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Debatendo os rumos da política, por Fernando Trindade

Por Miguel do Rosário

05 de fevereiro de 2013 : 18h07

Comentário ao post Os novos desafios da luta política, por Miguel do Rosário

Por Fernando G Trindade, no blog do Nassif.

Sem dúvida que Miguel do Rosário aponta corretamente que o escrito de Noblat a título de ‘conselhos’ é por um lado uma ameaça nem tão velada ao Presidente do Senado e por outro uma incitação aos seus epígonos (vejam-se os comentários usualmente postados naquele blog. O baixo nível é de assustar).

Miguel do Rosário tem dado boas contribuições ao debate político.

Vamos a ele (ao debate). Vou insistir (por hora, pois há outras mais) em duas questões.

O centro político não é a reação. A característica principal do centro político é o pragmatismo, a moderação o fisiologismo, que não é sinônimo de corrupção, como muitos imaginam.

O fisiologismo pode ser corrupto ou não. Fisiológico quer dizer apenas o oposto de ideológico, isso em termos de ‘ciência conceitual’. (Mas quando me irrito com a esquerda udenista, eu dou mesmo é razão a Delfim Neto que como os melhores vinhos está cada vez melhor: “Na prática, a ‘ideologia’ é só o codinome elegante da ‘fisiologia’!” In ‘Aparelhamento’, na FSP de 5/9/2012, apud blog do Nassif). A propósito, ao recordar essa frase genial de Delfim me veio à mente o excelente filme Lincoln, que assisti faz poucos dias…

Enquanto o nosso País tiver uma maioria de excluídos (o subproletariado de que fala Paul Singer, recuperado agora por outro Singer, o André, no seu Lulismo), um amplo mercado de produtos e serviços (e de trabalho!) informal e precário, uma desigualdade social imensa como a historicamente reproduzida, haverá um importante e expressivo centro fisiológico na política. É alienação nefelibata – e em grau elevado – pretender que quem luta pela sobrevivência sua e dos seus dependentes, no dia a dia da labuta, atue ou veja a política numa perspectiva centralmente ideológica.

Não perceber isso tem sido a tragédia de muitos bem intencionados (de boas intenções o caminho do inferno está pavimentado, já escreveu alguém).

A sobrevivência fisiológica é a primeira necessidade humana. Pretender ser materialista e não levar isso em conta não dá.

A esquerda brasileira errou muito ao não entender que o centro político (fisiológico ou não) não é o seu adversário central. O adversário central da esquerda é a minoria elitista, “a elite branca” de que falou Lembo, reacionária e excludente, herdeira política do modo de produção escravista, tão bem retratados (a elite e o seu modo de produção) por Joaquim Nabuco, no seu primoroso “O Abolicionismo”, já em 1883!

(E primorosamente retratada também agora no excelente filme pernambucano “O Som ao Redor”, em cartaz, do conterrâneo de Nabuco, Kleber Mendonça.)

II

É preciso insistir e persistir no seguinte: não há um “modelo político brasileiro” racionalmente estruturado, no qual há ‘vulnerabilidades’ que poderiam ser ‘consertadas’ com ‘ajustes’, como mudando-se o sistema de financiamento de campanhas ou o sistema eleitoral.

Pensar assim é incorrer em idealismo conceitual e metodológico. Não foi um inexistente ‘modelo político brasileiro’ que produziu a ‘confusão’ – por assim dizer – entre interesses privados e públicos, confusão que é instrumentalizada por moralistas (com e sem aspas) e por fisiológicos (também com e sem aspas).

Tal mistura tem sua origem na hegemonia oligárquica presente na sociedade brasileira, desde a sua fomação (na autarquização dos Engenhos, na autonomia político-administrativa dos respectivos Senhores, no ‘modo de produção’ escravista, na dependência dos ‘homens livres’ e submissão dos homens escravizados),.Isso está expressa ou implicitamente, aberta ou veladamente em Nestor Duarte, Oliveira Viana, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, em Florestan Fernandes.

E tal hegemonia é ainda hoje majoritária – em termos de poder real e em termos ideológicos – embora em crise e ora questionada.

A impressionante resistência (e resiliência) do elitismo ao Governo Lula (e agora ao de Dilma) reflete esse poder; reflete a resistência dos herdeiros das oligarquias à democratização e à popularização do mercado, do capital e do Estado, com os respectivos vícios e virtudes. (Esse é contexto dos ‘consellhos’ do Sr. Noblat).

O resto é perfumaria (ou armazém de secos e molhados).

Por ora é só.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Érico Cordeiro (@ricocordeiro)

09 de fevereiro de 2013 às 21h36

Debatendo os rumos da política, por Fernando Trindade – http://t.co/FYGgDkUT

Responder

@PedroZaccaro

09 de fevereiro de 2013 às 11h45

Debatendo os rumos da política http://t.co/Z6TtaMLY Por Fernando Trindade

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Fernando G. Trindade

06 de fevereiro de 2013 às 17h47

Caro Miguel do Rosário,

Obrigado pela gentileza em postar meu comentário, inspirado em mais um dos seus instigantes artigos, publicado lá no Nassif.

Cordialmente,

Fernando G. Trindade

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