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A democracia e os black blocs

Por Miguel do Rosário

24 de outubro de 2013 : 04h09

No artigo desta semana, o professor Wanderley Guilherme discorre sobre o dilema enfrentado pelos governos para lidar com as depredações causadas pelos “black blocs e assemelhados”.

Ele observa que a urbanização acelerada criou um hiato doloroso entre o que prometem governos e o que efetivamente conseguem cumprir.

“O transporte de verduras e legumes de nossa dinâmica agricultura pelas modernas estradas já construídas ou em vias de inauguração é, seguramente, mais bem cuidado do que o de homens e mulheres, a força de trabalho nacional, que são amontoados aos empurrões em trens, ônibus e vans.”

Em virtude desses problemas angustiantes, o professor entende que o surgimento de um anarquismo de feição violenta “é explicável”, mas de forma alguma justificável.

Ele conclui, como de praxe, com uma defesa firme do regime democrático, que não é “suicida”. Não se pode usar as liberdades do sistema para depredá-lo e destruí-lo. À violência anárquica ou mesmo fascista defendida ou aceita (ingenuamente ou não) por alguns movimentos e intelectuais, o professor opõe a violência democrática, única imantada pela lei e pelo sufrágio universal.

“Se esses tatibitates se acham relevantes porque estariam mostrando à sociedade brasileira uma das variantes da violência anárquica, é hora de que sintam de corpo presente o gosto da violência democrática. Prisão para eles, com ou sem resistência.”

Cafezinho com Wanderley Guilherme

A democracia não é suicida

Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político, para O Cafezinho

A partir das passeatas e quebra-quebras de junho, os governos estaduais e os poderes federais voltaram a colocar o problema dos conflitos metropolitanos no quadro mais geral de uma sociedade que se urbaniza com velocidade recorde, sem que os serviços públicos e privados de massa tenham atendido, em quantidade e qualidade, às necessidades daí derivadas. Do ponto de vista das empresas do mercado, as multidões se despersonalizam, perdem humanidade, e passam à contabilidade como números sem rosto, tal qual cabeças de gado. O transporte de verduras e legumes de nossa dinâmica agricultura pelas modernas estradas já construídas ou em vias de inauguração é, seguramente, mais bem cuidado do que o de homens e mulheres, a força de trabalho nacional, que são amontoados aos empurrões em trens, ônibus e vans.

Estatísticas sanitárias e de habitação servem para emoldurar a rotineira paisagem de desconforto e carências que caracteriza a vida dessa população, dentro e fora de casa. Se isto não justifica a prática de atos criminosos, os inegáveis esforços do governo federal na execução do que prometeu não devem silenciar a magnitude dos problemas herdados de um estado oligárquico, destituído de instrumentos de implementação eficiente e eficaz dos programas que cria. O Brasil paga vultosa promissória evidenciada pelo hiato entre o muito que se faz e o tanto que se precisa fazer enquanto se criam as instituições capazes de tornar realidade as boas intenções de qualquer governo. Aí esta a recente criação da PPSal, motivo de gritos espumantes dos conservadores, para atender a um problema que um Estado elitista jamais enfrentaria: como garantir o cumprimento da legislação especial das reservas do pré-sal, particularmente no que se refere aos destinos dos recursos originados pelo petróleo sejam efetivamente dirigidos à educação, à saúde e ao fundo social. Esse problema não ocorreria ao governo de Campos Salles nem ao de seu admirador contemporâneo, Fernando Henrique Cardoso.

Isto posto, vale comentar as crônicas que romantizam o “anarquismo de feição violenta” de black blocs e assemelhados. Não vejo e nunca vi encanto algum no anarquismo. Se os primeiros embates de junho criavam uma compreensível confusão entre os que aderiam de boa fé a uma tática radical em vista de solucionar um problema, hoje não há dúvida alguma de que os “manifestantes” e “ativistas”, como os chamam as suaves apresentadoras da TV Globo, espécie de duas novas ações produtivas a serem incorporadas ao catálogo das profissões do Ministério do Trabalho, mascarados e apetrechados para a depredação e a agressão, não passam de catapora social. Quando entrevistados não conseguem produzir duas frases sucessivas com sujeito, verbo e predicado. Nem anarquistas são, mas simples desajustados, fenômeno corriqueiro em sociedades de urbanização acelerada.

Se o fenômeno é explicável, não é justificável. E nem cabe recorrer à legislação de proteção aos pobres e sacrificados membros da classe trabalhadora para isentar os autores da estúpida destruição de patrimônio público, quando não a petulância de pretender invadir e impedir os trabalhos de instituições fundamentais da democracia. A democracia não é um regime suicida. Se esses tatibitates se acham relevantes porque estariam mostrando à sociedade brasileira uma das variantes da violência anárquica, é hora de que sintam de corpo presente o gosto da violência democrática. Prisão para eles, com ou sem resistência.

PS: Está em pauta para votação na Câmara dos Deputados o projeto de lei 4471/12 terminando com os “autos de resistência” e de “resistência seguida de morte” pelos quais autoridades públicas davam cobertura legal às reiteradas práticas de violência policial. Como de hábito, as vítimas preferenciais do arbítrio eram os pobres, negros com freqüência. Prevista para esta terça-feira, 22/10, os informativos disponíveis ainda não registravam ontem, quarta-feira, 23/10, se houvera a votação.

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Juliano Guilherme, Coleção Cadernos, n.23, O gênio indiscreto.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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Lia Costa

25 de outubro de 2013 às 18h43

Ora, ora , meu caro professor. Democracia onde?? Por favor, nos poupe do ridículo!! Que democracia é essa que atende pessoas em chão de hospital, que democracia é essa num país absolutamente corrupto? Eu, que moro no subúrbio e já tive que ficar com meu avô de quase 90 anos numa emergência de hospital público , me pergunto o que é violência para essa massa de alienados que existe no Brasil. Pois é, teacher, quebrar banco e tacar fogo em lixeira realmente é muito mais CHOCANTE do que passageiro da supervia levando chicotada, exploração infantil, saúde e educação de 5º mundo. Com certeza quebrar vidraças é muito mais chocante do que invadir uma favela e fuzilar moradores. Com certeza um bando de moleques vestidos de preto perturbam muito mais o professor do que CORRUPTOS LIVRES. Cadeia nos black blocs e liberdade para os ladrões do dinheiro público.
Muito me admira que um professor não conheça história. Ora, teacher, não se faz revolução com flores nas mãos. Já ouviu falar em Revolução francesa, da queda do muro de Berlim. Eles eram vândalos também? Mais um burguesinho vendido, mais preocupado com vidro do que com a falência moral e ética de um país imundo e corrupto. Corrupto bom é corrupto com medo, com o c na mão!! Agora volta para seu mundinho de Alice, que nós cuidamos de tentar revolucionar o país.

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Antonio Carlos Marques

25 de outubro de 2013 às 16h38

Com todo respeito ao prof. Wanderley Guilherme, é preciso lembrar que o imperialismo na sociedade contemporânea é irmão gêmeo da sub classe dos banqueiros. A ultima grande crise teve inicio quando o dominó da quebradeira se iniciou com a falência do banco Lehaman Brothers, USA, em setembro de 2008. Assim ficou exposta a ciranda, ou melhor a orgia financeira de causar inveja às saturnais romanas. Os banqueiros criaram títulos derivados, na linguagem de mercado derivativos, de empréstimos podres, sem garantias de recebimento, para faturar bilhões de dólares em comissão (bônus) e os espalharam pelo mundo afora causando também a atual crise europeia. Acusaram os créditos sub prime de causar o problema, mas quem aprovava esses empréstimos eram os banqueiros ou seus prepostos. Essa crise não pode chegar à América Latina e à África já cansadas do esbulho a que foram submetidas historicamente. Toda essa engenharia financeira é uma pirâmide invertida ( de cabeça para baixo) prestes a desmoronar e quem vai pagar essa conta são os cidadãos trabalhadores. A essa violência dos punhos de renda, dos gabinetes refrigerados e atapetados, dos beneficiados pela hierarquia fossilizada, dos privilégios e regalias, da gatunagem do lusco fusco onde “todos os gatos são pardos”, é necessário contrapor o aviso das portas de vidro quebradas, é preciso o punho do guerreiro anarquista, é necessário o protesto claro de quem tem a coragem de protestar sem meias palavras. Os predadores financeiros colocaram milhões de seres humanos nas jaulas da exploração, os anarquistas estão apenas retribuindo as gentilezas de uma forma clara, ä luz do dia ou “sob os fulgores das luas elétricas”. Abaixo os privilégios e as mordomias. Uma nova era se aproxima Democracia direta. O povo decide livremente o que fazer nos Conselhos da Cidadania. O ser humano é senhor do seu destino!

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Maria Meneses

24 de outubro de 2013 às 16h04

Sou contra os black blocs e contra os 1100 PM que atuaram contra o leilão e as greves dos professores no Rio. A ditadura dentro da democracia confunde até os mais bem informados.Como ficam essa instituições: centrais de trabalhadores e sindicatos, movimentos e outros que lutaram pela democracia? Se não pode haver plebiscito então não há outros meios.Não se pode ignorar a participação de um Fabio Konder comparato e simplesmente chamá-lo de coxinha.Temos de repensar a conjuntura nacional. A auto-crítica é uma boa forma de se trabalhar.Abraços

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Xan Saboya

24 de outubro de 2013 às 10h04

A PMERJ e força nacional combinam? Ou vamos de coxinhas novamente?

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