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Por Rollo — que aprendeu, ainda criança, a cantar o hino do Grêmio com o saudoso pai, o gremista “Seo” Anastácio, e só muitos anos depois descobriu que o “Até a pé nós iremos”  era menos uma metáfora futebolística do que um retrato recorrente do Brasil.

Como uma greve inspirou o hino do Grêmio, atravessou 73 anos da História eresolveu reaparecer no Rio de Janeiro durante Copa do Mundo  2026

Pouca gente sabe, mas uma das frases mais famosas do futebol brasileiro nasceu de uma greve no transporte público. Não foi num estádio. Não foi numa final. Muito menos numa reunião de marketing. Nasceu na rua. Antes de virar canto de arquibancada, identidade tricolor e arrepio coletivo, o “Até a pé nós iremos” já era vida real. Daquelas sem ônibus, sem bonde, sem aplicativo, sem ar-condicionado e sem GPS dizendo: “Seu destino está à esquerda.” Era só o cidadão, o relógio e a sola do sapato.

O autor da frase foi Lupicínio Rodrigues (1914–1974). Negro. Gaúcho. Boêmio. Um dos maiores compositores da música brasileira de todos os tempos. Especialista em transformar sofrimento em melodia muito antes de inventarem playlist para término de relacionamento. É dele “Se Acaso Você Chegasse”, que Elza Soares transformou em explosão de talento. É dele “Nervos de Aço”, que Nelson Gonçalves fez chorar e Paulinho da Viola fez eternizar outra vez. É dele “Esses Moços (Pobres Moços)”, nas vozes de Nelson, Bethânia, Gil, Caetano. É dele “Vingança”, prova de que rancor também pode virar obra-prima. É dele “Felicidade”. Em outras palavras: boa parte da trilha sonora dos amores mal resolvidos do Brasil saiu da mesma caneta que escreveu o hino do Grêmio.

É dele boa parte da trilha sonora das desilusões amorosas do século XX. Se o sofrimento pagasse direitos autorais, Lupicínio teria comprado metade de Porto Alegre. Mas o curioso é que uma de suas obras mais conhecidas não fala de amor. Fala de futebol. Fundado em 15 de setembro de 1903, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense nasceu quando um grupo de rapazes decidiu fundar um clube inspirado no futebol que começava a desembarcar no Brasil.

Mais de um século depois, tornou-se campeão brasileiro, da América, do mundo e dono de uma das torcidas mais apaixonadas do país. Em 1953, ano do cinquentenário do clube, Lupicínio escreveu aquele que se tornaria um dos maiores hinos do futebol brasileiro. A tradição gremista conta que uma greve dos bondes em Porto Alegre obrigou muitos torcedores a caminharem até o estádio. Da necessidade nasceu uma imagem poderosa. “Até a pé nós iremos.” Uma frase tão simples que virou patrimônio afetivo do futebol brasileiro. Bonita, não? Bonita no hino. Na vida real, costuma dar bolha no pé.

Agora avancemos 73 anos. Rio de Janeiro. Copa do Mundo. Brasil prestes a enfrentar a Noruega. Píer Mauá, bares, praças, casas de transmissão, telões espalhados pela cidade, rodas de samba, churrascos improvisados e milhares de torcedores tentando descobrir qual será o adversário mais difícil. A defesa norueguesa? Não. O sistema tático brasileiro? Também não. O ônibus! Enquanto o país discute escalação, o carioca faz contas para descobrir quantos quilômetros consegue andar sem pedir música no Fantástico.

A greve dos rodoviários colocou a mobilidade da cidade em modo prorrogação. Parte da frota deixou de circular, negociações seguem na Justiça do Trabalho, trabalhadores reivindicam reajuste salarial, vale-alimentação e melhores condições de trabalho, enquanto passageiros disputam cada coletivo como se fosse ingresso para a final da Copa. Resultado? O Rio resolveu homenagear Lupicínio Rodrigues sem combinar com ele. Até a pé nós iremos. Não porque somos gremistas. Porque o ônibus simplesmente não veio.

Existe uma ironia deliciosa — e cruel — nisso tudo. No estádio, andar quilômetros até o jogo vira demonstração de amor ao clube. Na segunda-feira, andar quilômetros até o trabalho vira demonstração de colesterol baixo.

No futebol, chamam de paixão. No transporte público, chamam de “plano B”. E o mais curioso é que quase todo mundo escolhe um lado errado dessa discussão. Tem quem trate o passageiro como estatística. Tem quem trate o rodoviário como vilão. Nenhum dos dois dirige essa história. O motorista não é volante com CPF. E o passageiro não é figurante da mobilidade urbana. Os dois são personagens da mesma peça. Os antagonistas quase sempre entram por outra porta.           Porque transporte público é uma das raras engrenagens da sociedade em que todos percebem sua importância exatamente no instante em que ela para. Sem ônibus não existe trabalhador. Sem trabalhador não existe comércio. Sem comércio não existe economia. Sem economia não existe arrecadação. E, curiosamente, sem ônibus também não existe torcida. Afinal, alguém precisa chegar ao estádio. Ou ao telão. Ou ao bar. Ou simplesmente em casa. A Copa apenas deixou isso mais visível.

Enquanto milhões comemoram um gol, outros milhões fazem o percurso entre o ponto de ônibus e o destino repetindo, sem perceber, o verso escrito por Lupicínio há mais de sete décadas.

A diferença é brutal. No hino do Grêmio, caminhar é um gesto de fidelidade. Na vida real, caminhar virou política pública improvisada. Talvez essa seja a maior especialidade brasileira. Transformar necessidade em romantismo. Transformar precariedade em prova de amor. Transformar improviso em tradição. No país do “jeitinho”, andar quilômetros deixa de ser falha do sistema e vira história bonita para contar depois. Como se resistência fosse infraestrutura. Como se sola de sapato substituísse planejamento urbano. Como se o cidadão fosse sempre obrigado a resolver, com as próprias pernas, aquilo que deveria ser resolvido com políticas públicas.

No fundo, Lupicínio escreveu um hino para um clube. O Brasil tratou de transformá-lo em manual de mobilidade urbana. E isso diz muito menos sobre o Grêmio do que sobre nós. Porque um país realmente desenvolvido não é aquele em que seu povo canta, emocionado, que vai a pé. É aquele em que ninguém precisa fazer disso uma rotina.

 

      Nota do autor: este artigo foi concluído antes da partida entre Brasil e Noruega, marcada para domingo, 5 de julho, pelas oitavas de final da Copa do Mundo. Na data de sua publicação, a greve dos rodoviários do Rio de Janeiro já havia sido temporariamente suspensa, após três dias de paralisação, por decisão da categoria em atendimento a um pedido do Tribunal Regional do Trabalho. Os ônibus voltaram a circular, mas os trabalhadores permanecem em estado de greve, e uma nova rodada de negociações entre o sindicato e as empresas está marcada para 6 de julho.

      Independentemente do placar no gramado ou do desfecho das negociações, há uma torcida que continua jogando uma partida diária, sem VAR, sem prorrogação e quase sempre sem troféu: a dos milhões de brasileiros que, antes mesmo de pensar em vencer o adversário do domingo, precisam derrotar o mais imprevisível dos campeonatos urbanos — o de simplesmente conseguir chegar ao destino. Afinal, diferente do futebol, na mobilidade urbana não basta ter raça. Também é preciso que o ônibus apareça.

 

(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi. E atualmente participa da produção do Espaço de Cinema Cavídeo em Vicente de Carvalho, Rio.

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