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The Guardian: a agonia dos liberais egípcios

Por Miguel do Rosário

27 de novembro de 2011 : 18h16


(Vendedor de jornais espera clientes na praça Tahrir. Fotógrafo: Bernat Armangue/AP)

Traduzi um artigo muito bom publicado este final de semana no The Guardian, um dos melhores jornais da Inglaterra e do mundo.

Liberais egípcios espremidos entre Islamistas e regime decadente

Eles formam um componente chave da primavera árabe, mas as forças seculares do país não conseguem avançar institucionalmente

Jack Shenker, do Cairo, Guardian.com.uk, sábado 26 de novembro de 2011

E agora, o que acontecerá aos sitiados liberais egípcios? Diante de eleições legislativas disputadíssimas, as forças seculares que desempenharam um papel tão proeminente nos primeiros meses da revolução estão agonizando.

Com um pé na esfera da política institucional e outro na política das ruas, eles não estão conseguindo avançar nem para um lado nem para o outro. Os liberais estão sendo acusados na Praça Tahrir de terem se vendido ao Supremo Conselho das Forças Armadas (Scaf), ao concordar em participar de um desmoralizado processo de “transição”, feito a passos de caramujo;  e foram superados pelo poder de fogo político dos partidos islâmicos e dos remanescentes da legenda que detinha o poder sob o regime de Mubarak, os quais devem obter esmagadora vitória eleitoral na próxima segunda-feira.

“Eles estão tentando, e falhando, fazer chegar seu apelo a todo mundo, e como resultado encontram-se eles mesmos constantemente baseando suas apostas numa revolução que poucos dentre eles compreendem e com a qual menos ainda entre eles estão fundamentalmente comprometidos”, disse Khalid Abdalia, ator e ativista que não deverá ir votar. “Há uma tentativa neste setor da classe política de tentar achar um equilíbrio entre os poderes constituídos vão aceitar e o que a Praça vai aceitar, mas a realidade é que essas duas coisas são completamente irreconciliáveis”.

Este é o sentimento predominante nas ruas depois de oito dias de matanças que não resultaram na queda dos militares, nem mudaram a agenda eleitoral. Enquanto os cadávares se acumulam e cresce a pressão popular contra a junta, culminando, sexta-feira, no maior protesto já registrado no Cairo desde a queda de Mubarak e uma chamada da Casa Branca para que os militares retornem aos quartéis imediatamente – os partidos liberais no país e candidatos independentes oscilaram de opinião tentando reagir à crise, alguns suspendendo temporariamente suas campanhas, outros desistindo do pleito, outros insistindo que o show deve continuar.

Um egípcio, que recentemente fez uma pesquisa informal com candidatos liberais para saber se eles ainda se dispõem a concorrer ao parlamento, disse que a resposta mais comum foi “lam”, uma combinação dos vocábulos árabes para não (la) e sim (na’am).

Na quinta-feira, o partido Social-Democrata – um grupo de proeminentes intelectuais que acreditam na economia de mercado, mas que desejam ver grande ênfase na justiça social – anunciou que estava abandonando as eleições legislativas, uma decisão tomada menos de 48 horas após seus líderes concordarem em participar de uma reunião com autoridades do Scaf (Supremo Conselho Militar) a portas fechadas. “Nós nos recusamos a participar desse jogo de azar com vidas humanas e o futuro da nação, e recusamos participar desse espetáculo eleitoreiro, que vai desviar atenção das legítimas demandas revolucionárias”, anunciou. Mohamed Abou El-Ghar, chefe do partido, acrescentou que ele estava realmente arrependido de ter se sentado junto aos generais.

Outros insistiram, porém, que não há contradição entre apoiar a revolução e lutar para ganhar representação no parlamento – mesmo que a nova legislatura tenha restrições para aprovar uma nova Constituição e pouco ou nenhum poder para controlar os militares.

Mahmoud Salem, 30, um blogger proeminente que está concorrendo a uma vaga parlamentar sob a bandeira do Partido dos Egípcios Livres – uma organização secular bem capitalizada lançada por Naguib Sawiris, um magnata do setor das telecomunicações – disse que ele foi a primeira pessoa a congelar as atividades eleitorais quando a violência voltou a irromper no Cairo, na semana passada, mas insistiu que a participação no pleito continuava sendo a melhor maneira de realizar mudanças concretas.

“Sim, estamos num dilema, porque somos criticados não importa o que fazemos”, ele disse. “Eu não posso sair e pedir votos enquanto há pessoas sendo mortas na praça Tahrir, e eu argumentei desde então que as eleições deveriam ser adiadas em uma semana. Mas eu não posso desistir ao mesmo tempo porque se eu o fizer, alguém vai ocupar o espaço e essa pessoa será um membro da Fraternidade Muçulmana ou ex-membro do partido do Mubarak.

“Eleições são o que as pessoas querem agora, e os que dizem outra coisa na praça Tahrir e dizem que nenhuma eleição deve acontecer enquanto os militares estiverem no poder simplesmente não conseguiram transmitir essa mensagem à população”.

Esse é um argumento que não cola muito com os jovens, radicais e seculares manifestantes como Abdalla, que já foi um dos que apoiavam aqueles que se alinhavam contra os islamistas na batalha por vagas no parlamento.

Walid Kazziha, professor de ciência política na Universidade Americana do Cairo, diz: “Os liberais estão agonizando porque – dado o contexto maior – as eleições se tornaram um ponto discutível.

“Não há um ambiente liberal no qual a votação possa acontecer. Ao invés disso, há um sério racha na sociedade entre gerações, e essa eleição não vai resolver isso. O novo primeiro ministro tem 78 anos – o que ele pode ou qualquer parlamentar eleito nessas condições poderão dizer à juventude egípcia?”

Abdalla vai mais longe, argumentando que liberais como Salem perderam o ponto mais essencial da revolução. “Não estamos combatendo nenhum partido político, nem o exército, nem a Fraternidade Muçulmana – estamos combatendo a estrutura. É isso o que a essa elite política liberal não consegue entender. Eu prefiro deixar que a Fraternidade Muçulmana assuma o poder e se livre dos militares do que ter esse liberal Mohamed ElBaradei à frente do governo mas com os militares regendo o poder. A revolução é contra os militares agora; haverá tempo mais tarde para fazer o jogo reformista, gradualista, quando pudermos nos sentar e discutir sobre as diferenças políticas”.

Mona el-Ghobashy, um expert em política, recentemente escreveu que “ao menos uma década antes da saída de Mubarak, os egípcios já estavam fazendo política fora de casa”, com manifestações diárias nas ruas, nos pátios das fábricas e praças públicas.

Em meio dessa revolução em curso, a verdade básica permanece imutável; a questão que os liberais tem dificuldade para responder é, enquanto os generais permanecem entrincheirados, a política eleitoral institucional pode ter algum sentido nessa luta das ruas, ou os dois fatores são  excludentes? Enquanto isso, eles permanecem agonizando entre dois mundos, e penando para  ficar à vontade em ambos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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