema?
Só o que digo sempre: no Brasil, gostar de futebol, carnaval, samba, saber das macumbas, das cachaças, dos santos não é nada demais. Sou filho deste país e tenho comigo, tudo o que forma sua trama estrutural social e de cultura.

sinuca

*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).
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Tríades e Orixás: notas sobre “MM3”, terceiro álbum do Metá Metá https://www.ocafezinho.com/2016/07/06/triades-e-orixas-sobre-mm3-o-terceiro-disco-do-meta-meta/ https://www.ocafezinho.com/2016/07/06/triades-e-orixas-sobre-mm3-o-terceiro-disco-do-meta-meta/#comments Wed, 06 Jul 2016 18:15:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=49675 3 Comentários 🔥]]> Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.
Foto: Fernando Eduardo

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Numa dessas noites, contagiado pelas libações da antemanhã (sinônimo cínico para a madrugada dos bebuns), percorria os vídeos do Youtube buscando desvendar os mistérios de Guardiola no período glorioso em que foi técnico do Barcelona. Nunca fui um advogado do Tiki-taka, ainda que parte desta antipatia tenha se originado do ressentimento, da incompreensão que se abateu sobre nós diante da incongruência entre o passado glorioso e a degeneração do futebol brasileiro. E, no entanto, em entrevistas e até mesmo em sua biografia, Guardiola cita a seleção brasileira como inspiração, particularmente aquela comandada por Telê Santana. Não estou certo quanto à veracidade dessa informação, mas o fato é que parti para uma comparação entre as progressões triangulares do Barcelona de Messi e Iniesta com o esquema de Telê na Copa de 82 e fiquei profundamente surpreso com a semelhança. Aquela seleção jogava em tríades móveis, tal como o time de Guardiola, que teria aperfeiçoado o esquema não só do ponto de vista técnico, mas também aproveitando-se do material humano excepcional que tinha em mãos.

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Ora, por que a triangulação? Porque auxilia a progressão, conduz o time em direção ao gol de maneira mais rápida e eficaz possível dentro de um esquema de jogo coletivo. O futebol, porém, não se resume a uma “matemática severa”: é preciso usar dos meios disponíveis para, literalmente, driblar o acaso e transformar a multiplicidade de triangulações em um movimento único, coeso. A música de João Gilberto procede de maneira análoga: para atingir as modulações que escutamos, por exemplo, na versão definitiva de “Retrato em Branco e Preto” — gravada ao vivo e editada no disco Live at the 19th Montreux Jazz Festival (WEA, 1986) — ele não se aprisiona à tríade harmonia, melodia e ritmo, mas, a partir dela, produz deslocamentos internos na própria estrutura da canção. Os elementos que fornecem as bases para a tríade musical em uma relação de reconhecimento — a melodia respaldando-se na harmonia, o ritmo organizando e embalando a melodia — são utilizados por João Gilberto de forma livre, com o claro intuito de recriar, remodelar a canção. A tríade progressiva possibilita uma espécie particular de sintonia dinâmica entre a melodia, a harmonia e o ritmo.

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Articulando-se em tríades, o Metá Metá chega a MM3, seu terceiro disco, em um movimento contínuo de propagação e simbiose. O grupo não abre mão das prerrogativas da canção brasileira: a melodia fluindo harmonicamente sobre os acordes, o balanço, o lirismo, a ênfase no canto, no ritmo. Não se furta também a explorar o rock e suas vertentes mais ruidosas, como o metal e o punk. O jazz não se limita à liberação do improviso, mas também por uma certa disposição do trio em testar continuamente estruturas e sonoridades, em diálogo não com o bebop, mas com Sun Ra e o free jazz. Há, porém, um quarto elemento, e ainda um quinto, um sexto, que derivam das sínteses, das reconfigurações que ocorrem necessariamente em contato com novas experiências. As escalas oscilantes da África Oriental, do Mali, do Marrocos. As sonoridades mornas da África banta, de Angola, Moçambique. Os signos das cosmologias afrodiaspóricas, a partir das quais Kiko Dinucci inaugura um novo estágio na utilização do Iorubá na canção brasileira. Outra tríade que se encerra e que se abre em triangulações infinitas, modulando conforme o ambiente e a canção.

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No primeiro disco do trio, lançado em 2011, a canção era soberana, ainda que remodelada por violões preparados e um repertório que fornecia as condições de possibilidade para a atualização vigorosa de alguns clichês da MPB. Na sequência, com Metal Metal (um título irônico, por vezes infame), o ingresso de dois elementos fundamentais: o baterista Sérgio Machado e o contrabaixista Marcelo Cabral. O repertório do grupo se torna mais encorpado, o caráter ruidoso e jazzístico se amplia, assim como a utilização de efeitos. Surgem canções mais pesadas como “Oyá” e “Rainha das Cabeças”. Entre o primeiro e o segundo disco, vale destacar um momento particularmente liberador: a versão de “Laroiê Exu” gravada em um show no Esporte Clube Lira Contemporânea, na qual Kiko Dinucci radicaliza a utilização percussiva do violão preparado, Thiago França explora não somente as escalas, arpejos e intervalos, como também os ruídos, enquanto Juçara solta a voz com uma disposição destoante daquela empregada no primeiro disco. Formou-se uma nova tríade, síntese que fez o trio avançar de forma difusa, para todos os lados. As parcerias entre os membros do trio-quinteto se intensificaram. A dinâmica triádica produziu uma coesão aberta, de modo a permitir que Sérgio Machado, Siba e Rodrigo Campos contribuíssem decisivamente nas composições.

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A tríade formada, libera o trio para tornar-se quinteto, como de fato funciona a tríade de Guardiola — sempre um ou dois jogadores na sobra para que a fluência da triangulação não se comprometa diante do acaso e das forças externas. Metal Metal foi gravado e o grupo seguiu em turnê, reforçando a sintonia, elevando a tensão, ampliando as prerrogativas libertárias do jazz e da música africana. Contendo gravações de canções tocadas apenas nos shows (entre elas, “Me perco nesse tempo”, clássico das Mercenárias), Meta Metá EP é editado em 2015, indicando que o trio-quinteto partiu para novas triangulações, cuja característica contraditória é a de permanecerem abertas, assimilando não só as experiências do percurso, como também apostando na potência do conjunto, da vidência comum aos artistas que trabalham com o acaso e o improviso em processos coletivos.

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Sobre esses elementos simultaneamente coesos e abertos, o trio-quinteto se transfigura em uma criatura de muitas cabeças, sem nunca deixar de se constituir como uma tríade primordial: Metá-Metá. Segundo Reginaldo Prandi em sua Mitologia dos Orixás, o infeliz Logun Edé beneficiou-se dos cuidados de Oxalá, que, piedoso de sua infelicidade, lhe proveu sabedoria e compreensão. Porque era ganancioso e sequioso de bajulação, Logun Edé traiu Oxalá e foi castigado da seguinte forma: “Oxalá então determinou que Logun Edé fosse homem durante um período, e no outro fosse mulher. Nunca haveria a possibilidade dele ser completo, e teria a sina de sempre começar tudo novamente.” [1] A questão, assim, não se resume à tríade, aos “três amigos”, mas a uma certa abertura, uma incompletude plena, desprovidas de travas e recalques. Metá Metá é também um vetor de hibridização e abertura para o deslocamento contínuo: é homem e mulher, mas está para além das classificações usuais para “homem” e “mulher”; é devir-mulher, devir-animal, devir-vespa, devir-martelo, como escreveria outro Orixá de muitas cabeças. O poder de Metá-Metá seria o de “hibridizar características”:

O que vai caracterizar os orixás metás, não é, como se poderia pensar, a homossexualidade. Os mitos contam que muitos deuses aborós ou iabás tiveram relações sexuais com orixás do mesmo sexo. Ser metá tem a ver com o fato de o deus hibridizar características, comumente classificadas em categorias sociais diferentes, dentre elas (mas não só) as de gênero. Assim, os metás transformam-se de, e/ou são a um só tempo, animal-humano (Logun e Oxumaré); vegetal-humano (Ossaim); pênis-vagina (Oxumaré); iabá-aboró (Logun e Oxumaré); fenômeno natural-animal (Oxumaré); peixe-mamífero (Logun) etc. [2]

Arte: Kiko Dinucci

Arte: Kiko Dinucci

 

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Este caráter obsessivamente desenraizador, relativamente independente de toda e qualquer estabilidade identitária, apoia-se, contraditoriamente sobre um equilíbrio dinâmico. Podemos atribuir este equilíbrio ao poder da amizade, captado magistralmente por Rodrigo Campos em duas letras emblemáticas. Em “Três Amigos”, a faixa de abertura, Campos ensaia um primeiro ritual, um “carnaval onírico”. Topamos com uma lógica poética intransitiva, que parte dos “três amigos” e das múltiplas forças, por vezes antagônicas, que rondam esta amizade:

“Tem um carmim, um fim, um dó
Tem um agogô, um pus, um som
Tem, de funeral, de bem viver
Tem, de cheiro meu, de cheiro bom”

Em outra letra, Campos postula “A imagem do amor” e arremata: não é pra qualquer um. A indeterminação das imagens, a descrição dos símbolos e presságios que circundamsobre um ritual imaginário. As sonoridades afro-orientais, em estranha conexão com a cavalgada heavy-metal que embala o refrão, ampliam o aspecto dramático da letra, ressaltada pelo melisma oriental empregado por Juçara Marçal:

“A imagem do amor
Não é pra qualquer um
Fere os olhos desleais
Impele os imortais”

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A tríade progressiva, como em João Gilberto, é uma forma liberadora de organização dos fenômenos sonoros e musicais: a tríade mantém-se inteira (os três amigos, as três fontes, as três modulações), mesmo abrindo-se para o improviso e para forças internas e externas (sonoridades, estruturas, composições, dicções, frequências rebeldes). Neste sentido, o que se pode dizer da evolução do “trio de cinco cabeças”? Que resultou em composições enérgicas, tensionadas por escalas orientais e interlúdios inesperados. Que destaca um banda que atingiu um alto grau de coesão e poder expressivo. Que, ao incluir Sérgio Machado e Marcelo Cabral, e por trabalhar com eles por tanto tempo, desenvolveram uma cumplicidade sólida e consistente. Que esta cumplicidade vem gerando uma simbiose sonora em que Machado e Cabral adicionam características fundamentais ao som do trio. Que, em resposta a essa interação, Juçara Marçal vem modificando seu modo de cantar, enquanto Dinucci e França liberam seus instrumentos para captar sons (ainda) estrangeiros em relação ao corpo da canção popular.

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De uma forma geral, trata-se do disco mais pesado, cru e direto do Metá Metá. Cada faixa exprime um golpe, uma direção, mas em um mesmo e único sentido: adiante. “Três amigos” opera o prelúdio da pancadaria, anunciando a chegada: tem de funeral e de bem viver, tem para todo mundo, mas, sobretudo, “tem”. O riff de sax, o refrão grindcore, as intervenções pontuais e ruidosas da guitarra, o interlúdio surrealista e “felino” no clima pós-punk de “Angoulême” constituem alguns dos detalhes mais estranhos do disco.

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A brisa do Mali, a bateria desconstruindo toda e qualquer regularidade, a comunhão caótica entre sax, guitarra e acordes de baixo em “A Imagem do Amor” — reparem que, após o refrão, quando o ritmo fica mais “solto”, o mais comum seria entrar a guitarra distorcida, mas eles substituem por inserções do sax e improvisos da bateria. “Mano Légua” é um samba-oração, uma prece a Exu, o sentinela do lugar, que também opera por expurgo sonoro. A pegada doce e certeira de “Osanyin”, mais uma composição de Dinucci que, como afirmei acima, inventa uma forma até então desconhecida de composição brasileira escrita diretamente em Iorubá. “Toque Certeiro” é música de festa que exala Recife, inaugurando uma parceria até então inédita: letra de Siba e música de Kiko Dinucci. Em “Angolana”, o tema arabo-andaluso, a tensão controlada pela própria instrumentação que privilegia o poema: “me diz de onde é que vem a sede de cantar, a seiva da canção…”

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Quando o Metá Metá subiu ao palco do Circo Voador em setembro de 2015, apresentaram “Corpo Vão” à plateia como um prenúncio de MM3. Minha primeira impressão foi a presença dos sons africanos orientais, o ethio-punk do The Ex, e demais referências à junção do punk e da música africana. Hoje, tenho a nítida impressão de que se trata de uma outra jogada, um balanço que ainda não tinha escutado, um suingue sobre o qual flutuam as sílabas estendidas: “Escuridão, oco voraz, vai engolir o mundo, regurgitar.”

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A tríade é drible que transfigura práticas, força plástica, metamorfose. Em MM3, o Metá Metá é o martelo que destrói certezas e abre os caminhos, a tríade que coleta o que é positivo e transfigura as dores. As tríades de Telê Santana, o drible triangular coletivo que Guardiola aplica em seus adversários, a finta com que João Gilberto ultrapassa a estabilidade da forma cancional, a esquiva a todo e qualquer enquadramento de ordem estético-moral. Finalizando o álbum, uma interpretação pungente e eletrizante de “Oba Koso”, domínio público do candomblé de Keto, Nagô e Iorubá, tocada pela primeira vez pelo grupo durante o evento Palavra Cruzada, em outubro de 2015, junto à artista plástica Edith Derdyk. A letra implora: Maa ina ina, Oba Koso (“não mande o fogo sobre nós, rei de Koso!”). Seria mais um artifício do trio em direção à ambiguidade? O respeito ao poder do Orixá caminharia ao lado de uma identificação sonora com o poder de suas mãos, seus gestos impiedosos, sua potência própria?


Notas:
[1] Para uma problematização da “lógica da hibridização”, conferir: RIOS, Luís Felipe. “O paradoxo dos prazeres: trabalho, homossexualidade e estilos de ser homem no candomblé queto fluminense”. Etnográfica, vol. 16 (1) | 2012, 53-74. Link: https://etnografica.revues.org/1382
[2] RIOS, Luís Felipe. “Loce Loce Metá Rê-lê!: posições de gênero-erotismo entre homens com práticas homossexuais adeptos do candomblé do Recife. Polis e Psique, Vol. 1, Número Temático, 2011, 212-231. Link: http://seer.ufrgs.br/PolisePsique/article/view/31540

Arte: Kiko Dinucci

*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).

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Na linha de frente: 26 artistas sobre a música e o golpe https://www.ocafezinho.com/2016/05/25/na-linha-de-frente-26-artistas-sobre-a-musica-e-o-golpe/ https://www.ocafezinho.com/2016/05/25/na-linha-de-frente-26-artistas-sobre-a-musica-e-o-golpe/#respond Wed, 25 May 2016 14:10:25 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=46085 Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.
Foto: da página do Facebook do Ocupa MinC.

No conjunto de retrocessos impostos pela junta provisória golpista comandada por Michel Temer e asseclas, a extinção do Ministério da Cultura obteve repercussão consideravelmente mais ampla do que os ataques anunciados aos direitos trabalhistas, aos programas sociais e a setores como a Saúde. Repetindo um dos feitos nefastos do período Collor, a junta provisória transformou o MinC em Secretaria de Cultura do Governo Federal, vinculada ao Ministério da Educação comandado por Mendonça Filho (DEM-PE). O escolhido para ocupar o cargo foi Marcelo Calero, ex-secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro. Com as manifestações populares contrárias à medida provisória e à junta golpista ganhando lastro e reunindo manifestantes em diversas regiões do país, Temer se viu aconselhado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, a voltar atrás e recriar o Ministério, mantendo Calero à frente (empossado ontem, 24/05). Mendonça Filho não escondeu os reais motivos da guinada de Temer e declarou no Twitter que “a decisão de recriar o MinC foi um gesto do presidente Temer no sentido de serenar os ânimos…”

Nas palavras de Mendonça Filho, claras como o dia, as reais motivações da guinada. Além de desviar a atenção das medidas mais drásticas (por exemplo, a entrega do pré-sal ao capital estrangeiro), o retorno do MinC parece adquirir a cada dia um sentido meramente operacional, que consistiria em dar prosseguimento aos trabalhos burocráticos e, a princípio, honrar os compromissos contraídos através de projetos, editais, etc. De fato, não há razões para crer que o atual Ministério levará adiante a orientação política dos mandatos anteriores, que buscaram, cada um a seu modo, construir um projeto republicano e democrático de cultura. Alguém objetará que não houve uma continuidade orgânica entre as gestões de Gilberto Gil, Ana de Hollanda, Juca Ferreira e Martha Suplicy. Porém, o panorama que se avizinha sugere mais do que uma descontinuidade, uma ruptura das mais profundas. Já podemos nos antecipar e prever o desmonte: o Ministério da Cultura abrindo mão daquele “do-in antropológico” aventado por Gil, Antônio Risério e Waly Salomão ainda em 2003, abandonando os Pontos de Cultura, apostando suas fichas no elitismo cultural cínico e eurocêntrico e na jogatina das megacorporações. A volta do monopólio no cinema, nas artes plásticas, nas relações fundamentais entre arte e comunicação. Não há, portanto, com o que se iludir. O MinC retorna no âmbito de um governo ilegítimo e anti-democrático, e esta ilegitimidade atravessará suas atividades.

Precisamos, contudo, aprender a dar umas braçadas no mar revolto dos paradoxos e atentar para o fato de que o MinC não é uma propriedade da junta provisória. O MinC é uma conquista política das cidadãs e cidadãos brasileiros, além de se configurar como uma área estratégica para um país cuja produção artística e cultural é tão abundante quanto fragmentária. E o dilema estava posto quando a leitura coletiva da situação indicou um suposto paradoxo entre o #ficaMinc e o #foraTemer, que, na velocidade dos acontecimentos, aos poucos se tornaram excludentes. Aqueles reivindicavam o retorno inegociável do Ministério, enquanto estes não reconhecem como lícitas quaisquer tomadas de decisão do (des)governo. Quando, parece-me, trata-se de afirmar o #ficaMincforaTemer simultâneo e inegociável, em favor tanto do gerenciamento justo e adequado do fundo público, como da continuidade e aprimoramento de uma política voltada para a pluralidade das artes e da produção cultural.

No que diz respeito à música e ao papel de alguns músicos na luta contra o golpe, é preciso notar que este talvez seja o setor menos representativo dos trabalhos do MinC —pelo menos em termos proporcionais. E, ainda assim, a música confirmou sua vocação para embalar as manifestações de rua e ambientar a agenda política — desta vez com a participação do cinema em dois momentos: com Anna Muylaert no ano passado e, mais recentemente, com Kleber Mendonça em Cannes. Como atividade inicial de sondagem das perspectivas e prognósticos sobre o momento político, contactei cerca de cem artistas de diversas searas musicais (dos quais vinte e seis responderam, de BA, PE, GO, PA, RS, MG, RJ e SP), desde a música erudita ao funk carioca, da guitarrada ao experimentalismo radical, dos compositores acadêmicos à nova geração de sambistas.  Com o intuito de produzir um mapeamento provisório acerca de questões ligadas ao contexto político e sua repercussão sobre as ideias de quem produz música, dirigi a estes artistas duas perguntas. Com a retomada do Ministério pela junta provisória, a primeira questão prescreveu, mas mantive seu conteúdo formal: “Como o golpe de estado e, particularmente, a extinção do MinC influem direta e indiretamente no seu trabalho?” A segunda suscitou um conjunto de respostas que podem servir de documento provisório para, em um ambiente político democrático, a construção de perspectivas mais consistentes acerca das relações entre o MinC e a música: “Em que aspectos o trabalho do MinC poderia mudar para uma política mais consistente voltada para a música?”

Para além da opinião geral de que estamos comprometidos por um retrocesso político inadmissível, as respostas revelaram a reconfiguração do perfil geral do músico brasileiro, que se vê obrigado a participar da construção da própria carreira, em substituição ao sonho industrial do contrato com as majors. A faca de dois gumes: maiores liberdades, maiores dificuldades. De uma forma geral, os depoimentos aqui reunidos demonstram que é notório e sabido que o Ministério não comporta o volume e a diversidade da música brasileira. Muitos reivindicam uma posição mais consistente acerca desta mesma diversidade. Percebe-se também a perplexidade diante da inexistência de uma agência como a ANCINE direcionada para a música — alguns artistas chamaram a atenção para os trabalhos que uma comissão nacional ligada ao MinC promovia pelo país acerca da criação desta agência particularmente destinada à música. Reivindicações e clamores com questões relativas às limitações da Lei Rouanet, critérios de distribuição dos subsídios, formas de acesso aos prêmios e editais, direitos autorais, distribuição, entre outros assuntos espinhosos. Desdobrando-se em outras atividades, não necessariamente ligadas diretamente à produção musical, e, às vezes, bem distante de seus principais interesses, os artistas brasileiros flutuam no ambiente saturado dos plurimercados que borbulham na superfície da rede. Esta realidade acarretou o adensamento do conteúdo político de suas respectivas atividades, como se pode confirmar nos depoimentos a seguir. Pode-se, então, afirmar que, em decorrência desta situação, a música hoje é naturalmente mais “politizada” do que a dos anos 80 e 90? 

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lucas santtana

Lucas Santtana (cantor, compositor e produtor)
“Diretamente não saberia dizer pois nunca fiz nada com o MinC em termos de projetos meus. Mas acho que a questão nesse momento passa longe do pessoal. Acabar com o único orgão de cultura num país como o Brasil é absurdo. Nos últimos cinco anos tive uma intensa agenda de shows no exterior e sempre foi nítido para mim que ao falar Brasil, a primeira coisa que as pessoas pensam é em cultura, seja ela musical, futebolística ou criativa. Ninguém associa de imediato o país à tecnologia, economia, etc. A cultura brasileira é uma das suas maiores forças estratégicas, geopoliticamente falando. Acabar com o MinC é literalmente dar um tiro no pé. Um ato de ignorância perante o entendimento do próprio país.”

“Tenho falado desde a retomada do MinC por Juca Ferreira que nunca entendi existir um agência reguladora de cinema dentro do MinC e não ter uma de música. De todas as artes, é óbvio que a música é a que mais representa o país nos quatro cantos do mundo. Com isso não quero dizer que não deveria existir uma agência voltada para o cinema, o teatro, a dança. Apenas acho que o nosso maior carro chefe não ter sua própria agência é uma imensa lacuna nas gestões do MinC.

Acho que quatro aspectos são fundamentais. Primeiro a volta do ensino obrigatório de música nas escolas. Mas com um viés mais atual, e não com a mentalidade arcaica de outros tempos. Segundo a circulação da música pelo país; associado a isso a questão das rádios públicas. Minha experiência na Europa foi clara no sentido de que rádios públicas fortes e com uma programação diversificada reeducam rapidamente uma população, abre os seus ouvidos. E por fim, uma ação de circulação da música brasileira na Europa, usar isso da mesma forma que o cinema americano usou no pós guerra para ‘impor’ a sua cultura ao resto do mundo.”

ava

Ava Rocha (cantora, compositora)
“Quando eu penso nesse golpe e no fim do MinC, não consigo pensar exatamente no meu trabalho, mas em muitas coisas. Por exemplo: antes do Lula, nós na época com 20 anos mais ou menos, não tínhamos acesso nem ao MinC, nem a alternativas quaisquer de produzir um curta-metragem que fosse. Vivíamos na época da ‘retomada’ e da Lei Rouanet, que concentrava, e continua concentrando, recursos; e o monstro da Globo, regendo o campo cultural e o imaginário coletivo. Quando Lula entrou, através da administração do Gil na cultura, ele ressignificou muita coisa. Democratizou o ministério (embora eu ache que tem que ir além), e mostrou que, junto à luta contra a fome, a cultura era fundamental. Deu instrumentos para que as pessoas se coroassem, se empoderassem. Quando um negro entra na universidade não tem só a ver com educação, tem a ver com não sentir fome, tem a ver com seu empoderamento cultural. Todos são artistas no seu devir inventivo. Todos são capazes de se tornarem médicos. Cada um de nós é um complexo, onde uma habilidade não pode ser a negação de outra. Um mecânico pode ser um intelectual. Então, eu penso que se de certa forma houve uma alienação forte da classe média na sua relação com o consumo e seu ‘fascisglobismo’, houve também a formação de uma geração fortalecida das periferias, houve o fortalecimento das mulheres, dos negros, dos índios. Embora não tenhamos dado todos os passos adiante, não demos passos para trás no quadro geral. Eu não poderia esperar nada além desse governo golpista. Desmantelar a cultura e todos os campos de resistência, desmantelar as lutas e os avanços, desmantelar a potência do povo brasileiro e negar-lhe até uma dentadura.

Agora em relação ao meu trabalho, existe essa tentativa de desmantelar o mercado independente, manter a curadoria na mão da Globo, deixando o Brasil de certa forma controlado. Além dos muitos desempregados, porque o que o país dá pra cultura, que acho que é 1% do orçamento, é devolvido pro país, e gera uma economia forte, emprega milhares de pessoas da cultura que envolve diversos técnicos, de eletricistas, contra-regras, camareiras, motoristas, iluminadores, sonoplastas, engenheiros de som, fotógrafos, cozinheiros, figurinistas, costureiros, músicos, atores, dançarinos, roteiristas, produtores, assessores de imprensa e inclusive jornalistas. Emprega, incentiva, produz, distribui. Então é óbvio que sou afetada, embora eu pessoalmente viva bem à margem do usufruto dessas políticas. Volta e meia sou contemplada por um festival que acontece em parte graças a recursos do MinC, ou um filme para o qual presto algum serviço. A importância do MinC é vasta, ampla e a sua existência é boa pra mim e o pro povo brasileiro. Esse golpe, ou esse governo interino, não pensa no Brasil.

Agora, com a volta do MinC, querem dizer que se importam… Depois de ridicularizar a cultura perante o Brasil, sem qualquer responsabilidade sobre o que isso pode acarretar. Mas não devolveram os outros ministérios. Eu acho que a volta é importante porque o ministério nunca deveria ter sido extinto, e todos os compromissos de editais, de projetos, devem seguir de forma pragmática. Porém, estamos no meio de uma turbulência, de um golpe. Então, eu só penso nisso: que o governo é ilegítimo e não dá pra negociar no sentido oportunista. É óbvio que temos que exigir que seu funcionamento seja exemplar, mas as transformações devem ser feitas no seio do governo de Dilma e seguir adiante com as reformas e as urnas, eu só penso nisso. O foco é ‘foratemer’ e não ‘ficaminc’.”

“Eu não sei responder precisamente essa pergunta. Acho que tem que ter muita conversa pra entender o que precisamos. Mas a principio acho que seria importante ter uma política de remuneração à altura da produção musical e um sistema democrático que permitisse a produção e a difusão das obras. Acho que o MinC poderia participar mais efetivamente na produção e difusão da música brasileira, como acontece com o cinema. Enfim, precisa discutir e desenhar um grande projeto pra música brasileira que envolva muitos estilos, muitas singularidades. Eu acho que tem que incentivar esse caldeirão musical no Brasil e diluir as fronteiras e as barreiras da comunicação, do gosto, do gênero, e também fazer uma grande conexão com a música latinoamericana.”

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J-p Caron (-notyesus>, Epilepsia, compositor, professor)
“Se você considera participação em uma Bienal de Música Contemporânea sem cachê, eu fui beneficiado uma vez. Fora esta, a única vez em que solicitei ajuda de custo para uma viagem queriam saber porque minha música era “brasileira”. Isso revela muito sobre a questão de um MinC, dos mecanismos de unificação do Ministério da Cultura e do Estado Nacional Brasileiro. O discurso sempre resvala para nossa nobre função no imenso Brasil. Afirmações identitárias enquanto servidores da identidade-Brasil. Devo dizer que considero uma identidade brasileira (ou qualquer outra) um embuste. Existe um milhão de ‘países’ aqui neste território que a imposição da identidade brasileira não dá conta de expressar.”

“Dentro de políticas passíveis de serem implementadas por um Estado Nacional, eu favoreceria uma política de Renda Universal Mínima que alavancaria a performance econômica de todos, inclusive para a produção de dita ‘cultural’ em lugar de um mecanismo central de avaliação, o que, em última instância, é um Ministério. Além de ‘artista’ sou servidor público, o que parece me colocar em inevitável contradição com tudo o que está dito aí. Minha precária defesa é que meu compromisso como servidor público é modal, o quero dizer que é do tipo: já que é o caso, que o que existe é isto e o que posso fazer pelos outros, dado tudo o que fiz até aqui, é isto, farei da melhor maneira possível. Tentarei ser um bom professor, estimular os alunos a se descobrirem, ou a aprenderem bem as coisas que vieram à minha sala aprender. Alguns colegas valorizam o trabalho do MinC sobretudo voltado a comunidades — quilombolas, índios, ciganos, e a idéia dos pontos de cultura. Essas iniciativas poderiam continuar e serem reforçadas, mais do que prêmios dados a ‘obras’ que são queimados aquela única vez e não sustentam uma vida de contínua vivência estética.”

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Vivian Caccuri (experimentadora, artista plástica)
“É impossível desconectar a subjetividade de um senso de responsabilidade que fica cada vez mais evidente para quem é artista hoje no Brasil. O que dava para passar como uma série de ataques simbólicos, hoje vai virando estratégias políticas e econômicas reais contra a liberdade de expressão, contra o pensamento livre e a favor mercantilização da arte.”

“É uma pergunta quase luxuosa essa né? Se já nem se tem mais o MinC, muito menos dinheiro, imagina a reformulação das políticas… Mas pensando em momentos menos tenebrosos da nossa história, programas de fomento a mulheres produtoras musicais e/ou compositoras são fundamentais para continuar o bom trabalho de reequilíbrio das culturas das ‘minorias’ que já se estava fazendo.”

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Luciano Bom Cabelo (cantor, cavaquinista e compositor)
“Particularmente, esse golpe me gera uma sensação pessoal de impotência absurda, como se estivessem esfregando fezes na minha cara. Não sei o que dizer pra minha filha, já que ela me vê a todo tempo defendendo um governo que realmente teve muitos tropeços e omissões inadmissíveis. Mas aí que entra a indignação: o golpe foi por conta do que o governo fez de positivo para o ‘MEU POVO’. Ai fica difícil…”

“O fim do MinC influencia diretamente no meu trabalho. Sou idealizador, produtor, músico e o faz-tudo de 6 (seis) rodas de sambas no Rio de Janeiro. Atualmente coordeno  junto com outros oito produtores independentes a ‘Rede carioca de roda de samba’, na qual, com a ajuda e esforço coletivo de um monte de rodas de samba, conseguimos um decreto municipal onde se torna pública a ação de incentivo da prefeitura às rodas de samba. E com o fim do MinC, pra onde isso vai? Estou meio sem fé no que pode acontecer daqui pra frente. Nós das ‘Rodas de sambas’ não somos minoria, mas somos tratados como se fôssemos.”

“Você acha fácil escrever um projeto para a Lei Rouanet, entre outros editais? A coisa mais absurda que vejo é que quem realmente necessita fica longe dos editais e nem sequer tem acesso à capacitação. Um exemplo: Tia Gessi faz sua roda de samba há no mínimo 25 anos no Cachambi (RJ). Se ela quiser concorrer a um prêmio, edital ou Lei Rouanet, terá que comprovar se tem condições de receber a verba do governo. Isso é um absurdo! Acho que as políticas populares deveriam ser carro chefe no MinC. O trabalho tinha que ser inverso: um setor do órgão deveria pesquisar os movimentos dos bairros, recolher informações e distribuir recursos. Mas enquanto isso não acontece vamos disputando editais com os privilegiados…”

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Gustavo Benjão (Do Amor, cantor, compositor)
“Historicamente a classe artística sempre sofreu bastante com os golpes de estado. Pertencemos a um setor da sociedade que depende e precisa de liberdade não apenas na concepção, mas também necessita de um estado laico, não intervencionista e que promova uma política cultural abrangente, democrática, libertária. E que possibilite ao artista a livre expressão de pensamento e total liberdade pra quebrar paradigmas estéticos, dogmas e regras impostas pela sociedade e pela indústria do entretenimento. Um golpe seguido da extinção do MinC é, claramente, uma atitude reativa e vingativa, tomada para enfraquecer a classe e acabar com uma política cultural que democratizou e mudou pra melhor toda cadeia produtiva ligada à arte.”

“Primeiramente a criação de uma agência nacional nos moldes da Ancine. E o aprofundamento, a retomada, de políticas já implementadas como os Pontos de Cultura. A criação de centros de referência federais de teatro, música e artes plásticas em regiões pobres por todo território nacional. Além disso é urgente uma revisão nas leis de incentivo pra desburocratizar e democratizar a distribuição da verba advinda de renúncia fiscal, dando mais autonomia ao MinC.”

kiko dinucci

Kiko Dinucci (Metá Metá, Passo Torto, cantor, compositor)
“Esse golpe promovido pelo Temer e por todo o sistema judicial, midiático e boicotador (via EUA também) desencadeia uma série de fatores desastrosos. Na arte, é de um impacto destruidor. Com esse golpe, abriu-se a porteira do inferno para o crescimento do fascismo, do fundamentalismo cristão no congresso, da opressão, da bancada da bala, do agronegócio. Quando se é permitido um golpe judicial em que se condena uma presidenta sem ela ter cometido crime de responsabilidade, quando se ignora os 54 milhões de votos diretos que ela recebeu, entramos na era do ‘tudo é permitido’. Assistimos nos últimos 10 anos uma série de pequenas audácias desse setor conservador. Eles foram avançando aos poucos, aumentando essa audácia na medida em que estávamos distraídos ou impotentes. Assim cresceu o fascismo no séc XX, através de pequenas audácias. Assistimos a presidenta ser grampeada, o Lula ser praticamente condenado antes de ser julgado. E assistimos ainda uma série de audácias nos primeiros dias de (des)governo Temer. A elite, empresários, industriais, famílias ricas donas de jornais, rádios e TVs, somados a uma classe média selvagem, violenta e subserviente (aos que estão acima deles), perderam de vez a tolerância diante dos programas sociais do antigo governo. O fato de eles destruirem o MinC faz muito sentido, querem se vingar. É a política do rancor: Temer, Cunha, STF, Marta Suplicy, Cristóvam Buarque, Hélio Bicudo, entre outros, são personagens que tem questões mal resolvidas com o PT. Questões pessoais que movimentam toda uma política com o intuito de se vingarem. O fim do MinC foi o rancor materializado, pelo golpe não ter sido apoiado pela maioria dos artistas e setores intelectuais. A cultura é instrumento de lucidez, senso crítico, eles deram um tiro bem no coração do pensamento, pra poderem deitar e rolar em suas audácias.”

“Pelo que eu sei o MinC estava perto de lançar uma Agência de Música, algo parecido com a ANCINE. Seria um passo avançado para o futuro. Estavam querendo mapear a música do Brasil, desde a cultura tradicional até vanguarda. Estavam buscando mecanismos de incentivo como bolsas, cursos, formação, residências, turnês. Seria algo inédito, mas foi praticamente abortado pelo golpe. Teremos, daqui em diante, pensar em alguma alternativa. Os avanços do MinC na época do Gil e Juca foram grandes, mas sofreram retrocessos duros nas gestões Ana e Marta. Juca estava arrumando a casa. Agora o mapeamento de mais de uma década será descartado. Mais grave que o fim do MINC é um governo golpista no país. Não adianta o MinC continuar com um governo golpista, eles vão destruir o ministério da mesma maneira.”

joa?o martins

João Martins (cantor, compositor)
“A movimentação dos sambistas da chamada ‘Nova Geração’ vive no cenário marginal da cultura: à margem dos meios de comunicação, grandes contratantes e estrutura básica de produção. Contudo, muitos como eu já tem a possibilidade de conhecer os confins do Brasil e, com a ajuda da Internet, divulgam seu trabalho pra quem se interessa pelo movimento. Precisamos estimular uma unidade nacional pró-renovação, cientes dos cartéis culturais, incluindo, por exemplo, a política das grandes cervejarias.”

“Nunca participei de projetos como o Pixinguinha e outros que aconteceram no passado na Funarte, onde era possível apresentar shows com som bom, iluminação, banda bem remunerada a preços populares. Agora, então, isso está mais distante ainda. Fora os registros do MIS, incentivos etc… Em resumo: se discordar das políticas de retrocesso desse golpe significa ‘mamar nas tetas do governo’, como muitos reaças (inclusive sambistas) propagam, estamos nós todos ‘trabalhados’ no leite C de saquinho, ainda dissolvido na água pra render pra família toda!”

henrique diaz

Henrique Diaz (Compositor e instrumentista, Baobá Stereo Club e Salão Extremo)
“Acredito que tanto o golpe quanto o fim do MinC só evidenciam o momento triste e patético que o Brasil passa politicamente e, mais do que tudo, socialmente. Acredito ser uma crise que passa por questões sociais muito fortes, de uma elite oligárquica que se sente provocada e incomodada por um país mais igual. Não acredito que seja fruto só de uma racionalidade, mas sim de algo muito bem enraizado e que se transparece emocionalmente e cega totalmente esses ‘cidadãos do bem’. A turma da sala de jantar pega nas panelas pra batê-las. Não pensam. Nesse sentido, o fim do MinC é exatamente a base que querem para a nossa sociedade, pessoas sem cultura pensam e questionam menos. Privatizar a cultura, algo feito nos anos 90, já era um nó difícil de se desatar. O fim do MinC é um passo ainda mais atrás disso.

Mas, sinceramente, num país como o Brasil, onde o povo que é mais atingido sofre e se manifesta através de dança, música, literatura, não da violência, ele ganha munição. A cultura aqui é latente. Vivemos nas ruas. Acho que, como artista, estamos ganhando munição. Infelizmente a munição que não queríamos, mas já que é, tem que ser. O fim do MinC é algo muito fácil de entender da ótica econômica: tira da pauta da discussão, da exclusividade, dilui, controla-se, joga na mão do setor privado, e esvazia de significado um dos elementos de plataforma e solidez social. Quem não se envolver nisso é bunda mole.”

“O MinC é uma forma de se organizar a cultura, de ampliar uma discussão e produção para toda sociedade. O MinC não deve ser voltado para o espetáculo, mas sim por criações de base sólidas e de democratização de produção e acesso. Ter como foco tirar o peso dos conglomerados de mídia e proliferar culturas que não dependam de rentabilidade, lucro, audiências consistentes: a base se vem no volume de produção, na verdade de cada artistas, no regionalismo e beleza de cada rua, cidade, estado. O MinC é um catalisador de cultura, pra pulverização do país todo. Sem essa pasta, voltamos a ter exclusividade (que já existia) de meios e canais que urgem mais por anúncios publicitários do que um compromisso a longo prazo de construção de identidade em um país tão grande. O MinC é algo não só necessário ou fundamental, é impossível não existir. Quem não enxerga isso ou não bate panela pra isso tá conservando o pior que temos em nossa sociedade. Cultura não espetáculo em teatro com Naming Righ ou musical com atores globais. Cultura muda, transita, não cobra, entrega.”

felipe cordeiro

Felipe Cordeiro (cantor, compositor, guitarrista)
“O fim do MinC significa um retrocesso incomensurável e de proporções incalculáveis, trazendo prejuízos para além da área da cultura, atinge a própria ideia de desenvolvimento estratégico do país, atinge a própria força subjetiva da cultura do país. O governo interino economiza pouco com a extinção (fusão?) do Ministério e perde muito, foi um tiro no pé. Eu nunca participei tão diretamente de ações do MinC, este sempre teve o imenso defeito de ter ações centralizadas na regiãsudeste do país, basta ver como o funcionamento da Lei Rouanet é radicalmente desproporcional entre as regiões. No entanto, tive discos gravados e projetos viabilizados através de Lei de Incentivo do Estada do Pará, a SEMEAR, criada nos anos 90. Com a extinção do MinC, a tendência é que o processo de aperfeiçoamento das políticas culturais, que tiveram seu ápice de diálogo e construção na gestão Gilberto Gil e Juca Ferreira, percam força. Todos saem perdendo com a medida descabida, desastrada e arbitrária do governo.”

“Estimular o diálogo entre gestores, produtores e artistas é um grande passo. Teve um curto período em que as coisas caminhavam nesse sentido, acompanhei algumas feiras de música como a de Fortaleza e de Belo Horizonte. Tudo isso era fortalecido com o diálogo e a presença do MinC. Cogitou-se uma feira de Música na Amazônia, seria (ainda é) fundamental. O MinC forte e presente estimula e torna consistente os circuitos das feiras e dos festivais de música. Fortalece toda uma rede de gestores, produtores e trabalhadores da cultura em geral. A produção musical independente e livre é estimulada e adquire condições de sustentabilidade. Tudo isso perde força sem o MinC.”

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Alessandra Leão (cantora, compositora, percussionista)
“O golpe em curso já deixa um rastro de retrocessos em áreas fundamentais do Brasil. Cultura, educação, ciência, tecnologia, reforma agrária, direitos humanos, comunicações… retrocedemos décadas nisso tudo em questão de horas. Mas o que poderíamos esperar desse governo ilegítimo?”
“Sobre o MinC, que trata diretamente da minha área de atuação, sua extinção é um duro golpe real e simbólico para as artes; para todas as linguagens – populares ou eruditas – e para todas as camadas sociais.”
“Havia um planejamento para a criação de um órgão voltado especificamente para a música dentro do MinC, o grupo que vinha trabalhando nisso foi afastado ou afastou-se junto com a saída de Juca Ferreira. Nos últimos anos também vinham sendo feitos estudos e ações sobre economia criativa, esses dois caminhos me parecem tocar em pontos fundamentais para a política cultural e para o segmento da música, mais especificamente.”

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Rodrigo Campos (Passo Torto, cantor, compositor)
“Acho que o golpe influencia meu trabalho à medida que entendo melhor meu país e em que momento intelectual ele se encontra na história. O buraco é muito mais embaixo e entendo que minha arte dialoga com muito menos gente do que eu imaginava, preciso trabalhar muito mais. Pela primeira vez é absolutamente clara a ignorância e a falta de interesse na construção de uma democracia forte e madura no país. E me refiro ao país, não só ao Congresso, porque grande parte da população brasileira, se não a maioria, apoiou cada movimento do jogo proposto. O Brasil mostrou a cara: é um país preconceituoso, conservador e elitista e, enfim, tem o governo que merece.”

bruno abdala

Bruno Abdala (produtor, compositor, responsável pela Propósito Recs)
“Acho que uma das coisas mais complicadas do golpe é a questão do convívio humano básico. Não que fosse fácil, pelo contrário. Mas, pelo menos por aqui é complicado você se expressar, diante de tudo que aconteceu e acontece, sem que a discussão se transforme numa conversa pífia de melhor e pior, como essas que acontecem com futebol. Isso sem aprofundar no poderio dos coronéis (em todas as esferas da sociedade) e no modo como isso interfere diretamente no propagar da informação e do conhecimento em diferentes camadas. Essa tem sido uma das partes mais pesadas, porque tem dado muito espaço pro pensamento conservador se aflorar com a sua pior face.

Sobre o fim do MINC, no meu caso mais especificamente (Propósito Records), não tem uma influência direta no que acontece no dia a dia, levando em consideração que nossas ações, assim como de boa parte do Brasil nas últimas duas décadas, tem sido pautadas por outro tipo de iniciativa: a pessoal. De ser humano pra ser humano. Por outro lado, também levando em consideração a mesma produção de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do país nos últimos vinte anos, o fim do MINC é também a extinção de uma pequena possibilidade que existia de contato com o estado. Mas, não sei se entrando em certa contradição, dentro do meio que convivo conheço poucas pessoas que buscavam um diálogo com o governo e que acreditavam que isso poderia resultar verdadeiramente em melhora.”

“Ao meu ver, quem mais sai perdendo com o desaparecimento do MINC é a cultura popular brasileira, essa mesma que até com a própria existência do MINC já não estava bem. As tradições e resistências ,que ao longo dos séculos vem lutando para não serem esmagadas, só existiam para o MINC quando o poderio branco resolvia que aquilo poderia ser institucionalizado, isso depois desses próprios coronéis fazerem a conta de quanto aquilo poderia ser vantajoso economicamente.”

“Meu conhecimento a respeito da atuação do MINC hoje é ingênuo/ignorante. Meu contato mais direto com as ações do ministério foram em festivais de música independente, como artista e como público. Goiânia, cidade onde vivo, tem uma história musical sendo construída  através desses festivais. Existiram edições, acredito que a maioria delas, sem apoio governamental, mas também já tiveram as que o estado apoiou. Como artista ou como público não deu pra mensurar a importância da participação do MINC. Por outro lado, baseado em conversas com pessoas das mais distintas regiões, acho que o principal ponto é a questão de que entra governo, sai governo, o acesso ainda continua restrito aos coronéis e isso não é só na música. E quando digo acesso não é só aos projetos, acesso ao diálogo, acesso ao saber, o básico, do básico, do básico ainda não mudou.”

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Vicente Barreto (cantor, compositor e violonista)
“Com a extinção do MinC, o artista deixa de ter um órgão que lhe representa e, penso eu, isso afeta a minha criatividade. Com o MinC voltando, valeria incluir pessoas que conheçam profundamente a cultura do país, em todas sua manifestações.”

Rafa Barreto

Rafa Barreto (cantor, guitarristas e compositor)
“O Fim do Minc representa um grande ‘cala boca’ na classe artística. A arte, ao meu ver, tem a função de subverter, de aguçar os sentidos críticos de uma sociedade. Silenciar artistas e a possibilidade de instigar cabeças pensantes é tudo o que este governo ilegítimo quer. A cultura é a porta de entrada para o novo e desconhecido. É o caminho para o aprendizado sobre outras lógicas, outras formas de se relacionar. Acabar com o MinC é retrocesso abissal.”

“Para não ser leviano, vou me ater às minhas experiências no âmbito da cultura. Aponto duas questões que julgo primordiais para o começo de uma mudança:

— Retomada das rédeas da cultura pelo governo. O departamento de marketing de empresas privadas não pode e nem deve decidir qual projeto cultural circula ou não no país, visando apenas seus lucros com a exposição de suas marcas.

— Criação de um órgão público que tenha transparência e que atenda aos interesses públicos na arrecadação e repasse dos direitos autorais e intelectuais.”

Marcelinho

Marcelinho da Lua (DJ, produtor, Bossacucanova)
“Nunca montei um projeto próprio pelo Minc, minha banda o Bossacucanova fez um documentário. Não sei exatamente em quantos participei como artista, mas pouco importa quem perde é o Brasil. Essa gestão pretendia iluminar pontos mais distantes, ainda não estabelecidos. Sendo assim perdemos grandeza e pluralidade. Sobre o golpe é isso, sempre que se fala em reformas fundadas em mudanças essenciais no social há golpe.”

“Acho que o MinC estava tomando um caminho legal, mas poderíamos registrar mais em áudio com estúdios públicos, ter uma estação de rádio comandada por discotecários e pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre nossa música, trazendo à tona manifestações musicais novas e antigas. Poderia também se comunicar melhor com o Turismo e ampliar o turismo musical no Brasil, movimentando também a economia!”

mauricio takara

Maurício Takara (Hurtmold, São Paulo Underground, baterista, percussionista, compositor)
“Eu acho que toda arte acaba refletindo, mesmo que de forma bem sugestiva, o ambiente onde é criada. Por isso o heavy metal brasileiro não é o mesmo da Escandinávia, o rap não é o mesmo do de Nova Iorque, etc.  No meu caso, que sempre fiz uma música que na maior parte do tempo passa longe de projetos governamentais, o fim do MinC influencia diretamente muito pouco na minha arte. Mas o que ele representa (junto com a tomada do governo) é algo muito forte. Eu raramente tenho considerações reais sobre a minha própria música, mas venho notando que nos últimos meses ela tem ficado naturalmente mais extrema e urgente novamente. Acho que isso tem muito a ver com o contexto atual. Acredito que em momentos de forças retrógradas, a música acaba ganhando um poder forte de criação de novos meios, de pequenas políticas mais comunitárias e de diálogos mais profundos.”

Ricardo Dias Gomes

Ricardo Dias Gomes (Do Amor, compositor, cantor)
“Sinto que o golpe, o fim do MinC, mas, principalmente, o apoio raivoso intolerante de grande parte da sociedade brasileira a essas ações, gera um clima hostil em relação aos meus valores mais básicos. Meu ímpeto de criar e tocar independe da forma de governo ou da quantidade de fomento do estado, mas torna minha atividade e minha vida como um todo mais marginalizada e mais dura. Antes das minhas atividades artísticas, sou pai de três e os últimos acontecimentos me expulsam do lugar onde quero construir para que meus filhos aprendam a viver.”

“Acho que os Pontos de Cultura, que a uns 10 anos tive a oportunidade de conhecer um pedaço, é uma política de resultados profundos e de longo prazo. Acredito em políticas culturais que valorizam manifestações folclóricas, raízes da nossa cultura, reveladoras de quem somos ou que dêem espaço incondicional para a música que surge das vivências ricas e inesperadas, que inauguram novos vetores possíveis a se relacionar. Vejo que isso já acontece em alguma escala, mas precisa muito mais.”

muzak

Gabriel Muzak (cantor, compositor, guitarrista)
“Diretamente não influencia muito, já que a maior parte dos projetos dos quais participo não tem grana do MinC. Indiretamente o impacto é igual ao que acontece para toda a sociedade: a diminuição de obras disponíveis a serem assistidas/ouvidas. Menos filmes, menos peças, menos discos e shows etc…”

“A melhoria da ação do MinC pra música, imagino que consista em cortar o fomento aos projetos que já estão estabelecidos e não dependem de incentivo (como é o caso da Claudia Leitte, Luan Santana e da querida Maria Bethânia) e apoiar primordialmente a formação e renovação da arte. Menores valores contemplando maior número de artistas.”

Isabel Nogueira

Isabel Nogueira (cantora, compositora, professora)
“Eu trabalho com música, especialmente dentro do enfoque da desconstrução das normatividades de gênero, tanto em termos musicais como de sexualidade. O golpe de estado foi conduzido desacreditando e personalizando uma figura de mulher, com referências que não teriam sido consideradas cabíveis no caso de um homem. Em um pais onde a violência contra a mulher é quase institucionalizada e opera concebendo os ataques, seja físicos ou verbais como normalizados, isto representa um retrocesso enorme. A extinção do ministério representa também, eu entendo, um retrocesso para o setor, e não apenas para o setor. A cultura, mesmo que precise de melhorias e políticas de investimento mais inclusivas, representa um espaço que contribui para fomentar a diversidade e a crítica. Ao mesmo tempo, a mesma Porto Alegre que há alguns dias se ressentia do aumento dos assaltos, da falta de segurança nas ruas e da ausência de policiamento, agora se cala e se amedronta com um enorme contingente policial nas ruas, a cada esquina do centro, com suas lanças e seus cavalos. Os olhares apavorados para estes grupos de homens, lanças e cavalos, calou as ruas e se reflete nas gravações de campo que tenho realizado. Além disto, as pessoas que vão para as manifestações falam do medo e da insegurança quanto à repressão policial, e percebo que proliferam os discursos de medo, por um lado, e ódio, por outro, quanto à diversidade (cultural, sexual, de posicionamento político ou escolhas de vida). Parece que a estratégia do golpe plantou muito rapidamente certezas e paixões, ferozes e veementes.”

“Creio que a política do MinC poderia mudar no sentido de incluir as produções musicais que vão além dos discursos já estabelecidos e considerar a inclusão efetiva das manifestações que priorizam a diversidade de estilos, gêneros, raças e etnias, formato, espaços e do publico ao qual se direciona.”

mauri?cio pereira

Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, cantor, instrumentista e compositor)
“Independente de ter ministério ou não — embora essa escolha simbolize bem a visão que um governo tem sobre cultura — o que afeta mais nesse momento é a mudança de abordagem. A abordagem do Juca Ferreira, tanto na gestão do Gil como na dele próprio, foi mais plural, mais capilar, mais contemporânea, no sentido de dar voz pra mais segmentos do país, ouvir o país de baixo pra cima. Ir levar, mas também ir buscar, arte e cultura, onde ela esteja, fora do eixo Rio-SP, nas periferias, na juventude, nos coletivos e seus novos jeitos de gerarem e gerirem a cultura, nos dinheiros menores.

Pulverização e diversidade. Multiplicou, democratizou.

Pontos de cultura, software livre, direito autoral, o florescimento de festivais de música independente, o Fora do Eixo, a Lei do Audiovisual, a tentativa de reformular a Lei Rouanet, são algumas coisas interessantes da gestão dele.

Esses caras que chegam mudam essa abordagem. Certamente vai se enxergar a cultura de cima pra baixo, dum jeito mais careta, uma visão do centro para a periferia, do gabinete pra a rua. Independente da ilegitimidade do processo como eles chegaram ao poder, isso é um jeito de pensar. Se chegassem pelo voto também seria assim.

(bom lembrar que, caretice por caretice, no primeiro governo Dilma a gente teve duas ministras — Ana de Hollanda e Marta Suplicy — que foram um tremendo retrocesso também. Ou seja, a falta de sensibilidade pra a lida com a cultura não é exclusiva da cabeça neoliberal).

Enfim, a impressão que me fica – bastante triste – é de que não tem uma política de estado pra cultura. Cada governo que entrar vai fazer as coisas que lhes dão na telha, na ideologia e na conveniência política.

E que esses anos dessa gestão arejada do Juca Ferreira na Cultura foram pura sorte…

Será?

Já pra mim, diretamente, é assim:

Fui criado numa ditadura. Um golpe me mete medo. De repressão a quem pensa diferente. O momento é moralista, no mau sentido. Já era com a Dilma, piora com o Temer. Eu vi a foto da posse dele e o que me veio à cabeça foi: Arena.

Por outro lado, acho que lugar de artista é longe do governo, do estado, dos gabinetes. É sozinho, solto por aí, viralata. Então pra mim não muda muito, normalmente eu quero estar longe do poder. Mas é inegável que tendo um ambiente em que a cultura seja gerida duma maneira multiplicadora, cria-se uma teia, o setor oxigena, e eu vou junto.

PS.: Só pra registrar que, sim, eu acho que lugar de artista é longe do governo, mas se for pra ir trabalhar no governo, no serviço público, botar knowhow humanista a serviço da população, como o Gil fez por exemplo, opa, aí tá bonito…”

“Eu sempre sou levado a achar que a música popular é uma atividade que deve viver num certo caos, que é uma coisa que se resolve na rua. Seja seja na parte criativa, artística, seja na atividade econômica. O que não quer dizer que o Estado não tenha que zelar de algum modo por essa atividade, proteger as partes mais frágeis dela. E uma parte frágil é: como o artista independente pode sobreviver diante do poder econômico do setor. Por um lado, o estado pode subsidiar a música. Mas eu sinto que o showbiz brasileiro acaba dependendo demais do dinheiro público pra se viabilizar.

Se você tirar esse dinheiro — leis de incentivo, as instituições todas, Sesc/Sesi/CCBB/Viradas/Itaucultural/CaixaCultural/Festivais/Centros Culturais de Prefeituras/Estados/Governo Federal, Funarte, etc — sobra pouco lugar pra tocar duma maneira economicamente viável. Essas instituições são importantes, mas a existência delas, subsidiada e subsidiadora, matou um bocado o empreendedorismo. Os caras que enfrentam uma produção no risco, que têm uma pequena casa e tentam fazê-la sobreviver, caras que têm uma curadoria mais livre, mais louca, mais aberta pro novo. Esse cenário acomodou produtores e artistas. E olha que em SP até tem uns tantos guerreiros que levam pequenas casas adiante, viu? Mestres guerreiros vitais pra a cena paulistana… Mas é muito no sacrifício, precisa uma alternativa pra a sustentabilidade da cena musical, principalmente a independente, a autoral. Tem que ter algum tipo de incentivo ou proteção do estado ao trabalho desses caras porque é aí que nasce e se cria a cena autoral.

Por outro lado, o ministério ter enfrentado com força o jabá nas rádios teria sido ótimo; um repertório maior de músicas e artistas abriria a cabeça do público pra ele buscar música mais diversa, abriria mercado pra a diversidade. Não enfrentou, agora é tarde, acho que a importância do rádio como mídia musical democrática já era, a lavagem cerebral já foi feita, esse espaço de trabalho já foi perdido, agora ele é pontual. Talvez uma política pública interessante pudesse ser essa busca de tornar sustentável o mercado pra os pequenos (economicamente) artistas poderem viver de bilheteria/direitos/vendas. Seja essa renda grande ou pequena, mas que seja constante. Pra isso, imagino, seriam interessantes programas de formação de público, incentivo a casas e festivais independentes (não só dinheiro, mas knowhow, desburocratização, divulgação), programas de circulação, a busca de padrões de direito autoral, alguma legislação defesa do mercado pra artistas/casas/emissoras mais experimentais, coisas assim.

Mas na minha cabeça, o grande fator pra o showbiz ser sustentável não tem exatamente a ver com um ministério de cultura.

Aí entra a política.

A gente precisa de público. E acho que o que realmente poderia criar público pra a arte profissional é distribuição de renda e educação básica (boa) em massa, políticas que buscassem isso pro país, intensamente. Pra o cidadão ter tempo, condição material e referências pra consumir arte, pra achar que gastar tempo e energia fruindo arte é uma coisa importante (tipo “a gente não quer só comida…”, como diziam os Titãs). Pra criar público que busque variedade e não apenas os hits de sempre. Enfim, um país com mais bem estar vai buscar a diversidade na arte naturalmente, acho.

Não faltam trabalhos interessantes, não tem crise criativa. Faltam é saídas pra que a atividade possa ser sustentável.”

 

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César Lacerda (cantor, compositor)
“O que se assiste hoje no Brasil é a ação violenta e opressora de seguimentos específicos da sociedade contra qualquer possibilidade de avanço. É triste perceber que um projeto de país reacionário ganha eco em vozes tão distintas. O discurso emburrecedor ficou forte e o setor cultural sofre por tabela. A proliferação desse vírus da burrice, da falta de informação, está fazendo com que nós todos, a nação inteira, entre em retrogradação. Diante desse cenário terrível, é possível pensar que recaia sobre todos nós, artistas e agentes culturais, um manto de ódio e descaso. Em todo caso, vejo também crescer um movimento forte de apoio e luta contra tudo isso. é ainda cedo para prever o que virá. Mas não deixo de acreditar que as minorias e a sua amplidão diversa de vozes, todas unidas e em conjunto, serão o passo seguinte, o degrau necessário que fará a nação chegar a um novo estágio.”

“A gestão de Gilberto Gil no MinC foi a mais próxima de nos fazer pensar que aquela pasta existia. É necessário uma reformulação completa. E ainda antes, um aprofundamento naquelas questões que surgiram ali, naquele momento: estimular a cultura de forma ampla e transversal. Especificamente sobre o setor musical, há por aí uma ideia de se criar uma Agência da Música, assim como a há a Ancine para o cinema. Gosto da ideia e penso nela com urgência. Não deixo de pensar também na reformulação da Lei Rouanet e nos editais municipais e culturais.”

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Michele Leal (cantora)
“Antes de mais nada, quero deixar claro o quanto fiquei perplexa com tamanho retrocesso. Um ministério que foi criado há 30 anos, foi destruído em 30 segundos por uma ‘canetada’ e, foi ao meu ver, responsável por uma volta ao tempo obscuro. Um tempo onde não se valoriza a cultura, o fomento a mesma e, consequentemente uma banalização maior ainda da educação e da cultura. Fora que o orçamento do MinC já é o menor de todos. Isso não vai resolver nenhum problema financeiro do governo.

Ao meu ver não existe fusão de ministério. Isso é balela. Histórinha pra boi dormir. Existe extinção, descaso e desprestígio. Com a cultura e com a educação, que já está sucateada há tempos. Isso demonstra claramente a postura medíocre de um governo que está andando na contramão das grandes democracias que querem construir, formar pessoas, oferecer o acesso aos insumos pra uma vida de não alienação. Um país sem educação e cultura é uma país sem pessoas que argumentam, que contestam, que pensam, que surtam, que agem, que fazem, que desconstroem e constroem olhares sob diferentes aspectos. Isso é determinante. Ou seja querem nos deixar como cavalos de fazenda. Querem nos cegar. Querem nos direcionar o pensamento. Querem nos tirar a capacidade analítica deste próprio governo que nos levou de volta ao estado alienação. Extinguir o MinC é simbólico. Negativamente simbólico. Nos tiraram um direito fundamental. A cultura é um direito humano fundamental.”

“Assistir a extinção do Minc e reduzir tal fato ao que EU posso sofrer com isso é praticamente irrisório perto da perda pra uma nação inteira e o que essa  representa. Podemos perder e sofrer alterações nas leis de incentivo. Sem contar na redução da verba e nos fundos para o fomento a cultura como um todo, não só a música, claro. No último dia 03 de Maio foi o lançamento do conjunto de Políticas de Estado para a Música, proposto pelo MinC. Dentre essas políticas seria proposto a criação de um órgão público específico para o setor musical. Além de uma linha de créditos voltados a cultura e aos MEI que com certeza iria ser de grande ajuda já. Contudo, isso foi-se feito espumas ao vento.

Havíamos  planejado fazer um circuito de shows na Funarte e já estamos sem saber se vai acontecer ou não, obviamente. A pessoa responsável provavelmente será exonerada em pouquíssimo tempo. E seu trabalho, tão bom, tão forte, tão educativo, será reduzido a nada. Onde já se viu? O cenário completamente incerto e agora mais do que nunca, desprezado. Os circuitos previstos para incentivo a música contemporânea, caíram por terra. Circuitos esses que poderia participaria. O planejamento de pessoas que pensaram a cultura e sobretudo entendem a necessidade e o papel da mesma , caiu por terra.

Já não tínhamos direito a muita coisa. Quase mendigamos verba pra construir espetáculos, fazer circuitos e agora ainda estamos saindo como vagabundos que querem mamar nas tetas corruptas deste governo ilegítimo. Isso que da ter um país quase que sem educação e cultura. Vamos continuar construindo pessoas com esse pensamento medíocre? Que tipo de cidadãos  querem formar assim?

‘…nossa vida política é, em seu jogo diário, de um nível mental espantosamente medíocre. Mental e moral. Há uma cansativa tristeza, um tédio infinito, nesse joguinho miúdo de combinações através das quais se resolve o destino da pátria…’ (Rubem Braga).

“Conforme eu disse acima,  no ultimo dia 03 de Maio o extinto MinC lançou, graças ao diálogo de frentes que brigam pelo espaço da música (grupos como fora do eixo etc) algumas propostas já com esse objetivo. De dar uma atenção maior e mais focada na área musical. Isso possibilitaria mais projetos, uma maior produção de conteúdo, festivais e fomento a nova música. Acho que isso tem que acontecer. E vamos brigar por isso. Falar só não adianta. Temos que fazer e disponibilizar para o público. A palavra de ordem é fomento. Contudo, acho que antes de mais nada, tinham que se preocupar em forma espectadores, público, fortificar o hábito de consumo a cultura. E isso começa na escola.

Temos várias frentes culturais a serem atendidas. E a música, de acordo com os números, pode ser considerada uma das mais importantes e de maior produção aqui no Brasil. Apesar do impacto que a indústria sofreu como um todo, o setor movimentou 580 milhões. Merece atenção especial mesmo. De toda forma, o MinC poderia mudar e fortalecer diversos pontos a fim de fomentar de forma efetiva, justa e abrangente a cultura e música no país. Até porque esse número de 580 milhões não significa qualidade de produção, certo? Está mais ligado a indústria do entretenimento do que a arte e cultura propriamente dita. Por isso ser mais atuante nas políticas e ações que se relacionam com as escolas públicas e municipais seria tão importante. Desenvolver programas específicos pra elas. Seria incrível.

Poderia promover e estudar políticas pra nos ajudar a chegar com essa música para as pessoas. Como formar público? Não poderiam ser criados mais pontos de cultura atrelados as escolas para nos ajudar a fomentar o que se produz e fazer-se existir? Digo, não se tem formação/acesso e educação musical. Tudo está ligado. Por que uma criança que mora na periferia não pode gostar de música clássica,  bossa nova ou música contemporânea?

Existe uma dificuldade nessa formação que o MinC deveria/poderia ajudar a desconstruir. Já seria de grande valia. Um enorme passo pra derrubar esse muro social que nos separa já há muito tempo. Mas quando digo políticas efetivas, me refiro a propostas para essa formação de público, de conteúdo para eles e junto com eles. Isso é interessantíssimo, uma vez que o estado atual em que se encontra o nosso país está completamente ligado ao fato de não termos boas políticas ligadas a formação, educação e à ética. E tudo sempre passa pela educação e cultura. Sempre vamos cair no mesmo problema. Mas nesse aspecto, acho que o Minc poderia ser mais atuante.”

zanatta

Luciano Zanatta (instrumentista, compositor, professor)
“O golpe foi a tomada do poder por uma visão de mundo retrógrada e violenta, a qual eu combato. Combato quando faço música, combato quando ensino, combato quando faço política. Neste sentido o fim do MinC está inserido num contexto maior que afeta diretamente tudo o que faço. São tempos difíceis,  uma espécie de repuxo depois de um tempo de avanços.”

“Especificamente quanto ao MinC, meu trabalho não é diretamente ligado. Isso parece excluir alguma influência direta: nenhum projeto do qual participo será interrompido ou inviabilizado,  por exemplo. O rebaixamento da cultura como área representada no primeiro escalão do governo, porém, é uma influência forte e com consequências no tempo futuro.

Acredito que essa maior consistência se daria por realizar ações baseadas em idéias pós-coloniais e contra-hegemônicas. Claro que isso passa por discutir o que isso significa em música,  o que está longe de ser uma discussão fácil e consensual. Penso que passa também por fomentar redes múltiplas de formacao e circulação, tanto de artitas quanto de obras. Principalmente, o MinC precisaria ser um componente valorizado do cenário político do governo  (ou seja, o oposto do que acontece com o golpe), inclusive com dotações orçamentárias suficientes, o que nunca ocorreu.”

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Rodrigo Caçapa (Compositor, produtor, instrumentista)
“Não acredito que o projeto político imposto por este governo ilegítimo afete com mais intensidade a mim como artista do que a qualquer outro cidadão que tenha apreço pela democracia e que precise trabalhar para pagar suas contas e viver com dignidade. Afinal de contas, este ataque ao Estado atinge de forma negativa e profunda não apenas o setor cultural, mas praticamente todas as áreas de interesse público: comunicação, saúde, educação, previdência, direitos trabalhistas, direitos humanos, assistência social, pesquisa científica, relações internacionais, economia, segurança, recursos naturais…

A extinção do MinC (e mesmo a sua recriação nada convincente) tem um enorme peso simbólico, mas é também uma questão fundamentalmente pragmática.

Este episódio evidencia o lugar que os diversos aspectos da cultura (arte, memória, patrimônio, criatividade, reflexão, crítica, imaginação, abstração, e mesmo o entretenimento) ocupam no projeto político dos novos e velhos grupos de direita e de grande parte da elite econômica. São frequentemente considerados como de valor decorativo, secundário, periférico, raramente compreendidos como fundamentos de qualquer país que se pretenda civilizado e democrático. É justamente a partir do pouco valor simbólico atribuído à cultura – e aos trabalhadores que a cultivam no cotidiano – que se decide por retirá-la das prioridades da esfera pública, ameaçando as iniciativas e investimentos já existentes e frustando qualquer expectativa de continuidade e fortalecimento. Decide-se assim que toda a energia necessária para produzir cultura seja uma atribuição exclusiva de indivíduos abnegados (artistas) e de algumas poucas almas caridosas (patrocinadores e mecenas). Num país com tanta concentração de renda e poder, esta é a receita certa para atrofiar e desacelerar a produção cultural.

No meu caso, a presença do Estado é tão importante quanto a iniciativa privada e o investimento pessoal. O primeiro disco que gravei, em 1998, foi produzido apenas com os cachês dos shows da própria banda que eu integrava. Era algo quase inimaginável, no Recife daquela época, recorrer ao poder público pra viabilizar um CD. Ou você assinava com uma gravadora do Sudeste ou tinha que bancar tudo do próprio bolso, sem acesso a crédito, na total informalidade. Nos anos 2000, com a gestão do PT (na prefeitura do Recife e no governo federal) e do PSB (no governo de PE), foram implantadas e fortalecidas políticas públicas (em consonância com as diretrizes do MinC) que fizeram muita diferença na produção musical local. Durante boa parte da década passada participei de discos e eventos de outros artistas, os quais dificilmente seriam viabilizados sem estes recursos públicos. Meu próprio trabalho solo recebeu apoio da Funarte – por meio de Bolsa de Incentivo à Criação Artística — e posteriormente do programa Petrobras Cultural — pelo qual gravei o Elefantes na Rua Nova. Morando em São Paulo há dois anos, vinha sentindo que a relação entre os recursos públicos e privados investidos no meu trabalho estava começando a se equilibrar.

Infelizmente, com este mudança política brusca, a perspectiva de muitos músicos é retroceder aos anos 90: precariedade, informalidade e escassez de recursos. O que não quer dizer parar de produzir e criar: quem é músico faz música durante, contra e apesar de toda e qualquer crise política e econômica.”

“As gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira à frente do MinC, durante o governo Lula, foram importantíssimas. Contribuíram para ampliar a visão oficial da cultura no país, como elemento fertilizador de outras esferas, como fundamento e garantia de diversidade, e também como atividade autônoma e auto-sustentável. Com Gil, a criação dos Pontos de Cultura possibilitou a chegada de recursos públicos em ambientes historicamente marginalizados pelo Estado e pela indústria cultural, e também foram fortalecidas as instituições responsáveis pela memória e pelo patrimônio. Evidentemente a música de tradição oral – aquela não ligada à indústria fonográfica ou à academia – foi uma das áreas mais beneficiadas por esta gestão.

Durante as gestões de Ana de Holanda e Marta Suplicy, tive a impressão que o rumo mudou (embora sem direção clara) e que algumas ações perderam força. Uma das poucas iniciativas importantes foi o fortalecimento da Secretaria de Economia Criativa, responsável por iniciar um estudo sistemático das relações e potenciais econômicos da atividade cultural brasileira. Este esforço desaguou numa das últimas ações de Juca Ferreira no governo Dilma: o lançamento das políticas de estado para  Música, que incluem pela primeira vez uma linha de crédito para micro e pequenos empreendimentos musicais, e novas regras para gerenciamento de direitos autorais na internet. É uma iniciativa muito bem-vinda, apesar da realização tardia e da ameaça de abandono por parte do desgoverno atual. Com esta medida, acredito que o MinC estava finalmente criando o tripé essencial de sua atuação.

Penso que é papel do MinC equilibrar e articular o investimento nesses três campos principais: a preservação da memória e do patrimônio (manutenção e criação de fonotecas, acervos e publicações); a valorização das culturas tradicionais e de seus praticantes (historicamente colocados à margem da indústria e da academia); e o estímulo à economia criativa (visando a autonomia e sustentabilidade do mercado cultural). Além disso, é fundamental articular esta política cultural ao fortalecimento da comunicação e da educação públicas. Nenhuma produção musical terá seu potencial plenamente aproveitado enquanto não houver espaço aberto e acolhimento em rádios, TVs, escolas e universidades.

Nada disto significa uma hegemonia do Estado sobre o mercado musical. Trata-se apenas de entender que estas duas forças não são opostas, mas complementares. Não dever haver campo prioritário: em doses erradas, qualquer remédio vira veneno, e este equilíbrio só será alcançado se o Estado promover o estudo sistemático dessas dinâmicas. Ou seja: a criação de algo como um Observatório da Música também seria essencial para o levantamento e cruzamento de dados que fundamentassem a criação e reajuste de políticas públicas para o setor.

Tudo o esforço realizado nos últimos 13 anos está ameaçado e sua continuidade depende do retorno à normalidade institucional e democrática. Hoje, a única reivindicação coerente a ser feita àqueles que sentaram nas cadeiras da presidência e dos ministérios é exigir suas renúncias.”

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Lucas Vasconcellos (cantor, compositor)
“A forma mais veloz é a influência composicional. O jeito de escrever, de compor. Depois de um golpe (anunciado pela história, desde sempre, mas ainda assim surpreendente) as chamas da revolta e da indignação passam a dar o tom em algumas escolhas líricas e de arranjo. De uma maneira executiva, prática, o fim de um ministério voltado pras artes é uma aniquilação profissional pra minha classe embora eu, diretamente , tenha me beneficiado muito pouco das políticas públicas oriundas do extinto MinC.”

“Acho que o MinC poderia ser uma via de fomentação incrível  pra música atual se estivesse voltado pra realizações que trouxessem à luz a música que fica eclipsada pelos interesses dos grandes escritórios de artistas já estabelecidos e onipresentes na cultura e na mídia do país. Se desse visibilidade real a expressões musicais vindas de locais de difícil midiatização, se fomentasse com mais vigor uma inclusão de projetos que ativasse o desejo musical em áreas negligenciadas pelo Estado. Enquanto for considerado ‘saudável’ dar isenção fiscal pra grandes corporações pra que estas façam propaganda em show e projetos de grandes artistas, chove-se no molhado e não se cria grandes oportunidades.”

*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).

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