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O assassinato das mineradoras

Por Redação

17 de novembro de 2015 : 10h10

por Francisco Câmpera, no El País

A ganância do homem nunca teve limite. Em busca do lucro vale tudo: matar, mentir, manipular, e sabe-se lá o que mais. Sempre foi assim na história da humanidade e hoje não é diferente. O caso do rompimento das duas barragens da mineradora Samarco em Minas Gerais é um exemplo perfeito. Primeiro vamos voltar ao fim do século XVII, época em que descobriram ouro na região onde está aSamarco. O cobiçado metal era tão farto que era fácil achá-lo com uma peneira no leito do Rio Doce, o mesmo rio onde ocorreu o desastre. A empresa conseguiu fazer em poucos dias o que a exploração de ouro não fez em séculos – destruir o rio, envenenado pelos dejetos das barragens, como o mercúrio e outras substâncias tóxicas.

Em seguida foram criadas várias vilas, dentre elas surgiram as famosas cidades históricas Ouro Preto e Mariana, locais onde estavam as barragens. A cobiça pelo ouro gerou uma disputa feroz pelo controle das minas entre os descobridores Bandeirantes paulistas e os portugueses. Os paulistas se renderam e entregaram as armas, mas mesmo assim foram cruelmente assassinados.

Em pouco tempo Portugal enriqueceu mais do que nunca, mas para se proteger dos inimigos teve que fazer aliança com a poderosa Inglaterra. Enquanto Portugal gastava como se não houvesse amanhã, a Inglaterra realizava a Revolução Industrial financiada com o nosso ouro. Nesse período aconteceu a Inconfidência Mineira, o primeiro grande movimento pela independência, que lutava contra os pesados impostos (o quinto do ouro), que acabou com o esquartejamento do nosso herói maior – Tiradentes.

Séculos depois, a tragédia social e econômica continua. Uma das sócias da Samarco é uma empresa inglesa BHP Billiton (Anglo-Australiana), a outra metade pertence à Vale. Até o dia 13 foram confirmadas sete mortes e 18 pessoas estão desaparecidas, dentre elas, crianças. O distrito Bento Rodrigues foi engolido pela lama. Até uma Igreja do século XVIII foi destruída.

Além das tristes mortes, o desastre ambiental do Rio Doce é incalculável, atingiu dezenas de cidades de Minas Gerais e do Estado do Espírito Santo. Peixes mortos, invasão do leito pela lama, contaminação da água…cidades inteiras estão sem água potável e sem renda, porque muitas viviam do rio.

E o Estado sumiu… Não foi capaz de fazer o seu papel de fiscalizar e proteger a população. Há muita corrupção nos órgãos de fiscalização no Brasil ou falta de condições de trabalho. E muitas vezes quando um servidor público quer fiscalizar uma empresa grande e poderosa, encontra resistência e sofre perseguição.

Logo após a tragédia um Secretário de Estado de Minas Gerais, Altamir Rôso, disse que a Samarco foi vítima do acidente. Veja que inversão de valores, que acinte! Ainda o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, deu uma coletiva à imprensa na própria sede da Samarco. A presidente da República, Dilma Rousseff, lamentou a tragédia apenas pelo Twitter e só foi visitar o local uma semana depois. O Ibama, órgão federal responsável pelo meio ambiente, anunciou que as multas podem chegar a centenas de milhões, mas sabemos que elas raramente são pagas, devido a manobras e instâncias para recorrer.

A situação é a mesma que acontece em grandes tragédias no Brasil, no começo um estardalhaço, depois o esquecimento e a falta de punição.

Não se viu qualquer reação dura e indignada de políticos, sejam de direita, esquerda, governo ou oposição. A maioria recebeucontribuições das mineradoras para as suas campanhas eleitorais. As empresas economizam na manutenção, mas gastam fortunas com o perverso lobby político.

Em Minas Gerais mais de 80% da economia gira em torno da mineração, que paga poucos impostos em relação ao lucro obtido com a atividade e aos danos ambientais. A MBR acabou com a Serra do Curral, em Belo Horizonte; a CBMM que explora o nióbio é acusada de esconder a verdade sobre os danos causados em Araxá; e tantas outras vêm destruindo a nossa Minas Gerais. Agora ficou escancarado o fracasso do Estado e a farsa das mineradoras.

Vergonha

Em uma entrevista à imprensa os dirigentes da Samarco, Ricardo Vescovi; da Vale, Murilo Ferreira; e da BHP, Andrew Mackenzie, pareciam que eram anjos da guarda de moradores da região e nobres defensores do meio ambiente, mas não responderam muitas perguntas e não deixaram claro até onde assumirão as indenizações. O presidente da Vale teve coragem de dizer que é apenas um acionista. Os três deveriam implorar perdão e pedir demissão, como acontece em qualquer país sério. Basta lembrar do recente escândalo na adulteração dos carros da Volkswagen. O presidente não durou muitos dias. Aqui não, eles se comportam como se não tivessem nada a ver com o problema.

Não existe competência no Estado brasileiro, que mais uma vez falhou. A empresa jamais poderia deixar este desastre ter acontecido, ela assinou um atestado de incompetência, de descaso e irresponsabilidade. Queremos que as empresas admitam o erro e paguem caro para tentar compensar o estrago humano, ambiental e material.

Os valores no Brasil estão completamente invertidos, não podemos achar normal o que está acontecendo. Não podemos aceitar isso passivamente. O brasileiro vem reagindo diante de tantos desmandos dos governos, mas também deve lutar contra empresas que não cumprem o seu dever com a sociedade.

Passado e futuro se encontram novamente pela mineração, com as mesmas práticas de corrupção, manipulação, mentira, injustiça e mortes. Enquanto as mineradoras pagam uma mixaria de impostos, frente aos astronômicos lucros e danos ambientais, o governo impõe novos impostos à população. Quem sabe a partir de agora diante desse infame acidente bem no coração da Inconfidência Mineira os brasileiros promovam mais um movimento para mudar o país para melhor.

Francisco Câmpera é jornalista nascido em Belo Horizonte

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9 comentários

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Maria Regina Novaes

17 de novembro de 2015 às 19h16

Infelizmente!

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Nádya Gomes de Souza

17 de novembro de 2015 às 17h02

“Não foi acidente, não foi fatalidade”… Enfim, este crime hediondo provocará danos incalculáveis.

Todos esses crimes são resultado da privataria tucana, do neoliberalismo tucano que prega o Estado Mínimo a ponto de órgãos responsáveis por evitar tragédias criminosas como esta só existirem no papel e sua ação ser uma completa ficção: 4 fiscais pra fiscalizar 730 barragens.

Financiamento de Campanha, o PMDB e o Novo Código de Mineração

Como se fosse pouco, Leonardo Quintão (PMDB-MG), responsável pela relatoria do novo Código de Mineração, defende os interesses do setor de mineração e dele recebeu doações para sua campanha. Em dezembro de 2013 Leonardo Quintão admitiu sem nenhum pudor sua prática infringe regra do Código de Ética da Câmara; “Sou financiado, sim, pela mineração. Não tenho nenhuma vergonha”. O PMDB tem o controle do setor no país, seus deputados indicam ministros e os chefes do Departamento Nacional de Produção Mineral. Como admitiu o próprio Quintão, verbas para reeleições não faltaram.

http://www.revistaforum.com.br/mariafro/2015/11/15/mariana-privataria-tucana-e-o-sucateamento-estado/

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Ilze Jensen

17 de novembro de 2015 às 14h42

QUEREMOS A VALE ,,DEVOLVAM O QUE FOI USURPADO, NAO QUEREMOS MAIS DESTRUIÇAO!!

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Forlan Freitas

17 de novembro de 2015 às 14h24

Não vale, Vale, tanta ingratidão com quem lhe concebeu!

Primeiro, a Vale tirou o “Rio Doce” da marca. Agora, a Vale tira o Rio Doce do mundo.

Ao tirar o “Rio Doce”, a Vale, segundo os entendidos, quis emplacar uma “marca global” que fizesse apagar da memória do povo, a origem estatal da maior mineradora do Brasil.

Em nome do “progresso”, da globalização, da lucratividade dos interesses privados, FHC entregou a Vale do Rio Doce e do Povo Brasileiro nas mãos do capital privado.
Uma mamata que posteriormente ficou conhecida como Privataria Tucana.

O príncipe da fossa, em tom pomposo, afirmava em rede nacional: ” o Brasil não pode se ocupar com empresas que servem apenas para cabides de emprego”, ignorando a importância estratégica da mineração e o elevado lucro líquido da Companhia.

A Vale e a Samarco assassinaram o Rio Doce e decretaram a morte de uma das principais bacias hidrográficas de Minas.

Parafraseando um brocardo latino, “quod non est in Vale non est in mundo” (o que não está na Vale, não está no mundo).

A Vale baniu o Rio Doce da marca e do mundo.

Essa história não pode acabar em lama.

Forlan Freitas

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Rafael

17 de novembro de 2015 às 10h51

“contra os pesados impostos (o quinto do ouro)”
20% de imposto.. Bons tempos..

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Diego

17 de novembro de 2015 às 10h49

Gostaria de ver o fim da lei Kandir, uma verdadeira aberração que destrói os estados e municípios isentando a cobrança de ICMS em BILHÕES as exportadoras de minérios, sem nenhuma contrapartida destas para o bem do Brasil. Uma verdadeira sangria no povo brasileiro.

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Ivan Novic

17 de novembro de 2015 às 12h37

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Ivan Novic

17 de novembro de 2015 às 12h35

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