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Leitor denuncia chacina silenciosa em Santa Cruz, Rio

Por Miguel do Rosário

28 de maio de 2014 : 13h28

É muito raro eu fazer esse tipo de denúncia aqui, mas vou abrir uma exceção porque também estou farejando alguma coisa grave acontecendo na zona oeste, sobretudo após essa convergência entre a imprensa e o governo do Estado.

A sociedade civil e o governo federal precisam estar atentos ao que anda acontecendo na zona oeste do Rio de Janeiro. Com a proliferação de UPPS e a concentração da segurança pública nas áreas centrais e no sul da cidade, a zona oeste passa por uma momento de forte pressão, por parte de marginais, milícias e setores corruptos e truculentos do poder público.

O leitor denuncia um número de mortos bem maior do que o divulgado. É preciso apurar isso. Do pouco que eu conheço da política de segurança do governo do estado para a zona oeste, pode-se esperar sempre o pior.

Abaixo o email que recebi de um leitor que conhece bem a região:

*

Você é do RJ, vê as coisas que andam acontecendo, a atuação da polícia, a política de segurança, etc.

Com esse foco mais no centro da cidade, “tudo” vem sendo deslocado para a Zona Oeste, e a situação está ficando séria, porque as milícias não são combatidas e em parte elas são controladas pela própria polícia. Campo Grande e redondezas é uma panela de pressão, agora a situação está se agravando em Santa Cruz. É bom chamar atenção para isso para não deixar a merda acontecer.

E ontem teve uma operação no Cesarão: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-05-27/quatro-suspeitos-morrem-durante-confronto-com-a-policia-no-rola.html

Eu pensei em comentar com algum jornal, mas a área de contato é complicada da achar e parece que não dá para comentar de forma anônima. Pensei em comentar no Viomundo que tem publicado algumas reportagens sobre esse problema policial e tem o jornalismo financiado pelos leitores, mas cadê a área de “fale conosco”? Não uso redes sociais e nem quero comentar sobre isso por lá.

Sobre essa operação ontem, parece que foi uma chacina. Começou cedinho até com helicóptero dando rasante para atirar. E isso em local cheio de escola com criança na rua.

Oficialmente foi divulgado apenas alguns mortos, mas todo mundo que mora ali diz ser muito mais. MUITO mais, e comentário de gente do hospital Pedro II é de que a polícia mandou o hospital abafar o número de mortos. O necrotério estaria cheio de corpos.

A política de segurança é essa, chegar matando e depois que os traficantes forem removidos instalar as milícias armadas. De que adianta? Com traficante você não pode sair na rua, mas a milícia entra na sua casa para te extorquir. Existe uma pressão muito grande no comércio e moradores do local, quem já vive com a milícia não pode fazer muita coisa, só obedecer as ordens e desmandos, e quem ainda não teme pela aproximação deles, que roubam terrenos, roubam comércio, fazem terrorismo, essas coisas e oficialmente o local está “pacificado”. Não tem paz nenhuma.

*

Por aí, mas só fiquei sabendo depois, eu não tinha dormido de noite acordei meio dia e fui trabalhar no final da tarde. Vi bastante policia nas esquinas mas de vez em quando isso é normal.

Mas pelo que vi depois foi movimentado mesmo, tacaram fogo em ônibus (em frente a uma escolinha, pessoal não tem noção), carro, os BRTs nem quebraram porque já estão quebrados mesmo, e os comentários dos mortos. Um cara que trabalho comigo tinha levado a mãe no hospital mais cedo e comentou que a coisa estava mesmo estranha por lá. Hoje agora no almoço o pessoal que mora por aqui e lá para dentro dessas comunidades estavam comentando o que ficaram sabendo. Eles mesmos ficaram impressionados com o que viram daqui do CIEP ontem, o helicóptero estava voando muito baixo atirando sem pudor, em cima das casas e na avenida. Pessoas de várias partes dizem que “morreu muita gente”, e tem comentário segundo dizem de gente que trabalha no hospital de que chegou mais corpo do que foi divulgado.

Estou comentado porque normalmente essas notícias ficam nisso, de que apenas teve um “confronto ali” e fica por isso mesmo. Já vimos aquele caso ano passado da polícia simulando cena de morte no mesmo local. E é só isso que a polícia tem feito por aqui.

A presença policial é nula, não tem segurança pública por aqui. Só se resume a isso, vez por mês fazem uma operação, vem dezenas de carros, blindado e helicóptero, entram lá e matam um bocado de gente e fica por isso, somem. Estão “lutando contra o tráfico”? Ok, mas enquanto isso as milícias só crescem por aqui, é insuportável e você quase não vê mais a imprensa falar disso. Os traficantes vendem sua droga e se matam entre eles, se você não consome droga e não se mete com eles (ou alguém da sua família) você não costuma ter problema, mas com a milícia não, eles vão atrás de você te perturbar, não importa quem você seja. Antes quando tinha traficando a polícia conseguia dinheiro deles, eu mesmo já vi polícia vir e pegar dinheiro em frente a um CIEP e uma instituição de freiras. Agora que não tem mais traficante, de quem os policiais vão conseguir dinheiro? E esse parece ser o ideal de segurança pública do estado. Falo isso com vítima em potencial, que possuímos o terreno ao lado da nossa casa, muita gente já quis cobrar, daqui a pouco aparece um miliciano querendo e como fica? Vou chamar a polícia? Não dá.

Como tem greve de ônibus hoje é bom mencionar também, o serviços das empresas de ônibus da região é um lixo, não acredito que outra empresa pode ser pior que a Oeste. BRT não ajuda muita, porque não atente a demanda de qualquer maneira, e agora em alguns locais ficou pior, porque tem excesso de linha e ônibus de ligação com o BRT em uma parte e falta em outra. Enquanto isso as Vans são todas controladas por milícia com serviço igualmente ruim. Parece até de propósito, o serviço dos ônibus ser ruim para as Vans explorarem.

Fav

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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