Riofilme - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/riofilme/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Mon, 29 Jun 2026 12:54:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Riofilme - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/tag/riofilme/ 32 32 O fator geopolítico do cinema brasileiro (entrevista exclusiva com Leonardo Edde, presidente da Rio Filmes) https://www.ocafezinho.com/2026/06/29/o-fator-geopolitico-do-cinema-brasileiro-entrevista-exclusiva-com-leonardo-edde-presidente-da-rio-filmes/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/29/o-fator-geopolitico-do-cinema-brasileiro-entrevista-exclusiva-com-leonardo-edde-presidente-da-rio-filmes/#respond Mon, 29 Jun 2026 12:54:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=260973 A disputa pelo audiovisual deixou de ser uma briga entre estúdios e virou um capítulo da geopolítica. É assim que Leonardo Edde, presidente da RioFilme, resume a transformação do setor que acompanha há quase três décadas como produtor.

Edde é citado nos bastidores do setor audiovisual como um dos nomes cotados para presidir a Ancine a partir da próxima vaga que abrir na instituição, o que pode acontecer nos próximos meses. Boa parte da diretoria deve ser renovada, o que vai ajudar a destravar, segundo ele, as inovações necessárias para melhorar a situação do cinema nacional.

O adversário das cinematografias nacionais não é mais Hollywood no sentido antigo, segundo Edde. São hoje as maiores empresas do mundo, Alphabet, Amazon, Netflix e Apple, que tratam conteúdo como isca para vender assinatura e não como produto cultural.

Edde lembra que essa disputa sempre teve natureza política. “O cinema sempre foi político. A arte sempre foi política”, diz, antes de observar que a novidade é a escala, agora verdadeiramente global, num momento em que distribuir um filme pelo mundo se tornou um processo extremamente simplificado pela revolução digital e pela concentração das plataformas.

“Não é mais o Exército que protege as nações, é a cultura”, afirma.

Os Estados Unidos entenderam isso logo após a Segunda Guerra, quando transformaram o cinema no motor do seu soft power. O cinema americano vende, antes de tudo, o próprio modo de vida americano.

A Coreia do Sul fez a leitura mais inteligente das últimas décadas. Quando um único blockbuster de Hollywood ocupou as salas coreanas nos anos 1990, o governo percebeu que saía mais dinheiro do país para os estúdios americanos do que entrava com a exportação de carros.

A resposta foi uma política pública de Estado, perene e ambiciosa. O ápice veio com o Oscar de Parasita, que abriu caminho para as séries, a música, a culinária e até o idioma coreano conquistarem o mundo.

O Brasil tem a matéria-prima e desperdiça a oportunidade. Segundo Edde, o país exporta pouco demais para uma indústria que pretende ser sustentável, já que toda indústria audiovisual saudável é exportadora.

Hollywood tira entre 60% e 70% da receita de seus filmes do mercado externo. Sem exportar, o cinema brasileiro não se sustenta nem ajuda a projetar o país no tabuleiro internacional.

Há ainda um efeito interno pouco discutido. Filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto só alcançam grande bilheteria doméstica depois de ganharem relevância em festivais lá fora.

Edde chama isso de “exportação de produto e importação de relevância”. É o atalho contra o que ele descreve como uma “cabeça colonizada”, a velha síndrome de vira-lata que ainda leva o público brasileiro a desprezar o que é nacional.

Nesse ponto a conversa encontra os Brics. Para o presidente da RioFilme, o Brasil tem a chance de deixar de ser apenas exportador de commodity e passar a liderar uma narrativa cultural própria num mundo multipolar.

O problema é que a política pública brasileira chega atrasada justamente à parte que mais cresce. O streaming, segmento mais expandido do consumo audiovisual, é o único elo da cadeia que segue sem regulação no país.

Todos os outros segmentos são regulados e contribuem para garantir espaço ao produto nacional. O ambiente digital, onde está a maior parte da audiência, escapa dessa lógica.

O resultado aparece nos números da própria agência reguladora. A [última pesquisa da Ancine](https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca) aponta que apenas 5% do conteúdo disponível nos streamings no Brasil é nacional.

É pouco demais para o lugar onde o público de fato assiste. “É premente que a gente possa regular os streamings”, afirma, sob pena de o país perder investimento, distribuição e a disputa pela própria tela.

Edde não é inimigo das regras. “Eu sou a favor da burocracia, aliás eu nem sei o que seria sem ela”, diz, mas defende apenas a burocracia necessária, aquela que dá segurança jurídica sem asfixiar a criação.

Falta, na sua avaliação, uma política de Estado que nenhum governo possa desmontar com uma canetada. O que ele descreve como um tripé institucional, formado por Conselho Superior do Cinema, Ancine e Ministério da Cultura, virou a partir do golpe de 2016 “um monopé”, que “não para em pé sozinho”.

Há também um problema no desenho do setor. São 12 mil produtoras independentes no Brasil, a maioria no nível de entrada e muitas abertas apenas para acessar editais.

Misturar estreantes e grandes produtoras nas mesmas regras acaba travando todo mundo. A saída, para Edde, é separar políticas, com mais liberdade e mais cobrança para quem disputa o mercado mundial e mais apoio para quem ainda tenta entrar nele.

Na entrevista ao Cafezinho, Edde também foi perguntado sobre o financiamento obscuro do filme Dark Horse, bancado com dinheiro de Daniel Vorcaro, um dos maiores fraudadores financeiros da história brasileira. A operação parte justamente de quem vive tentando demonizar o sistema de financiamento público do cinema nacional.

Sua resposta foi recusar o enquadramento. “Falta de ética é falta de ética”, disse, lembrando que o senador Flávio Bolsonaro, autor do projeto sobre o pai, sequer é do ramo. “Nem ele é um produtor de cinema. Tá longe de ser.”

Para Edde, quem quer enganar ou roubar fará isso em qualquer indústria, sob qualquer pretexto. “Não é sobre cinema. É sobre corrupção, é sobre fraude.”

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