O fracasso dos factoides

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Análise Diária de Conjuntura – Manhã – 14/01/2016

É curioso esse trabalho, de analisar a conjuntura à quente, online, no momento em que acontece.

Procura-se ler jornais e blogs, mas nada disso ainda é suficiente para captar o ritmo cardíaco da política.

A intuição, como sempre, prevalece. Não corresse o risco de parecer pouco profissional, diria mesmo que há um elemento mediúnico.

O fato é que, desde que os movimentos sociais puseram mais de 55 mil pessoas na Paulista (mais de 120 mil, segundo os organizadores), ao final do ano passado, superando a marcha dos coxinhas, virou-se uma chave na conjuntura.

O clima mudou.

Nem os vazamentos histéricos da Lava Jato dos últimos dias, um esforço algo patético do golpismo para manter em alta a temperatura da crise política, tem mudado essa tendência.

Os factoides estão fracassando.
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Aliás, esse é um problema da escandalização da política. A sociedade eleva seu nível de tolerância. Para mantê-la em condição febril, predisposta ao golpe, é preciso escândalos cada vez mais cabeludos. Mas, no afã de fazer isso, a imprensa vulgariza sua principal arma, a Lava Jato, com suas delações e vazamentos, que assim perde o poder de incendiar a sociedade.

As delações viraram uma pantomina. Tem para todos os gostos. Yousseff já denunciou que Aécio Neves ganhava mensalão de centenas de milhares de dólares: nada aconteceu, a PGR não abriu nenhum inquérito. Depois outro delator apontou para Aécio Neves: de novo nada aconteceu. Esse tipo de coisa faz as pessoas desconfiarem de que há um jogo sujo por trás do sistema de delações e vazamentos.

Esta é a razão pela qual, apesar da histeria midiática dos últimos dias, a conjuntura permanece tranquila.

O governo aproveita o recesso para fortalecer sua base e lançar uma agenda positiva. A comunicação oficial continua assombrosamente ruim, mas pelo menos o governo tem conseguido sair da paralisia em que se encontrava até pouco tempo.

Hoje mesmo, a presidenta sancionou a Lei de Repatriação, que ajudará muito ao governo recompor o seu orçamento. Espera-se que, apenas este ano, mais de R$ 20 bilhões entrem nos cofres federais, e esse valor foi calculado com o dólar a R$ 2,66; ou seja, o valor recuperado, de contas até então clandestinas, de brasileiros no exterior, pode chegar a R$ 30 bilhões apenas em 2016.

No front político, a luta mais importante para a conjuntura é a batalha travada hoje dentro do PMDB. A ala golpista do partido, liderada por Eduardo Cunha, tem perdido poder dia a dia.

A conjuntura empurrou Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara, para as bandas do governo. Pezão, governador do Rio; Paes, prefeito do Rio; além do Picciani pai, presidente do PMDB-RJ, tonaram-se o núcleo duro governista dentro do PMDB, e derrotaram Eduardo Cunha.

Aliás, é interessante ler, no Globo, reportagem em que Eduardo Cunha ataca Leonardo Picciani, dizendo que ele não pode ser “assessor” do governo.

Interessante porque Cunha se tornou um indigente moral, e seus ataques se transformam em seu contrário, em elogios. Ou seja, quanto mais Cunha ataca Picciani, mais Picciani se fortalece.

Picciani esteve em Minas Gerais há pouco articulando, aparentemente com sucesso, uma virada governista do PMDB mineiro. A operação é auxiliada pelo fato do governo de Minas Gerais estar em mãos do PT, aumentando o poder de barganha do governo federal junto à bancada mineira do PMDB.

Dilma deve nomear, já na próxima semana, um quadro do PMDB governista para o ministério da Aviação Civil, derrotando Michel Temer e Eduardo Cunha, cada vez mais isolados dentro do partido.

Em sua coluna de hoje, Jânio de Freitas lembra que Temer, que até pouco tempo tinha ambições de “unir o Brasil”, não consegue mais unir sequer seu próprio partido, e que seus planos afobados de ser presidente da república podem acabar por lhe tirar até mesmo a presidência do PMDB.

Mesmo que consiga se reeleger presidente do partido, na convenção partidária de março, será um presidente debilitado, porque Temer não tem mais controle sobre nenhuma área política estratégica: não apita na Câmara, onde Picciani se consolida como nome forte; não apita nada no Senado, onde Renam Calheiros é que tem força; não apita mais nada no governo, sobretudo após a repercussão negativa de sua cartinha.

Se Temer continuar na presidência do partido, será um presidente – ó ironia – decorativo…

Algumas luzes começam, portanto, a aparecer no fim do túnel da política brasileira (e não é um trem vindo em sentido contrário:

  • o impeachment caminha, a passos acelerados, para ser derrotado;
  • o golpe no TSE também parece destinado ao fracasso;
  • a economia brasileira sinaliza recuperação, vide o aumento nas vendas do varejo;
  • vitórias do governo consecutivas, no parlamento, desde o final do ano passado, demonstram que a estabilidade está se consolidando;
  • a Lava Jato começa a ser vista como ela realmente é, um processo importante de combate à corrupção, mas intoxicado e corrompido por vazamentos seletivos e delações mal ajambradas e contraditórias;
  • os acordos de leniência, mais a liberação de crédito dos bancos públicos, abrem espaço para a retomada de grandes obras de infra-estrutura;
  • Eduardo Cunha tornou-se uma infecção aberta, na pele da oposição;
  • o PMDB está se organizando rapidamente, contra o impeachment e em favor da governabilidade.
  • as manifestações contra o aumento de passagem, em São Paulo, apesar de se destinarem contra o preço de um transporte municipal, não conseguiram ser cooptadas pela direita, nem pela mídia, que certamente gostariam que se voltassem contra a “corrupção” petista. A violência da repressão a estes protestos, pelo governo de estado, pode até render votos entre o eleitorado paulista conservador, mais suja a imagem do PSDB no resto do país, reduzindo o apoio, já ínfimo, que o partido ainda pudesse ter junto a um público mais progressista.

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Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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