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O emprego não será televisionado

Por Miguel do Rosário

19 de novembro de 2011 : 10h20

Os grandes jornais esnobaram ostensivamente, em suas edições impressas, os números do Ministério do Trabalho sobre a geração de emprego divulgados ontem. Apenas o Estadão deu uma nota na capa. O Globo menciona ao final de uma nota sobre a crise no Trabalho, como se tratasse de um detalhe. As matérias internas sobre o emprego também são pequenas, superficiais e aparecem em local subalterno das páginas.

Eu acho impressionante que os jornais dêem tanto espaço para a crise européia e demonstrem tanta má vontade e preguiça em se debruçar sobre os números do emprego no Brasil. As notícias se restringem a menções apressadas à queda no saldo de geração de empregos de outubro na relação com 2010, que foi de 38%; e à redução, por parte do ministro do Trabalho, na estimativa de geração de empregos no acumulado do ano, que passou de 2,7 para 2,4 milhões de postos. E tudo isso sempre perdido no meio de observaçõezinhas ácidas sobre a “crise” política na pasta.

A importância dessa informação, porém, merecia infográficos, opiniões de especialistas, análises. Eu imaginei, ingenuamente, que o fato de termos dados negativos na comparação com o ano passado, poderia despertar o interesse da mídia no assunto. Mas não. Talvez com medo de encontrar, num estudo mais aprofundado, algum elemento positivo, a imprensa limitou-se a fazer uma careta e sacudir os ombros.

Mas deixemos a imprensa para lá e analisemos então os números do Caged. Preparei uma tabela, com os números por região:

 

Observe que o saldo de empregos de janeiro a outubro de 2011, calculado em 2,24 milhões de vagas, foi superior a todos os anos anteriores (e anos completos, de janeiro a dezembro) desde 2003, com exceção de 2010, cujo saldo atingiu o número excepcional de 2,6 milhões de vagas. Curiosidade: a região centro-oeste registra em 2011 o maior saldo de empregos de sua história.

É preciso considerar que o número do emprego tem características diferentes dos números referentes ao crescimento econômico, por exemplo. Há um limite para o estoque de empregos. Lembrando: a taxa de desemprego no Brasil caiu para 6% em setembro, último mês pesquisado pelo IBGE:

Parece-me uma matemática bem simples entender que, à medida que declina o desemprego no país, os saldos de geração daqui para frente serão necessariamente menores.

Ou seja, é imprenscidível sempre cotejar os dados de geração de emprego do Caged, que tem o valor de serem atualizados com mais celeridade, com a taxa de desemprego do IBGE.

Vamos agora ver o gráfico do Caged, com uma série histórica mostrando  a geração de emprego nos anos de 2002 a 2011. O fato de 2011 não ter terminado não importa muito neste caso, porque todo o saldo gerado em novembro deverá ser anulado em dezembro, que tradicionalmente registra forte recuo, em função do encerramento das contratações temporárias realizadas para o período natalino. O ministério previu que, até o final do ano, o saldo acumulado deverá ficar em 2,4 milhões de postos, mas sugeriu (segundo li nos jornais) que o número poderia ser um pouco menor. Então sejamos conservadores e estimemos o saldo em 2,2 milhões de empregos, que é o saldo alcançado de janeiro a outubro.

É tão difícil constatar que, num ano de crescimento baixo e num momento internacional extremamente negativo do ponto-de-vista econômico, teremos o segundo maior saldo de empregos em 10 anos?

E repito a formulação que fiz há pouco: é tão difícil compreender que o desemprego baixo irá, necessariamente, trazer saldos menores de geração de emprego?

De fato, o mundo vive hoje um momento delicado, com Europa e EUA atravessando depressão econômica, elevação do desemprego, instabilidade financeira. Tudo isso afeta o Brasil, naturalmente. Por outro lado, também vem criando oportunidades para que a nossa economia se consolide ainda mais perante o mundo desenvolvido, que assiste algo perplexo o Brasil gerando postos de trabalho ao mesmo tempo em que ele os perde.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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bank Punjab National Bank 2012 PNB Recruitment 2012 for Managemen .

18 de fevereiro de 2012 às 17h13

Nesse sentido, Memórias sentimentais de João Miramar

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Sammy

20 de novembro de 2011 às 17h46

Excelente. Não existe análise na mídia.
As números divulgados pela mídia para geração de empregos, PIB e inflação são sempre pelo ponto de vista negativo e descontextualizadas.
Gerar 126.143 empregos, onde a média de geração para outubro nos últimos 9 anos é de 141.943 empregos, é ruim comparado aos últimos 2 anos que foram excepcionais e, em relação a outubro de 2010, ano em que o Brasil cresceu mais de 7%..

Uma simples conta dimensiona tudo de forma diferente.

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@Super_ED

19 de novembro de 2011 às 12h19

Excelente análise.

Na verdade, o recuo no número de contratações e um ligeiro aumento no índice de desemprego se dá em janeiro, quando ocorrem as demissões dos temporários.

Geralmente a imprensa analisa os press-release do IBGE e publica a análise da maneira que lhe convém, sem consultar especialistas. E notícia boa não dá IBOPE.

Um fato importantíssimo do CAGED que poucos ressaltam é que ele traz apenas os dados do emprego formal. Mas veja se não é uma excelente notícia que em 2011 mais de 2 milhões de brasileiros conseguiram um emprego com carteira assinada e terão direito à cobertura previdenciária, 13º salário, FGTS, etc.

Enquanto isso, a Pesquisa Mensal de Emprego – PME, cobre formais e informais. É uma fonte de dados riquíssima e pouco explorada (é muito trabalhosa sua manipulação) que nos permite extrair informações sobre salários e suas diferenças por idade, escolaridade, sexo, raça etc. Apesar de cobrir apenas 6 capitais e suas RMs, a PME é um bom parâmetro sobre a situação do emprego no país.

Como vc mesmo ressaltou, em algum momento os números do CAGED irão declinar. O grande desafio depois de empregar boa parte da população é a formalização do emprego, seja pela carteira assinada ou pelo incentivo a que os autônomos e informais contribuam individualmente para a previdência. O Governo já deu o primeiro passo reduzindo a alíquota de contribuição para as donas de casa. Falta ampliar essa política para o restante dos trabalhadores ainda na informalidade.

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Luciano Mendonça

19 de novembro de 2011 às 12h11

Não iam botar azeitona na empda do Ministro, né? O PiG é extraórdinário em transformar uma notícia boa numa notícia ruim. Ah, e queda no índice de desemprego e estabilidade na criação de vagas com o crescimento do PIB em 2011 que será metade do de 2010, teremos o número de criação de vagas quase que idêntico. Têm empresário já "estocando" mão-de-obra. A janela demográfica ocorrerá por mais 20 anos, a partir dái a população brasileira envelhecerá. Esse é o momento do crescimento.

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