LequeNãoÉSóCalor - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/lequenaoesocalor/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Thu, 04 Jun 2026 13:52:52 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png LequeNãoÉSóCalor - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/lequenaoesocalor/ 32 32 O leque: do Império Chinês ao “VRAAA!” das paradas https://www.ocafezinho.com/2026/06/04/o-leque-do-imperio-chines-ao-vraaa-das-paradas/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/04/o-leque-do-imperio-chines-ao-vraaa-das-paradas/#respond Thu, 04 Jun 2026 09:50:03 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=256257

Por Rollo —  que acha que um mundo sem leques seria muito mais quente. E muito menos divertido

 Há objetos que servem para alguma coisa. E há objetos que contam histórias. O leque faz as duas coisas. Nasceu para espantar o calor, atravessou impérios, sobreviveu a reis, rainhas, revoluções, modismos e à invenção do ar-condicionado. Qualquer outro acessório histórico teria se aposentado com dignidade. O leque preferiu continuar causando. Hoje ele está nos palcos, nas festas, nas redes sociais, nos memes, nas figurinhas do WhatsApp e, principalmente, nas mãos de quem entende que um simples VRAAA! pode dizer mais do que um discurso inteiro. Este artigo não fala apenas sobre um objeto. Fala sobre criatividade, liberdade, humor, arte e pertencimento. Fala sobre como algo aparentemente simples conseguiu atravessar séculos e se transformar em símbolo de expressão para milhões de pessoas — LGBT ou não. Porque, no fim das contas, o leque pertence a quem quiser abri-lo. E se a história da humanidade pode ser contada por guerras, tratados e grandes invenções, ela também pode ser contada por pequenos gestos. Alguns deles coloridos, barulhentos e cheios de personalidade. Talvez seja por isso que, tantos séculos depois de sua invenção, o leque continue firme, forte e absolutamente incapaz de passar  despercebido. E que continue assim.

Existe uma pergunta que a humanidade simplesmente se recusou a fazer: como um objeto criado há milhares de anos conseguiu sobreviver a impérios, guerras, revoluções, pandemias, modismos, ao TikTok e à invenção do ar-condicionado? A resposta é simples. Porque o leque entendeu uma coisa que muita gente nunca aprende: aparecer é uma arte. Enquanto milhares de objetos históricos desapareceram sem deixar saudade, o leque continua firme, forte e fazendo barulho. Literalmente! Porque existe um som capaz de atravessar gerações, classes sociais e orientações sexuais. É o lendário VRAAA! Se você ouviu esse som na sua cabeça ao ler esta palavra, parabéns. Você já faz parte da história.

O primeiro influencer da humanidade

Muito antes de existirem influencers vendendo chá detox, o leque já dominava a arte da imagem. Os primeiros registros aparecem na Ásia há milhares de anos. China. Japão. Coreia. Reinos antigos. Cortes imperiais. Cerimônias religiosas.  Ali estava ele. Sempre elegante. Sempre útil. Sempre fotogênico. Aliás, o leque talvez tenha sido o primeiro objeto da história criado simultaneamente para resolver um problema e gerar um close.

O acessório que se recusou a morrer

Pense em quantas coisas ficaram ultrapassadas. Fax. Pager. Locadora. Orkut. DVD. CD. Blu-ray. Mas o leque? O leque olhou para todos eles e respondeu: — Queridos, eu sobrevivi à queda de impérios. Vocês acham mesmo que vou ser derrotado por um ventilador portátil? E não foi. Pelo contrário, saiu dos palácios, entrou nos teatros, conquistou os bailes. Invadiu o cinema. Dominou a dança. E ainda encontrou tempo para virar figurinha de WhatsApp. Currículo respeitável.

Quando a comunidade LGBT encontrou o leque

E então aconteceu aquele tipo de encontro que parece ter sido organizado pelo universo. De um lado, um objeto dramático, exagerado. Expressivo, barulhento, impossível de ignorar. Do outro, uma comunidade que transformou criatividade, estilo e autenticidade em forma de resistência. Era praticamente um casamento marcado pelas estrelas. Ou pelo glitter. O leque deixou de ser apenas um acessório. Virou linguagem, atitude, resposta. Virou comentário. Virou legenda ambulante. Um simples movimento pode significar: “Arrasou!”, “Concordo”, “Discordo”. “Socorro!”, “Que absurdo!”, “Eu sabia!”, “Tô passada!”. Tudo sem gastar uma sílaba. Isso é eficiência comunicativa. A invenção mais divertida depois do sarcasmo.

Existe um detalhe que os historiadores raramente mencionam. As crianças sempre entenderam o leque antes dos adultos. Porque criança não precisa de seminário sobre simbolismo cultural. Ela vê um objeto colorido, que abre, que fecha, que faz barulho. E imediatamente pensa: “Eu preciso disso!”. A mesma lógica do bambolê, da pipa, do ioiô. E de qualquer brinquedo que faz os pais perguntarem: “Mas qual é a graça disso?”. A graça é justamente essa. O leque venceu a internet. E vencer a internet não é tarefa simples. A internet transformou pessoas comuns em celebridades e celebridades em memes. Mas o leque sobreviveu. Virou GIF, virou sticker. Virou reação. Virou emoji não oficial. Virou linguagem universal. Hoje é perfeitamente possível participar de uma discussão inteira no WhatsApp usando apenas figurinhas de leque. E, honestamente? Muitas vezes a qualidade do debate melhora.

Muito além do calor

Argentinos German Rocha e Emiliano na 29ª Parada do Orgulho LGBT+ – Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Vamos ser sinceros: se a missão fosse apenas refrescar, um ventilador resolveria. O leque sobrevive há milênios porque ele faz algo muito mais importante. Ele chama atenção. Ele cria presença. Ele transforma um gesto simples em espetáculo. E talvez seja justamente por isso que ele encontrou um lugar tão especial na cultura LGBT. Porque, no fundo, ambos compartilham a mesma mensagem: existir também pode ser uma forma de arte.

De olho em junho

Com a chegada do Mês do Orgulho e da Parada LGBT de São Paulo, o leque volta ao seu habitat natural: as ruas, os palcos, as redes sociais e qualquer lugar onde haja calor, alegria e vontade de celebrar. Depois de milhares de anos de história, ele continua fazendo exatamente aquilo que sempre fez: chamar a atenção, só que agora com mais cores, mais glitter. E muito mais personalidade. VRAAA! 🌈

(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.

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