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Folha cria guerra Brasil X Irã

Por Miguel do Rosário

24 de janeiro de 2012 : 20h52

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Preparem-se! Em breve mísseis iranianos estarão caindo sobre Ipanema! A Folha de São Paulo anunciou, em manchetes garrafais, que a guerra já começou!

A íntegra da matéria vai no final do post. Confiram a manchete da matéria na página interna:

Muito grave a acusação do funcionário iraniano. Fico imaginando a reação dos leitores de jornal. A maioria não gosta mesmo do Irã e acha até bom que o Brasil se afaste deste país-encrenca. Mas a oposição de esquerda ficará contente de ver a confirmação, em matéria da Folha, de sua tese de que Dilma rompeu a política externa de Lula. O problema, mais uma vez, é a fonte da notícia.

A notícia é simplesmente uma mentira. O entrevistado, Ali Akbar Javanfekr, não é o porta-voz de Mahmoud Ahmadinejad. A sua opinião não é a opinião oficial do Irã. Ele não é o Irã.

O New York Times, em matéria repercutindo a Folha, diz  que Javanfekr apenas “trabalhou” como conselheiro de mídia para Ahmadinejad. E questiona o peso da opinião de Javanfekr em seu país, visto que ele foi condenado, recentemente, a um ano de prisão por insultar o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

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Pela matéria, vê-se além disso que o cara caiu numa pegadinha. Ele disse duas frases, certamente em caráter reservado, sem ideia de que se converteriam em manchete e numa quase crise diplomática.

A Folha poderia dizer “Funcionário iraniano ataca diplomacia brasileira”. Ao dizer que “O Irã  ataca”, ela extrapolou, dando ao particular um caráter universal. É como se um repórter iraniano viesse ao Brasil, levasse um dos diretores da Agência Brasil para um bar, e arrancasse dele, no meio da conversa, duas frases críticas ao governo Ahmadinejad. O sujeito volta ao Irã e manda estampar manchete na primeira página.

BRASIL ATACA DIPLOMACIA IRANIANA

O entrevistado é figurinha carimbada na Folha. Os repórteres já descobriram que Javanfekr é um falastrão, seguramente um machista que não vê com bons olhos uma mulher no poder (em sua recente vista à América Latina, Ahmadinejad não visitou Brasil nem Argentina, ambos governados por mulheres), e que é fácil arrancar dele declarações chauvinistas e desrespeitosas contra Dilma.

Para se ter uma ideia de quem é esse sujeito, lembro-vos que, no Irã, ele representa aquela corrente que defende o apedrejamento de mulheres, que não houve Holocausto e que não existem gays em seu país.

Trecho de entrevista que o mesmo cara deu à Folha meses atrás:

É verdade, como diz o presidente Ahmadinejad, que não há gays no Irã?
Não temos.

É o único país do mundo que não tem gay?
Na República Islâmica do Irã, não há.

 

E o cara gosta de xingar todo mundo, não é só a Dilma não. Se o cara vai ser preso por ofender a maior autoridade religiosa de um regime teocrático, como a Folha pode afirmar tão peremptoriamente – a ponto de transformar isso na manchete do jornal – que as duas frases que ele soltou numa conversa ao telefone representam a opinião oficial do Irã?

Para cúmulo do non-sense, o artigo da Folha inicia lembrando que o embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, afirmou, recentemente, que a relação entre Irã e Brasil continua tão boa hoje quanto na gestão do presidente Lula.

A manchete bombástica serviu para desviar um pouco a atenção, pelo menos para seus leitores, da barbárie acontecendo em São José dos Campos. Não há nenhuma guerra entre Irã e Brasil, mas sim entre o governo de São Paulo e seis mil cidadãos indefesos, despejados brutalmente de suas casas.

A Folha constrói uma verdadeira realidade virtual, e temos que tomar muito cuidado para não cair na armadilha. Lamentável (e um tanto ridículo) será ver membros da esquerda radical usando as mentiras da Folha para legitimar suas teses.

A famigerada ruptura na política externa sempre foi uma grande falácia. Os corpos diplomáticos continuam os mesmos. Para haver uma ruptura, teria de haver uma mudança radical na equipe, não?. Pois não houve. Antonio Patriota, o atual chanceler, era secretário do Amorim, e Marco Aurélio Garcia permaneceu como assessor internacional da presidente. A nossa embaixadora na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, diplomata brilhante, foi nomeada em 2007 por Lula e continua lá até agora. Até o Celso Amorim voltou para o governo, agora é ministro da Defesa, uma função naturalmente com importantes conexões com a diplomacia.

Ou seja, não mudou nada em nossa política externa. Não sou apenas eu que o digo. A BBC Brasil entrevistou vários analistas e chegou à mesma conclusão.

Na matéria do NY Times, o repórter entrevista Tovar da Silva Nunes, um dos altos figurões do Itamaraty, o qual afirma que as relações entre os dois países permanecem “quentes”, lembrando que houve um encontro em setembro entre Antonio Patriota e Ali Akbar Salehi, ministro de relações exteriores do Irã. Nunes afirma ainda que o Brasil continua se opondo às sanções contra o Irã. O próprio Patriota teve que passar a segunda-feira inteira tentando apagar o incêndio, repetindo de manhã a noite, que as relações entre Brasil e Irã permaneciam excelentes.

Ao mesmo tempo, porém, mudou tudo, visto que Dilma não é um poste. Ela tem suas diferenças em relação à Lula. A política externa de Dilma enriqueceu a linha traçada por Lula, ao dar transmitir a imagem de uma preocupação maior para com as questões envolvendo direitos humanos. Isso tem a ver com a nossa tradição democrática e também com a obrigação moral que Dilma sente (em virtude de sua história, ela mesmo uma vítima na juventude) em lutar contra toda forma de tortura, seja nos EUA, seja no Irã.

Entretanto, os jornalões simplesmente varreram para debaixo do tapete, e continuam mantendo-a lá, a notícia de que o Brasil se recusou a condenar o Irã na ONU em dezembro do ano passado.

 

Ou seja, durante esse tempo todo, o Brasil manteve a mesma linha diplomática. Montou-se um carnaval só porque a Dilma disse uma coisa óbvia em Nova Yorque, ainda antes de assumir, de que era “contra o apedrejamento de mulheres”. A mídia  deu início a um batuque enlouquecido e absurdo sobre “ruptura” com a política externa de Lula, discurso logo abraçado pelos coxinhas da esquerda nervosa.

Ah, a matéria fala em problemas com o comércio exterior, retaliação, etc, fazendo uma série de elocubrações sobre dificuldades que alguns exportadores brasileiros começaram a enfrentar no Irã. Ora, não faria mal ao repórter lembrar que a ONU aprovou duras sanções contra o Irã, e que as grandes multinacionais, pressionadas pela Casa Branca, interromperam suas compras de produtos iranianos. Essas mesmas multinacionais estão presentes no Brasil e são elas que exportam produtos brasileiros para o Irã e importam produtos iranianos para o Brasil. A queda na importação de produtos iranianos pelo Brasil sofreu uma queda brutal por conta disso, de US$ 123 milhões em 2010 para US$ 33 milhões em 2011. Talvez alguma autoridade  iraniana ache que tem o dedo do governo brasileiro nesse recuo. No Irã, tudo é ligado ao Estado, de um jeito ou outro. Mas aqui não. O governo não tem como obrigar os importadores a comprarem produtos iranianos. Com essa redução, é normal que o Irã reveja suas estratégias de comércio exterior, com vistas a valorizar países não tão vulneráveis às sanções econômicas da ONU. Não é retaliação, é sobrevivência.

Dito isso tudo, eu sempre disse que o Irã tem uma diplomacia tosca. O próprio Lula repete sempre a história de que perguntou a Ahmadinejad porque diabos que ele dizia que não houve holocausto, quando todo mundo sabe que houve. Ora, a seu jeito franco e amistoso, Lula chamou Ahmadinejad de burro.

O Irã é a bola da vez. E a mídia brasileira cumpre seu papel de subsidiária dos mass media norte-americanos. Muito conveniente, para os objetivos do Pentágono, produzir uma intriga entre Irã e Brasil, de quebra pintando o Irã como o país malvado que arruma briga com um país tão legal e pacífico. A matéria, como já mostrei acima, ganhou destaque no New York Times, sendo que no jornalão americano, há bem mais ponderações sobre o valor da opinião de Javanfekr. A Folha consegue ser mais realista do que o rei.

 

 

FOLHA

Irã ataca diplomacia de Dilma e diz que Lula faz muita falta

Porta-voz do presidente Mahmoud Ahmadinejad diz que Dilma destruiu anos de boas relações com país

Empresas brasileiras relatam que irritação iraniana com mudança de atitude do governo afeta comércio bilateral

SAMY ADGHIRNI, DE TEERÃ

O embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, disse em recente entrevista que a relação com o Brasil continua tão boa no governo de Dilma Rousseff quanto foi na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas o tom que predomina em Teerã é bem diferente.

Autoridades iranianas enxergam claro distanciamento e já há sinais pouco amistosos em direção ao Brasil.

“A presidente brasileira golpeou tudo que Lula havia feito. Ela destruiu anos de bom relacionamento”, disse à Folha na quarta-feira, por telefone, Ali Akbar Javanfekr, porta-voz pessoal do presidente Mahmoud Ahmadinejad e chefe da agência de notícias estatal Irna.

“Lula está fazendo muita falta”, afirmou, numa referência à opção de Dilma, no cargo desde janeiro de 2011, de dar menos ênfase ao Irã.

Javanfekr corre risco de ser preso por supostas ofensas ao líder supremo, Ali Khamenei. Mas o porta-voz ainda é descrito pelo “New York Times” como “uma das mais fortes figuras para divulgar recados [do Irã].”

BARREIRAS

A irritação iraniana também se nota nas recentes barreiras contra exportadores de carne brasileira.

A União Brasileira de Avicultura afirma que as vendas de frango para o Irã, em alta até outubro, passaram a ser vetadas sem justificativa.

Já a multinacional brasileira JBS relata ter tido milhares de toneladas de carne bovina retidas por três semanas num porto iraniano.

A carga só foi liberada, dias atrás, depois que um representante foi despachado às pressas para Teerã. Importadores iranianos de carne relataram à Folha que Ahmadinejad enviou carta à alfândega ordenando que diminua a entrada de cargas do Brasil.

O caso é seguido com preocupação pelo Itamaraty, que garante não haver mudança na agenda com o Irã.

Mas, aos olhos de Teerã, a guinada sob Dilma ficou clara no voto na ONU ocorrido em março a favor de uma investigação sobre direitos humanos no Irã. Lula rejeitava pressionar os iranianos.

O Irã também lamenta o fato de o Brasil ter abandonado esforços diplomáticos para aliviar a pressão sobre o programa nuclear iraniano, suspeito de buscar a bomba atômica -o que Teerã nega.

Em 2010, Lula costurou com a Turquia um acordo, assinado em Teerã, para permitir que o Irã trocasse parte de seu estoque de urânio por combustível nuclear. Mesmo atendendo a pedidos dos EUA, o pacto acabou rejeitado pelas potências.

Por fim, o Irã se ressente do desinteresse brasileiro em promover reuniões bilaterais.

Em recente giro latino-americano, Ahmadinejad, ao contrário de 2009, não passou pelo Brasil. Não houve convite nem o Irã sentiu que caberia proposta de visita.

O embaixador Shaterzadeh menciona uma viagem de Ahmadinejad ao Brasil neste ano. Mas a Folha apurou que o iraniano deve visitar o país no âmbito da cúpula Rio +20 sobre temas ambientais, para a qual todos os chefes de Estado e de governo do mundo foram convidados.

Retaliação iraniana desacelera comércio

DE TEERÃ
Se persistirem os obstáculos impostos aos exportadores brasileiros, o intercâmbio Brasil-Irã cairá em 2012, revertendo uma alta constante observada nos últimos anos.

Uma eventual queda afetaria principalmente o Brasil, já que as importações de produtos iranianos são irrisórias na corrente comercial.

De US$ 1,1 bilhão em 2008, as trocas saltaram para cerca de US$ 2,3 bilhões em 2011, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Mas o ritmo do avanço despencou no ano passado, num reflexo das dificuldades nas exportações relatadas pelas multinacionais brasileiras de carne, que respondem por cerca de um terço das vendas diretas ao Irã.

“Desde outubro de 2011, os importadores iranianos não têm obtido licenças de importação junto ao governo do Irã nem mesmo conseguido utilizar as licenças que recebem”, diz Adriano Zerbini, gerente de relações com o mercado da União Brasileira de Avicultura.

“Isso prejudica o exportador brasileiro, pois gera incerteza no curto e médio prazos”, afirma Zerbini.

Autoridades iranianas reclamam do saldo amplamente desfavorável na corrente comercial e buscam maneiras de aumentar as exportações em direção ao Brasil.

Mas além das aparentes dificuldades na esfera política, o comércio bilateral deve sofrer também com a intensificação das sanções financeiras ao Irã, que inviabilizariam remessas entre bancos iranianos e estrangeiros.

(SA)

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Marola1

25 de janeiro de 2012 às 01h45

Tem dedo de sionista nessa matéria. Tudo que o Irã fez até agora em termos de programa nuclear está dentro das normas do TNP. O Brasil, como o Irã, não quer assinar o tal protocolo adicional, no que faz muito bem. Tem um bom artigo na Foreign Policy sobre as razões do Irã e o que realmente está em jogo no confronto entre os EUA/Israel + o séquito de marionetes dos EUA na Europa e o Irã, vale a pena dar uma olhada.
http://www.foreignpolicy.com/articles/2012/01/19/

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