Fundador do Instituto Ideia vê chance de Lula vencer no 1° turno

"O Nome do Cadeado é: As Circunstâncias e Seus Guardiões" (1966), de Wesley Duke Lee

Retrato de um serrista quando histérico

Por Miguel do Rosário

04 de setembro de 2012 : 15h52

“O Nome do Cadeado é: As Circunstâncias e Seus Guardiões” (1966), de Wesley Duke Lee

Já lhes expliquei que meu trabalho é esse: analisar a mídia. Até gostaria de escrever aqui sobre a Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges, clássico que ora leio sobre os hábitos, cultura e revoluções em Roma e Atenas. Mas a vida é dura e eu tenho de ler e analisar  a coluna do Arnaldo Jabor.

Depois do blogueiro da Veja declarar seu voto em Serra, agora é a vez do colunista da Globo prestar continência. Deixemos o chapeleiro doido pra lá. O Cafezinho ainda não tem verba para adquirir roupas antiradioativas que o permitam explorar o lixo atômico da Abril.

Do Jabor, porém, não dá para escapar. Ele joga nas onze: faz comentário na CBN, no Jornal da Globo, escreve coluna pro Globo e Estadão. Enfim, analista de mídia é como operário em fábrica de sardinha. Ou se acostuma ao cheiro, ou se demite.

A manifestação de Jabor (assim como a de Reinaldo) mostra o grau de tensão e perplexidade no ninho tucano diante da possibilidade de derrota de José Serra nas eleições municipais de São Paulo. Jabor não é sutil: ataca pesadamente Russomano, o lulismo, e entoa loas descaradas à José Serra. Todos unidos em prol da mesma causa. Que lindo.

Até aí tudo bem. Liberdade de imprensa é pra isso mesmo: assegura o direito de obedecer cegamente aos ditames ideológicos de seus chefes.

Não julgo Jabor, nem sua opção política, partidária e ideológica. O ponto que eu gostaria de abordar é a sua convicção de que possui expertise eleitoral acima dos profissionais que assessoram o PSDB. Essa convicção adquire ares de delírio quando se percebe que ela cresce à medida em que os candidatos apoiados pela mídia acumulam derrotas. Ou seja, quanto mais perde eleições, mais a mídia se considera vencedora. Isso me interessa porque oferece uma interseção entre análise de mídia e análise política.

Analisemos esse trecho do artigo de Jabor:

*

Mas Serra também errou. Tudo começou em 2002 quando, diante de meus pobres olhos perplexos, Serra não defendeu o governo de FHC diante dos ataques de Lula no debate. Eu vi a cara do Lula quando percebeu que a intenção do adversário era “não” defender o excelente governo que acabara com a inflação, fez reformas etc… Por estratégia (quem foi a besta que inventou isso?) ninguém podia defender os grandes feitos que o PSDB tinha conseguido… Lula, espertíssimo, deitou e rolou nesse equívoco imperdoável, inesquecível, que começou a derrotar o próprio Serra e o tucanato por tabela. Nunca entenderei isso. Como não demitiram o chefe da campanha e deixaram-no persistir nos erros até hoje? Serra acreditou no marketing em vez de crer em si mesmo e em sua verdade.

*

Jabor omite um fator básico. Os estrategistas de Serra esconderam FHC por uma razão simples. O ex-presidente havia se tornado extremamente impopular. O “excelente governo” terminava com desemprego alto, dívida pública descontrolada, carga tributária dez a quinze pontos superior ao início da gestão, serviços públicos desmantelados.

O colunista vai mais longe e pede uma “demissão” retroativa do marketeiro da campanha do Serra em 2002. Ou seja, Lula não ganhou porque o povo se identificou com suas propostas. Lula ganhou porque o marketeiro do Serra não seguiu os conselhos de Arnaldo Jabor.

Em seguida, Jabor afirma que a solução para salvar a campanha de Serra é trazer FHC:

*

Teria de assumir isso, enquanto é tempo. Tem de superar seu complexo de Édipo e chamar FHC para a campanha (o que não fizeram até agora), tem de mostrar com clareza, com imagens, o importantíssimo trabalho que fez como ministro da Saúde, e não ficar dando sorrisinhos de Papai Noel na TV. O eleitor respeita gente sincera, cortante, corajosa. Ele tem de mostrar as aventuras populistas e falar das acusações que pesam sobre o Russomano, como as supostas ações de falsidade ideológica, a acusação de seu uso indevido da advocacia, seu suposto envolvimento com o Cachoeira.

E mais: ele errou ao subestimar o papelucho que assinou na TV dizendo que não abandonaria a prefeitura. O povo não perdoa o descaso com que tratou o ridículo juramento. Ele tinha, sim, de chamar testemunhas, até religiosos e juristas e, fazendo um pouco o jogo do populismo “midiático”, jurar solenemente diante de todos que jamais largará a prefeitura.

Serra tinha de cumprir sua melhor promessa, quando se lançou em 2010: “Se vierem com mentiras, responderei com verdades”.

 *

 Aí se interligam, como eu aventei acima, análises de mídia e da política. A fórmula do sucesso que Jabor oferece ao PSDB é, paradoxalmente, justamente aquilo que vem fazendo os tucanos perderem tanto: superestimar a inteligência política dos medalhões da mídia. Ao invés de trocarem ideias e experiência nas ruas, com o povo, o PSDB tenta ler a realidade no mundinho fantasioso da mídia corporativa.

Eu já presencei, várias vezes, casos de delírio profundo entre pessoas mentalmente saudáveis, porque acreditam mais na mídia do que na realidade. Lembro que quando começaram a pipocar pesquisas mostrando a recuperação meteórica da popularidade de Lula, o Globo vivia repleto de missivistas dizendo que “não acreditavam nessas pesquisas porque não conheciam ninguém que gostava de Lula”. Na verdade, a mídia cultivou bolsões de antilulismo, justamente nas áreas mais nobres das grandes cidades. No caso do Rio, a zona sul carioca.

Não vejo nada demais no antilulismo em si. As pessoas tem o direito de não gostarem de Lula, ou mesmo de odiarem Lula. Faz parte da democracia. O que sempre me espantou foi o descolamento da realidade. Confundir o mundinho fechado e sectário de jornalistas, socialites e empresários conservadores com a pluralidade anárquica e imprevisível do povo brasileiro!

Serra está perdendo voto em São Paulo não por causa da incompetência de seus marketeiros. Jabor inicia seu artigo dizendo que se vende candidato como se vende margarina. Não é bem assim. Possivelmente muitas ferramentas do marketing político coincidem com aquelas da publicidade comercial, mas o produto oferecido é totalmente distinto. A comparação é um clichê neolacerdista para desmerecer a política.

Ninguém conseguirá vender bem o candidato tucano porque ele está queimado junto ao eleitor. Alguém poderia lembrar ao Jabor do livro Privataria Tucana, protagonizado por José Serra. Alguém poderia lembrar Jabor das baixarias da campanha de 2010.

Aí o colunista envereda por um raciocínio contraditório. Diz que Serra subestimou “o papelucho” que assinou, comprometendo-se a permanecer na prefeitura por todo o mandato. Mas ao usar o termo “papelucho”, é o próprio Jabor que o subestima. Afinal, não importa a qualidade do papel, e sim o compromisso do candidato. O que vale é a assinatura e a palavra dada, e não se é um papel timbrado em ouro, com o carimbo do Papa. E a sugestão de Jabor, de que Serra chame juristas, religiosos e testemunhas, apenas para firmar um compromisso tão básico como ficar até o fim da gestão, indica que o candidato é tão desacreditado que é preciso trazer o circo inteiro para que seja dado crédito à palavra do palhaço.

As “sugestões” de Jabor revelam, a meu ver:

  • Desespero diante da derrota de Serra, o que poderia pôr em risco a hegemonia tucana também no governo do Estado.
  • Arrogância infinita, como se ele, Jabor, entendesse alguma coisa de marketing político e eleitoral.
  • Falta de entendimento do processo democrático: não são os marketeiros que escondem FHC. É o povo que não gosta de FHC porque o associa ao ambiente recessivo e sem esperança que vivemos na era tucana.

Tivemos ainda, no domingo, mais um artigo udenista de Fernando Henrique Cardoso. Dessa vez, porém, ele recebeu o troco de quem menos esperava. A própria Dilma Rousseff.

A estratégia do PSDB, de fazer oposição ao ex-presidente em vez de fazê-lo à atual gestão, afigura-se insensata, confusa e covarde. Visa apenas disseminar desinformação na opinão pública, jogando com a sua escassa memória. A reação da presidente, todavia, chamando a briga para si, bota os pingos nos is. Se quiserem fazer oposição ao PT, façam ao governo atual.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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28 comentários

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nina rita de cássia

23 de setembro de 2012 às 01h34

Taí, gostei ! Com Jabor para merqueteiro acaba de uma vez por todas sua vida política. Podem todos afundar juntos na nau dos insensatos: FHC, Serra, Jabor e podem levar junto, de quebra, o ministro Joaquim Barbosa.

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Mauricio

06 de setembro de 2012 às 08h26

Desespero na casa-grande!

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Alexandre

06 de setembro de 2012 às 00h30

Putz, também adoro esse livro, “A Cidade Antiga”. Pior que li por acaso, meio que obrigado, num curso de Direito que abandonei. Apesar de Fustel de Coulanges ser adepto de um tipo de historiografia positivista, a riqueza de detalhes e sua prosa elegante tornam o livro uma delícia, não existe narrativa que coloque melhor diante dos olhos os costumes romanos.
Não deixe de postar algo sobre o livro, quando puder, porque já procurei pela net análises do mesmo e pouco encontrei.
Abraço!

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Dom Orvandil

05 de setembro de 2012 às 23h13

Prezado Miguel

Parabéns por teu trabalho de análise do material produzido pela mídia colonizada e serviçal imperialista. Gostei muito dessa matéria sobre a histeria de Jabor com relação a Serra. Publico esse teu artigo em meu blog http://www.domomb.blogspot.com.br e listei teu blog no meu. Abraços,

Dom Orvandil.

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Elson

05 de setembro de 2012 às 21h57

Caro Miguelito, nunca estive no Rio de Janeiro, mas. é como se já estivesse vivido aí!
Já li Machado de Assis, José de Alencar, Aluisio Azevedo, e, as biografias de Nelson Rodrigues, e memórias do Carcere, de Graciliano Ramos.
Porem, sinto que já morei nesta cidade, conheço todos seus meandros, todas suas sutilezas. Pena nunca ver tanta beleza ao vivo.
Não posso opinar sobre essas eleições, afinal não moro nesta maravilhosa cidade. más espero que seu povo saiba escolher o melhor prefeito.

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paulão

05 de setembro de 2012 às 15h07

Os institutos de pesquisas fazem o que podem para ajudar Serra, que falta nos faz Institutos de pesquisa independentes

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Elson

05 de setembro de 2012 às 10h57

Miguelito, você já reparou que desde que saiu da Presidência em 2003 , FHC não participou da campanha de nenhum candidato, pois é , o homi é rejeitado por todo seu partido e aliados.

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Daniel

05 de setembro de 2012 às 08h56

Miguel, eu já convivi o bastante com pessoas como o Jabor para lhe dizer com toda a segurança que este pessoal REALMENTE VIVE EM UM MUNDO DE FANTASIA.

Jabor é parte do que existe de pior neste esgoto que chamamos erradamente de “elite brasileira”, e não é apenas ele que age da forma que você descreveu. Eles acreditam que a sua vontade é “divina” e todos os outros têm que se ajoelhar e acatar, tal qual se fazia nas antigas cortes medievais.

E como se lida com este tipo de pessoa? Ignorando-os, e abatendo-os se insistirem em lhe prejudicar ou prejudicarem a nossa tentativa de ser uma sociedade.

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James

04 de setembro de 2012 às 23h51

Também sou novato por aqui. Adoro café de qualidade… Esse aqui tá bom demais!!

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Ana Iag

04 de setembro de 2012 às 21h49

Eta cafezinho bom. Repetirei a dose. Del´cia.
Mais um blog para apreciar sem moderação.

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PedroAurelioZabaleta

04 de setembro de 2012 às 21h26

Hahahahaha…
Que Cafezinho delicioso.
Foi o meu primeiro: voltarei!
aquele abraço

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sonia

04 de setembro de 2012 às 21h14

Adorei o blog, que não conhecia…adorei a analise dos comentários do Jabor….(detesto a figura)
Poderia ser um homem até inteligente se nao fosse a sua obsessão contra o Lula ( nada pior que um ex ou um pretenso ex comunista que se alia a direita…) Jabor nao é nada. só um triste personagem sem discurso… igual a oposição que ele idolatra hoje.
Não perco mais meu tempo com esta figura e outras que fugiram doBrasil, porque não tinham + cacife para pagar as custas dos advogados , pelas perseguiçoes politicas e pessoais que faziam contra quem eles chamam de petralhas, 9 dedos, terrorista, assassina…
Cortei a globo do meu controle remoto , sou assidua leitora dos blogs sujos , sou lulista e sou mais feliz assim… Prazer em conhece -los !!
]

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    Miguel do Rosário

    04 de setembro de 2012 às 21h17

    Prazer também. Abs.

    Responder

josaphat

04 de setembro de 2012 às 20h59

A direita deveria representar algum tipo de valor positivo, como, sei lá, tudo que for tradicional e que desse sentido em uma espécie de identidade nacional.
Mas a tradição de nossa direita é a aberração da recusa recorrente, criminosa e traidora com o próprio povo.
Vão se foder!
O mal maior talvez seja a de não termos uma força política que possa botar uma pressão de contraditório de qualidade sobre um partido como o PT, que, ao final, acaba se vendo obrigado a fazer uma autocrítica constante.
O que, convenhamos, não funciona muito bem.
Tem uma parte da esquerda (isso existe no Brasil?) que está sem voz.
E eu estou lendo “A cidade Antiga” há uns dois anos e não consigo terminar porque o livro tem uma letrinhas muito pequenas, por ser uma edição econômica que eu comprei por 5 reais em um sebo, e isto me incomoda, fora os outros tantos que entram no revezamento.
Tem aquela coisa toda do patriarcado e do fogo sagrado e dos ‘manes’ na construção da identidade romana.
Lula, um dia, será um dos manes sagrados.
A imagem é da artista cubana Ana Mendieta.

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    Miguel

    26 de outubro de 2012 às 02h23

    Tô lendo. Leia você também para trocarmos ideias. E cervejas. Abraço.

    Responder

Vicente

04 de setembro de 2012 às 19h57

O bobo da corte se desmoraliza junto com a “realeza”. O rei está nu juntamente com seu séquito! Viva Lula, Viva Dilma, Viva o povo brasileiro!

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Wilson Braga

04 de setembro de 2012 às 19h49

Maconha estragada! Jabor é até engraçado com a sua postura indignada. Nada mais que isso.

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Maria Tereza

04 de setembro de 2012 às 18h49

Nossa se as próximas pesquisas confirmarem o Haddad na frente do Serra o pânico em Higienópolis e nos colunistas do PIG vai ser pior do que o provocado aqui no Recife pelo boato do estouro de Tapacurá kkkkkkk

http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=806&Itemid=1

http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/chuvas/2011/05/05/NWS,532867,4,214,NOTICIAS,766-BOATO-ENCHENTE-CAUSA-TARDE-PANICO-RECIFE.aspx

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movb

04 de setembro de 2012 às 17h51

Higienópolis, esta em polvorosa! KKKKKK

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@Suxbernardo

04 de setembro de 2012 às 17h18

Retrato de um serrista quando histérico http://t.co/wxFedAtM ~~> Muito bom!!

Responder

Helder

04 de setembro de 2012 às 16h54

Servilismo a la Jabor.

Responder

@LuizAlaca

04 de setembro de 2012 às 16h53

Retrato de um serrista quando histérico – http://t.co/6LEydTrU

Responder

@observotariopig

04 de setembro de 2012 às 16h52

http://t.co/8R9SZS5q muito bom. @migueldorosario

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Robin

04 de setembro de 2012 às 16h20

Esse desvio psicológico não é privilégio do Jabor, isso é de toda a oposição sem rumo. Chamem o 192 (SAMU) é caso de internação…

Responder

@DonDavidSoares

04 de setembro de 2012 às 16h19

Jabor e retrato de um serrista quando histérico http://t.co/WHfUbsTa

Responder

@ricocordeiro

04 de setembro de 2012 às 16h11

Jabor e retrato de um serrista quando histérico – http://t.co/aMNXRca7

Responder

@ricocordeiro

04 de setembro de 2012 às 16h04

Bom, mas se nem Çerra acreditou na sua própria verdade, meu caro Jabor, porque diabos o eleitor haveria de acreditar? http://t.co/aMNXRca7

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@migueldorosario

04 de setembro de 2012 às 15h53

Jabor e retrato de um serrista quando histérico http://t.co/CAzNuWGd

Responder

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