Margaret Thatcher - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/margaret-thatcher/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Wed, 07 Feb 2018 15:31:50 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Margaret Thatcher - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/margaret-thatcher/ 32 32 Neoliberalismo: Carillion, Capita e o Colapso do Estado Mínimo Britânico https://www.ocafezinho.com/2018/02/07/carillion-capita-e-o-colapso-do-estado-minimo-britanico/ https://www.ocafezinho.com/2018/02/07/carillion-capita-e-o-colapso-do-estado-minimo-britanico/#comments Wed, 07 Feb 2018 14:57:38 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=83195 3 Comentários 🔥]]> o Royal Liverpool Hospital, reformado pela falida “Carillion” deveria ter aberto em março de 2017. “É pouco provável que abra este ano”, diz a BBC. A Carillion também mantém 50 prisões
Foto: BBC

Enquanto na Europa, o neoliberalismo expõe as suas víceras, no Brasil ele é implementado na marra

Nestes tempos de luta política intensa, da necessidade de salvar o símbolo, o homem, a gente tende a deixar de lado o porquê da luta.

A luta por Lula e o que ele significa é imprescindível.

Mas na premência de salvá-lo, corremos o risco de deixar passar a proposta teórica, rejeitada pela população brasileira, que está sendo implementada na marra.

Portanto, é importante observar o que acontece em outras partes do mundo.

O Reino Unido é um dos precursores na implementação do neoliberalismo.

Dada as condições específicas do sistema político britânico, o partido governante detém todo o poder de fazer o que quiser com o Estado (com grande aparelhamento – o que, para os nossos ilustres Deuses do judiciário, significaria corrupção).

Isso pode ser positivo ou negativo, dependendo do nosso ponto de vista ideológico (mas não é um crime).

O fato é que, por causa deste sistema, nas últimas décadas do século XX as ideias neoliberais, como o estado mínimo e a supremacia do mercado, puderam avançar sem qualquer obstáculo.

E o país virou um palco de experiências e experimentos baseados em teorias nunca antes aplicadas, mas que, mesmo sem resultados concretos foram – e continuam sendo – exportadas mundo a fora.

Hoje, 40 anos depois da chegada do neoliberalismo pelas mãos de Margaret Thatcher, todas as partes do sistema público britânico estão em crise.

Fora os problemas mais gritantes como o Brexit (resultado da não inclusão dos excluídos), a crescente desigualdade, a falta de produtividade da mão de obra, a dependência do país nas importações e o trabalho precário, a população reivindica a re-nacionalização de vários setores e indústrias e, a iniciativa privada, prestadora de serviços públicos – antes aclamada como panaceia – está em apuros.

Cheguei na Inglaterra pela primeira vez em 1979, junto com a Margaret Thatcher.

Criança ainda, me lembro bem de estar num hotel com meus pais e ver, pela televisão, a queda de Callaghan e a entrada da chamada Dama de Ferro.

Na época, não sabia o impacto que isso teria, mas Margaret Thatcher marcou a minha vida.

Não estava presente durante o “Winter of Discontent”*, o evento que aparentemente pôs boa parte da população britânica contra os sindicatos, abrindo espaço para a aceitação do neoliberalismo.

Como disse, cheguei em março, junto com Thatcher, não vi o malfadado final do consenso socialdemocrata.

Com ela cresci.

Vi as guerras das Malvinas; as greves dos mineiros; as privatizações da mineração, do aço, das telecomunicações e da aviação; as rebeliões em Brixton, Toxteth e Handsworth e, finalmente, os protestos contra o chamado ‘poll tax’ (IPTU britânico), que a derrubaram.

Vi a total destruição do sistema industrial e a destituição social de seus trabalhadores, mineiros, fabris, servidores públicos e o ‘fim’ da classe trabalhadora.

A mão de obra das ex-colônias que reconstruiu a grandeza da Metrópole pós-guerra, e que veio em massa para criar e consolidar o Estado de bem-estar social Britânico, de repente, não tinha mais razão de ser.

O racismo aflorou, como sempre aflora em tempos de crise.

Antes dos mulçumanos, dos imigrantes europeus e refugiados, o ‘problema’ era negro.

Depois, veio a aceitação.

Thatcher prometeu o sonho da classe média para todos: a casa própria.

Mas o sonho veio às custas da destruição do Estado social.

O setor público, que passou 40 anos construindo moradias, tirando populações inteiras de cortiços e escombros, foi forçado a vender seus imóveis, seus mais valiosos bens.

E foi proibido de construir mais casas.

Money, Money, Money – ‘Loadsa Money’ era o moto dos anos 80 – Madonna e seu Material Girl.

O império financiero da City se consolidou e a potência industrial se transformou em provedora de serviços e conhecimento.

Margaret Thatcher ganhou sua implacável luta contra o trabalho organizado.

Mas a revolução não parou com ela.

Tinha coisas que nem ela tinha a coragem de mudar.

O “welfare state” era sagrado: educação, saúde, assistência social para todos.

Então John Major, seu sucessor, resolveu atacar o sistema de dentro para fora.

Veio a invenção dos ‘mercados internos’ e a introdução do setor privado para administrar o serviço público e as PFIs – Iniciativas de Financiamento Privado.

Frederick Hayek com seu mercado e estado mínimo e os teóricos da escolha pública que exaltavam o egoísmo, a racionalidade, o lucro e o setor privado, se tornaram reis (e, aparentemente, os consumidores também).

O Reino Unido se transformou em “Britain Plc” e seus cidadãos, em consumidores, objeto de minha tese de mestrado.

No começo dos anos 90, eu trabalhava no NHS, o serviço nacional de saúde, que passava por grandes transformações.

Ainda antes de meus estudos, apesar do mantra, apesar de anos de Thatcherismo, não conseguia entender o porque do privado ser sempre melhor que o público.

Vi de primeira mão a formação do ‘mercado interno’: a saúde foi dividida entre ‘provedores’ e ‘tomadores’ de serviços.

Isso não era simples terminologia. Implicava em certas organizações, como hospitais e médicos, venderem os seus serviços que uma entidade central comprava, dinheiro passando de uma parte do NHS para a outra, através de contratos.

Contratos, envolviam a contratação de gerentes para administrar a nova camada administrativa e financeira do sistema.

A ideia era que a introdução do lucro traria maior eficiência.

Mas em vez de eficiente, o sistema se tornou mais pesado, mais complexo.

De dentro para fora, não conseguia entender o porque de se gastar tanto dinheiro em trocas hipotéticas.

Apesar dos cortes, privatizações e outras inovações do mercado, nem Thatcher e nem Major conseguiram diminuir o tamanho do Estado – a lógica por trás de todas estas ações.

Enquanto isso, aclamavam as privatizações como modelo de eficiência, sem tentar compreender a complexidade dos eventos.

Afinal as inovações tecnológicas ocorreram ao mesmo tempo que as privatizações.

Quem pode dizer se a aparente maior ‘eficiência’ da privatizada BT (empresa de telecomunicações) tinha a ver com as teorias da escolha pública ou com as inovações em informática que começaram a emergir na época? Ou simplesmente porque qualquer mudança leva a melhorias, pelo menos temporariamente?

O fato é que o mercado interno não funcionou.

Em 1989, o muro cai e aclamam o ‘fim da história’. A morte da ideologia.

Sai Major. Entra Blair.

Social democracia e socialismo são substituídos pela justiça social e igualdade de oportunidades.

A palavra ‘classe’ é enterrada pela retórica da sociedade sem classes. Separam as lutas identitárias das questões socioeconômicas.

A terceira via sinalizou o reconhecimento da morte de qualquer teoria socialista. O que importava agora era a eficiência – cientificamente comprovada – e não mais, direita ou esquerda; Estado ou iniciativa privada.

Mas os quase 20 anos de governo conservador deixou os serviços públicos britânicos arrasados.

Blair precisava investir. De onde viria o dinheiro?

E Blair, apesar de seus inúmeros erros (alguns imensos, como a guerra do Iraque), investiu no sistema público, construiu e transformou hospitais e escolas, melhorou a qualidade do setor público e a pobreza caiu (mas não a desigualdade).

Acontece que Blair fez isso através da iniciativa privada. Nos 13 anos de governo trabalhista foram 620 contratos de PFI, a maioria para a construção de escolas, hospitais e prisões.

Os contratos viabilizavam os lucros de umas poucas empresas que agora detêm não só o monopólio dos contratos, mas também alguns serviços públicos essenciais, que não podem falhar.

A ideia era que o setor privado poderia construir o projeto e parte do pagamento viria da administração destes bens por um número de anos. Assim, o governo não teria que desembolsar imediatamente pelo custo da construção.

Os lucros embutidos nestes contratos foram imensos. O NAO (Serviço de Auditoria Britânico) calcula que as reformas de escolas custaram 40% mais caras do que se tivessem sido feitas pelo setor público, e os hospitais 70% mais caros.

De acordo com The Guardian, o hospital universitário de Norfolk and Norwich, cuja construção custou £229 milhões, e implicou na administração do hospital pela empresa até 2037, prevê à empresa privada £1 bilhão (aproximadamente 5 vezes o custo da construção).

A necessidade do pagamento destes investimentos (mais juros) está avolumando dívidas, chegando a causar cortes de serviços e até o fechamento de hospitais.

Já faz anos que os próprios proponentes do empreendedorismo privado, em universidades como a LSE, sabem que este tipo de empreendimento não é o mais barato.

E nem sequer o melhor, causando uma série de outros problemas à sociedade, como a cascata de tercerizações, sem qualquer tipo de responsabilização social pelos trabalhadores na ponta final deste processo, que não recebem nenhum tipo de proteção formal.

Hoje em dia, buscam-se alternativas para o financiamento público e fala-se do retorno à emissão de títulos (especialmente considerando as baixas taxas de juros no país) ou a criação de um banco nacional de investimento e desenvolvimento (tipo BNDES, que neoliberais brasileiros adorariam ver extinto).

Para além de todos estes problemas, agora descobrem, que algumas destas empresas estão quebrando.

Oito anos de governo conservador implicaram em oito anos de austeridade e cortes no financiamento dos serviços públicos, mesmo aqueles que ainda precisam ser pagos através de contratos feitos anos atrás.

E o setor privado parece não ser mais eficiente que o setor público.

Carillion, responsável por hospitais, a construção de estradas e da controversa linha de ferro HS2, já faliu, deixando muitos governos locais em situações difíceis.

Mesmo com seus próprios orçamentos estourados, agora vão ter que lidar com as consequências destas quebras, porque, afinal de contas, os serviços são públicos e a responsabilidade final é do governo.

Capita, outra empresa prestadora de serviços públicos, também advertiu que sua situação financeira não é boa.

Durante as Olimpíadas de 2012, o exército teve que fazer a segurança porque a firma contratada, a G4S, outra grande prestadora de serviços na época, não conseguiu proporcionar a quantidade de funcionários qualificados.

£10 bilhões foram pagos a uma outra prestadora para atualização de serviços informáticos que nunca se materializaram.

Sem contar as várias histórias de superfaturamento, ou de insatisfação com os serviços privatizados como água, luz e ferrovias (ironicamente prestados por empresas nacionais de outros países como a francesa EDF).

E pensar que o Golpe brasileiro foi dado para forçar mudanças que, com cada ano que passa, se mostram cada vez mais equívocas e baseadas em ideologias falsas.

Talvez mais irônico é o fato de que, no intuito de acabar com a mão grande “planejadora e reguladora do Estado”, se planejou um golpe para que aquele ente, não-identificável, que tudo sabe e tudo equilibra, o Mercado, fosse rei.

*O “Winter of Discontent” é uma frase emprestada de Shakespeare que deu o nome ao inverno de 1978-79, quando o setor público fez uma greve geral e o país parou: O lixo ficou sem recolher, e os mortos sem enterrar. É tido como o exemplo da “força” e falta de responsabilidade dos sindicatos da época.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2018/02/07/carillion-capita-e-o-colapso-do-estado-minimo-britanico/feed/ 3
Reformas: o que 40 anos de privatizações, flexibilização do trabalho e terceirizações na Grã-Bretanha podem nos ensinar https://www.ocafezinho.com/2017/07/05/reformas-o-que-40-anos-de-privatizacoes-flexibilizacao-do-trabalho-e-terceirizacoes-na-gra-bretanha-podem-nos-ensinar/ https://www.ocafezinho.com/2017/07/05/reformas-o-que-40-anos-de-privatizacoes-flexibilizacao-do-trabalho-e-terceirizacoes-na-gra-bretanha-podem-nos-ensinar/#comments Wed, 05 Jul 2017 18:53:49 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=75196 7 Comentários 🔥]]> foto: bbc

O que mantém Temer em seu lugar?

Para parafrasear um assessor do Presidente Americano, Clinton: são as reformas, idiota!

O temeroso está fazendo de tudo para aprovar a reforma trabalhista e conseguir pôr em marcha a da previdência.

Seria, portanto, interessante examinar os resultados de reformas similares na Grã-Bretanha, um dos países que primeiro as introduziram a quase 40 anos atrás.

Obviamente que não é possível transferir experiências diretamente de um país a outro. Mas o exercício de comparação é válido.

Primeiro já advirto, aqueles que esperam ver neste artigo os fundamentos de sempre para qualificar o que é uma ‘economia exitosa’, não os encontrarão aqui.

As seguintes perguntas norteiam este artigo:

Quais são as reais consequências para a sociedade da destruição da social democracia e do retorno do Estado liberal, que não proporciona proteção aos que necessitam?

O que acontece com as pessoas, quando elas vivem em sociedades individualistas e não se juntam em coletivos para lutar contra os mais fortes?

E considerando os anos do Thatcherismo e o surgimento do New Labour ou, se quisermos, os últimos anos da guerra fria até o tal ‘fim da história’: Mesmo se aceitarmos a anunciada ‘morte da ideologia’, será que realmente não importa qual agente (público ou privado) atua em prol do Estado, portanto que atue eficientemente e sob conceitos científicos (a chamada terceira via)?

E especificamente em relação ao Brasil: o que 40 anos de experiências britânicas de privatizações, terceirizações, flexibilização das leis trabalhistas e a forçada redundância dos sindicatos poderiam nos ensinar para que evitássemos os mesmos erros?

Recentemente, uma série de eventos, já bem documentados, tiraram a pacata política britânica dos eixos.

Relembremos:
– eleições que desembocaram na falta de maioria (ou maioria pequena) num parlamento acostumado com maiorias partidárias;
– o Brexit;
– maior polarização entre a direita e a esquerda, num sistema acostumado a apelar para o ‘centro’ e;
– o crescimento exponencial da popularidade de Jeremy Corbyn, líder dos Trabalhistas. Primeiro na sua base partidária e de esquerda e depois no país como um todo.

Isso tudo nos leva a uma pergunta:

A reviravolta da política britânica não estaria relacionada às consequências acumuladas das políticas liberalizantes aplicadas nos últimos 40 anos?

E, em relação ao Brasil, se isso for o caso, quais as lições que podemos tirar em relação às reformas que este Congresso e o Presidente ilegítimo querem forçar goela a baixo?

Já debati em outro artigo os ganhos dos Trabalhistas e as razões pela sua ‘inesperada’ popularidade. Sinalizei que um dos motivos seriam as políticas progressistas do programa de governo proposto.

Para que fique claro: apesar do que dizem muitos, não estamos falando do ‘ressurgimento do comunismo’. O que Corbyn propõe não é mais que um modesto retorno à social democracia.

O fim do consenso social-democrático

Em 1979, Thatcher assume o poder depois de um período de turbulência política e econômica.

Mais especificamente, o Partido Trabalhista não conseguia fazer maioria e – reza a mitologia política – nem manter o controle sobre os sindicatos, para poder estabilizar a economia.

Thatcher é eleita na primavera de 1979, depois do chamado winter of discontent (inverno de descontentamento), frase emprestada de Shakespeare para descrever as grandes greves dos setores públicos, que atrapalhavam o dia a dia das pessoas, inclusive com quantias de lixo não recolhido, que se amontoavam pelas ruas.

A Primeira-ministra britânica estava determinada em quebrar o poder dos sindicatos, como de fato o fez, e introduzir uma nova ideologia, o neoliberalismo, acabando com o consenso socialdemocrata estabelecido durante o segundo pós-guerra.

O auge da sindicalização dos trabalhadores Britânicos se deu, justamente no final dos anos 70 e, de tudo que Thatcher fez, talvez o mais significativo tenha sido enfraquecer os sindicatos.

Quando Thatcher entrou, 13 milhões de trabalhadores (aprox. 50%) eram sindicalizados, número que se reduz para menos da metade em 2012, quando a força de trabalho total é maior do que era nos anos 70.

Thatcher mudou as leis trabalhistas, privatizou grandes empresas públicas, algumas das quais, como a mineira, desapareceram completamente e outras, como a siderúrgica, se mantém por um triz.

De uma economia de produção para uma economia de serviços

Como também já explicado em outro artigo, a base econômica do Reino Unido, mãe da revolução industrial, mudou da manufatura para os serviços, que hoje empregam aproximadamente 80% da força de trabalho, em setores como finanças, comércio, turismo e educação.

Atualmente, o Reino Unido vive de e exporta know-how. As poucas indústrias que sobraram são de alta tecnologia e empregam um número pequeno de trabalhadores (8% da força de trabalho; 10% do PIB).

Sem sindicalização a erosão dos direitos trabalhistas é fácil

Estas mudanças podem ter sido ótimas para a riqueza geral do país, mas não para grande parcela da população. Isso porque os chamados ‘serviços’, apesar de empregarem trabalhadores colarinho branco, incluem inúmeras profissões, muitas das quais não proporcionam boas condições de trabalho ou salários.

De acordo com estudo do OCDE, a incidência de trabalho meio período é maior no setor de serviços, os contratos mais curtos, e parcela dos empregos de menor qualidade.

Apesar das más condições, não há nestes serviços, um ‘chão de fábrica’, local propício para a sindicalização e a reivindicação de direitos. Situação que se aprofunda uma vez que boa parte de serviços públicos são terceirizados.

Depois de Thatcher, Major (Conservador) e Tony Blair (Trabalhista) continuam as reformas:

Major introduziu o ‘mercado interno’, trazendo a concorrência para dentro dos setores públicos, como saúde e educação, e fez das Parcerias Público Privadas (PPPs) formas corriqueiras de prestação de serviços públicos.

Assim, muitos serviços que antes eram executados diretamente por servidores públicos, e garantiam aos trabalhadores contratos formais e direitos, foram terceirizados ou diretamente privatizados.

Em outras palavras, em muitos setores, o Estado compra serviços de empresas terceirizadas que, por sua vez, também os terceirizam.

Assim, o Estado, que tem o dever de dar condições decentes para os trabalhadores, pode fechar os olhos para as más condições oferecidas pelas empresas contratadas por eles.

Os efeitos da flexibilização, gênero e classe

O mais emblemático exemplo talvez seja o que aconteceu com os serviços sociais, prestados principalmente por mulheres, com salários baixos.

Quando havia financiamento, durante os anos Blair e Brown, estas trabalhadoras conseguiam sobreviver.

Com a crise, os governos locais, buscando economizar, cortaram o que lhes parecia mais fácil: os custos da terceirização que, por sua vez, afetaram as condições destas trabalhadoras.

Estudos mostram, que mesmo as organizações voluntárias (das quais se esperaria melhor ética), optaram por modelos que não beneficiam os trabalhadores.

Resumindo: o mais ‘flexível’ mercado de trabalho da Europa resultou em baixos salários e poucos direitos.

Flexibilização e produtividade

Aqueles favoráveis à reforma trabalhista dizem que a flexibilização melhoraria a produtividade do trabalho.

Isso não se constata na Grã-Bretanha.
A produtividade do trabalhador britânico fica a baixo não só da Alemanha, mas da França e da Itália, países conhecidos pelas suas legislações inflexíveis.

Os custos da flexibilização recaem sob os ombros da ‘sociedade’

Mas há outras consequências negativas da ‘flexibilização:

O governo britânico gasta £43bn ou R$181,5bn (17% da conta de segurança social) em benefícios para trabalhadores (complementação de salários baixos). E £27bn, R$ 113 bn (10%) em subsídios ao aluguel.

Em outras palavras, a Grã-Bretanha gasta £70bn ou R$295,5 bn, ou seja, mais de um quarto do gasto total da segurança social, para compensar a ‘flexibilização do mercado’ – seja complementando salários baixos, ou ajudando as pessoas a pagarem aluguel ao preço do mercado. Em ambos casos, em vez do governo ajudar os mais necessitados, está subsidiando os mais ricos.

É bem verdade que esta ‘flexibilização’ resultou em pouco desemprego (o nível o mais baixo desde 1975). Mas a que custo?

Salários baixos não só implicam nas empresas serem subsidiadas pelo governo, mas também em menos arrecadação de impostos.

Além do crescimento da chamada ‘gig economy’, onde os trabalhadores são pagos por serviços específicos e não têm contrato (porque, aparentemente, são autônomos), houve também o crescimento de contratos ‘zero horas’.

Uma grande parcela destes autônomos não trabalha tempo integral e metade ganha abaixo do mínimo.

Para dar um exemplo, algumas empresas preferem contratar 4 faxineiras para trabalhar 2 horas do que uma por 8 horas. Assim, se desvinculando do ônus empregatício e dos impostos devidos.

Alguns dizem que a ‘flexibilização’ é boa para os trabalhadores. Como sempre, ela pode beneficiar os trabalhadores altamente qualificados.

Porém esta não é a realidade da maioria, com menos qualificação.

É só prestar atenção em mais um fenômeno da economia britânica: o empobrecimento das famílias trabalhadoras.

A situação é tão séria que 55% dos denominados ‘pobres’ estão em famílias em que pelo menos uma pessoa trabalha. São 3,8 milhões de trabalhadores pobres, dois terços são mulheres.

E o que dizer do fato que na quinta maior economia do mundo, 8% dos adultos não tiveram o suficiente para comer em 2016 e uma boa parcela da população depende de cestas básicas para sobreviver?

O que pensar quando enfermeiras estagiárias do mais famoso sistema público de saúde do mundo precisam complementar suas rendas com um segundo emprego ou com ‘bolsas pobreza’?

Será que é de se surpreender, que num cenário destes, a população se recuse a continuar jogando o mesmo jogo político dos anos 80 ou 90?

Quem paga é o povo

Neste mundo em que as grandes empresas podem comandar a economia e ameaçar a se retirar de um país se não ganharem o que querem (sim, isto acontece aqui também) é o governo, e portanto os cidadãos, que acaba pagando.

Se é bem verdade que não seria possível reverter a queda de algumas indústrias, como a mineira, e que uma economia desenvolvida se transforma necessariamente em uma economia de serviços. Não foram feitos esforços suficientes para integrarem as pessoas que perderam seus empregos e nem assegurar que os empregos que surgiram das novas formas econômicas garantissem os direitos e os salários dos trabalhadores.

No meu artigo sobre o Brexit, citado acima, expliquei que as antigas zonas industriais não conseguiram se recuperar economicamente, mesmo 30 anos depois do desaparecimento de certas indústrias.

Depois de 40 anos de liberalização, o sistema político-econômico britânico está em crise.

Poderia falar sobre a crise de moradia e o fato que a maioria dos mais pobres já não se encontram em moradias sociais, mas em alugueis privados, e o custo socio-econômico disso para os indivíduos e para a sociedade.

Poderia mencionar aqui o incêndio na Torre de Grenfell, que mostra como governos locais, regidos pela tal “custo-eficiência” se esquivaram das regulamentações, e que depois de ter perdido absolutamente tudo, os moradores estão lutando para poderem permanecer em seu bairro e não serem enviados para localidades distantes, realidade relatada por Ken Loach em seu filme Eu, Daniel Blake.

Poderia falar de Kensington & Chelsea, bairro do incêndio, o mais rico e desigual do País. E mencionar o crescimento dos índices de desigualdade. Mas vou parar por aqui.

No Brasil, o auge da liberalização se deu nos anos 90, interrompido pela ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder. Tanto que, o objetivo econômico deste governo é fazer as reformas, parte intrínseca da aliança entre empresários, banqueiros, políticos de direita, e os corruptos envolvidos na Lava Jato.

É importante que nos demos conta do que isso significa.

Temos um Congresso comprado, em um Estado de exceção.

Se há algo que os verdadeiros donos do poder têm consciência é da dificuldade de passar tais reformas na democracia. Por isso tem que ser agora. Já! Com ou sem Temer.

Já deixamos passar a PEC do teto dos gastos, um absurdo mesmo em termos de economia ortodoxa. Como podemos fixar um teto para vinte anos num mundo volátil? A desvinculação da arrecadação do governo e suas despesas é a instalação do Estado Mínimo.

Deixamos também passar o absurdo da PEC da terceirização, múmia retirada de seu túmulo pelos mesmos Congressistas desdenhosos da população.

Não podemos deixar que passem a reforma trabalhista. Porque a não ser que consigamos anular todos os atos que foram passados durante este Estado de Exceção, os danos que estas reformas trarão serão imensos. E isso é quase impossível.

Como tentei mostrar aqui, quarenta anos de liberalização transformaram a Grã-Bretanha em outro país.

Sim, continua sendo a quinta maior economia do mundo. Sim, continua ditando o que deve ser feito nos outros países, exportando o seu know-how, mesmo sem saber se os resultados serão bons. A confiança que os britânicos têm em suas ideias não necessitam de provas.

Junto com os americanos, os britânicos exportaram o liberalismo para o mundo. Agora tentam lidar com as consequências.

E nós ainda queremos imitá-los? A que custo?

]]>
https://www.ocafezinho.com/2017/07/05/reformas-o-que-40-anos-de-privatizacoes-flexibilizacao-do-trabalho-e-terceirizacoes-na-gra-bretanha-podem-nos-ensinar/feed/ 7
Mais sobre Thatcher e Temer: lembrando as consequências de ignorar a opinião das ruas https://www.ocafezinho.com/2017/04/30/mais-sobre-thatcher-e-temer-lembrando-consequencias-de-ignorar-opiniao-das-ruas/ https://www.ocafezinho.com/2017/04/30/mais-sobre-thatcher-e-temer-lembrando-consequencias-de-ignorar-opiniao-das-ruas/#comments Sun, 30 Apr 2017 20:37:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=70657 6 Comentários 🔥]]> Foto: Phil Maxwell Archives

Relembrando à Globo que Margaret Thatcher foi defenestrada justamente porque ignorou a opinião das ruas.

A Globo resolveu comparar o usurpador Temer com Margaret Thatcher, a polêmica Premier britânica. É verdade que Thatcher conseguiu acabar com as greves dos mineiros (e não com uma greve geral), mas também conseguiu totalmente destruir a indústria mineira (e a maioria das indústrias pesadas britânicas).

Se por um lado, o setor estava chegando ao fim do seu ciclo natural, Thatcher resolveu combater os mineiros de frente e não planejou uma saída estratégica econômica para que estes trabalhadores pudessem contribuir futuramente para o desenvolvimento do país.

Ao contrário, além de arrasar inúmeras vidas, hoje, os antigos distritos mineiros continuam sofrendo as sequelas de tão dramática destruição, há quase quarenta anos atrás.

Estas regiões, que uma vez foram o motor da revolução industrial, não só do Reino Unido e de suas colônias, mas de todo o mundo, ainda sofrem com o desemprego, a falta de possibilidades, trabalho precário, pobreza e degradação.

São lugares onde ainda se observa os piores índices econômicos do país e onde o voto a favor do Brexit predominou – ainda que recebendo ajuda direta dos cofres da União Europeia para recompensar pela falta de independência econômica – revelando que as reformas Thatcheristas, nunca superadas pelos governos trabalhistas, não funcionaram.

A Escócia nunca esqueceu, e possivelmente, só nestas próximas eleições é que poderão dar chance ao Conservadores de ganharem mais do que uns poucos assentos no parlamento britânico.

Na verdade, um dos fatores que motivou a sede pela independência escocesa, foi a discrepância entre a vontade da maioria inglesa, muito mais significativa, porém muito mais à direita que a (menor) maioria escocesa. Margaret Thatcher é ainda lembrada com muito ódio em certas partes das quatro nações que constituem o Reino Unido.

Mas talvez mais interessante fosse relembrar aos nossos Globais o fim que teve a chamada “Dama de Ferro”.

Thatcher caiu justamente porque ela ignorou tanto os conselhos de seus próprios servidores públicos e assessores que a advertiram contra a implementação da chamada “Poll Tax” (um tipo de reforma dos impostos municipais), como a reação do povo britânico.

Sabendo que seria impossível revogar a “Poll Tax” sem a saída de Thatcher, os parlamentares Conservadores decidiram apunhalar sua mais icônica líder pelas costas.

Tão admirada nos círculos econômicos e financeiros e pela política contemporânea, Thatcher perdeu a confiança e, portanto, a liderança do partido e do país.

Como primeira-ministra, ela nunca gozou de unanimidade. Nem mesmo dentro do seu próprio partido, que a escolheu mais por falta de outros líderes (como foi o caso de Dilma Rousseff no PT e de Theresa May agora) do que propriamente por sua popularidade.

Em 1983, Thatcher foi re-eleita. Teve muita sorte, primeiro pelas ações suicidas de um tal General Galtieri e seus comparsas, que fizeram com que os britânicos ganhassem uma guerra contra uma força menor nos mares do Sul, e segundo, por concorrer contra um líder trabalhista sem popularidade.

Sem dúvida, Margaret Thatcher mudou o mundo, sua sorte ajudou a tornar o neoliberalismo hegemônico.

Porém, é loucura não ver o efeito que estas políticas continuam tendo no mundo de hoje, e pior, tentar implementá-las a força. Ainda mais sem nenhuma anuência da população.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2017/04/30/mais-sobre-thatcher-e-temer-lembrando-consequencias-de-ignorar-opiniao-das-ruas/feed/ 6
Derrubaram a estátua de Thatcher https://www.ocafezinho.com/2013/04/09/derrubaram-a-estatua-de-tatcher/ https://www.ocafezinho.com/2013/04/09/derrubaram-a-estatua-de-tatcher/#comments Tue, 09 Apr 2013 18:37:59 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=10539 [s2If !current_user_can(access_s2member_level1) OR current_user_can(access_s2member_level1)]

Cardápio variado hoje para assinantes do Cafezinho: informações atualizadas sobre volume dos reservatórios; notícias sobre a candidatura de Campos; comentário sobre a iminente ruptura entre PMDB e PT no Rio; e uma análise sobre a morte de Thatcher, e a defesa (às vezes constrangida) de sua herança, nos jornalões.

[/s2If]
[s2If !current_user_can(access_s2member_level1)]
Para continuar a ler, você precisa fazer seu login como assinante (no alto à direita). Confira aqui como assinar o blog O Cafezinho.[/s2If]

[s2If current_user_can(access_s2member_level1)]
Já que andaram falando novamente em apagão, voltamos, ansiosos, para o site da ONS para checar a situação dos reservatórios. Eles continuam a encher de maneira firme.  No sudeste, chegaram a 57% de volume útil, no sul 64% e no Norte, 94%. Mesmo no Nordeste, onde persiste o clima seco, os mesmos cresceram 36% desde janeiro e estão hoje em 44%.

 

*

Sobre a candidatura Campos, temos hoje uma nota divertida na coluna do Ilimar Franco.

“O minguante PPS é uma contrafação da história de lutas do PCB. A proposta de fusão com o ascendente PSB não pode ser levada a sério. Não seria mais lógica a fusão DEM-PPS?” Roberto Amaral
Presidente do PSB (no exercício)

A afirmação de Amaral tem um significado político importante. Mostra que os contatos de Eduardo Campos com Roberto Freire e José Serra tem pouca chance de frutificarem, e que o PSB continua apostando, nos últimos dias, num recuo estratégico, tentando neutralizar os sinais pró-oposição que emitiu nos últimos meses.

*

Ainda na coluna do Ilimar, destacada na abertura:

Cabral: não aos dois palanques
O governador Sérgio Cabral (PMDB) já avisou à presidente Dilma (PT) e ao ex-presidente Lula que não aceita a existência de dois palanques no Rio. “Não imagino a presidente no palanque do Pezão e de outro candidato ao governo. Eu não me imagino apoiando dois candidatos a presidente. Num dia recebo Dilma, e no seguinte outro candidato”, afirma Cabral

PMDB cobra reciprocidade do PT
O desejo do PT de ter um candidato e a disposição do senador Lindbergh Farias são naturais, segundo Sérgio Cabral, mas não nas atuais circunstâncias. “Aliança pressupõe reciprocidade. O Lula teve nosso apoio para lançar sua sucessora (Dilma). Será que eu não tenho legitimidade para lançar meu (o vice Luiz Fernando Pezão) sucessor?”, pergunta o governador. Na sua avaliação, o Estado tem uma agenda de eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas) e investimentos pela frente e, por isso, não passa pela sua cabeça a cisão entre aliados. “Não vejo como pensar em dois palanques numa situação dessas”, arremata

A nota é mais um capítulo da batalha de forças que está sendo jogada no Rio. A candidatura de Lindberg está sendo decidida no alto e as próximas semanas podem ser decisivas. O petista tem trabalhado duramente para fortalecer sua imagem no estado, tornando-a tão forte a ponto de convencer o PT nacional de que a tentativa valeria o risco de tensionar uma aliança tão forte entre Dilma e Cabral. Ainda há incertezas no ar, mas eu aposto que, dessa vez, Cabral vai perder. O PT nacional poderia até se sentir inclinado a abandonar uma candidatura própria do partido, mas Lindberg tem se mostrado um articulador político implacável. A sua ambição e a energia que empenha para satisfazê-la correspondem a seu maior trunfo. E menciono ambição não como algo negativo. Além do mais, depois de enfrentar a gestão de uma prefeitura em Nova Iguaçu, ele me parece bastante preparado para o jogo sujo, pesadíssimo, que caracteriza as eleições no Rio de Janeiro.

*

As diversas mortes de Margaret Thatcher

Os grandes jornais de hoje amanhecerem repletos de homenagens à Margaret Thatcher, a maioria delas envergonhadas, constrangidas pelas manifestações espôntâneas dos britânicos, de comemorar a morte de uma das maiores vilãs do trabalhismo inglês.

A Folha teve o mérito de publicar a coluna de Vladimir Safatle, detonando a herança de Thatcher, mas em seu editorial revela o que realmente pensava. O início é um xarope adocicado e ficcional.

Aos dez anos, a menina que viria a ser lady Thatcher – nascida Margaret Hilda Roberts, em 1925, filha de um vendeiro- retrucou ao professor que assinalara sua sorte ao vencer um concurso de poesia: “Eu não tive sorte. Eu mereci”.

O episódio resume a crença no trabalho duro, na responsabilidade e na liberdade individuais que faria dela o primeiro governante do sexo feminino no Reino Unido e a mulher mais influente do século 20 -morta ontem aos 87 anos.

É um tanto ridículo afirmar que a líder política que mais contribuiu para o desemprego (a ponto de fazer do desemprego uma política afirmativa de Estado) e para a depressão dos salários seja um símbolo do valor do “trabalho duro”.  Muito pelo contrário. O thatcherismo é símbolo da esperteza financeira, do rentismo hereditário, da especulação imoral, valores exatamente contrários ao que se convencionou chamar de “trabalho duro”. 

Em sua coluna, Miriam Leitão também enfatiza os aspectos “positivos” da herança thatcherista. Miriam elogia a herança thatcherista no Brasil implementada pelos tucanos: privatização e redução do Estado, omitindo naturalmente o quadro de profunda recessão causado pelo thatcherismo brasileiro: desemprego, desindustrialização, ausência de investimento em infra-estrutura, aumento da miséria. Para ela, o negativo é justamente um suposto “ciclo de expansão do Estado” promovido pelos governos Lula e Dilma: novamente omitindo o quadro de emprego pleno, volta dos investimentos em infra-estrutura e redução da desigualdades.

Definitivamente, não é de se espantar que enquanto a morte de Chávez foi comemorada por milhões de venezuelanos caminhando emocionados pelas ruas de Caracas, em Londres, o mais comum era ver delicadas manifestações como essa:

 

[/s2If]

]]>
https://www.ocafezinho.com/2013/04/09/derrubaram-a-estatua-de-tatcher/feed/ 1