Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Domingo sangrento

Por Miguel do Rosário

02 de abril de 2012 : 11h05

(Ilustração da capa: Jonathan Meese. )

 

Nunca uma citação caiu tão bem!

Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo. São Paulo, Epístola aos Romanos 2:1

São Paulo exortava aos cristãos recém-convertidos em Roma que não fossem fanáticos, que não condenassem ou julgassem os outros porque não conheciam a palavra de Cristo ou porque cometiam pecados. A tolerância de São Paulo foi uma genial estratégia de marketing. Dificilmente uma religião muito rígida seria bem sucedida na licenciosa sociedade romana. 

A exortação vale para o senador Demóstenes Torres, que hoje está sendo queimado vivo na pira da opinião pública nacional.

Ao falar assim, São Paulo reescrevia máximas do Antigo Testamento: “Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo” e “não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque”. Eclesiastes, 7.

Aplicado à situação que vivemos hoje, e mais precisamente ao caso Demóstenes-Cachoeira, eu interpreto o pensamento do Eclesiastes da seguinte maneira: não é que ninguém, político ou não, deva se eximir do combate à corrupção, mas sim que este combate deve ser focado no aperfeiçoamento das instituições. Condenações açodadas, levianas, feitas para se aparecer na mídia como um campeão da ética, como fazia Demóstenes, são típicas de fariseus e falsos moralistas.

O que assistimos agora, por exemplo, é a prova disso. A operação Monte Carlo, que prendeu Carlos Cachoeira e pegou Demóstenes, mostra a importância de uma Polícia Federal republicana, bem equipada e com boa auto-estima. A mídia até agora não fez nenhum editorial elogiando a PF, que inclusive cortou fundo na própria carne, prendendo delegados federais e servidores públicos. Ao contrário, só tem publicado artigos chorosos e lacerdistas sobre o tema,  falando em degeneração moral do país e outras xaropadas.

O Cafezinho, então, utiliza este espaço para fazer um cumprimento à Polícia Federal pelo excelente trabalho. Se o presidente fosse José Serra, o cumprimento continuaria o mesmo. Esperemos agora que o Supremo Tribunal Federal (STF) atue no sentido de ajudar a PF a combater a corrupção, e não acatar as chicanas dos advogados de Demóstenes para anular a investigação.

Analisando a mídia do final de semana e desta segunda-feira, vemos que Demóstenes já foi lançado aos leões. Nem vale a pena comentar. Tema mais candente é a descoberta de mais de 200 ligações entre Cachoeira e Policarpo Júnior, o principal repórter da Veja. O público ficou sabendo que Cachoeira era sua principal “fonte”. Com ajuda de espionagem ilegal, Demóstenes pautava a revista, e com isso acabava pautando as agendas políticas desta grande e (pelo jeito nem tão) viril nação brasileira!

O Nassif, um renhido admirador da Veja, fez um post exclusivamente sobre o assunto.

Paulo Henrique Amorim, do blog Conversa Afiada, tem desferido iradas críticas à incompetência do governo federal (mais especificamente na gestão Lula) ao não detectar que havia um conluio entre crime organizado, imprensa e oposição para aplicar um golpe político.

Concordo com PHA que o serviço de inteligência do governo é um tanto precário, mas talvez (espero) tenha melhorado. A operação Monte Carlo e a queda de Demóstenes são indícios de uma evolução. Só acho que PHA exagera um pouco a possibilidade de uma derrubada de governo. A mídia faz muito estardalhaço, cria uma atmosfera de crise e golpe, mas já se constatou que, hoje em dia, late muito mais que morde. Na hora da eleição, tanto no sufrágio popular quanto nas votações do Congresso, tem perdido sistematicamente. Um impeachment de um presidente só é possível quando há uma crise econômica muito grave e o titular estiver no ponto mais baixo de sua popularidade. Nunca foi o caso de Lula nem parece que Dilma sofrerá desse mal. Ao contrário, Dilma está engolindo e digerindo a mídia de oposição. Não vejo clima para golpe.

A guerra contra o conluio entre crime organizado e mídia precisa ser feita com frieza e objetividade. É preciso investigar detidamente o conteúdo do relatório da Monte Carlo, já disponível na internet, para ver se há mais alguma coisa de mais concreto envolvendo a Veja.

Volume 1Volume 2Volume 3.

De qualquer forma, foi uma diversão algo assustadora (como ver gladiadores se estraçalhando, na Roma Antiga) assistir a violentas guerras verbais entre blogueiros e seus exércitos de comentaristas. Os blogs 247, o de Reinaldo Azevedo, o Conversa Afiada e o de Luis Nassif, travaram uma disputa sangrenta neste domingo. O blogueiro da Veja parecia um psicopata furioso a defender Policarpo, atacando a tudo e a todos com sangue na boca.

Vale refletir, contudo, numa outra máxima de Eclesiastes : “Não te apresses no teu espírito a irar-te, porque a ira repousa no íntimo dos tolos.”

Investiguemos com a razão, não com o fígado. 

*

O Globo manchetou hoje uma denúncia de atrasos nas obras do PAC. Esse é o problema mais grave do Estado, a sua falta de preparo físico para lidar com o novo momento. Por isso, o PAC não é só um conjunto de obras; representa também uma transformação (mais lenta do que se gostaria, mas firme) da própria gestão. Essa é a razão, a meu ver, de Lula ter escolhido Dilma para sucedê-lo: pela consciência de Lula da magnitude desse desafio, e pelo temor que nenhum outro político teria condições de superá-lo. Se enfrentamos problemas com Dilma, reconhecida como uma gestora pública de competência excepcional até por seus adversários, exigentíssima e cultora do mérito, imagine como estaríamos nas mãos de outro chefe de Estado, mesmo que bem intencionado?

*

A Folha de hoje traz uma reportagem crítica ao PSDB em São Paulo.  Clique na imagem para ampliar. 

 

*

A mídia não deu nenhum destaque, porém, ao que parece ser um brutal abuso de poder e ataque à imprensa por parte de grupos ligados ao governador Marconi Perillo, também envolvido em suspeitas de participar do esquema do bicheiro Carlos Cachoeira: a denúncia de que a edição da Carta Capital foi inteiramente recolhida das bancas em Goiás. 

Aliás, vale a pena olhar reportagem de hoje na Folha, intitulada Todos os Homens de Cachoeira, onde o nome de Marconi aparece em destaque:

 

*

Hoje temos duas notícias econômicas bem positivas. Uma é um pacote do governo de ajuda à indústria, coisa de 20 bilhões em redução de impostos e incentivos. Apesar da minha tese de que não há nenhum processo em massa de desindustrialização, não nego que existem setores em crise, e que uma ajuda ao governo pode contribuir para que eles possam enfrentar melhor a concorrência asiática. Mesmo que o pacote não impeça o fechamento de fábricas, somente o fato de retardar este processo já representa um colchão social, porque dá tempo a trabalhadores, empresários e credores a fazerem uma transição menos traumática. 

A outra notícia é o anúncio da Cisco, fabricante de equipamentos para redes de comunicação, que vai investir R$ 1 bilhão no Brasil até 2015. A informação também não ajuda muito à tese de “desindustrialização”. 

*

Estou deixando os posts inteiramente disponíveis para não-assinantes porque estou fazendo uma reformulação do marketing do site. A pedidos de muita gente, vou baixar um pouquinho os preços das assinaturas mensais e simplificar a página de assinatura. 

Já atualizei a página de assinatura, reduzindo o preço da assinatura mensal para R$ 30 e da trimestral para R$ 90. A assinatura anual não muda porque já era promocional. 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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16 comentários

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Elson

02 de abril de 2012 às 21h02

Se Reinardo de dos' corgos defendeu o Policarpo Jr . é sinal que as coisas não vão bem lá pelos lados da Editora Abril .
Oque me incomoda é esse silencio da mídia tupiniquim em relação ao Policarpo Jr. , AO que parece ele foi cumplice de Cachoeira e Demóstenes .
A mídia não quer cruxificalo ,pois suas reportagens foram por ela reverberadas , seria uma confissão de culpa , acho ainda que a tese do golpe é válida , afinal , para quem deu tempo na tv em horário nobre para Rubinei Quícoli , que depois se desmentiu perante a justiça , admitir que foi pautado por um mafioso é muito constrangedor .

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    Miguel do Rosário

    02 de abril de 2012 às 21h04

    O lance do Rubnei foi podre, Elson. Eu considero um dos piores e mais baixos momentos do jornalismo brasileiro.

    Responder

Helena Vargas

02 de abril de 2012 às 19h59

Miguel, grandes empresas do setor de software também querem se instalar no Rio!
http://oglobo.globo.com/tecnologia/microsoft-pret

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Douglas O. Tôrres

02 de abril de 2012 às 17h56

Vou colocar aqui um comentário feito no blog do Paulo Henrique Amorim,de uma leitora,que virou post,é um alerta da grave situação institucional deste país :
Enviado em 01/04/2012
Realmente, não só a esquerda, mas até mesmo a direita precisa repensar a república brasileira. Um marginal (criminoso comum), um empresário de noticias e uma meia dúzia de políticos alugados.

Foi preciso bem mais para derrubar Goulart!!!

Tanto trabalho para uma democracia com 200 milhões de pessoas sucumbir a dez, talvez vinte? Alto lá!

A esquerda (repito pela vigésima vez), ainda não entendeu: construir ferrovia, ponte, até mesmo um sistema educacional melhor é coisa muito boa, sensacional, eu diria.

(…)

Cadê PT? Aproximamo-nos dos dez anos de poder e a cobrança virá violenta do seu próprio eleitor! Institucionalmente mudamos em que?

Não dá para dizer que foi modernizado um Estado em que uma gang das loiras + deputado Zé Mané + panfleto politico derruba uma candidatura eleita e legitima com inverdades!!

Do jeito que está, qualquer aventureiro cria um fato, uma “crise”, um “caos” e lá se vai a redistribuição de renda recorde. E o povo fica na m#$@%!!! De novo!!!!

(…)

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    Miguel do Rosário

    02 de abril de 2012 às 19h34

    Esse aprendizado é duro e lento. A direita tem conhecimento acumulado de séculos. A esquerda ainda é bem verde nisso tudo, e o pior é que, quando fica mais esperta, acaba se degenerando também. Enfim, acho que tem de ficar mais esperto é a sociedade civil, e termos instituições de combate à corrupção mais republicanas. Abraço.

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jean carlos

02 de abril de 2012 às 16h11

Caro Miguel, quando teremos um post seu esmiuçando a íntima ligação entre policarpo júnior ( um dos editores-chefes da veja ) e o ”professor ”( segundo demóstenes )carlinhos cachoeira ?? 200 ( duzentas) ligações entre eles( ou entre seus asseclas) certamente produziram um farto material para análise.

Aquele abraço ilustre miguel.

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    Miguel do Rosário

    02 de abril de 2012 às 19h32

    Olá Jean, eu te juro que se tivesse assistentes, daria prioridade total a este assunto, mandando fuçar as milhares de páginas à cata das transcrições desses telefonemas. Como não tenho, preciso ficar à espera que alguém ache alguma coisa. Eu mesmo já andei fuçando o relatório da PF, mas é muito extenso. Na verdade, a quantidade de ligações, em si, não é prova de nada. Apenas indício que Cachoeira e Policarpo eram quase íntimos, o que em si também não é crime. Já se sabe que Cachoeira esteve por trás de várias matérias da Veja, e sabe-se que algumas dessas (senão todas) lhe beneficiaram diretamente. Mas também isso não prova muita coisa. Todo delator tem interesse quanto delata. Aguardemos com paciência. De qualquer forma, a coisa já respingou bastante na Veja, em termos morais, agora todos sabem de onde vinham tantos furos. De bandidos. Abraço.

    Responder

Miguel do Rosário

02 de abril de 2012 às 14h29

No caso do Demóstenes, a política e moral era seu (falso) principal capital. Agora não é mais nada. Espero que seja preso, condenado e tenha seus bens bloqueados. Mas já estou plenamente satisfeito com sua condenação política e moral.

Responder

alex

02 de abril de 2012 às 12h09

ACORDÃO À VISTA!!!

“Todos os caminhos levam a uma gigantesca operação-abafa”

Blog Cidadania.com- 02/04/12 às 11h50
(http://www.blogcidadania.com.br/)

Chega ao BLOG informação de que Demóstenes estaria fazendo ameaças à mídia, aos seus pares do DEM e até a pelo menos um membro do STF no sentido de que, caso seja estraçalhado, levará muitos ex-amigos consigo para o cadafalso.

O senador bandido está disposto a tudo para não perder o mandato simplesmente porque, sem imunidade parlamentar, dificilmente deixará de ir fazer companhia ao seu amigão Carlinhos Cachoeira lá no PF Hilton.

Demóstenes estaria ameaçando revelar que veículos como a Veja saberiam de suas atividades criminosas e que nada revelavam porque ele os municiava com informações contra o PT, entre outros favores que lhes prestaria na “Câmara Alta”.

Enquanto isso, DEM, PSDB, editora Abril e Globo estariam propondo acionar sua bancada no STF para trocar a decapitação política de Demóstenes pelo adiamento do julgamento do mensalão, que deveria ocorrer em maio. Até porque, após o STF se pronunciar pela impunidade de Demóstenes, não teria como julgar o mensalão.

LEIA o post completo:
http://www.blogcidadania.com.br/

Responder

    Miguel do Rosário

    02 de abril de 2012 às 13h37

    Pode até ser que haja acordão, Alex. Mas a pior condenação de sujeitos como Demóstenes, é a condenação política e moral, e desta ele não escapou.

    Responder

      Márccio Campos

      02 de abril de 2012 às 13h59

      e a pergunta que tem que (sempre!!) ser feita:

      o quê faríamos nós se estivéssemos no lugar:

      do "colonista" da revista?
      do "chefe-da-sucursal"?
      do "testa-de-ferro" da revista?
      do "empresário-do-jogo"?
      do "senador-da-república"?
      do "brindeiro-gurgel"?

      Márccio Campos
      rio de janeiro

      Responder

      Jueli Cardoso

      02 de abril de 2012 às 14h16

      Não concordo com essa máxima de que "a pior condenação é a política e moral" porque para sujeitos como Demóstenes, que usavam do cargo para ganhar dinheiro, mesmo se associando a uma máfia, ou mesmo, antes, sendo fruto dela, o que vale mesmo (a eles) é o dinheiro. Busca maior de todos os bandidos. Eles não possuem moral. Fingem possuir para enganar a sociedade. Portanto condenação política e moral não é nada para eles. Vão continuar a enganar e trapacear de maneira subterrânea se não forem condenados e presos. Afinal o que mais importa é o dinheiro para ajuntar bens e propriedades, comprar mulheres bonitas com o brilho das riquezas!

      Responder

Miguel do Rosário

02 de abril de 2012 às 11h27

Rs, tá certo.

Responder

Mario Siqueira

02 de abril de 2012 às 11h16

Não concordo com a frase "O blogueiro da Veja parecia um psicopata furioso…"
Ele é um psicopata furioso.

Responder

    Márccio Campos

    02 de abril de 2012 às 13h12

    Mário, ele é uma triste figura… ("carimbada" – como se dizia antigamente das figurinhas de álbum que davam brindes)… se superando agora – inclusive!!!

    seria um sinal de que a água já chegou na linha da cintura da revista?

    Miguel,
    parabéns mais uma vez por tua postura: sempre tentando encontrar o ponto de equilíbrio dos assuntos nacionais.
    tenho 54 anos, mas só há pouco mais de uma década é que entendi que vivemos num país "montado" (made in usa) pra não funcionar como nação ('democracia' com 22 mil cargos de confiança do governo federal para nomeações!!! enquanto um povo ignorante "vota" como se estivesse numa sala de bingo…);
    nossa histórica fragilidade (país continental rico em reservas naturais e povo mantido ignorante e pobre, dividido em "capitanias hereditárias" e muitas câmaras municipais…) fica ainda mais evidente diante do "campo minado" em que foi transformado o mundo em que vivemos (pós-neoliberal? só?).
    aliás, pensando bem, o mundo é isto que existe (desde sempre – e você citaria corretamente um pensador agora!); onde o poder oprime; as guerras explodem e uma vida (inteira!) parece sem sentido… (videos: "Fábrica de Verdades" e "Amazonia Tóxica" em http://docverdade.blogspot.com.br/)...

    boa sorte! companheiro. é um longo e tortuoso caminho…

    abraço!

    Márccio Campos
    rio de janeiro

    Responder

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