Despolarizando: pesquisa Datafolha neutraliza a terceira via?

Perigo à vista

Por Miguel do Rosário

27 de novembro de 2012 : 21h42

A semana começou repleta de teorias conspiratórias, em virtude do escândalo envolvendo a chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha. A teoria tem razão de ser. A ala da Polícia Federal que invadiu o escritório já começou a vazar – seletivamente – para a imprensa dados sigilosos à mídia. O alvo, como sempre, é Lula. Dessa vez, encontraram um flanco desguarnecido, e os ataques serão pesados.

Em sua coluna de hoje, Merval Pereira já iniciou o que parece ser a nova linha de ataque: chegar à presidenta. Lula não é mais presidente e os ataques desferidos contra ele não costumam dar resultado, até porque a maioria da população já se acostumou com a artilharia diária da mídia contra seu líder.  O bicho pega, como sempre, em setores minoritários (embora influentes) da classe média.

Os primeiros dias de um escândalo são os mais propícios ao sensacionalismo, porque ainda há um grande conjunto de informações não confirmadas. São jogados nomes, fatos, e dados no ar sem critério. Há um clima de perplexidade e irritação.

A mídia aproveita o nervosismo coletivo para fazer bombardeios pesados, amarrando escândalos uns nos outros, mesmo que um não tenha nada a ver com outro. É assim que, nas matérias que falam em Rosemary, acaba-se falando em Dirceu, em mensalão. Colunistas passam a fustigar Lula por coisas que ele sequer disse. Manchetes são feitas em cima delas. Criam-se ilações inspiradas nessas manchetes, e outros colunistas elocubram sobre essas teorias, tecendo-se um fio interminável de intrigas. Daí publicam-se centenas de cartinhas com base em teses que, no dia seguinte, esvaziam-se.

O que sempre impressiona é o nível de agressividade dos jornalões. Por exemplo, observe essa missiva publicada no Estadão de hoje:

Este é um jornal que recebe recursos públicos, via publicidade institucional! Isso aí, a meu ver, não é fazer oposição, é apelar para a baixaria.

Por outro lado, é uma oportunidade a mais para forçar o governo federal a não apenas combater duramente a corrupção. Isso é uma obrigação ética óbvia. É preciso também possuir um serviço de inteligência que previna esse tipo de escândalo antes que ele aconteça, sobretudo se ele se dá nas imediações da presidência da república.

Não vamos dourar a pílula. Mesmo com toda a exploração e sensacionalismo, temos um escândalo genuíno, que não foi criado pela imprensa. Não é uma história fantasiosa da Veja. É uma operação da Polícia Federal, mesmo que de uma ala dissidente, mesmo que movida pelo desejo de inflingir dano ao governo por questões sindicais internas.

Essas brigas domésticas podem ter consequências salutares e saneadoras. Os envolvidos agiam com uma desenvoltura acima de qualquer racionalidade. O tal Vieira, diretor da Anac, pede a um funcionário do Ministério da Educação uma senha para alterar dados de uma faculdade pertencente à sua família, e este fornece, descaradamente!

Pareceres internos fraudados, tráfico de influência, corrupção ativa, o escândalo é daqueles de dar náuseas, e se for para combater esse tipo de podridão, até vale a pena enfrentarmos uma crise política e assistirmos o governo apanhar um bocado da mídia e da oposição.

Entretanto, não vamos esquecer que o golpe contra Getúlio teve resultado porque havia, de fato, problemas de corrupção, e houve tentativa de assassinato de uma figura ligada à oposição. Atiraram em Lacerda, mas acertaram, fatalmente, no Major Vaz.

A luta contra a corrupção deve ser constante, mas é triste que, no Brasil, ela seja, sistematicamente instrumentalizada para desestabilizar/derrubar governos trabalhistas. Há um clima de golpe constante na sociedade, sempre instigado pela mídia, o que nos obriga a jamais descansar, jamais relaxar.

*

O Estadão publicou neste final de semana uma pesquisa Ibope com as primeiras sondagens eleitorais para 2014. Não há muita surpresa. Dilma pontifica, apolínea, num distante primeiro lugar, ao lado de Lula. Os jornais destacaram a ultrapassagem da presidente sobre o ex, mas isso é normal, em função da preponderância absoluta de Dilma na mídia sobre seu antecessor, e também pela defesa explícita de Lula de que seja dada à atual ocupante do cargo a chance de tentar a reeleição.

Mais interessante que isso é a pequenez das candidaturas de seus principais concorrentes, Aécio e Eduardo Campos.  Este último sequer aparece na pesquisa espontânea.

A pesquisa vem bem a calhar para enterrar de vez as intrigas que visam afastar PT e PSB, para tentar jogar Campos no colo de Aécio, formando uma chapa única de oposição à Dilma, ideia ventilada como normal e até provável por colunistas como Merval Pereira. Mas que na verdade, é um absurdo político, porque não teria sentido Campos se juntar a um partido declinante e se posicionar como adversário de Lula e Dilma.

Confiram os gráficos abaixo.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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5 comentários

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@ktrem10

28 de novembro de 2012 às 20h23

Perigo à vista – http://t.co/ePttimgr

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Érico Cordeiro (@ricocordeiro)

28 de novembro de 2012 às 20h08

Perigo à vista – http://t.co/Ydma0mK8

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RONALDO BRAGA

28 de novembro de 2012 às 12h53

Das duas uma: o PT vai sair do poder federal ou pelo golpe sempre tentado pela direita ou pelo descrédito perante seus eleitores. Em ambos os casos a culpa é do medo que o aprisiona cada vez mais e o paralisa cada vez mais. Infelizmente.

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alex

28 de novembro de 2012 às 10h29

Weber foi vetado por Dilma, quando na Casa Civil

Blog do Nassif – dom, 25/11/2012 – 10:25

Do Correio Braziliense
Weber já perdeu cargo antes

Ana D’Angelo

Adjunto de Adams foi exonerado do posto de procurador-geral federal em 2003, suspeito de envolvimento em desvio de verbas

Segundo na hierarquia da Advocacia-Geral da União (AGU), José Weber Holanda Alves já perdeu um posto de alto escalão no órgão, em agosto de 2003, devido à suspeita de participação em operações envolvendo desvio de dinheiro público denunciadas em reportagens do Correio.

le retornou à cúpula da AGU no fim de 2009, trazido pelo recém-nomeado advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, que já o queria como seu adjunto. Porém, a Casa Civil, então comandada pela atual presidente Dilma Rousseff, vetou a indicação, justamente por causa do histórico de Weber. Ele foi, então, alocado no cargo de assessor do gabinete de Adams.

Com a saída de Dilma Rousseff da Casa Civil para disputar as eleições presidenciais, Luís Inácio Adams conseguiu, finalmente, emplacar José Weber Alves, em julho de 2010, como seu substituto na estrutura hierárquica do órgão. Quem autorizou a nomeação foi a substituta de Dilma na Casa Civil, Erenice Guerra, que caiu dois meses depois, também por envolvimento em denúncias de corrupção.

Quando foi exonerado pela primeira vez, há nove anos, José Weber chefiava a Procuradoria- Geral Federal da AGU, que comanda os 4,1 mil procuradores federais de 175 autarquias da União, entre elas, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), do qual ele foi procurador-geral.

Reportagens do Correio publicadas em julho e agosto de 2003 revelaram a participação de Weber em transações imobiliárias, contratações de serviços e processos de cobrança de devedores investigados pelo Ministério Público Federal (MPF), pela Polícia Federal, pela Controladoria-geral da União (CGU) e pelo Tribunal de Contas da União. Pressionado, ele acabou pedindo demissão do cargo.

Uma das reportagens do Correio mostrou que ele deu ordens para que a gerência do INSS em na capital baiana suspendesse a cobrança de R$ 140 milhões em débitos da Universidade Católica de Salvador com a Previdência Social.

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migueldorosario (@migueldorosario)

27 de novembro de 2012 às 21h42

Perigo à vista http://t.co/pBqIPi76

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