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Ava Rocha: “Meta um grelo na geopolítica!” Bloco de notas #4

Por Bernardo Oliveira

27 de maio de 2016 : 15h58

Toda sexta. Sobre música e adjacências.
Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.

— Um dos grandes acontecimentos da música brasileira de 2015 foi o lançamento de Ava Patrya Yndia Yracema, segundo disco da cantora carioca Ava Rocha. Esta semana, ela lançou o segundo clipe do disco, a explosiva “Auto das Bacantes”, composta por Negro Leo, compositor maranhense radicado no Rio de Janeiro: “Tome espaço do Estado, da polícia, da NSA, da mulher maravilha e meta um grelo na geopolítica!” A direção, roteiro e montagem é de Pedro Paulo Rocha e traz um mosaico de imagens sugestivas e poéticas versando sobre a força do feminino na geopolítica contemporânea. Assista abaixo:

— Formado por Carla Boregas (baixo, que integra os grupos Rakta e Cadáver Em Transe, e é responsável pelo selo Dama Da Noite Discos) e Ana Tokutake (guitarra), o Fronte Violeta lançou o álbum Travessias ano passado. Contendo uma longa faixa homônima, o trabalho da dupla transita com personalidade por influências diversas, dos sintetizadores germânicos aos arroubos electro-roqueiros do Suicide. Este ano a dupla lançou um vídeo da música “Céu” (seria um teaser?). Entre imagens embaçadas e tremulantes, o Fronte Violeta reaparece trazendo uma sonoridade mais soturna e calcada em silêncios e timbres eletrônicos.

— O baterista nigeriano Tony Allen, um dos inventores do afrobeat, foi ao Haiti e formou a Afro-Haitian Experimental Orchestra. Convidado para tocar na Fête de la Musique no país, Allen convocou Erol Josué para participar, cantor, dançarino, sacerdote vudu e diretor do Escritório Nacional Haitiano de Etnologia. Josué recrutou músicos de bandas locais como Racine Mapou de Azor, RAM, Yizra’El Band, entre outros, e o disco está programado para sair dia 24 de junho pelo selo Glitter Beat. Além de baterista extraordinário e inventivo, titular da Africa 70 de Fela Kuti, Tony Allen já tocou com artistas do calibre de Wilson das Neves, Madlib, Metá Metá, Moritz von Oswald, The Good The Bad and The Ugly.

— Nos 75 anos de Bob Dylan, o grupo norte-americano psicodélico-pop-experimental Animal Collective postou no seu Soundcloud uma versão fantasmagórica do clássico “Don’t Think Twice, It’s All Right”, lançado no álbum The Freewhellin’ Bob Dylan (1963). Remixada por Deakin e Geologist, a faixa não mexe muito na estrutura da música, mas capta ressonâncias e harmônicos com o auxílio de efeitos. Ouça abaixo:

— Com o codinome Jameszoo, o produtor holandês Mitchel Van Dinther editou seu álbum de estréia em 2016. Lançado pelo selo Brainfeeder de Flying LotusFool é, em suas palavras, um disco de “naive computer jazz” (jazz de computador ingênuo). Durante o processo de gravação, Van Dinther se concentrou no fascínio que nutria por discos clássicos, como disco de Steve Kuhn lançado em 1971, a obra-prima Rock Bottom, de Robert Wyatt (1974) e um clássico perdido da música instrumental brasileira, redescoberto graças aos colecionadores de discos e aos propagadores de mp3: o álbum gravado em 1972 pelo cantor, maestro, instrumentista e compositor carioca Arthur Verocai. O fascínio pelas harmonias complexas e melodias rebuscadas do disco de Verocai obrigou Van Dinther não só a convidá-lo para participar em uma das faixas, como também contou com a participação do antológico cantor brasileiro Carlos Dafé, soulman do primeiro time da black music brasileira, originário do bairro de Vila Isabel. Ouça a faixa “Flu” abaixo:

— Quem já escutou o quinteto brasiliense Satanique Samba Trio com alguma atenção, certamente não passou incólume pela experiência. Para começo de conversa, o Satanique Samba Trio não é nem um trio, muito menos de samba. Uma profusão de convenções musicais que passam batido em qualquer classificação mais genérica, uma avalanche de ideias por segundo, um trabalho admirável de saturação obsessiva do campo sonoro. Pois bem, a cabeça por trás dessas ideas, o compositor e contrabaixista Munha, acaba de lançar um trabalho “solo” (ou algo parecido): Munha da 7 & Vizita. O nome da faixa é “Repto Sapiens Rex”, e é coisa ainda menos compreensível que muitas das composições do Satanique: irregularidade rítmica, timbres “críticos” em três minutos de alucinação sonora.

— Notícias sobre a composição contemporânea em três discos. O primeiro, da compositora e experimentadora norueguesa Maja S. K. Ratkje, Crepuscular Hours (Rune Grammofon, 2016) é uma peça sonora de uma hora de duração composta para apresentação em catedrais ou similares com os músicos em volta do público. A peça foi escrita para três coros, três pares de noise musicians (músicos que operam ruídos) e órgão de igreja. A topologia sonora desenhada por Ratkje fascina pelo equilíbrio e a mão firme na condução, até o final extremo, apoteótico. O resultado é de uma expressividade poucas vezes vista nas peças mais recentes de compositores e experimentadores como Florian Hecker e Johannes Kreidler e vale ser escutada de uma só vez, na íntegra. Na semana que vem comento os lançamentos de Ben Johnston (os quartetos de cordas 6, 7 e 8 pelo Kepler Quartet) e Henryk Górecki, Symphony No. 4, “Tansman Episodes”, Op. 85.

— Esta é para quem estiver no Rio de Janeiro na próxima segunda-feira, dia 30/05: o Coloalto consiste na dupla Kassin e Mario Caldato. Kassin é produtor, compositor e cantor brasileiro que já transitou por um sem número de projetos e atualmente integra o Cometa (cujo álbum de estreia foi noticiado por esta coluna). Mario Caldato é o produtor brasileiro conhecido por ter definido a sonoridade única dos álbuns antológicos dos Beastie Boys. Operando dois laptops, Kassin e Caldato se apresentam pela primeira vez na Audio Rebel (Rua Visconde Silva, 55 – Botafogo). O evento começa 20h e custa 20 reales. Inté.

*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).

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1 comentário

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Antonio Passos

27 de maio de 2016 às 20h19

Eta ferro, nada contra meter um grelo, mas é uma área tão sensível, tão importante, que merece mais sutileza. Não é questão de força, mas sim de jeito. Inclusive na poesia.

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