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As bobagens do PT, segundo Dora Kramer

Por Miguel do Rosário

11 de maio de 2012 : 17h29

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Hoje vamos analisar a coluna de Dora Kramer, publicada no Estadão desta sexta-feira. Intitulada Brancaleone, reproduzo a primeira parte. O texto vai em negro, meus comentários em fonte normal.

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Com o exímio diretor de cena João Santana ocupado em burilar a imagem da presidente Dilma Rousseff à semelhança do gosto popular e Lula temporariamente afastado do papel de catalisador de todas as atenções, o PT ficou desguarnecido.

Sem anteparos, desprovido de figurinos elegantes e de roteiro adaptado, deixou de lado o modelo moderado. Joga como veio ao mundo e, explícito, tem feito uma bobagem atrás da outra.

As opiniões de Dora são extremamente úteis para entendermos a decadência da oposição. Uma das razões é que os partidos e oposição, em vez de ouvirem os anseios do povo, preferem obedecer caninamente às orientações da mídia. Ora, a mídia ainda é extremamente poderosa. Tem poder de pautar a agenda política nacional, derrubar ministros, produzir crises. Mas não tem mais poder principal, que é de eleger os políticos que representam a sua visão de mundo.

Rui Falcão na presidência do partido é apontado como o responsável pelos trabalhos, no bastidor, reconhecidamente atrapalhados. Não deixa de ser uma injustiça, por meia verdade.

Frases desconexas. Dora Kramer tá meio confusa.

Não foi (só) ele quem andou espalhando que a ideia de montar uma CPMI a partir da Operação Monte Carlo teve origem no intuito do ex-presidente Lula de se vingar de adversários envolvidos nas denúncias e socializar prejuízos políticos decorrentes do julgamento do mensalão.

Foram parlamentares e ministros do partido. Emergiu desses personagens também a versão de que a revista Veja seria “sócia” do esquema criminoso de Carlos Augusto Ramos, vulgo Cachoeira, na conspiração para derrubar ministros.

Apressados, nem notaram a tolice: Dilma os demitiu. Então, se maquinação houve, a presidente esteve a ela associada.

Aí está a grande hipocrisia da mídia. Cara de pau mesmo. Os ministros foram derrubados por campanhas sistemáticas, intermináveis, que produziam um insuportável clima de crise política, paralisando os ministérios. Havia denúncias vindas dos próprios órgãos de controle, e havia aquelas nascidas (hoje se sabe) dos grampos clandestinos do esquema Cachoeira. Essas últimas são as denúncias que a mídia se orgulhava de virem “exclusivamente” da imprensa. De qualquer forma, com grampo clandestino ou não de Cachoeira, houve casos de demissão justificada, outros não. Mas a demissão em si não é prova de culpabilidade. Dora finge que não saber que raríssimos indíviduos tem força psicológica e política, por mais inocentes que seja, que possa resistir muito tempo a uma campanha midiática de grandes proporções, como eram todas as deflagradas por Veja, Globo, Folha e Estadão. Reiterando: eles podem até ser culpados, e acho difícil que algum político tradicional seja totalmente puro, mas a sua demissão obedecia sobretudo à lógica de amainar uma crise que paralisava ações estratégicas do governo e interditava as reformas discutidas no parlamento.

Rui Falcão assume as operações atabalhoadas um pouco depois, quando faz convocação pública à “sociedade e movimentos sociais” no apoio à CPMI para “desmascarar” os autores da “farsa do mensalão”.

Entre os quais não se incluíam José Dirceu e companhia, que levaram a imagem do PT à lama, mas a imprensa, parlamentares que atuaram na CPI dos Correios e ministros do Supremo Tribunal Federal cujos votos foram especialmente rigorosos na aceitação da denúncia.

Aquilo que era para ser executado na sombra veio à luz. Não satisfeito, Falcão fez-se porta-voz do propósito de se aproveitar do momento para “enfrentar o poder da mídia que contrasta com nosso governo desde a subida de Lula”. Isso era dito aos sussurros por petistas que asseguravam ter o apoio de parlamentares de outros partidos “loucos para pegar a Veja”.

Observei uma coisa interessante nesse trecho. Enquanto o Globo atribui a “setores radicais”, “minoritários”, do PT a tentativa de investigar as relações da imprensa com a máfia de Cachoeira, Dora Kramer nos lembra, apropriadamente, que a iniciativa vem de seu próprio presidente, membro de ala majoritária do partido. Ou seja, Globo e Estadão bateram cabeça, e o certo é o Estadão, claro.

Dora também omite as sucessivas infrações éticas ou criminais da Veja, com denúncias falsas, invasão de apartamento, doação de espaço jornalístico para notórios bandidos.

A fala de Rui Falcão sobre o mensalão pode ter sido um erro político, de fato, mas o presidente do PT está correto numa coisa: em meio aos violentos ataques midiáticos que o PT sofreu, ao longo dos anos, havia o dedo de mafiosos como Cachoeira.

Agora, a pressão sobre o procurador Roberto Gurgel que era apenas insinuada, gestada nos atos dos integrantes da CPMI, tornou-se explícita porque Gurgel reagiu apontando claramente a existência de uma ofensiva urdida por quem deve e por isso teme: os réus do mensalão.

Ficou tudo às claras, restando aos feiticeiros buscarem a cada lance um jeito de não ser atingidos pelos efeitos do feitiço.

Besteira. Mesmo que o STF aplique pena máxima a todos os réus do PT do processo do mensalão, em que isso afetará, na prática, o PT? A oposição vai usar a notícia, naturalmente, nas eleições, mas ao PT não faltarão dados para contra-atacar. Ou seja, o mensalão é um trunfo já gasto da oposição.

Além disso, Dora Kramer pratica um empirismo amador ao afirmar, no início do post, que o PT está só fazendo “tem feito uma bobagem atrás da outra”. O DEM está quase se auto-extinguindo, o PSDB foi o partido que mais perdeu filiados este ano, e o PT, que ganhou 30 mil filiados só nos últimos meses, e tem ampliado cada vez mais sua posição no ranking dos partidos preferidos, o PT é que tem feito bobagem?

Ora, Dora, não é o PT que está por trás dos “ataques à mídia”. O PT é que está, inteligentemente, pegando carona numa demanda que vem das profundezas da sociedade.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada ao final de abril deste ano, consta uma lista com os partidos preferidos pelos brasileiros.  51% disseram não tem preferência nenhuma. Entre o grupo que tem preferência, recolheu-se a seguinte amostra:

Observe que o PT obreve 31% da preferência dos entrevistados, enquanto PSDB e DEM pontuaram 4% e 1%, respectivamente. Dora ainda acha que é o PT que faz “bobagem atrás da outra”? Para efeito de comparação, vejamos a mesma tabela, apurada pelo mesmo Datafolha, em novembro de 2010:

 

Repare que a preferência pelo PT passou de 26% em nov/2010 para 31% em abr/2011, enquanto o PSDB caiu de 6% para 4% no mesmo intervalo.  Quem está fazendo “bobagem” mesmo?

Observação: eu não sou petista, jamais fui a reunião de petistas, nem tenho nenhuma simpatia especial pelo partido. Tento apenas me ater aos fatos, como ensinava Émile Durkheim.

O que tenho notado é uma dobradinha muito astuta entre Dilma Rousseff e o PT. Dilma tem conquistado a classe média, emergente e tradicional, com seu jeito austero e firme de resolver crises, e autoblindou-se junto à mídia por sua postura extremamente diplomática e cordial, para com a mídia, de um lado, e seu cuidado extremo com a imagem ética do governo, afastando colaboradores que não conseguiram ganhar a dura batalha da comunicação. E o PT, por seu lado, tem ficado mais desenvolto para reatar laços com movimentos sociais e fazer debates mais ousados, como o que tem feito sobre a mídia.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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