Analista da Ideia fala sobre “voto útil” dos eleitores de Ciro a Lula no 1° turno

Mídia constrangida

Por Miguel do Rosário

30 de março de 2012 : 14h06

(Ilustração de Jonathan Meese).

Nada mais humano do que o prazer de ver um fariseu, um falso moralista, se estrepar! Os últimos dias, então, tem sido uma verdadeira catarse, uma fonte inesgotável de diversão, apesar do travo amargo na boca que sempre fica ao constatar o grau elevado de corrupção nas mais altas instituições nacionais.

O Globo de hoje vem com mais uma saraivada de denúncias contra Demóstenes. Diante do cenário de destruição em que já se encontrava a reputação do senador, as novas revelações me lembraram aqueles ataques americanos ao Afeganistão, em que víamos mísseis de milhões de dólares caindo sobre choupanas miseráveis que não valiam um centavo.

O ataque foi completo. Bom Dia Brasil, capa no jornal, página 3 inteira e boxs de conversas.

 

Dessa vez não é a netinha falando com Sarney pra arrumar emprego pro namorado. São conversas pesadas e diretas sobre negócios escusos, tráfico de influência, alteração de leis para beneficiar um criminoso.

Diante disso, não deixa de ser curioso observar o tratamento carinhoso concedido por Merval Pereira e Dora Kramer a este indivíduo, em suas colunas publicadas hoje (reparem nos negritos, meus):

Merval:

O caso do senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, vem atraindo a atenção não apenas do mundo político, mas também dos meios artísticos e psicanalíticos. Outro dia escrevi que o senador havia criado um personagem para si próprio, e o ator Antonio Pitanga me disse que está fascinado pelas facetas desse personagem e pela capacidade do senador de assumir um papel tão complexo quanto este, de defensor da moral e dos bons costumes, enquanto, por baixo do pano, mantinha uma relação promíscua com um contraventor.

Dora:

Com a reputação irremediavelmente ferida devido à proximidade com um notório cliente da Justiça dito empresário de jogos, o senador Demóstenes Torres não tem outro jeito a não ser encerrar por aqui sua curta carreira de político.

Até em nome dos muitobons serviços prestados ao mandato –em diversos campos, com destaque ao papel dele em prol da aprovação da Lei da Ficha Limpa –, o senador tem um dever de coerência: aplicar a si o mesmo rigor ético que adotou para tudo e para todos.

Lamentável que um parlamentar de qualidade tenha a trajetória interrompida enquanto outros envolvidos em episódios tão ou mais graves, e muito menos qualificados continuem por aí, mas o gesto da retirada serviria até para marcar a diferença.

Ambos erram feio ao insinuarem que o único crime de Demóstenes era “manter relações promíscuas com um notório cliente da Justiça”. Demóstentes é um criminoso muito pior que Carlinhos Cachoeira, isso sim, porque enganou o povo que votou nele! E enganou a República! Seu crime não era ser amigo de Carlinhos, e sim ser cúmplice de inúmeros crimes, de interferência na Justiça, tráfico de influência, corrupção, etc, etc.

*

Enquanto isso, Dilma rebate a imprensa como somente uma mulher saberia fazer. Com gentileza, suavidade, porque não convêm ser agressivo. Ontem, no Jornal Nacional, a presidente falou sobre redução da carga tributária, melodia para os ouvidos de uma classe média que hoje é maioria da população brasileira, e aplicou um suave tapinha de veludo nos repórteres, ao responder sobre a crise na relação entre Executivo e Congresso. A crise é tão grande que o Congresso aprovou nos últimos dias a Lei da Copa e as novas regras de aposentadoria do funcionalismo público, disciplinadamente. Base governista e oposição, todo mundo votando bonitinho em prol do país. Ou seja, a crise não era tão crise assim.

Dilma talvez não seja uma boa tuiteira, como alguns sonhavam que ela fosse, mas talvez venha ser conhecida, no futuro, como uma boa presidente.

*

Rola uma tese meio absurda na internet segundo a qual Cachoeira teria planejado o mensalão. Ele pode ter articulado, aí sim, as armadilhas que produziram os primeiros escândalos. Mas o mensalão foi um escândalo de caixa 2 somado à criação de atmosfera midiática, onde se botou no mesmo saco todos os crimes ou deslizes cometidos por petistas desde sua fundação. Não se limitou ao caixa 2 da campanha de 2002. Os dólares na cueca daquele assessor de deputado, por exemplo, era um caso à parte, mas entrou no bolo do mensalão. O Land Rover doado por uma empresa ao Silvio Pereira, idem. O momento era propício, porque havia um grande tensionamento político à esquerda (muito mais que hoje), por causa do sentimento de que o PT teria “traído” seus princípios e ideais. Somente nos anos seguintes, quando as realizações sociais vieram à tôna e os militantes pararam de se informar apenas através da imprensa, é que se viu que, ao contrário de trair seus princípios, o governo Lula havia deflagrado um processo de surpreendentes transformações sociais.

*

Lula não aguentou esperar e já começa a voltar efetivamente a vida política pública (a vida política não pública, com reuniões privadas, nunca foi interrompida), dando entrevista à Folha. É uma boa entrevista, sobretudo do lado humano. Do lado político, cabe notar apenas a sua disposição de ajudar Dilma Rousseff e de lutar por sua reeleição, caso Dilma queira segurar o rojão por mais tempo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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15 comentários

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alex

01 de abril de 2012 às 19h40

CARTACAPITAL “SOME” DAS BANCAS EM GOIÂNIA

Medo de quê?

01.04.2012 16:53

O estranho sumiço de CartaCapital em Goiânia
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“A fotocópia da matéria custa cinco reais, quer que eu reserve? Não tenho mais como tirar outra, porque a tinta da máquina acabou”, oferece, por telefone, a vendedora de uma revistaria de Goiânia. CartaCapital ligava para saber se o estabelecimento ainda tinha em estoque a edição 691, que traz em sua capa reportagem sobre os laços dos negócios ilegais do bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres e o governador de Goiás, Marconi Perillo, identificados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo.

A revista, que teve acesso exclusivo ao relatório da operação da PF, recebe desde a manhã deste domingo 1 inúmeras mensagens em seu portal e contas nas redes sociais Twitter e Facebook a alertar sobre a estranha dificuldade em encontrar a edição nas bancas da capital goiana.

Matéria completa sobre o “sumiço” no site da CartaCapital

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Leonardo

31 de março de 2012 às 20h00

Interessante a postura da Rede Globo sobre Demóstenes/Cachoeira… Pra mim indica uma coisa: a RG viu sua concorrente (Abril) em maus lençóis e está tramando engolir o público cativo da Veja, destroçando os Civita… Bem, quanto mais esses cães hidrófobos midiáticos se digladiarem, melhor.

E isso, na minha humirde opinião, tem o dedinho da Dilma também, mandou pegar pesado e revelar a podridão escondida do Demóstenes Maçaranduba/Veja (principais críticos do governo) para mostrar quão a alternativa é pior… Maquiavel neles!

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Jueli Cardoso

31 de março de 2012 às 19h21

Miguel, muito boas suas observações, porém é preciso ficar atento às interpretações do jornalista Luis Nassif sobre o assunto, no que se refere às ligações umbilicais entre Cachoeira e a Veja. Segundo ele, quando o Cachoeira chama seu subordinado às falas por manter contatos individuais com o Policarpo da Veja, ele está insinuando que a "coisa" é deverá ser tratada de chefe para chefe, assim, entre ele Cachoeira e o Civita. Isso demonstra então que esta relação entre criminosos para derrubar o governo Lula se deu logo após o decreto do governo que confirma a proibição de jogos de bingos e outros. Podemos afirmar ainda que essa relação entre imprensa e bandidos neste caso é muito pior do que o caso Murdoch.

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    Miguel do Rosário

    01 de abril de 2012 às 02h16

    Melhor esperar mais dados antes de acusar qualquer pessoa ou empresa. Já tem muita polícia e promotor dando conta do recado. Além do mais, não podemos acreditar somente nas bravatas do Cachoeira ao telefone. Mas o Nassif tem razão: há algo de muito podre no reino da Dinamarca. Parece que a faxina da Dilma esbarrou nos fariseus. Deve ter muita gente com insônia em Brasília.

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Elson

30 de março de 2012 às 20h12

Miguel , como já perguntei , no ultimo post : E as relações do reporter da Revista Veja com o bicheiro , quando é que a grande mídia pretende mostrar ?
Esse negócio da armação para dar um golpe e derrubar o Lula , já foi demonstrado em uma entrevista dada por Gilberto Carvalho a uma emissora de tv , em que ele diz que o momento mais difícil do Governo Lula foi quando , segundo suas palavras tentaram o "golpe" do mensalão .
Nossa mídia só engana aqueles que são direitistas por natureza , pois que tem um mínimo de discernimento procura o contraditório .

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sergiopamplona

30 de março de 2012 às 17h45

Puxa, a Catanhede achar "lamentável que um parlamentar de qualidade tenha a trajetória interrompida" é de lascar. Parece que ele foi vítima de um escorregão na banheira de casa, um triste acidente. Pôxa, o cara é assessor/sócio/consultor/empregado do bicheiro, se elegeu para prestar-lhes serviços, e ainda é "parlamentar de qualidade"? Só se for de qualidade 0, faltou o número. Ela é tão cega pela sua própria ideologia que nem viu absurdo que escreveu.

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    Elson

    30 de março de 2012 às 20h15

    Só se for a qualidade de ser hipócrita , oque essa Catanhede precisa é consultar um oftalmologista ou um neurologista , pois ela está vendo , porém nada enxerga .

    Responder

baixadacarioca

30 de março de 2012 às 17h40

Alguém cantou "tudo isso acontecendo e eu aqui na praça…". Gilberto Dimenstein cobrando de Lula uma voz contra o cigarro. Em que mundo essa gente vive?…

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paulao

30 de março de 2012 às 17h39

Otimo post, parabens

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Adriano Matos

30 de março de 2012 às 14h59

“Nada mais humano do que o prazer de ver um fariseu, um falso moralista, se estrepar!” Você é mau, Miguel. :)

Reparaste que o sargento da aeronáutica Dadá, citado nas interceptações telefônicas – quando tratado do assunto Infraero, é o mesmo tomado como testemunha do delegado Onézimo no auge da campanha de 2010 para produzir a tese de “núcleo de espionagem do PT”?

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    Miguel do Rosário

    30 de março de 2012 às 15h06

    Olá Adriano, o nome me era familiar. Caramba, e a mídia, claro, não lembrou disso na matéria em que eu li. Bem lembrado! Como diria o jornalismowando, que babado!

    Responder

Helena Vargas

30 de março de 2012 às 14h19

A Dilma tá dando um show. Conseguiu devorar a mídia, e agora está com ela no estômago. Claro que é fantasiosa, e até desrespeitosa, a tese que ela mesmo entregou seus ministros à mídia. Só se fosse maluca. O que ela fez foi dar liberdade tanto para que eles se defendessem, como liberdade para que os órgãos de inteligência e a imprensa investigassem. É incrível a má vontade de setores rancorosos da esquerda contra a Dilma. Lula recebeu o Bush em 2003, logo a guerra no Iraque, deu entrevista à Veja, etc, e tudo bem. Dilma não pode fazer nada, segundo eles, teria que passar o dia inteiro no Twitter dando bom dia ao "povo vermelho" e repetindo clichês esquerdistas. Dilma não posa de esquerdista, ela faz um governo em prol dos mais pobres, assim como Lula. É assim que se faz! Assim ela faz um governo verdadeiramente de esquerda.

Abraço!

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    aracandrade130

    30 de março de 2012 às 14h46

    "É assim que se faz! Assim ela faz um governo verdadeiramente de esquerda. "

    Belo Monte, Código (des)Florestal, Privatização de Aeroportos, Kit anti-homofobia, MP 557.

    Certo!

    Responder

      Helena Vargas

      30 de março de 2012 às 15h04

      Outro dia, uma amiga voltou de uma viagem de 20 dias pela Amazonia. Ela me disse que a maioria dos lugares, nas cidadezinhas, estão com sprinter (ar condicionado último tipo), porque o calor na região é insuportável. O Norte do BR está crescendo a ritmo chinês. Belo Monte é uma necessidade, e o projeto, como será, bancado e organizado pelo Estado, e sob intensa vigilância estatal, legislativa e judiciária, terá seus impactos socioambientais amenizados. Vai gerar empregos e melhorar a vida local, não é mais como projetos da década de 70. Hoje a legislação é muito mais rigorosa, e a imprensa e blogosfera muito mais atuante.

      Vocês verdinhos tem uma visão folclórica dos indios e seus descendentes, querem vê-los para sempre desdentados, alcóolatras, sem emprego, sem estudo. Para vocês, basta que eles organizem uma dancinha uma vez por ano que acham maravilhoso. O Norte do Brasil é deficitário em energia, sabia? Precisa de eletricidade para continuar seu desenvolvimento, e Belo Monte é um projeto que impactará o mínimo possível o ambiente dentro da escala de energia que produzirá.

      É um projeto de um governo de esquerda sim.

      Teria argumentos similares para todos os outros itens, mas não tenho tempo. Me basta esse.

      Respeitosamente,
      Abraço

      Responder

Claudio Filho

30 de março de 2012 às 14h15

Olá, Miguel. Parabéns pelo blog, está cada dia melhor. Pois é, meu amigo. O Demóstenes, hein. Quando os demotucanos se envolvem em escândalo, aí sim eles mostram que são realmente intrépidos. Acho que isso tem uma questão ideológica. O sujeito foca suas energias apenas em prol de interesses privados, tem desprezo íntimo pela coisa pública, daí sua tendência a se envolver em corrupção.

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