Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

Caiu na rede é peixe!

Por Miguel do Rosário

11 de abril de 2012 : 18h43

Foto capa: Robert Stucker Filho.

O espírito é esse. Todo mundo que se banhou nessa cascata verá que não saiu ileso da exposição a águas tão contaminadas, não importa qual o partido. Hoje, no Globo, há uma matéria onde o baiano Walter Pinheiro, líder do PT no Senado, revela a disposição do Congresso de mergulhar fundo no poço de corrupção formado pelo esquema liderado por Carlinhos Cachoeira.

Em público, o PT também parece disposto a ir até o fim na investigação. Na noite de segunda-feira, o líder do partido no Senado, Walter Pinheiro (BA) foi à ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, que, segundo ele, lavou as mãos. Em tom de ironia, Pinheiro comentou o temor de que as denúncias atinjam o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT):

– Não vi nenhum documento oficial, não sei o que tem por trás dessa rede de Carlinhos Cachoeira. Mas se caiu nessa rede, é peixe!

Entretanto, antes mesmo de começar, a CPI já enfrenta um de seus maiores desafios, que é fugir do sensacionalismo manipulador da mídia. A investigação da Polícia Federal durou mais de dois anos e grampeou, com autorização judicial, centenas de pessoas, que por sua vez realizaram contatos telefônicos com milhares de cidadãos, honestos e não-honestos. Será absurdo criminalizar todas as pessoas que trocaram ligações com membros do esquema de Carlinhos Cachoeira, conforme faz hoje o Estadão, ao dedicar sua principal página política a um ataque vil ao deputado federal Protógenes Queiróz.

O máximo que o Estadão conseguiu foram trechos de conversa em que Protógenes combina encontros com Dadá, um araponga do esquema Cachoeira. O jornal sequer procurou o deputado para que explicasse as conversas. Vamos ver se dará tanto espaço como deu ao governador Marconi Perillo.

 

Segundo Protógenes, o teor da conversa entre ele e Dadá não tinha a ver com o esquema Cachoeira e sim às repercussões da operação Satiagraha, durante a qual Dadá foi o elo entre a PF e a Abin. Não esqueçamos que Dadá é ex-membro do serviço de inteligência da Aeronáutica e prestava serviços à Abin.  Ouça a entrevista de Protógenes à rádio Estadão explicando o episódio.

Pelo que entendi, aconteceu o seguinte: Protógenes sofreu 36 procedimentos admistrativos da PF contra sua pessoa, sobretudo em virtude da supostamente indevida ajuda que ele pediu à Abin no âmbito da operação Satiagraha. Ele e Dadá foram ouvidos durante esses procedimentos, e naturalmente seus advogados combinaram estratégias comuns de defesa.

O caso, aliás, serve de lição também aos governistas. Ligações telefônicas não são crimes. O que é crime é o teor em si da conversa, relacionado a outros fatos. Além disso, é preciso separar as ligações entre os “membros” da quadrilha com outras pessoas, e conversas com o próprio Cachoeira, chefe da quadrilha. Por exemplo, as conversas entre Cachoeira e Policarpo Júnior, repórter da Veja, não são crimes. O que é crime é o uso, por parte da revista, de grampos ilegais, patrocinados por um esquema mafioso, para subsidiar matérias jornalísticas que beneficiavam interesses políticos do mesmo esquema. Temos que ver o teor dessas conversas!

Protógenes Queiroz foi autor do pedido da CPI do Cachoeira, o que é uma prova bastante contundente de que não tem envolvimento nenhum com o esquema. Envolver Protógenes é desviar o foco.

Agora, já o caso do chefe de gabinete do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (que não é parente do Protógenes), envolve uma conversa (ver matéria do JN) que menciona pagamento de propina. Aí temos um caso grave, que justifica plenamente a afirmação de Walter Pinheiro: caiu na rede é peixe.

Entre nós, eu espero até hoje uma explicação mais convincente do Agnelo Queiroz para uma reportagem da Istoe, falando do enriquecimento súbito de membros de sua família. Além disso, quase todos os problemas enfrentados por Orlando Silva, então ministro do Esporte, originaram-se em contratos suspeitos feitos durante a gestão Agnelo, inclusive os firmados com o homem-bomba João Dias.

Aliás, a Istoé, ainda em dezembro de 2011, trouxe uma outra reportagem bastante contundente sobre um suposto esquema de corrupção montado por Agnelo no ministério dos Esportes, com direito a uma testemunha.

O que o Brasil quer não é poupar nenhum partido, e sim instaurar um processo político de grandes proporções de combate à corrupção, na esperança de produzir uma mudança de ordem cultural, que se não estanque totalmente, ao menos reduza o vazamento ilícito de recursos públicos.

*

Hoje tem uma notícia econômica muito importante no Estadão. O governo aceitou reduzir as tarifas de energia, mas espera colaboração também dos governadores. Vamos ver se as forças políticas que defendem a redução dos impostos, a começar pela Fiesp, vão pressionar os estados a aceitarem a proposição do governo federal, que tem como objetivo aumentar a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional. A energia brasileira, segundo tenho lido por aí (preciso confirmar isso mais cientificamente), é mais cara do que em outros países, representando assim mais um item do famigerado Custo Brasil, que tanto prejudica a indústria nacional.

Outra notícia econômica importante, e que mereceria até um post à parte, é sobre o aumento de 1,5% do faturamento da indústria em fevereiro, sobre o mês anterior, apurado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A informação confirma o dado já apontado pelo IBGE esta semana.

Separei abaixo alguns gráficos do relatório da CNI.

É importante observar que a forte queda no setor de veículos automotores, um dos mais importantes eixos industriais do país, deu-se por motivos de férias coletivas de fevereiro e mudanças no maquinário das fábricas de caminhões, depois da aprovação de uma lei federal que as obrigam a produzir veículos menos poluentes.

Repare, contudo, que o setor de “máquinas e equipamentos” registrou um forte aumento de 6,4% no faturamento de fevereiro, na relação com o mês anterior. O de máquinas e aparelhos elétricos registrou um salto impressionante de 15%! E o de material eletrônico, um dos setores mais avançados, cresceu quase 40% em fevereiro!

Entretanto, se você ler os comentários do relatório da CNI, ainda sim vai encontrar quase só choradeira, porque isso já se tornou um vício dos setores econômicos brasileiros, mal acostumados pela máxima mais importante das associações de classe do país: quem não chora, não mama.

 

 

O emprego industrial experimentou uma barriguinha rápida em alguns meses do segundo semestre de 2011, mas voltou a subir. De qualquer forma, o gráfico mostra uma expansão firme desde 2009.

Do gráfico acima, eu destacaria o aumento de 6,2% da massa salarial da indústria, na comparação entre fevereiro deste ano e o mesmo mês do ano passado. Se o salário cresceu mesmo com a indústria vivendo um momento difícil, as perspectivas salariais devem continuar positivas com a indústria voltando a crescer.

O faturamento das indústrias também voltou a crescer firme. Analisando o gráfico acima, vê-se que  quedas pontuais são normais, mas no longo prazo, a economia industrial tem crescido bastante desde 2009.

Sobre os números do IBGE, destaco apenas o seguinte trecho do seu relatório sobre o índice industrial de fevereiro.

Repare no trecho: “Bens de Capital apontou o avanço mais acentuado. ”

Bens de Capital, para quem não sabe, é o setor industrial ligado ao aumento do poder de produção das fábricas. São máquinas e equipamentos industriais. Quando este setor aumenta, significa que as indústrias ampliaram sua capacidade de produção. O seu avanço, portanto, corresponde a um maior grau de industrialização do país.

*

Por fim, uma última análise política. Editorial do Estadão de hoje, intitulado “Diplomacia da Cachaça”, é de uma vira-latice lamentável. Abaixo uma lista de vários erros:

  1. O editorial é contestado por notícia publicada no próprio jornal, na mesma edição, que fala na cobrança aos EUA, feita por Dilma, para respeitar os contratos com a Embraer.
  2. O Estadão repete um erro frequente cometido por editorialistas preguiçosos, quando tratam de encontros entre chefes de Estado. Em vez de analisarem em profundidade os inúmeros sinais políticos que emergem dessas conversas de alto nível, preferem fazer críticas levianas cujo aparente ceticismo encobre ignorância e apatia jornalística. Quando Nixon visitou a China em 1972, também não se registrou nenhuma declaração bombástica dos chefes de Estado, mas o signifcado político do encontro foi avassalador para o mundo.
  3. O Estadão fingiu ignorar a presença de Dilma em Harvard, um dos principais centros de conhecimento do mundo atual. Teve um significado político também. A presidenta entende o investimento em pesquisa e ciência como prioridade, ou ao menos é este o sinal que ela enviou. O convênio entre o governo e as principais universidades americans, como Harvard e MIT, para conceder milhares de bolsas a estudantes brasileiros, se for concretizado, pode se tornar uma grande marca do governo Dilma.
  4. Por fim, há preconceito contra a cachaça, que pode vir a ser um produto de exportação importante, assim como o uísque americano durante muito tempo foi (e ainda é) para os EUA.

A Folha, por sua vez, preferiu se ater à uma mesquinha observação, repleta de complexo de inferioridade, sobre a diferença de tratamento concedida à presidenta brasileira e a chefes de Estado da Coréia do Sul, entre outros. Neles, teve jantar na Casa Branca, o que não houve com a Dilma. Ora, Dilma pode não ter jantado na Casa Branca, mas se os jornalistas  da Folha visitassem um blog do próprio grupo, escrito pelo talentoso Nelson de Sá, veriam que a grande imprensa americana produziu muitas análises interessantes a partir da visita de Dilma aos EUA. Eu acrescentaria ainda uma análise publicada na ultra prestigiada Economist, que inicia assim:

O Brasil provavelmente nunca foi mais importante para os EUA do que agora. Os EUA nunca foram tão desimportantes para o Brasil.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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18 comentários

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Elson

12 de abril de 2012 às 12h23

Alguém deveria avisar nossa mídia néocolonizada , que a Presidenta não foi a Washington atraz de uma boca livre , ela foi lá para tratar de interesses do Brasil e dos brasileiros . Portanto ser recebida em jantar , chá das 5 ou rega- bofe é coisa para pessoas que se sentem inferiores aos outros , só por quê no país deles neva ou por quê eles tem uma máquina de guerra poderosa . O vietnã não era uma super-potencia , entretanto humilhou os EUA .
Então vamos deixar esse assunto de jantar para a revista Caras , que é especialista em futilidades e tratar de assuntos importantes , como os acordos nas áreas de educação e comércio que sem dúvida farão uma grande diferença num futuro próximo .

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    Miguel do Rosário

    12 de abril de 2012 às 12h29

    boca livre é ótimo, rs. ainda mais que boca livre em jantar oficial deve ser um saco. não pode beber nem comer direito, porque é tudo mega convencional.

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Eduardo CPQ

12 de abril de 2012 às 11h10

Caro Miguel do Rosário,
você escreveu:

A energia brasileira, segundo tenho lido por aí (preciso confirmar isso mais cientificamente), é mais cara do que em outros países, representando assim mais um item do famigerado Custo Brasil, que tanto prejudica a indústria nacional.

Daí me lembro dos tempos da febre de privatizações, quando foi mostrado que nossa energia elétrica era a mais barata do mundo, ou quas.O sítio "Ilumina" era muito ativo à época.

Assim, apoio sua idéia de analisar o tema, que pode levar luz nestas trevas.

Abraço.

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Elson

12 de abril de 2012 às 10h55

è bom que o governo reduza o preço da tarifas de eletricidade , más você se esqueceu de uma coisa , será que os concessionários deste serviço toparão repassar a redução da conta para o consumidor ? Pois a energia elétrica é diferente do telefone ou tv a cabo , se voce não está satisfeito , voce troca de fornecedor , com eletricidade não dá para fazer isso .

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    Miguel do Rosário

    12 de abril de 2012 às 11h15

    pois é, tem isso ainda. mas há uma agência de energia elétrica que em tese deveria servir a isso. e os preços de energia, se não me engano, são controlados.

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      Elson

      12 de abril de 2012 às 12h13

      Caro Miguel , pelo que temos visto ao longo dos anos , essas tais agências reguladoras deixaram de defender o interesse dos consumidores e do País para se tornarem despachante das empresas que comprararam o serviço público a preço de banana nos governos FHC .
      Eu não sou muito bom em matemática , e , muito menos paciente para pesquisar esta questão , porém se voce for analisar a relação dos aumentos de tarifas dos ultimos anos anos em relação a inflação , ficará horrorizado ao perceber a grande disparidade .

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        Miguel do Rosário

        12 de abril de 2012 às 12h28

        eu sei, mas elas tem esse poder, de definir preços, não? sobre aumento de preços, acho que tem razão. mas nos últimos 2 anos, ao menos, a energia subiu menos que a inflação, pelo que eu li. tenho que achar umas boas fontes nessas matérias, para a gente fazer alguns posts mais consistentes. vou procurar.

        Responder

Elson

12 de abril de 2012 às 10h52

Essa carga de artilharia prá cima do Governador do DF , tem como alvo o PT , pois ao envolver o partido da situação nessa teia de crimes , oa mídia tenta apenas passar para a opinião pública que todos são ladrões , e relativizando os crimes dos Demos e tucanos .
O próximo passo será transformar os réus em vítima , incluindo aí a revista Veja .

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    Miguel do Rosário

    12 de abril de 2012 às 11h17

    com certeza, elson. já estão usando táticas diversionistas. mas o pt já deu sinais que está disposto a enfrentar possíveis danos políticos a alguns de seus membros, em prol de uma investigação profunda que pode esclarecer muita coisa, inclusive relações espúrias entre oposição e imprensa.

    Responder

Douglas O. Tôrres

11 de abril de 2012 às 23h49

A propósito,como ja citei aqui neste blog,quando for para elogiar eu o farei>nesta visita da presidente ao EUA reproduzo do blog do Rodrigo Viana,que tambem reproduziu do Globo,(o complexo de vira latas,acham que a Dilma foi pedir alguma benção),Esta é para encher a gente de orgulho :

Nos Estados Unidos, Dilma criticou a política cambial dos EUA e foi direta: a América Latina não aceita mais “Cúpula das Américas” sem a presença de Cuba. A próxima, na Colômbia, será a última sem os cubanos, avisou a Obama. Os jornalistas pediram detalhes à presidenta. E aí vejam o que aconteceu, na descrição do “insuspeito” O Globo:

“perguntada se o Brasil fez um pedido formal para que Obama aceitasse Cuba no próximo encontro dos chefes de Estado, Dilma afirmou: — O que houve foi a constatação de que todos os países (da América Latina) têm relação com Cuba e, portanto, esta é a ultima cúpula em que ela não participaria. Esta é a posição unânime (na região).

Questionada sobre a resposta de Obama, Dilma retrucou:

— Ele não tem que responder. Isso não é uma pergunta.”

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nora jeane

11 de abril de 2012 às 22h28

O discurso da presidenta Dilma em Harvard é imperdível! histórico. ë um marco. …enquanto isso o Estadão continua com seu cavalinho empacado na velha estorinha dos vira latas.

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Vilma Gomes

11 de abril de 2012 às 21h56

Essa CPI podia se chamar também CPI da Veja.

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Denilson

11 de abril de 2012 às 21h56

Agora só acredito nessa CPI vendo. Sou que nem São Tomé.

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Vivaldi Barcellos

11 de abril de 2012 às 21h55

Gostei de ver os números da CNI. Mostram uma recuperação vigorosa da nossa indústria. Pra calar a boca dos chorões.

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Helena Vargas

11 de abril de 2012 às 21h54

Esse editorial do Estadão é uma bobeira.

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Antonio Bandeirosa

11 de abril de 2012 às 21h54

Valeu, Miguel. Mandou bem. Uma análise substanciosa! Um cafezinho de qualidade!

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alex

11 de abril de 2012 às 20h20

Roberto Jefferson diz ao STF que Mensalão não existiu, não foi “fato”, foi “retórica”!

15 set 18h15 – Blog da Hildegard Angel

Não falei nada aqui nesse blog porque achei que a grande imprensa ia deitar e rolar, daria manchetes, escreveria longas páginas a respeito, mas nada! Silêncio absoluto para a petição de Roberto Jefferson ao STF, ontem, dizendo que não houve mensalão!

Isso mesmo, declarado por seus advogados de defesa com todas as letras: não houve o "fato" mensalão, foi só "retórica". Entenderam?

Mensalão foi "modo de dizer". Não teve. Ou seja: todas as acusações, sem provas, não eram fatos, eram factóides. Eram manipulações, mentiras. E agora, como é que o Supremo vai fazer? E o Procurador Geral da República?

Já que os grandes jornais, que deitaram e rolaram dando toda a credibilidade às declarações de Jefferson, não publicaram, vocês podem ler aqui abaixo a petição que a grande imprensa varreu pra debaixo do tapete, do tapetão…

Fonte: http://noticias.r7.com/blogs/hildegard-angel/2011

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