Nancy Fraser - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/nancy-fraser/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Wed, 17 Jan 2018 12:25:14 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Nancy Fraser - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/nancy-fraser/ 32 32 Duas táticas complementares da esquerda brasileira para 2018 https://www.ocafezinho.com/2018/01/17/duas-taticas-complementares-da-esquerda-brasileira-para-2018/ https://www.ocafezinho.com/2018/01/17/duas-taticas-complementares-da-esquerda-brasileira-para-2018/#comments Wed, 17 Jan 2018 11:55:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82782 18 Comentários 🔥]]> Por Theófilo Rodrigues, Colunista do Cafezinho

A depender do que acontecerá em 24 de janeiro no julgamento do TRF-4, a esquerda brasileira tem desenvolvido ao menos duas táticas complementares para sua estratégia eleitoral em 2018.

De um lado, Lula vem construindo um amplo arco de alianças que vai do PT ao centro do espectro político e que é baseado em um reformismo fraco, se quisermos adotar a expressão de André Singer.

Do outro, Manuela D´Ávila, do PCdoB, representa uma aposta na juventude e nos movimentos sociais, com um reformismo forte que mantém pontos de encontro com o projeto de “democracia radical” de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe.

A construção de Lula é por cima, a partir de nomes já consolidados no cenário político nacional. Na busca pelo centro, Lula mantém diálogo aberto para garantir o apoio de fortes lideranças regionais como Roberto Requião (PMDB) no Paraná, Renan Calheiros (PMDB) em Alagoas, Eunício Oliveira (PMDB) no Ceará, Jader Barbalho (PMDB) no Pará, Marcelo Castro (PMDB) no Piaui, Eduardo Braga (PMDB) no Amazonas, Eduardo Paes (PMDB) no Rio de Janeiro, Josué Alencar (PMDB) em Minas Gerais, Katia Abreu (sem partido) no Tocantins e Armando Monteiro (PTB) em Pernambuco.

Já Manuela mobiliza uma candidatura desde baixo. Sua prioridade tem sido o diálogo com setores da juventude e dos movimentos sociais. De forma espontânea e horizontal, sua candidatura serve de estímulo a tantos jovens desacreditados com a política a voltarem não apenas a se interessar, mas também a participar, até mesmo com candidaturas ao parlamento. Seu carro chefe é um reformismo forte, cujo núcleo central é um rompimento com o capital financeiro das avenidas Paulista e Faria Lima, que permita a volta de um desenvolvimento econômico produtivo e que amplie as capacidades de investimento em políticas sociais no país. Ao lado dessa política de redistribuição, Manuela traz também as políticas de reconhecimento, tal qual propõe Nancy Fraser. Como mulher feminista, Manuela possui forte vínculo com a agenda das minorias sociais. Sua aposta está na mobilização crescente nas redes sociais e na internet. Sua referência e cartão de visitas é o exitoso governo de Flávio Dino no Maranhão.

As duas táticas não são excludentes, mas sim complementares. No primeiro turno há espaço para as duas candidaturas apresentarem seus programas. Por vias distintas, as duas candidaturas podem se opor ao conservadorismo de Bolsonaro e ao neoliberalismo de Alckmin. No segundo turno, o encontro dessas duas táticas da esquerda para evitar a vitória da direita é uma certeza. Essa é a estratégia.

O que gera dúvidas é o que ocorrerá em 2019: uma reedição do que foi o velho governo Lula, entre 2003 e 2010, ou um governo de novo tipo baseado em um reformismo forte? Tudo dependerá da força que a candidatura de Manuela D´Ávila acumulará e da capacidade de seu movimento político influenciar os rumos do novo governo. Isso, claro, se Lula puder ser candidato em 2018.

Theófilo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2018/01/17/duas-taticas-complementares-da-esquerda-brasileira-para-2018/feed/ 18
Identidades e classes precisam ser antagônicas ? https://www.ocafezinho.com/2017/06/22/identidades-e-classes-precisam-ser-antagonicas/ https://www.ocafezinho.com/2017/06/22/identidades-e-classes-precisam-ser-antagonicas/#comments Thu, 22 Jun 2017 14:24:43 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=74628 4 Comentários 🔥]]> Por Theófilo Rodrigues

Volta e meia surgem nas organizações da sociedade civil polêmicas que polarizam em campos absolutamente opostos as temáticas das identidades e das classes sociais. Uma falsa polêmica que parece ter vindo à tona na esfera pública após o maio de 68 e que até hoje não foi bem resolvida. A mais recente delas se deu com a publicação de um texto do jornalista Luiz Carlos Azenha (ver aqui) e com a resposta do professor Dennis de Oliveira (ver aqui).

Digo se tratar de uma falsa polêmica na medida em que tantos bons nomes já parecem ter desmistificado esse antagonismo. A primeira vez em que esse problema foi encarado de frente de forma magistral, pelo que me recordo, foi em 1985 com a publicação de “Hegemonia e estrategia socialista”, clássico de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe que só em 2015 foi traduzido para a língua portuguesa.

Laclau e Mouffe organizam aquilo que consagram como uma política de “democracia radical”. E o que seria essa política de “democracia radical”? Dizem os autores: “Defendemos que as lutas contra o sexismo, o racismo, a discriminação sexual e em defesa do meio ambiente, precisam ser articuladas às dos trabalhadores num novo projeto hegemônico de esquerda (…) É isto que queremos dizer por democracia radical e plural”.

Dez anos depois, em 1995, a cientista política Nancy Fraser reorganizou aquilo que definiu como uma agenda “pós-socialista” em termos de redistribuição e reconhecimento. Para Fraser, o programa da esquerda nesses novos tempos deveria ser capaz de aliar a velha luta de classes empreendida pelos sindicatos e pela velha social democracia com as novas lutas dos movimentos sociais por respeito a identidades como gênero, raça e sexualidade. Em suas palavras, aliar a luta do campo econômico – redistribuição – com a do cultural – reconhecimento.

O que Fraser havia observado é que grande parte das lutas sociais são, na verdade, híbridas e precisam que soluções aplicadas nos campos da economia e da cultura sejam empreendidas concomitantemente.

Em 2005, Fraser deu um passo além ao incorporar em sua teoria da justiça, para além da redistribuição e do reconhecimento, uma terceira dimensão: a da representação, própria do campo político. Por representação compreende-se aqui a criação de mecanismos de participação que permitam aos oprimidos acessarem às instituições obstacularizadas do Estado.

Aliar identidade e classe deveria ser, portanto, a estrategia da esquerda nos novos tempos. Contudo, quem executou esse aggiornamento programático com maestria parece ter sido a direita na década de 90. Primeiro, com os “Novos Democratas” liderados por Bill Clinton, em seguida com o “Novo Trabalhismo” de Tony Blair, mas também com Fernando Henrique Cardoso no Brasil, Ricardo Lagos no Chile e Gerhard Schroder na Alemanha. Era a chamada “terceira via”, referenciada teoricamente no sociólogo britânico Anthony Giddens.

O que essa “terceira via” operou foi um perfeito casamento entre as pautas identitárias – ações afirmativas, cotas, etc – com um programa econômico neoliberal de financeirização econômica e redução do papel do Estado. Foi a isso que Fraser, em recente texto sobre a vitória de Trump chamou de “neoliberalismo progressista” (ver aqui).

Enquanto a esquerda se dilacerava para apontar qual seria a verdadeira luta a ser travada, redistribuição ou reconhecimento, a direita, sem muita cerimônia, realizou. A vitória presidencial de Macron na França é exemplar disso.

Mas nem tudo está perdido. Apesar da vitória de Macron, também houve a derrota da terceira via proposta por Hillary Clinton nos EUA. Ao mesmo tempo, assistimos novas estrategias da esquerda avançarem por todo mundo – Bernie Sanders nos EUA, Jeremy Corbyn na Inglaterra, Podemos na Espanha, Mélenchon na França, Geringonça em Portugal etc – com uma narrativa clara de “democracia radical”.

Aliar a agenda identitária com a anticapitalista não só é possível, como urgente. Mas para isso é necessário mais generosidade e menos arrogância de quem sabe qual é a “verdadeira” luta.


Theófilo Rodrigues é professor de Teoria Política Contemporânea do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

]]>
https://www.ocafezinho.com/2017/06/22/identidades-e-classes-precisam-ser-antagonicas/feed/ 4