Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Dois pesos, duas medidas

Por Miguel do Rosário

25 de novembro de 2011 : 14h20


(Serra e Faustino junto em evento).

Hoje me deparei com a seguinte notinha no Panorama do Globo:

Demorou um pouco, admito, para que eu fizesse a conexão entre essa notícia e  um post que li ontem no blog do Miro, sobre a prisão do suplente do senador Agripino Maia, atual presidente dos Democratas (DEM). Demorou porque eu simplesmente não vi mais a notícia em lugar nenhum. Então comecei a procurar no Google.

Eis que me deparo com uma operação gigantesca, com participação de promotores públicos de diversos estados. Transcrevo abaixo algumas partes do release do Ministério Público do Rio Grande do Norte

Quarenta promotores e 250 policiais militares estiveram envolvidos na Operação Sinal Fechado, que culminou com as prisões do suplente de senador, João Faustino e mais 9 pessoas, dentre eles o seu genro Marcos Procópio e o advogado curraisnovense, Marcos Vinicius da Cunha.

Na operação, foram envolvidos os ministérios públicos do Rio Grande do Norte, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul, além da colaboração da Polícia Militar do RN e da Polícia Federal. Foram cumpridos ao todo 14 mandatos de prisão, 25 mandatos de busca e apreensão. A investigação principal: fraude em processo de elaboração de lei em meados de 2009, até o processo licitatório em 2010.

Os promotores estão tendo dificuldades para fazer uma estimativa do montante desviado, mas para se ter uma ideia, em apenas uma das fraudes, o desvio poderia atingir mais de 1 bilhão de reais ao longos dos 20 anos de um contrato público. Os promotores já pediram devolução imediata de 35 milhões de reais.

Não se trata aqui de meras suspeitas, carona em jatinho, denúncia anônima. O que temos são praticamente todos os órgaos do Estado, federais e estaduais, trabalhando em conjunto para combater o crime organizado do colarinho branco do Rio Grande do Norte. Os promotores possuem provas, mandatos judiciais, testemunhas, documentos, análises, escutas, contra dezenas de figurões do estado: além do tucanão João Faustino, temos o filho da ex-governadora Wilma Faria, o advogado Lauro Maia, um garoto bem levado que já havia sido preso em outra operação da PF; e empresários graúdos de São Paulo e RN.

O PSDB local soltou uma nota dizendo que “não conhece nenhum fato desabonador de João Faustino”.

É realmente espantoso que a mídia tenha decidido impor um silêncio tão absoluto sobre o episódio. Afinal, mesmo envolvendo um secretário de Serra durante sua gestão como governador de São Paulo, não há nada que o incrimine. Tampouco se pode culpar Agripino Maia por ter um suplente ladrão, se é que ele é culpado.

Entretanto, o mais curioso é ver a capa do Globo de hoje. Diante de uma operação deste porte da Polícia Federal, envolvendo fraudes que chegam até o bilhão de reais, os platinados estampam a seguinte manchete:

Naturalmente, as fraudes denunciadas são graves, e até merecem uma chamada na capa. O que me espanta é tanto neon para o fato de um dos presos ter cedido um buraco qualquer para um petista de província fazer reunião de campanha e tratar uma doação registrada de 15,7 mil reais como algo suspeito. Se os políticos exigissem atestado de honestidade de todos os seus doadores, acredito que não receberiam mais um centavo.

Ora, se o interesse do Globo é apurar ligações de políticos com o crime organizado, a Operação Sinal Fechado apresenta um colorido muito mais interessante.

Enquanto o tal petista fluminense, o deputado estadual Andre Ceciliano, um pobre diabo desconhecido, vira réu do jornal O Globo porque aparece num vídeo do Youtube abraçado a Ricardo Loroza no sambódromo em 2007, temos um membro da direção nacional do PSDB, ex-secretário da Casa Civil do governo Serra, e suplente do senador Agripino Maia, presidente do DEM, preso por suspeita de fraudes cujos valores poderiam chegar a 1 bilhão de reais. Não é acusado de aparecer, anos atrás, em videozinho de youtube num baile de carnaval abraçado a gente suspeita. Não é acusado de receber doação merreca para sua campanha. Mas por integrar o comando de um esquema bilionário de fraude. Será que o máximo que isso merece é uma notinha misteriosa no Panorama?

Folha e Estadão sequer citam o caso, ou publicaram em lugar tão escondido que até agora não consegui encontrar.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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baixadacarioca

25 de novembro de 2011 às 17h20

É meu caro Miguel, a questão é que a mídia tem nome, endereço e partido. A esperança de um futuro diferente está na politização do povão, educação para que se tornem leitores críticos. Eu recebo diariamente uma enxurrada de convites da Veja, com promoções que beiram ao absurdo, e sinto que a mesma definha. Se o governo federal endurecer um pouquinho, eles terão que reduzir seus quadros – que tem os dois lados da moeda: é ruim pelo desemprego em si, mas bom porque aqueles que se dizem jornalistas terão um bom tempo para se reciclarem. Estou com o Zé Dirceu: pena que no Brasil não temos um veículo pró governo, se tivesse…

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