Análise em vídeo das manifestações do 2 de outubro e as vaias a Ciro

Vitória da mídia?

Por Miguel do Rosário

28 de novembro de 2012 : 21h38

O relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha, decidiu retirar os nomes do procurador geral da República, Roberto Gurgel, e de Policarpo Júnior, jornalista da Veja, da lista de indiciados no relatório final da comissão. O recuo veio após uma semana de terríveis pressões midiáticas. Não seria nem surpresa, no maquiavélico e sinistro jogo de poder em Brasília, que a operação da Polícia Federal que invadiu o escritório da presidência da República em São Paulo, também tenha sido deflagrada como represália à ousadia de Cunha.

Enfim, o jogo é pesado, e Cunha sofreu pressões da própria base aliada.

Muitos comparam a situação no Brasil com a da Inglaterra, onde jornalistas foram denunciados sem que nenhuma crise política fosse deflagrada, nem se falou em atentado contra a “imprensa livre”. As circunstâncias, porém, são absolutamente diferentes. O jornal implicado no escândalo de Rupert Murdoch, News of the World, era um tablóide sensacionalista sem nenhum peso político no país. O que Odair Cunha fez, ao citar Policarpo Júnior, foi mexer no centro do maior poder midiático da América do Sul, o cartel formado por Veja, Globo, Folha e Estadão.

Esse cartel age sempre unido, e com seu poder inaudito para destruir reputações, humilhar, chantagear, não encontra obstáculos. O grau de concentração também não encontra paralelo em nenhum outro país ocidental. Se o símbolo de Leviatã, popularizado pelo inglês Hobbes, já fez algum sentido, não existe nada melhor do que esse cartel midiático para representá-lo.

A cada eleição, todavia, ele tem se enfraquecido, porque seus marionetes, seus lobistas, tem perdido espaço na república. Eis a razão do ódio cada vez mais extremado que notamos em seus gestos.

Não esqueçamos que um bicho acuado é capaz de manifestações incríveis de força. Essas reações, contudo, não significam que o bicho ficou mais forte. É nesse momento de desespero e declínio que ele dá suas mais surpreendentes demonstrações de vigor.

Assim ocorre com a nossa mídia. O recuo de Odair dá a impressão de derrota, mas não acho que seja assim. Ao contrário, acho que houve um aumento explosivo da consciência acerca do poder da mídia. Não tínhamos essa consciência antes. No ambiente pós-democrático, a mídia passou a se auto-promover como paladina dos valores democráticos e inimiga da ditadura. Até hoje é assim, com suas matérias sobre a comissão da verdade, e reportagens sobre a morte de Marighella. Não percebemos que, no bojo daquela mídia liberal, vinham ocultas as mesmas forças que fizeram e sustentaram a ditadura. Quando caimos em si, era tarde. O Globo já havia conquistado as mentes e corações do Brasil pós-golpe. Mais que isso, a mídia engoliu o mercado de trabalho intelectual, o que é sua maior fonte de poder. Pobres daqueles que não trabalham na grande imprensa.

Daí que hoje temos consciência do poder concentrado e nefasto da grande mídia. Não que ela represente o mal em si. Longe disso. A mídia, como todo poder totalitário, sabe que é preciso agradar os súditos de vez em quando. Ser magnânima. Daí ela distribui, sempre com muita astúcia, sempre de maneira ponderada, sopros e mordidas. Mas sabe exatamente quando aplicar um golpe.

Hoje temos consciência do que é um golpe midiático. É pegar um fato verdadeiro, uma denúncia real, e aumentá-la, engatá-la em outras, misturar elementos, produzir um ambiente de crise, perigo e urgência. Manipular as consciências sempre foi o maior talento dos poderosos, sobretudo desde a invenção dos meios de comunicação de massa.

Com o advento da internet, acreditamos que haveria uma revolução, porque enfim chegara o momento em que todos teriam acesso às mesmas informações, e poderiam levantar a voz. Ocorre que o mesmo poder que tocou às massas, também tocou à mídia. Ela também se beneficiou da internet. Criou portais, contratou milhares de pessoas para geri-los, pagou centenas de blogueiros para escreverem colunas. E agora é novamente a grande mídia que sai à frente na geração dos aplicativos para smartphones, tablets, etc. Ou seja, a mídia velha, como a chamamos, ainda é bem enxuta e enérgica!

Entretanto, o poder político é fundamental, e não é por outra razão que é nesse campo onde vemos a mídia perder as estribeiras e exibir todas as suas asquerosas garras, tentáculos e presas de monstro enlouquecido. O vampiro, diante de sangue fresco, não consegue disfarçar sua verdadeira natureza. Seus olhos injetam-se e arregalam-se, seus dentes crescem e ele salta, quase inconsciente de si mesmo, sobre a vítima.

Uma lei para regular esse ambiente selvagem no qual a nossa mídia faz o que lhe dá na telha só será possível quando o maior número de pessoas tiver plena consciência de que se trata de uma lei necessária e justa. Infelizmente, o momento não é chegado, e isso se reflete no parlamento. A maioria dos parlamentares vê a questão da mídia como uma briga pessoal entre um determinado setor da mídia e o PT. Mas não é isso. O principal adversário da mídia, ou melhor, desse cartel midiático, não é o PT, e sim a própria liberdade do povo, por mais estapafúrdio que isso possa parecer. O cartel midiático tem tanta força porque passou a representar um anteparo à torrente cada vez maior, cada vez mais forte, dos anseios populares. Por isso temos setores que se agarram com tanta gana à mídia. Às grandes agências de publicidade não lhes interessa mudar nada. Elas estão consolidadas, ganham milhões com bônus de volume, e evidentemente é mais fácil lidar com três ou quatro grandes jornais do que com trezentos.

A própria concentração urbana no Brasil, algo doentia, favorece a situação. Nos EUA, temos grandes e poderosas cidades espalhadas por todo o território. Aqui temos São Paulo, que nos infográficos populacionais aparece como uma bolha gigante, sorvendo a vontade de todo país para si mesma.

A decisão do deputado Odair Cunha, de remover os nomes de Gurgel e Policarpo, não foi uma derrota. Foi um recuo. Ah, mais um!, dirão todos, irritados (com razão). Sim, mais um recuo. Mas seria injusto afirmar que não há também ataques! O próprio relatório, por exemplo, foi um corajoso ataque. Só que não temos a mídia. Esse é o problema. Na Inglaterra, há muito mais pluralidade. Quando as autoridades convocaram jornalistas e o magnata Rupert Murdoch para depor, não se viu um contra-ataque massivo, coordenado, homogêneo, de todos os grandes meios de comunicação, contra a decisão. Não. Primeiro porque o jornal em questão, como já disse, era um tablóide sem projeção política. Segundo porque temos vários jornais e revistas de esquerda na Inglaterra. Terceiro porque mesmo a mídia inglesa conservadora não tem essas características leviânicas que vemos por aqui: não é agrupada num “cartel político”, não detem a concentração absurda de mercado que vemos por aqui, e não tem um histórico de apoiar golpes.

Estamos lutando contra um Leviatã poderoso. Os parlamentares, mesmo recuando, são nossos aliados, não o contrário. Temos que pensar em estratégias para ajudá-los a se protegerem contra as chantagens sistemáticas de que são vítimas, e não fazer o jogo da mídia para enfraquecê-los ainda mais.

Tenho martelado, constantemente, uma solução óbvia. Temos que investir na formação de consciência crítica. Temos que profissionalizar e aprimorar a crítica da mídia. Criarmos cadeiras especializadas sobre o tema nas faculdades, nas escolas, nos campos e construções. Prefeitos, deputados, secretários, ministros, governadores, presidentes, todos devem investir na construção de espaços próprios de crítica midiática. Não adianta esperar cair uma nova lei do céu. É preciso agir agora, nesse exato momento, fazendo o que for possível. A muralha da China não foi erguida num dia.

Mais que tudo, não podemos perder a esperança, ou promover o desencanto e o negativismo. Se o povo esperasse a iniciativa de seus representantes políticos, jamais haveria revolução em parte alguma do mundo. Temos que nos organizar, aperfeiçoar nossos blogs, nossos discursos, afiar nossas espadas e calibrar melhor nossos fuzis retóricos.

O objetivo, por fim, não é destruir a mídia, que é uma entidade abstrata, conceitual, indestrutível. O inimigo é o cartel midiático formado por setores reacionários e golpistas da mídia. Este sim deve ser aniquilado, mas para isso acontecer, temos que enfraquecer suas fontes de financiamento. A própria mídia sabe disso e tenta fazer isso com a blogosfera, ao tentar sufocar a irrisória publicidade institucional que dois ou três blogs mais famosos dispõem.

A luta dos liluputianos da democracia contra o gigante totalitário da mídia não terminou. O recuo de Odair Cunha é uma dispersão momentânea, um gesto espontâneo de autodefesa. Mas não representa o fim da batalha. Haverão muitas outras frentes, e estou confiante de que venceremos no final, porque a justiça e a democracia estão do nosso lado. Não queremos dinheiro, nem poder, nem status, apenas uma distribuição mais plural e equilibrada do poder da mídia.

Daqui a dois anos, enfrentaremos mais uma batalha titânica contra os desmandos de nossos murdochs tupis e venceremos mais uma vez. Chegará um tempo em que fingindo recuar, atrairemos a mídia para uma armadilha da qual ela não conseguirá sair. Aí sim, poderemos comemorar o fim de um pesadelo que iniciou em 1964. Nossa democracia estará consolidada.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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10 comentários

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Érico Cordeiro (@ricocordeiro)

05 de dezembro de 2012 às 17h20

Vitória da mídia? – http://t.co/rIqiAq90

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Leonardo M. G.

29 de novembro de 2012 às 12h55

Miguel, penso de forma semelhante a você. Eles estão perdendo mais e mais leitores, estão desesperados. Por isso a manobra de investirem pesado na “educação”, com cursos apostilados, livros didáticos e faculdades (a Anhangüera é da Globo e o Anglo é da Abril, só pra citar os mais explícitos), faz sentido se você quiser uma nova geração de leitores das bobagens que eles escrevem. Lavagem cerebral da boa!

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Neuriel

29 de novembro de 2012 às 10h36

Não podemos nos esquecer que o PT não estava sozinho nessa CPI e o papel da dita base aliadda, Miro Teixeira, por exemmplo. É essa mesma base aliada que poderá ou não ser reeleita em 2014. É importante que se identifique os parlamentares com vínculos com a grande imprensa e qual o jogo que eles jogam no parlamento. A regulação da mídia e fundamental para que se consolide os avanços democráticos. O país está caminhando mas poderá caminhar mais rapidamente se houvesse críticas permanentes e não tentativas de golpes.

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Claudio Freire

29 de novembro de 2012 às 09h36

Miguel, que puta texto. Excelente, lavou minha alma.

Eu estava bastante desalentado com mais esse recuo, mas os argumentos contidos no seu texto me devolveram a garra para lutar.

Em 2014 aplicaremos mais uma derrota a esse Leviatã.

Abraço.

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Roderick

29 de novembro de 2012 às 07h58

Começou em 64? A midia nos “Estados Unidos do Brazil” é o que é desde o seu nascedouro. Esqueceu de Assis Chateubriand? Da campanha contra Canudos? Sempre estiveram a serviço do ideário conservador.

Parabéns, excelente texto. Abçs.

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@Nelson_Canesin

29 de novembro de 2012 às 06h10

vitoria da midia? http://t.co/beSJwvHu via @sharethis

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Under_Siege (@SAGGIO_2)

28 de novembro de 2012 às 23h43

?Ainda o “perdao” à #midiaBandida na CPMI??? Vitória da mídia? – http://t.co/bPnmrfoM

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@joaolpena

28 de novembro de 2012 às 23h35

Vitória da mídia? => ótima análise de Miguel do Rosário sobre o recuo de Odair Cunha na CPI do Cachoeira => http://t.co/V5PhvbUi

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Humberto Vieira (@HumbertoVieira7)

28 de novembro de 2012 às 22h25

Blog Archive » A vitória da mídia e o choro dos derrotados

http://t.co/2KxI4r7R

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migueldorosario (@migueldorosario)

28 de novembro de 2012 às 21h38

A vitória da mídia e o choro dos derrotados http://t.co/ECUfXjJb

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