Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Hildegard Angel na manifestação contra a ditadura

Por Miguel do Rosário

31 de março de 2012 : 15h24

A manifestação dos caras-pintadas diante do Clube Militar

Por Hildegard Angel, em seu blog.

Foi um acaso. Eu passava hoje pela Rio Branco, prestes a pegar o Aterro, quando ouvi gritos e vi uma aglomeração do lado esquerdo da avenida. Pedi ao motorista para diminuir a marcha e percebi que eram os jovens estudantes caras-pintadas manifestando-se diante do Clube Militar, onde acontecia a anunciada reunião dos militares de pijama celebrando o “31 de Março” e contra a Comissão da Verdade.

Só vi jovens, meninos e meninas, empunhando cartazes em preto e branco, alguns deles com fotos de meu irmão e de minha cunhada. Pedi ao motorista para parar o carro e desci. Eu vinha de um almoço no Clube de Engenharia. Para isso, fui pela manhã ao cabeleireiro, arrumei-me, coloquei joias, um vestido elegante, uma bolsa combinando com o rosa da estampa, sapatos prateados. Estava o que se espera de uma colunista social.

A situação era tensa. As crianças, emboladas, berrando palavras de ordem e bordões contra a ditadura e a favor da Comissão da Verdade. Frases como “Cadeia Já, Cadeia Já, a quem torturou na ditadura militar”. Faces jovens, muito jovens, imberbes até. Nomes de desaparecidos pintados em alguns rostos e até nas roupas. E eles num entusiasmo, num ímpeto, num sentimento. Como aquilo me tocou! Manifestantes mais velhos com eles, eram poucos. Umas senhoras de bermudas, corajosas militantes. Alguns senhores de manga de camisa. Mas a grande maioria, a entusiasmada maioria, a massa humana, era a garotada. Que belo!

Eram nossos jovens patriotas clamando pela abertura dos arquivos militares, exigindo com seu jeito sem modos, sem luvas de pelica nem punhos de renda e sem vosmecê, que o Brasil tenha a dignidade de dar às famílias dos torturados e mortos ao menos a satisfação de saberem como, de que forma, onde e por quem foram trucidados, torturados e mortos seus entes amados. Pelo menos isso. Não é pedir muito, será que é?

Quando vemos, hoje, crianças brasileiras que somem, se evaporam e jamais são recuperadas, crianças que inspiram folhetins e novelas, como a que esta semana entrou no ar, vendidas num lixão e escravizadas, nós sabemos que elas jamais serão encontradas, pois nunca serão procuradas. Pois o jogo é esse. É esta a nossa tradição. Semente plantada lá atrás, desde 1964 – e ainda há quem queira comemorar a data! A semente da impunidade, do esquecimento, do pouco caso com a vida humana neste país.

E nossos quixotinhos destemidos e desaforados ali diante do prédio do Clube Militar. “Assassino!”, “assassino!”, “torturador!”, gritava o garotinho louro de cabelos longos anelados e óculos de aro redondo, a quem eu dava uns 16 anos, seguido pela menina de cabelos castanhos e diadema, e mais outra e mais outro, num coro que logo virava um estrondo de vozes, um trovão. Era mais um militar de cabeça branca e terno ajustado na silhueta, magra sempre, que tentava abrir passagem naquele corredor humano enfurecido e era recebido com gritos e desacatos. Uma recepção com raiva, rancor, fúria, ressentimento. Até cuspe eu vi, no ombro de um terno príncipe de Gales.

Magros, ainda bem, esses velhos militares, pois cabiam todos no abraço daqueles PMs reforçados e vestidos com colete à prova de balas, que lhes cingiam as pernas com os braços, forçando a passagem. E assim eles conseguiram entrar, hoje, um por um, para a reunião em seu Clube Militar: carregados no colo dos PMs.

Os cartazes com os rostos eram sacudidos. À menção de cada nome de desaparecido ao alto-falante, a multidão berrava: “Presente!”. Havia tinta vermelha cobrindo todo o piso de pedras portuguesas diante da portaria do edifício. O sangue dos mortos ali lembrados. Tremulavam bandeiras de partidos políticos e de não sei o quê mais, porém isso não me importava. Eu estava muito emocionada. Fiquei à parte da multidão. Recuada, num degrau de uma loja de câmbio ao lado da portaria do prédio. A polícia e os seguranças do Clube evacuaram o local, retiraram todo mundo. Fotógrafos e cinegrafistas foram mandados para a entrada do “corredor”, manifestantes para o lado de lá do cordão de isolamento. E ninguém me via. Parecia que eu era invisível. Fiquei ali, absolutamente sozinha, testemunhando tudo aquilo, bem uns 20 minutos, com eles passando pra lá e pra cá, carregando os generais, empurrando a aglomeração, sem perceberem a minha presença. Mistério.

Até que fui denunciada pelas lágrimas. Uma senhora me reconheceu, jogou um beijo. E mais outra. Pessoas sorriram para mim com simpatia. Percebi que eu representava ali as famílias daqueles mortos e estava sendo reverenciada por causa deles. Emocionei-me ainda mais. Então e enfim os PMs me viram. Eu, que estava todo o tempo praticamente colada neles! Um me perguntou se não era melhor eu sair dali, pois era perigoso. Insisti em ficar, mesmo com perigo e tudo. E ele, gentil, quando viu que não conseguiria me demover: “A senhora quer um copo d’água?”. Na mesma hora o copo d’água veio. O segurança do Clube ofereceu: “A senhora não prefere ficar na portaria, lá dentro? “. “Ah, não, meu senhor. Lá dentro não. Prefiro a calçada”. E nela fiquei, sobre o degrau recuado, ora assistente, ora manifestante fazendo coro, cumprindo meu papel de testemunha, de participante e de Angel. Vendo nossos quixotinhos empunharem, como lanças, apenas a sua voz, contra as pás lancinantes dos moinhos do passado, que cortaram as carnes de uma geração de idealistas.

A manifestação havia sido anunciada. Porém, eu estava nela por acaso. Um feliz e divino acaso. E aonde estavam naquela hora os remanescentes daquela luta de antigamente? Aqueles que sobreviveram àquelas fotos ampliadas em PB? Em seus gabinetes? Em seus aviões? Em suas comissões e congressos e redações? Será esta a lição que nos impõe a História: delegar sempre a realização dos “sonhos impossíveis” ao destemor idealista dos mais jovens?

Abaixo imagens da manifestação e seus desdobramentos:

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

1 comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

David R.Silva

01 de abril de 2012 às 19h09

Miguel, que tristeza! A PM continua a mesma da Ditadura, um Horror a nível de Cidadania. Sabe, quando fundamos o primeiro Sindicato de Polícia Civil do País em 1989, e em outubro daquele ano deflagramos uma Grve Geral na Polícia Cil de Minas que durou até 13 de Janeiro de 1990, fui perseguido ao EXTREMO, tive meus milhares de Livros conviscados e tornou-se uma grande fogueira, e fui preso e Expulso da Polícia Civil, sobre o argumento que era VERMELHINHO. Em 13 de Janeiro de 1990 passei no vestibular pra cursar DIREITO, concorrir com 13X1 Vaga, na maior Universidade do interior de Minas, UBERABA, onde fora criado, nasci em Pedra Azul, fiquei entre os primeiros colocados, e tinha acabado de sair de uma negociação política com a Vice Governadora á época Júnia Marise do PDT, para o fim da Greve. A Posteriori, fui demitido e dezenas de companheiros perseguidos. Em eleição aberta na UNIVERSIDADE DE UBERABA, fui lançado como Candidato do Curso de Direito ás eleiçoes do DCE, não queria, me opus, estava emocionalmente fragmentado, a elite do Direito tinha richa política com ODONTO e ENGENHARIA, depois de muito, entrei na Luta. Fomos eleitos e quebramos um TABU de 50 anos na Universidade em eleições estudantis. Fiz uma Gestão, JUSTA, fizemos um Congresso, a seguir mudamos o Estatudo arcaico e permitimos que a chapa derrotada no pleito fizesse parte do DCE e assumisse o Comitê de Festas. Afinal, era o que o DCE fazia antes de NÓS. Foi um Sucesso. Só que sempre fui bom de nota, aí a Elite da Cidade passou a me respeitar não como Policial Civil Grevista, se bem que eu fizera a Primeira Greve de Fome da História de Minas, na Praça Principal de UBERABA, pois dezenas de companheiros da cidade, Policiais, tinham sido perseguidos. Os Jornais da Cidade, me tratava como POP STAR, hoje com visão Crítica do mundo me pergunto, como Jornais e Imprensa Conservadores de UBERABA me tratava com tanto respeito? Não me Criminalizava e nem a GREVE? UBERABA tem 300 mil Habitantes, não tem Favela,Meninos de rua, Mendingos….100 por cento de Infra Estrutura, Várias Universidades e Faculdades…, Mas existe um conservadorismo horrível da Igreja Católica. De tanta pressão política e ameaças, meus pais morreram, e nem pude ir ao enterro. Foi duro. Era muito Jovem. Fui o Primeiro Policial Civil de Minas a filiar ao PT, em 1990, antes era militante/simpatizante. Continuo filiado ao PT, e atualmente Presidente do Sindicato dos Detetives( Investigadores ) de Polícia do Estado de Minas Gerais. – SINDETIPOL/MG. Fiquei a chorar com essa crônica da Hildegard Angel, sei o que é essa DOR, ela transcende a razão humana, só os fortes pra ter essa sensibilidade de dimensão do sentimento do mundo. Estou na Luta. Desculpe-me pelo desabafo. de Belo Horizonte.

Responder

Deixe um comentário