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Esquerda sai vitoriosa nas legislativas da França

Por Miguel do Rosário

11 de junho de 2012 : 11h52

Hollande consegue maioria no 1º turno das legislativas

O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Por Eduardo Febbro, de Paris. Da Carta Maior.

Paris – A França confirmou outra vez nas urnas a mudança de rumo político decidida nas eleições presidenciais de maio passado. A esquerda francesa em seu conjunto saiu vitoriosa no primeiro teste eleitoral após a eleição do socialista François Hollande para a presidência da República.

Ainda que não tenha ocorrido uma “onda rosa”, o primeiro turno das eleições legislativas confirmou nas urnas a continuidade do resultado da eleição presidencial: os partidos de esquerda obtiveram 46,3% dos votos contra 33,9% para a direita da UMP e seus aliados e 14% para a extrema-direita da Frente Nacional (FN). A FN confirma assim sua implantação nacional e se torna a terceira força política do país. Com este resultado, a extrema direita poderia ingressar no Parlamento, de onde está ausente desde 1988.

O Partido Socialista e seus três satélites Partido Radical de Esquerda, Movimento Republicano e Cidadão e esquerdas diversas conseguiram 35% dos votos. A estes votos é preciso somar o aporte dos ecologistas, 5,7% e os 7% da Frente de Esquerda liderada por Jean-Luc Mélenchon. Com esse percentual, a esquerda parlamentar poderia ficar com um leque que oscila entre 305 e 353 cadeiras, muito acima da maioria absoluta (289 num total de 577). Resta saber se o PS alcançará sozinho essa maioria ou se precisará do apoio dos verdes e da Frente de Esquerda. De maneira global, a esquerda totaliza cerca de 9 pontos a mais do que obteve nas eleições legislativas de 2007.

Segundo projeções da Ipsos para o jornal Le Monde, o PS deve obter entre 270 e 300 deputados, a Frente de Esquerda entre 14 e 20, o mesmo para o Partido Radical de Esquerda, enquanto que Europa Ecologia-Os Verdes oscilam em um leque que vai de 8 a 14 deputados. Sem fervor, mas com solidez, François Hollande tem ao seu alcance a maioria necessária para governar.

A direita parlamentar paga o tributo de sua derrota nas eleições presidenciais. Em relação ao resultado obtido em 2007, a ex-governista UMP, de Nicolas Sarkozy obteve 5 pontos a menos (39,57%). No entanto, as projeções para o segundo turno do próximo dia 17 de junho não são alentadoras para a UMP. Transtornada pela derrota nas eleições presidenciais, sem um capitão claro no timão depois da saída de cena de Sarkozy, a UMP, que em 2007 conseguiu 320 deputados, poderá conhecer uma derrota ainda mais severa dentro de uma semana.

No outro extremo, a líder e candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, registrou a progressão mais espetacular nesta consulta. Em linha direta com os altíssimos percentuais obtidos no primeiro turno das eleições presidenciais, Marine Le Pen atropelou em seu feudo de Henin-Beaumont seu rival Jean-Luc Mélenchon com mais de 42% dos votos, ao mesmo tempo que sua força política quase quadruplicou os resultados obtidos pelo pai de Marine, Jean Marie Le Pen, em 2007. Naquele ano, a FN obteve 4,29% dos votos contra os 14% atuais. Se na próxima semana se confirmarem os resultados deste domingo, a Frente nacional poderia ingressar na Assembleia com um ou dois deputados. Além de seu retorno à Assembleia, a extrema-direita prossegue com sua tarefa de destruição da direita tradicional. As porcentagens abrem a porta para o jogo perverso das confrontações triangulares esquerda-direita-extrema-direita. A Frente Nacional pode manter seus candidatos em cerca de 60 circunscrições.

As eleições trazem várias lições: o respaldo ao projeto social-democrata, a emergência de uma Frente de Esquerda que não existia, a permanência dos ecologistas, a força da extrema-direita, o recuo dos conservadores e a desaparição do centro de François Bayrou. O líder do Modem (Movimento Democrático) corre o risco de não ser reeleito em sua circunscrição, enquanto que seu partido apenas roçou 1,5% dos votos. Os eleitores não perdoaram o apoio de François Bayrou a François Hollande entre os dois turnos presidenciais.

O Partido Socialista, por sua vez, conseguiu romper o ciclo das derrotas sucessivas. Havia perdido as eleições legislativas de 2002 e 2007. Em 2002, a direita ganhou 394 deputados contra 141 para o PS. Em 2007, a recém criada UMP, de Nicolas Sarkozy, ganhou 320 deputados e os socialistas 204. A equação sofreu uma reviravolta e, com ela, a opção política. A direita oferecia austeridade, destruição do Estado de Bem-Estar, ultraliberalismo e cortes. A França respaldou nas urnas o caminho social-democrata e se converte assim em uma ilha dentro de um continente dominado pelo lobo das políticas ultraliberais.

Tradução: Katarina Peixoto

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Filipe Rodrigues

11 de junho de 2012 às 13h01

Que inveja da França, aqui no Brasil a gente tem que aguentar essa bosta do presidencialismo de coalizão.

A blogosfera tem que parar de pensar que Lula é um midas, o ex-presidente deixou uma herança maltida na política (enquanto FHC foi na economia), o resultado é essa briga interna do PT em Recife, São Paulo, o PT cedendo as chantagens do Eduardo Campos (Belo Horizonte, Mossoró, Duque de Caxias, etc). Uma pena, mas Fernando Haddad pode ser castigado nas urnas por causa do autoritarismo da cúpula do PT.

Lula não se interessou em formar uma base parlamentar de esquerda mais forte no Congresso Nacional mesmo com 80% de aprovação e com o PIB crescendo 7,0%(foi menos inteligente que Sarney em 1986 (Plano Cruzado) e FHC em 1994 (Plano Real), se Dilma tivesse interesse por política teria o alertado), o ex-presidente preferiu o fisiologismo.

O Brasil tem 22 partidos na Câmara (único no mundo), 16 partidos apoiam o governo, se houvesse empenho daria para formar uma maioria com no máximo 5 ou 6 partidos (alguém duvida que PP, PTB, PR, parcela do PMDB estavam mais interessados na sobrevivência de ambos do que no projeto político do PT?):

Esquerdas (PT+PCdoB+PDT+PSB)= 200 e poucos deputados + metade do PMDB + PRB(um partido de centro não fisiológico) + PV( partido neutro em que a maioria costuma votar com o PT) + PSOL (oposição que votaria com o governo nas propostas progressistas) = Mais de 257 deputados necessários para formar a maioria

Não há necessidade de ter maioria para mudar a constituição (308 deputados).

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