Vila Militar do Chaves (Adnet satiriza Bolsonaro)

O dragão não é tão feio

Por Miguel do Rosário

09 de dezembro de 2011 : 11h47

Impressionante a obsessão da mídia brasileira em vender desgraças. Pior, em vender falsas desgraças. O IBGE divulgou ontem que a inflação de novembro ficou em 0,52%. Os jornalões anunciaram com estardalhaço que a “inflação subiu”.

No Globo de hoje, a notícia é manchetão na primeira página e no caderno de economia:

 

 

Entretanto, não é verdade. Se você ler a íntegra da matéria, coisa que poucos o fazem, verá que a maioria dos entrevistados diz exatamente o contrário do que informa o título. Cito trechos da própria matéria do Globo:

(…) o alimento, que subiu menos do que em novembro passado (10,67%), está no ano mais em conta (-0,49%) – disse Eulina Nunes, economista do IBGE. (…)

(…) Essa alta dos alimentos é sazonal, não havendo nada de excepcional no momento. A tendência agora é de desaceleração, até porque não há uma demanda mundial que chancele uma inflação elevada de alimentos – avaliou Fábio Romão, economista da LCA Consultores. (…)

(…) Para o BC, porém, o cenário atual é melhor porque os números são bem mais baixos do que os do fim do ano passado. (…)

(…) O que é importante olhar nesse momento é a tendência da inflação, que aponta para uma desaceleração. Pouco importa se o IPCA vai fechar em 6,50% ou 6,60% em 2011. E, com o cenário de desaquecimento mundial, a inflação deve desacelerar – disse Joaquim Eloi, economista que atualmente está no Conselho de Administração da Bahema S.A. (…)

(…) A alta de 0,52% no IPCA em novembro também não preocupou a equipe econômica. Segundo técnicos do governo, o indicador manteve sua trajetória de queda em relação ao ano passado e não vai impedir que a inflação feche 2011 dentro do teto da meta fixada para o ano, de 6,5%. Em novembro de 2010, o IPCA atingiu 0,83%. – O IPCA está se comportando com nós já esperávamos. Está mantendo sua trajetória de queda em relação ao ano passado e tem condições de fechar o ano dentro do teto da meta – disse um técnico. (…)

(…) Salomão Quadros, da FGV, acredita que não há dilema no governo entre aquecimento da economia – com as medidas de estímulo à economia – e a tentativa de se segurar a inflação: A inflação está cadente, a taxa anualizada, que deve fechar em 6,50%, deve cair mais um ponto percentual no primeiro semestre. (…)

 

Em novembro de 2010, havia sido de 0,83%; em novembro deste ano, é de 0,52%.  A interpretação da mídiazona é enviesada porque omite, ao menos nas manchetes e gráficos principais, que o aumento de outubro para novembro é sazonal, ou seja, acontece todos os anos, em função do período da entressafra dos principais produtos agrícolas.  Confira a tabelinha abaixo, do IBGE:

Eu mesmo fiz um gráfico com a inflação no acumulado 12 meses. Por aí, você pode ver como a inflação acumulada está caminhando para dentro da meta, que é 6,5%, e que, sobretudo, está em QUEDA.

Nem cito Folha ou Estadão, porque a análise é a mesma. Todos omitem a sazonalidade específica de novembro, anunciando a inflação deste mês como um número negativo, o que não é verdade.

Os editores da edição impressa poderiam, ao menos, assistir ao Jornal da Globo, onde os especialistas entrevistados também são categóricos ao afirmar que a inflação está perdendo força, e que o aumento verificado em novembro é puramente sazonal.

*

Mudando de assunto, o caso Pimentel continua na berlinda. O ministro conseguiu marcar um ponto hoje, e esvaziou a denúncia do Globo feita ontem, de que os donos de uma empresa desconheciam o serviço de consultoria realizado por ele. O jornal obrigou o ministro a catar o dono antigo da empresa nos Estados Unidos e a empresa emitiu um comunicado lacônico, confirmando a prestação do serviço.

Merval Pereira e Dora Kramer foram escalados hoje para entrar na linha de frente da artilharia contra Pimentel. É interessante que a própria imprensa já começa a usar uma linguagem de guerra, praticamente assumindo que seu objetivo é “atacar” o ministro.

Quem pega pesado hoje nos ataques a Pimentel é o Estadão. Tem chamada na capa, página inteira, infográficos, destaque no site, ou seja, o armamento completo.

Destaque na seção política do site do Estadão:

Chamada na primeira página da edição impressa:

 

Infográfico na página da edição impressa:

 

Quem acompanha minimamente a política nacional, sabe que a Camargo Correia, uma das principais construtoras do país, é doadora de virtualmente todos os candidatos políticos competitivos. Seguramente, não é uma empresa santa. De vez em quando a Polícia Federal bate em sua porta, como aconteceu durante a Operação Castelo de Areia, quando 4 diretores foram presos.  Mas se o jornal quiser, pode fazer a mesma ilação para qualquer outro mandatário eleito. Todos receberam doações da Camargo Correia, e a construtora executa obras em seus territórios. Sobre superfaturamento, acontece a mesma coisa, infelizmente. Os tribunais de conta encontram indícios em praticamente todas as obras realizadas no Brasil. Esse é mais um problema que seria resolvido, em parte ao menos, por uma reforma política que abolisse a doação privada e instituisse o financiamento público exclusivo de campanha; ou pelo menos um financiamento público parcial, para libertar a classe política da dependência do capital privado (leia-se: das construtoras) para financiar suas campanhas.

Já que o Estadão está se interessando por doadores e governos, podia levantar alguma informação sobre a doação da Controlar à campanha de Kassab, e sua relação com o escândalo hoje investigado pelo Ministério Público de São Paulo.

Link da imagem da capa.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Elson

10 de dezembro de 2011 às 09h55

Esse negócio da inflação em alta é puro terrorismo midiático .Outra coisa que também influencia na inflação é o fato que estamos no fim de ano , tem 13° no bolso do trabalhador e o comerciante não tem medo de cobrar um pouco mais pelo produto ou serviço já que a demanda é grande .

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baixadacarioca

09 de dezembro de 2011 às 13h18

A ética do ponto de vista das 11 famílias difere substancialmente da ética do ponto de vista das outras mais de 40 milhões de famílias, e o maior temor da “imprensa independente” e ter que se submeter a ética da maioria dos brasileiros.

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