resultado fiscal - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/resultado-fiscal/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Fri, 20 Feb 2026 17:49:36 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png resultado fiscal - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/resultado-fiscal/ 32 32 Situação fiscal do Brasil não é o que a mídia te conta https://www.ocafezinho.com/2026/02/20/situacao-fiscal-do-brasil-nao-e-o-que-a-midia-te-conta/ https://www.ocafezinho.com/2026/02/20/situacao-fiscal-do-brasil-nao-e-o-que-a-midia-te-conta/#comments Fri, 20 Feb 2026 17:49:33 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=226085 4 Comentários 🔥]]> O Brasil encerrou 2025 com déficit primário de 0,43% do PIB.

É um bom número, que situa o país entre as economias mais bem posicionadas do mundo nesse indicador.

O resultado primário mede o que o governo arrecada menos o que gasta, excluídos os juros da dívida. É a medida mais direta da disciplina fiscal corrente.

Em 2024, último ano com dados consolidados (não deve ter mudado muito em 2025), as grandes economias registraram os seguintes déficits primários: Estados Unidos, 3,6% do PIB; França, 3,7%; China, 6,6%; Índia, 2,9%; México, 2,6%; Reino Unido, 2,1%; Alemanha, 1,8%; África do Sul, 1,9%.

O Brasil, com 0,4% do PIB em 2024 e 0,43% em 2025, ficou melhor do que todos esses países.

Entre as grandes economias, apenas o Japão e o Canadá ficaram em patamar semelhante ao brasileiro.

A Itália registrou pequeno superávit primário — exceção no grupo do G7. Em compensação, carrega uma dívida bruta equivalente a cerca de 140% do PIB, enquanto o Brasil mantém esse indicador em patamar significativamente inferior.

O resultado de 2025 é praticamente igual ao de 2024. É melhor do que 2023, quando o déficit primário chegou a 2,28% do PIB. O contraste com 2020 é ainda mais expressivo: naquele ano, no auge da pandemia, o déficit primário atingiu 9,24% do PIB.

A maioria das grandes economias ainda não voltou, em 2025, ao patamar fiscal pré-pandemia. O Brasil já voltou — e o fez mais rápido do que a média.

Mas o déficit nominal brasileiro em 2024 foi de 8,45% do PIB. É um número alto, e é esse número que alimenta os diagnósticos mais sombrios.

A diferença entre o primário e o nominal são os juros da dívida pública. Em 2024 e 2025, o serviço da dívida consumiu entre seis e sete pontos percentuais do PIB.

Esse custo é consequência direta da taxa Selic, mantida em patamar elevado para conter a inflação. Não é uma decisão de gasto do Executivo — é uma variável de política monetária controlada pelo Banco Central.

Para comparar os déficits nominais no plano internacional é preciso considerar que países de moeda de reserva pagam juros reais estruturalmente menores. O déficit nominal americano em 2024 foi de 7,3% do PIB; o britânico, 5,7%; o francês, 5,8%. O Brasil, com 8,45%, paga mais caro pelo mesmo endividamento relativo porque o custo do dinheiro em sua moeda é estruturalmente mais alto.

O componente extraordinário do déficit nominal brasileiro não é o gasto primário — que está controlado. É o juro real mais alto do mundo entre grandes economias.

A dívida bruta exige o mesmo olhar contextualizado. O Tesouro Nacional projeta estabilização já em 2027, pico em 2028 e queda gradual até 81,7% do PIB em 2035.

O FMI, no Fiscal Monitor de abril de 2025, tem visão mais pessimista: estima que a dívida bruta brasileira chegará a 99,4% do PIB em 2030 — mas projeta, para esse mesmo ano, média mundial de dívida bruta de 99,6% do PIB, o que colocaria o Brasil exatamente no patamar mediano global.

Para o déficit nominal, o FMI projeta que o Brasil sairá de -8,5% do PIB em 2025 para -4,7% em 2030, à medida que o ciclo de juros se normalizar. A trajetória é de melhora consistente — não de agravamento.

A comparação internacional da dívida bruta desfaz qualquer pretensão de excepcionalidade negativa. O Japão carrega 237% do PIB; os Estados Unidos, 121%; a Itália, 135%; a França, 113%.

A China já ultrapassa 88% do PIB na definição mais estreita do FMI, com projeção de 116% em 2030 — avanço de 28 pontos percentuais em seis anos. O Brasil, com projeção de 99% em 2030 pela mesma fonte, cresce menos e parte de patamar menor.

O ajuste brasileiro tem sido gradual — e essa escolha importa. A Argentina testou o caminho oposto em 2023 e 2024, com contração fiscal abrupta que derrubou o PIB nominal e piorou, no curto prazo, a própria relação dívida/PIB que pretendia corrigir.

A posição externa é o dado mais ignorado neste debate. As reservas internacionais equivalem a cerca de 16% do PIB; a dívida soberana externa, a aproximadamente 9% do PIB. O Brasil é, na prática, um credor externo líquido.

Essa condição é rara entre emergentes de porte semelhante. O Vietnã tem dívida externa total de 27,9% do PIB; a Indonésia, 30,4%; a Turquia, 38,2%; a Coreia do Sul, 35,9%. Todos estão mais expostos a choques externos do que o Brasil.

Entre os vizinhos latino-americanos, a assimetria é ainda maior. México, Colômbia, Uruguai, Peru e Chile acumulam mais dívida soberana externa do que reservas disponíveis — todos são mais vulneráveis do que o Brasil a uma reversão do humor dos mercados internacionais.

Há um paradoxo irônico na percepção dominante. O Brasil tem resultado primário melhor do que os Estados Unidos, a França, a China, a Índia, o México e o Reino Unido — e é credor externo líquido enquanto a maioria dos seus vizinhos não é.

O problema fiscal brasileiro, contudo, existe. Os juros nominais são um fardo estrutural pesado; a composição do gasto público tem distorções que precisam ser enfrentadas no longo prazo. Mas o diagnóstico de colapso iminente não encontra amparo nos dados.

O Brasil não está consertado. Mas está, com toda evidência, se consertando — e em ritmo que o contexto internacional só pode reconhecer como sólido.

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Extrema direita e grande imprensa fazem trégua para mentir sobre “rombo fiscal” https://www.ocafezinho.com/2026/02/01/extrema-direita-e-grande-imprensa-fazem-tregua-para-mentir-sobre-rombo-fiscal/ https://www.ocafezinho.com/2026/02/01/extrema-direita-e-grande-imprensa-fazem-tregua-para-mentir-sobre-rombo-fiscal/#comments Mon, 02 Feb 2026 01:51:50 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=225305 5 Comentários 🔥]]> Com o governo sem muitos flancos vulneráveis na economia, é previsível que a oposição reacionária bata na tecla do “rombo fiscal”.

Trata-se de um tema em que ela encontra convergência com a grande mídia, o que para ela é politicamente muito oportuno. A mesma direita que hoje se encontra sob controle de suas franjas extremistas — para as quais a mídia é “inimiga” sempre que não se curva a delírios conspiratórios — tem dificuldade de construir pautas comuns com a imprensa liberal.

A macroeconomia surge como terreno fértil para essa reaproximação. É o espaço em que extrema direita e grande mídia conseguem fazer as pazes e dar-se as mãos para atacar o governo popular.

Nos Estados Unidos, algo semelhante ocorre sempre que o tema é guerra contra o Sul Global. A agressividade da mídia liberal contra Donald Trump tende a desaparecer quando ele decide atacar o Irã, apadrinhar o genocídio em Gaza, alongar a guerra na Ucrânia, hostilizar a China ou sequestrar o presidente da Venezuela.

A política externa imperialista funciona como eixo de consenso entre elites políticas e midiáticas. No Brasil, papel equivalente é desempenhado pelo alarmismo fiscal.

Dessa vez, porém, a estratégia corre o risco de cair no ridículo. O déficit primário do setor público em 2025 foi de R$ 55 bilhões, segundo o Banco Central — equivalente a 0,4% do PIB. É difícil enxergar nisso qualquer ameaça real à sustentabilidade fiscal do país.

O PIB brasileiro fechou 2025 em R$ 12,7 trilhões. A receita total do governo federal chegou a R$ 2,94 trilhões no ano passado. Diante de números com essa magnitude, um déficit de R$ 55 bilhões não chega nem perto de configurar um “rombo”.

Há ainda um detalhe que tem sido convenientemente omitido. Consideradas as exceções autorizadas judicialmente, o déficit efetivo cai para algo próximo de R$ 13 bilhões, cerca de 0,10% do PIB.

Com esse resultado, a propósito, o governo cumpre rigorosamente a meta do chamado “arcabouço fiscal”, um objetivo que muita gente tratou como inalcançável (e ele talvez tenha sido, de fato, uma aposta arriscada do ministro Haddad, mas que ele ganhou ao final).

A comparação internacional também nos ajuda a mensurar a magnitude real do déficit fiscal do país.

Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, calculados para o governo geral com metodologia padronizada própria, praticamente todas as grandes economias operam com déficits primários significativamente maiores que o brasileiro.

Em 2025, os Estados Unidos registraram déficit de 3,80% do PIB. A França, 3,39%. O Reino Unido, 1,82%. A Alemanha, 1,61%. O Japão, 0,86%. O Brasil, pelo mesmo critério, aparece com 0,61% do PIB.

Mesmo sob uma metodologia mais rigorosa do que a usada nas regras fiscais domésticas, o país figura entre aqueles com menor desequilíbrio primário. Mais importante: o próprio FMI projeta melhora gradual e constante dos números fiscais brasileiros, com superávits a partir de 2027 — na contramão da maioria das grandes economias, que devem continuar registrando déficits por muito mais tempo.

Há outra pegadinha no debate fiscal, envolvendo os precatórios. Durante os anos do governo Bolsonaro, os pagamentos foram artificialmente represados por meio da Emenda Constitucional nº 114, conhecida como emenda do calote. Entre 2019 e 2022, a média anual paga em precatórios foi de aproximadamente R$ 66,7 bilhões.

A partir de 2023, o governo Lula passou a enfrentar o passivo acumulado. A média anual de pagamentos subiu para cerca de R$ 114,7 bilhões.

É sempre mais fácil fechar as contas do mês através do milenar artifício de simplesmente não pagá-las.

Caso o governo Bolsonaro tivesse quitado os precatórios nos valores devidos em 2022, o resultado primário daquele ano teria sido substancialmente pior. O mesmo vale para os cortes realizados em saúde e educação, que comprimiram despesas essenciais e melhoraram artificialmente o resultado fiscal do período.

Durante o governo Bolsonaro, os gastos federais com saúde ficaram praticamente estagnados em valores reais, oscilando entre R$ 154 bilhões e R$ 163 bilhões por ano. A partir de 2023, já no governo Lula, houve recomposição expressiva: R$ 186 bilhões em 2023, R$ 216 bilhões em 2024 e R$ 231 bilhões em 2025, todos ajustados pela inflação de hoje. Entre o último ano de Bolsonaro e 2025, o aumento real acumulado foi de aproximadamente 45%.

Na educação, a trajetória é semelhante. Entre 2019 e 2022, o gasto federal direto caiu 21% em termos reais, passando de R$ 39 bilhões para R$ 30,7 bilhões. Em 2025, esse valor subiu para R$ 41,7 bilhões — um aumento de 36% em relação a 2022.

O Fundeb, fundo federal que financia parte dos gastos estaduais e municipais com educação básica, teve expansão ainda mais expressiva. Saltou de R$ 38,3 bilhões em 2022 para R$ 60,7 bilhões em 2025, em valores reais de dezembro de 2025 — um aumento de quase 60% no período.

Também se mostraram infundados os rumores, inclusive em setores à esquerda, de que o governo Lula “acabaria” com o Benefício de Prestação Continuada. O que ocorreu foi o oposto. Em valores reais de dezembro de 2025, as despesas com o BPC cresceram de R$ 102,9 bilhões em 2023 para R$ 118,3 bilhões em 2024 e R$ 129 bilhões em 2025, com aumento também em percentual do PIB. O programa foi ampliado e consolidado como pilar da proteção social, sem provocar qualquer desequilíbrio fiscal relevante.

Esse conjunto de dados ajuda a entender por que a falácia do “rombo fiscal” precisa ignorar o contexto. O governo Lula pagou passivos represados, recompôs políticas sociais, ampliou gastos em saúde, educação e assistência, preservou reservas internacionais…

Sim, ainda teve isso.

Ao contrário do governo Bolsonaro, que queimou cerca de US$ 50 bilhões de nossas reservas ao longo de seu mandato, Lula elevou o estoque delas de US$ 324 bilhões ao final de 2022 para US$ 358,23 em dezembro do ano passado, um aumento de US$ 33 bilhões.

Os desafios fiscais existem e são conhecidos, sobretudo na dinâmica previdenciária e no custo dos juros da dívida pública. Nada disso, porém, autoriza chamar de “rombo” um déficit primário inferior a meio ponto percentual do PIB, com expectativas sólidas de melhora nos próximos anos.

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