Eleições na Firjan: Um embate entre passado e futuro

Eleições na Firjan: Um embate entre passado e futuro

Por Miguel do Rosário

A ditadura militar durou 21 anos. Foi um período sombrio, porque não havia nem liberdade, nem democracia, nem transparência. Decisões monocráticas vinham do alto, como raios de Zeus, de forma autoritária e insensível. A consequência mais trágica do regime de força foi a quebra do elo entre a população e o governo. A cultura do medo, silenciando críticas, criminalizando a divergência, corrompeu miseravelmente a capacidade de análise das autoridades.

Mesmo com todos esses obstáculos, o Brasil cresceu e a indústria se desenvolveu, embora movida a subsídios milionários. Quando veio a redemocratização, porém, os problemas acumulados explodiram: o Brasil não havia criado um mercado consumidor proporcional ao tamanho de sua população. Só aí, talvez, uma parte do empresariado entendeu a importância da democracia. Sem demanda, não há oferta. E demanda só existe quando o povo tem poder aquisitivo. E num país campeão mundial de concentração de renda, o povo só tem poder aquisitivo quando o governo implementa políticas sociais inteligentes.

Em agosto, haverá eleições na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Caso se reeleja, o atual presidente Eugênio Vieira somará exatamente os mesmos 21 anos que duraram a ditadura militar. Os militares, contudo, se revezaram. Tivemos cinco presidentes durante o regime. Na Firjan, somente um homem manteve o poder durante todo o período. Alternância de poder zero.

Apenas as federações industriais de Alagoas e Paraíba vivem situação similar. No Amapá, onde também um grupo se mantinha há muito tempo no poder, houve necessidade de uma intervenção da Confederação Nacional da Indústria (CNI), após escândalos desagradáveis.

Eugênio Vieira, homem forte da Firjan, é uma figura ligada ao passado. Sua família vendeu a participação na Ipiranga no início de 2007. Hoje não possui mais indústrias. É apenas um burocrata lutando para se manter no poder de uma instituição que arrecada mais de R$ 1 bilhão ao ano e tem um peso político importante no estado e no país.

Manter-se no poder não foi difícil para Vieira. Com apenas 103 sindicatos votantes, bastavam alguns acordos palacianos, costurados ao longo de sua gestão, e evitar a formação de qualquer chapa de oposição. Os adversários eram vencidos antes de sequer existirem.

Mas a roda da fortuna gira. O cenário industrial fluminense mudou um bocado de uns anos pra cá. A indústria do petróleo registrou um boom econômico, com a implementação de novas refinarias e as perspectivas abertas com o pré-sal. Há uma ansiosa expectativa de todo o setor industrial do estado com a inauguração do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Está bastante atrasado, mas num belo dia de 2015 ou 2016 ficará pronto e impactará profundamente a economia fluminense.

Entretanto, nenhum setor passou por transformação mais incrível do que a indústria naval do Rio de Janeiro. No início do anos 2000, era dada praticamente como morta, depois de ter ficado famosa como uma das mais potentes do mundo. Para salvá-la, era necessário quase um milagre, ou um show de articulação política e competência empresarial.

Ao final de seu mandato, Fernando Henrique Cardoso, convencido pelo então presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Santana de Rocha, dá início a um programa de recuperação da indústria naval.

Rocha aprofunda as articulações políticas durante o governo posterior e convence o Executivo a confiar na capacidade da indústria brasileira, a fazer encomendas no Brasil, eliminar tributos e abrir novas linhas de crédito.

Rocha era o homem certo no lugar certo. Os incentivos do governo e a competência de empresários e trabalhadores fizeram com que os empregos gerados no setor saltassem de 1.900 pessoas em 2001 para 70.921, segundo o último levantamento do Sinaval, sem contar os empregos indiretos. E isso apesar de todo o processo de mecanização implementado. Um crescimento de 3.584%! O total de contêineres transportados por navios na costa brasileira aumentou de 90 mil para 671 mil! No primeiro trimestre de 2013, a construção naval brasileira apresentava uma carteira de encomendas com 373 grandes obras em andamento.

Na contramão da pasmaceira observada na indústria nacional, o setor naval abriu 9 mil novas vagas nos três primeiros meses do ano, na comparação com igual período do ano passado.

É fácil entender, portanto, a razão pela qual setores importantes da indústria fluminense entendem que Ariovaldo Rocha é a pessoa certa para ocupar a presidência da Firjan. Ele representa o novo, a recuperação industrial, o crescimento econômico, a nova correlação de forças no estado e no país.

Rocha aceitou o desafio e encabeça a nova chapa de oposição, nomeada significativamente Nova Firjan. As eleições acontecem em agosto.

Além de representar o novo, Rocha defende uma gestão transparente e interativa. Os associados reclamam que a atual presidência não construiu canais satisfatórios de diálogo, tanto com os próprios membros, quanto com outros setores da sociedade. Rocha propõe também instituir apenas uma reeleição, encerrando o chavismo patronal praticado por Eugênio Vieira.

O papel central que a Firjan ocupa no debate da economia fluminense faz da eleição em agosto um dos acontecimentos políticos mais importantes de 2013, com reflexos inclusive nas eleições estaduais e presidencial do ano que vem.

Neste embate entre o velho e o porvir, e num momento em que a indústria brasileira ainda sente as fisgadas da crise financeira global, me parece adequado lembrar os versos de Maiakosvki:

Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro!

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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