Partido dos Trabalhadores - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/partido-dos-trabalhadores/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Sat, 27 Jun 2026 01:00:18 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.1 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Partido dos Trabalhadores - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/partido-dos-trabalhadores/ 32 32 Gustavo Gayer é condenado por associar o Partido dos Trabalhadores à facada contra Bolsonaro https://www.ocafezinho.com/2026/06/26/gustavo-gayer-e-condenado-por-associar-o-partido-dos-trabalhadores-a-facada-contra-bolsonaro/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/26/gustavo-gayer-e-condenado-por-associar-o-partido-dos-trabalhadores-a-facada-contra-bolsonaro/#comments Fri, 26 Jun 2026 22:19:40 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=260830 12 Comentários 🔥]]> O juiz de direito da Quinta Vara Cível de Brasília condenou o deputado federal Gustavo Gayer a pagar uma indenização por danos morais no valor de vinte mil reais ao Partido dos Trabalhadores. A decisão judicial decorre de publicações nas redes sociais onde o parlamentar acusava o partido de ter planejado o atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro em dois mil e dezoito.

Na sentença proferida pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, o magistrado Wagner Pessoa destacou que a imunidade parlamentar e a liberdade de expressão não autorizam a propagação de mentiras dissociadas de qualquer elemento real. Os advogados do deputado alegaram que ele apenas expressava opiniões políticas de interesse público, mas a corte rejeitou a argumentação diante da total falta de comprovação das graves alegações.

Essa condenação civil joga luz sobre a trajetória do parlamentar do Partido Liberal, que conquistou projeção nacional por meio de discursos inflamados e forte atuação em plataformas digitais. Ele ingressou na vida pública disputando a prefeitura de Goiânia em dois mil e vinte pelo Democracia Cristã, pleito em que terminou na quarta colocação com pouco mais de sete por cento dos votos válidos.

A consolidação de sua carreira eleitoral ocorreu na onda bolsonarista de dois mil e vinte e dois, quando foi eleito deputado federal como o segundo mais votado do estado de Goiás, somando duzentos mil quinhentos e oitenta e seis votos. Essa condenação soma-se a outros episódios em que parlamentares da extrema-direita foram acusados de propagar desinformação, como ocorreu nas denúncias de que Nicolas Ferreira mentiu sobre o Pix.

No ano de dois mil, quando tinha dezenove anos de idade, o parlamentar dirigia sob o efeito de bebidas alcoólicas em Rialma e causou um gravíssimo acidente automobilístico ao colidir com um ônibus. A tragédia resultou na morte de três pessoas e deixou uma quarta vítima com sequelas físicas permanentes decorrentes de lesões na coluna.

A denúncia apresentada pelo Ministério Público contra ele por homicídio culposo não resultou em punição efetiva, pois o processo arrastou-se por mais de uma década e acabou extinto pela prescrição da pretensão punitiva do Estado. A seguir, disponibilizamos a reprodução dos fatos apurados e os detalhes jurídicos que fundamentaram essa decisão condenatória na capital federal.


Gustavo Gayer é condenado por associar o PT à facada em Bolsonaro

Por Samara Schwingel, no Metrópoles

O juiz Wagner Pessoa, da 5ª Vara Cível de Brasília, condenou o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) a indenizar em R$ 20 mil o Partido dos Trabalhadores (PT). Na decisão, assinada na terça-feira (23/6), o magistrado considerou que o parlamentar praticou ato ilícito ao associar o autor da facada em Jair Bolsonaro (PL) ao partido de esquerda.

O PT processou Gayer após uma publicação feita nas redes sociais. Segundo o processo, na publicação, Gayer dizia que ‘o PT mandou Adelio Bispo matar o até então candidato à Presidência Bolsonaro. Quem fala isso é o próprio assassino. Isso é uma bomba tão gigantesca. A imprensa vai fazer de tudo para abafar isso que eu acabei de falar, então peço para que você compartilhe o máximo possível’.

Ao analisar a defesa de Gayer, o magistrado considerou que o parlamentar não comprovou a veracidade dos fatos imputados ao PT. O juiz acrescentou que a manifestação do deputado não está abrigada pela imunidade parlamentar ou pelo direito de livre expressão.

‘Portanto, a manifestação do réu não externou nenhum conteúdo informativo ou crítica política. Apenas difunde fato que está dissociado da realidade, de modo a atingir a honra e a imagem do partido autor’, registrou o juiz. A decisão cabe recurso.

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Após 22 anos como senador, Paim anuncia último mandato https://www.ocafezinho.com/2025/12/02/apos-22-anos-como-senador-paim-anuncia-ultimo-mandato/ https://www.ocafezinho.com/2025/12/02/apos-22-anos-como-senador-paim-anuncia-ultimo-mandato/#respond Tue, 02 Dec 2025 10:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=222307 Em pronunciamento no Plenário nesta segunda-feira (1), o senador Paulo Paim (PT/RS) anunciou seu último mandato parlamentar. Eleito senador pela primeira vez em 2002, Paim também foi deputado federal entre 1987 e 2003. Sua atuação foi centrada em defesa do trabalhador e da Previdência, pela melhoria do salário mínimo, contra discriminações e por maior proteção a crianças, jovens e idosos.

O senador, que foi metalúrgico em Caxias do Sul (RS), tem 75 anos de idade. Ele agradeceu às lideranças políticas que trabalharam ao seu lado no decorrer dos anos, como figuras do PT, do PSol do PCdoB), e relembrou a atuação junto a movimentos sindicais.

“Fica aqui um carinho especial ao movimento sindical, a todas as centrais nacionais e estaduais, que inclusive viajaram comigo pelo estado [do Rio Grande do Sul], fazendo o bom debate das pautas dos trabalhadores, como a da Previdência, a da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho], a da “pejotização”, que são preocupações nossas, da própria escala 6×1. Agradeço a todos que têm essa visão de que o direito dos trabalhadores e das trabalhadoras tem que ser respeitado. Discutimos, nas viagens que fizemos, o trabalho escravo, a questão dos MEIs [microempreendedores individuais], a questão da urbanização da economia”, afirmou.

Em retribuição aos militantes que o apoiaram, o senador afirmou emocionado.

“Os militantes sabem que correm o risco dos naufrágios, correm o risco de serem levados pelas ondas, mas, no fim das contas, isso não importa, pois há uma missão a ser cumprida: eles querem alcançar as areias da praia. Aqueles que militam, dedicam-se, de corpo e alma, aos serviços de uma luta boa e justa. Não importam os descaminhos, eles, os militantes, sempre darão um jeito de escalar as montanhas e concretizar os sonhos da plena liberdade humana, da justiça social e do trabalho digno. E tudo isso é ser um verdadeiro militante. Com eles, muito eu aprendi, com muito orgulho eu digo: como é bom, como é bom amar todos vocês”, declarou.

Publicado originalmente pela Agência Senado em 01/12/2025

Por Bruno Augusto, sob supervisão de Patrícia Oliveira

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Com mudança no projeto contra o crime organizado, PT pode votar a favor https://www.ocafezinho.com/2025/11/12/com-mudanca-no-projeto-contra-o-crime-organizado-pt-pode-votar-a-favor/ https://www.ocafezinho.com/2025/11/12/com-mudanca-no-projeto-contra-o-crime-organizado-pt-pode-votar-a-favor/#respond Wed, 12 Nov 2025 13:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=221152 Oposição não desiste de equiparar o crime organizado ao terrorismo

Governo e oposição divergem sobre as mudanças propostas pelo relator do projeto que cria o marco legal do combate ao crime organizado no país (PL 5582/25). O deputado Guilherme Derrite (PL-SP) apresentou uma nova proposta que retira da Lei Antiterrorismo os tipos penais que poderiam classificar integrantes das facções criminosas como terroristas. Ele também manteve as competências da Polícia Federal no combate ao crime organizado.

Vitória da racionalidade

O líder do PT, deputado Lindbergh Farias (RJ), afirmou que houve um recuo do relator e uma vitória da racionalidade. Segundo ele, o texto terá apoio do PT e do governo se essas alterações forem mantidas no Plenário.

“O recuo é uma vitória importante, e quero aqui dizer que estava certo o ministro Lewandowski, que defendia um novo tipo penal. Eles voltaram ao conteúdo original do texto proposto pelo Executivo”, disse Farias.

Crítica da oposição

O líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que o governo não tem autoridade para tratar de segurança pública e ressaltou que o partido quer equiparar o crime organizado ao crime de terrorismo.

“Se o governo quer cantar vitória nessa pauta, nós não abriremos mão de colocar os criminosos como terroristas”, afirmou. “Crime de terrorismo exige cooperação internacional, que é o que está faltando ao Brasil para enfrentar o crime organizado”, reforçou o líder.

Publicado originalmente pela Agência Câmara de Notícias em 11/11/2025

Reportagem: Luiz Gustavo Xavier

Edição: Wilson Silveira

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Lula chega aos 80 anos ‘com energia de 30’ e de olho em 4º mandato presidencial https://www.ocafezinho.com/2025/10/27/lula-chega-aos-80-anos-com-energia-de-30e-de-olho-em-4o-mandato-presidencial/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/27/lula-chega-aos-80-anos-com-energia-de-30e-de-olho-em-4o-mandato-presidencial/#respond Mon, 27 Oct 2025 15:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219896 27 de outubro é aniversário do único brasileiro eleito três vezes pelo voto popular ao cargo mais alto da República e celebrado como símbolo da classe trabalhadora

O ano era 1945. O mundo celebrava o fim da Segunda Guerra Mundial e finalmente libertava dos campos de concentração milhares de pessoas aprisionadas pelo horror do nazismo. Nascia, portanto, em Nova York, a Organização das Nações Unidas (ONU), com a promessa de tempos de paz.

No Brasil, chegava ao fim o primeiro período de governo do ex-presidente Getúlio Vargas, conhecido como o “Estado Novo”, e em plena “Era do Rádio”, bombavam os sucessos de Dorival Caymmi, Nelson Gonçalves, Araci de Almeida e Carmen Miranda. Nas telonas, o público lotava as salas de cinema para assistir ao suspense psicológico de Alfred Hitchcock Quando Fala o Coração.

Foi nesse contexto que nasceu, no dia 27 de outubro daquele ano, na cidade de Garanhuns (PE), Luiz Inácio Lula da Silva, sétimo de oito filhos do casal de lavradores Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo — essa, conhecida como Dona Lindu.

À esquerda, Eurídice Ferreira de Melo, a Dona Lindu; à direita, Lula, aos 3 anos. | Acervo Instituto Lula

Migrou ainda criança para São Paulo, onde cresceu, casou-se, profissionalizou-se torneiro mecânico e iniciou sua vida política na liderança das greves no ABC Paulista e na luta pela redemocratização do Brasil.

Pai de cinco filhos, viúvo por duas vezes e casado pela terceira com a atual primeira-dama, Rosângela Silva, a Janja, Lula completa 80 anos “com energia de 30 e tesão de 20”, como costuma dizer. Está à frente de seu terceiro mandato como presidente do Brasil e já antecipou que estará na disputa pela quarta vitória em 2026.

O Brasil de Fato conversou com amigos, companheiros de militância e de mais de cinco décadas de convivência ao lado do “filho do povo brasileiro”.

O começo de tudo

As grandes greves que marcaram o final dos anos 70 no Brasil são consideradas por muitos historiadores como o início de um processo de abertura gradual do regime militar, forçado pela pressão das ruas e da opinião pública internacional.

Foi nessa época que José Genoino conheceu aquele que ser tornaria um de seus amigos mais ilustres. “Eu conheci o presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, quando ele ainda não tinha fundado o PT e era presidente do sindicato. Eu fui com um companheiro de esquerda, meu amigo médico Aytan Sipahi. Aí nós fomos lá. Eu tinha acabado de sair da prisão em 77, era por volta de 78, eu dava aula em cursinho e participava daquela articulação política dos comitês de solidariedade à greve e também das reuniões para fundar um novo partido”, lembra o companheiro de militância.

Lula, em discurso para milhares de trabalhadores, no ABC paulista. | Josias Gomes/Acervo PT

“A primeira reunião que eu tive com o Lula, eu perguntei para ele: esse partido que você está querendo criar é estratégico ou tático?”, seguiu Genoino. “Aí ele disse para mim: ‘oh, não quero saber se é de vanguarda ou de estratégica ou tática, eu quero fazer um partido dos trabalhadores’”, relatou.

Foi nesse mesmo contexto que a hoje deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) se aproximou de Lula. “Eu fui convidada a participar de uma reunião onde um sindicalista estava discutindo a possibilidade de criar um partido em São Paulo. Aí eu falei: ‘Ah, mas o que eu vou fazer em São Paulo?’ Não, é porque para criar o partido tem que ter líderes de comunidade, tem que ter todo mundo, tem que ter estudante, ter religiosos, até apelidaram depois o Partido dos Trabalhadores, que era o partido da igreja”, conta a ex-governadora fluminense.

“Eu confesso que no primeiro dia assim que eu estava lá, eu fiquei assim… eu o admirava muito, mas fiquei olhando, olhando, e ele foi falando e eu fui me envolvendo, porque ele disse tudo que eu pensava, ele disse tudo que eu gostaria que fosse feito, para o pobre, para a classe média”, lembra a deputada.

“E eu me animei. Então, animada, eu fiz campanha para as pessoas se filiarem no PT e falava: ‘Olha, é um trabalhador, é um partido de um trabalhador”, rememora.

Lula durante assembleia de fundação do Partido dos Trabalhadores. | Acervo PT

Tanto Genoino como Benedita já viam no então sindicalista, entusiasta e fundador do Partido dos Trabalhadores, uma liderança nacional.

“O papel da liderança dele estava claro para nós desde o início. Primeiro porque a gente se surpreendeu, saindo da clandestinidade, passando pela prisão, resistência armada, encontrar uma liderança de massa do tamanho do Lula”, conta o ex-deputado federal José Genoino.

“Eu vi aquela multidão de trabalhadores, trabalhadoras”, lembra Benedita. “Depois a gente estava discutindo a questão de direito de greve e tudo mais, e ele fazia aquelas reuniões enormes. Eu via naquele homem um talento, sabe? Eu sempre vi.”

Outro amigo de tempos que remontam o processo de criação do PT é o senador Jaques Wagner (PT-BA), apelidado por Lula de “Galego”.

“A minha relação com ele, para mim, é de amizade, de carinho, de respeito e de admiração. Sem idolatria, que você sabe que idolatria não ajuda a gente a ajudar quem a gente gosta, mas muito carinho, muito respeito meu e de Fátima”, conta o senador e ex-governador da Bahia.

“Eu fico me lembrando aqui, no Campo Grande [bairro de Salvador], o Congresso dos petroquímicos e petroleiros em 1978, na boca das diretas, já começando o movimento um pouquinho antes da lei da anistia, todos os partidos na clandestinidade, mas todo mundo se preparando para realinhar a vida política partidária”, recorda.

“Essa data foi muito marcante, porque naquele dia que nascia Sandro, o segundo filho dele, com a querida e saudosa Marisa. E ele tomou uma bronca. Eu me lembro que a Marisa ligou, não tinha celular, deve ter ligado para o hotel, e falou: ‘Tá vendo aí? Você vive nessas viagens, seu filho nasceu e você não está nem aqui’”, conta Wagner.

Naquele encontro, recorda o senador, foi uma das primeiras vezes que o então sindicalista Lula falou sobre a criação de um partido.

“Ele disse: ‘Galego, nós não podemos ficar só na luta sindical, só enxugando o gelo. Nós precisamos fazer um partido político para participar, para influenciar a política brasileira, a política nacional, que aí sim a gente vai conseguir resgatar o direito dos trabalhadores e trabalhadoras e diminuir esse fosso social que sempre foi, infelizmente, uma marca de uma elite muito cruel, que pensa muito em si, mas não pensa no Brasil e nos brasileiros’.”

A luta pela democratização e a Constituinte de 1988

Genoino lembra que a relação com o presidente passou por contradições, divergências e muitos pontos de unidade, com um momento de virada na relação entre os dois: a Constituinte de 1988.

“Eu fui para a Constituinte, foi quando eu dei um salto de qualidade na relação com o Lula, porque eu cheguei na Constituinte, eu conhecia o parlamento, eu já tinha tido um mandato, eu comecei a estudar muito o parlamento, como atuar. Eu me baseei naquela ideia: ‘se eu aprendi com a Amazônia, eu vou aprender com o parlamento e eu quero dominar o cenário, o território e as regras que funcionam isso aqui’. E virei um militante da Constituinte.”

Única parlamentar negra a participar da Assembleia Nacional Constituinte que redigiu a Constituição cidadã, Benedita lembra das trocas que tinha com Lula, que também era deputado constituinte. “Ele falava assim: ‘o que eu faço, Bené, aqui nessa comissão?’ Eu falava: Lula, você precisa dar força aqui nessa comissão que a gente está tocando tal tema”, lembra a deputada, ressaltando o lado companheiro e amigo do presidente.

“É importante falar isso porque parecem coisas menores. Mas não é a política que o Lula te oferece primeiro. Primeiro, ele oferece amizade, sabe? Consideração, amigo, de entender, de estar ali. Eu sou apaixonada, muito apaixonada, muito”, se declara.

Lula na Assembleia Nacional Constituinte, ao lado de Benedita da Silva e outros parlamentares como Plínio de Arruda Sampaio e Florestan Fernandes. | Acervo PT

Lula 1 e Lula 2

Foram três eleições consecutivas perdidas, em 1989, 1994, 1998, até que em 2002, o Brasil elegeu para governá-lo o primeiro presidente com carteira assinada, o primeiro trabalhador a conquistar o mais alto cargo da República.

Adesivo da campanha vitoriosa do PT em 2002. | Acervo PT

As imagens do dia 1º de janeiro de 2003 documentam uma multidão de peregrinos, dos mais longínquos rincões do país, que percorreram centenas de quilômetros até chegar a Brasília para ver a posse de Lula. A mesma multidão que se refrescou no espelho d’água do Palácio do Planalto, celebrando aquele feito histórico.

Lula e sua falecida esposa Dona Marisa chegam para a posse do presidente, em 2003. | Acervo PT

Genoino lembra que na mesma eleição que elegeu Lula pela primeira vez, ele foi candidato ao governo de São Paulo, a pedido do presidente. Depois de não ter sido eleito, e com uma forte experiência no parlamento, ele acabou assumindo a presidência do PT e atuando como uma espécie de “ministro sem pasta” do novo governo.

“Primeiro eu participei da transição, da discussão sobre os ministérios, das escolhas… E no início de 2003 eu participava de tudo, porque eu estava na seguinte condição: ‘ou eu era um ministro sem pasta, ou um deputado sem mandato’”, brinca o ex-deputado, que se considera um “amigo sincero”.

“Eu me sentia muito à vontade com ele para dizer o que eu penso de maneira muito sincera. Aliás, a gente tinha um pacto: na conversa comigo, a gente fala tudo, mas nada é publicizado”, conta Genoino.

O senador Jaques Wagner compôs a primeira formação ministerial do governo Lula 1, primeiro como ministro do Trabalho e Emprego e depois como ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais (SRI). Para ele, é até difícil rememorar todas as conquistas realizadas naqueles primeiros mandatos presidenciais.

“Vou acabar esquecendo de alguma coisa, porque o volume de programas que ele fez focado no social, o Fome Zero, o Primeiro Emprego, o reajuste do salário mínimo, o apoio à agricultura familiar, o Bolsa Família, o Prouni, as escolas profissionalizantes. Aqui na Bahia, por exemplo, a gente tinha uma universidade, depois dele e da gente tem seis ou sete universidades federais. Tinha uma escola técnica, hoje tem mais de 20 ou mais de 30. Então eu acho que é muito grandioso tudo que ele fez”, avalia o senador.

Ao Brasil de Fato, o ex-ministro de Lula relembrou o episódio de uma entrevista do presidente, em que ele usou o termo “marolinha” para descartar que a crise econômica desatada em 2008 tivesse grande impacto sobre a economia brasileira.

“Um tempo depois, eu perguntei a ele: presidente, qual eram os dados que você tinha para dizer que aqui ia ser uma marolinha, e não tsunami? Por que o mundo todo estava impactado com aquilo? Ele falou: ‘Galego, eu não tinha nenhum elemento que me garantisse o que eu falei. A única coisa que eu tinha era consciência que se o líder do país, o líder de uma população de 200 milhões de habitantes não fosse dizer à população para se estimular e não se acovardar, se esconder e não gastar, aí nós vamos ter uma crise imensa”, relata Wagner.

“E acabou que o que ele falou prevaleceu aqui no Brasil. Não foi um tsunami, foi uma marolinha”, completa.

Lula (centro) ao lado de José Genoino (direita) e José Dirceu (esquerda). | Marcelo Casal Jr./Agência Brasil

Para João Paulo Rodrigues, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a chegada de Lula ao governo, em 2003, “arrumou a casa”, e recolocou o papel do Estado na condução da política pública. Mas a grande marca foi a abertura de mecanismos de participação social nas decisões do governo federal.

“O presidente dá um tom de governo de centro, mas com uma participação popular muito grande. As idas dos ministros, a relação com o movimento popular, você tem o presidente que recebe no palácio todos os públicos possíveis imaginários da classe trabalhadoras, pessoas em situação de rua, catador, indígena, sem terra, comunidades LGBT”, avalia o dirigente sem terra, que também possui vínculos de amizade estreitos com o presidente Lula.

Por outro lado, Rodrigues destaca que também foram governos com limitação e problemas. “É um governo que fez uma aliança muito grande, um fortalecimento do centrão, famoso, o centrão surge com mais força. Aí é um governo que modernizou o agronegócio, volume de recursos absurdo”, considera. “E é um governo que escolheu mal e organizou mal o Judiciário”, completa Rodrigues.

Na jornada do herói, o maior desafio

Após ter deixado o governo com cerca de 80% de aprovação popular e conseguido eleger sua sucessora, a presidenta Dilma Rousseff, em 2010, Lula passou a dar palestras e percorrer o país e o mundo falando da experiência de reduzir drasticamente a fome no Brasil a partir de suas políticas sociais.

Em 2014, uma articulação ilegal entre o Ministério Público Federal do Paraná, em conluio com o ex-juiz Sérgio Moro e veículos de imprensa comerciais de projeção nacional, deu origem à chamada Operação Lava Jato, que investigava contratos entre empresas privadas e a Petrobras.

O conluio foi revelado em 2019, por um conjunto de reportagens do The Intercept Brasil que descortinaram os bastidores da operação e ensejaram a anulação de diversos processos da operação pelo Supremo Tribunal Federal.

Fato é que, por meio de interceptações telefônicas ilegais e vazamentos de conteúdos sigilosos à imprensa, a Operação Lava Jato obteve um amplo respaldo popular, que ajudava a legitimar uma verdadeira caçada com um objetivo final claro: prender Lula, o único representante de uma esquerda absolutamente desgastada, que ainda conservava um apoio capaz de ameaçar os planos da direita conservadora no Brasil, que já se articulava para um golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, consolidado em 2016.

Em março de 2018, após prestar uma série de depoimentos ao juiz de Curitiba, o presidente Lula decide realizar uma de suas caravanas pelo Sul do país, terminando justamente na capital paranaense, berço de seu maior inimigo. Na jornada do herói, teorizada pelo escritor estadunidense Joseph Campbell, é lá, no lugar de maior perigo, onde o herói enfrentará sua maior provação.

E foi. De Bagé (RS) a Curitiba, a caravana do presidente passou por situações inimagináveis. Perseguição, bloqueio de estradas, violência e mensagens de ódio. “A Caravana Lula pelo Brasil na região Sul tem sofrido uma série de agressões desde seu início. Seus integrantes foram atingidos por ovos e pedras, como o ex-deputado federal Paulo Frateschi (PT), que teve sua orelha dilacerada por uma pedra atirada por um opositor, na cidade de Chapecó (SC). Já em Foz do Iguaçu (PR), o padre Idalino Alflen, de 64 anos, levou uma pedrada na cabeça e foi atropelado por uma motocicleta, minutos antes do pronunciamento de Lula”, noticiou o Brasil de Fato à época.

À esquerda, o então deputado Jair Bolsonaro, em um ato em Ponta Grossa (PR) que pedia a prisão de Lula. À direita, marcas de tiros em um ônibus da Caravana Lula pelo Sul. | Reprodução

Muitos manifestantes vestiam camisas com a foto do então deputado federal Jair Bolsonaro. Em diversas cidades, a caravana passava por outdoors imensos, ora com a foto do capitão, ora com mensagens que defendiam a prisão do petista. No último trecho da viagem, no dia 27 de março, entre as cidades de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, ambas no Paraná, a caravana do então ex-presidente sofreu um ataque a tiros, sem feridos.

“Não troco minha dignidade pela minha liberdade”

Dez dias após o episódio da emboscada à caravana, o então juiz Sérgio Moro decretou a prisão de Lula, que passaria 580 dias preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, passando por provações que jamais poderia imaginar: a morte de um neto, de um irmão, a proibição de dar entrevistas e a inabilitação de sua candidatura para as eleições de 2018.

“Só quem tem o direito de decretar meu fim é o povo brasileiro”, declarou o presidente ao se despedir da multidão que o cercava no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, pouco antes de se entregar voluntariamente à Polícia Federal. “Esse processo começou com uma mentira do jornal O Globo”, disse Lula. “Eu sempre tive a consciência de que, se o Lula pudesse ser candidato [em 2018], o golpe não fechava”, completou.

Lula é cercado por apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, antes de se entregar voluntariamente à PF. | Francisco Poner

A ele ofereceriam a possibilidade de usar uma tornozeleira eletrônica e cumprir pena em prisão domiciliar, pelo que respondeu: “Não troco minha dignidade pela minha liberdade”. E da prisão, viu o início do governo de Jair Bolsonaro, e o juiz Sérgio Moro, seu ministro da Justiça. Mas não abandonava a certeza de que a verdade viria à tona.

Lula foi solto no dia 8 de novembro de 2019, após o Supremo Tribunal Federal ter considerado a prisão após condenação em segunda instância inconstitucional. Em 2021, o STF anulou as condenações, por considerar o ex-juiz Sérgio Moro parcial para julgá-lo, devolvendo ao petista seus direitos políticos.

Em 2022, o personagem heroico teria sua recompensa confirmada: com mais de 60 milhões de votos, foi eleito para um terceiro mandato, derrotando o presidente de então, que se tornou o único desde a criação do instituto da reeleição a não conseguir se reeleger. No caminho de volta, ele enfrentaria novos desafios.

Lula 3… e Lula 4?

O atual governo Lula 3 teve início a partir da ideia de “reconstrução” do país, após sucessivos desmontes promovidos pelo governo de extrema direita liderado por Jair Bolsonaro. Os resultados têm aparecido. Na última semana, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que o presidente terminará seu terceiro mandato com o melhor resultado fiscal desde 2015. Para 2026, a meta é de superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a R$ 34,3 bilhões.

Por outro lado, o desemprego tem uma das menores taxas da série histórica, perto dos 5%, e o nível de crescimento da economia tem se mantido acima dos 3% nos últimos três anos.

Além disso, em agosto, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou seu relatório anual, atestando que o país saiu novamente do Mapa da Fome. A última vez que isso ocorreu foi em 2014, e o atual governo recebeu o país com cerca de 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave.

Lula toma posse para o seu terceiro mandato, em 2022. | Ricardo Stuckert/PR

Genoino defende que, após realizada a tarefa de recuperar a democracia e reconstruir as políticas sociais que garantem condições mínimas de vida para a população, um quarto mandato de Lula deve retomar as bases do partido e realizar transformações estruturais que ainda estão por fazer.

“Nós governamos, colocando o povo no orçamento, fazendo inclusão, reformas sociais. Nós governamos melhorando a renda do país, o emprego, as políticas de inclusão, mas o Brasil carece de mudanças estruturais na democracia”, avalia o petista, citando as tarefas inconclusas e urgentes para o país, entre elas, a reforma agrária, a democratização dos meios de comunicação, a reforma dos poderes públicos, incluindo Judiciário e Legislativo, além do fim da “tutela militar”.

“Eu acho que a candidatura do Lula tem que estar amarrada nessas grandes bandeiras estratégicas sobre o futuro do país”, opina Genoino.

Para Benedita, além da admiração e carinho que o presidente conserva em amplos setores da sociedade, sua reeleição deverá ser viabilizada, sobretudo, pelos resultados concretos da atual gestão na vida da população.

“O povo quer o Lula reeleito. A pessoa lá na ponta que está sendo beneficiada, ela sabe fazer a diferença entre governos e governos. O Brasil ficou mais perto de todo mundo, e uma reeleição, eu acho que ele completa esse ciclo”, avalia a deputada.

Jaques Wagner recorda o conselho dado por sua maior inspiração, sua mãe, sobre persistência. “O presidente Lula tem sempre uma inspiração que para ele é fundamental, de dona Lindu, o carinho e a lembrança de dona Lindu dizendo para ele, teime, continue teimando, não desiste. O que anima ele é saber que ele fez uma contribuição para diminuir essa injustiça, para pregar a paz, para não alimentar o conflito e a guerra”, avalia o senador.

“Não vejo ninguém mais preparado, com mais energia, com mais visão do que é preciso fazer do que ele e com capacidade de liderar a sua equipe e a sociedade”, opina o baiano.

Para João Paulo Rodrigues, do MST, o atual governo conseguiu recompor as perdas dos seis anos em que foi governado pela direita e pela extrema direita, no entanto, é preciso avançar, sobretudo, na construção de um novo modelo econômico que dê conta dos desafios dessa época.

“A esquerda precisa organizar uma nova perspectiva de desenvolvimento a partir da organização do mundo do trabalho. Nós não temos condições de manter uma política de estado que seja baseado somente na política de compensação social. Ela não dá conta de resolver as contradições”, sugere Rodrigues, destacando a tarefa histórica inconclusa de realização de uma reforma agrária ampla e popular, como parte de um projeto nacional de desenvolvimento.

“Seria muito mais digno para o governo e para nós, que parte dos recursos que o governo coloca num conjunto de programas sociais pudesse voltar para a reforma agrária, que é um projeto de desenvolvimento, que é um projeto que produz e que gera renda e trabalho. Mas isso tem que ter vontade”, afirma.

“Ou seja”, segue o dirigente do MST, “para você ter uma noção — e eu não estou fazendo uma crítica que tem que mudar, só estou dizendo — nós colocamos mais de R$ 420 bilhões nas várias políticas de assistência, que é uma conquista importante. E nós só conseguimos colocar R$ 300 milhões para reforma agrária. Então nós precisamos mudar essa lógica, não tem sentido. Nós precisávamos pelo menos R$ 2 bilhões para a reforma agrária. Já resolvia um baita programa de desenvolvimento”, conclui, agregando a necessidade de construir uma “agenda em defesa da soberania nacional”, o que passa pela soberania alimentar e a proteção do meio ambiente.

Legado histórico

Para o amigo e companheiro de militância José Genoino, para além das contradições inerentes à história, Lula “é produto da classe trabalhadora, da classe operária, na sua dimensão de luta, de organização e nos seus dilemas”. “E o Lula é da política. O Lula se encanta com a política. O Lula ama a política”, diz o ex-deputado.

“Lula é uma liderança que tem uma autenticidade e é reconhecido pela classe trabalhadora por essa autenticidade, por essa força. Você pode fazer avaliações de alguns momentos: tem ambiguidade, noutros momentos ele podia ter uma elaboração de um núcleo político mais avançado. Mas ele, para mim, o grande legado do Lula é que o Brasil, eu acho que produziu uma das maiores lideranças de um projeto de transformação no Brasil. Igualando a [Getúlio] Vargas, Leonel Brizola, João Goulart, Juscelino [Kubitschek], Lula é filho, como diz o livro da Denise Paraná, filho do povo brasileiro, que emerge com uma capacidade política que é fenomenal”, comenta.

Ao lado da primeira-dama, Rosângela Silva, e do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, Lula levanta placa em defesa da taxação dos super-ricos. | Ricardo Stuckert

O tamanho do legado do único presidente a ser eleito três vezes pelo voto popular no Brasil ainda fica por ser comprovado, tomada a devida distância na história e diante do porvir, já que Lula é, até a data desta publicação, o candidato natural e favorito à reeleição nas eleições presidenciais de 2026, quando já terá completado 81 anos.

Homenagens

Neste ano, o presidente Lula vai passar a data do seu aniversário em Kuala Lumpur, capital da Malásia, onde participa da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Mas os amigos aproveitaram para enviar suas mensagens através desta reportagem.

“Presidente Lula, o que eu te desejo é sua reeleição, porque a sua reeleição é reeleição do povo brasileiro. Parabéns, Lula. Você merece viver, viver, viver, viver, viver. Que Deus te abençoe grandemente. Que em todo tempo você tenha o socorro de Deus, em todo tempo você possa servir as pessoas que mais precisam e que nós possamos também centenas e centenas de vezes comemorar o seu aniversário. Parabéns, presidente Lula, feliz aniversário”, declarou a deputada Benedita da Silva.

“Lula, você representa muito para o povo brasileiro. Você é a materialização da esperança, do sonho. Receba o meu abraço militante”, disse José Genoino.

“Não é para todo mundo, ainda mais com essa vitalidade sua, correndo a 8 km/h, cheio de energia, parecendo um cabrito, pulando de país em país, só no sucesso”, brincou Wagner.

“Mas parabéns, Deus lhe abençoe, lhe dê muita luz para continuar dirigindo o nosso país como se dirige, em favor das pessoas que mais precisam, em favor da soberania nacional, do crescimento da nossa economia”, declarou.

“Caro presidente, quero desejar feliz aniversário para você e, óbvio, que você tenha uma boa saúde e continua com essa sua inteligência guiando nosso país, orientando as nossas organizações, os nossos partidos e cuidando do nosso povo. Que o senhor possa ter um tempinho para poder fazer as suas pescarias, que é tão importante para a saúde mental, mas não saia do meio do povo. Vida longa. Presidente Lula, estamos juntos”, disse João Paulo Rodrigues.

Em homenagem ao aniversário de 80 anos, a escola de samba Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial do carnaval carioca, vai desfilar pela Marquês de Sapucaí com um enredo sobre sua história de vida, de Garanhuns ao Palácio do Planalto. “Tem filho de pobre virando doutor / comida na mesa do trabalhador / a fome tem pressa”, diz a letra do samba enredo.

Publicado originalmente pelo Brasil de Fato em 27/10/2025

Por Leonardo Fernandes – Brasília (DF)

Edição: Geisa Marques

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Edinho Silva: ‘Momento do povo brasileiro debater que país queremos’ https://www.ocafezinho.com/2025/07/29/edinho-silva-momento-do-povo-brasileiro-debater-que-pais-queremos/ https://www.ocafezinho.com/2025/07/29/edinho-silva-momento-do-povo-brasileiro-debater-que-pais-queremos/#comments Tue, 29 Jul 2025 16:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=213831 1 Comentário 🔥]]> Presidente do PT defende soberania nacional e critica pressão dos EUA por aproximação do Brasil com o Brics

O presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Edinho Silva, defendeu que o Brasil reaja com firmeza e autonomia diante da ofensiva do governo de Donald Trump, que anunciou tarifas de 50% sobre importação produtos brasileiros.

Perguntado se o momento histórico e a mobilização popular em defesa da soberania nacional abrem caminho para que o governo dispute com o Congresso uma pauta mais à esquerda – próxima da que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022 –, Edinho considerou que a discussão deve partir do povo.

“Eu penso que é o momento do governo brasileiro – não só do governo, mas sob a liderança do presidente Lula – do povo brasileiro debater que país nós queremos”, afirmou o dirigente.

A declaração foi dada ao Brasil de Fato durante o Ato em Defesa da Soberania Nacional, realizado no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, centro da capital paulista.

Edinho, que acaba de assumir a presidência do PT com o apoio do presidente Lula, avaliou que o ataque de Trump também busca minar o protagonismo do Brasil no Brics e outras alianças multilaterais. Para ele, há interesses em jogo quando se trata da atuação brasileira em tecnologias estratégicas e setores como terras raras e o Pix. “Nós não somos um puxadinho dos Estados Unidos”, afirmou.

Com trajetória ligada à comunicação e à articulação política, Edinho é visto como figura de conciliação interna no PT e nome-chave na coordenação da possível campanha de reeleição de Lula em 2026. Ao assumir o comando da sigla, afirmou que seu papel será organizar o partido para os desafios do próximo período – e, segundo ele, a defesa da soberania nacional está no centro dessa tarefa.

Confira a entrevista na íntegra

Brasil de Fato: A ofensiva de Donald Trump contra o Brasil trouxe o tema da soberania para o centro do debate. Que significados essa palavra adquire nesse momento histórico?

Edinho Silva: Olha, eu penso que nós estamos vivendo um momento histórico, né? De um ato organizado pelas entidades da sociedade civil, organizado pelas lideranças da sociedade civil brasileira, numa demonstração de defesa da nossa soberania. E eu penso que o nosso governo, o governo do presidente Lula, está acertando.

Qual deve ser a postura do Brasil diante das críticas dos EUA?

Se o debate é a questão tarifária da relação comercial entre os dois países – onde os Estados Unidos têm um superávit de 400 bilhões de dólares nos últimos 15 anos – então vamos sentar à mesa e vamos negociar, vamos conversar, achar o ponto de equilíbrio. Se é que a questão é essa, né? O diálogo tem que prevalecer. O esforço do governo do presidente Lula é pelo diálogo.

Mas se a questão é o direito do Brasil participar dos BRICS, o direito do Brasil construir relações multilaterais, construir relações econômicas que nos dê mais alternativas para as nossas exportações, importações, trocas de tecnologia, acho que esse debate tem que ser feito de forma soberana. O Brasil tem o direito de construir outras relações.

Se o debate é o Pix, um modo de pagamento que é um patrimônio do povo brasileiro, gratuito, e que pode estar ferindo interesses das empresas de crédito dos Estados Unidos, eu penso que o Brasil tem que fazer esse debate de forma soberana também. Ninguém tem o direito de dizer de que forma o povo brasileiro realiza seus pagamentos.

Se o debate são as terras raras, onde o Brasil tem 25% das reservas mundiais, o Brasil tem que fazer esse diálogo de forma soberana.

O que está por trás dessa disputa, na sua avaliação?

Eu penso que o Brasil não é um puxadinho dos Estados Unidos. Nós não somos um quintal dos Estados Unidos. Nós somos um país, nós somos um povo, nós somos uma nação – e queremos ser tratados enquanto tal, né? E esse ato diz isso: a defesa da soberania do povo brasileiro, a defesa das nossas instituições.

Trata-se de uma oportunidade para que o governo consiga impor a discussão de um programa mais à esquerda, mais próximo do que elegeu o presidente Lula em 2022, e não do que o Congresso Nacional decida como pauta prioritária?

Eu penso que é o momento do governo brasileiro – não só do governo, mas sob a liderança do presidente Lula – do povo brasileiro debater que país nós queremos.

Não só a questão da renda que o presidente Lula tem colocado, ou seja, acabar com os privilégios e acabar com a renúncia fiscal de 860 bilhões, que muitas vezes não se justifica. Eu digo que nós temos renúncia fiscal ad aeternum no Brasil. A renúncia fiscal muitas vezes se justifica para que uma cadeia produtiva se organize, se firme comercialmente, se firme economicamente.

Mas não existe nenhum lugar do mundo que tem renúncia fiscal ad aeternum. Quando a renúncia fiscal é permanente, quem paga a conta é o povo brasileiro. Porque a educação tem que funcionar, a saúde tem que funcionar, a segurança pública tem que funcionar. E se nós não estamos arrecadando, se as empresas não estão contribuindo, quem está contribuindo é o povo.

Se tem empresa não pagando tributo, ou pagando indevidamente, quem paga é quem compra o pãozinho, o arroz, o feijão, o medicamento. Nós não queremos um país de privilégios – queremos um país de igualdade de oportunidades. Então esse debate está colocado. E agora, o debate da soberania nacional.

Nós não seremos submissos a nenhum país do mundo. Queremos dialogar de forma igualitária com todos os países, mas submissão, não. Porque nós não somos um povo submisso. Nós não somos um país submisso.

Publicado originalmente pelo Brasil de Fato em 26/07/2025

Por Rodrigo Chagas – São Paulo (SP)

Edição: Camila Salmazio

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Justiça anula processo da Lava Jato contra Jaques Wagner https://www.ocafezinho.com/2025/02/15/justica-anula-processo-contra-wagner-da-lava-jato/ https://www.ocafezinho.com/2025/02/15/justica-anula-processo-contra-wagner-da-lava-jato/#respond Sat, 15 Feb 2025 16:30:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=201960

“Não há evidências concretas que sustentem as acusações”, decidiu o magistrado

A 2ª Vara Criminal da Justiça Federal de Salvador validou, nesta sexta-feira (14), o arquivamento do processo contra o senador Jaques Wagner, no âmbito da operação Lava Jato, por concluir que, após quase sete anos, não encontrou qualquer indício de envolvimento do senador para dar continuidade às investigações. O juiz federal Fábio Moreira Ramiro afirmou que “não há evidências concretas que sustentem as acusações”. O Ministério Público Federal (MPF), inclusive, já havia se manifestado no mesmo sentido, por não haver nenhum elemento de irregularidade ligado a Wagner.

Presidente do Partido dos Trabalhadores da Bahia, Éden Valadares, criticou a perseguição política aos petistas por parte dos membros da Lava Jato, que tiveram muitas das suas decisões anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por constatar as ações da operação, então juiz federal e atual senador Sergio Moro, como um dos maiores erros judiciais da história do Brasil. “Wagner foi vítima da maior farsa política e fraude jurídica do Brasil. Um processo que tinha evidentes e comprovados vícios, objetivos políticos e resultou na chegada de Moro e Bolsonaro ao poder”, destacou Éden.

O dirigente estadual lamentou a interferência com pretensões políticas no judiciário para perseguir e tentar destruir a reputação de políticos íntegros, como o senador. “Quando a política entra em um tribunal, a justiça sai pela janela. E infelizmente foi isso que aconteceu. Wagner foi alvo de uma campanha desonesta por ser o grande quadro que é do PT na Bahia e no Brasil. Essa é a verdade”, concluiu Éden.

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Com ou sem Marta, a primavera precisará de novas rosas https://www.ocafezinho.com/2019/10/18/com-ou-sem-marta-a-primavera-precisara-de-novas-rosas/ https://www.ocafezinho.com/2019/10/18/com-ou-sem-marta-a-primavera-precisara-de-novas-rosas/#comments Fri, 18 Oct 2019 21:46:33 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=101200 2 Comentários 🔥]]> Sou lulista de carteirinha, do tipo “Lula no céu e Lula no inferno” (tento enxergar 3D como o Djonga pediu).

Defendi com unhas e dentes, por aqui mesmo no Cafezinho, que o PT precisava desgastar o judiciário com a manutenção do Lula candidato. Além disso, acredito que a bandeira Lula Livre, usada sem sectarismo e com respeito, é prioritária para a esquerda.

Começo o texto lembrando disso pois sei que nesse momento a Razão cartesiana nos empurra para um debate cada vez mais destrutivo: toda discussão é vista como a batalha “ultimato” entre Vingadores e Thanos. E queria evitar isso por aqui.

Preciso comentar aqui uma resposta que o presidente Lula deu ao portal Uol. E gostaria de fazer apontando uma reflexão.

Quando perguntado na sobre novas lideranças dentro do PT, Lula desconversou e acabou remetendo a resposta a uma possível volta da Marta Suplicy ao partido.


Uma passagem de bastão. Qual o líder do PT com menos de 40 anos que tem voz ativa no partido hoje?

Se você assistir a uma reunião do partido, vai perceber que temos cota da juventude, de mulher, de negro. Nós temos secretaria de LGBT. Nós somos o partido mais atualizado que existe no mundo. Veja se tem algum partido que produz a quantidade de material cultural que a fundação do PT produz. Muitas vezes o PT é criticado pelas coisas boas que ele fez. Você sabe qual é a razão pela qual eu achei que a Marta Suplicy perdeu as eleições para o Kassab, para o Serra? Pelo que ela fez. Você não tem noção dos efeitos dos CEUs [Centros Educacionais Unificados] que a Marta criou. Levar política públicas, como aquela, com aula com computador, piscina, cinema, teatro para crianças pobres da favela. Você não tem noção do repúdio que um setor da classe média passou a ter da Marta porque ela estava levando coisa para os pobres que não poderia levar.

Lula, em resposta aos jornalistas Flávio Costa e Leonardo Sakamoto para o UOL. Disponível em: Lula acena para Marta e diz querer ser a ‘Fernanda Montenegro de Ciro

Não quero entrar no mérito se essa seria ou não a melhor resposta do Lula. O debate sobre a prefeitura de São Paulo é importantíssimo e não sei o que se passa no alto escalão da política brasileira para cravar o que é prioritário agora ou não.

Contudo, é simbólico que uma pergunta sobre novas lideranças dentro do PT termine com um aceno para a volta de uma liderança com mais de 70 anos. Isso não é bom e precisa ser debatido a exaustão pelo Partido dos Trabalhadores.

O PT foi (e é) essencial para democratizar o Brasil. É o maior partido de massas da América Latina e ainda possui uma força admirável, construída ao colocar em prática o desejo de maior participação popular que a Ditadura tanto reprimiu nos anos de chumbo.

Vale ressaltar, contudo, que o passado grandioso do partido não está imune as mudanças de conjuntura e nem aos erros internos. É fato que o PT precisa empoderar novas vozes para continuar competitivo no Brasil.

Vejamos, por exemplo, quais grandes nomes jovens do PT (ou até mesmo do sindicalismo) apareceram no “GPS ideológico” da Folha.

Nomes como Natália Bonevides, William De Lucca e Marília Arraes são fortes e muito importantes para o momento. Contudo, são poucas pessoas perto da grandeza do partido.

Os congressos do PT acontecerão em breve e o partido terá a oportunidade de apresentar novos rostos ao país, capazes de apresentar uma linguagem que dialogue melhor com uma camada da sociedade que se afasta da política e, consequentemente, da militância partidária.

Lula lembrou as virtudes do partido, fez um importante aceno a Marta Sulicy mas o debate não pode ficar por aí. Há mudanças a serem feitas, seja pelos os erros cometidos (bem menores que os acertos), seja pela mudança conjuntural da sociedade.

Sabemos que os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, que jamais deterão a chegada da primavera. Novas flores virão e se o PT não apontar para uma renovação, correrá o risco de se estagnar e se enfraquecer.

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Um combatente que se vai https://www.ocafezinho.com/2018/10/11/um-combatente-que-se-vai/ https://www.ocafezinho.com/2018/10/11/um-combatente-que-se-vai/#comments Thu, 11 Oct 2018 20:02:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=89827 6 Comentários 🔥]]>  

 

Denise Assis – jornalista

A despeito da sua vastíssima produção em livros, artigos e ensaios, e, principalmente, por ela, o que fica de Otávio Dulci, o sociólogo e professor da UFMG – de 1972 a 2013 -, falecido neste 10 de outubro, para a família, os amigos, os alunos e para os seus orientandos, é a generosidade com que dividiu conhecimento.

Alguém presente ao seu funeral, em Belo Horizonte, cidade que escolheu para viver e plantar amigos, lamentou a reserva de saber que estávamos perdendo. Mas logo uma outra pessoa presente reagiu. Não. Otávio não leva. Ele o repartiu em vida.

E quem estava à volta teve que concordar. Sem alarde, com uma determinação que só os mais íntimos acompanhavam, pois no social era discreto ao falar de sua produção, Otávio ia tecendo o que trouxe das intermináveis conversas na cozinha de sua casa, em Santos Dumont (MG), com o que buscava em suas pesquisas. Seu pai, Cesário Dulci, era testemunha atenta da era Vargas. Reproduzia passagens saborosas da velha política, da rixa regional das oligarquias Andradas X Bias Fortes, e tantos personagens da cena influente daquele Brasil. A mãe, Anita Dulci, amante da literatura e da música, reservava atenção sensível à desigualdade, e aos problemas sociais do país. Nessa mistura de influências Otávio foi buscar o material que pesquisou e ordenou em livros necessários, tais como o  “A UDN e o anti populismo no Brasil”, e tantos outros.

Otávio desenvolveu um olhar especial para as injustiças, para o conservadorismo das elites que as produziam e para o equacionamento e o entendimento delas, a partir das teorias da Sociologia, em que embarcou muito jovem. Não perseguiu o brilho. Não era do seu feitio. Miúdo, afável, cortês, foi conquistando naturalmente o seu espaço, à medida que produzia. E foi isto que ele fez durante toda a sua vida. Produzir conhecimento e generosamente distribuí-lo em salas de aula e palestras, pregando a democracia, e apontando perspectivas nesta direção.

Sua formação familiar e acadêmica o levou a ter convicções firmes sobre a construção deste modelo. E tanto foi assim que participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, da elaboração do programa de governo de Lula, da candidatura de Patrus Ananias ao governo de Minas, em 1998.

Otávio não era de esmorecer, de desanimar. Seu estilo era o de ver sempre um lado em que pudesse oferecer palavras de otimismo. De quem discordava, costumava trocar argumentos suavemente. O acirramento da disputa pelo ódio, onde ele sempre plantou acordo, deve tê-lo abalado. No cenário em que transitava não cabiam sentimentos exacerbados. Vê-los desfilando frente aos seus olhos, certamente o levaram ao mal súbito que o acometeu no dia seguinte à conquista do seu partido, ao segundo turno das eleições.

Otávio transitou pela vida com elegância. Foi embora levando no peito a estrelinha vermelha, espetada na camisa social. Para nós que ficamos, resta a obrigação moral de preservarmos a liberdade pela qual lutou, e os princípios democráticos que não se cansou de ensinar. Por Otávio Dulci: a luta continua, companheiros.

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