Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

New Yorker: A Ungida – Parte 4

Por Miguel do Rosário

08 de dezembro de 2011 : 20h40

A Ungida – Parte 4/13

Por Nicholas Lemann, da New Yorker. Tradução: Miguel do Rosário.

A confiança de Lula em sua habilidade de reunir gente não se limitaria às fronteiras do Brasil. Como presidente, ele viajou o mundo, tornando-se amigo de parceiros comerciais e chefes de Estado como Hugo Chávez, Fidel Castro, Muammar Qaddafi, Bashar al-Assad e Mahmoud Ahmadinejad. Em 2004, ele enviou tropas brasileiras ao Haiti depois de um golpe. Lula foi a Ramallah e tentou trazer a paz entre Israel e Palestina. Ele foi a Ankara e negociou um acordo pelo qual a Turquia iria trocar urânio não-enriquecido iraniano por urânio enriquecido de outros países, supostamente para fins pacíficos. Ele também manteve um caloroso relacionamento com George W.Bush, o que o próprio Cardoso não foi capaz de fazer.

Em 2001, o economista da Goldman Sachs, Jim O’Neill, inventou o acrônimo BRIC, para designar as economias emergentes do mundo: Brasil, Rússia, Índia e China. Lula adorou a ideia, e em 2006, ele ajudou a criar uma associação formal BRIC, que agora inclui a África do Sul. É fácil tirar sarro das aventuras globais de Lula, mas o seu país colheu enormes vantagens. Brasil é agora a sétima maior economia do planeta e deve ultrapassar em breve a França e o Reino Unido e tornar-se a quinta. “Esta é a primeira vez na história que uma nação de porte continental tenta se projetar no mundo através de um poder pacífico”, disse-me Thomas Shannon, o embaixador americano em Brasília. “No passado, as nações tornavam-se potências globais através de calamidades”.

Cardoso reclama, em suas memórias, que em função de Lula estar sempre em movimento, ninguém jamais sabe onde ele está. Minha própria experiência foi que Lula é acessível, através de seus assessores, mas fluido. Foi combinado que nós encontraríamos muito antes d’eu saber exatamente onde e quando. O encontro teve lugar ao final da tarde, no início de agosto, num novo Sofitel em São Paulo, uma das muitas manifestações da nova prosperidade do Brasil pós-Lula. Dois membros da equipe aguardavam-me na melhor suíte do hotel, junto com Lula: seu jovem assessor de imprensa, José Chrispiniano, e Ottoni Fernandes, outro ex-guerrilheiro, que hoje trabalha como seu assessor de comunicação.

Lula é um homem baixo e atarracado, com cabelos grisalhos e uma barba cheia. Ele vestia um terno cinza de listras finas e uma camisa preta de seda. Seus assessores me contaram que esta seria a sua primeira entrevista longa desde que ele havia deixado a presidência, em janeiro. (No momento, Lula está sendo tratado de um câncer de garganta e está inacessível).

Lula começou anunciando que ele iria fazer o cafezinho, um ritual que inicia qualquer encontro no Brasil. Mesmo funcionários subalternos tem assistentes para trazer café numa bandeja, então, preparando ele mesmo o café, Lula me enviava uma mensagem do tipo de homem ele era. “Eu vou fazê-lo entre o brasileiro e o americano”, ele disse, com um grande sorriso. “O brasileiro é muito forte e o americano é muito fraco”. Ele me passou a xícara. “Ótimo!” Ele olhou ao redor e disse, dirigindo-se de lado a qualquer um, “eu nunca sei como é o café antes”.

Sentamo-nos em torno de uma grande mesa numa sala de reunião. Lula não fala inglês, então eu havia trazido uma intérprete, Elisabeth Bastos, comigo. Ela deu a Lula e a mim aparelhos de ouvido de maneira que ela podia fazer uma tradução simultânea, aos moldes da Assembléia Geral das Nações Unidas. Depois de um momento, porém, Lula começou a se incomodar e tirou o aparelho. Ele pegou sua cadeira e a pôs junto a mim, de forma que nossos joelhos quase se tocavam, e pediu a Bastos para sentar-se um pouco atrás dele; depois da minha pergunta, ela poderia apenas sussurrar a tradução em seu ouvido. Como fazem os melhores políticos, Lula gosta de estabelecer uma relação física quando está falando com uma pessoa. Seu rosto largo, rude e triangular estava bem diante de mim. Enquanto falava, seus olhos castanhos se arregalavam, suas sobrancelhas remexiam-se, suas pernas agitavam-se, seu indicador curto e grosso cutucava meu joelho.

Lula explicou que quando era presidente ele não conseguiu agir apenas segundo as regras constitucionais para as relações entre o Executivo, partidos e Congresso. “Aqui é bem mais difícil”, ele disse. “É o que chamaríamos de democracia direta. Quero dizer que eu trabalhei junto com a sociedade civil para que esta produzisse políticas públicas que interessavam ao governo. Todas as grandes questões foram debatidas a nível local, a nível estadual e a nível nacional. Poucos governos no mundo praticam a democracia do jeito que fazemos. No auge da crise de 2008, ouvimos os homens de negócio e ouvimos os trabalhadores”. Ele sugeria que o governo americano não havia feito consultas tão amplas durante a crise.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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