Trensalão sumiu. O foco agora é… mensalão

A Folha de São Paulo aparece hoje com mais um escândalo. É o trensalão? O escândalo dos fiscais de Serra/Kassab? Não, a bola da vez é o… mensalão!

A matéria principal da página A6, a mais nobre do jornal (é a primeira página da seção Poder), traz um título curioso, uma autêntica “não-notícia”:

Justiça “ainda não começou”…

Grande notícia!

Sobre o trensalão, nenhuma investigação, nada. O negócio é manter a opinião pública ligada no “mensalão” até o fim dos tempos.

Acontece que a novela do mensalão começa a virar uma interessante curva do rio. A matéria, quando menciona os “recursos” desviados pelo BB e pela Câmara dos Deputados, não menciona os inúmeros documentos, do próprio BB e da Câmara, provando que os recursos não foram desviados. No caso do BB, não eram sequer recursos do BB, e sim da Visanet, empresa multinacional 100% privada, que disponibilizava recursos para bancos privados e públicos para que estes fizessem campanhas dos cartões com bandeira Visa.

A Folha, assim como nenhum dos grandes jornais, não tem o mínimo interesse em divulgar os documentos que provam a natureza privada dos recursos da Visanet, e que os recursos foram devidamente usados em campanhas publicitárias.

Antigamente, cultivava-se uma certa ilusão de que jornais buscavam a “verdade”. Lembro-me até de uma simpática frase de Hegel, que afirmava sempre ler jornais pela manhã, porque eles constituíam o “café-da-manhã de realidade”.

Sim, Hegel estava certo, mas num outro sentido. Os jornais nos lembram de que a realidade é uma luta pelo poder. E os jornais brasileiros não estão interessados em verdade, mas em poder.

Publico abaixo, auditoria feita pelo próprio Banco do Brasil, em 2005. Por que a Folha não divulga esses documentos? Em seguida, destaco alguns trechos da auditoria:

Observe que as “antecipações” de recursos às agências de publicidade eram prática comum desde 2001

Observe que, nos anos de 2003 e 2004, 88% das ações de incentivo eram compatíveis com as ferramentas mercadológicas.

*

Se você analisar a auditoria verá que se trata de um trabalho rigorosíssimo, que encontra dezenas de falhas nas relações entre o Banco do Brasil, as agências e a Visanet. Mas são falhas, na maior parte das vezes, burocráticas, existentes desde a criação do Fundo, em 2001. Não se aponta nenhuma acusação de desvio, tanto que não há nenhuma orientação para que recursos sejam devolvidos, e deixa bem claro que os recursos do Fundo Visanet tinham natureza privada, pois pertenciam, única e exclusivamente, à Companhia Brasileira de Meios de Pagamento.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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