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A chegada, por Robert Frost

Por Miguel do Rosário

14 de março de 2013 : 15h24

Há dias venho pensando nesse poema de Frost, lido numa coletânea que comprei na Strand, em Nova York, por cinco dólares.  The Onset, A Chegada. A poesia de Frost sempre tem uma lição moral, um sentido, e isso de forma nenhuma a diminui; ao contrário, o significado se harmoniza à beleza plástica e musical de suas palavras. W. H. Auden, que analisou a obra de Frost, faz uma distinção entre dois tipos fundamentais na poesia moderna, ambos possivelmente com raízes antiquíssimas: um, voltado exclusivamente para o entretenimento e a qualidade musical, deriva dos ditirambos e da própria música; o outro, com suas qualidades morais, tem origem na poesia épica. Há grandes nomes para ambos os tipos. Frost pertence à segunda categoria.

Neste poema, ele aborda a chegada do inverno, comparando-a aos períodos severos e tristes de uma vida, quando esta parece destinada ao vazio, ao esquecimento e à solidão. Toda esperança parece ter desaparecido, sob o peso da neve acumulada e do frio terrível dos dias cinzentos. Entretanto, o poeta se apega a um pensamento, que ameniza sua angústia. Ele lembra que o inverno jamais triunfou sobre a terra e que, todos os anos, a neve é vencida pela mudança dos tempos. Toda a sua alva e perigosa grandeza se reduz a fiapos d’água fugindo pelo sulco de riachos secos, qual uma cobra tentando escapar do perigo.

Se a primeira estrofe termina com uma nota de profunda desilusão, a segunda inicia com esperança crescente: “Mesmo assim, todo o precedente está a meu lado”. E o que vence a tristeza, em primeiro lugar, é a experiência, a memória do poeta de que a estação rigorosa nunca dura pra sempre.

Eu interpreto o poema da seguinte forma. Não temos controle sobre o destino. Quando chegam os momentos difíceis, o frio inverno, nada há a fazer senão resistir, sobreviver. Podem sobrevir longos anos de tédio, sofrimento, vazio. O pior de tudo, como diz o poema, é a sensação de que a vida não tem sentido, e que não conseguiremos jamais realizar nada que possa melhorar um pouco o mundo à nossa volta. É como se, simplesmente, não tivéssemos existido.

No entanto, assim como existe a certeza do inverno, também é certo que este não dura para sempre. Em algum momento, a neve inimiga, tudo aquilo que nos atrasa a vida e a torna insossa e melancólica, fugirá de nós qual um bicho assustado. O inverno, com todo seu poder de morte, jamais obteve uma vitória definitiva sobre a terra, jamais ouviu o canto dos pássaros que retornam na primavera.

Ao fim, o que restará da neve serão apenas seus remanescentes na copa de algumas árvores, nos telhados das casas e na cúpula de uma igreja, que figuram como lembranças esparsas de nosso sofrimento vencido.

Eu traduzi o poema em versos brancos. Sempre me soa ridículo traduções forçosamente rimadas. É muito raro ser bem sucedido na tradução de um poema, e a coisa piora se tentamos rimar. Traduzir poema é uma luta ingrata, mas que vale a pena, sobretudo quando se trata daquele que é considerado um dos maiores poetas americanos do século XX. Em homenagem ao dia da poesia, segue minha contribuição.

A chegada

Por Robert Frost

Sempre o mesmo, quando numa noite maldita
por fim a neve se põe a cair tão branca
como fosse em bosque sombrio, e com um ruído
que não fará novamente em todo inverno,
chiando no solo ainda não coberto,
eu quase desfaleço olhando pra todo lado,
como alguém exausto, que ao final
desiste de sua jornada, e deixa a morte vir
sobre onde ele está, sem nada ter feito
contra o mal, nenhum triunfo conquistado,
como se a vida nem tivesse começado.

Ainda sim, o precedente está a meu lado:
eu sei que o mortal inverno jamais conquistou
a terra sem derrota: a neve pode se acumular,
em longas tempestades, em camadas profundas
medidas no tronco de um carvalho,
mas ela jamais ouviu o trinado dos pássaros;
e eu verei a neve descer pela colina
derretida num riacho de abril
escorrendo sobre o sulco do ano anterior,
sobre ervas mortas, como uma cobra em fuga.
Não restará nenhum branco salvo aqui uma árvore,
e acolá um grupo de casas e uma igreja.

(Tradução de Miguel do Rosário).

The Onset
BY Robert Frost

Always the same, when on a fated night
At last the gathered snow lets down as white
As may be in dark woods, and with a song
It shall not make again all winter long
Of hissing on the yet uncovered ground,
I almost stumble looking up and round,
As one who overtaken by the end
Gives up his errand, and lets death descend
Upon him where he is, with nothing done
To evil, no important triumph won,
More than if life had never been begun.

Yet all the precedent is on my side:
I know that winter death has never tried
The earth but it has failed: the snow may heap
In long storms an undrifted four feet deep
As measured again maple, birch, and oak,
It cannot check the peeper’s silver croak;
And I shall see the snow all go down hill
In water of a slender April rill
That flashes tail through last year’s withered brake
And dead weeds, like a disappearing snake.
Nothing will be left white but here a birch,
And there a clump of houses with a church.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Érico Cordeiro (@ricocordeiro)

15 de março de 2013 às 08h56

A chegada, por Robert Frost – http://t.co/EszVwBgEIN

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migueldorosario (@migueldorosario)

14 de março de 2013 às 15h25

A chegada, por Robert Frost http://t.co/RXPFLiHiLf

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