OCafezinho - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/ocafezinho/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 07 Jul 2026 19:49:44 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png OCafezinho - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/ocafezinho/ 32 32 A Bola nunca saiu do lugar. Então por que o Brasil perdeu o pênalti? https://www.ocafezinho.com/2026/07/07/a-bola-nunca-saiu-do-lugar-entao-por-que-o-brasil-perdeu-o-penalti/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/07/a-bola-nunca-saiu-do-lugar-entao-por-que-o-brasil-perdeu-o-penalti/#respond Tue, 07 Jul 2026 19:49:44 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261386

Por Rollo — formado na universidade da arquibancada, pós-graduado em debates de bar depois do apito final e vacinado contra a turma que, antes do pênalti, diz “qualquer canto serve” e, depois que a bola não entra, explica exatamente onde ela deveria ter ido.

Existe uma cena que dura poucos segundos, mas consegue estressar um país inteiro. O árbitro aponta para a marca da cal. O estádio silencia. O goleiro dança. O atacante respira. E 220 milhões de brasileiros descobrem que têm diploma em Psicologia, Biomecânica, Física, Filosofia e Engenharia de Materiais. Todo mundo sabe como aquele pênalti deveria ter sido cobrado. Depois que ele foi perdido.

O Brasil acaba de ganhar mais um capítulo nessa coleção: contra a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo, um pênalti desperdiçado entrou imediatamente para o álbum das cobranças que mudaram histórias. Como antes aconteceu com Waldemar de Brito, em 1934. Com Zico, em 1986. Com Sócrates. Com Júlio César. Com Márcio Santos, em 1994 — felizmente salvo por Romário, Branco e Dunga. Com Willian e Hulk, em 2014. Com Rodrygo e Marquinhos, em 2022. O curioso é que quase ninguém discute o principal personagem da cena. Os olhos.

Minha teoria — e assumo que é apenas uma teoria — é simples. A bola não vai fugir. Ela está parada. O goleiro, não. Então por que tanta gente insiste em olhar para o único personagem daquela história que já decidiu exatamente onde vai ficar? O único que ainda pode mentir é o goleiro. O único que ainda pode mudar de ideia é o goleiro. O único que ainda pode enganar é o goleiro. Talvez o verdadeiro duelo do pênalti não aconteça entre o pé e a luva. Aconteça entre dois pares de olhos.

É claro que especialistas em treinamento esportivo explicam que existem diferentes técnicas de cobrança: alguns jogadores escolhem o canto antes da corrida. Outros esperam o movimento do goleiro para decidir. Ambas podem funcionar quando bem executadas. Mas, como simples observador de sofá — essa instituição brasileira tão antiga quanto o radinho de pilha — continuo desconfiando de uma coisa: olhar apenas para a bola é como fazer prova conferindo somente a caneta. O problema nunca esteve na caneta. Está na pergunta. O goleiro é a pergunta. A bola é apenas a resposta.

E talvez seja justamente por isso que grandes goleiros estudem tanto o comportamento dos cobradores. Eles não observam apenas o pé. Observam o tronco. Os ombros. A velocidade da corrida. A posição da cabeça. Os olhos. Porque os olhos entregam intenções antes do corpo. E intenções, em futebol, valem campeonatos. Talvez por isso eu nunca tenha entendido aquela cena clássica do cobrador que fixa o olhar na bola durante toda a corrida. A bola continua ali, educadamente parada. Esperando. Enquanto o goleiro faz exatamente aquilo que precisa fazer: tenta convencer o atacante de que está em todos os cantos ao mesmo tempo. É quase um truque de mágica, de ilusionismo (sem precisar do Mister M). Ou um truque de política. E a plateia olha para onde mandam olhar. Enquanto o segredo acontece em outro lugar.

No fundo, o pênalti talvez seja a metáfora perfeita do Brasil. A gente passa boa parte da vida olhando para o problema errado, brigando com o efeito, ignorando a causa. Discutindo com a bola, esquecendo o goleiro. No futebol, isso custa uma Copa. Na vida, costuma custar um país inteiro. Talvez eu esteja completamente errado. Talvez treinadores, psicólogos do esporte, fisiologistas, estatísticos e campeões mundiais leiam este texto e sorriam da ingenuidade deste cronista. É. Talvez. Tudo bem. Mas deixo uma última pergunta. Se a bola jamais saiu do lugar… Por que continuamos olhando para ela?

 

(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi. E atualmente participa da produção do Espaço de Cinema Cavídeo em Vicente de Carvalho, Rio.

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