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Considerações pós-industriais

Por Miguel do Rosário

21 de janeiro de 2012 : 15h32

Eu também sou um exportador e me interessa o dólar alto. Há oito anos, exporto serviços, na forma de análises sobre a conjuntura mundial do café, para um site norte-americano. Escrevo em inglês duas notinhas por dia, e isso me ajuda a pagar as contas no fim do mês. No entanto, como cidadão e patriota, sou a favor do câmbio livre, porque entendo que ele evita distorções.

Além disso, eu perco de um lado, mas ganho de outro, já que minha mulher tem uma distribuidora de filmes e o dólar baixo lhe permite adquirir bons longa-metragens lá fora a um custo menor. Sem contar que todo ano fazemos viagens internacionais, por razões de trabalho, e a nossa moeda forte, naturalmente, ajuda.

Por curiosidade jornalística (ou blogueira), eu monitoro bem de perto, estudando todas as estatísticas disponíveis, a situação da indústria brasileira e acho que o tema é discutido com superficialidade. Há um certo nervosismo meio caipira em relação às indústrias brasileiras, porque se julga a totalidade de um setor heterogêneo, contraditório, usando-se os mesmos parâmetros.

Sem contar o lobby da Fiesp, que é fortíssimo e engana muita gente, em virtude de sua fantasia “desenvolvimentista”.

Nessa brincadeira, mistura-se a indústria de produção de tablets, que está apenas começando a se instalar no Brasil, estabelecendo um enorme parque industrial na região de Jundiaí, interior de São Paulo, com fábricas, por exemplo, de chinelos, ou camisetas, decadentes há muitos anos.

Toda empresa é importante e toda empresa gera empregos. Mas a vida é dura, e o setor industrial, mais que qualquer outro, deve se manter atualizado em relação às mudanças operadas na conjuntura global. A entrada da China revolucionou o cenário industrial do planeta. Antigamente, tênis era um artigo de luxo. Lembro que havia muito assalto de tênis no Rio de Janeiro, quase todos praticados por crianças e adolescentes pobres. Hoje em dia, não existe mais assalto de tênis na cidade, porque todos podem adquirir um a baixo custo. Esse é o lado bom da história. O lado ruim é que o barateamento dos tênis deve ter custado o fechamento de algumas fábricas pelo país.

Enfim, aos industriais cabe se manterem bem informados e saberem a hora de mudar, sofisticar, atualizar ou mesmo abandonar sua atividade, migrando para outra mais promissora.

Eu sinto falta de um estudo mais abrangente sobre a indústria brasileira. Não quero fechar os olhos para os problemas reais. Por outro lado, não quero pactuar com o pessimismo oportunista ou desinformado. Vamos, portanto, analisar a situação com frieza.

Em primeiro lugar, não se deve jamais confundir as oscilações sazonais da indústria, que na média geral é uma atividade bastante instável, porque ela se integra, para o mal e para o bem, à evolução tecnológica da humanidade. No momento em que uma nova tecnologia é inventada, ela torna a antiga obsoleta, levando à quebradeira de toda uma cadeia econômica. Produz desemprego numa parte, e gera empregos em outra. Este é um problema grave do capitalismo selvagem que vivemos. Os países desenvolvidos criaram sistemas de proteção trabalhista e social que permitem ao trabalhador sobreviver a essa realidade turbulenta e mutável. Para isso serve o seguro desemprego, uma instituição fundamental de uma economia de mercado moderna.

Daí voltamos para o problema da desindustrialização. Existe isso no Brasil? Há fábricas fechando, certo, mas até que ponto isso não reflete mudanças inevitáveis? A gente tem que botar na balança. Fecham-se fábricas de chinelo em Franca, mas surge um novo pólo de produção de tables e celulares em Jundiaí. O que é melhor?

Em relação ao mercado de trabalho, nunca estivemos em posição tão favorável, com um desemprego tão baixo. Então não é por aí que encontraremos argumentos para denunciar uma possível desindustrialização.

Há, por fim, um grande perigo quando o governo decide ajudar setores da indústria. Por exemplo, um dos setores mais importantes e avançados de nossa indústria é o de autopeças. É um setor que continua crescendo no Brasil, e a cada crise que passa, o governo o socorre a tempo, evitando que não perca seu dinamismo. No entanto, nossas cidades não suportam mais carros. Outras grandes cidades do mundo idem.

Claro que isso não implica em prever o fim da indústria de autopeças, porque as frotas atuais terão de ser renovadas. No entanto, é óbvio para qualquer um que as metrópoles precisam regulamentar o uso do transporte individual no espaço urbano, e investir mais no coletivo. Uma profunda reforma no transporte público de São Paulo, por exemplo, que tirasse das ruas uma grande quantidade de carros, certamente iria influenciar negativamente nas vendas de veículos da região. As estatísticas começaram a mostrar dados negativos. Os jornais estamparão manchetes apocalípticas, e as centrais sindicais também pressionarão o governo para aumentar os incentivos ao segmento. No entanto, neste caso, uma queda na venda de carros particulares poderia ser um bom sinal, desde que atrelada a um processo de melhora do transporte coletivo numa determinada região metropolitana. E os incentivos do governo, em vez de serem drenados para uma indústria cuja estagnação, antes de ser negativa, é um processo natural e inevitável (e até positivo), deveriam ser destinados a outro setor em ascensão, como as fábricas de peças e acessórios para trens urbanos. Os empregos que deixariam de ser gerados nas indústrias automobilísticas, seriam-no nas indústrias ferroviárias.

Eu já li mais de uma vez o clássico Formação Econômica do Brasil, do Celso Furtado, no qual ele descreve como o governo brasileiro, durante muito tempo, manipulou o câmbio para beneficiar os produtores de café, tendo como desculpa a manutenção do emprego. Furtado justifica a ação do governo neste sentido, que teria sido legítima, pois evitou um drama social de maiores proporções. No entanto, o preço pago também foi alto. Os subsídios, as dívidas bondosamente anuladas, o câmbio manipulado, levaram os cafeicultores a produzirem muito mais café do que o mundo necessitava, de maneira que em 1930, Vargas não teve outra saída senão incinerar quase 100 milhões de sacas de café. Ou seja, jogou fora café suficiente para a demanda mundial de dois anos.

É evidente que isso é errado. Hoje, continuamos sendo os maiores produtores e exportadores de café do mundo, fechamos o ano de 2011 com déficit comercial no segmento de café torrado. Ou seja, além de estarmos reduzindo nossas vendas do produto industrializado, estamos elevando a sua importação. Neste caso, contudo, seria ridículo que o governo resolvesse a distorção impondo medidas protecionistas à importação de café torrado. O problema não está na importação, e sim na falta de competência do setor cafeeiro, que jamais se empenhou verdadeiramente em ampliar as exportações de café torrado e moído. Não é por falta de apoio governamental. Desde a gestão FHC, passando por Lula e agora com Dilma, e incluindo aí também os governadores do estados produtores, o poder público sempre se mostrou interessado e disponível para ajudar o setor a ampliar a exportação de café torrado. O setor é que não se interessa.

Por outro lado, devemos analisar as situações sempre com muito cuidado, evitando julgamentos apressados. O consumo de café torrado no Brasil tem crescido de maneira tão vigorosa nos últimos anos, que muitas torrefadoras, mesmo pequenas, que tinham interesse em exportador o produto, acabaram focando suas energias no abastecimento do mercado doméstico. Isso aconteceu também com outros segmentos da indústria. Isso explica em parte, mas não justifica completamente.

Esta semana, eu fiz um post analisando o último relatório da CNI sobre o faturamento da indústria. Ele veio bem a tempo, porque eu já estava ingressando no que chamarei de “coro dos descontentes”, que no Brasil é muito mais organizado do que seu oposto. Esse coro é especializado em transformar uma queda de 0,01% no índice de produção industrial numa prova de que o apocalipse está próximo, mesmo que aquele mesmo índice tenha crescido 200% em 20 anos. Esse é um coro que une esquerda e direita, todos repetindo bordões. Um deles é a queda da participação na indústria no PIB brasileiro. A queda da participação da indústria no PIB só seria negativa se ela se desse para o setor primário da economia. Como ela se dá para o setor de serviços, então representa, em verdade, uma sofisticação natural da economia brasileira, repetindo um processo pelo qual já passaram todas as nações desenvolvidas, mormente nos últimos tempos, em que o setor de serviços passou a englobar as atividades mais avançadas da economia contemporânea, como a produção de softwares, conteúdos, patentes científicas, além da cada vez mais gigantesca e poderosa indústria do entretenimento.

Enfim, nesse post sobre o relatório da CNI (cuja íntegra eu acabei de liberar para não-assinantes), eu escrevo sobre a minha supresa em constatar, através do relatório da (insuspeita, porque também interessada em pintar um quadro negativo e obter com isso mais facilidades do governo) CNI, que o faturamento das indústrias brasileiras experimentou um forte crescimento em 2011, com ênfase nos setores mais avançados e estratégicas: máquinas e equipamentos; máquinas e materiais elétricos; e materiais eletrônicos e de comunicação.

 

Repare que o crescimento destes setores foi bem superior ao crescimento do PIB no mesmo período, de maneira que se pode dizer que eles ganharam participação na economia.

É importante a gente avaliar o faturamento, talvez mais ainda do que a produção física, por razões óbvias: no capitalismo, o que vale é o capital. Se minha fábrica de guarda-chuva vende 0,1% menos unidades do que no ano anterior, mas seu faturamento cresce 11%, isso é motivo de comemoração. Eu passei a vender guarda-chuvas mais caros, com maior valor agregado.

Por fim, estudando os números da indústria e lendo tudo que podia a respeito nos jornais, eu descobri que a forte queda no setor de papel e gráfica em 2011, que influenciou negativamente toda a produção física nacional, se deu por um motivo muito óbvio e simples. Em 2010, houve eleições majoritárias, que aplicaram uma gigantesca quantidade de recursos em folhetos, cartazes, banners, faixas, santinhos, etc. É claro que, em 2011, o setor apresentaria queda, embora eu admita que não saiba ao certo onde ficam os limites entre serviços e indústria para este setor.

Outra injustiça constante que vemos nas análises sobre a economia brasileira reflete uma visão esnobe em relação ao agronegócio brasileiro. A especialização econômica é um imperativo da economia internacional. Adam Smith já ensinava isso. Os países não tem recursos ilimitados, tanto em termos financeiros quanto em mão-de-obra. Como o Brasil se tornou o maior produtor e exportador mundial de uma série de produtos agropecuários, era inevitável que grande parte dos recursos financeiros e humanos do país fossem destinados à criação de indústrias específicas. A exploração e exportação de produtos básicos não é mais como antigamente. Hoje requer uma razoável quantidade de tecnologia, e o Brasil é reconhecidamente líder nesse assunto. Nossos frigoríficos, granjas, silos para soja, processadores para café, são modernos. Nossas lavouras possuem produtividade campeã no mundo. Ainda pecamos no uso excessivo de agrotóxicos, mas temos uma Embrapa, empresa de pesquisa agropecuária avançadíssima, que produz, sem necessidade de experiências transgênicas, espécies naturais resistentes à doenças e pragas, reduzindo substancialmente a necessidade de uso de pesticidas e herbicidas para vários produtos.

Há indústrias ainda vinculadas à sigla de “produtos básicos”, portanto, que agregam bem mais tecnologia do que outras classificadas na de “manufaturados”. Um frigorífico moderno tem mais tecnologia do que uma fábrica de chinelos, por exemplo. No entanto, quando aumentamos a exportação de carnes e reduzimos a de chinelos, as estatísticas irão dizer simplesmente que aumentou a participação dos produtos básicos na balança comercial.

 

Ilustração da capa e no alto do post: Nilton Pinho, Só o Gênio Enxerga o Óbvio [frase de Nelson Rodrigues]

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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elson

22 de janeiro de 2012 às 06h02

A história ensina que quem não se aperfeiçoa , investe em tecnologia ou muda de ramo é o caso da Kodak , que pediu concordata recentemente . Essa empresa focou seu negócio em um produto obsoleto enquanto outras empresas partiram para a produção de maquinas fotográficas digitais .
No caso da Kodak , nem com incentivos governamentais a empresa continuaria funcionando .

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