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Mídia, poder e luta cultural

Por Miguel do Rosário

19 de novembro de 2011 : 22h32

Ontem, papeando com um camarada no Belmonte da Lapa, a gente falou, como de praxe, da imprensa brasileira, que meu amigo só chama de PIG (Partido da Imprensa Golpista). Aí ele me acusou de estar me tornando “vaselina”, por não atacar os desmandos da mídia com a necessária veemência.

De fato, venho tentando abordar o problema de uma forma diferente, com mais humildade, evitando usar termos agressivos, e até questionando, por exemplo, a conveniência política em exigir uma nova lei da mídia. A Lei da Imprensa acaba de ser enterrada, mostrando que a tendência jurídica no país tem sido antes pela total liberdade da mídia, embora todos saibam que esta liberdade resulta numa hegemonia, de facto, das atuais corporações do setor.

Na verdade, eu não sou contra uma lei de mídia e concordo que há necessidade de um novo marco jurídico. O que eu questiono é o uso desta lei como uma espécie de arma no debate político/partidário imediato, como tem sido feito: a mídia denuncia um ministro, e aí se responde, em tom ameaçador, com a iminência de uma nova lei.

Evidentemente, uma nova regulamentação da mídia brasileira não visará impedir que a imprensa denuncie casos de corrupção no governo. Mas é assim que soa quando a palavra de ordem em prol da criação de uma “Ley dos Medios” no país é gritada, nas redes sociais pró-petistas, com ênfase proporcional ao tamanho da crise política da hora.

Eu sei que a intenção de uma nova lei da mídia, ou de uma nova regulamentação das comunicaçoes, não é silenciar as denúncias da imprensa contra o governo. Por isso mesmo eu acho que há uma falha de comunicação neste ponto, ou mesmo a adoção de uma estratégia equivocada. Essa linha não conduzirá a uma vitória concreta, no sentido de aprovar uma legislação que produza uma verdadeira atmosfera de liberdade de imprensa no país, mais plural e mais democrática. Aliás, às vezes me parece que alguns parecem até saborear o fracasso que sabem inevitável, desfrutando desde já, masoquistamente, os sentimentos de frustração, desilusão, decepção, que sempre se misturam a nosso famigerado e sempiterno complexo de viralatas.

Os debates que se fazem sobre o assunto costumam deixar de lado a necessidade de termos uma mídia comercialmente forte, independente do governo. Uma mídia que possa enfrentar o governo, e que não tenha receio de denunciar os inevitáveis desvios que ocorrem na administração federal (sim, sobretudo na federal, que é onde se concentra o poder político supremo). Poucos países no mundo possuem uma imprensa assim. Em geral, as mídias nacionais são manietadas e controladas pelas oligarquias que detêm o poder político.

Por outro lado, é necessário impor os devidos limites democráticos ao poder midiático, porque também não faz sentido que ele seja excessivo, pois aí flertamos com outro tipo de autoritarismo. Temos a ditadura midiática, que é o que muitos acusam de ser o caso do Brasil.

Seja como for, eu acho que o debate ainda não está maduro, e uma das razões é justamente a falta de um ambiente cultural favorável, o que me remete ao episódio dos Simpsons citado hoje pelo blog do Eduardo Guimarães, onde se aborda o problema da comunicação social, naturalmente que de forma lúdica e ficcional, através da luta da garotinha Simpson contra o vilão do desenho, o Sr.Burns.

Nos EUA, existe uma tradição de luta contra os desmandos da mídia que remonta ao próprio início da cultura moderna norte-americana. O primeiro filme moderno dos EUA foi Cidadão Kane, de Orson Welles, que denuncia justamente… o monopólio e a concentração das mídias pelo personagem principal. Era uma crítica absolutamente direta, como se sabe, ao então magnata das comunicações William Randolph Hearst.

Foi uma luta memorável. Hearst fez de tudo para censurar, bloquear, anular a obra-prima de Welles. De início, chegou a chantagear seus produtores para sufocar o filme antes do mesmo ficar pronto. Depois vetou a menção do mesmo em qualquer uma de suas publicações, as quais dominavam o cenário midiático norte-americano da época. Por fim, iniciou uma campanha para taxar Welles de agente comunista a serviço da União Soviética, causando naturalmente grandes constrangimentos ao cineasta, que quase foi preso por conta disso.

Talvez um dos vetores mais dinâmicos da história da cultura norte-americana seja propriamente essa luta contra a hegemonia da mídia. Gore Vidal escreveu romances magistrais denunciando o mau caratismo dos barões da imprensa, como “Holliwood”, onde denuncia o conluio entre as grandes distribuidoras cinematográficas, a Casa Branca e os senhores da mídia; e “Washington”, onde aborda diretamente as relações da mídia com o poder. Temos ainda aquele best seller fabuloso, A Fogueira das Vaidades, do Tom Wolfe, a história de um jornalista decadente, que manda os escrúpulos éticos às favas quando uma oportunidade surge para obter sucesso. Em The Penultimate Truth, o genial Philip Dick inventa um futuro apocalíptico onde as pessoas vivem em subterrâneos, trabalhando como escravos, acreditando numa mídia – dominada por meia dúzia de espertos – que afirma ainda estar em curso uma guerra nuclear na superfície. Finalmente, tivemos Matrix, onde o personagem principal descobre que vive num mundo de fantasia, e que na verdade os seres humanos haviam se tornado uma espécie de vegetais a serviço das máquinas, cujos intelectos eram mantidos vivos através da falsa experiência de uma realidade virtual; não há como deixar de ver nisso uma crítica à mídia, que faz as pessoas acreditarem num mundo que não existe de fato. Até os Simpsons, como vemos, criticaram a mídia.

E no Brasil, que luta cultural temos feito contra a mídia? Nenhuma! A mídia é o grande ausente da narrativa nacional. Rubem Fonseca escreveu Agosto, ficcionalizando a crise política que levou Vargas ao suicídio sem mencionar o papel da mídia no episódio. Em nenhum romance ou filme, pelo menos nos que eu conheço, o personagem mídia tem o destaque que merece. Em nenhum dsses filmes pseudo-esquerdistas sobre a ditadura, eu vi a mídia ser abordada sob um ângulo crítico.

Façamos justiça a uma brilhante exceção: Nelson Rodrigues. O dramaturgo, injustamente acusado de reacionário pela esquerda burra, foi um dos raros exemplos de sistemática denúncia ao mau caratismo e leviandade da mídia tupi. Leiam Beijo no Asfalto! É uma crítica devastadora ao poder destruidor da imprensa mau caráter. A calúnia de que é vítima o protagonista é um símbolo do que muitas vezes assistimos hoje em dia.

Ah, tivemos o inesquecível Lima Barreto, com seu Recordações do Escrivão Isaías Caminha, mas este livro custou muito caro ao pobre Lima, que entrou para a lista negra da imprensa nacional, mergulhando a partir daí num processo de degradação financeira que o levaria ao alcoolismo, à loucura e, por fim, à morte. Tornou-se um exemplo de como é perigoso, no Brasil, mexer com os brios da mídia.

Minha opinião, portanto, é que uma das estratégias no combate ao Leviatã midiático reside na luta cultural. Claro, falar é fácil. A luta cultural requer talento e coragem. Talento até que temos, mas é difícil encontrar alguém que reúna talento, coragem e uma visão política que entenda a função da mídia na história recente brasileira, e que faça a necessária crítica. É muito difícil! Até porque a própria mídia exerce um controle tirânico do debate cultural. No Brasil, escritores, dramaturgos, cineastas, tem uma dependência absoluta da mídia, então raramente alguém se arrisca a fazer alguma declaração crítica, quanto mais a incluir essa crítica em suas obras.

Enfim, eu estou bastante pessimista em relação a isso tudo. Mesmo que aprovássemos, a duras penas, uma lei de mídia, o custo político seria tão alto, que eu me questiono se valeria o esforço, ainda mais considerando que estamos no limiar de profundas mudanças tecnológicas no campo da comunicação social. Poderia até ser contraproducente, pois permitiria à mídia fazer o papel de mártir, vítima do esquerdismo totalitário, o que aliás fatalmente será o discurso dela. Com isso desmoralizaremos a esquerda e reforçaremos o prestígio da mídia.

Por outro lado, temos a internet, que já se tornou um contraponto importante ao poder das mídias corporativas. Eu acho que devemos apostar nisso de maneira mais objetiva, concentrando esforços para permitir a emergência de uma nova classe de jornalistas-blogueiros independentes, que possam denunciar os casos de corrupção, analisar a política, produzir conteúdo próprio, e fazer a crítica da mídia, sem ter que prestar contas aos atuais barões da imprensa. Com um pouquinho de recursos, estes blogueiros poderiam inclusive produzir vídeos, mordendo assim também pedacinhos do mercado audivisual.

Quando surgiu o movimento dos blogueiros progressistas, eu imaginei que os blogueiros, unidos, poderiam apoiar iniciativas neste sentido. Mas ele desde o início foi capturado por proselitismos partidários e ideológicos. Em vez de encetar esforços para fortalecer a própria blogosfera, gasta-se o prestígio político com ameaças de araque contra o governo e contra a mídia. Um colega do movimento teve o desplante de sugerir que, se a presidente não fizer, em dois ou três anos, tal ou qual coisa que se exige, todos deveríamos nos retirar da internet. Então é isso que se tornou o movimento, um arrogante lobby de pressão, e não uma organização cujo objetivo é fortalecer seus integrantes. Resultado: o movimento se torna cada vez menos uma organização de blogueiros, para se tornar uma associação informal de militantes políticos. Tudo bem, isso também vale, mas eu ainda acho que, no caso da blogosfera, estamos superestimando-a onde não deveríamos, e ao mesmo subestimando-a onde mais deveríamos acreditar nela.

Mas não prossigo nesta toada porque seria apenas defender uma causa própria. No momento, não tenho alternativa senão procurar não ser tão agressivo a ponto de pregar apenas para os convertidos, ao mesmo tempo cuidando para não ser tão cauteloso a ponto de ser chamado de “vaselina”. É um equilíbrio difícil de alcançar, às vezes impossível, sobretudo em meio a este emaranhado confuso de tribos radicalizadas e inimigas entre si. Ao fim acabo incomodando a todos. Recuso-me, todavia, a me deixar rotular, ou a me deixar seduzir pela tentação de só falar o que algum nicho deseja ouvir. Só me resta, enfim, trabalhar duro, escrever com franqueza, e seja o que Deus quiser.

Link da foto da capa.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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_spin

20 de novembro de 2011 às 03h57

No rol dos que se calam diante da midia, até mesmo para não perder espaço nos veículos de comunicação, inclua-se os os artistas, escritores e dramaturcos regionais, ops, eu quis dizer dramaturgos

Também os politicos em geral, a escola, as igrejas…

Quanto a centrar fogo no governo federal, discordo pq este combate a corrupção, tem órgaos de controle…E os governos estaduais cujos tribunais de contas são integrados pela direitalha?

A corrupção corre solta nos governos estaduais e locais, envolvendo bilhões de reais

Por isso discordo desta sua afirmativa "Uma mídia que possa enfrentar o governo, e que não tenha receio de denunciar os inevitáveis desvios que ocorrem na administração federal (sim, sobretudo na federal, que é onde se concentra o poder político supremo)"

Como o Governo não é somente poder executivo, inclua-se aí o Judiciário e o Legislativo, verdadeiros antros de corrupção, no caso do legislativo estadual, local e federal, deveriam estar legislando para combater o mal mas isso seria lutar contra interesses próprios. O Judiciário então…

Ainda quanto as publicações criticando a mídia, o que tem saído é na área do jornalismo e da politica, o Palmério Dória acabou de lançar um livro critico à imprensa, há trabalhos de outros especialistas, Venicio Lima por exemplo, talvez não atinjam o povão assim como atingiriam se o assunto fosse abordado por exemplo por um Carlos Drumond de Andrade, o que temos é a ABL sendo ocupada por indicados pela midia o Merval Pereira

P.S- O PT está abrindo o debate http://altamiroborges.blogspot.com/2011/11/pt-deb

Responder

Otto

20 de novembro de 2011 às 00h21

E o Lima Barreto, de Recordações do escrivão Isaías Caminha, não é uma crítica à imprensa?

Responder

    Miguel do Rosário

    20 de novembro de 2011 às 01h10

    Claro! Eu ia mencioná-lo, depois eu esqueci. Obrigado pela lembrança. Vou acrescentar ao post.

    Responder

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